ESTUDO BÍBLICO NA 18ª SEMANA DO TEMPO COMUM

PISTAS

Um apoio para a Lectio Divina 18ª Semana da Tempo Comum

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

 

SEGUNDA-FEIRA

Mateus 14,13-21

MISERICÓRDIA EM AÇÃO: UM PASTOR QUE CURA E QUE ALIMENTA SUAS OVELHAS

E partindo os pães deu aos discípulos, e os discípulos ao povo”

 

No belíssimo texto de Mateus 9,36, o evangelista nos havia apresentado Jesus como “Pastor” que vem ao encontro das necessidades do povo. Ali o vemos profundamente comovido frente à multidão “cansada e abatida como ovelhas que não tem pastor.

 

Hoje o Evangelho nos coloca frente a um caso concreto de todo este panorama: frente ao problema da fome, das enfermidades, da desorientação na vida, e, sobretudo, ante o desejo de todo este povo, de superar suas limitações, brilha a misericórdia e o serviço de Jesus.

 

Nosso texto se desenvolve em três pequenas cenas, todas elas tecidas entre si e ao mesmo tempo com sua própria mensagem. Porém – por razões pedagógicas – entre a segunda e a terceira vamos inverter a ordem:

 

  1. Jesus cura à multidão (14,13-14)

 

Chama a atenção à sequência das ações de Jesus. São três passos que somos chamados a exercitar em nós para fazer nossa vida semelhante à de Jesus:

  • Viu” (=com atitude analítica)
  • Compadeceu-se” (=com atitude de misericórdia, de apropriação) e
  • Curou” (=ação efetiva)

E notemos que Jesus salva a vida de seu povo renunciando a sua própria comodidade (estava buscando “um lugar solitário”, 14,13) e arriscando sua própria vida ao realizar uma atividade pública e massiva quando acaba de morrer João Batista e a situação se pôs perigosa também para Ele (Jo, 14,12).

 

  1. Jesus alimenta a multidão (14,19-21)

 

Jesus não só cura, mas também sacia a fome do povo.  “Ao entardecer” (v.15ª). Segundo o costume israelita esta é a hora que se toma a comida principal do dia.

Têm razão os discípulos quando advertem que “a hora já é passada”(v.15b); se entende que para atividades públicas, todos já deveriam estar em suas casas partilhando a ceia com suas respectivas famílias ou ao menos na procura desta nos povoados mais próximos (v.15c).

Notemos algumas particularidades:

  • A comida que Jesus lhes oferece nesse entardecer concorda com a que era habitual para gente simples camponesa: pão e pescado com sal.
  • A novidade é que Jesus vai oferecer o alimento com seu próprio poder. O fato de que estejam em “lugar desabitado” (14,15b; ou “deserto”) sublinha a grandeza da ação de Jesus.
  • É tal a abundância que todos ficam saciados e até se recolhe doze cestas cheias de sobras.

 

Jesus se comporta como um pai que forma sua comunidade familiar reunindo-a, atendendo suas necessidades e ensinando-a a compartilhar solidariamente. Os gestos principais de Jesus, que evocam os da Eucaristia (agradecer, partir, dar), nos mostram como é que Jesus forma sua comunidade.

 

  1. Jesus desafia seus discípulos (14,15-18)

 

Justo em meio das duas cenas em que Jesus cura e alimenta, o evangelista Mateus insere um diálogo de Jesus com seus discípulos; ali: Pede-lhes um impossível; interpela o seu ceticismo, que se sente quando nos sentimos incapazes de mudar uma realidade; ensina-lhes a confiar em seu poder.

 

Os discípulos então aprendendo que Jesus tem poder e por esta via seguem descobrindo pouco a pouco a identidade de seu Mestre. Novamente nos encontramos com o caminho da fé do discípulo e desta vez o Evangelho coloca seu fundamento: a ação messiânica (e Eucarística) de Jesus.

 

Jesus não só sacia a um povo, mas surpreende seus discípulos tomando o pouco que tem a comunidade para fazer o dom (multiplicado em suas mãos) para os demais. Jesus é o solidário por excelência com a humanidade carente, Ele é o Messias de Deus que há que descobrir.

