ESTUDO BÍBLICO DOMINICAL: A primeira multiplicação dos pães

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano A

 

 

Mateus 14,13-21

 

Comecemos orando:

Venho ante Ti, Jesus, para que me acaricies antes que comece minha jornada.

Que teus olhos pousem um instante nos meus.

Deixa-me que leve ao meu lugar de trabalho a certeza de tua amizade.

Enche meu espírito para que suporte o deserto do ruído.

Que teu resplendor bendito recubra o cume de meus pensamentos.

E concede a força para os que necessitam de mim.

(Teresa de Calcutá)

 

Introdução

 

Nos domingos anteriores lemos o discurso de Jesus em parábolas. Com isto Jesus cumpre o que estava anunciado a respeito dele no salmo 78,2: Abrirei em parábolas minha boca, manifestarei o que estava oculto desde a criação do mundo” (Mt 13,35).

 

Porém, Jesus ensina, não só com sua palavra, mas também com toda sua vida. Hoje Ele se comportará como o Bom Pastor e nos ensinará que é a respeito dele que está escrito: «O Senhor é meu pastor, nada me falta. Em verdes prados Ele me faz repousar e refaz as minhas forças» (Sl 23,1-2).

 

Quando soube, Jesus, que Herodes, havendo-se inteirado de sua fama, desejava vê-lo, «retirou-se dali em uma barca para um lugar solitário».

 

Herodes só pode ver Jesus, quando o enviou Pilatos, pouco antes de sua paixão: «Quando Herodes viu Jesus se alegrou muito, pois fazia longo tempo que desejava vê-lo, pelas coisas que ouvia dele… Porém, depois de depreciá-lo e zombar dele… o devolveu a Pilatos» (Lc 23,8.11).

 

O povo também conhece a fama de Jesus e o segue pelo interesse de obter a cura de seus enfermos. Quando souberam que Jesus havia embarcado foram correndo a pé pela orla do lago até o lugar onde Ele se dirigia: «Ao desembarcar, Jesus viu muita gente».

 

Não o deixam alcançar seu objetivo. Mas, Ele, longe de se impacientar, os acolhe com infinita bondade, assumindo a atitude própria de Deus: «Sentiu compaixão deles e curou seus enfermos».

 

O povo não quer separar-se dele e permanece com Ele até que começa a declinar o dia. Os apóstolos fazem notar a Jesus a inconveniência de entretê-los mais tempo: «O lugar é deserto, e a hora já está avançada; despede, pois, o povo, para que possa ir aos povoados e compre comida».

 

A resposta de Jesus é incompreensível: «Dai-lhes vós mesmo de comer». Eles o fazem ver que está pedindo algo impossível: «Não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes». Devia dar de comer a uma multidão de cinco mil homens, sem contar mulheres e meninos.

 

Com as ações que Jesus realiza vai ensinar aos seus apóstolos, e também a nós, que «tudo é possível para o que crê» (Mc 9,23): «Ordenou ao povo sentar-se sobre a relva; tomou logo os cinco pães e os dois peixes, e levantando os olhos ao céu, pronunciou a benção e, partindo os pães, os deu aos discípulos e os discípulos à multidão».

 

Não é que haja dividido esses pães em cinco mil pedaços para que cada um recebesse uma pequena fração, mas «comeram todos e se saciaram e recolheram das sobras, doze cestos cheios».

 

Devemos aprender aqui que, quando seguimos Jesus e Ele é o primeiro em nossa vida, não nos falta nada, nem espiritual nem material. Este ensinamento Ele já havia dado quando disse: «Busquem primeiro o Reino de Deus e sua justiça e tudo mais lhes será dado por acréscimo» (Mt  6,33).

 

Hoje não vemos muita gente preocupada em buscar o Reino de Deus e de seguir a Cristo, confiando que tudo lhe será dado por acréscimo.

 

A multiplicação dos pães nos demonstra que em Jesus se cumpre o que cantava o povo de Israel acerca de Deus: «Ele dá o pão a todo vivente, porque é eterna a sua misericórdia» (Sl 136,25).

 

+ Felipe Bacarreza Rodríguez, Obispo de Santa Maria de Los Ángeles

 

  1. O contexto

 

Os sinóticos se referem a dois fatos principais ocorridos depois do martírio de João Batista: a volta dos discípulos de sua primeira missão e a resolução de Jesus de retirar-se com eles a um lugar isolado.

 

Se João Batista havia sido decapitado, Jesus está também em perigo (Lc 13,31ss). Por isso, ntes mesmo de regressarem os discípulos, e por haver sabido, Jesus, que Herodes pensava ser, Ele, João Batista ressuscitado, o Senhor decidiu deixar os domínios de Herodes, haja vista que não havia chegado ainda a sua hora.

 

A comoção popular pela morte de João Batista era profunda, e a fama de que Ele era o Precursor ressuscitado, levava a pensar que talvez Herodes o persiga, para evitar uma revolução popular, ou por instigação de Herodíades.

