ESTUDO BÍBLICO SEMANAL: 2ª semana da quaresma ano 2020

ESTUDO BÍBLICO SEMANAL- COMUNIDADE PAZ E BEM

2ª SEMANA DA QUARESMA

 

Segunda–feira

Lucas 6,36-38

CONTEMPLANDO JESUS ASSIMILAMOS A MISERICORDIA DO PAI

“Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso”

 

À luz da transfiguração do Senhor, continuamos nosso caminho quaresmal obedecendo à voz do Pai que nos convida a seguir escutando seu Filho predileto.

 

O Evangelho deste dia torna a nos situar no espírito do “Senhor da montanha”, no qual Jesus nos convida à perfeição do Pai, que, na perspectiva de Lucas é, essencialmente, a misericórdia “Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso” (6,36)

 

  1. A perfeição de Deus é sua misericórdia

 

Lucas nos mostra como a santidade de Deus se manifesta em sua misericórdia. A frase de Jesus “sejam misericordioso como o Pai é misericordioso”, é o cume da revelação de tudo o que Deus é para nós.

A misericórdia expressa a essência mesma de Deus e pela qual Ele é Santo, totalmente diferente de nós: “Pois, como é sua grandeza, assim é a sua misericórdia” (Ecl 21,18).

 

No Sl 136 a misericórdia nos é apresentada como a chave de leitura de toda a criação e de toda a história passada e presente. Nossa experiência de Deus é sempre experiência da misericórdia, pois, quando nos sentimos perdoados, salvos, é ai que conhecemos realmente quem e como é o Senhor. Na acolhida da misericórdia do Pai e na contemplação das atitudes e palavras de Jesus vamos aprendendo a vibrar com o coração de Pai e a deixar passar para os outros a misericórdia que nos é dada.

 

  1. Como se põe em prática a misericordia que provém do Pai

 

As sentenças que seguem, em Lucas, não se referem aos inimigos, mas aos irmãos, são regras claras, como pilares que regem a vida da comunidade dos discípulos: “Não julguem e não serão julgados, não condenem e não serão condenados, deem e se lhes dará” (6,37-38).

 

Na comunidade se vivem relações novas de amor recíproco, porém, estas, sempre estão sob a insídia do mal, por isso mesmo no interior da comunidade o amor tem sempre o rosto da misericórdia. Detenhamo-nos, brevemente, em cada um dos pontos que Jesus propõe para nosso exercício da misericórdia, dilatando nosso coração, à maneira do Pai, nesta Quaresma:

 

  1. “Não julguem e não serão julgados”: Julgar é colocar-se no lugar de Deus; considerar-se a si mesmo como a medida de tudo; meu juízo contra o irmão é mais grave que seu próprio pecado, porque é negar ao Pai em sua misericórdia.

 

  1. “Não condenem e não serão condenados”: Enquanto o juízo é um ato interno, condenar é expressar externamente o juízo. O Pai, em lugar de condenar-nos, se compadece, nos perdoa e confia tão profundamente em nós que nos entrega a administração de sua misericórdia. Ele sempre atua através de mediações: sua compaixão e sua misericórdia passam através de mim ou não passam. Cada um de nós é como uma chave de água, temos o poder de abrir ou de fechar a fonte inesgotável do amor misericordioso que a todos tem sido dado em Cristo Jesus.

 

  1. “Deem e lhes será dado”: Jesus não indica o que é que temos que dar, simplesmente diz “deem”, como para enfatizar essa atitude de doação, que deve caracterizar nosso discipulado; viver para os outros, sem reter nada de si, nada para si, como Jesus, que se autodoou, sempre mais, até a morte. Na medida em que nos doamos aos outros, também recebemos da parte de Deus, que nos dará seu amor e o imenso dom de ser como Ele, configurando-nos com seu Filho.

