ESTUDO BÍBLICO SEMANAL DE 10 A 15 DE DEZEMBRO

2ª semana do Advento – Ano C

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

SEGUNDA-FEIRA

Isaías 35,1-10 – Lucas 5,17-26

PROFECIA DO ADVENTO:

“Alegrar-se-á o deserto”

 

A profecia que escutamos hoje também poderia ser chamada “o Hino à Alegria”, entoado por Isaías.

 

É um hino para cantar como em uma marcha que atravessa os lugares de tristeza e de desolação, uma marcha que vai transformando tudo ao passar, uma marcha, na qual participam os homens redimidos pelo Senhor e que cantam emocionados por seu regresso para casa. “Abre-se passagem à perpetua alegria, o gozo transbordante os inunda, e ficam para trás o pesar e a tristeza (35,10).

 

Nos lugares onde, habitualmente, reina a melancolia, realiza-se uma profunda transformação: Alegrar-se-á o deserto, terra estéril, a estepe se encherá de flores e de júbilo. Florescerá, como florescem os narcisos, transbordarão de gozo e de alegria”. (35,1-2a).

 

Símbolo dessa alegria é o jardim cheio de flores, inundado de colorido e sabor dos aromas. A fertilidade das terras libanesas, a postura feminina do monte Carmelo e a prodigalidade das árvores frutíferas do Saron, se transportam para as terras antigamente assoladas pela seca e a aridez. Desta forma, nosso hino de alegria canta, em primeiro lugar, a beleza de Deus, de sua gloria é reflexo toda esta vegetação. “Pois ali se fará ver a glória do Senhor, a beleza de nosso Deus” (35,2b). A alegria brota da contemplação da beleza de Deus.

 

E o hino continua, redescobrindo uma beleza que não é menor; toda esta paisagem que está ante os olhos visionários do profeta é imagem da profunda transformação que acontece com quem faz a experiência de Deus.

Assim como a beleza dos antigos jardins se muda para o deserto, assim também a beleza de Deus se entranha sobre as deficiências e limitações humanas. A vinda de Deus ao homem lhe arranca sua debilidade e lhe faz expressar uma nova força que o tira de suas prostrações, de suas mutilações, de suas depressões: “Fortaleçam ao que vai com os braços caídos, robusteçam ao que tem encolhidas as pernas” (31,3).

 

Quando alguém tem problemas às vezes tende a acovardar-se, a diminuir-se ou retrair-se. Pois bem, o profeta fala diretamente ao homem e lhe dá alento anunciando-lhe a vinda em pessoa do Deus salvador: “Digam aos covardes: Coragem! Não tenham medo!: já chega seu Deus” (35,4).

 

Então o mundo fica cheio de um novo jardim vital, de uma nova beleza: a que irradiam os homens salvos pelo Senhor. A partir deles, uma corrente de alegria começa a atravessar e a vivificar o mundo: os mudos não só falam, mas cantam as canções, os surdos, não só ouvem, mas, agora, têm “ouvido de músico” e se divertem com elas e os paralíticos, não só caminham, mas bailam as canções (35,5-7a).

 

Esta festa da humanidade nova, que floresce no encontro com o Senhor, segue estendendo-se por todos os desertos do mundo, fazendo de tudo o que está seco um manancial de vida (35,6b-7). Finalmente, o hino da alegria, se canta em uníssono, como em um só coro de peregrinos que regressam a casa, deixando para trás suas antigas penas. A procissão se organiza de modo que a rota é como uma grande rodovia que o profeta chama “Via Sacra”, e quem abre o caminho é o proprio Deus (35,8-10).

 

Esta profecia se realiza na pessoa de Jesus (Lucas 5,17-26)

 

E Deus vem, em pessoa, na pessoa de JESUS, para salvar seu povo (Lc 5,17-26). Ele restaura a beleza perdida do homem, seja por suas deficiências físicas, seja por seu pecado. O paralítico do evangelho de hoje, se converte em outro cantante do hino da alegria. E não canta só, o acompanha o coro dos que glorificam a Deus. (vv.25.26). Se o hino de Isaías ressoava, poderosamente, muito acima ressoará o coro dos que com os seguidores de Jesus cantam: “Hoje temos visto coisas incríveis” (v.26).

 

Jesus torna Deus visível

 

Assim, a expressão comovida e comovedora da multidão, no evangelho de hoje, faz eco maravilhoso do anunciado pelo profeta. A saúde do paralítico gera este grito de admiração. O paralitico curado é “gloria” de Deus, e a palavra e o coração de Cristo são a fonte reveladora dessa gloria. O profeta dizia: Deus em pessoa vem salvar-nos, e isso experimenta o paralítico. Cristo, pois, é o Deus que vem e, assim, de fato, o chama o Apocalipse. Enquanto a besta que ali se descreve é a que “era e já não é” (Ap 17,8.11), Cristo é “o que era, que é e que há de vir” (Ap 1,4.8:4,8).

