Estudo Bíblico na 18ª Semana Comum ano 2020

PISTAS

Um apoio para a Lectio Divina 18ª Semana da Tempo Comum – Ano A

 

 

SEGUNDA-FEIRA

Mateus 14,22-36

CAMINHADO EM MEIO DO MAR: QUE PROFUNDIDADE É MINHA FÉ?

“Homem de pouca fé, por que duvidaste?”

 

O relato da multiplicação dos pães que lemos ontem é o prelúdio de um novo quadro que João nos propõe em sua galeria de experiências de fé. Será que depois de um gesto tão claro como o da multiplicação dos pães, os discípulos estão em condições de expressar sua fé em Jesus como Messias?

 

Recordemos:

  • o primeiro quadro havia sido a “falta de fé” de seus próprios conterrâneos de Nazaré (13,53-58);
  • o segundo aparece nos lábios do rei Herodes Antipas que reage ante a fama de Jesus (14,1-2); e
  • o terceiro são próprios discípulos: eles, que têm sido testemunhas da obra messiânica que Jesus realizou como pastor de seu povo, também eles têm que tomar uma posição frente ao Mestre.

 

Jesus manda seus discípulos ao lago da Galileia, para que sigam adiante até a outra margem. Sobe para orar na montanha, enquanto os discípulos, no lago, enfrentam uma tempestade durante toda a noite. Já se aproxima do amanhecer, quando Jesus se aproxima deles caminhando sobre o mar. Os discípulos se perturbam.

 

Então Jesus revela sua identidade, frente o qual Pedro, desafiando o poder do nome de Jesus, pede para poder caminhar sobre a água. Porém andou poucos passos e começou a afundar.

 

Grita e é salvo por Jesus. É repreendido e, logo, todos, na orla, se prostram ante Ele, para adorá-lo como o “Filho de Deus”, quer dizer, como quem vive em uma relação de caráter privilegiada com Deus. Detenhamo-nos em algumas particularidades da passagem:

 

  1. O marco de todo o texto é a oração.

 

  • No início Jesus ora na montanha e na sua oração acompanha pacientemente a travessia de seus discípulos no lago (14,23):  Jesus está conosco em nossas “travessias” da vida, Ele nos mantém sempre (com sua oração e seu olhar, desde a montanha) particularmente nas situações difíceis.

 

  • As duas intervenções de Pedro, em que grita “Senhor!” (14,28.30), tem força oracional.

 

  • A reação final da comunidade, apoiada num gesto de prostração ante Jesus (=adoração) e expressa num claro reconhecimento da filiação divina de Jesus, é o cume deste caminho oracional que serve de eixo ao texto e de modelo a nosso caminho de oração. A fé se expressa na oração.

 

  1. O relato aponta a uma confissão de fé

 

Os discípulos terminam prostrados adorando o Filho de Deus. Esta reação é a primeira confissão de fé comunitária (14,33) e responde ao que se esperava que acontecesse depois da multiplicação dos pães, como se fosse seu “amém”.

 

  1. O itinerário de Pedro é um modelo de tal caminho de fé

 

No centro do relato está o episódio do diálogo de Pedro e Jesus.

 

No texto se capta o seguinte processo:

 

  • Começa com um jogo de palavras: Jesus disse “Sou Eu”, Pedro disse “se És Tu” (14,27-28).
  • O “Sou Eu” na boca de Jesus é um eco da revelação de Yahweh a Moisés (Ex 3,14-15), o mesmo que abriu caminhos impossíveis (no deserto); Pedro desafia Jesus para que prove o que diz ser.
  • Jesus atende ao pedido de Pedro e faz que Pedro vá caminhando sobre as águas (14,29).
  • Quando Pedro sente medo começa a afundar e grita “Senhor, salva-me!”; Jesus por sua parte lhe estende a mão ao mesmo tempo que lhe declara sua pouca fé.
  • Uma vez na barca junto com todos se prostra e confessa a fé (14,33).

 

Em meio do perigo e com um grande sentimento de impotência, Pedro clama ao Senhor com uma das orações mais breves e mais belas do Evangelho: “Senhor, salva-me!”. A fé pura de Pedro deixa entrever sua realidade interior, que é também a realidade de todo crente: crer e ama a seu Jesus, porém, de repente, duvida d’Ele.

 

Jesus reconhece sua fé, porém a qualifica de “pouca”. O Mestre parece querer pedir-lhe que faça sua, a oração de confiança do orante do Sl 62,2-3: “Em Deus descansa minha alma, d’Ele vem minha salvação; só Ele é minha rocha, minha salvação, minha cidadela, não vacilarei”.

 

Retenhamos o momento cume em que Jesus se faz Salvador e Pastor misericordioso de Pedro: estende-lhe a mão e o agarra (com força; 14,31). O gesto é, ao mesmo tempo, sinal da vida e da salvação que Jesus oferece ao discípulo. Está indicando ainda que fé não se alcança sem a ajuda do Senhor (16,17).

 

Estamos hoje ante uma bela catequese sobre a confiança no Senhor em meio às dificuldades e as provas: Pedro pede o impossível, porém, agora, ele e todos nós temos de saber que o impossível nós podemos alcançar, se confiamos na Palavra do Senhor.

 

De outro lado, hoje, uma vez mais, aclamamos, com força, o valor da vida. Tomando Pedro pela mão e tirando-o do caos das águas, Jesus, neste gesto nos repete: “Quanto vale um homem!” (Mt 12,12).

 

Cultivemos a semente da Palavra em nosso coração:

 

  • Qual o caminho que um discípulo chega à adoração de seu Senhor?

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  • Que relação tem com um caminho de fé?

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Que relação há entre o itinerário de fé de Pedro e o meu?

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  • Que me diz a imagem de um Jesus que está com o braço estendido e agarrando seu discípulo?

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Como a vejo hoje em minha vida, em minha comunidade, em meu povo?