 

  1. “Porque com a medida com que medirem serão medidos”: Deus renuncia a medir-nos e julgar-nos, deixando que sejamos nós mesmos que nos demos a medida e nos julguemos, segundo o amor e a misericórdia que oferecemos aos outros. Meu juízo final e minha salvação corresponderão à misericórdia que ofereço hoje ao outro. Ao acolher a misericórdia que o Pai, em Jesus, tem para com cada um de nós, vamos transformando-nos, pouco a pouco, na expressão viva desta inesgotável compaixão de Deus.

 

Cultivemos a semente da Palavra no coração.

 

  • Que significa a expressão: “Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso”?

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  • Quais são as formas concretas com que manifesto aos demais a misericórdia de Deus?

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  • Dediquemos algum momento desta jornada para examinar, como família ou comunidade, nossa forma concreta de dar nosso amor aos que nos rodeiam, especialmente aos mais necessitados. Por que a Transfiguração de Jesus?

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TERÇA-FEIRA

Mateus 23,1-12

UNIFICAR A VIDA NA COERENCIA ENTRE O QUE SE DIZ E SE FAZ

“Porque dizem e não fazem”

 

Somos muito dados a dizer, aos demais, o que têm que fazer e, às vezes, esquecemos de olhar-nos no espelho. Mas as palavras do Senhor não são para uns, e, outros, não. A exigência é igual para todos.

Na comunidade de Jesus não cabe a separação entre os que ensinam e dos que praticam. Não, todos praticam. As palavras dirigidas aos fariseus não são exclusivas para eles senão que a todos os membros da Igreja (ver 23,1). Observemos a ordem de idéias:

 

  1. Jesus valida a autoridade dos mestres da Lei (“Fazei, pois, e observai tudo o que vos digam”, v.3ª), porém pede: “Não imiteis sua conduta” (v.3b).

 

  1. Jesus vai ao assunto e assinala as três condutas que refletem incoerência:
  • A dupla vida: “dizer”, porém “não fazer” (v.3c);
  • A falta de compromisso: “pôr cargas pesadas nas costas das pessoas”, porém “nem com o dedo movê-las” (v.4);
  • A busca do mais visível: “Todas suas obras as fazem para ser vistos pelos homens” (v.5ª).
  • Três exemplos concretos: a veste, os primeiros postos nos espaços públicos (banquetes) e religiosos (sinagoga) e a exigência de que os chamem pelo título (vv.5b-7).

 

  1. Partindo do último ponto (“que as pessoas os chame Rabi”) Jesus assinala o comportamento distintivo do discípulo: “Vós, ao contrário…” (v.8ª):
  • Na comunidade se constrói em uma unidade de base: “vós todos sois irmãos” (v.8c).
  • Na comunidade a autoridade se exerce enquanto se vive em comunhão com o único Mestre (v.8b), com o único Pai (v.9) e com o único Diretor (v.10).
  • A motivação fundamental de todo comportamento cristão deve ser a do serviço (v.11-12).

 

As palavras de Jesus questionam a vida espiritual: o propósito é que a Palavra desça até o mais profundo e impregne nossa vida, que ponha em crise os critérios de comportamento e suas motivações mais profundas.  Quando isto não acontece, em seguida se manifestam as patologias, diagnosticadas, por Jesus, neste evangelho.

 

Por isso Jesus propõe o caminho da unificação n’Ele: partir desde o mais baixo possível, como o servidor que se humilha. Essa foi sua atitude fundamental que se manifestou finalmente na Cruz. A cruz purifica o coração e o faz autêntico, despoja as aparências e faz que brote a verdade do ser, coloca cada pessoa no lugar social correto para que, levantando as cargas dos demais, todos juntos cresçam na direção do Deus Pai, Mestre e Guia em quem tudo converge.

 

Em nosso Batismo fomos revestidos de Cristo. Não esquecemos que o problema não está em vestir-nos de cristãos, mas em “ser” cristãos e o ser cristão emerge de dentro, pondo-nos sob o julgamento da Cruz. Recorda os vv.11-12: aos fariseus não há que imitá-los, porém ao Crucificado sim.