 

Cristo é “o que era, que é e que há de vir”. Não se deve ler essa expressão como uma fórmula abstrata ou com rodeios poéticos. É uma descrição, não tanto do “ser”, mas do “fazer” revelador de Cristo. Não é uma alusão, simplesmente, à sua eternidade, mas um louvor de seu atuar que nos revela a gloria de Deus, como aconteceu com o paralítico.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Que pessoas conheço que estão tristes ou deprimidas às quais lhes poderia levar estas palavras de alento da profecia de hoje?
  • Como está a força de meu canto, que me inspira, que transforma no caminho? Sou um contemplativo da beleza de Deus no mundo?
  • Sou consciente da importância da “presença” e “ausência” de Deus no mundo? Qual é o sinal que traduz essa realidade histórica e escatológica ao mesmo tempo?

 

TERÇA-FEIRA

Lucas 1,26-38

VIRGEM SANTA MARIA, A MAIS BELA E A MAIS PURA

“Disse Maria: ‘Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra’ ”

 

A solenidade de hoje nos enche de uma profunda emoção. Louvamos a Deus pelo dom reservado a Maria, de ser santa desde sua concepção, de não ser ferida pelo pecado e pelo mal.

 

Desde o dia em que o Papa Pio IX proclamou o dogma da “Imaculada Conceição”, em 1854, esta solenidade ficou inserida, em pleno tempo do Advento e com razão, visto que a Imaculada prepara o Advento do Senhor: ela, a “cheia de graça”, foi “santa e imaculada no amor”, pois estava destinada a ser a Mãe do Senhor.

 

Este mistério, que aponta nosso olhar para a raiz da vida de Maria, é a chave de leitura de toda sua vida e nos ajuda a entender a obra de Jesus, que veio a salvar-nos do pecado. Desta vitoria sobre o pecado ela foi a primeira beneficiada e, no espelho de sua santidade plenamente alcançada, descobrimos também a nossa.

 

Para entrar melhor no mistério, a liturgia nos propõe hoje como telão de fundo o texto que se conhece com o nome de “protoevangelho”, que diz: Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a dela: ela te pisará a cabeça e tu lhe feriras seu calcanhar (Gn 3,15).

 

Esta passagem se aplica a Maria Imaculada que vence a serpente, símbolo demoníaco do mal. Por si, o texto original nos expõe a tensão continua e o duelo que se consuma entre nós, as criaturas humanas descendentes da mulher, e o mal que se aninha na historia.

Relendo a passagem do Gênesis, notemos cinco pontos fundamentais que nos permitem compreender melhor a obra de Deus em Maria:

  1. Que o homem foi posto por Deus como o centro de sua obra criadora.
  2. Que a pesar disto o homem não quis dialogar com seu Criador, nem crer em sua palavra, rebelando-se contra seu plano de viver em íntima comunhão com Deus e com os demais.
  3. Que o homem quis um futuro distinto e fez mau uso da liberdade que Deus lhe deu.
  4. Que por esta razão a historia se converteu em “teatro de uma luta tremenda contra as potencias das trevas, luta que durará até o último dia” (retomando as palavras de João Paulo II).
  5. Dai que a vida no Senhor esteja caracterizada pelo combate, pelo conflito, pelo esforço para conseguir o bem e lograr a unidade interior em Deus.

 

Portanto, a vida de todo discípulo do Senhor se mede por sua capacidade de resistir ao mal, pela luta contra as tentações que tratam de demolir cada dia sua fé e sua esperança. Sem dúvida, o panorama não permanece obscuro. Nossa fé hoje proclama que com a vinda de Cristo à humanidade, através de Maria, este combate tomou um novo rumo e chegou ao seu fim com a vitória do Senhor. É neste cenário onde emerge, com maior esplendor, a figura de Maria. As outras duas leituras de hoje nos descrevem bem a grandeza de Maria:

 

  1. Exalta-se a benevolência de Deus Pai com a que será Mãe de seu Filho

(ver a segunda leitura: o hino de Efésios)

 

Desde sua concepção imaculada, Maria alcançou o vértice mais alto da filiação divina, da semelhança com Deus (Ef 1,5). Assim compreendemos porque nela, antes que em qualquer outra criatura, o Senhor foi glorificado. Porque Maria é “santa e imaculada no amor”(Ef 1,4), ela é mais potente que qualquer experiência do mal.