 

O discipulado supõe um compromisso concreto de fé e de comunhão com as ações de Jesus para que todos vivam em plenitude e para que tenha pão em todas as mesas. O primeiro passo da fé e do compromisso é dar com alegria e solidariamente do pouco que se tem.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Como vejo a realidade de meu povo e de minha comunidade hoje? Quais suas necessidades?

Que relação há entre a multiplicação dos pães e o exercício do pastoreio numa família/comunidade?

  • Que me ensina o relato para que meu compromisso como discípulo de Jesus seja real e efetivo?
  • Que valor tem o compromisso solidário – desde uma vida de fé – com o irmão em nosso país?

 

TERÇA-FEIRA

Lucas 9,28b-36

QUANDO O PANORAMA SE TORNA OBSCURO.

“Enquanto orava, o aspecto de seu rosto mudou”

 

O caminho de Jesus leva a Glória, mas passa pela Cruz. Assim, afirmou o Ressuscitado aos peregrinos de Emaús: “Não era necessário que o Cristo padecesse isso e entrasse assim em sua glória?” (Lc 24,26).

Em termos semelhantes Paulo exorta às comunidades recém-fundadas para incentivá-las a continuar na fé:      “É necessário passar muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Este é o caminho do discípulo, mas verdade seja dita, não é fácil compreendê-lo.

O relato da Transfiguração do Senhor se apresenta como um esforço para entender o mistério da Cruz. Segundo Lucas trata-se de uma forte experiência de oração da parte de Jesus onde três dos discípulos são testemunhas.

Uma oração onde vê-se Moisés e Elias em sua glória em diálogo com Jesus e cujo tema é a paixão, entendida como um “Êxodo” que se dá em Jerusalém; que, não só Jesus discerne seu caminho, mas também os discípulos, ao ser convidados a negar a si mesmos, tomar sua cruz cada dia e seguir o mestre (ver 9,23).

Que, com este chamado ressoando em seus ouvidos eles entram na cena. A palavra decisiva provém do Pai, que envolve, não só Jesus com sua glória, mas também os discípulos com sua nuvem. No meio do silêncio final se aguarda a resposta dos discípulos.

No segundo domingo da quaresma passada já abordamos amplamente este Evangelho, quase palavra por palavra. Hoje, nesta festa da Transfiguração, convidamos a retornar àquela leitura e a dar um passo em frente na “lectio” mediante de uma “Escola de Pais”.

Em busca da clareza

Alguns interpretam o episódio da transfiguração como um consolo, como um raio de luz que Jesus dá a seus discípulos de modo antecipado no caminho obscuro da cruz.

Assim, seus discípulos não se perderiam na escuridão da paixão. Mas, na realidade o evento pretende deixar algo mais profundo: não só entender, mas seguir as pegadas do Mestre para serem transfigurados com Ele, participando de sua glória de ressuscitado.

Sendo assim este evento seria já um bom convite ao diálogo entre Jesus e os seus, um diálogo que também nós poderíamos continuar hoje especialmente em momentos difíceis e de escuridão, quando buscamos na oração um raio de luz que nos permita compreender o sentido do que nos acontece, especialmente das situações que impedem nossa visão de futuro, fazendo destas situações um caminho para uma transfiguração.

 

Convidados à montanha

 

Apreciemos um pouco a cena: Jesus convida três dos seus a subir o monte. Lá, “enquanto orava, seu rosto mudou” (9,29) e Pedro e seus companheiros “viram sua glória” (9,32). É como se a ação interna e luminosíssima ação do Espírito Santo que habitava nele se tornasse, por assim dizer, transparente. Jesus parece dizer: “Olhem que serei”.

 

Diante sesta provocação reage assim Pedro: “Mestre, bom é estarmos aqui” (9. 33). Em seu êxtase, Pedro, que não dormia, quer que a visão dure toda a vida. Para isso eram as três tendas, e nem sequer pensou em uma para ele. Pedro quer pelo menos poder estar lá contemplando o rosto e continuar a ouvir sua conversa com Moisés e Elias. O que mais podia querer alguém na vida, senão poder chegar a contemplar o rosto de Deus? O Salmo 27,8 já orava assim: “Teu rosto buscarei Senhor, não me escondas teu rosto”.