 

Aprofundando com os nossos pais na fé

 

São Pascácio Radberto (? – c. 849), monge beneditino

 

“Tendes um só mestre, Cristo”. Se alguém desejar um alto cargo na Igreja (cf. 1 Tm 3,1), deseje a obra que ele permite realizar e não a honra que lhe está ligada: deseje ajudar e servir todos os homens, mais do que ser ajudado e servido por todos. Porque o desejo de ser servido provém do orgulho, como o dos fariseus, e o desejo de servir nasce da sabedoria e do ensinamento de Cristo. Aqueles que procuram as honras por elas mesmas são os que se elevam, e aqueles que alegram por levar a sua ajuda e servir são os que se abaixam para que o Senhor os eleve. Cristo não falou aqui daquele que o Senhor eleva mas disse: “Aquele que se eleva a si mesmo será humilhado”, naturalmente pelo Senhor. Também não falou daquele que o Senhor humilha, mas disse: “Aquele que se humilha voluntariamente será exaltado”, em consequência, pelo Senhor… É por isso que Cristo, logo após ter reservado para si, de modo particular, o título de “mestre”, imediatamente invoca a regra de sabedoria em virtude da qual “aquele que quiser ser grande deve ser o servo de todos” (Mc 10,43)… Esta regra, tinha-a ele exprimido noutros termos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deste modo, todo aquele que quiser ser seu discípulo não deve tardar em aprender esta sabedoria de Cristo porque “todo o discípulo perfeito será como o seu mestre” (Lc 6,40). Pelo contrário, aquele que tiver recusado aprender a sabedoria ensinada pelo Mestre, longe de se tornar mestre, não será sequer um discípulo.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida:

 

  • Quando exercito a “lectio divina” olho a mim mesmo no espelho da Palavra ou estou pensando como aplicar-lhe a ensinar aos demais?

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  • Em que aspectos de minha vida ainda não tenho sido impregnado pela Palavra de Deus?

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  • A Cruz de Jesus põe em crise meus interesses pessoais e meu afã por ter visibilidade e reconhecimento social?

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QUARTA-FEIRA

Mateus 20,17-28

A aceitação do mistério da cruz é um dom de Deus

 “O Filho do homem não veio a ser servido, mas a servir e a dar a vida em resgate por muitos”

A Palavra de Deus segue ungindo nosso coração à aceitação do Mistério de Jesus, no qual somos, progressivamente, introduzidos, até chegar a ser partícipes e refletir, em nossa vida, a glória de Deus, manifestada em seu Filho (ver 2 Cor 3,18).

O evangelho de hoje ilumina nossos corações para que possamos aceitar a graça da conversão. No texto descobrimos três elementos contrastantes:

 

  1. A glória do Filho do Homem pelo caminho do esvaziamento

Pela terceira vez Jesus anuncia sua Paixão aos discípulos no evangelho de Mateus. Jesus fala abertamente, não oculta nada, descreve aos seus discípulos quase com detalhe quanto deverá padecer antes de ser glorificado. Notemos o “crescendo”: Entregado, condenado, zombado, açoitado, crucificado e ao terceiro dia ressuscitará (20,18-19).

 

  1. A glória do mundo pelo caminho do poder

Frente ao anuncio de Jesus, os discípulos não parecem estar à altura das circunstancias. Eles vão em via contrária à proposta. Assim se desvela a cegueira e insensatez dos discípulos que não lhes permite sequer vislumbrar o Mistério da glória que o Senhor lhes revela, e longe de entender as palavras de Jesus (Mc 8,32; 9,32;Lc 9,45) reagem adversamente buscando a glória humana e confundindo com esta, a glória do Senhor.Assim como os filhos de Zebedeu, que se apoiam em sua Mãe para pedir os primeiros postos no reino (20,20-24), também os outros discípulos que se sentem indignados por que aqueles se anteciparam e frustraram suas expectativas, uns e outros estão movidos pelo afã de reconhecimento e vangloria.

 

  1. A contraposição das duas glórias

Ante esta realidade Jesus, como Mestre incomparável, chama a seus discípulos e com a ternura e a firmeza que lhe é própria, põe em contraposição as duas glorias: a do mundo, baseada no poder e no prestigio, e a sua, que consiste em fazer-se escravo para servir aos irmãos.