 

Maria é sinal da vitória de Deus sobre o mal, pois viveu livre da herança do pecado. Isto não a afasta de nós, mas, ao contrário, a sentimos ainda mais próxima: Maria nos ajuda na luta cotidiana contra o que se opõe ao Evangelho e à construção de um mundo que seja reflexo do Reino de Deus, porque para isso, assim como ela, também nós fomos chamados.

 

  1. Se exalta a resposta livre e amorosa de Maria à palavra do Anjo (ver Evangelho anunciação)

 

Maria é a “cheia de graça” (Lc 1,28), quer dizer, plena da santidade e da beleza de Deus, seja porque foi redimida de um modo sublime (como anotamos no ponto anterior), seja porque soube acolher esta graça: a fez crescer dentro dela, apoiando-se na Palavra do Senhor, declarando-se sua serva e convertendo-se assim em discípula perfeita de Jesus. Foi assim como Maria permitiu que a graça invadisse a historia do mundo e criasse aquela humanidade renovada da qual ela é o modelo perfeito.

 

Por tudo isto, o mistério que celebramos hoje nos dá força interior em nosso caminhar, muitas vezes incerto e obscuro, nos dá uma nova luz sobre o sentido da historia, nos dá um pouco de repouso nos momentos difíceis que nosso país e o mundo estão vivendo.

A presença viva de Maria na vida da Igreja nos ajuda a compreender também que, a pesar de todas as aparências contrarias, em meio do mundo brota uma fonte pura da qual se deriva toda uma torrente de graça que rejuvenesce o mundo.

 

Ao dizer Faça-se em mim segundo tua palavra(Lc 1,38), ela, a “cheia de graça”, entregou a Deus todo seu amor, toda sua fidelidade e obediência. Neste formoso dia pedimos à Imaculada que nossa fé, que madura no combate, seja uma prolongação desse, seu Fiat”.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Que afirma o dogma da Imaculada Conceição e como se compreende à luz da Palavra de Deus? Que combates levo em minha vida espiritual?
  • Que Boa Noticia me anuncia hoje na pessoa de Maria? De que modo Maria acolheu a “graça” de Deus nela?
  • Como fazer em meu caminhar com o Senhor?

QUARTA-FEIRA

Isaías 40,25-31 – Mateus 11,28-30

É A HORA DA FORTALEZA

“Deus, desde sempre, é Yahveh, criador dos confins da terra, que não se cansa

nem se fadiga e cuja inteligência é inescrutável”

Queremos viver intensamente, porém, no caminho começam a aparecer situações que nublam nossos horizontes. Então andamos com os braços caídos, sem entusiasmo para as iniciativas, com sentimentos negativos com relação ao futuro nosso e da sociedade.

Um dos inimigos da esperança é o cansaço:

  • cansar-se de esperar promessas que não se cumprem,
  • cansar-se de lutar na vida sem ver resultados,
  • cansar-se de Deus e de suas exigências,
  • cansar-se dos irmãos na fé e de carregar-se com seus cansaços,
  • cansar-se, inclusive de si mesmo.

É, precisamente, frente a esta realidade que as crises humanas, ou espirituais, tocam fundo em nós. Diante de tanto cansaço e desilusão, o Advento renova nossa esperança. Hoje Isaias nos confronta e diz: os que confiam no Senhor renovam as suas forças e voam como águias, correm incansáveis e avançam sem fatigar-se (40,31).

Como é que se pode chegar a esta conclusão? O profeta Isaias nos propõe para isso um caminho espiritual que tem passos bem definidos.

  1. Deus é poderoso

Partindo de uma pergunta, inicialmente, implícita “Que se passa com Deus, que não se faz sentir?”, o profeta inicia com uma vigorosa apresentação do Deus que não tem rival nem comparação. Para isso coloca o homem frente ao espetáculo de uma noite estrelada e o pergunta, como se estivesse na escola: “Quem criou tudo aquilo?” (40,26).

O povo se dá um pouco de tempo para ver e entender. Então nota como o universo tem animação, uma animação que ajuda a entender a obra de Deus na terra. Trata-se de um movimento parecido ao que Deus realizava com o seu povo quando o tirava do Egito, como se fosse um exército ou ao que um pastor realiza quando chama as ovelhas por seu nome. A conclusão é que tudo isto sucede “graças a seu esforço e ao vigor de sua energia”.

  1. Minha vida está sob o olhar de Deus

Com uma grande ênfase o profeta nos recorda, então, que Deus conhece bem cada homem e não se esquece de nenhum, que Deus não abandonou sua responsabilidade sobre a terra.

Quando o homem compreende o amor de Deus em sua vida, então, já não poderá mais seguir queixando-se que Deus se esqueceu dele, dizendo: “O Senhor não se dá conta do que se passa comigo”; literalmente: “Oculto está meu caminho a Yahveh e a Deus não interessa meu direito” (v.27).

