Estudo bíblico semanal de 16 a 21 de julho

15ª Semana da Tempo Comum – Ano B

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

 

SEGUNDA-FEIRA

Mateus 10,3411,1

O DISCURSO DOS BONS OPERÁRIOS DO EVANGELHO (V): OS AFETOS DO MISSIONÁRIO

“Quem a vós recebe a mim recebe”

 

Chegamos ao final do “Discurso do missionário” no evangelho de Mateus. E o referido discurso se encerra com estas palavras conclusivas “Quando Jesus acabou de dar instruções a seus doze discípulos, partiu dali para ensinar e pregar na cidade deles” (Mt 11,1).

Em outras palavras, este ensino que Jesus preparou trata de sua própria atividade missionária. Assim, agora, Ele mesmo, é o primeiro a praticar o que prega. As últimas duas lições da formação dos missionários têm relação com os “afetos”:

 

Instruções acerca da família: a crise nos afetos do missionário (10,34-39)

 

Mateus nos apresenta de modo reformulado o lado da opção cristã para as habituais relações familiares, inspirando-se no profeta Miquéias: “Porque o filho insulta o pai, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são as pessoas de sua casa” (7,6).  A ruptura familiar, que é um dos fenômenos que caracteriza a tribulação ao final da pregação profética de Miqueias, aparece antecipada para a hora na qual se dá o passo da fé.

 

As difíceis frases de Mt 10,34-36, que se resumem na última: “Em suma: os inimigos do homem serão seus próprios familiares” (10,36), mostram o lado da radicalidade da opção.  Com efeito, na vida familiar, assim como em muitos outros âmbitos de relação, se vivem situações que se aceitam como normais, porém, uma vez que se tem conhecido o evangelho de Jesus, estas já não podem ser toleradas.

 

Definitivamente, o evangelho é um acontecimento de vida que subverte e transforma toda estrutura, tanto a nível social, como familiar e pessoal. O encontro com Jesus, a principio, gera uma nova capacidade de amar. Porém, o verdadeiro amor é profético: não pode tolerar a injustiça, não pode acomodar-se ao que não é correto. A experiência viva com o chamado de Deus tem uma grande capacidade para revolver, para abalar, para fazer estremecer, as estruturas mais compactas, uma das quais, e, talvez, a mais visível, na sociedade patriarcal israelita, é a família.

 

Um segundo grupo de pensamentos que pronuncia Jesus, é mais forte que o primeiro. A hierarquia de valores começa a ser julgada aqui: este breve texto nos introduz na dinâmica do seguimento radical do Senhor, antes mesmo das prioridades afetivas do discípulo.

 

Jesus é o valor fundamental do discípulo. Ele está acima (“ama mais”) dos maiores amores que alguém pode ter na vida (pai, mãe, filho, a pessoa mesma), se não é assim, o discípulo-missionário “não é digno de mim” (repete três vezes nesta passagem). Desta forma, volta a apresentar a exigência de romper com toda classe de seguranças, enquanto que um novo horizonte se abre à vida do discípulo.

 

Tudo isso está simbolizado no gesto de “tomar a cruz e seguir atrás d’Ele” (10,38), mediante o qual se deixa de lado toda classe de interesses meramente pessoais para abraçar a Cruz, como expressão de uma vida toda entregue à causa de Jesus.

 

Instruções acerca da identificação de Jesus com seus missionários (10,40-42)

 

Na leitura que fizemos do Sermão da Montanha, vimos como toda a primeira parte deste sermão estava preocupada em mostrar que um verdadeiro filho de Deus se parece com seu Pai em seu agir (5,16). Agora, o mesmo é afirmado neste capítulo missionário, com relação a Jesus e seus discípulos: “Quem a vós recebe, a mim recebe, e quem me recebe, recebe Àquele que me enviou” (10,40).

 

O discípulo plenamente identificado com Jesus recebe aqui três títulos:

  • profeta” (41ª): como já vimos antes, o missionário se apresenta como “profeta” de palavra exigente

e clara, mas, também como animador da vida no Senhor para todos seus irmãos;

  • justo” (41b): porque, pela vivencia das bem-aventuranças, tem aprendido a justiça nova do Reino,

a qual ensina a seus irmãos (ver 5,19);

  • pequeno” (42): em sua humildade se reconhece como pessoa sempre em crescimento, necessitada

dos demais, consciente que não basta convidar a outros a entrar no Reino, mas ele

deve entrar primeiro (18,4).