Para concluir, Jesus os convida decididamente a colocar-se de sua parte: “Porém não há de ser assim entre vocês, mas que o que quer chegar a ser grande, seja o servidor de todos, e o que quer ser o primeiro faça-se escravo de todos” (26-27).

No diálogo de Jesus com seus discípulos, cheio de equívocos e desentendidos, vemos claramente o dinamismo de duas lógicas opostas:

  • O que faz o egoísmo que busca a vangloria e o poder;
  • O que faz o Amor, Jesus que sendo de condição divina, não se apega a sua igualdade com Deus, mas que se despoja, se esvazia de si mesmo, assume a condição de escravo… e se humilha, obedecendo até a morte e morte de cruz (Fl 2,5-8).

 

Desta maneira indica o caminho de nossa verdadeira realização humana: o esvaziamento, o caminho da cruz, a pequenez, o serviço. Queira o Senhor que neste tempo quaresmal, possamos deixar-nos tocar o coração pela Palavra do Mestre, e permitir-lhe que encarne em nós seus critérios, sua lógica, suas opções de vida.

 

Cultivemos a semente da Palavra no coração.

  • Por que podemos afirmar que a aceitação do mistério da cruz é um dom de Deus?

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  • No mundo de hoje são cada vez mais frequentes os casos de pessoas que buscam as riquezas e as honras por caminhos curtos e fáceis. Em minha vida espiritual pretendo conseguir os dons e graças de Jesus de forma imediata e sem muito esforço?

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  • Que atitudes me pede o Senhor que mude nesta quaresma, atitudes sem as quais não seria possível viver a páscoa?

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Rasquem seus corações e não suas vestes:

 

“Que teu amor se converta, de sorte que tu não ames nada senão o Senhor. Que teu temor se volte para Ele, pois todo temor que nos faz temer alguma coisa fora d’Ele e não por causa d’Ele é mau. Que tua alegria e tua tristeza também se voltem para Ele, e assim será se tu sofres e te regozijas só n’Ele”(São Bernardo, “Sermón de Cuaresma”)

 

QUINTA-FEIRA

Lucas 16,19-31

UMa conversÃO social

“Se não fazem caso aos profetas tampouco se convencerão ainda que ressuscite um morto”

 

Escutamos ontem a franca confrontação que faz Jesus entre a glória do Filho do Homem e a glória que oferece este mundo. Fomos convidados enquanto discípulos seus a entrar pelo caminho do serviço humilde para poder caminhar com Ele para a Ressurreição.

 

O Evangelho de hoje segue oferecendo-nos através de imagens vivas como Jesus em sua Pessoa e em sua mensagem contrasta abertamente com os valores e hierarquias deste mundo, precisamente porque é o homem novo e veio a inaugurar o mundo novo da igualdade, da fraternidade e a solidariedade.

 

  1. A mesa excludente

 

O relato parabólico nos apresenta um rico que se banqueteia e se diverte, símbolo de quem tem colocado a si mesmo como o centro de tudo. Também vemos um pobre chamado Lázaro, que deitado junto à porta do rico, ignorado, excluído, desamparado; igualmente o vemos coberto de chagas desejando fartar-se das migalhas que caem de sua mesa.

 

O fato de que o pobre tenha nome próprio e o rico seja um desconhecido nos confirma na verdade de que Deus conhece ao humilde e ignora aos soberbos, que se afastam dele por sua própria vontade.

 

Morrem os dois e a morte desvela a verdade de cada um. O pobre é levado pelos anjos ao seio de Abraão para participar com ele no Banquete messiânico; e o rico é sepultado no “hades”, mansão dos mortos. Com a morte termina o tempo concedido para converter-se, sua sorte já é irremediável.

 

Para tomar decisões corretas devemos colocar-nos na perspectiva da morte e fazer agora o que nesse momento gostaríamos ter feito.