Não se pode duvidar que Deus seja capaz de intervir na história humana para salvá-la: É tanta sua força e tal seu poder! ― como diz o v.26. Portanto, não se pode nunca concluir que Deus tenha se cansado de alguém. Como se houvesse se fatigado de tanto insistir para salvar.

 

Mas há motivos para pensar o contrário. Vejamos esta preciosa percepção do ser de Deus que aparece no coração de nossa profecia (v.28):

  • Ele é Deus eterno, ele tem, em suas mãos, o tempo e tem seus tempo;
  • Ele não se fadiga nem se cansa”, é um operário incansável;
  • Ele é inteligente”, (na máxima potencia), quer dizer, sabe o que está fazendo, se, se

demora, não há que preocupar-se, mas confiar nele.

  1. O poder e o amor de Deus renovam, continuamente, minhas forças

E, ao final, aparece o mais belo, Deus partilha sua fortaleza com o homem: Ao cansado dá vigor e, ao que não tem forças, a energia o acrescenta(v.29).

Deus restabelece as forças do que está cansado e cura sua fragilidade. E ainda há mais: Deus dá forças ao homem para que não se canse. Supõe-se que os jovens se fadigam menos, visto que estão na etapa da plenitude da fortaleza física (40,30). Sem dúvida, isto não é nada, em comparação com a força interior que Deus dá a quem se abandona nele: aos que esperam em Yahveh, Ele lhe renovará o vigor (v.31).

Quem apóia sua vida em Deus nota, como emerge de dentro dele, uma continua e vigorosa juventude. Isto explica, a profecia, com o símbolo da águia. Na Bíblia, a águia é símbolo de potencia e longevidade; assim como aparece, por exemplo, em Dt 32,11 e em Sl 103,5b. A tradição hebréia põe muita atenção na águia real de Palestina, a qual, quando chega seu tempo, renova a formosura de sua plumagem. Por isso, é imagem da renovação da vida e da longa vida, como uma nova juventude. A águia, quanto mais velha, mais bela.

Com o passar dos anos nossa existência biológica vai desmoronando, porém, ao mesmo tempo, gana, em Deus, um valor extraordinário.  Desta maneira, conscientes de nossos limites, porem, também da proximidade de Deus, quando olhamos para o futuro, vemos que brilha uma luminosa esperança.

Esta profecia se realiza em Jesus (Mateus 11,28-30)

Isaias disse que isto vive os que confiam no Senhor (v.31). No evangelho que hoje a Igreja serve na liturgia da Palavra, escutamos Jesus, que nos diz Venham a mim, para que apoiemos tudo na humildade e a mansidão de seu coração.  Nele se realiza a profecia.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

  • Que me inquieta interiormente? Que fadigas não me deixam avançar? Onde tenho encontrado novas forças para retomar o caminho? Onde estão meus apoios?
  • Tenho me sentido abandonado por Deus? Que imagem tenho dele? Que características tem Deus nesta profecia?
  • Que me diz a frase: “Tudo acontece segundo o projeto de Deus, por isso, é preciso confiar nele? Que espero da vinda do Senhor?

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QUINTA-FEIRA

Isaías 41,13-20 – Mateus 11,11-15

É A HORA DA CONFIANÇA

“Não temas, verme de Jacó, gente de Israel: eu te ajudo, teu redentor é o Santo de Israel”

 

Muitas vezes na vida, sentimos uma grande impotência, sentimo-nos pequeninos como um “verme” frente aos demais, com a sensação de que não vamos poder sair fora, porque os problemas e desafios nos superam.

 

Ante esta realidade nos coloca, hoje, Isaias. Ele nos mostra, a cada um e à comunidade, como daremos passos de superação, se nos deixamos agarrar e levantar pela mão criadora de Deus.

 

Ao ler a profecia messiânica de hoje, notemos que Deus nos fala, direta e insistentemente, na primeira pessoa, como si estivesse tratando de inculcar-nos a certeza de sua proximidade, de sua ternura, através das formas concretas como Ele se ocupa de nós: Eu… te agarrei… te ajudo… te converto em trilho novo… os responderei… não os desampararei… abrirei… converterei… porei”.Desde o inicio até o final, o Senhor se apresenta como o autor da salvação: Eu, Yahveh, teu Deus”.

 

A profecia tem duas partes: (a) vv.13-16: vê-se como Deus vai tirando alguém de seus medos, e a conduz do “temor” à “alegria”; (b) vv.17-20: vê-se, de novo, Deus em ação, tornando desertos em bosques paradisíacos; neste teatro da ação criadora de Deus no pobre e no sedento, compreendem como a salvação lhe é oferecida.

