ESTUDO BÍBLICO SEMANAL 27 SEMANA COM

PISTAS 

Um apoio para a Lectio Divina 27ª Semana Do Tempo Comum 

Autor:

 Padre Fidel Oñoro, CJM

 

SEGUNDA-FEIRA

Lucas 10,25-37

MINHA REGRA DE VIDA É O EVANGELHO

“Vai e faz tu o mesmo” 

1. Na escola do Bom Samaritano

O evangelho de hoje nos coloca, ante uma opção radical para viver segundo o evangelho. Para o amor universal:
Quem  é  o  próximo?  Um  doutor  da  Lei  se  dirige  a  Jesus  e  pergunta-lhe:

“Quem  é  meu  próximo?

”  (10,29).

Jesus responde contando-lhe a parábola do Bom Samaritano (10,30-35). Na resposta de Jesus, um escândalo:
Um samaritano ajudando a um judeu! Impossível! A pergunta do doutor da Lei encontra assim sua resposta: o
“próximo” não é alguem no meio familiar, social, racial, político ou religioso. Há uma visão mais universal: todo
homem. E não só todo homem, mas todo o que necessita de minha ajuda. Na parábola na realidade o “próximo”
é o inimigo. Já sabemos que os judeus e os samaritanos não mantinham boas relações (ver Jo 4,9).

Para um amor concreto: Como fazer-se próximo? 

Porém, há mais. O problema não é só “quem” é meu próximo, mas “como” é que me faço próximo. É aqui onde
Jesus  nos  convida  a  observar,  cuidadosamente,  as  ações  do  samaritano.  Tudo  o  que  ele  faz  é  movido  pela
“misericórdia”: se “aproxima”, “cura suas feridas”,  cede-lhe seu próprio posto “montando-o na cavalgadura”, o
“leva  a  uma  pousada”  e  “cuida  dele”  pessoalmente.  Enfim,  dá  de  seu  próprio  bolso  para  que  o  tratamento  do
ferido vá até o final. E quando se despede, ainda prevê um novo encontro: “

q

uando voltar

”, diz o samaritano

ao dono da pousada (10,35b).

Cada uma das ações do bom samaritano é significativa. Hoje poderíamos deter-nos, por exemplo, no detalhe da
cavalgadura: “

o montou  sobre sua  própria cavalgadura

” (10,34) A ajuda ao irmão implica ceder-lhe nosso

lugar!  Isto  indica  um  compromisso  profundo:  amar  é  saber  oferecer  nosso  próprio  posto,  saindo  de  nossa
comodidade, e pôr-se no lugar do outro. É assim que se fez próximo: com atos concretos, não só com palavras.
Trata-se de “atos” que doem em quem os faz.

Se o samaritano tivesse se contentado só com aproximar-se e tivesse dito ao ferido que estava debilitado: “sinto
muito!” “Que lhe aconteceu?” “Por onde foram os bandidos?” “Você tem seguro médico?” “Que Deus o abençoe”,
ou outras frases similares que costumamos dizer na hora das emergências, sua intenção de ajuda não serviria de
nada,  não  passaria  de  uma  grosseria.  Jesus  disse  claramente  que  na  prática  do  mandamento  do  amor  o  que
importa é o “fazer”: “Faz

 tu o mesmo

”. Este “fazer” consiste na “

prática da misericórdia

” (10,36), da qual não

se necessita mais lições que as já dadas pela prática do samaritano.

O agora e o depois 

Um  dos  dilemas  no  exercício  da  caridade  é  o  da  contraposição  entre  o  urgente  e  o  importante:  Socorrer  o
indigente  dando-lhe  pão  ou  investir  na  construção  da  padaria  onde  o  indigente  poderá  até  trabalhar?  E,  se,
enquanto constróis a padaria morre o faminto?

A parábola traz também um ensinamento a respeito: tem que atender o urgente, porém também tem que pensar
no  futuro.  O  bom  samaritano  não  é  imediatista.  Ele  atua  de  modo  imediato  no  presente  para  socorrer  a
emergência,  é  verdade,  porém  toma  decisões  para  adiante  (“

Cuida  dele  e,  se  gastar  mais,  te  pagarei 

quando voltar

”10,35). Vemos ainda como o bom samaritano, ao final, se afasta, continuando viagem. De algum

modo  começa  a  desapegar-se  confiando  o  ferido  a  outro  que  talvez  cuide  melhor  que  ele,  e  para  isso  se
compromete  a  responder  pelos  gastos  necessários.  Hoje  temos  espaços  especializados  que  se  parecem  a  esta
pousada onde o bom samaritano leva o judeu ferido.