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TERÇA-FEIRA

Mateus 15,1-2.10-14

SOBRE A QUESTÃO DO PURO E DO IMPURO:

“Por que os teus discípulos desobedecem à tradição dos antigos?”

 

O Evangelho de hoje traz a discussão de Jesus com os fariseus sobre o puro e o impuro. O texto fala dos costumes religiosos daquele tempo, dos fariseus que ensinavam tais costumes ao povo e das instruções de Jesus a respeito destes costumes, muitos dos quais já tinham perdido o sentido.

 

Neste capítulo 15, Jesus ajuda o povo e os discípulos a entenderem melhor este assunto tão importante da pureza e das leis da pureza.

 

  1. Os fariseus criticam o comportamento dos discípulos de Jesus (vv.1-2)

 

Alguns fariseus e diversos doutores da lei, vindos de Jerusalém, se aproximam de Jesus e perguntam: “Por que os teus discípulos desobedecem à tradição dos antigos? Pois comem pão sem lavar as mãos!”. Eles fingem estar interessados em conhecer o porquê do comportamento dos discípulos. Na realidade, criticam Jesus por ele permitir que os discípulos transgridam as normas da pureza.

 

Aqui há três pontos que merecem ser assinalados:

 

  • Os escribas são de Jerusalém, da capital. Vieram observar os passos de Jesus;
  • Os discípulos não lavam as mãos para comer! A convivência com Jesus deu-lhes coragem para transgredir normas que a tradição impunha ao povo, mas que já não tinham sentido para a vida;
  • O costume de lavar as mãos, que, até hoje, continua sendo uma norma importante de higiene, tinha tomado para eles um significado religioso que servia para controlar e discriminar as pessoas.

 

  1. A Tradição dos Antigos (vv. 3 a 9)

“A Tradição dos Antigos” transmitia as normas que deviam ser observadas pelo povo para conseguir a pureza exigida pela lei. A observância da pureza era um assunto muito sério. Uma pessoa impura não podia receber a bênção prometida por Deus a Abraão.

 

As normas da lei da pureza ensinavam como recuperar a pureza para poder comparecer de novo diante de Deus e sentir-se bem na presença dele. Não se podia comparecer diante de Deus de qualquer jeito. Pois Deus é Santo e a Lei dizia: “Sede santos, porque eu sou santo!” (Lv 19,2).

 

As normas de pureza eram, na realidade, uma prisão, um cativeiro (cf. Mt 23,4). Para os pobres, era praticamente impossível observá-las: tocar em leproso, comer com publicano, comer sem lavar as mãos, e tantas outras atividades, etc. Tudo isso tornava a pessoa impura, e qualquer contato com uma pessoa contaminava os outros. Por isso, o povo vivia acuado, sempre ameaçado pelas tantas coisas impuras que ameaçavam sua vida. Ele era obrigado a viver desconfiado de tudo e de todos.

 

Insistindo nas normas da pureza, os fariseus chegavam a esvaziar os mandamentos da lei de Deus. Jesus cita um exemplo concreto. Eles diziam: quem consagrasse ao Templo os seus bens, já não podia usar esses bens para ajudar os pais necessitados. Assim, em nome da tradição esvaziavam o quarto mandamento que manda amar pai e mãe (Mt 15,3-6).

 

Tais pessoas pareciam muito observantes, mas era só por fora. Por dentro, o coração ficava longe de Deus! Jesus dizia, citando Isaías: Este povo me honra só com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15,7-9). O povo, na sua sabedoria, já não concordava com tudo que se ensinava, e esperava que o messias viesse indicar um outro caminho para alcançar a pureza.

 

Em Jesus se realiza esta esperança. Pela palavra ele purificava os leprosos (Mc 1,40-44), expulsava os espírito impuros (Mc 1,26.39; 3,15.22, etc), e vencia a morte que era a fonte de toda a impureza. Pelo toque em Jesus, a mulher excluída como impura ficou curada (Mc 5,25-34).

 

Sem medo de contaminação, Jesus comia junto com as pessoas consideradas impuras (Mc 2,15-17).

 

  1. Jesus abre um novo caminho para o povo se aproximar de Deus (v.10-11)

 

Ele diz à multidão: “Escutem e compreendam. Não é o que entra na boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso torna o homem impuro”. Jesus inverte as coisas: o impuro não vem de fora para dentro, como ensinavam os doutores da lei, mas sim de dentro para fora. Deste modo, ninguém mais precisa se perguntar se esta ou aquela comida, ou bebida, é pura ou impura.

 

Jesus coloca o puro e o impuro num outro nível, no nível do comportamento ético. Ele abre um novo caminho para chegar até Deus e realiza assim o desejo mais profundo do povo: estar em paz com Deus. Agora, de repente, tudo mudou!

 

Através da fé em Jesus, era possível conseguir a pureza e sentir-se bem diante de Deus sem que fosse necessário observar todas aquelas normas da “Tradição dos Antigos”. Foi uma libertação! A Boa Nova anunciada por Jesus tirou o povo da defensiva, do medo, e lhe devolveu a vontade de viver, a alegria de ser filho e filha de Deus.

 

  1. Jesus reafirma o que dissera antes (vv. 12-14)

 

Os discípulos comunicaram a Jesus que as palavras dele provocaram escândalo nos fariseus, pois elas diziam exatamente o contrário daquilo que os fariseus ensinavam ao povo. Pois, se o povo fosse levar a sério o novo ensinamento de Jesus, toda a tradição dos antigos teria de ser abolida e os fariseus e doutores perderiam sua liderança e fonte de renda. A resposta de Jesus é clara e não deixa dúvida: “Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada. Não se preocupem com eles. São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão num buraco”. Jesus não diminui o impacto das suas palavras e reafirma o que dissera antes.

 

Cultivemos a semente da Palavra em nosso coração:

 

  • Conhece algum costume religioso de hoje que já não tem sentido, e que continua sendo ensinado?