 

Em ambas, se parte da tomada de consciência de uma necessidade profunda e se termina com o reconhecimento da salvação de Deus. Na leitura do texto deixemo-nos guiar pela força das imagens:

 

  1. Superar os medos: “Não temas, eu te ajudo

 

  1. a imagem da “mão”

 

A primeira vez que Deus diz Não temas, eu te ajudo”, aparece, também, a imagem de uma mão que agarra: tomei-te pela mão direita”. Tocar uma mão quente e poderosa transmite a ternura que infunde confiança. Deste modo se aproxima Deus, do homem atribulado, enquanto disse ao seu ouvido: não tenhas medo”. A expressão é maravilhosa, porque, o que estende a mão é o próprio Deus, dai que, Ele mesmo, se apresente: sou eu quem te digo (13c).

 

Mas, o contraste entre os dois é grande: por um lado está a fragilidade do homem, representada no vermezinho e na lagartinha e, por outra, está o poder de Deus o redentor”, “o Santo”. Os nomes “Jacó” e “Israel” indicam o povo de Deus inteiro, mas, este aparece, aqui, em sua qualidade de povo que não é nada sem seu Deus. Que grande ternura manifesta, Deus, nesta passagem bíblica!

 

  1. a vitoria sobre as “montanhas”

 

Uma vez que foi tomado pela mão, o povo é, pouco a pouco, levantado por Deus, e o vermezinho que andava atribulado supera a grandeza das montanhas. O vermezinho, que vivia arrastado, agora é suporte, que arrasta, com seu juízo, as montanhas, como se fossem palha de trigo (ver v.15), para logo separar o trigo da palha (ver v.16).

 

Os montes e os colinas representam tudo aquilo que é adverso dentro da historia humana, são imagem do orgulho humano, que se levanta contra Deus e dos obstáculos que são postos ao povo em seu caminhar libertador e triunfante, no deserto, sobre as forças obscuras que o oprimiam (ver Is 40,4). Dessa maneira os obstáculos são superados.

 

  1. Brota a alegria e o louvor

 

A seguir vem a celebração. O povo canta e aclama a Deus porque tudo foi obra de sua proximidade. O Deus tremendo e exigente (“Santo”) é, agora, o motivo de uma alegria extraordinária. O poderio e a ternura de Deus encontram sua síntese no louvor do povo em festa.

 

  1. Saciar a sede:

 

Humildes e pobres buscam água… os responderei… não os desampararei

 

Vendo ao povo humilde que caminha no deserto árido e ressequido, cheio de medos e, vencendo os obstáculos, na experiência da tremenda presença de Deus, a profecia diz, agora, os humildes e os pobres” (v.17).

 

A dificuldade, agora, está relacionada com a morte que o ameaça com a falta de água no deserto (v.17b). O “vermezinho” que se sentia ameaçado pelas montanhas aparece, agora, como o pobre que luta pela sobrevivência. A situação é dramática: A língua se lhe secou de sede(v.17c). Deus responde, agora, com sua palavra criadora (v.17d).

 

Ante a vista do humilde que suplica, o mercenário se transforma. As mudanças que se realizam são incríveis. Mediante a obra do Senhor (“abrirei”, “converterei”, “porei”), a aridez do monte ameaçador e do inóspito deserto, se transforma em espaço de vida.

 

O cenário nos recorda o paraíso banhado por quatro fontes (v.18). Vemos ali uma lista de sete árvores seletas que oferece o melhor de si mesmas para a vida (v.19). A exuberância da vegetação, unida à abundancia de água que mana pelos montes e vales, tudo em grande quantidade e qualidade, remetem aos ideais da plenitude humana, os quais, não são possíveis, se não é pela “mão” criadora de Deus.

Então, o homem responde com sua fé que reconhece e agradece a ação criadora de Deus (v.20). Vendo a obra se reconhece seu criador.

 

Os quatro verbos descrevem o dinamismo desta fé:

  • o“ver” a obra de Deus;
  • o conhecer” que se deriva da constatação dos fatos;
  • o refletir” que implica, finalmente;
  • o “aprender” que a salvação de Deus é a maior criação dele. Esta profunda tomada de consciência permite descobrir, valorizar e acolher o “novo” de Deus em todos os momentos da vida.

 

Esta profecia se realiza em Jesus (Mateus 11,11-15)

 

Isaías disse “Não temas, verme de Jacó, gente de Israel: eu te ajudo, teu redentor é o Santo de Israel” (v.31). No evangelho que hoje a Igreja serve na liturgia da Palavra, escutamos a Jesus que nos dize “o menor no reino dos céus é maior que ele”. Anuncia-se, aqui, o mistério do novo nascimento, o qual só se faz possível pela graça de Jesus Cristo, e que é impossível somente pelo arrependimento e a consciência da indigência humana. É nele que se realiza a profecia.