Podemos  falar  de  uma  “caridade institucional”.  Não  se  trata  de  tirar  de  cima  de  si  a  responsabilidade,  mas  de
saber trabalhar pelo próximo comunitariamente, assumindo cada um a tarefa que corresponde. Uma pessoa não
pode socorrer sozinha todas as necessidades. Para que seja profética e transformadora dos problemas de fundo,
a caridade individual deve vir unida a caridade institucional e é importante saber trabalhar juntos, apoiando as
diversas iniciativas que se tomam na Igreja e na sociedade.

Esse  modo  de  ser  do  Bom  Samaritano,  que,  ao  mesmo  tempo,  atende  as  conseqüências,  também  remedia  as
causas  dos  males  sociais:  se  todos  entendessem  que  a  prioridade  é  o  outro,  que  deve  viver  em  função  dos
demais,  não  haveria  mais  feridos  nem  agressores  no  caminho  de  Jericó.  Como  queria  são  Francisco,  esta
parábola  tem  que  encarnar-se,  agora,  na  vida  cotidiana.  Nossas  ruas  e  praças  são  como  aquele  caminho  de
Jericó  onde  alguém,  que  talvez  não  conhecemos  e  que  pode  ser  inclusive  uma  ameaça  para  nós,  aguarda  por
nossa  misericórdia.  Deixemos  que  o  imperativo  de  Jesus  nos  impregne  no  coração  e  se  converta  em  regra  de
vida: “

Vai e faz tu o mesmo!”

 (10,36).

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração 

1)

Quais as pessoas ao meu redor que mais necessitam de mim e a quem algumas vezes tenho negado minha
ajuda oportuna? Que ajuda me pede cada uma delas? Como me farei próximo delas?

2)

Alguma  vez  tenho  agido  como  o  sacerdote  ou  o  levita  e  sendo  consciente  de  alguma  necessidade,  tenho
preferido “fazer-me de vista gorda”? Por que o tenho feito? Que tenho sentido depois?

3)

Recorda a última vez que agiu como bom samaritano. Com quem foi? Que fiz? Que interesses pessoais passou
a segundo plano? A mão que estendi essa vez foi só de momento ou ainda hoje continuo dando minha ajuda?

 

SEGUNDA FEIRA

Lucas 1,26-38

COMPROMETER-SE COM O PLANO DE DEUS A MANEIRA DE MARIA

Ao sexto mês, foi enviado por Deus, o anjo Gabriel, a uma cidade da Galiléia…” 

Ao longo do ano lemos várias vezes o relato da anunciação e cada vez, ao ritmo da liturgia, somos convidados a
pôr de relevo um dos múltiplos aspectos desta passagem tão rica e densa.

Neste dia em que celebramos Maria, sob o título de nossa Senhora do Rosário, a orante perfeita que apóia nossa
oração, nos detemos, particularmente, nas primeiras palavras do Anjo:

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor 

está contigo”

 (Lc 1,28).

Quando saudamos a Maria repetidamente na oração do santo rosário com estas palavras, estamos dizendo que a
vida desta mulher simples de Nazaré (1,26) foi abraçada pelos braços amorosos de Deus.  Deus entra em sua
vida com ternura e com poder, com coração e com compromisso, com palavras e com ação. É com esta maneira
de entrar em sua vida, que lhe dá e redireciona seu projeto de vida inicial (ver 1,27) para inseri-lo em seu plano
de salvação.

Estas  três  palavras  que  nunca  nos  cansamos  de  repetir,  não  fazem  mais  que,  como  a  Maria,  situar-nos  da
maneira justa no coração do caminho de Deus, o qual nos chama para que o façamos realidade na história com
nossas mãos e com nossos passos.

