ESTUDO BÍBLICO NA 10ª SEMANA COMUM ANO 2020

SEGUNDA-FEIRA

Mateus 5,1-12

O PERFIL DE UMA VIDA PROFÉTICA: AS BEM-AVENTURANÇAS

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”

 

Em suas viagens missionárias, Jesus encontrou-se com a dura realidade de seu povo, as pessoas e as suas diversas formas de sofrimento, e levou-as a experimentar a Boa Nova do Reino (Mt 4,23-24).

 

A multidão curada não volta para casa logo, mas se deixa educar por Jesus na vida nova, que começou para eles. Isto é importante porque, como explica o evangelista, os que se viram curados por Jesus, agora começam um caminho de discipulado: “E seguiam-no multidões numerosas” (4,25; o termo “seguir” não é casual).

 

Notemos a relação entre a cena de “cura” e o itinerário de formação que Jesus, agora, lhes oferece: a vida nova não só se recebe como uma graça (indicada na cura), mas, também, devemos “aprendê-la”; é preciso “dar corpo” à vida nova e dar estrutura à conversão; para isso é a instrução de Jesus.

Frente a esta multidão (“Vendo ele as multidões…”, 5,1a), Jesus dá dois passos iniciais:

 

  • Subiu à montanha” (5,1b)

Parece evocar a subida de Moisés ao Sinai para receber e proclamar a Lei de Deus (Êx 19,3), embora aclaremos: as bem-aventuranças não são leis e sim valores). O evangelho acabará também com Jesus dando sua última instrução do alto de um monte na Galiléia (28,16).

Mas no evangelho de Mateus o “subir à montanha” também está relacionado com a oração: Jesus subia muitas vezes à montanha para encontrar-se com seu Pai (ver Mt 14,23;17,1), por isso, “subir à montanha é o permanecer constante de Jesus no coração do Pai, de onde tira o maravilhoso dom das bem-aventuranças” (Clemencio Rojas).

 

  • Sentou-se” (5,1c):

Atitude própria de um Mestre que dá instruções ou ordens. Os dois termos mostram a autoridade com que Jesus vai falar e nos convidam a atender e acolher a revelação como discípulos (“aproximaram-se dele seus discípulos”, 5,1d).

 

Os três planos que configuram o cenário da proclamação do primeiro grande sermão de Jesus (Jesus, os discípulos e a multidão), nos recordam a ocasião na qual Moisés sobe à montanha junto com os anciãos (Êx 24,1), enquanto que aos pés da montanha permanece o povo.

Então dá-se inicio ao ensino.

 

No texto grego lemos literalmente: “E havendo aberto sua boca, lhes ensinava dizendo (5,2). A expressão “abrir a boca”, que equivale a “tomar a palavra”, nos envia à frase que Jesus diz ao tentador no deserto: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (4,4).

 

Da “palavra que sai da boca” de Jesus, “vive” o discípulo. Isto vale, não só para este sermão, mas para todos os ensinamentos de Jesus.  Este é o alimento que o povo necessita, só milagres não bastam, é preciso explorar a beleza e apropriar-se da riqueza da vida do Reino (4,24).

 

Na leitura das bem-aventuranças devemos distinguir as partes que contêm cada uma delas. Tomemos como modelo a primeira:

 

A declaração “Bem-aventurados”:

 

Nove vezes se repete a palavra “Bem-aventurados”, mas, as bemaventuranças, na realidade, são 8, já que a nona é uma ampliação do que foi dito na oitava. A expressão descreve o novo estado em que se encontra todo aquele que entrou no âmbito do Reino de Deus: o estado de plenitude interna que comumente chamamos “felicidade”. A bem-aventurança é o clima da vida do Reino, um Reino que já se experimenta: atenção com a expressão “deles é o Reino” (5,3.10).

Por isso, a repetição 9 vezes do mesmo termo parece querer ajudar a uma tomada de consciência: “Porque você segue a Jesus, já tem todos os motivos para ser feliz; Olhe o que Deus está fazendo em sua vida!”.  Que estaria vivendo a multidão naquele dia, quando Jesus colocou-lhes o espelho diante dos olhos e os convidou a reconhecer seu novo estado de vida!