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

Como missionário que busca a vida e crescimento dos demais peçamos ao dono da messe que não se esqueça nunca quem somos ante Ele: seus pequenos, seus justos e seus profetas ao estilo de Jesus. Que o êxito não nos leve a crer-nos mais que os demais. Que não se dê nem um passo atrás na entrega ao Senhor do Reino.

 

  • Que dissabores recordas da última experiência missionária que teve?
  • Como deve ser a afetividade do missionário? O amor a Jesus e à pessoas mais queridas se contrapõem, se ordenam um a outro?
  • Que implica a identificação total com Jesus para o crescimento pessoal e para nossa maneira de apresentar-nos ante os demais

TERÇA-FEIRA

Mateus 11,20-24

A OUTRA CARA DA MOEDA: A RESISTÊNCIA À CONVERSÃO

“Se em Tiro e em Sidônia se tivesse feito os milagres que se tem feito entre vós…”

 

Vejamos agora a outra cara da moeda do Evangelho que acabamos de abordar.

Voltando algumas páginas atrás, no Evangelho de Mateus, encontramo-nos, no capítulo 11, com as palavras duras de Jesus “às cidades onde havia realizado a maioria de seus milagres, porque não se haviam convertido” (11,20).

 

O ponto é que a “conversão” acaba sendo mais dura exatamente ali, onde Jesus e seus missionários mais milagres fizeram, onde mais sinais do amor de Deus e do poder de Reino se revelaram. Não será isto uma constante na história?

 

No Evangelho vemos que as cidades de Corazim e de Betsaida, cidades bem conhecidas na região geográfica da missão de Jesus na Galileia, personificam a reação adversa frente ao Evangelho. A indiferença dos que mais receberam é injustificável e, por isso, o julgamento aparece mais duro.

 

As cidades não judias de Tiro, Sidônia e Sodoma, cidades emblemáticas do paganismo e do pecado, pareceriam mais dispostas à conversão que o povo de Israel, que “se elevava” (11,23; em outros termos, acreditava ser “a maior”) pela convicção de ter, de sua parte, a graça salvadora de Deus.

 

Eis aqui um dos elementos que a mentalidade de Jesus promove no âmbito da transformação das estruturas sociais difíceis: a tomada de consciência da necessidade de salvação, a necessidade da misericórdia e do perdão.

 

Quem não sente necessidade de conversão não pode dar o menor passo para a entrada no Reino (ver a passagem que aparece no contexto anterior: 11,16-19).

 

Oremos para que, em nosso caminhar com Jesus, a advertência, aqui exposta pelo Evangelho, nos sacuda de nossa comodidade e, acolhendo agradecidamente as obras do Senhor em nossas vidas, seu amor nos conduza para níveis mais altos de compromisso com a proposta do Reino da vida, expressão patente de conversão evangélica.

 

Aprofundando com os nossos pais na fé

 

São Gregório Magno (c.540-604), papa, doutor da Igreja.

 

 “Jesus começou a fazer censuras às cidades que não se tinham convertido”

 

Gritemos com Davi; ouçamo-lo chorar e vertamos lágrimas com ele.

Vejamos como se corrige e alegremo-nos com ele: “Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa misericórdia”.

Coloquemos diante dos olhos da nossa alma um homem gravemente ferido, quase prestes a exalar o seu último suspiro, que jaz nu sobre o pó do caminho.

No seu desejo de ver chegar um médico, geme e pede àquele que compreende

o estado em que se encontra que tenha piedade dele.

Ora, o pecado é um ferimento da alma.

Tu, que és esse ferido, compreende que o teu médico se encontra dentro de ti,

e descobre-lhe as chagas dos teus pecados.

Que Ele ouça os gemidos do teu coração, Ele que conhece todos os pensamentos secretos.

Que as tuas lágrimas o comovam e, se for preciso procurá-Lo com uma certa insistência, do fundo do teu coração, faz subir até Ele suspiros profundos.