E com Maria aprendemos que:  essa é nossa vocação fundamental;

Isto é possível graças a obra mesma do Senhor;

Os indicadores de uma resposta autêntica ao Senhor são:

a alegria;  o amor; e a certeza do apóio fiel do Senhor.

Estudemos um pouco o sentido de cada uma das três palavras:

“Alegra-te” 

O Anjo antecipa a Maria que o anúncio será para ela motivo de imensa alegria; que a Palavra do

Senhor vai tocar o mais íntimo de seu ser; e que sua reação ao fim não poderá ser outra que a exultação.
Nota-se que Maria não responde de imediato (não tem a superficialidade dos que reagem rápido sem pensar)
mais começa, a partir de agora, um caminho interior que culminará com o canto feliz do “Magníficat”. O Anjo
agora  disse  “Alegra-te”,  porém  sou  muito  depois,  depois  de  fazê-lo  maduro  no  coração,  Maria  dirá:

“Meu 

espírito se alegra em Deus meu Salvador”

 (1,47

Cheia  de  Graça” 

Maria  é  habitada  pela  graça  divina,  e  este  é  o  motivo  de sua  imensa  alegria.  Com esta

palavra, Deus lhe faz conhecer a imensidão de seu amor predileto por ela, cumulando-a de seu favor e de sua
complacência. Este amor é definitivo e irrevogável. E é tão importante esta afirmação que o Anjo vai repeti-la
em seguida (ver 1,30). A confiança que se necessita para poder responder ao chamado do Senhor é a certeza
de seu amor.

 

“O  Senhor  está  contigo” 

Junto  ao  amor  vem o  compromisso  concreto.  Deus,  que  a  chama  para  partilhar

seu projeto, ele mesmo, em pessoa, lhe oferece sua ajuda fiel para poder levar a cabo o que se lhe pede. A
Maria faz a mesma promessa que fez aos grandes personagens da Bíblia.

 

Estas três palavras do Anjo, que descrevem a ação de Deus em Maria, se realizam nas palavras que pronuncia
mais adiante:

“O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”

 (1,35).

Com sua potência vivificante, criadora, Deus torna Maria capaz de colocar-se ao serviço da vida e do ministério
de  Jesus.  Esta  benção  divina,  prolongamento  das  bênçãos  da  primeira  página  da  criação  (Gn  1,22.28),  será
captada  por  Isabel,  que,  com  toda  razão  dirá:

“Bendita  tu  entre  as  mulheres  e  bendito  o  fruto  de  teu 

ventre” 

(1,42).

 

As palavras bíblicas da “Ave Maria” nos ensinam a aderir, solidamente, ao projeto de Deus Pai.  Deixemos que
elas  ressoem  em  nós  como  o  eco  do  mar  em  uma  concha  que  encontramos  na  praia,  se  a  pomos  em  nossos
ouvidos, o som do mar conquistará e envolverá em seu encanto todo nosso ser, impregnando sua melodia em
nossa memória e em nosso coração.

 

Repitamos hoje, e sempre que seja possível, apoiados no esquema oracional do Rosário, com consciência e com
força,  estas  palavras,  até  que,  lentamente,  sejam  absorvidas  no  mais  profundo  de  nosso  coração,  e  sejamos
conduzidos, assim, a ritmo de oração e pelo poder vivificante do Espírito criador, até a humanidade nova que é o 

 

 

 

TERÇA FEIRA

Lucas 10,38-42

UMA ESCOLA DE ORAÇÃO E VIDA NA CASA DE MARTA E MARIA

“Uma só coisa é necessária” 

O  entretenimento  e  o  repouso  que  nos  inspira  um  Jesus  que  tem  tempo  para  compartilhar  com  suas  amigas,
detendo-se  em  sua  casa  em  meio  da  viagem,  sugere  uma  nova  atmosfera  oracional  para  a  Lectio  de

hoje. Momentos como este são importantes.

A  Maria  lhe  parecia  mentira  que  o  Mestre  estivesse  ali  em  sua  casa,  tão  próximo  dela  e  falando  só  para  ela.
Agora podia escutar em silencio suas palavras de vida eterna. A vemos bem recolhida aos pés do Mestre, como

costumavam fazer os discípulos nos tempos bíblicos.