As atitudes ou situações que abrem as portas para a felicidade do Reino

 

As oito bem-aventuranças vão descrevendo, progressivamente, o rosto de um discípulo de Jesus, e – se prestarmos atenção – notaremos que se trata do proprio rosto de Jesus:

  • A pobreza em Espírito (5,3): abertura total a Deus, ao irmão. O rico em espírito é o autosuficiente e orgulhoso (Ap 3,17). O Reino se recebe quando se reconhece a radical necessidade d’Ele (no evangelho muitos exemplos)
  • A mansidão (5,4): exercício de total controle de si mesma em suas emoções e impulsos (Sl 37), que não pretende dominar nem controlar os outros; é a pessoa que sabe conviver.
  • As lágrimas (5,5): referem-se ao estado de uma pessoa em dor, por sua própria desgraça ou dos outros; geralmente se vive nas ruturas de relação (morte, pecado, etc.). De alguma maneira se refere à pobreza porque há um vazio que pede ser preenchido.
  • A fome e sede da justiça (5,6): “fome e sede” são duas necessidades vitais que não admitem demora para a solução. Esta busca compulsiva do essencial para viver se traslada ao terreno das relações: recompor as relações deterioradas, quer dizer, a “justiça”.
  • A misericórdia (5,7): no evangelho de Mateus o termo “misericórdia” está quase sempre associado ao “perdão”. Mas há um ponto de vista mais amplo: onde quer que alguém sofra ali há que reconstruir – mediante acolhida efetiva – o tecido social deteriorado.
  • A pureza de coração (5,8): não é uma inocência (que pareceria congênita em algumas pessoas), mas, estado de limpeza interior próprio de todo que foi purificado pelo sacrifício redentor de Jesus. Em um coração puro as motivações são distintas: não há cobiça, não se guarda rancor, se valoriza objetivamente, só se deseja o bem.
  • O trabalho pela paz (5,9): de novo nos encontramos no âmbito relacional, particularmente no ambiente conflitivo; em lugar de insistir no que pode desunir, pelo contrário se contribui sempre para o que pode manter e fazer crescer as relações.
  • A perseguição por causa da justiça (5,10-12): a identificação com Jesus e o compromisso profético com seu Reino (ver todo o anterior) tem seu preço: leva a compartilhar o destino doloroso do Mestre. A perseguição vem de diversas formas, mas a mais destacada é a difamação. Mas, apesar de toda a violência que cai sobre ele, o discípulo não responde com violência; é verdade que é uma vítima inocente, mas sua atitude é outra, a da resistência, da alegria: não há alegria maior para um discípulo que o saber que se parece, em tudo, com seu Mestre Jesus.

 

É Deus Pai quem causa a felicidade

 

É importante notarmos que tal felicidade provem, não do ponto de partida (a pobreza, as lágrimas, a mansidão, etc.), mas, sim, do ponto de chegada, quer dizer, da obra de Deus Pai (“deles é o Reino”, “possuirão a terra”, “serão consolados”, etc.).  Deus é a causa da alegria. Em outras palavras: se é feliz porque Deus está agindo em alguém, graças à Boa Nova proclamada e realizada por Jesus.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Sobre que fio condutor se tece o evangelho segundo Mateus? É importante que o leiamos?
  • Considero-me “feliz”? De onde provém esta felicidade? Que caminhos me propõe Jesus?
  • No núcleo da proclamação do Reino está o conhecimento do rosto bendito de Deus Pai. Que experiência de Deus Pai me convida a viver Jesus?

 

 

 

TERÇa–feira

Mateus 5,13-16

A EFICÁCIA DA IDENTIDADE:

 “Brilhe, assim, vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem…”

 

As bem-aventuranças descrevem o que acontece à vida interior do discípulo que acolheu o Reino dos Céus, proclamado por Jesus. Mas, o que acontece interiormente deve ver-se logo em sinais externos. Deste último trata a segunda parte da introdução do Sermão da Montanha: a vida nova do bem-aventurado tem que “ser vista” (Mt 5,13-16).

 

Jesus não afasta o olhar da multidão (ver 5,1). Suas palavras passa do insistente Bem aventurados” ao Vós sois”. A ênfase recai no que o discípulo está chamado a ser como expressão de sua identificação com Jesus.

 

O plural “sois” recorda-nos que não se trata de algo individual mas da vida das comunidades, as quais, apesar de sua pequenez (pobres, perseguidas), exercem uma grande influência benéfica no meio onde estão situadas.

 

A expressão (“Vós sois”) converte-se, ao final, num imperativo missionário: “Brilhe vossa luz” (5,16).

Deste modo é descrito um belo itinerário que, iniciando pela obra de Deus no coração do que acolhe o Reino na pobreza (5,1-12), culmina na “glorificação” a Deus Pai pelos que são testemunhas da transformação verificada em “obras boas” dos humildes discípulos de Jesus no mundo.