A linguagem de Pedro é bíblica, porque a palavra “tenda” para ele é sagrada, indica a sala onde Deus limita sua presença e isso evoca a experiência de Israel no deserto. Mas a contemplação do rosto de Jesus não pode paralisar nossa caminhada, nem, muito menos, apartar-nos da visão das realidades concretas da vida, duras realidades que temos que enfrentar no nome e com o Espírito do Senhor.

 

Contudo, Pedro não estava equivocado.  E a descida da nuvem e a palavra do Pai não é uma correção às suas palavras, mas uma complementação. As tendas são para viajar, não para instalar-se, nisso Pedro estava certo. Mas Deus Pai agora acrescenta que o itinerário com a tenda ao ombro deve seguir as indicações de Jesus. Só Jesus pode indicar o caminho e por isso é preciso ouvi-lo.

 

E o caminho que Jesus propõe a seu discípulo é a Cruz. Quanto a Pedro, este tem que fazer um aprendizado: a contemplação do rosto do Mestre pode converter-se em uma fuga da realidade se não está acompanhada da escuta de suas palavras sobre o tomar a Cruz e segui-lo. E a tenda que o peregrino leva sobre o ombro é a Cruz, que é a palavra-chave, que, em última instância, é uma Palavra reveladora que vem de Deus Pai.

 

Uma visão de esperança

 

Oxalá também nós entremos em diálogo. Dialogando com Jesus na oração podemos viver uma experiência de transfiguração que nos permita entender que nosso destino não é a cruz (os infortúnios da vida, a morte), mas a ressurreição (a plenitude da vida em Deus), que as obscuridades que vivemos hoje são etapas de um caminho, que será luminoso e salvífico se o percorremos com Jesus.

Por isso a transfiguração é um chamado à esperança, para que não nos limitemos em nossos problemas, ou pior, para que não construamos uma espiritualidade de fuga dos problemas, fazendo da oração um esconderijo que, na realidade, não resolve os problemas.

Da oração devemos sair com uma nova compreensão dos nossos problemas. Saber estar ante Jesus na transfiguração nos educa para também saber estar frente do túmulo vazio sem empreender a fuga. Temos necessidade da transfiguração, do estupendo atuar trinitário nos pequenas e nos grandes acontecimentos de nossa vida, um atuar que põe à luz o sentido e o destino do que vivemos.

 

Uma transfiguração em família

 

É como aconteceu a um jovem. Tinha trabalho, dinheiro no bolso, ia com amigos nos finais de semana para a discoteca. Mas veio um mal incurável. A notícia foi recebida com muita dor por todos. Seus pais foram os primeiros a pensar que seu filho afundaria na dor e na culpa.

 

Mas parece que não o conheciam bem. Este aceitou o desafio, lutou, encontrou significado para a vida em seu novo estado. Graças a um grupo de amigos na sua paróquia, aprendeu a orar e se fez transparente. Tão transparente que se tornou luz para os outros, para seus pais em primeiro lugar. Graças a esta transfiguração que se associava à paixão e morte de Jesus, conheceram a verdade. A semente da Ressurreição está oculta em cada obscura cruz.

Cultivemos a semente da palavra na profundidade do coração

 

  • Há alguma situação dolorosa na minha vida que não vejo sentido?
  • Que quer dizer a frase: por meio da Cruz se chega à ressurreição? Como consegui-lo?
  • Para que convidou Jesus aos seus discípulos para a montanha? Para que me convida?

Minha vida reflete o rosto de Jesus?

QUARTA-FEIRA

Mateus 15,21-28

ANTE A HUMILDADE DA MULHER CANANEIA: QUE TAMANHO É MINHA FÉ?

“Mulher, grande é tua fé; que te aconteça como desejas”

 

Com o relato do itinerário de fé da mulher cananeia entramos no quarto quadro da  galeria apresentada pelo evangelista Mateus. O quadro anterior havia sido o do processo lento e doloroso vivido por Pedro no meio do lago, a ele Jesus havia falado de sua “pouca fé”, de sua “dúvida”.