 

A grandeza do Batista

 

Chama a atenção que Jesus elogie a alguém. Não é algo frequente nos Evangelhos. E não é pouco o que disse: “ninguém maior…”. Mas, a tradução incluída nesta página diz: “não surgiu entre os homens ninguém maior que João o Batista”, mas está mais próximo ao texto original este outro: “entre os nascidos de mulher não se tem levantado ninguém maior que João Batista”.

 

De fato, a expressão “nascidos de mulher” equivale, materialmente falando, “aos homens, os seres humanos”, porém, tem, também, uma conotação que não devemos perder: “o que pode dar uma mulher a este mundo; o que a carne e o sangue podem dar a esta terra; o que pode lograr o ser humano desde suas próprias forças”.

 

E o sentido do texto seria: “o máximo que se pode esperar do ser humano, por suas próprias forças, é a imensa honestidade e a carga de verdade que brilha em João Batista”. Isso explica o que segue: “sem dúvida, o menor no Reino é maior que ele”. João é o grande “nascido de mulher, nascido da carne e do sangue”; ao contrário, o que nasce para o Reino, não nasce da carne e do sangue (cf. Jo 1,13).

 

O Reino de Deus sofre violência

 

De fato, a própria vida do Batista foi isso: um ato de ruptura, como violento protesto contra toda a mentira do povo e seus dirigentes. Se alguém olha a João e pretende entrar ao Reino de Deus baseando-se só nas palavras e o exemplo de João só pode tirar uma conclusão: “tenho que romper com tudo para ser fiel a Deus”. Esta forma de “violência” é a única possibilidade que fica aberta se olhamos a santidade sem medida deste asceta gigantesco, o Batista, que, sem duvida, teve discípulos.

 

Esta entrada “violenta” era a única que havia “até agora”. De fato, com a chegada de Cristo há uma nova lógica, uma nova possibilidade de ingresso e posse do Reino, através da fé, da graça, da efusão do Espírito Santo e das obras novas que dai nascem. Bendito seja Deus!

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

Há imagens fortes e belas na profecia de hoje que poderiam ajudar-nos no exercício de oração. Por exemplo, a mão que agarra outra mão, que transmite calor e infunde confiança no poder de Deus, nos situa desde já, ante a experiência que João canta na natividade: “os que contemplaram e tocaram nossas mãos acerca da Palavra de Vida” (1 Jo 1,1).

  • Que imagens desta profecia são significativas para mim?
  • Frente aos obstáculos da vida, como a experiência de Deus descrita pelo profeta Isaías pode me ajudar para dar passos de superação? De que tenho sede?
  • Quais são minhas necessidades fundamentais? Como responde Deus a elas?
  • Hoje a liturgia da Igreja quer também convidar-nos a contemplar a figura de João Batista, precursor do Messias. Que frase desta profecia está relacionada com sua missão.

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SEXTA-FEIRA

Isaías 48,17-19 – Mateus 11,16-19

PROFECÍA DO ADVENTO

“Eu sou o Senhor teu Deus, eu te ensino o que há de ser-te útil”

 

Por que será que nos custa tanto manter as relações?

Por que os grupos sociais e, algumas vezes, também, os eclesiais, se dividem com tanta facilidade?

Por que é tão complicado fazer comunidade?

 

A profecia de hoje indaga sobre estas perguntas e, para isso, se vai à fonte da vida comunitária na Bíblia: o caminhar pelo deserto. O deserto foi a grande escola de Israel. As etapas do longo caminhar foram as lições. O Mestre foi o próprio Deus.

 

Como bem sintetiza o livro do Deuteronômio, foi uma educação profunda: “Recorda-te de todo o caminho que Yahweh, teu Deus, te fez andar, durante estes quarenta anos, no deserto, para humilhar-te, provar-te e conhecer o que havia em teu coração: se irias, ou não, guardar os seus mandamentos… Dar-te conta, pois, de que Yahweh, teu Deus, te corrigia (=educava) como um pai corrige a seu filho” (8,2.5).

 

A capacidade, ou não, de viver na terra, para realizar, ali, o projeto de povo que Deus lhes propunha, dependia desta aprendizagem. Quer dizer, que não se pode fazer comunidade, não se pode ter uma autêntica sociedade, se não se faz o caminho educativo. Se não, cedo ou tarde, a mesquinhez, que habita o coração, sairá, e o sonho de um mundo justo e fraterno virá abaixo, de um momento a outro.