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  • Na sua vida há costumes que você considera sagrados, e outros que não são sagrados?

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Os fariseus eram judeus praticantes, mas sua fé estava desligada da vida da vida do povo. Por isso, Jesus os criticou. E hoje, Jesus nos criticaria?

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Em que?

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QUARTA-FEIRA

Mateus 15,21-28

ANTE A HUMILDADE DA MULHER CANANEIA: QUE TAMANHO É MINHA FÉ?

“Mulher, grande é tua fé; que te aconteça como desejas”

 

Com o relato do itinerário de fé da mulher cananeia entramos no quarto quadro da  galeria apresentada pelo evangelista Mateus. O quadro anterior havia sido o do processo lento e doloroso vivido por Pedro no meio do lago, a ele Jesus havia falado de sua “pouca fé”, de sua “dúvida”.

 

O quadro de hoje, ao contrário, é radiante: a fé valente duma mulher felicitada por Jesus e a quem conhecemos como “a cananeia”. Mateus prefere chamá-la “cananeia” e não “siro-fenícia”, como faz o evangelista Marcos, talvez para fazer-nos sentir mais a grandeza de sua confissão de fé: de um cananeu não se esperaria tanto. De fato, o povo cananeu é recordado, continuamente, no mundo do Antigo Testamento, como um povo estranho e idólatra; inclusive, desde os tempos de ocupação da terra, que Israel considerava estes antigos povoadores de Canaã como gente grosseira e hostil.

 

Esta mulher emerge, repentinamente, de dentro dessa penumbra. Não só frente à fé de Pedro, ainda em germe, mas também frente à falta de fé dos fariseus e saduceus, aos quais, Jesus recordou a profecia de Isaías (“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”; 29,13, citado em Mt 15,8), a mulher, mãe, cananeia, mas também sofrida, emerge como modelo de fé: “Mulher, grande é tua fé!” (v.28).

 

O grito de fé da cananeia nos põe em contato com uma realidade profundamente humana: Que não faria uma mãe de família para conseguir que sua filha seja curada e salva? Esta mãe de família, apresentada como uma das mulheres fortes do Evangelho nos ensina seu próprio caminho de fé através da rota da oração que passa por diversos tropeços. Notemos:

 

A mulher ora de longe

 

A mulher vai gritando atrás do grupo que acompanha Jesus. Em seu grito vê-se sua agitação interna, sua confusão, seu sofrimento. O seu grito tem uma grande força que se percebe em cada termo que utiliza:

  1. Invoca “piedade”. Como se faz, frequentemente, nos Salmos (6,2; 9,13; 24,16, 51,3 e outros).  Foi dito que é uma pagã, dai que surpreenda que ponha em seus lábios o melhor da oração de Israel.
  2. Dar dois títulos a Jesus, “Senhor” e “Filho de Davi”. Títulos que evocam o mistério de Jesus que os discípulos vão conhecendo gradualmente. Sua oração se insere em uma experiência de Jesus, ou seja, não é, simplesmente, um favor que é pedido, sem penetrar em seu mistério.
  3. Expressa a realidade de sua filha: “está endemoninhada”(15,22). Não pede que a cure, simplesmente disse que se passa. A mulher apela ao Jesus “pastor”, para quem é suficiente “ver” para “compadecer-se” e “agir”.

 

Os discípulos querem desfazer-se dela

 

Os discípulos intervêm e fazem com que se rompa o silêncio que, até o momento, Jesus tem guardado. As palavras dos discípulos soam mais como um pedido para “retirá-la” que a um verdadeiro gesto de misericórdia. Eles estão cansados dos gritos desta senhora, eles não parecem realmente interessados nela.

 

A resposta de Jesus nos recorda seu falar sobre os destinatários da missão em Mateus 10,6, onde limitou sua missão ao mundo de Israel (10,40 e 21,37). Porém, quando olhamos o todo do Evangelho de Mateus, compreendemos que esta aparente limitação se refere a uma etapa da missão e não definitivo, visto que, ao final do Evangelho, o destinatário da missão é o mundo inteiro (Mt 20,19-20).

 

Daí que as palavras de Jesus se compreendem melhor como uma advertência ao povo de Israel (o povo da oração sálmica), que foi o primeiro destinatário de sua obra salvífica, porém, que vem progressivamente fechando-se a seu anúncio. Portanto, a fé da mulher cananéia, será um juízo para o povo de Israel, e a cura de sua filha, o prelúdio de sua nova etapa missionária.

 

A mulher ora perto

 

Agora a mulher aparece frente a Jesus, a quem já pode abordar diretamente. A impressão que se tem é que ela não escutou o diálogo anterior de Jesus com os discípulos, pois irrompe, de repente, com sua súplica, que, desta vez, aparece mais rica e profunda:

  • “Prostra-se” em adoração (recorda-nos o gesto das mulheres na manhã da páscoa (28,9.17).
  • Chama Jesus, novamente, de “Senhor” (recordemos o grito de Pedro sobre o lago).
  • Expressa seu pedido: “Socorre-me” (recorda-nos os Salmos 43,26; 69,5; 78,9;108,26 e outros).

 

No diálogo com Jesus, o dom do “pão” ocupa um lugar central. Significa a plenitude do bem e que é o dom próprio de um pai para seus filhos. Sabiamente a mulher retoma as palavras de Jesus e as põe a seu favor: aos pequenos cabem as migalhas que caem da mesa dos patrões.

Ela faz uma profunda reflexão: vê os filhos como seus patrões, compreendendo a obra de Jesus com ela como a extensão de sua missão ao povo judeu, seu rebanho (Is 53,6; Mq 2,12). A mulher sabe se colocar no lugar dos pequenos que entram no Reino (18,4). Então Jesus lhe concede o pedido.

Como esta mulher vê Jesus? A mulher suspeita que este Filho de Israel tenha um coração grande e que, no banquete que Ele dá, o pão é de uma abundância tão grande, tão extraordinária, que é para todos, não importa os comensais. Esta mulher intui que, onde está a salvação, todos podem se beneficiar.