Que a tua dor chegue até Ele e que também a ti te digam, como a Davi:            “O Senhor apagou o teu pecado”.

“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa misericórdia”.

É pouca a misericórdia que atraem sobre si aqueles que fazem diminuir a sua falta porque não conhecem esta grande misericórdia.

Por mim, caí pesadamente, pequei com conhecimento de causa.

Mas Tu, médico todo-poderoso, Tu corriges aqueles que Te desprezam, instruis aqueles que ignoram a sua falta e perdoas àqueles que te são confessadas.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Que quer dizer que para ser o “maior” tem que “fazer-se pequeno” como uma criança?
  • A que conversão em minha vida pessoal me convida o texto do Evangelho de hoje?
  • A comparação que Jesus faz entre as cidades pagãs e as hebreias levam-nos a um questionamento pessoal sobre nossa docilidade ou nossa dureza de coração para aceitar o Evangelho de Jesus. Considero-me uma pessoa que tem adormecido no título de “cristão” e necessita sacudir-se um pouco para entrar pelo caminho correto da conversão?

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA

Mateus 11,25-27:

Uma reveladora oração de Jesus

“Ocultaste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequenos”

 

A primeira palavra do Evangelho de hoje é uma oração de louvor que leva o selo da experiência particular de Jesus. Esta oração vai dirigida ao “Pai”, que é “Senhor do céu e da terra” (11,25).

 

Novamente Jesus quer mostrar-nos a estreita vinculação que existe entre o Pai e Ele, junto com a possibilidade que nos dá de ascender, de nos elevar, a este mesmo estado.

 

Os seguidores de Jesus são pessoas que conhecem muito bem sua missão e o horizonte que possuem ao conhecer Jesus: onde está à origem e qual é a meta de sua existência.

 

Na raiz do discipulado está à relação do Pai e do Filho como realidade fundante da qual brota todo o conhecimento de Deus que se recebe e como paradigma do verdadeiro sentido do chamado recebido: participar desta comunhão.

 

Como deixa entender, Jesus, a boa comunicação com Deus e a constante relação com Ele, nos permite conhecer os mistérios e as verdades que estão no interior de nossa vocação e de nossa missão cristã.

 

Os “sábios e entendidos” são, no contexto deste Evangelho, os mestres da lei e os fariseus, que conhecem a Lei de Moisés, porém, rejeitam Jesus porque lhes parece insignificante. Rejeitam-no, não porque não compreendam suas palavras a nível intelectual, mas porque, captando bem o que tem ensinado, se negam, categoricamente, a aceitá-lo.

 

Eles não estão abertos à nova proposta de salvação e vida que provém do Reino, cuja irrupção definitiva anuncia Jesus. Ainda que, sendo grandes teólogos, eles preferem seguir atados à sua norma, a um sistema de vida rígido que os impede de ler os sinais vivos da presença de Deus em Jesus de Nazaré.

 

Ao contrário, os “pequenos” são os que, com simplicidade de coração, têm aberto, de par em par, as portas de seu coração, para receber a revelação de Jesus e a acolhido efetivamente.

 

Os “pequenos” são os que, não importa sua condição social, têm uma atitude diferente, que parte do reconhecimento de que “não sabem tudo” e, portanto, desejam, vivamente, aprender e viver mais ao lado do Mestre.

 

Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (11,27). Esta revelação que o Filho faz do Pai é a que o Pai tem manifestado aos simples: que todos nos façamos um com Ele e para Ele.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

«Vinde a Mim todos os que estais fatigados»

 

Percorríamos o itinerário desta vida na ignorância e na incerteza.

Nossa viagem pelo mundo tinha nos sobrecarregado com considerável fardo de negligência pecadora…

De repente, avistamos do lado do Oriente uma inesperada fonte de água viva.

Enquanto nos apressávamos para ela, a voz de Deus fez-se ouvir gritando a nós: “Vós, que tendes sede, vinde às águas!” (Is 51,1).

Vendo que nos aproximávamos carregados de pesadas bagagens disse: “Vinde a Mim todos vós que estais fatigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei”.

Então nós, ao ouvirmos essa voz cheia de bondade, lançamos por terra nossas bagagens.

Atormentados pela sede, estendemo-nos no solo a fim de beber avidamente da fonte; e tendo bebido longamente, levantámo-nos restabelecidos.