 

O profeta nos apresenta o rosto do Deus pedagogo e o faz falar assim: “Eu te ensino o que há de ser-te útil, te guio pelo caminho que tens que seguir” (48,17). Nesta frase, o caminhar pelo deserto, com todos os seus acontecimentos implicados, é a matéria do ensinamento.

 

Nós, os leitores desta profecia de hoje, compreendemos que nossa vida inteira é este caminhar pelo deserto e que, do dia a dia, temos que tirar suas lições. A Torá (Lei do Senhor), antes que um acúmulo de prescrições é este caminho histórico guiado pelo Senhor e sustentado pela fé, constante, nele.

 

Igualmente, este caminho da vida, não pode ser compreendido, senão à luz das Palavras que o Senhor nos prescreve em sua Lei. Quando a vida se une a Deus e se deixa guiar por Ele, as bênçãos se vêm vir.

A profecia assinala três: (1) a paz e a justiça; (2) a descendência; (3) a permanência na presença do Senhor. Às vezes há quem pensa que viver segundo a Palavra não serve para nada, porém ai está uma primeira lista de bênçãos.

 

Como se estivéssemos orando o Salmo 81,14, “Ah, se meu povo me escutasse, se Israel caminhasse em meus caminhos”, a profecia faz um clamoroso chamado para que ponhamos nossos passos nos caminhos de Deus fazendo de suas opções as nossas. Vale destacar a maneira como o faz: dando, ao filho rebelde, a beleza e o gozo de um novo abraço.

O mesmo tom profético o notamos nas palavras de Jesus (Mateus 11,16-19)

 

Notemos as palavras de Jesus que compara o auditório rebelde com as crianças malcriados e egoístas que gritam, uns a outros, em suas rodas recreativas nos bairros. Um grupo diz ao outro que dancem, porém, estes não dançam, então pedem que chore, porém, tampouco, estes o fazem (Mt 11,16-19).

 

Este é o drama que vive Jesus, o Mestre, na educação de seu povo. É verdade que não é fácil aderir ao evangelho e que sempre haverá desculpas para adiar a conversão. Causalmente as pessoas mais difíceis para pregar-lhes, nos que habitualmente há mais resistências, somos nós, os que já estamos (ou deveríamos estar) no caminho.

 

Se bem que é certo que não podemos sedimentar nossa vida espiritual em nada diferente da Palavra (a Escritura lida desde a vida e a vida relida desde a Palavra), também é certo que a Palavra não é verdadeiramente lida se não a levamos à prática. Não é fácil a conversão, contudo, o Senhor, que sabe de pedagogia, segue chamando.

 

Um problema de sintonia

 

Deus se queixa de seu povo. Não há sintonia. Chamou a penitencia por meio de João, e a resposta foi de rejeição; chamou a amizade por meio de Cristo, e de novo a rejeição.

 

A dureza do homem desconcerta ao próprio homem, se reflete um pouco sobre ela. Comove-nos a palavra de Isaías. Eis aqui um Deus que quase tem que dar explicações a seu povo. “Instruo-te por teu bem”, diz o Senhor, por si alguém não havia entendido.

 

O problema de novo é de sintonia: o bem que Deus quer não é bem que o povo quer. Ou talvez estes bens coincidam, no fundo, mas a obediência às regras, caminho para o bem, não encontra espaço no coração endurecido do povo.

 

Não podemos ficar contemplando o espetáculo da desobediência passada. É preciso que hoje creiamos na palavra do profeta: o que Deus nos ordena, é por nosso bem.

 

A grande mentira do demônio é: “Deus não te ama, não se ocupa de ti”; a grande verdade revelada por Cristo é: “Deus te quer; és importante para Ele”. E desse amor e importância que tens ante Ele, te ordena seus mandamentos.

 

O amigo de seus inimigos

 

A crítica contra Jesus, dita por ele mesmo no evangelho de hoje, é no fundo um elogio em sua parte final: “ai têm a um amigo de pecadores”. Frase que nasceu do desprezo e da inveja, e que sem dúvida descreve bem o mistério e o ministério de Jesus: é o amigo dos pecadores, o amigo de seus inimigos.

 

A lei de Moisés proibia juntar-se com o enfermo de lepra por temor ao contágio. Com uma lógica semelhante querem que se proíba o contato com os pecadores, por medo de contagiar-se. Não descobriram que Jesus não ficará sujo, mas que os limpará. Jesus é o lugar do “bem forte”, o bem que não se suja em contato com o mal, mas que o vence e o limpa. Ele é a luz que vence às trevas.