Este itinerário de fé e de oração da mulher é importante para nós, nos permite ver o fundo espiritual, os gestos, as palavras e, sobretudo, a atitude fundamental de uma oração de intercessão. E um dado importante: trata-se de uma oração auto-incluente, o seja, ao pedir por sua filha esta mulher pede também por si mesma (“Tem piedade de mim”, “Socorre-me”), mostrando, assim, que leva em seu coração orante, a dor de sua filha e que, portanto, também a mãe necessita de cura.

A identificação de fundo, fazendo própria a dor daquele pelo qual se suplica é característica de uma autêntica oração. “Mulher, grande é tua fé!” (15,28).

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • (mulheres) Que me ensina a cananeia para minha identidade e missão de mulher na Igreja e na sociedade?
  • (Para os homens:) Reconheço e valorizo a identidade e a espiritualidade da mulher no agir, em minha comunidade, na sociedade?
  • Minha experiência de fé se traduz em atitudes de confiança filial na misericórdia divina? Em que se percebe?

 

 

QUINTA-FEIRA

Mateus 17,1-9

A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS: A GLÓRIA PARA A QUAL NOS LEVA A CRUZ!

“Senhor, que bom é estarmos aqui”

 

O relato da Transfiguração de Jesus está ligado ao ensino que Ele acaba de dar sobre o seguimento: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). O seguimento, assim, causa conflitos aos discípulos, basta ver a reação de Pedro frente ao anúncio da Paixão: “começou a manifestar a seus discípulos que Ele devia ir a Jerusalém e sofrer muito… ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro o chamou à parte e o repreendeu: ‘Longe de ti, Senhor, de nenhum modo te acontecerá isso!’ Mas Ele disse a Pedro: “Saia da minha vista, Satanás!…porque teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mt 16, 21-23).

 

O seguimento ao Crucificado exige, dos discípulos, uma reformulação de suas expectativas. Eles esperam “glória”, mas Jesus lhes fala de “morte”. Neste contexto acontece a Transfiguração. O relato contém os elementos habituais de uma teofania (manifestação divina): a luz, a brancura, a nuvem, a voz e a montanha. O relato segue também este esquema:

  • Uma introdução (17,1): (a) um tempo; (b) a escolha das testemunhas; e (c) a localização.
  • A manifestação de Jesus (17,2-6): o acontecimento visível (17,2-3); a reação de Pedro (17,4); o acontecimento audível com aparição da nuvem (17,5); e a reação dos discípulos (17,6-7).
  • Uma conclusão (17,7-9)

Para o evangelista Mateus o episódio reveste-se de grande importância. É interessante notar como, em meio de sua narrativa, repete três vezes: “E eis que”. O faz quando: aparecem Moisés e Elias; desce a nuvem luminosa; e ressoa a voz do Pai. Através disto vai se desenrolando o sentido da transfiguração do rosto e das vestes de Jesus.Também aqui, como no relato das tentações, podemos notar alusões ao Antigo Testamento, sobretudo a da subida de Moisés à Montanha Santa com três companheiros e onde a nuvem da glória do Senhor o envolve no monte. Então Deus o chama da nuvem (ver Ex 24,16). Também sabemos que, segundo Exodo 34,29, o rosto de Moisés ficou resplandecente depois do encontro com Deus. Se bem que no caso de Jesus sua transfiguração é de outra origem.

Estamos ante um relato de “manifestação de Jesus” (=“teofania”). De certo está relacionado com o acontecimento da Cruz, que os discípulos mostram-se resistentes. O acontecimento se dá em função deles, que o devem interpretar e, enfim, ser suas testemunhas. Na transfiguração, Jesus os educa sobre como se faz um caminho pascal.  Entremos na leitura seguindo o esquema descrito acima:

 

Uma introdução (17,1)

 

O relato começa indicando um tempo, a escolha das testemunhas e a localização: “Seis dias depois, toma Jesus consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os leva a parte, a um monte alto

 

O tempo: Seis dias depois”. Esta é a frase que liga o relato da Transfiguração de Jesus com o relato precedente (da confissão de fé de Pedro e do anúncio da Cruz e seu seguimento). Poder-se-ia ver, talvez, alguma alusão a Ex 24,16: “A glória de Iahweh descansou sobre o monte Sinai e a nuvem o cobriu por seis dias”, onde, quando chega o sétimo dia, Deus se revela plenamente. Deste modo, é provável que o Mateus não só esteja pensando nos seis dias precedentes, mas ainda no sétimo dia que está por vir (dia da manifestação da Glória na Cruz). seria o dia do cumprimento.

 

As testemunhas: são três (Pedro e os dois irmãos, filhos de Zebedeu, Tiago e João). A alusão ao “irmão”, mesmo de origem biológica, poderia estar carregada de sentido em Mateus, que gosta de sublinhar a fraternidade (eclesialidade). Ele não diz que são os mesmos a acompanhar Jesus na casa de Jairo (como em Marcos e Lucas). Assim, vemos que se traça um arco entre este momento e o outro definitivo (em 26,37, quando o acompanham no Getsêmani, no início da Paixão).

 

A localização. Em Mateus encontramos alusão a três montes significativos: o das tentações (4,8); o da transfiguração (17,1); e o do envio dos onze ao mundo inteiro, da parte Ressuscitado (28,16). Porém, também no evangelho de Mateus, encontramos: a montanha do anúncio da Nova Lei (5,1-8,1ª); a montanha da oração (14,23); e,  a montanha da multiplicação dos pães (15, 29). Uma tradição viu, a montanha aqui referida, a montanha do Tabor, no Vale de Esdrelón, na Galiléia. Porém, os evangelistas não lhe dão nome. A referência às experiências de Moisés com Deus, na montanha, durante o êxodo, poderia dar-nos a rota para compreender melhor o sentido da montanha.