Após termo-nos erguido, permanecemos ali, absolutamente estupefatos, no excesso da nossa alegria.

Olhávamos o jugo que tínhamos carregado penosamente ao longo do caminho, e as bagagens que nos haviam fatigado até à morte com seu peso…

Enquanto estávamos absortos em nossas considerações, ouvimos de novo a voz que saia da fonte que nos restituíra à vida: “Tomai sobre vós meu jugo e entrai para minha escola, pois sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Pois meu jugo é suave e minha carga leve”.

E nós, a estas palavras, dissemos uns aos outros: “Não voltemos atrás depois de termos reencontrado a vida, graças a tal fonte…

Não retomemos a bagagem dos nossos.”

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Segundo o Evangelho de hoje, quem são os “sábios e inteligentes”? Quem são os “pequenos”?
  • Que relação tem a passagem de hoje com os textos que lemos ontem? Como se conectam?  Que nova mensagem se agrega?
  • Que espera Jesus de nós segundo o Evangelho? Que decisão eu tomo para minha vida espiritual?

 

 

 

QUINTA-FEIRA

Mateus 12,46-50

SOMOS FAMÍLIA DE JESUS QUANDO VIVEMOS SEGUNDO A VONTADE DO PAI CELESTIAL

“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?”

 

Tomamos hoje a leitura própria da celebração da “Apresentação da Santísima Vírgem Maria”.

No texto apócrifo do chamado “Proto Evangelho de São Tiago”, encontramos um formoso relato no qual se descreve poeticamente a apresentação da pequena Maria no Templo de Jerusalém: “O sacerdote a acolheu, a beijou, a abençoou e a sentou no terceiro escalão do altar. E ela dançou sobre seus pezinhos e toda a casa de Israel começou a amá-la. Seus pais se foram admirados. Maria era alimentada no Templo como uma pomba e recebia o alimento pelas mãos de um anjo”.

A festa mariana de hoje, nasceu desta tradição popular.  Porém, para além dessa estória encontramos bons motivos para compreender melhor o mistério de Maria e também o nosso.

  • Uma ação de graças ao Deus da vida. São Joaquim e Santa Ana agradecem a Deus o dom da vida de sua filha mediante o rito da apresentação no Templo. É o mesmo que Maria fará com seu próprio filho Jesus, quando ao levá-lo ao Templo de Jerusalém ela deu graças publicamente pelo dom de sua maternidade e pelo dom da vida nova que veio ao mundo.
  • Uma consagração desta vida a Deus para viver em sintonia com seu querer. Na apresentação no Templo, à ação de graças se segue um ato de consagração, de oferecimento da vida a Deus.

 

Por isso hoje contemplamos a dedicação total de María à vontade de Deus. Não é por casualidade que hoje lemos no evangelho a definição que Jesus dá de sua propia família: “Todo o que cumpra a vontade de meu Pai celestial, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).

 

Maria é plenamente a Mãe de Jesus, não somente porque o levou nove meses em seu ventre, porque o deu a luz, porque o alimentou e o educou; mas porque ela escutou e obedeceu com uma dedicação total a sua Palavra, porque esta Palavra foi o fogo que ardeu em seu coração e a indicou a rota de seu projeto de vida.

 

Durante toda a sua vida, desde a apresentação no Templo como oferenda vivente ao Senhor e desde aquele dia em que com seu “sím” aceitou ser a Mãe de Jesus, até a dramática experiência do Calvário, María foi sinal da adesão, da fidelidade, da consagração total à vontade de Deus.

 

Desta forma o mistério de Maria não se esgota nela mesma, mas ilumina profundamente a vida de todo aquele que, como ela, viva um sério caminho de discipulado.  Porque Maria, por sua consagração total à vontade de Deus, é o primeiro e mais claro exemplo do cumprimento das palabras de Jesus que escutamos hoje, ela é também, verdaderamente, a “Mãe” da nova família de Jesus.

 

Estava falando à multidão…” (12,46), quando, de repente, chegaram os familiares de Jesus, “sua mãe e seus irmãos”, e ficaram esperando fora (12,16a). Quando Jesus toma conhecimento do propósito de sua família, responde: “Estes são minha mãe e meus irmãs, pois todo o que cumpre a vontade de meu Pai celestial, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (12,49b-50).