 

O quadro de hoje, ao contrário, é radiante: a fé valente duma mulher felicitada por Jesus e a quem conhecemos como “a cananeia”. Mateus prefere chamá-la “cananeia” e não “siro-fenícia”, como faz o evangelista Marcos, talvez para fazer-nos sentir mais a grandeza de sua confissão de fé: de um cananeu não se esperaria tanto. De fato, o povo cananeu é recordado, continuamente, no mundo do Antigo Testamento, como um povo estranho e idólatra; inclusive, desde os tempos de ocupação da terra, que Israel considerava estes antigos povoadores de Canaã como gente grosseira e hostil.

 

Esta mulher emerge, repentinamente, de dentro dessa penumbra. Não só frente à fé de Pedro, ainda em germe, mas também frente à falta de fé dos fariseus e saduceus, aos quais, Jesus recordou a profecia de Isaías (“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”; 29,13, citado em Mt 15,8), a mulher, mãe, cananeia, mas também sofrida, emerge como modelo de fé: “Mulher, grande é tua fé!” (v.28).

 

O grito de fé da cananeia nos põe em contato com uma realidade profundamente humana: Que não faria uma mãe de família para conseguir que sua filha seja curada e salva? Esta mãe de família, apresentada como uma das mulheres fortes do Evangelho nos ensina seu próprio caminho de fé através da rota da oração que passa por diversos tropeços. Notemos:

 

A mulher ora de longe

 

A mulher vai gritando atrás do grupo que acompanha Jesus. Em seu grito vê-se sua agitação interna, sua confusão, seu sofrimento. O seu grito tem uma grande força que se percebe em cada termo que utiliza:

  1. Invoca “piedade”. Como se faz, frequentemente, nos Salmos (6,2; 9,13; 24,16, 51,3 e outros).  Foi dito que é uma pagã, dai que surpreenda que ponha em seus lábios o melhor da oração de Israel.
  2. Dar dois títulos a Jesus, “Senhor” e “Filho de Davi”. Títulos que evocam o mistério de Jesus que os discípulos vão conhecendo gradualmente. Sua oração se insere em uma experiência de Jesus, ou seja, não é, simplesmente, um favor que é pedido, sem penetrar em seu mistério.
  3. Expressa a realidade de sua filha: “está endemoninhada”(15,22). Não pede que a cure, simplesmente disse que se passa. A mulher apela ao Jesus “pastor”, para quem é suficiente “ver” para “compadecer-se” e “agir”.

 

Os discípulos querem desfazer-se dela

 

Os discípulos intervêm e fazem com que se rompa o silêncio que, até o momento, Jesus tem guardado. As palavras dos discípulos soam mais como um pedido para “retirá-la” que a um verdadeiro gesto de misericórdia. Eles estão cansados dos gritos desta senhora, eles não parecem realmente interessados nela.

 

A resposta de Jesus nos recorda seu falar sobre os destinatários da missão em Mateus 10,6, onde limitou sua missão ao mundo de Israel (10,40 e 21,37). Porém, quando olhamos o todo do Evangelho de Mateus, compreendemos que esta aparente limitação se refere a uma etapa da missão e não definitivo, visto que, ao final do Evangelho, o destinatário da missão é o mundo inteiro (Mt 20,19-20).

 

Daí que as palavras de Jesus se compreendem melhor como uma advertência ao povo de Israel (o povo da oração sálmica), que foi o primeiro destinatário de sua obra salvífica, porém, que vem progressivamente fechando-se a seu anúncio. Portanto, a fé da mulher cananéia, será um juízo para o povo de Israel, e a cura de sua filha, o prelúdio de sua nova etapa missionária.

 

A mulher ora perto

 

Agora a mulher aparece frente a Jesus, a quem já pode abordar diretamente. A impressão que se tem é que ela não escutou o diálogo anterior de Jesus com os discípulos, pois irrompe, de repente, com sua súplica, que, desta vez, aparece mais rica e profunda:

  • “Prostra-se” em adoração (recorda-nos o gesto das mulheres na manhã da páscoa (28,9.17).
  • Chama Jesus, novamente, de “Senhor” (recordemos o grito de Pedro sobre o lago).
  • Expressa seu pedido: “Socorre-me” (recorda-nos os Salmos 43,26; 69,5; 78,9;108,26 e outros).