 

A manifestação de Jesus (17,2-6)

 

Jesus permite a seus três discípulos o acesso à revelação de sua divindade, porém às implicações. De uma forma gradual, o relato vai aumentando a suspense até o momento culminante, quando a nuvem da glória os envolve e se escuta a voz do Pai. Todos os elementos estão ligados.

 

O acontecimento visível (17,2-3)

 

O corpo transfigurado

 

Uma mudança notável acontece em seu rosto e em suas vestes (o resplendor de seu corpo traspassa as vestes). Para ajudar a entrar no acontecimento, Mateus recorre aos símbolos do sol e da luz: “como o sol… como a luz”. O sol e a luz são símbolos do cumprimento, do divino, assim como a “treva extrema” simboliza a desventura e a distância de Deus. Já desde o princípio do evangelho havíamos sido familiarizados: “Aos que habitavam na região sombria da morte surgiu uma luz” (4,16). No Antigo Testamento, quando se diz que Deus reflete sua presença através de uma pessoa, se recorre a esta simbologia, como em Juízes 5,31: “Aqueles que o amam são como o raiar do sol com todo seu fulgor”. A luz então remete à divindade, como em Mt 28,3: “O Anjo do Senhor… seu aspecto era como o relâmpago e sua veste branca como a neve”.

 

A aparição de Moisés e Elias

 

A aparição de Moisés e Elias nos confirma que estamos no âmbito da divindade, porque ambos já estão glorificados. Tanto um como o outro haviam sido levados ao céu:

  • No caso de Elias: este “subiu ao céu no turbilhão”, nos diz 2ª Rs 2,11;
  • No caso de Moisés: apesar do dado bíblico (Dt 34,1-12), sabe-se que nos tempos de Jesus estava difundida uma lenda bem popular que o considerava levado ao céu (Flávio Josefo, Antiguidades Judias, 4,323). Mas, mesmo sem este dado, o fato de Moisés também ter sido “transfigurado” nos convida a vê-lo no âmbito privilegiado de uma relação muito especial com Deus, na glória;
  • Também, relacionam-se com a chegada do Messias, segundo literatura bíblica tardia: “Recordai-vos da Lei de Moisés, meu servo, a quem eu prescrevi no Horeb preceitos e normas para todo Israel. Eis que eu os envio o profeta Elias antes que chegue…” (Ml 3,22-23);

 

Não se sabe o conteúdo do diálogo que se dá entre os dois personagens celestiais e Jesus (Lc 9,31 é que nos dá o conteúdo). Para Mateus, entretanto, basta à contemplação dos três personagens resplandecentes. O importante é o tipo de relação que se estabelece entre eles. Fica, então, a pergunta sobre o valor da presença de Moisés e Elias na Transfiguração de Jesus.

 

Eles representam a antiga Aliança: Moisés representa a Lei e Elias aos Profetas. Frente a eles está Jesus, que retoma o valor destes dois personagens e vai mais além deles. Com efeito, toda a Antiga Aliança se orienta para a revelação definitiva de Deus, em Jesus, e se rende ante a Lei definitiva revelada n’Ele.

 

Jesus não é um legislador a mais, nem é um profeta a mais, Ele é o “Filho”. Porém, Mateus nos dá uma pista: Jesus, que disse que não veio “para abolir a Lei e os Profetas”, mas “a dar cumprimento” (5,17; ver 7,12; 11,13; 22,40), agora dialoga com os representantes da Lei e os Profetas: o mistério Pascal é o cumprimento anunciado, e Moisés e Elias são seus testemunhos.

 

Jesus é apresentado em Mateus como o “novo Moisés” que vem a estabelecer a Nova Aliança. Jesus é a plena realização do acontecimento do Êxodo, quando Moisés chega ao alto do Sinai (ver Ex 19). Ali o Senhor se aproximou dele, “na obscuridade de uma nuvem” (Ex 19,9). O rosto resplandecente é semelhante ao de Moisés, depois do contato com o Senhor (ver Ex 34,29-35).

 

A reação de Pedro (17,4)

 

Também, nas reações de Pedro, notamos uma sequência. Ele é o primeiro a reagir. Logo o farão os outros, ante a nuvem. Pedro chama Jesus de “Senhor”, título muito usado pelos discípulos para chamar Jesus, no evangelho de Mateus. O grito de Pedro é oração, clamor. Desta forma, expressa o gozo indizível que provém da contemplação da glória. A seguir, propõe construir três tendas.

 

A idéia parece insensata, mas Mateus não vê assim. Capta desde modo: Pedro deseja reter o instante, o permanecer já no definitivo, aquilo que, por meio da visão, se fez acessível aos olhos humanos. Esta atitude particular de Pedro, na cena, é confirmada, de certo modo, na antiga tradição cristã: “Porque recebeu de Deus Pai honra e glória, quando a sublime Glória lhe dirigiu esta voz: ‘Este é meu Filho muito amado em quem me comprazo’. Nós mesmos escutamos esta voz vinda do céu, estando com ele no monte santo” (2 Pd 1,17-18).

 

O acontecimento audível com aparição da nuvem (17,5)

 

A aparição da “nuvem luminosa” indica a presença de Deus. É claro que estamos dentro do universo simbólico da Bíblia. Na peregrinação no deserto a “nuvem” acompanhava o povo. Quando chegamos ao momento culminante do livro do Êxodo vemos como a “nuvem” pousava sobre a tenda do encontro e a glória do Senhor enchia a morada (cf. Ex 40,35). Para os tempos definitivos, com a chegada do Messias, se esperava outro acontecimento deste tipo: “O Senhor, então, mostrará tudo isto; e aparecerá a glória do Senhor e a Nuvem, como se mostrava no tempo de Moisés…” (2 Mc 2,8). O que está ocorrendo neste momento é extraordinário e merece uma prolongada contemplação de acolhida do Deus-conosco, o Deus da Aliança, que está aqui (ver 18,20-21) e habita em nós.