Marta, a vemos no fundo. Passa de um lado para outro, bem atarefada. Os “muitos

afazeres

” (10,40) de que

fala  o  evangelho  são  as  tarefas  domésticas,  as  quais  se  multiplicam  quando  há  visita:  limpeza,  comida,

ambientação, quarto de hospedes, etc.

São  muitas  coisas  ao  mesmo  tempo  para  atender,  sobretudo  a  comida.  Nesse  ir  e  vir  nota-se  que  Marta  está
tensa,  preocupada  em  agradar  a  Jesus.  Até  que  se  dirige  a  Jesus  (para  que  ouça  Maria):  “

Senhor,  não  te 

importa que minha irmã…

” (10,40).

A  estima  que  Jesus  sente  também  por  Marta  suporia  que  não  lhe  agradasse  vê-la  carregar,  sozinha,  todo  o
trabalho da casa. O “

não te importa?

” tem tom de ironia. Então Jesus a responde com uma frase carregada de

sentido e que abre grandes horizontes: “

Marta, Marta,…” 

(10,41-42).

Por que Jesus chama a atenção de Marta? É claro que não é pelo serviço, já que ele mesmo fala da importância
do  serviço  (22,27).  Na  descrição  de  Marta  foi  dito que  ela  estava  “

atarefada  por  muitos  afazeres

”  (10,40):

corria de um lado para outro, fazia muitas pequenas coisas com o tempo bastante fragmentado. O problema é

que em toda a agitação, a ocupação se tornou ansiedade, perdeu a paz.

O que Jesus desaprova não é a atividade de Marta, mas seu ativismo. No ativismo se perde de vista a meta, é
difícil  manter  a  concentração,  se  desgastam  as  motivações  e  acabamos  fazendo  as  tarefas  mal.  Esta  vida
frenética  –  que também  ocorre  em  alguns  apostolados  – é  uma  das  características  de  nosso  tempo, queremos
fazer  muitas  coisas  ao  mesmo  tempo:  estudar  e trabalhar,  estar  na  casa e  estar  fora,  falar por telefone  e  ver

televisão, e assim muitas mais.

Ocupar-nos  dos  ofícios  com  o  coração  ansioso indica  que  perdemos  o  norte, que  perdemos  de  vista o que  era
essencial, que terminamos escravos do trabalho. Isto prejudica tanto a qualidade de vida como a qualidade do

serviço. Para resolver isto, Jesus nos disse que o melhor modo de ser Marta é ser Maria.

Quem cultiva o bom hábito da reflexão, do cultivo da vida interior na serenidade da oração e em atenta escuta
da Palavra, logra a capacidade de ver tudo desde o ponto de vista da eternidade, purifica suas ações, capta as
prioridades. Com Maria se aprende a inteligente calma que ajuda a fazer tudo bem e inclusive a fazer mais do

que o esperado.

Mas  não  se  pode  separar  as  duas,  pois  são  irmãs.  A  escuta  contemplativa  deve  levar  ao  compromisso  e  a
atividade deve partir da escuta atenta do querer do Senhor. Como disse o Cardeal Martini: “Para servir no Reino
tem que servir primeiro ao Rei”. Senão faremos muitas coisas que consideramos “serviço” ao Senhor, porém, era

isso o que Ele queria que fizéssemos?

Enfim, o melhor e mais seguro é ter as mãos de Marta, porém, o coração de Maria. É preciso encontrar tempo –
e  tempo  de  qualidade  –  para  a  escuta  do  Mestre,  para  reencontrar-nos  com  nosso  centro,  para  considerar  os

motivos do que fazemos, para estar em contato com nosso ser profundo e com Deus que habita dentro de nós.

As palavras do Mestre serão nossa guia na viagem interior. Ainda que haja muitas coisas “urgentes” para fazer,

isto é o verdadeiramente “necessário”.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração 

1)

Como  me  vêem  os  demais?  Que  espaço  de  meu  tempo  dedico  a  dialogar  com  Jesus,  a  escutá-lo?  Poderia
dedicar ainda más?

2)

Com as pessoas que convivo, que momentos dedico para estar como Maria aos pés de Jesus? Será que lhe
dedicamos  pouquíssimo  tempo  enquanto  que  para  nossos

afazeres

  dedicamos  todo  o  dia  ou  quase  todo  o

dia? Em que podemos melhorar?