 

No diálogo com Jesus, o dom do “pão” ocupa um lugar central. Significa a plenitude do bem e que é o dom próprio de um pai para seus filhos. Sabiamente a mulher retoma as palavras de Jesus e as põe a seu favor: aos pequenos cabem as migalhas que caem da mesa dos patrões.

Ela faz uma profunda reflexão: vê os filhos como seus patrões, compreendendo a obra de Jesus com ela como a extensão de sua missão ao povo judeu, seu rebanho (Is 53,6; Mq 2,12). A mulher sabe se colocar no lugar dos pequenos que entram no Reino (18,4). Então Jesus lhe concede o pedido.

Como esta mulher vê Jesus? A mulher suspeita que este Filho de Israel tenha um coração grande e que, no banquete que Ele dá, o pão é de uma abundância tão grande, tão extraordinária, que é para todos, não importa os comensais. Esta mulher intui que, onde está a salvação, todos podem se beneficiar.

Este itinerário de fé e de oração da mulher é importante para nós, nos permite ver o fundo espiritual, os gestos, as palavras e, sobretudo, a atitude fundamental de uma oração de intercessão. E um dado importante: trata-se de uma oração auto-incluente, o seja, ao pedir por sua filha esta mulher pede também por si mesma (“Tem piedade de mim”, “Socorre-me”), mostrando, assim, que leva em seu coração orante, a dor de sua filha e que, portanto, também a mãe necessita de cura.

A identificação de fundo, fazendo própria a dor daquele pelo qual se suplica é característica de uma autêntica oração. “Mulher, grande é tua fé!” (15,28).

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • (mulheres) Que me ensina a cananeia para minha identidade e missão de mulher na Igreja e na sociedade?
  • (Para os homens:) Reconheço e valorizo a identidade e a espiritualidade da mulher no agir, em minha comunidade, na sociedade?
  • Minha experiência de fé se traduz em atitudes de confiança filial na misericórdia divina? Em que se percebe?

 

 

 

QUINTA-FEIRA

Mateus 16,13-23

A CONFISSÃO PÚBLICA DA IDENTIDADE DO MESTRE: QUAL A PROFUNDIDADE DA MINHA FÉ?

“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”

 

Seguindo o ritmo do Evangelho de Mateus nos colocamos, hoje, diante da experiência de fé mais alta e mais clara, depois do quadro negativo dos compatriotas de Nazaré; das interpretações erradas do rei Herodes; da fé em progresso do próprio Pedro; e do grito de ajuda, visto como autêntica expressão de fé da mulher Cananéia

 

Hoje nos colocamos ante a confissão de fé de Pedro. O contexto imediatamente anterior é importante. Esta quinta cena se apresenta em contraste com dois relatos prévios, nos quais os fariseus e saduceus:

  • São repreendidos por Jesus por pedir um sinal para crer (Mt 16,1-4) e, de fato, Ele não lhes dá um sinal diferente do de sua missão (explorar os sinais dos tempos);
  • São postos como exemplo da atitude e da doutrina que não devem seguir (Mt 16,5-12).

 

O Evangelista também está supondo que conhecemos todo o itinerário de Jesus, que vem sendo narrado e que entendemos que este é o ponto de chegada da sua atividade anterior. Curiosamente Jesus nunca pediu a seus discípulos que lhe dessem uma opinião sobre seus discursos ou sobre as obras de poder que realizava, mas apenas sobre sua própria pessoa.

Para Jesus isso é importante: o que estão compreendendo acerca de sua identidade? É desta maneira que os quer conduzir até um conhecimento claro e profundo, do qual brota uma confissão de fé sem equívocos. Portanto, no centro do Evangelho não está tanto seu anúncio, mas a própria pessoa de Jesus. Quando Jesus pergunta o que dizem as pessoas sobre Ele, o respondem: “Uns que é João Batista; outros, que é Elias, outros, que é Jeremias ou um dos profetas” (16,14).

As pessoas têm Jesus em uma alta conta, mas não passando de uma figura profética semelhante à dos grandes profetas. Nesse caso, seria um dos muitos que já vieram antes, e de outros que virão depois. Com esta classificação se deixa claro que já há uma grande valorização de Jesus, mas que há o perigo de não ir além das rotulações já conhecidas; portanto, a opinião pública não atingiu ainda o que realmente importa: a descoberta da relação inédita, única e particular, que Jesus tem com Deus.