 

A “voz que sai da nuvem” é o ponto alto da cena. Mateus a pôs em perfeito paralelo com a voz de 3,17: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo”. O fundo provável é Isaias 42,1. E, já, antes, em Isaias 12,15-16, remetendo ao primeiro cântico do Servo de Iahweh, se descrevia a imagem do Messias, onde o traço mais marcante era o do Messias manso, do “Servo de Iahweh”.

 

“Escutai-o!”: Jesus, Filho de Deus, traz ao mundo a salvação definitiva, visível em sua transfiguração e comunhão com os personagens celestiais. Por isso é preciso escutá-lo: Ele é a plenitude do que “diz” a Lei e os Profetas. Talvez haja, aqui, referência a Dt 18,15: “Iahweh teu Deus suscitará do meio de ti, entre teus irmãos, um profeta como eu, a quem escutareis”. Contudo, o “Filho de Deus” é muito mais que o profeta do fim dos tempos parecido com Moisés. Quem quiser chegar à meta definitiva de sua existência e deseje receber a plenitude do sentido da vida deve dirigir-se a Jesus.

 

A reação dos discípulos (17,6-7)

 

“Ao ouvir isto os discípulos caíram com o rosto por terra, cheios de medo”. Como reação, os três discípulos caem com o rosto em terra, gesto de adoração, e sentem um grande medo. O “medo”, em realidade, “temor religioso”, é consciência de estar ante alguém muito grande. Em seguida se sente a distancia que temos de Deus, reconhecemos quem é Ele e quem somos nós em sua presença.

 

Uma conclusão (17,7-9)

 

Os discípulos voltam à realidade. Vemos agora como ficaram ante os eventos da transfiguração de Jesus, da aparição de Moisés e Elias e do pousar da nuvem da glória sobre eles. Quem teve uma visão cai atordoado, como morto.

 

Assim ocorre, por exemplo, em Dn 8,17: “Ele se aproximou ao lugar onde eu estava e, quando chegou, me aterrorizei e caí de bruços… Enquanto ele me falava, eu me desvaneci, rosto por terra.”; ver também 10,9; Ap 1,17). Para voltar a si os discípulos têm necessidade da ajuda de outro. Neste caso, de Jesus.

 

Na conversa final que se dá, enquanto Jesus e os discípulos descem da montanha, a transfiguração de Jesus é interpretada. A ordem de calar sobre a visão até a ressurreição do Filho do homem nos dá a pista: na visão, aos discípulos se lhes concedeu ver, antecipadamente, ao Jesus perfeito, ressuscitado.

 

Quando chegar a Páscoa, os discípulos viverão plenamente este acontecimento. O que acontece em Jesus se realizará também neles. Não percamos de vista que este “transfigurar” de Jesus, tem uma forte dimensão eucarística: nós formamos um só com Jesus a refletir para mundo sua glória. Para isto devemos fazer o caminho eucarístico da Cruz.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida:

 

  • Que particularidades tem o relato da Transfiguração na versão de Mateus?

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Onde estão as ênfases do texto? (pista: ver, ouvir; o “eis que…”; a regressão, etc.).

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  • Qual o sentido da transfiguração de Jesus, da aparição de Moisés e Elias, da nuvem luminosa?

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Por que Pedro quer ficar na Montanha?

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Em que pontos de vida espiritual estou trabalhando nesta quaresma?

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SEXTA-FEIRA

Mateus 16,24-28

SEGUIR FIELMENTE AO MESTRE

“Se alguém quer me seguir…”

 

Qual o modo de “pensamento de Deus”, que Pedro e os discípulos devem aprender? O verdadeiro discipulado não se alcança fácil porque é um “seguir fielmente” (16,24c) o exemplo do Mestre Jesus e isto tem seu preço.

 

É assim como começa uma instrução de Jesus, “a seus discípulos”, sobre a natureza do discipulado.

O ensinamento tem três partes:

  • O “Que”: (uma sentença + um “porque”): Se o Mestre Jesus suporta um caminho de sofrimento e morte (16,21-23), igualmente os discípulos estão chamados a dar suas vidas e carregar a cruz (16,24). Dá-se a motivação fundamental para fazer (16,25: um paralelo que contrapõe “salvar a vida” / “perder a vida”).
  • O “Argumento”: (uma sentença + um “porque”): Com duas perguntas retóricas (que trazem implícita a resposta), uma positiva e uma negativa, Jesus ensina que há que “transcender”, que vida plena não se ganha neste mundo (16,26), mas no vindouro (16,27). Aqui se dá uma contraposição de valores: “ganhar o mundo inteiro” / “ganhar a vida”.
  • A “Verificação”: (um segundo aspecto do “porque” anterior): Na confrontação final com Jesus, que virá em sua glória de “Filho do homem”, se verá quem foi verdadeiro discípulo, a partir de um critério fundamental: “Sua conduta” (16,27). Temos uma série de frases que se desprendem da proposta fundamental do “negar-se a si mesmo, tomar a cruz e seguir” a Jesus.

 

É difícil pensar que se possa pedir algo mais alto, mais duro, a um ser humano. Porém, o que se tem em vista é a “Vida”: notemos como nos vv.25-26 se repete quatro vezes o termo “Vida”. Até parece que se está falando em termos negativos, ao propor “tomar a cruz”, mas, sem dúvida, toda a ênfase do ensino é de um insondável valor positivo: a vitória da Vida.

 

Seguir ao Mestre carregando a Cruz (16,24-25)

 

“Se alguém quer me seguir…”. Depois da imprudente, porém honesta, reação de Pedro, Jesus ensina que ser discípulo significa segui-lo no caminho para Jerusalém, onde lhe espera a Cruz. Entrar nesta rota supõe uma escolha livre: “Se alguém quer”.