 

  1. A primeira identidade do bem-aventurado: ser “sal da terra” (5,13)

 

Quando se põe sal na sopa, este tem dupla virtude: estar em toda a sopa; e de forma escondida. Ninguém fala dele, a menos que faça falta ou esteja em excesso; o sal é, além disso, um bom conservante dos alimentos.

 

Mas, quando Jesus especifica “da terra”, remete-nos ao mundo da agricultura no oriente antigo, onde se colocava sal no adubo para dar mais vigor e mais fecundidade.

 

A idéia de fundo, então, é a vida: as comunidades cristãs estão chamadas a ser, nos contextos nos quais vivem sua fé, instrumento da vida do Pai – que é reconhecido como Pai de todos (v.16). Tudo o que se disse que o Pai fazia na proclamação das bem-aventuranças, agora se oferece a todos.

 

Visto que o sal era utilizado, no Antigo Testamento, como símbolo da Sabedoria e da Lei, talvez tenha que ver, aqui, com a missão dos pequenos do Reino (ver Mt 11,25), cuja missão é fertilizar o mundo com a prática de Jesus: sabedoria de Deus e plenitude da Lei.

 

A imagem do sal que “se desvirtua” (literalmente: “perde a força”), como símbolo do inútil, descreve a ação comum na Palestina antiga, de jogar o lixo na calçada para tapar os buracos, enquanto as pessoas que passam fazem às vezes de máquina de aterramento.

A imagem é forte, mas é antes de tudo um convite a que a comunidade cristã não permaneça inativa, deixando perder-se todo o potencial que tem; pois, senão, de acordo com a comparação, é como lixo.

 

  1. A segunda identidade do bem-aventurado: ser “luz do mundo” (5,14-15)

 

A luz foi feita para iluminar, por isso não admite ser escondida. Esta pode ser a situação de algumas comunidades. Com duas comparações, Jesus ilustra o absurdo de uma luz escondida: a cidade no alto do monte; e a lâmpada que deve ser posta sobre o candeeiro. Ao mesmo tempo, de cada uma destas imagens se desprende um aspecto positivo.

 

Não se pode ocultar uma cidade no alto de um monte”. A imagem fala por si só. O contexto parece ser o das guerras, tão frequentes no mundo antigo: em um contexto assim, não há possibilidade de camuflagem. Mas há uma idéia positiva. De fato, a comunidade cristã é assim: como cidade no alto do monte, é o ponto de referência em todo o ambiente circundante. Na antiguidade, quando ainda não havia sinalizações nas estradas, as pessoas se orientavam por referências (tal árvore, tal montanha ou tal cidade que se avistava de longe). Essa idéia parece estar aqui presente: o discípulo e sua comunidade são um ponto de referência, de inspiração, de orientação, como ideal de vida para todos os que os vêem.

 

Nem, tampouco, se acende uma lâmpada e se põe debaixo do alqueire. Outra imagem de significado evidente. Se recordarmos que as casas palestinas eram, basicamente, de um só e pequeno cômodo notaremos quão significativa é. Mas, a idéia positiva que contém, desta vez, se faz explícita: para que ilumine a todos os que estão na casa”. A imagem da “casa” é importante (ver a história da casa ao final do Sermão, em 7,24-27). A luz posta no lugar correto permite apreciar os espaços, evitar tropeços, mas, sobretudo, reconhecer o rosto do outro.  Além disso, a luz põe em evidência o oculto, o injusto, o incorreto. Assim é à força de vida, de uma comunidade de discípulos, em seu ambiente.

 

Por trás da intenção bíblica, estas duas imagens nos permitem ver que a comunidade dos “bem-aventurados”, o novo povo de Deus, não esgota sua finalidade em si mesma e, sim, que é uma fonte de esperança: esperança do mundo novo inaugurado por Jesus. Particularmente a imagem da luz havia sido utilizada por Isaias:

  • “Eu te constituí como aliança do povo, como luz das nações” (42,6);
  • “Também te estabeleci como luz das nações, a fim de que minha salvação chegue até as extremidades da terra” (49,6);
  • e, de modo especial: “Levanta-te, resplandece, porque tua luz é chegada!… As nações caminharão à tua luz, e os reis, no clarão do teu sol nascente (60,1-3).
  1. Da identidade irradia nova força apostólica: arrancar do mundo louvores ao Pai (5,16)

 

Para concluir, as imagens do “sal” e da “luz” se traduzem em seu equivalente concreto: “vossas boas obras”. A comunidade não se projeta no mundo por vaidade, mas porque essa é sua missão; a finalidade última é a “glória” do Pai. Afinal, o que se verá em todas as formas de atuação dos discípulos de Jesus – que é autêntico – não será um protagonismo pessoal (de indivíduos ou comunidades), mas o de Deus: se descobrirá que, por trás de tudo, é Deus que está em ação, amando, responsavelmente, como Pai que é. O rosto do Pai “que está nos céus”, e invisível a nós que estamos na terra. Descobre-se no rosto dos filhos que honram o nome que levam.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Considero que minha vida pessoal e a de minha comunidade estão apostolicamente: apagada, ativa ou mais ou menos? Quais são os sinais?
  • Com que finalidade se projeta a Igreja no contexto social em que está?
  • Segundo este ensinamento de Jesus, qual é a primeira e fundamental forma de evangelização?