3)

 “

Uma  só  coisa  é  necessária

”,

  disse  Jesus  a  Marta.  Qual  é?  E  para  mim  que  é  o  único  necessário:  o

trabalho, o dinheiro, a saúde, minha família, Deus…? Será que o Senhor me pede que mude minha escala de
valores? Como o farei?

 

 

QUARTA-FEIRA

Lucas 11,1-4

ORAR COMO JESUS

“Senhor, ensina-nos a orar” 

Como seria uma oração ao lado de Jesus? Os discípulos tiveram esse privilégio e o evangelista Lucas nos permite
também participar nesta maravilhosa experiência através do evangelho.

A  maneira  de  Jesus  devia  ser  muito  atrativa.  Quando  o  viam  os  discípulos  ficavam  tão  impressionados  que
sentiam  desejo  de  orar  como  ele.  “

E  sucedeu  que,  estando  orando  (Jesus)  em  certo  lugar

”,  nos  conta  Lucas,

quando  terminou  o  disse  um  de  seus  discípulos:  „Senhor,  ensina-nos  a  orar,  como  ensinou  João  a 

seus discípulos

 (11,1). A solicitude se poderia abreviar nestes termos: “Senhor, ensina-nos a orar como fazes

tu”.

Os discípulos querem sentir o que Ele sente, repetir o que diz, tomar a postura física que Ele toma, descobrir os
lugares de retiro mais apropriados, ter seu mesmo ritmo de respiração, porém sobretudo, sair da oração como
ele sai. De fato, o pedido se lhe faz “

quando terminou

(de orar)

”. Como estaria Jesus nesse momento?

Quem  toma  o  clamor  em  nome  da  comunidade,  sabe  que  está  solicitando  uma  oração  que  identifique  a
comunidade,  por  isso  coloca  uma  referência:

“(assim)  como  ensinou  João  a  seus  discípulos

”.  Todo  profeta,

inclusive  João  Batista,  ensinava  a  orar  seu  grupo  de  seguidores.  Os  discípulos  de  Jesus  não  querem  ser  a
exceção.  Porém  há  algo  novo  em  Jesus  que  cativa  e  que  é  a  verdadeira  motivação  dos  discípulos  para  querer
orar de sua maneira.

Como se notará no “Pai Nosso” que Jesus ensina em seguida, é o sentido de intimidade, a grande confiança que
mostra  naquele  a  quem  chama  “Pai”,  o  que  maravilha. Jesus  responde  sem  tardar:

Quando  orardes,  dizei: 

“Abbá”, Papaizinho

 (11,2).

Sabemos  o  desconcerto  que  um  apelativo  assim  provocava  em  um  ambiente  no  qual  o  povo  nem  sequer  se
atrevia a chamar a Deus por seu nome próprio de “Yahvé” (preferiam dizer “Adonai”). O respeito para com Deus
se mostrava desde a própria forma de invocá-lo. Porém Jesus se dirige a Ele de maneira diferente: se apresenta
como um bebezinho, como um filho que ama e se sabe amado.

Atrever-se a chamar “Papai” ao Todo poderoso, ao Senhor que criou o céu e a terra! A oração de Jesus manda ao
chão qualquer barreira que possa interromper a presença de Deus. Não há distância entre Deus e as pessoas,
cada  um  pode  dirigir-se  a  Ele  diretamente,  sem  necessidade  de  intermediários.  Uma  verdadeira  revolução  na
história das religiões!

No  termo  “

Papai

”,  Jesus  nos  faz  conhecer  o  mistério  de  Deus  e  o  seu  próprio.  De  um  lado,  a  confiança  e

intimidade que o Filho tem pelo Pai; e de outro, a ternura protetora de Pai para com cada um de nós.

Nem  sequer  os  grandes  amigos  de  Deus  na  Bíblia  haviam  alcançado  algo  assim.  Ainda  quando  o  Gênesis  nos
conta  que  Deus  passeava  no  jardim  de  Adão  e  Eva,  sabemos  que  eles  partilhavam  o  espaço,  porém  não
encontramos a comunicação de coração a coração, na surpreendente proximidade da relação, que tinha Jesus.