 

Bem sabemos que, na maneira de falar daquele tempo, aos parentes próximos, também se chamava “irmãos” (Lv 10,4). Por essa razão não haveria que buscar aqui motivos para por em discussão se a Virgem Maria teve mais filhos.

O certo é que, segundo o texto, a menção da palavra “irmãos” dá ocasião para que Jesus se pronuncie sobre qual é sua verdadeira família. Para isso, Jesus faz uma distinção entre a família natural (biológica) e a família espiritual que nasce do discipulado, onde os laços que geram vínculos são mais estreitos e fortes que os da família natural.

 

Segundo o texto, Jesus não sai ao encontro deles, mas, que, ao assinalar dentro da casa em que está, qual é sua verdadeira família, os convida a entrar, a tomar parte dela. O parentesco biológico com Jesus é insuficiente, pois, ter parte com Jesus leva a reconhecer a sua verdadeira identidade e não aprisioná-lo nos conceitos que se tenham dele pela simples convivência na infância. Em outras palavras, se requer a aprendizagem do Evangelho.

A família de Jesus é a comunidade dos “pequenos” que, mediante a escuta da Palavra e a conversão a ela, vai crescendo, levada pela mão do Mestre e conduzida para a plenitude de toda família, que é a relação trinitária (28,19). A comunidade de Jesus personifica a todas as pessoas que optam de coração por Ele e elegem viver segundo os critérios de seu Evangelho, encarnando as bem-aventuranças e todos os ensinamentos de Jesus, fazendo presente, desta forma, sua obra salvadora em suas vidas.

O núcleo do texto está na frase: “cumprir a vontade de meu Pai Celestial”(v.50). Mateus diz, expressamente, o termo “Pai” e não, simplesmente, “Deus”, já que a captação da vontade de Deus está intrinsecamente relacionada com esta revelação da paternidade divina, da qual Jesus faz derivar todo o Evangelho.

É a comunhão com este Pai que permite falar, com certeza, de uma “verdadeira família”. A vida desta nova família encontra seu sentido no mistério do Reino que se realiza na história, assim como veremos amanhã nas Parábolas de Jesus.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Para que buscam os familiares (biológicos) a Jesus?
  • Como se entende a palavra “irmãos de Jesus” nesta passagem?
  • De que maneira uma pessoa se faz “familiar” de Jesus?

SEXTA-FEIRA

Mateus 12,1-8

A NORMA DAS NORMAS: A MISERICÓRDIA ACIMA DE TUDO

Se tivesses compreendido… não condenarias os que não têm culpa”

 

Vejamos no texto de hoje como é que Jesus dá o verdadeiro “descanso” (o Shabat) e faz ligeira a carga da Lei. O texto nos apresenta a primeira controvérsia sobre o estrito cumprimento da lei do descanso “sabático” (cuja norma se encontra em Êxodo 20,8-11). A cena acontece em meio ao campo. Os interlocutores são os fariseus.

 

Os fariseus reprovam Jesus que seus discípulos façam em dia de sábado algo que não é permitido pela lei: “Olha, teus discípulos fazem o que não é lícito fazer em sábado” (12,2). Eles se referem expressamente ao “arrancar espigas e comê-las” (12,1; ofício proibido fazer em sábado).

 

Eles só se fixam na norma, não na fome dos discípulos (“sentiram fome”, v.1) nem na misericórdia de Jesus que lhes permite romper a norma para remediar a necessidade (“quero misericórdia…”, v.7).

 

Os fariseus esperavam que Jesus lhes fizesse caso e repreendesse seus discípulos, porém, não aconteceu assim. De fato, se os discípulos fizeram isto foi porque os incentivou seu Mestre.