De qual experiência de Deus e como vou comprometer-me com uma vida apostólica mais intensa?

 

 

QUARTA-FEIRA

Mateus 5,17-19

APRENDER A FAZER, EM JESUS, A VONTADE DE DEUS.

“Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento

 

Quem faz a experiência das “bem-aventuranças” é um homem novo no Reino, perpassado pela pessoa de Jesus. N’Ele tem o coração. Começa a centrar-se todo em Jesus. Mas, a vivencia da radical novidade do Reino pode levar a pensar que a Lei e os Profetas ficam abolidos (Mt 5,17ª). Isto não é exatamente assim, pois, como disse Jesus: Não vim revogá-los, mas dar-lhe cumprimento (5,17b).

 

A frase “a Lei e os Profetas” é uma forma de designar, tecnicamente, a Bíblia Hebréia (para nós é grande parte do Antigo Testamento), isto é, abarca toda a primeira parte da revelação de Deus:

  • A “Lei”: é o critério de vida por excelência para o povo que fez Aliança com Yahweh;
  • Os “Profetas”: enquanto defensores da Aliança, foram intérpretes da Lei.

 

Quando Jesus disse que veio para “dar cumprimento” à “Lei e os Profetas”, está afirmando que, n’Ele, visível está, tudo o que a Lei e os Profetas tentaram dizer. O que Deus desejou revelar a seu povo tem seu ponto culminante na pessoa de Jesus. Por isso, digamos assim, entre o Antigo e o Novo Testamento não tem contradição, mas uma linha contínua, sempre ascendente.

 

É preciso, então, olhar em todas as palavras e atos de Jesus no evangelho, pois ai  “deu cumprimento” ao querer de Deus. Já a primeira ação de Jesus em Mateus, foi programática a este respeito quando, a beira do Jordão, disse a João: “pois assim nos convém cumprir toda justiça (3,15).

As palavras e os atos de Jesus aprofunda no modo como se dá “cumprimento” à “Lei e os Profetas”:

  • Da parte de Deus, mantém firme sua Palavra e nos oferece um caminho para que esta se realize plenamente (“que tudo seja realizado”: 5,18);
  • Da parte do homem, a Palavra de Deus alcança seu cumprimento nele, na medida em que a leve à prática e sejam ensinadas (“observar e ensinar”: 5,19).

Deus é o primeiro a por em prática a Lei, em seu Filho Jesus. A “justiça” primeira é a de Deus. E esta justiça – segundo o evangelho de Mateus – se chama Jesus. Por isso não se falará, explicitamente, do “ensinamento de Jesus” (só até 7,24), mas do “cumprimento da Lei”, simplesmente porque esta ordem de idéias é a mesma.

Deus: A Palavra se faz realidade

A lei quer que “aconteça” tudo. E esse tudo Jesus realiza em sua própria vida. Deste modo, oferece a quem quer que lhe siga, a possibilidade de aprender, n’Ele, a fazer a vontade de Deus. O evangelho, aos poucos, irá desvelando de que modo o “cumprimento” está na vida mesma de Jesus.

A síntese do que quer a ‘Lei e os Profetas’, finalmente, será o amor misericordioso. Desta forma, a “Lei” segue sendo inquebrantável, porém, por outra parte, não se expressa plenamente, mas isso só vai acontecer na interpretação que lhe dá Jesus.

Portanto, porque Jesus deu sua máxima expressão a todo o valor que tem “A Lei e os Profetas”, todos temos a possibilidade de viver a Palavra de Deus em seu seguimento e, assim, esta manterá sua vigência até o fim do mundo (“céu e terra passarão antes de que passe…”).

O discípulo: A Palavra se faz vida

Deus cumpre sua Palavra, porém, os discípulos também têm que cumpri-la, isto é, passar da teoria à prática. Todos os mandamentos, inclusive os menores, são obrigatórios, já que o homem só se faz “justo” na vivencia do querer de Deus.