Nem  Abraão,  chamado  o  amigo  de  Deus,  a  quem  Deus  fez  transparentes  suas  intenções  quando  quis  destruir
Sodoma e Gomorra:

“Porventura vou ocultar a Abraão o que faço…?

 (Gn 18,17). É como se disesse: “Não

posso esconder a um amigo minhas intenções”.

Porém, entre Jesus e o Pai, o conhecimento é, ainda mais, profundo. O mesmo se poderia dizer de Moisés, que

falava  cara  a  cara  com  Deus  como  faz  um  homem  com  seu amigo

  (Ex  33,11),  que quis  contemplar  a

glória de Deus, porém Deus lhe disse:

Meu rosto não poderás vê-lo…

 (Ex 33,20).

Com Jesus é diferente. E o que parece incrível é saber que também os discípulos podem orar como Jesus, que
Jesus  lhes  concede  o  pedido  de  ensinar-lhes  a  orar  como  Ele  o  faz,  ou  seja,  experimentando  a  surpreendente
proximidade  do  Pai  que  se  faz  presente  com  todo  seu  amor,  saciando  aos  discípulos  do  dom  de  seu  Santo
Espírito:

O Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedem

 (11,13).

Neste  ambiente  o  “Tu”  do  Pai  se  faz  presente  em  sua  obra  santificadora  e  no  Reino  que  se  instaura.  De  seu
coração de Pai provém o pão dos filhos, o amor que reconcilia e a fortaleza contra o tentador. Todo isso mostra a
ilimitada disponibilidade do Pai para vir ao nosso encontro na oração.

Ainda quando pronunciamos, fielmente, o “Pai Nosso” que saiu dos lábios de Jesus (ver a Lectio do 25 de Julho
passado), o que realmente conta é o coração e a confiança. A consciência de quem somos em sua presença nos
permitirá vislumbrar quem e como é Ele. Santa Teresinha, seduzida por este sentimento de confiança em Deus,
se atreveu a dizer em seu poema “O abandono é o fruto delicioso do Amor”: “

Dá-me neste mundo um oceano de 

paz. E nesta paz tão profunda, descanso eu, sem cessar

”.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração 

1.  Quando  oro  com  o  Pai  Nosso,  quais  são  meus  sentimentos?  Confio  plenamente  em  meu  Papai-Deus,  assim
como fazia Jesus?
2. Em que se diferencia a oração de Jesus de todas as demais orações bíblicas?
3. O que seduz os discípulos de Jesus para quererem submergir-se no mundo da oração do Mestre? Minha vida
de oração é atrativa para os de minha família e as outras pessoas que me conhecem?

 “O amor que não teme, e que dorme e se esquece

.

Como um menino pequeno no coração de seu Deus”

 (Santa

Teresinha do menino Jesus).

 

 

 

 

 

QUINTA-FEIRA

Lucas 11,5-13

ESCOLA DE PAIS: UMA ORAÇÃO QUE RENOVA NOSSO ESPÍRITO FAMILIAR

“Quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”  

 

 

Não  podemos  deixar  passar  a  riqueza  do  evangelho  de  hoje,  o  qual  é  uma  maravilhosa  escola  de  pais.
O ambiente familiar dos ensinamentos que Jesus propõe depois do “Pai-nosso” (Lc 11,1-4), é claro.

Ali se fala da casa e da família do amigo, de seus filhos que não quer importunar, dos pais que sempre pensam
no melhor para seus filhos e, sobretudo, no Papai Deus que dá seu  Espírito Santo como o maior de  seus dons

para todos os seus filhos.
É  claro  que  Jesus  se  apóia  na  família  para  dar  seu  ensinamento  sobre  a  oração  aos  discípulos.  Assim  é  a
importância dda família!  Por isso, hoje estamos convidados a por maior atenção na oração em família.

1.

 

A oração em família: um espaço que eleva a fé 

A oração pessoal é importante, mas, a oração comunitária em família é melhor. A comunidade familiar encontra
na  oração  um  espaço  que  faz  crescer  o  espírito  do  amor.  E,  vice-versa,  a  vida  de  oração  cresce  quando  é
partilhada  com  aqueles  que  percorrem,  conosco,  os  mesmos  caminhos  de  crescimento,  particularmente  os
caminhos da fé.