 

  1. O abismo que é verdadeiramente condenável

 

O diálogo entre o rico atormentado e o Pai Abraão, é a mensagem central de Jesus. O rico recebeu bens na terra, porém não soube aproveitá-los para receber a gloria do Senhor. Os reteve para si, colocou neles sua segurança e se fez insensível às necessidades dos outros. Fechou-se em si mesmo e não se compadeceu do pobre Lázaro, que esteve tão próximo de sua casa, porém tão longe de seu coração.

 

A misericórdia com os pequenos e necessitados é o que decide nossa salvação (Mt 25,31-40) seu destino já é irrevogável, “entre nós e vocês se interpõe um grande abismo” (16,26), quer dizer, se acabaram as possibilidades para uns outros. A vida humana é como uma ponte estendida entre a felicidade e a infelicidade eterna. Atravessa-se a ponte exercitando a misericórdia. Quando a vida termina, já não há mais possibilidade de exercitá-la.

 

E para que não nos aconteça igual temos que abrir o coração e escutar atentamente a Palavra de Deus, crer nela e deixar-nos mudar o coração pela Palavra; que é Jesus mesmo. Na escuta continua do Mestre e na contemplação de suas atitudes aprendemos a ter entranhas de misericórdia diante das fragilidades de nossos irmãos.

 

Esta página do evangelho, que com imagens vivas nos há mostrado o agir de Deus cantado por Maria no Magnificat e proclamando nas bem-aventuranças, nos ajuda a confrontar nossas ações e nosso coração com os sentimentos e atitudes de Jesus, o último dos pobres, que derramou sobre nós a misericórdia do Pai para dar-nos a possibilidade de sermos como Ele.

 

Cultivemos a semente da Palavra no coração.

 

  • Por que se diz que Jesus, em sua pessoa e sua mensagem, contrasta com os valores deste mundo?

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  • A parábola que nos apresenta o evangelho de hoje nos convida a revisar se nossa vida está ao serviço dos demais. De que forma concreta tenho saído ao encontro das necessidades dos demais?

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  • Como temos assumido os momentos de privações e dificuldades que têm se apresentado em nossa família?

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Temos nos desesperado? A união familiar tem sido ameaçada?

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Na Transfiguração de Jesus…

 

“… A esperança da Igreja recebia seu fundamento; o Corpo de Cristo todo inteiro teria uma idéia da transformação que seria sua recompensa, e a cada um de seus membros se prometeria uma parte da Gloria que acabava de brilhar na Cabeça” (São Leão Magno, “Sermón 51”)

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SEXTA-FEIRA

Mateus 21,33-43.45-46

UMa nOva construÇÃO a partir de JesUs

 “A pedra que desprezaram os arquitetos, é agora a pedra angular”

 

Durante estas duas semanas de quaresma, a Palavra de Deus, com matizes diferentes e detalhes cada vez mais profundos, tem nos colocado em sintonia com as vibrações do coração do Pai, para que redescobrindo nossa filiação, possamos voltar com todo o coração para Ele e para nossos irmãos, vivendo a misericórdia.

 

O evangelho de hoje, nos mostra até onde podemos chegar em nossa cobiça e nossa obstinação, e até onde chega a gratuidade e a criatividade do amor misericordioso do Pai, e nos insiste uma vez mais que não podemos deixar nossa conversão para amanhã. Esta parábola, ou melhor, esta alegoria, na qual cada palavra tem um significado histórico preciso é de fácil compreensão para nós.

 

  1. A alegoria começa fazendo-nos observar os cuidados que o proprietário tem para com a vinha (Is 5,1-7). Logo a arrenda e se vai.

 

  1. O proprietário que cuida da vinha com tanto amor, dedicação e ternura é Deus: “que mais poderia ter feito por sua vinha, que não o tenha feito” (Is 5,4). A vinha é o povo escolhido, Israel (Is 5,1), a igreja, nós hoje. Os servos, que o dono da vinha envia a recolher seus frutos são os profetas, que Deus enviou e segue enviando a seu povo em crescente qualidade e número. E finalmente o filho violentamente assassinado para roubar-lhe a herança é Jesus o filho amado, que morre fora da cidade, como um malfeitor carregando sobre si os pecados de seu povo para deixar-nos a herança bendita em sua filiação divina.