Mas o discípulo não andará ansioso por detalhes, porque vive a Lei desde uma vida inspirada na nova “justiça” que ensina Jesus, uma “justiça” que provem do estar imerso na experiência do “Reino” (ver as bem-aventuranças). Para enfatizar isto, Jesus apresenta a mesma idéia, tanto em negativo como em positivo: “O que pratique …” – “o que observe”;  “Será o menor no Reino…”-“será grande…”.

Jesus havia de “por em prática”, porém, também “ensinar”. Jesus aplica a mesma lógica do compromisso com a Palavra ao compromisso com a correta educação, que consiste no aprendizado do evangelho, que é cumprimento perfeito “da Lei e os profetas”.

 

O discípulo que põe em prática a Palavra, já é, por si, um bom mestre, e com a mais eficaz das didáticas: o testemunho.  Mas, não pode esquecer que diante dele vai Jesus. Ao dizer que veio “dar cumprimento”, que belo! Ele mesmo faz o que ensina! Estar na escola de Jesus é aprender sua vida.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Um cristão pode permitir que desvalorizem o Antigo Testamento? Que argumentos tem?
  • Em contrapartida, que aconteceria se lêssemos o Antigo Testamento sem chegar ao Novo? Que tipo de espiritualidade viveríamos? Que é dar “cumprimento” à “Lei e os Profetas”?
  • A “lectio divina” tem como finalidade ajudar-me a passar da teoria do texto à prática da Palavra de Deus em nossa vida. Como a estou fazendo? A estou ensinando a outras pessoas?

 

 

QUINTA-FEIRA

Jo 6,51-58 “Eu sou o Pão vivo descido do céu”

Caros irmãos e irmãs

Nós fomos reunidos no amor de Cristo para celebrar esta Solenidade de Corpus Christi, ou seja, a festa do Corpo e do Sangue de Cristo. Além de motivados pela fé, nos motiva o desejo de testemunhar nossa união em torno da certeza na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. É o testemunho de fé pessoal e eclesial que daremos publicamente fazendo a procissão do Corpo de Deus.

A procissão é o ato do povo de Deus peregrino, que caminha em oração rumo à Casa do Pai. Adorando Jesus na Eucaristia e fortalecidos pelo “pão vivo que desceu do céu” manifestamos publicamente a nossa fé em Cristo presente na Eucaristia, que permanece e caminha conosco.

Corpus Christi é a festa da unidade em torno da Eucaristia, que manifesta a universalidade e a unidade da Igreja que “vive da Eucaristia”. Por isso nos alegramos, pois, sabemos que todos que  estão aqui querem dar sentido às suas vidas, suas histórias, seus sonhos, suas realizações, seus anseios de futuro feliz, suas lutas pelo bem comum, na busca pela construção de um mundo fraterno, justo e solidário, se alimentando com “o pão que vem do alto”.

Na primeira leitura, tirada do Livro do Deuteronômio, Moisés dirige-se ao povo de Israel, antes de entrar na terra prometida. Relembra os 40 anos de peregrinação no deserto onde o povo foi provado e preparado para iniciar uma vida nova. Neste longo tempo, Deus não só colocou seu povo em provação, mas saciou sua sede e o alimentou com o maná. Por isso, Israel deve ser grato e nunca se esquecer do que o Senhor fez: libertou, guiou, protegeu e alimentou o seu povo.

E hoje? Deus continua caminhando com seu povo e a terra prometida vai se construindo na história, enquanto construímos o Reino, implantando e vivendo seus valores, até o dia da nossa chegada à Jerusalém celeste. Sentimos como provação a fome de justiça, a sede de condições iguais para todos viverem com a dignidade de filhos e filhas de Deus, a força para banir a violência e construir uma nova humanidade baseada no respeito e no amor.

Esse é um grande conselho que deveria estar em destaque na porta de nossas casas e gravado em nossos corações: Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca do Senhor”.

Na segunda leitura, tirada da segunda carta de São Paulo aos Coríntios, o apóstolo  adverte  sobre o perigo das divisões nas celebrações dos banquetes sagrados e exorta para que não se perca a consciência da unidade que a comunhão do Corpo de Cristo exige. Quem comunga o Senhor, comunga seu desejo de alimentar a vida de comunhão plena. Paulo recorda que a experiência da Eucaristia, partilha do único cálice de bênção e do único pão partido é comunhão  com o Sangue e com o Corpo de Cristo. A Eucaristia é o princípio da comunhão na vida da  Igreja e convoca a todos para a mesma missão em busca da unidade.