É verdade que, às vezes, não achamos o tempo para orar em família. Cada um tem algo diferente a fazer, os
horários não coincidem nem, tampouco, os estados de ânimo. Acontece, também, que os momentos em que nos
estamos em casa coincidem com aqueles nos quais estamos cansados e com menor disposição para a oração.

Portanto, é da oração que necessitamos quando estamos assim: que bom começar com uma partilha sobre o que
temos  feito  e  expressar  sentimentos  e  ideais!  Logo  poderíamos  unir  tudo  em  oração  na  presença  do  Senhor.
Então  percebemos  como a  amorosa  companhia  de nosso  Pai  celestial  e também  a  de  nossos  queridos termina
sendo a constante de nossa vida.

2.

 

Que bençãos derrama o Senhor na oração familiar  

 

A  Bíblia  nos  ensina  que  a  vida  de  casado  tem  sua  raiz  e  sua  força  na  relação  com  Deus.  E  quando  a    relação
encontra  esta    raiz,  conta    também  com  uma    fonte  que  mantém  o  amor  sempre  renovado,  sempre  em
crescimento e cada vez mais perfeito.

Então dos lábios do casal vão sair, espontaneamente, expressões de gratidão pela experiência do amor recíproco,
invocarão, juntos, o dom da geração da vida, pedirão ajuda ao Senhor para que acompanhe e proteja a vida que
está por nascer, suplicarão a valentia para ter o gozo de perdoar-se mutuamente e querer-se cada dia mais.

O Papa João Paulo II nos ensinou que

“só orando junto com os filhos, o pai e a mãe descem em profundidade no 

coração, deixando rastros que os eventos futuros da vida não poderão apagar”

 (Familiaris Consortio, 60).

3. Pistas para a oração familiar  

 

3.1. Para fazê-la, primeiro tem que tomar a decisão  

 

Não tem que deixar que a desculpa da fadiga nos roube o espaço mais belo do dia.

Tiremos um tempo para parar e entrar em oração. É preciso tomar a decisão pessoal e logo a iniciativa na casa.
Quando se dá os primeiros passos, logo se nota como todos, em meio das pressões a jornada, vão sentindo a
necessidade deste momento.

Muitas famílias que se reúnem, semanalmente, para orar juntas, partem da Lectio Divina.

E as testemunham como, nas condições de vida de hoje, em meio das tantas ocupações, dentro do cansaço, da
enfermidade,  da  dor  que,  não  poucas  vezes,  se  experimenta  na  experiência  familiar,  o  Senhor  os  tem
presenteado com o dom da oração. E esta se converteu na anti-sala da celebração eucarística dominical, à qual
vão também como família.

3.2. Suplicar o dom da oração familiar  

 

Muitos temores bloqueiam a pais de família que têm a intenção de fazer de seu lar uma escola de oração para
todos:  muitas  vezes  o  medo  do  “não”  dos  outros,  porém,  o  temor  mais  frequente  é  “se  nós  mesmos  não
sabemos orar, que vamos ensinar aos filhos?”.

Esta era a preocupação dos apóstolos, que sabiam que na missão teriam que educar as comunidades na oração.
Um  dia, quando  Jesus  estava  orando,  alguém  lhe disse:  “Senhor,  ensina-nos  a  orar”  (11,1).  Também nós  não
tenhamos medo de dirigir esta súplica ao Senhor, admitindo que não sabemos.

Façamos desta súplica o nosso pedido mais importante de todos os que levamos no coração. E não nos cansemos
de  repeti-la,  seja  como  esposos,  seja  como  pais  de  família,  ou  como  filhos.  O  Pai,  assim  como  nos  assegura
Jesus, “o concede o Espírito Santo aos que o pedem” (11,13) e é o Espírito Santo que conduz nossa oração.

3.3. Orar a vida mesma  

 

A oração partilhada faz fluir as expressões do afeto esponsal e, também, paterno-filial. Com a oração se celebra
a  acolhida  agradecida  do  dom  da  vida,  se  acompanha  o  partilhar  alegre  da  comida,  se  agradece  a  benção  da
alegria da saúde e da cura, se oferecem as enfermidades e os sofrimentos, o ter ou a carência do trabalho, do
colégio e das férias.

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