 

A resposta de Jesus, seguindo o mesmo esquema dos debates dos fariseus, cita duas passagens bíblicas na qual o remédio de uma necessidade foi mais importante que a rigidez da norma:

 

  • Jesus lê 1Sm 21,2-7, onde o sacerdote Ajimélek permite a Davi comer o pão que havia sido destinado para o Templo e os sacerdotes (Ex 25,23-30), já que não havia pão profano para comer ( Mt 12,3-4);

 

  • Logo apela a um argumento jurídico tomado do mesmo livro da Lei: quando um sacerdote está no exercício de suas funções no Templo nem todas as estritas normas do descanso sabático aplicam (Mt 12,5-6 citando Nm 28,9-10). Do qual Jesus conclui: “Eu vos digo que aqui há alguém maior que o Templo” (12,6).

 

Isto quer dizer que se o Templo dispensa da Lei do descanso, Jesus pode dispensar seus discípulos eventualmente de uma norma que impedia a caridade.

 

Jesus, “Deus-conosco”, é “maior que o Templo” (12,6) e “Senhor do Sábado” (12,8). Estas afirmações são surpreendentes. Para os fariseus soam como blasfêmia inaceitável.

 

Para os discípulos de Jesus soaram como resposta à pergunta pela identidade de Jesus, o verdadeiro “Ungido” e “Templo” de Deus, e ponto de partida de uma nova atitude frente ao aparato legal hebreu.

 

Jesus deixa entender que nenhuma instituição pode estar acima da nova notícia da caridade do Reino que vem ao mundo por meio da pregação, os milagres e os gestos de misericórdia de Jesus.

 

A citação “Quero Misericórdia, não sacrifício” (Os 6,6), introduz uma nova crítica de Jesus à rigidez espiritual dos fariseus. Uma das “queixas” (11,28) do povo era o sentimento de culpa por haver tido que fazer algo urgente que remediara suas necessidades passando por cima das normas estabelecidas.

 

O verdadeiro culto a Deus não está nos ritos externos, mas no ter um coração como o dele, o qual era a finalidade primeira do culto externo, pregaram os profetas.

 

Quando isto não é claro, se pode cair em posturas condenatórias que, se bem são coerentes com a norma escrita, podem não coincidir com a prioridade de Deus que é a vida plena do homem.

 

Por isso Jesus disse onde está à verdadeira falta dos que creem que nunca cometem faltas: “Não condenarias os que não têm culpa” (12,7). A autêntica experiência religiosa aponta sempre para a comunhão com Deus.

 

O sacrifício do Templo tinha esta finalidade. Não se podia esquecer que o fundamental está no coração: “Pois não te agrada o sacrifício…. O sacrifício a Deus é um espírito contrito…” (Sl 51,18-19).

 

Segundo isso, qual é o verdadeiro rito que Deus espera de mim: o amor ou a norma? Se por acaso respondemos o segundo, poderíamos terminar, não sacrificando-nos para Deus, mas sacrificando seu amor e “aos que não tem culpa” (12,7).

 

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Como enfoca Jesus a polêmica dos fariseus escandalizados porque os discípulos famintos quebraram a lei para satisfazer sua necessidade?

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  • Que afirmações acerca de Jesus se fazem nesta passagem do Evangelho?

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Que nos dizem de “novo” acerca d’Ele?

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  • Tenho “sacrificado” alguma pessoa pelo apego estrito a uma norma?

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SÁBADO

Mateus 12,14-21

“Olhai a meu servo, meu predileto”

 

A postura de Jesus ante o preceito do sábado acarreta-lhe perseguição: “os fariseus… confabularam-se contra Ele para ver como eliminar-lhe” (12,14), Porém, a perseguição não cala a voz do profeta.  Jesus aplica o mesmo que já havia ensinado no manual da missão (“quando vos perseguirem em uma cidade fugi a outra”, 10,23), daí que, “retirou-se dali” (12,15ª).

 

Jesus não oferece resistência à hostilidade dos fariseus, em coerência com o anúncio das bem-aventuranças (5,4.9.39), nem devolve o mal com mal, mas segue adiante com sua missão (10,26-27), com firmeza, mesmo que a sua própria vida esteja em jogo. Então as consequências se veem “muitos lhe seguiram e os curou a todos” (12,15b). Os vv.16-21 nos põem ante ao primeiro grande cântico do “Servo Sofredor de Yhaweh”, proclamado por Is 42,1-4; escuta-se o cântico no qual o “Servo” toma consciência de sua vocação. Sobre este fundo bíblico Mateus interpreta o sentido da missão de Jesus, o “por que” e o “para que” dela, assim como o estilo particular caracterizado pela misericórdia.