Quando Jesus pede aos discípulos sua própria opinião, Simão Pedro responde: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (16,16). O Apóstolo reconhece o duplo relacionamento que caracteriza, de modo inequívoco, a Jesus:

  • Para o povo é o “Cristo” (Messias): o único, o último e definitivo rei e pastor do povo de Israel, enviado por Deus para dar a este povo e a toda a humanidade a plenitude da vida (como já se viu na multiplicação dos pães e em outros milagres);
  • Para Deus é seu “Filho”: vive em um relacionamento único e singular com Deus, caracterizado pelo conhecimento mútuo, pela igualdade e a comunhão de amor entre o Pai e Ele (consulte 11,27).

 

Aqui não se trata de um Deus abstrato nem genérico, trata-se do Deus vivo, o único verdadeiro e real, que é a vida em si mesmo, que criou tudo o que é vida e com seu imenso poder vence a morte. Jesus é rei-pastor, o que, enquanto Filho do Senhor da Vida, compromete-se com a vida do seu povo. É o Messias que está profundamente ligado ao próprio poder vital do Deus vivente. O dom da vida será comunicado através da doação de sua própria no caminho da Cruz, conforme o texto de hoje (16,21).

A reação negativa de Pedro o leva a merecer a repreensão e ser chamada “Satanás”, porque pensa a nível humano e não aceita o caminho de sofrimento de Jesus (16, 22-23). Quanta ironia! Ao modelo de discípulo Jesus diz, na frente de toda a comunidade: “Tu és escândalo”! (16,23). O cume do caminho de fé não é a confissão de boca, mas a confissão com a vida. No caminho da Cruz vai tomar corpo este tipo de confissão de fé que precisava, em primeiro lugar, passar pelos lábios.

Terá então que começar a andar nesta segunda etapa, com uma abertura de coração de mente total ante o projeto de Deus: a plenitude de vida que brota do mistério da dor vivido em comunhão íntima com o crucificado, onde faz sentido toda a vida, todo projeto, toda realização.

 

Cultivemos a semente da palavra na profundidade do coração

 

  • Que opinião de Jesus têm as pessoas com as quais trato cotidianamente em ambientes distintos aos de minha comunidade de fé? É parecida com a opinião das pessoas do tempo de Jesus?
  • Como expresso minha fé, com que termos? Pedro expressa o que eu, pessoalmente, estou vivendo de Jesus?
  • Que poderia fazer para a pessoa de Jesus esteja sempre no centro de minha vida?

 

 

SEXTA-FEIRA

Mateus 16,24-28

SEGUIR FIELMENTE AO MESTRE

“Se alguém quer me seguir…”

Qual o modo de “pensamento de Deus”, que Pedro e os discípulos devem aprender? O verdadeiro discipulado não se alcança fácil porque é um “seguir fielmente” (16,24c) o exemplo do Mestre Jesus e isto tem seu preço.             É assim que começa uma instrução de Jesus, “a seus discípulos”, sobre a natureza do discipulado.

O ensinamento tem três partes:

  • O “Que”: (uma sentença + um “porque”): Se o Mestre Jesus suporta um caminho de sofrimento e morte (16,21-23), igualmente os discípulos estão chamados a dar suas vidas e carregar a cruz (16,24). Dá-se a motivação fundamental para fazer (16,25: um paralelo que contrapõe “salvar a vida” / “perder a vida”).
  • O “Argumento”: (uma sentença + um “porque”): Com duas perguntas retóricas (que trazem implícita a resposta), uma positiva e uma negativa, Jesus ensina que há que “transcender”, que vida plena não se ganha neste mundo (16,26), mas no vindouro (16,27). Aqui se dá uma contraposição de valores: “ganhar o mundo inteiro” / “ganhar a vida”.
  • A “Verificação”: (um segundo aspecto do “porque” anterior): Na confrontação final com Jesus, que virá em sua glória de “Filho do homem”, se verá quem foi verdadeiro discípulo, a partir de um critério fundamental: “Sua conduta” (16,27). Temos uma série de frases que se desprendem da proposta fundamental do “negar-se a si mesmo, tomar a cruz e seguir” a Jesus.