 

No horizonte está a Cruz de Jesus, a qual foi Ele o primeiro a tomar.  Ante ela, e imitando ao Mestre o discípulo faz três coisas:

 

  • Se “nega a si mesmo”: significa não antepor nada ao seguimento. O valor de Jesus é tão grande que se é capaz de deixar de lado o que possa ir em contradição com Ele e seus ensinamentos.

 

  • “Toma sua (própria) cruz”: Estar pronto a seguir levando a cruz implica estar pronto a dar a vida. Pode entender-se como: a radicalidade de quem está disposto a ir até o martírio para manter sua opção por Jesus; fortaleza e perseverança frente aos sacrifícios e dissabores que a vida cotidiana do discípulo comporta; capacidade de “amar” e transformar a adversidade em fonte de vida.

 

  • “Segue” a Jesus: Em fidelidade ao Mestre, como alguma vez propôs São Francisco, o discípulo põe cada passo na rota do Mestre.  A motivação fundamental é esta contraposição: Pois quem quer salvar sua vida, a perderá, porém quem perder sua vida por mim, a encontrará (16,25). Estas duas possibilidades, postas agora em consideração, iluminam o sentido do seguir a Jesus com a cruz partindo da ideia da vida. Em poucas palavras: a meta do discipulado é encontrar a vida, o qual corresponde ao desejo mais profundo de todo ser humano.

 

Agora, esta meta pode ser alcançada, ou fracassada, somente de maneira radical, não há soluções intermediárias. A vida, aqui, e mais além da morte, se consegue mediante um gesto supremo de doação da própria vida.

 

Há falsas ofertas de felicidade (ou “realização da vida”) que conduzem a perca da vida; a vida é sempre um dom que não podemos dar a nós mesmos, ao contrário, pensamos que sempre estamos em capacidade de dar. Nesta lógica, quem perde a própria vida por Deus e pelos demais, “a encontrará”. O discipulado, sob a perspectiva da cruz, não é um caminho de infelicidade, ao contrário: O sentido último do seguimento é alcançar a vida!

 

Uma sábia decisão que tem que tomar com base em argumentos sólidos (16,26)

 

Em seguida Jesus expõe duas perguntas que levam a conclusões irrefutáveis. Estas estão formuladas de tal maneira que só podem ter uma resposta negativa: “De que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se arruinar sua vida?”; resposta óbvia: “De nada”. “Que pode dar o homem em troca de sua vida?”; resposta obvia: “Nada”.

 

Para captar o específico do que disse Jesus há que considerar a característica própria da ideia da vida. Não se fala aqui da vida como de um valor biológico, de uma vida longa e Oxalá com boa saúde. Trata-se do sentido da vida.

 

A verdadeira vida, a qual, segundo a Bíblia Sagrada, se alcança na comunhão com Deus, se conquista, em última instância, mediante o seguimento de Jesus. O seguimento de Jesus é, então, um caminho completamente orientado à vida, à existência plena e realizada.

 

Esta, se põe em risco quando se vive de modo equivocado, quando se constrói sobre falsas seguranças. Ao referir-se ao que quer “ganhar (=conquistar) o mundo inteiro”, Jesus denuncia a falsa confiança posta em propriedades, conquistas e ideais terrenos e riquezas.

 

A isto já tinha se referido, o evangelista, no relato das tentações de Jesus: a busca e o apego ao poder, ao prestígio, ao que é terreno, como caminhos de felicidade ou como metas de vida. Ninguém pode dar-se a si mesmo a vida e seu sentido. Assim havia expressado já o Salmo 49,6-8: “Por que temer em dias de desgraça / quando me cerca a malícia dos que me hostilizam,/ o que põe sua confiança em sua fortuna/ e se gloria de sua grande riqueza? / Se ninguém pode redimir-se (a si mesmo) / nem pagar a Deus seu resgate!”.

 

Porém, é verdade que se o Salmo 49 é uma advertência sobre a morte, o Evangelho prefere enfatizar a verdadeira vida. Portanto, um sério perigo ameaça a quem quer, desaforadamente, “ganhar” o mundo inteiro apoiando-se em imagens de felicidade que parecem converter-se em fins em si mesmos, entre eles a carreira profissional, o prestígio ou o orgulho pelas próprias conquistas.

 

O verbo em futuro, na expressão “de que servirá ao homem?”, convida a por o olhar no tempo final, no qual cada um verificará em si mesmo se tem conquistado ou não o objetivo de sua vida.

 

A responsabilidade do discípulo no tempo final: dar conta da “práxis” (16,27)

 

Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com seus anjos, e então pagará a cada um segundo sua conduta”. Finalmente, e estendendo, mais ainda, o olhar para o futuro, Jesus faz referência ao tempo final da vinda do Filho do Homem: onde se valoriza a vida como um todo. A valorização está nas mãos do Filho do homem; os anjos aparecem formando sua corte.

 

A expressão “na glória de seu Pai” indica Jesus como Filho de Deus. O “Filho do homem” que, havendo passado pela humilhação e a rejeição, culmina seu caminho triunfante, é, em última instância, o “Filho de Deus”; o mesmo a quem Pedro, sem captar todas as implicações, havia confessado como tal, um pouco antes. Diante do “Filho” por excelência se manifesta a verdade de todo homem.

 

Neste momento de revelação final, cada homem deve responder por sua vida. Este é um pensamento bíblico bem afirmado (Sl 62,13; Pr 24,12; Rm 14,12; 1 Cor 4,5; 2 Cor 5,10). Particularmente para o “discípulo” de Jesus é a hora da verdade de seu discipulado. A síntese do critério de juízo sobre o agir humano não é o que este tem dito ou prometido fazer (Mt 7,21-23) mas seu “fazer” real: “Pagará a cada um segundo sua conduta” (em grego disse “práxis”).