 

  1. Nesta parábola, Jesus resume a historia de Israel, a historia do amor de Deus em nossa própria historia; nela se revela sempre em perspectiva de contrates, a infinita fidelidade de Deus e nossa infidelidade a seu amor; ali podemos ver nitidamente de que é capaz o coração humano cobiçoso e violento e de que é capaz a infinita compaixão de Deus.

 

O comportamento do Pai

 

  • O pai, Deus da vida cuida, protege, oferece gratuitamente possibilidades de vida e plenitude; confia sem reservas deixando em nossas mãos a administração de seus dons e logo marcha para deixar-nos a liberdade de agir como Ele nos tem ensinado (33.);

 

  • Quando chega o tempo da colheita, desejando os frutos de sua vinha, o pai envia a seus servos, os profetas, que precisamente por pertencer a Ele são maltratados e rejeitados como Ele;

 

  • Volta a mandar outros servos mais numerosos que antes porque Deus não se cansa, segue multiplicando seus chamados dando-nos a oportunidade de voltar a Ele. E finalmente envia o Filho a imagem viva de sua presença como a expressão máxima de sua confiança e de seu amor; porém, este precisamente por ser o Filho é violentamente assassinado para ficarem com sua herança.

 

Os vinhateiros

 

  • Os vinhadores, o povo de Israel, nós por si mesmos somos capazes somente de maltratar, destruir e matar buscando cobicosamente ficar com a herança. A morte do filho há levado ao máximo nossa crueldade humana, porém também há levado ao máximo a infinita compaixão de Deus.

 

  • Porém a historia que Jesus nos narra não termina com a morte violenta do filho, o rejeitado e aparentemente vencido, se converte na Pedra Angular sobre a qual o Pai constrói o novo povo com quem selará definitivamente sua aliança de amor: “a pedra que desprezaram os arquitetos, é agora a pedra angular; há sido um milagre patente (21,42; Atos 2,47).

 

  • Na ressurreição de Jesus todos os que havíamos enfurecido contra Ele, temos sido salvados por Ele; carregando sobre si nosso pecado Ele nos há revelado plenamente quem é Deus e que quer de nós.

 

  • Como num espelho, a parábola nos há refletido a verdadeira imagem de Deus e a nossa: enquanto nós destruímos e matamos, Deus reconstrói tirando de nosso mal o máximo bem. Deus há vencido o mal carregando-o sobre si e fazendo de nosso pecado a obra maravilhosa de salvação para todos.

 

  • Jesus, o filho assassinado fora da cidade é a pedra angular que nos oferece gratuitamente sua herança revestindo-nos de sua mesma vida; na cruz há vencido nosso ódio e há feito brotar o amor; de nossa miséria há feito brotar torrentes de misericórdia.

 

Estamos já muito próximo da semana santa, a leitura do evangelho de hoje nos prepara para entrar com coração em conversão no mistério pascal fonte perene de nossa transformação pessoal e comunitária. Que tão dóceis estamos?

 

Cultivemos a semente da Palavra no coração.

 

  • Que me diz a expressão: “A pedra que desprezara os arquitetos é agora a pedra angular?
  • Em que momento de minha vida tenho sentido que Deus há insistido em minha conversão e eu não tenho feito caso? Que posso fazer agora?
  • Deus sempre tira de nosso mal o máximo bem. Como descubro e interpreto a ação de Deus nos momentos mais difíceis de minha vida?

SÁBADO

Lucas 15,1-3.11-32

A caminHo PARa O PaI misericordioso

“Havia de fazer festa e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e voltou à vida”

 

Ao terminar a segunda semana da quaresma somos convidados novamente a contemplar o coração do Pai para deixar reavivar no nosso a alegria de sentir-nos filhos, poder-nos encontrar mais profundamente com Ele e recuperar nossa atitude de irmãos.