E hoje? O Beato João Paulo II afirmou: “A Igreja é escola e casa de comunhão” Nela, como escola, eu aprendo e ensino. Devo ser discípulo e ao mesmo tempo mestre da comunhão. As diferenças sejam de qualquer dimensão, não podem estar acima do desejo convicto de sermos  instrumento de comunhão.

Em um mundo que se quer globalizado, as divisões ideológicas, culturais, sociais e outras tantas, não podem influenciar a nossa caminhada de Igreja. Elas devem nos orientar para acolher a todos, sem abrirmos mão do tesouro de vida que é a graça de sermos convocados pela Palavra de Deus. Uma comunidade sem testemunho audaz e corajoso de comunhão não merece ser chamada de comunidade do Ressuscitado.

No Evangelho proclamado e escrito por João, Jesus, a Palavra viva de Deus que se tornou carne, afirma: “Eu sou o pão vivo descido do céu”. Pão que dá vida nova ao mundo. A oferta que Ele faz de si mesmo na Cruz se prolonga na Eucaristia. Aos judeus que murmuravam, Jesus reafirma que para ter a vida eterna é preciso comer a Carne do Filho do Homem e beber o seu Sangue.  Permanece em Jesus quem o comunga e permanecer em Jesus significa viver pela sua causa.

E hoje? Hoje aqui reunidos pela Eucaristia fazemos nosso encontro pessoal com Jesus Cristo, que dá sentido à nossa vida. Nesta festa de Corpus Christi proclamamos nossa fé na sua presença real e mostramos nossa gratidão por tão grande dom, por tão grande presente. É certo que a festa que celebramos nasceu da necessidade de mostrar ao mundo o tesouro da Igreja escondido nos nossos tabernáculos. Mas, quando comungamos, somos sacrários vivos de Jesus Cristo, realmente presente em nós na Hóstia consagrada. Maior sentido ganha a nossa procissão: somos testemunhas vivas de sua presença.

Hoje, quando dermos a resposta à apresentação: “Eis o mistério da fé”, cheios de alegria pela presença do Cristo Sacramentado, que vai se desvendando no altar, enquanto rezamos a Oração Eucarística, afirmaremos com fé: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus.”

Que o Senhor nos faça compreender que só a vida de comunhão pode estabelecer a união desejada por Deus para que todos sejam um. Que a vida de comunidade seja alimentada pela Eucaristia. Que nós tenhamos a mais convicta certeza de que a Igreja vive da Eucaristia e que ela realiza aqui na terra a comunhão que viveremos no céu, na eternidade da comunhão perfeita em Deus que é: Pai, Filho e Espírito Santo.

Maria, mulher eucarística, primeiro sacrário do corpo de Cristo, nos ajude a levar a presença de Jesus Cristo a todos os ambientes em que estamos. Que a peregrinação de Nossa Senhora da Penha em nossas comunidades nos ajude a ter coragem de enfrentar as dificuldades que encontramos na nossa vida e principalmente na vida de nossas comunidades.

Glória e louvor se dêem a todo o momento:

  1. Ao santíssimo e digníssimo Sacramento.

 

Dom Manuel Parrado Carral

 

 

 

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA

Mateus 5,27-32

ESCOLA DE VALORES (II): Uma fidelidade que oferece sacrifícios pelo ser amado.

“Retira-te e joga-te fora de ti”

 

Jesus continua nos educando na “justiça” do Reino, refletindo na vida a luz que provem de um coração impregnado pelas bem-aventuranças. O segundo âmbito relacional no qual facilmente podem surgir problemas é o da vida a dois. As historias de vida que Jesus já parece referir-se ao caso de um marido problemático: ou por sua debilidade ou por sua agressividade.

 

Jesus observa dois lados da moeda: (a) Quando o problema se dá por causa de outra mulher que entra em sua vida: o adultério (5,27-30); (b) Quando o problema é com a própria esposa: romper definitivamente com o matrimonio (5,31-32).

Em ambos casos o valor que se coloca em primeiro plano, e que deve inspirar o comportamento do discípulo para superar a crise, é a FIDELIDADE ao amor prometido. Pela fidelidade à pessoa que se ama, tudo o mais deve passar a um segundo plano. Recordemos que o ponto de vista que aqui se aborda é de quando a solução está nas mãos de um.  Vejamos como se aplica.

 

  1. O adultério (5,27-30)

 

É interessante notar que um ambiente cultural que considerava a mulher como “perigosa” para o varão, porque supostamente incitaria a maus pensamentos, Jesus se pronuncia sobre a atitude deste: “Quem olha a uma mulher desejando-a…” (5,28ª). Em outros termos: o problema não está na mulher, mas no olhar malicioso do varão, quer dizer, em seu coração (“ cometeu adultério…no coração”, 5,28).