 

No Sermão da montanha, Jesus havia dito: “que fazer a vontade de meu Pai celestial” (7,21) e também “por seus frutos os conhecereis” (7,16ª); também na parábola do rei: “quanto fizestes… quanto deixastes de fazer” (25,40.45). Esta práxis não está referida só a ações particulares, como pensavam os rabinos, mas ao estilo de vida, a vida entendida como unidade.  Enfim, não é suficiente fazer belas confissões de fé de boca, como vimos semana passada. O discipulado é modelar a vida inteira na dinâmica do seguimento do caminho à Cruz para receber ali, do Pai, a vida ressuscitada.

 

A Cruz não é só para ser contemplada, mas para fazê-la realidade em todas as circunstâncias da nossa vida. Deste modo, o discípulo reconhece e assume o destino de seu Mestre no seu próprio destino.

O discipulado é um caminho de vida, uma verdadeira vida que vale a pena descobrir. E é para todos, não só para os apóstolos.

 

  1. Cultivemos a semente da Palavra no coração

 

  • Que é discipulado?

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Quais os requisitos?

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  • Como aparece o caminho de Jesus para Jerusalém?

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Que caminho está chamado a percorrer o discípulo de Jesus?

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Por que fazê-lo?

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  • Por que Pedro reagiu negativamente ante o anuncio da cruz?

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Como reajo frente meus sofrimentos, dificuldades e adversidades? Que digo?

 

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Que “visão” se esperaria que tivesse um discípulo de Jesus?

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  • Não caminhamos sós, mas em Igreja. Em que me implica, este evangelho, com respeito à minha família, à minha comunidade?

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Que deve diferenciar-nos ante outros modelos de felicidade que traça a sociedade?

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SÁBADO

Mateus 17,14-20

O PODER DA FÉ.

“Por que nós não pudemos expulsá-lo?”

 

As historias de fé que nos tem acompanhado ao longo dessa semana na “Lectio Divina” podem ser relidas neste sábado desde este ponto de vista: temos a fé suficiente para operar transformações profundas em nossa vida e na dos outros?

 

Chama à atenção como um atribulado pai de um menino, o qual carrega uma enfermidade que parece ser a loucura e a epilepsia, lamenta-se diante de Jesus porque os discípulos foram incapazes de realizar a cura: “apresentei-o a teus discípulos, porém eles não puderam curá-lo” (17,16).

 

A frase “não puderam” soa trágica, tratando-se de discípulos aos quais Jesus capacitou convenientemente: “deu-lhes poder sobre os espíritos imundos para expulsá-los e para curar toda enfermidade” (Mt 10,1). O fracasso dos discípulos tem a ver com aquilo que é a razão de ser de sua missão, não é um problema secundário.

 

Este texto ilumina situações semelhantes na vida da Igreja:

  • quando uma missão fracassa (as pequenas comunidades se acabam);
  • quando enfrentamos um desafio pastoral e, ao final, descobrimos que não podemos fazer nada, ou talvez, só muito pouco;
  • quando uma pessoa, que inicia um caminho de conversão, a principio o faz entusiasmado, mas, aos poucos, se dá conta que seus pecados ganham a batalha.

 

Frente a toda sensação de cansaço e de desilusão é que se pronuncia este evangelho: “Por que não pudemos?” (Mt 17,19).

 

No momento da realização do milagre fica claro que em Jesus está todo poder: “Jesus ordenou e o demônio saiu dele; e ficou curado o menino desde aquele momento” (17,18). Porém, aparece também um aspecto que introduz a resposta final da parte de Jesus: os discípulos não estão em completa sintonia com Jesus.

 

O contexto desta passagem é o anuncio da Cruz, fato que os discípulos ainda não haviam aceitado: “E eles o matarão, mas no terceiro dia ressuscitará. E eles ficaram muito tristes” (17,23).

 

A resposta de Jesus ao pedido de explicação de seus discípulos vai à altura: “Por vossa pouca fé” (17,20a). Jesus não encontra a fé que pede, nem em seus discípulos, nem no povo (“Geração incrédula”, 17,17). Fé em que?

 

Ora, Pedro, em nome de todos, já havia confessado a fé em Jesus (“Simão Pedro, respondendo, disse: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, 16,16). Sem dúvida, ele mesmo, que já havia sido chamado, antes, de “homem de pouca fé” (14,31), se opôs ao anuncio da paixão (“Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não o permita, Senhor. Isso jamais o acontecerá”, 16,22).

 

A questão não é saber dizer quem é Jesus, mas identificar-se com o que Ele é e com o seu caminho; é aqui onde a fé começa a debilitar-se. E só em comunhão com Jesus se pode realizar a missão, de outra maneira é inútil é esforço.

 

Jesus pede pelo menos o “mínimo”, por isso cita o provérbio que se refere ao menor: “como um grão de mostarda” (17,20b). A fé que Jesus encontra nos discípulos é “pouca”, ou melhor, é praticamente nula. A mínima fé já é uma grande fé e alcança o que parece impossível: trazer a salvação, fazer milagres, levar aos outros também a um caminho de fé. Jesus, que expulsou o demônio com o poder de sua Palavra, também fala do que faz uma palavra dita com fé, quer dizer, em comunhão com Ele, enquanto Senhor morto e ressuscitado: mudar de lugar uma montanha (17,20c).

 

O poder da fé não é mais que o exercício do poder da Palavra que já tem sido aceita na própria vida: a Palavra da Cruz e da Ressurreição, força poderosa que transforma o mundo. Um apóstolo é aquele que, fazendo o caminho da Cruz junto com seu Mestre, vive, a fundo, o poder da vida que brota da Cruz ressuscitada e é capaz de fazer presente esse poder no mundo para realizar grandes transformações ali onde o mal parece reinar.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  1. Que pretende suscitar em nós o evangelho de hoje?

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  1. Há alguma situação difícil, pessoal, familiar ou social, que, “tendo ficado grande”, não consigo superar, apesar de todas as orações que tenho feito? Que tenho que fazer?

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  1. Que relação tem a fé dos discípulos com o anuncio da Paixão e Morte de Jesus?

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  1. Que se entende então por fé nesta passagem?

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Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

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