 

Hoje podemos ler o evangelho como a parábola do Pai que nos revela o amor único e incondicional pelo filho pecador e faz festa porque é reconhecido por Ele como pai, e convida ao filho que se considerava justo para que reconheça a este como irmão.

 

A parábola volta a convidar-nos com força a ser misericordiosos como o pai (ver Lucas 6,36; 11,4) para não ficar-nos fora protestando por que Jesus faz festa com os pecadores (15,28.30).

 

Parece ser que uma das intenções principais de Lucas seja levar o irmão maior que se sente justo, e por tanto não necessitado de conversão, a que reconheça ao pai como Ele é e aceite sua misericórdia; só assim poderá libertar-se de uma relação formal e legalista com Ele e passar à alegria de sentir-se filho.

 

Acontece como São Paulo, que de uma observância à lei que havia se tornado para ele um absoluto, passou “ao sublime conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor” (Fl 3,6.8) e se converteu de sua própria justiça à misericórdia do Pai que lhe foi oferecida gratuitamente em Jesus Cristo.

 

Neste processo de conversão profunda Paulo teve que mudar a imagem que ele tinha de Deus e descobrir seu rosto humilde e misericordioso que Jesus nos revela.

 

Nossa conversão segue também este processo, descobrimos a misericórdia do Pai que trata a todos justos e pecadores como filhos; e desde esta experiência saímos de nosso eu e centramos n’Ele nosso coração, passando da amargura de nosso pecado ou da presunção de nossa justiça, à alegria do ser filhos do Pai.

 

Fiquemos nós, neste dia, contemplando o coração do Pai como Jesus o revela nesta parábola (15, 12.20.22.23.24.31-32). Assim, impregnados por sua misericórdia e sentindo o gozo de sermos filhos, recuperaremos o sentido da fraternidade.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Santo Ambrósio (cerca de 340-397), bispo de Milão e doutor da Igreja

 

As três parábolas da misericórdia  

 

Não foi sem razão que S. Lucas nos apresentou de seguida três parábolas: a ovelha que se tinha perdido e foi encontrada, a dracma desaparecida e que foi achada, o filho pródigo que estava morto e reviveu… Foi para que, solicitados por este triplo remédio, tratemos das nossas feridas. Quem são: este pai, este pastor, esta mulher? Não serão Deus Pai, Cristo, a Igreja? Cristo, que tomou sobre si os teus pecados, leva-te no seu corpo; a Igreja procura-te; o Pai acolhe-te. Como um pastor, Ele te transporta; como uma mãe, Ela te busca; como um Pai, Ele  te cobre. Primeiro a misericórdia, depois a assistência, por fim a reconciliação.  Cada pormenor convém a cada um deles: o Redentor vem em teu auxílio, a Igreja assiste-te; o Pai se reconcilia. A misericórdia da obra divina é a mesma, mas a graça varia segundo os nossos méritos. A ovelha cansada é trazida pelo pastor, a dracma perdida é encontrada, o filho regressa para o pai e volta plenamente arrependido de uma falta que ele condena… Alegremo-nos pois que esta ovelha, que tinha caído com Adão, seja levantada em Cristo. Os ombros de Cristo, são os braços da cruz: foi lá que depus os meus pecados, foi sobre o seu nobre tronco que eu repousei

 

Cultivemos a semente da Palavra no coração.

 

  • Em que se parece e em que se diferencia a atitude dos dois filhos da parábola?

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Com qual deles me identifico mais?

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  • Como manifesto a alegria quando um irmão muda de caminho e volta à vida?

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Esforço-me por ajudar nesta mudança?

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  • Me considero uma pessoa ‘justa’ que sempre faz bem as coisas e por isto merece ser tida em conta?

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Que devo mudar a respeito?

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“Que as almas piedosas façam um dever nestes dias de salvação: perdoar as ofensas, desprezar as afrontas e esquecer as injurias” (São Leão Magno, “Sobre la Cuaresma”)

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