O olhar do discípulo deve vir da “pureza do coração” (5,8). Visto que é um homem novo purificado em Jesus, sua maneira de tratar os demais, e neste caso à mulher, deve ser reflexo da nova visão do Reino: a valorização, o respeito, o serviço. Já não pode vê-la como “objeto” que se pode cobiçar para satisfazer os próprios desejos, mas como pessoa à qual ama, antes de tudo, sem interesse. Isto vale para a esposa e para todas as mulheres que encontrar no caminho.

No momento de crise o discípulo de Jesus, inspirado pela bemaventurança, coloca ante si o valor da fidelidade: seu coração está todo na mulher amada e por ela renuncia a qualquer outra possibilidade. Por um valor se fazem sacrifícios, como no caso do tesouro ou da perola (13,44-46). Por isso o discípulo, rejeita o que pode converter-se depois em motivo de tormento pessoal da vida do casal.

Esta é a idéia que contem as palavras: “Se, pois, teu olho direito te é ocasião de pecado, tira-o e…” (5,29ª; igualmente a mão 5,30ª).  É como se quisesse dizer: “Corta a tempo; é melhor sacrificar um momento de prazer que arruinar a vida inteira”. De novo a prontidão – como no caso anterior – caracteriza o discípulo que se antecipa aos problemas eliminando o que possa fazer dano a suas opções. Um novo sistema valorativo orienta sua existência.

  1. O divorcio (5,31-32)

 

Com a própria esposa é possível que se presente algum dia uma dificuldade. O novo caso que descreve Jesus é extremo: quando já não é possível manter a relação.  De novo a iniciativa é do varão e não da mulher: se deixa entrever uma decisão unilateral, motivada – talvez – pelo desejo de desfazer a relação primeira e estabelecer outra que se acomode mais a seus interesses pessoais.

 

Tanto aqui, como no caso anterior, Jesus passa a defender a vida e o direito da mulher. Se a mulher era “repudiada” não podia voltar a casar e se o fazia caía em adultério (5,32). Isto é o que Jesus adverte: o marido que toma uma decisão deste tipo – para o qual lhes ajudavam os advogados-rabinos a buscar a qualquer causa – arruína a vida de sua mulher. Ainda mais, Jesus admite em um caso específico a possibilidade do fracasso matrimonial (disse: “exceto o caso de fornicação”, 5,32), o que importa ante todo é que o discípulo está chamado a levar de  maneira diferente a vida de seu lar.

 

Visto que o pano de fundo do ensino de Jesus é a “fadiga” com a esposa, de modo que se busca qualquer desculpa para pô-la na rua, um esposo que é discípulo de Jesus deve lutar pela “permanência”, isto é, exercer o autocontrole nas situações de irritação (“Bem-aventurados os mansos…”, 5,4). Resolver com a paz os conflitos (“Bem-aventurados os que trabalham pela a paz…”, 5,9). Não declarar fracasso no primeiro conflito que se apresenta na vida de casal, isso é imaturidade.

A imagem de discípulo que sublinha estes ensinamentos de Jesus é a de uma pessoa madura, que não se precipita, que discerne serenamente as situações, que se move por valores sólidos, que respeita a vida dos demais, e com maior razão a daqueles que ama. Uma pessoa assim, está refletindo em sua vida a práxis do Mestre. Recordemos: assim como fez Jesus, só o amor mantêm as opções. Este amor há que alimentá-lo todos os dias. (Aqui se falou do “marido”, porém ler este texto – também desde o ponto de vista da “esposa”)

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Tenho vivido alguma das situações que expõe hoje o evangelho?
  • Que consideração pede Jesus que se tenha com a mulher? E como seria vice-versa?
  • Que deve fazer um discípulo para viver o valor da fidelidade, para dar eternidade ao amor que promete?

 

 

 

 

SÁBADO

Mateus 10,7-15

O MANUAL DOS BONS OBREIROS DO EVANGELHO (II):

O MISSIONÁRIO SE DISTINGUE POR SEU ESTILO DE VIDA

“De graças recebestes, de graças daí”

 

Ao dar as instruções aos discípulos para o exercício da missão, Jesus coloca em suas mãos um verdadeiro “manual” que devem ter sempre presente. Mateus anota solenemente: A estes doze enviou Jesus, após dar estas instruções (v.5a). Visto que o autor da missão, em última instância, é Jesus mesmo, tudo se realiza segundo suas indicações.