É difícil pensar que se possa pedir algo mais alto, mais duro, a um ser humano. Porém, o que se tem em vista é a “Vida”: notemos como nos vv.25-26 se repete quatro vezes o termo “Vida”.

Até parece que se está falando em termos negativos, ao propor “tomar a cruz”, mas, sem dúvida, toda a ênfase do ensino é de um insondável valor positivo: a vitória da Vida.

Seguir ao Mestre carregando a Cruz (16,24-25)

“Se alguém quer me seguir…”. Depois da imprudente, porém honesta, reação de Pedro, Jesus ensina que ser discípulo significa segui-lo no caminho para Jerusalém, onde lhe espera a Cruz. Entrar nesta rota supõe uma escolha livre: “Se alguém quer”. No horizonte está a Cruz de Jesus, a qual foi Ele o primeiro a tomar.

Ante ela, e imitando ao Mestre o discípulo faz três coisas:

  • Se “nega a si mesmo”: significa não antepor nada ao seguimento. O valor de Jesus é tão grande que se é capaz de deixar de lado o que possa ir em contradição com Ele e seus ensinamentos.
  • “Toma sua (própria) cruz”: Estar pronto a seguir levando a cruz implica estar pronto a dar a vida. Pode entender-se como: a radicalidade de quem está disposto a ir até o martírio para manter sua opção por Jesus; fortaleza e perseverança frente aos sacrifícios e dissabores que a vida cotidiana do discípulo comporta; capacidade de “amar” e transformar a adversidade em fonte de vida.
  • “Segue” a Jesus: Em fidelidade ao Mestre, como alguma vez propôs São Francisco, o discípulo põe cada passo na rota do Mestre.  A motivação fundamental é esta contraposição: Pois quem quer salvar sua vida, a perderá, porém quem perder sua vida por mim, a encontrará (16,25). Estas duas possibilidades, postas agora em consideração, iluminam o sentido do seguir a Jesus com a cruz partindo da ideia da vida. Em poucas palavras: a meta do discipulado é encontrar a vida, o qual corresponde ao desejo mais profundo de todo ser humano.

Agora, esta meta pode ser alcançada ou não, somente de maneira radical, não há soluções intermediárias.          A vida, aqui, e mais além da morte, se consegue mediante um gesto supremo de doação da própria vida. Há falsas ofertas de felicidade (ou “realização da vida”) que conduzem a perca da vida; a vida é sempre um dom que não podemos dar a nós mesmos, ao contrário, pensamos que sempre estamos em capacidade de dar.

Nesta lógica, quem perde a própria vida por Deus e pelos demais, “a encontrará”. O discipulado, sob a perspectiva da cruz, não é um caminho de infelicidade, ao contrário: O sentido último do seguimento é alcançar a vida!

Uma sábia decisão que tem que tomar com base em argumentos sólidos (16,26)

A seguir Jesus expõe duas perguntas que levam a conclusões irrefutáveis. Estas estão formuladas de tal modo que só podem ter uma resposta negativa:

  • De que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se arruinar sua vida?”: resposta óbvia: “De nada”;
  • Que pode dar o homem em troca de sua vida?”: resposta obvia: “Nada”.

Para captar o específico do que disse Jesus há que considerar a característica própria da ideia da vida. Não se fala aqui da vida como de um valor biológico, de uma vida longa e Oxalá com boa saúde.

Trata-se do sentido da vida. A verdadeira vida, a qual, segundo a Bíblia Sagrada, se alcança na comunhão com Deus, se conquista, em última instância, mediante o seguimento de Jesus. O seguimento de Jesus é, então, um caminho completamente orientado à vida, à existência plena e realizada.

Esta, se põe em risco quando se vive de modo equivocado, quando se constrói sobre falsas seguranças. Ao referir-se ao que quer “ganhar (=conquistar) o mundo inteiro”, Jesus denuncia a falsa confiança posta em propriedades, conquistas, ideais terrenos e riquezas. Lucas já tinha se referido a isto no relato das tentações de Jesus: a busca e o apego ao poder, prestígio, ao que é terreno, como caminhos de felicidade ou metas de vida.