 

Meditando este texto, ao mesmo tempo que se colocam ante às eventualidades do ministério de Jesus, os discípulos vão entendendo, a fundo, a verdadeira identidade de Jesus e o que vai implicar para eles o seguimento. O Jesus que é Senhor do Sábado” e “Maior que o Templo” é, também, o “Servo humilde” dos propósitos salvíficos de Deus pela via do sofrimento. Seu mistério vem à luz, na medida em que avança o relato evangélico. Por isso, a aprendizagem da identidade de Jesus será lenta e prudente.

 

Se Jesus “lhes mandou energicamente que não dissessem nada sobre ele” é porque não bastam os milagres para tirar conclusões imediatas sobre quem é o Mestre, necessita-se da escuta da palavra de Deus, à qual Ele está dando cumprimento (“Para que se cumpra o oráculo do profeta”, 12,17). Ao longo do Evangelho, Mateus cita, repetidas vezes, os cânticos do “Servo Sofredor”: no batismo (3,17; Is 42,1), na pausa após dos primeiros milagres (8,17;Is 53,4), na transfiguração (17,5;Is 42,1). Mas é, precisamente, nesta passagem que aparece a citação mais extensa (12,18-21;Is 42,1-4).

 

Jesus, o que assume sobre si as fadigas e sobrecargas do povo e é “manso e humilde de coração”, é o “Servo” que reúne todas essas características: “Eleito”; “Amado”; “Complacência do Pai”; “Ungido pelo Espírito”; Proclamador da justiça” de Deus às nações (12,18). Mas, o que mais surpreende é seu estilo: a mansidão. Jesus não realiza sua missão com potência militar. Nisto há grande diferença com o Messias que esperavam alguns judeus.

 

Os discípulos, então, vão descobrindo como Jesus é diferente: Não é de contenda (“não disputará”); Fala suavemente (“não gritará, nem se ouvirá nas praças sua voz”); Faz tudo para não machucar a quem está fragilizado (“não quebrará a cana rachada”); e Respeita os sinais pequenos de vitalidade (“nem apagará a mecha fumegante”). A missão de Jesus, apesar do escândalo dos fariseus, provém de Deus. Seu estilo missionário havia sido profetizado por Isaías. Não resta agora senão seguir lendo o cumprimento da Palavra em cada uma de suas ações, guiados pelas chaves que o profeta nos deu.

 

Aprofundando com os nossos pais na fé

 

São Gregório de Nazianzo (330-390), bispo e doutor da Igreja.

 

«Eis o meu Servo, a quem Eu escolhi, o Meu muito amado».

 

(…) Se faz homem. Assume um corpo para salvar o corpo e une-se à alma racional por amor da minha alma. Para purificar a quem Se tornou semelhante, fez-Se homem em tudo exceto no pecado… Aquele que enriquece faz-Se pobre. Aceita a pobreza da minha condição humana para que eu possa receber as riquezas da sua divindade (2 Co 8, 9). Aquele que possui tudo em plenitude, aniquila-Se a Si mesmo, priva-Se por algum tempo da sua glória para que eu possa participar da sua plenitude. Por que tantas riquezas de bondade? Que significa para nós este mistério? Eu recebi a imagem divina, mas não soube conservá-la; agora Ele assume a minha condição humana, para restaurar a perfeição daquela imagem e dar imortalidade a esta minha condição mortal. Assim, estabelece conosco uma segunda aliança, mais admirável que a primeira. Convinha que o homem fosse santificado mediante a natureza assumida por Deus. Convinha que Ele triunfasse deste modo sobre o nosso tirano, que nos subjugava, para nos restituir a liberdade e reconduzir-nos a Si pela mediação de seu Filho. E Cristo realizou, de fato, esta obra redentora para glória de seu Pai, que era o objetivo de todas as suas ações.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Que faz Jesus quando o ameaçam de morte?

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  • De onde procede a figura do “Servo Sofredor de Yahweh”?

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Que o caracteriza?

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  • Que novo conhecimento do mistério de Jesus nos aponta a passagem de hoje?

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  • Que implicações tem para todo “cristão”, quer dizer, “ungido em Cristo”?

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