 

Se Jesus fosse inimigo de seus inimigos, poderia talvez ganhá-los, mas ao preço de dar uma vitória à inimizade e um novo impulso ao ódio. O amigo dos inimigos é o que perde, a primeira vista, mas ganha a batalha, porque vence não a um humano fraco, mas a um pecado forte. É verdade que não é fácil aderir ao evangelho e que sempre haverá desculpas para adiar a conversão. Causalmente as pessoas mais difíceis para pregar-lhes, nos quais habitualmente há mais resistências, somos nós, os que já estamos (ou deveríamos estar) no caminho.

 

Se bem que é certo que não podemos alicerçar nossa vida espiritual em nada distinto da Palavra (a Escritura lida desde a vida e a vida relida desde a Palavra), também é certo que a Palavra não é verdadeiramente lida se não a levamos á prática. Não é fácil a conversão, contudo, o Senhor, que de pedagogia sabe, segue chamando.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Para que levou Deus povo ao deserto? Como sai o povo do deserto?
  • Que acontece quando orientamos nossos projetos de vida segundo o caminho do Senhor?
  • De que maneira tiro proveito, para meu crescimento no Senhor, de minhas vivências cotidianas?

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SÁBADO

Lucas 1,39-47:

Maria é sinal do rosto maternal e misericordioso de Deus

“Olhem, a virgem está grávida e dará a luz um filho e lhe porá por nome Emanuel, que significa Deus-conosco”

 

Uma manhã cedo do ano de 1531, na colina do Tepeyac (México), Maria apareceu a Juan Diego, hoje primeiro santo indígena na historia da Igreja. A ele se manifestou como a Mãe de Deus e a Mãe dos homens necessitados. Logo, ao mesmo tempo em que se derramavam rosas, sua formosa figura ficou impregnada no manto que hoje veneramos como Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Recordemos o diálogo da Virgem Maria com Juan Diego na primeira aparição:

“―Juanito, o menor de meus filhos, a onde vais?

―Senhora e criança minha, tenho que chegar a tua casa, a seguir as coisas divinas que nos dão e ensinam nossos sacerdotes, delegados de Nosso Senhor.

―Sabe e tem entendido, tu e menor de meus filhos, que eu a Sempre Virgem Santa Maria, Mãe do verdadeiro Deus por quem se vive; do Criador em cujas mãos tudo estás, Senhor do Céu e da terra. Desejo vivamente que se levante aqui um templo para mostrar e dar nele todo meu amor, compaixão, auxilio e defesa, pois eu sou vossa piedosa Mãe, a ti, a todos vós juntos, os moradores desta terra e aos demais que me amam, me invocam e confiam em mim. Ali ouvirei seus lamentos e remediarei todas suas misérias, penas e dores. Tu és meu embaixador, muito digno de confiança”.

 

Assim, Maria se constituiu em sinal que nos fala, continuamente, da obra de Deus nos povos e culturas que habitam o continente americano. Deixando-nos guiar pela Palavra de Deus – particularmente a profecia de Isaías – permitamos que se abra ante nós o mistério.

 

No evangelho que proclamamos hoje, a maternidade de Maria é felicitada por Isabel: “Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu seio”(Lc 1,42).O ventre de Maria é reconhecido, por estas palavras inspiradas, como a arca da aliança perfeita na qual o Senhor se faz presente de modo plena e definitivo.

 

  1. Hoje Maria segue sendo o “grande sinal” da fidelidade e ternura de Deus em nosso continente e no mundo

 

Ao celebrar neste dia, a Maria, como a Mãe e evangelizadora da América, temos presente que neste meio milênio de historia cristã de nosso continente, o Evangelho foi pregado apresentando-a como o modelo perfeito do qual a Palavra nos convida a viver.  Como disse o Papa João Paulo II: “Desde as origens ―em sua invocação de Guadalupe― Maria constituiu o grande sinal, do rosto maternal e misericordioso, da proximidade do Pai e de Cristo, com quem ela nos convida a entrar em comunhão” (Igreja en América, 11).

 

Ao contemplá-la, a Santa Maria da esperança, ressoarão, em nós, palavras de confiança, que nos convidam a não perder o ritmo da espera: “Não temas, nem desmaye teu coração”. Que o rosto mestiço da Virgem Maria, a Virgem do Tepeyac, Santa Maria de Guadalupe, Mãe das Américas, que dá rosto ao evangelho com a cor de tantas raças, nos inspire todos os dias na impregnação e o arraigo do evangelho, para que renasça entre nós a cultura da paz e da vida.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Como anda minha fé e esperança, especialmente quando se apresentam as dificuldades da vida?
  • Qual o sinal de Deus para os cristãos deste continente? Que ensina este sinal? Que relação tem com a cultura da vida que esperamos neste longo advento de nosso continente?
  • Que evoca em mim o rosto terno, amoroso e preocupado por mim, da Mãe de meu Senhor?

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