Enquanto Jesus realiza seu desígnio de retirar-se, e achando-se, talvez, na cidade de Cafarnaum, regressaram os Apóstolos de sua primeira missão. Ignora-se o tempo que o Mestre e os discípulos estiveram separados. O certo é que chegaram, estes, fatigados, de seu ministério.

 

Jesus, que ouve com júbilo a narração sobre a expansão de seu reino, piedoso e prudente Mestre como é, convida-os a ir com Ele a descansar em um lugar solitário; assim poderão voltar a seu ministério com novas forças: E disse: Vinde a sós comigo a um lugar solitário, e repousai um pouco.

Era impossível o repouso em Cafarnaum, onde eram por demais conhecidos Jesus e os apóstolos. À agitação comum devido à pregação e as curas se acrescentava a proximidade da Páscoa, que convertia a cidade marítima em centro de confluência das caravanas que subiam a Jerusalém, pois eram muitos os que iam e vinham.

 

Por isso se dirigiram à praia, e, entrando em um barco, se retiraram, a um lugar deserto, do território de Betsaída. Haviam duas cidades com este nome: uma na parte ocidental do lago, pátria de Pedro e André, e outra na parte oriental, para o norte, junto à desembocadura do Jordão. Chamava-se esta Betsaída Julias. A barca que conduzia Jesus e os Apóstolos aportou do outro lado do mar da Galiléia, isto é, de Tiberíades, junto à planície solitária que se estende ao sul de Betsaída.

 

  1. O texto

 

Como já vimos, durante estes últimos domingos estamos refletindo sobre o Reino de Deus através das parábolas de Jesus: o Reino é como a menor de todas as semente, é como o fermento, é a grande pérola preciosa, é um tesouro escondido…

 

Hoje é um milagre de Jesus que encerra estas considerações: o Reino é o grande banquete que Deus oferece aos pobres, enfermos, necessitados e indefesos. Assim havia sido predito por Isaias (primeira leitura) aos judeus que voltavam do desterro: ainda que sem dinheiro poderão comprar trigo em abundância, comerão e beberão até saciar-se.

 

Depois das reflexões dos domingos anteriores, não é difícil compreender que o Reino vem ao encontro dos mais necessitados; ou melhor dizendo: da humanidade necessitada. Deus sai ao encontro dos homens que caminham pela vida como se esta fosse um deserto estéril e hostil.

 

Assim diz Yhaweh no Antigo Testamento; assim diz Jesus no Novo Testamento: o Reino de Deus responde à realidade concreta dos homens e os assume assim tal qual são, com todas as suas carências, doenças e enfermidades.

 

Frente ao drama que vivem os homens, Deus não se queixa nem condena. Não lamenta, tampouco, tempos passados nem se desespera pelo porvir. Trata-se de uma característica da maturidade divina, qualidade na qual temos posto muito pouco nossa atenção…

 

Nosso texto se desenvolve em três pequenas cenas, todas elas tecidas entre si e ao mesmo tempo com sua própria mensagem:

 

  1. Jesus cura à multidão (vv.13-14);
  2. Jesus desafia seus discípulos (vv.15-18);
  3. Jesus alimenta a multidão (vv.19-21).

 

  1. Aprofundando o texto

 

  • Jesus cura à multidão (14,13-14)

 

Chama a atenção a sequência das ações de Jesus:

 

  • Viu” (=com atitude analítica),
  • Se compadeceu” (=com atitude de misericórdia, de apropriação) e
  • Curou” (=ação efetiva).

 

São três passos que somos chamados a exercitar em nós para fazer nossa vida semelhante à de Jesus.

 

E notemos que Jesus salva a vida de seu povo renunciando a sua própria comodidade (estava buscando “um lugar solitário”; v.13) e arriscando sua própria vida ao realizar uma atividade pública e massiva quando acaba de morrer João Batista e a situação se pôs perigosa também para Ele (Jo 14,12).

 

  • Jesus alimenta a multidão (14,19-21)

 

Jesus não só cura, mas que também sacia a fome do povo.  “Ao entardecer” (v.15ª). Segundo o costume israelita esta é a hora em que toma a comida principal do dia.

 

Têm razão os discípulos quando advertem que “a hora já está avançada” (v.15b; se entende que para atividades públicas), todos já deveriam estar em suas casas compartilhando a ceia com suas respectivas famílias ou, ao menos, na procura desta, nos povoados mais próximos (v.15c).

 

Notemos algumas particularidades:

 

  • A refeição que Jesus lhes oferece nesse entardecer é a comida com a que era habitual para gente simples camponesa: pão e pescado com sal;

 

  • A novidade é que Jesus vai oferecer o alimento com seu próprio poder. O fato de que estejam em “lugar desabitado” (v.15b; ou “deserto”) sublinha a grandeza da ação de Jesus;

 

  • É tal a abundancia que todos ficam saciados e até se recolhem doze cestas cheias de sobras.