 

O manual da missão começa com a descrição da tarefa que compete ao apóstolo de Jesus:

 

  • Seu marco geográfico-espiritual: As “ovelhas perdidas da casa de Israel (v.6). O espaço é bem claro: não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis na cidade dos samaritanos (v.5b). Esta abertura só se dará após a morte e ressurreição de Jesus, no envio universal: “Ide, pois, fazei discípulos a todas as gentes” (28,19). Por ora, a missão, só em casa.

 

  • Seu conteúdo: A proclamação da proximidade do Reino na pessoa de Jesus (v.7). O anúncio da proximidade do Reino, com poucas palavras e muitos sinais transformadores, não é outro que o da vinda de Jesus que, com seu poder tocando o homem no fundo de sua miséria, faz presente a vontade misericordiosa de Deus que cura, perdoa e traz a paz.

O que o apóstolo tem que dizer é pouco, ao contrário, as ações é que são grandes. Ele deve converter cada dia de suas vidas em uma página viva do Evangelho: “Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios” (v.8a). Os profundos conteúdos do Reino se refletem, então, no novo estilo de vida de quem os anuncia.

 

Vejamos cinco traços distintivos deste novo estilo de vida que distingue o missionário:

 

  • Seu coração (v.8a): Sua ternura ativa com os enfermos, os pobres, os leprosos, os endemoninhados. Todos os milagres enumerados por Jesus supõem uma apropriação do Evangelho, impregnando-se da compaixão de Jesus com os sofredores da terra.

 

  • Viver com o estritamente essencial (vv.9-10): Ao compartilhar a pobreza de Jesus fica claro que o que conta, do início ao fim, não são recursos materiais para a missão, mas a pessoa mesma, primeiro. Mostra-se sóbrio em seu vestir, em sua alimentação e em seus recursos econômicos. Tudo isso como expressão da opção prioritária pelo Reino. Contudo, “tem direito a seu alimento” (v.10b). Precisavam de comunidades que os acolhessem e mantivessem em sua missão itinerante. (Provavelmente, havia comunidades que não queriam colaborar na manutenção dos missionários e, por isso, se recorda este dever fraterno).
  • Suas relações interpessoais (v.11): Sabe iniciar a missão no complexo mundo urbano (informa-se, saúda, é cortês e constante;). Além de iniciar é capaz também de fechar bem os processos (“até que saiais”; 10,11b).

 

  • Sua disponibilidade (v.12): Por realizar bem a tarefa e sem nenhuma motivação que não o serviço generoso. Assim como o despojamento externo, o despojamento pessoal é o indicador mais evidente de uma vida que se dá em oblação de si mesma: a gratuidade do dom (10,8b). Este é o modo concreto de ir até a raiz do mal como Jesus fez. Por isso é muito significativo que não se peça nada em troca e se esteja disposto a tudo que se possa exigir.

 

  • Capacidade de superar oposição e rejeição (vv.13-14): O fracasso não o deprime nem as reações agressivas dos destinatários lhe roubam a paz. A missão está exposta a inconvenientes, alguns leves e outros maiores. Ele agirá com maturidade, à altura das circunstâncias, ao estilo do Mestre. A tarefa está orientada e os requisitos para realizá-la bem já foram expostos. Com estas orientações se formará o novo povo de Deus que faz a experiência profunda do Reino. A Palavra de Jesus tem vigor para formar no mundo de hoje excelentes missionários que a façam possível.

 

Releiamos, agora, o texto, bem devagar, até mesmo sublinhando os verbos em imperativo, distinguindo o que está em positivo e o que está em negativo. E se contamos com algo de tempo poderíamos, inclusive, comparar com o Evangelho do domingo passado. Logo, confrontemos os ensinamentos com o estilo de vida que estamos levando e deixemos que a Palavra inspire em nós decisões concretas a favor de nosso crescimento pessoal.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Cite alguns dos traços que devem distinguir o modo de vida de um verdadeiro missionário do Reino? Como os vivo pessoalmente? Como os vivemos no grupo ao qual pertenço?
  • Em minha família, entre meus amigos ou conhecidos, sei de alguém que por diversas circunstâncias tem se afastado de Jesus? Que tenho feito concretamente por essa pessoa? Tenho orado? Dialogado com ela? Aconselhado o diálogo com alguém que a possa ajudar? Ou sabendo do caso, me manifesto indiferente? Que farei a respeito?
  • A sociedade de consumo nos apresenta um estilo de vida muito distinto ao que propõe Jesus a seus missionários. Que temos que fazer para viver mais de acordo com Jesus?

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