Ninguém pode dar-se a si mesmo a vida e seu sentido. Assim havia expressado já o Salmo 49,6-8: “Por que temer em dias de desgraça / quando me cerca a malícia dos que me hostilizam,/ o que põe sua confiança em sua fortuna/ e se gloria de sua grande riqueza? / Se ninguém pode redimir-se (a si mesmo) / nem pagar a Deus seu resgate!”.

Porém, é verdade que se o Salmo 49 é uma advertência sobre a morte, o Evangelho prefere enfatizar a verdadeira vida.

Portanto, um sério perigo ameaça a quem quer, desaforadamente, “ganhar” o mundo inteiro apoiando-se em imagens de felicidade que parecem converter-se em fins em si mesmos, entre eles a carreira profissional, o prestígio ou o orgulho pelas próprias conquistas.

O verbo em futuro, na expressão “de que servirá ao homem?”, convida a por o olhar no tempo final, no qual cada um verificará em si mesmo se tem conquistado ou não o objetivo de sua vida.

 

A responsabilidade do discípulo no tempo final: dar conta da “práxis” (16,27)

 

Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com seus anjos, e então pagará a cada um segundo sua conduta”. Finalmente, e estendendo, mais ainda, o olhar para o futuro, Jesus faz referência ao tempo final da vinda do Filho do Homem: onde se valoriza a vida como um todo. A valorização está nas mãos do Filho do homem; os anjos aparecem formando sua corte.

A expressão “na glória de seu Pai” indica Jesus como Filho de Deus. O “Filho do homem” que, havendo passado pela humilhação e a rejeição, culmina seu caminho triunfante, é, em última instância, o “Filho de Deus”; o mesmo a quem Pedro, sem captar todas as implicações, havia confessado como tal, um pouco antes. Diante do “Filho” por excelência se manifesta a verdade de todo homem.

 

Neste momento de revelação final, cada homem deve responder por sua vida. Este é um pensamento bíblico bem afirmado (Sl 62,13; Pr 24,12; Rm 14,12; 1 Cor 4,5; 2 Cor 5,10). Particularmente para o “discípulo” de Jesus é a hora da verdade de seu discipulado.

A síntese do critério de juízo sobre o agir humano não é o que este tem dito ou prometido fazer (Mt 7,21-23) mas seu “fazer” real: “Pagará a cada um segundo sua conduta” (em grego disse “práxis”).

 

No Sermão da montanha, Jesus havia dito: “que fazer a vontade de meu Pai celestial” (7,21) e também “por seus frutos os conhecereis” (7,16ª); também na parábola do rei: “quanto fizestes… quanto deixastes de fazer” (25,40.45). Esta práxis não está referida só a ações particulares, como pensavam os rabinos, mas ao estilo de vida, a vida entendida como unidade.

Enfim, não é suficiente fazer belas confissões de fé de boca, como vimos semana passada. Discipulado é modelar a vida inteira na dinâmica do seguimento do caminho à Cruz para receber ali, do Pai, a vida ressuscitada.

A Cruz não é só para ser contemplada, mas para fazê-la realidade em todas as circunstâncias da nossa vida. Deste modo, o discípulo reconhece e assume o destino de seu Mestre no seu próprio destino. O discipulado é um caminho de vida, uma verdadeira vida que vale a pena descobrir. E é para todos, não só para os apóstolos.

  1. Cultivemos a semente da Palavra no coração

 

  • Que é discipulado? Quais os requisitos? Como aparece o caminho de Jesus para Jerusalém? Que caminho está chamado a percorrer o discípulo de Jesus? Por que fazê-lo?
  • Por que Pedro reagiu negativamente ante o anuncio da cruz? Como reajo frente meus sofrimentos, dificuldades e adversidades? Que digo? Que “visão” se esperaria que tivesse um discípulo de Jesus?
  • Não caminhamos sós, mas em Igreja. Em que me implica, este evangelho, com respeito à minha família, à minha comunidade?

Que deve diferenciar-nos ante outros modelos de felicidade que traça a sociedade?

 

SÁBADO

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