 

Jesus se comporta como um pai que forma sua comunidade familiar reunindo-a, atendendo suas necessidades e ensinando-a a compartilhar solidariamente.

 

Os gestos principais de Jesus, que evocam os da Eucaristia (agradecer, partir, dar), nos mostram como é que Jesus forma sua comunidade.

 

  • Jesus desafia seus discípulos (14,15-18)

 

Justo em meio das duas cenas em que Jesus cura e alimenta, o evangelista Mateus insere um diálogo de Jesus com seus discípulos:

 

  • Ali lhes pede um impossível;
  • Ali interpela seu ceticismo, que aflora quando nos sentimos incapazes de mudar uma realidade;
  • Ali lhes ensina a confiar em seu poder.

Os discípulos, então, aprendem que Jesus tem poder e por esta via seguem descobrindo, pouco a pouco, a identidade de seu Mestre. Novamente nos encontramos no caminho da fé do discípulo e, desta vez, o evangelho coloca seu fundamento: a ação messiânica (e eucarística) de Jesus.

 

Jesus Cristo não só sacia a um povo, mas surpreende seus discípulos tomando o pouco que tem a comunidade para fazê-lo dom (multiplicado em suas mãos) para os demais.

 

Jesus Cristo é o solidário por excelência com a humanidade carente, Ele é o Messias de Deus que temos que descobrir.

 

O discipulado supõe um compromisso concreto de fé e de comunhão com as ações de Jesus para que todos vivam em plenitude e para que haja pão em todas as mesas. O primeiro passo da fé e do compromisso é dar com alegria e solidariamente do pouco que se tem.

 

  1. Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

  • Santa Madre Teresa de Calcutá (1910-1997)

 

“Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos os deram à multidão”

 

Não há maior amor. “Simplicidade da nossa vida contemplativa: ela faz-nos ver o rosto de Deus em cada coisa, em cada ser, em toda a parte e sempre!

E a sua mão, presente em cada acontecimento, faz-nos tudo realizar – a meditação e o estudo, o trabalho e a partilha, comer e dormir – em Jesus, com Jesus, por Jesus e à imagem de Jesus sob o olhar amoroso do Pai, enquanto estivermos dispostos a recebê-lo sob qualquer forma que ele se revista.

Fico maravilhada pelo fato de que, antes de comentar a Palavra de Deus, antes de anunciar as Bem-Aventuranças às multidões, Jesus Cristo, enchendo-se de compaixão para com elas, as tenha curado e alimentado. E só depois lhes começou a dar o seu ensinamento.

Ama a Jesus com generosidade, ama-o com confiança, sem olhares para trás de ti, sem apreensão.

Dá-te inteiramente a Jesus. Ele tomar-te-á como instrumento para realizar maravilhas com a condição de que tu estejas infinitamente mais consciente do seu amor do que da tua fraqueza. Acredita nele, entrega-te em suas mãos, num ímpeto de confiança cega e absoluta, porque ele é Jesus.

Acredita que Jesus, e só Jesus, é a vida; aprende que a santidade não é senão esse mesmo Jesus vivendo intimamente em ti; então ele será livre para fazer o que quiser contigo.      

 

  • São Beda Venerável

 

«Eu vou conduzi-la ao deserto e aí lhe falarei ao coração» (Os 2, l6)

 

Mateus dá mais explicações (que Marcos) sobre o modo como Jesus teve piedade da multidão, quando diz: «Ele teve piedade e curou os enfermos».

Porque ter compaixão dos pobres e dos que não têm pastor é, precisamente, abrir-lhes o caminho da verdade, instruindo-os; é fazer desaparecer as suas enfermidades físicas, cuidando-as, mas é também alimentá-los quando têm fome e, assim, encorajá-los a louvar a generosidade de Deus.

Foi o que Jesus fez… Mas Ele pôs também à prova a fé da multidão, e tendo-a provado, deu-lhe uma recompensa proporcionada.

Efetivamente, Ele procurou um lugar isolado, para ver se as pessoas teriam o desejo de segui-lo. E elas o seguiram. Eles tomaram, com toda a pressa, o caminho do deserto, não sobre burros ou veículos, mas a pé e, assim, mostraram, por este esforço pessoal, o grande cuidado que tinham com a sua salvação. Por seu lado, Jesus acolheu esta gente fatigada.

Como Salvador e médico cheio de poder e de bondade, instruiu os ignorantes, curou os doentes e alimentou os famintos, manifestando, assim, quanta alegria Lhe dá o amor dos que crêem.

 

 

  1. Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Como vejo a realidade de meu povo e de minha comunidade hoje?

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  • Quais suas necessidades?

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  • Que relação existe entre a multiplicação dos pães e o exercício do pastoreio em uma família ou em uma comunidade?

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  • Que me ensina o relato da multiplicação dos pães para que meu compromisso como discípulo de Jesus seja real e efetivo?

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  • Que valor tem o compromisso solidário, desde uma vida de fé, com o irmão em nosso país?

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