Estudo Bíblico Semanal na 4ª Semana da Páscoa ano 2020

SEGUNDA-FEIRA

João 10,1-10

A MARCA REGISTRADA DO PASTOR

“Eu sou a porta das ovelhas”

 

Alguns pontos sobre o “Pastor” 

 

“Pastor” indica relação. Para que entendamos a importância que tem na Bíblia o tema do Pastor, é bom ver um pouco o contexto. Os beduínos do deserto nos dão uma ideia do que era a vida cotidiana nas tribos de Israel: nesta sociedade, a relação pastor e rebanho não é só de tipo econômico, baseada no interesse, no proveito que possa tirar das ovelhas para sobreviver com sua família: a lã, o leite, deliciosos assados, vender quando precisa dinheiro, etc. Em outras palavras não é uma relação esta reconhece e distingue, entre todas, a voz de seu pastor, que fala com ela com freqüência.

 

Na historia da revelação aparece com frequência esta imagem

 

Precisamente porque a relação entre o Pastor e suas ovelhas representava uma das relações mais estreitas que se podia observar no cotidiano dum israelita, se explica por que Deus utiliza este símbolo para expressar sua relação com seu povo eleito e toda a humanidade. Um dos Salmos mais belos fala segurança do orante em Deus seu Pastor: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (23,1).

 

Mas isto vale também para as relações humanas, dai que na Bíblia o título de pastor também se lê, por extensão, também a todos aqueles que imitam o zelo, a dedicação de Deus pelo bem estar de seu povo. Por isso aos reis nos tempos bíblicos se chama pastores, igualmente aos sacerdotes e em geral a todos os líderes do povo.

 

Nesta ordem de idéias, quando um profeta como Ezequiel se refere aos líderes do povo, os chama pastores, mas já não para referir-se à imagem que deveriam projetar, de segurança, proteção, mas ao que realmente são: líderes irresponsáveis que chegam, inclusive, até a delinqüência para tirar vantagem de sua posição mediante a exploração e a opressão.

É assim como ao lado da imagem do bom pastor aparece também a do mau pastor ou do mercenário. Em Ezequiel, 34, encontramos um juízo tremendo contra os maus pastores que apascentam somente a si mesmos e por isso vemos que Deus, ele mesmo, decide ocupar-se pessoalmente de seu rebanho: “Aqui estou; eu mesmo cuidarei de meu rebanho e velarei por ele” (Ez 34,11).

 

A grande responsabilidade de um pastor: a vida da ovelha

 

O critério para distinguir o bom e mau pastor era seu sentido da responsabilidade. O Pastor na Palestina era totalmente responsável pelas ovelhas: se algo acontecia a uma delas, ele tinha que demonstrar que não havia sido por culpa sua. Observemos rapidamente algumas citações impressionantes:

  • “Como salva o pastor da boca do leão duas patas ou a ponta de uma orelha, assim se salvarão os filhos de Israel”. O pastor deve salvar tudo o que possa de sua ovelha, nem que sejam as patas ou a ponta da orelha de sua ovelha (Am 3,12).
  • “Se um homem entrega a outro uma ovelha ou qualquer outro animal para sua custodia, e estes morrem ou sofrem dano ou são roubados sem que ninguém o veja… terá que restituir”. Neste caso o pastor terá que jurar que não foi por culpa sua (v.10) e trazer uma prova de que a ovelha não havia morrido por culpa sua e de que ele não teve como evitar (Ex 22,9.13).

 

Enfim, o pastor se dá todo por suas ovelhas, ainda combatendo tenazmente contra as feras selvagens, fazendo gala de todo seu vigor e inclusive expondo sua vida, como vemos que fez Davi de maneira heroica com as suas: “Quando teu servo estava guardando o rebanho de seu pai e vinha o leão ou o urso e levava uma ovelha do rebanho, ele saía atrás, lhe golpeava e a arrancava de sua goela, o sujeitava pelo queijo e o golpeava até matá-lo” (1 Sm17,34-35).

 

A excelência do Pastor: um amor que vivifica

 

Tudo que vimos anteriormente é o que Deus faz com os seus. Os orantes bíblicos, como o faz notar o Sl 23, encontravam na imagem de Deus-Pastor seu verdadeiro rosto: seu amor, seu zelo e sua dedicação por eles. Em Deus encontraram sua confiança para as provas da vida. Eles tinham na mente e no coração esta convicção: “Como um pastor bom, Deus se dá todo por mim”.

Tinham a certeza de que Deus sempre estava cuidando e combatendo por eles. Assim dizia Is: 31,4. Em Ezequiel, já mencionado, vemos que nada foge ao compromisso e amor de Deus-Pastor: “Buscarei a ovelha perdida, tomarei a desgarrada, curarei a ferida, confortarei a enferma” (Ez 34,16).

 

  1. 3. Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Que pastores têm me pastoreado? Por que lhes devo gratidão?
  • Que caracteriza os cuidados que Jesus oferece como “Bom Pastor”? Tento ordenar a Jesus o que me deve dar? Deixo-me guiar por Ele?
  • Que quer dizer a frase “Eu sou a Porta”?

Quais as lições do Evangelho de hoje para minha vida como responsável de uma comunidade, grupo ou de uma família?

TERÇA-FEIRA

João 10,22-30

NAS MÃOS SEGURAS DO BOM PASTOR:

“Ninguém pode arrebatar nada das mãos do Pai”

A figura do Pastor segue presente no Evangelho que lemos neste dia, sua maneira de cuidar do rebanho é revelador de sua identidade messiânica e divina.

Uma pergunta decisiva

Os que escutaram o ensinamento de Jesus (Jn 10,1-18) não estavam tranquilos, por isso o abordam no pórtico do Templo de Jerusalém para exigir que declare abertamente qual sua identidade: “Se Tu és o Messías, diz-nos abertamente” (Jn 10,24).

Jesus responde apelando de novo ao que o viram fazer no meio do povo e que é similar a um Pastor com seu rebanho, aí devem buscar a resposta e aceitá-la. Deve observar o que Jesus “faz” para que possamos fazer uma idéia correta sobre Ele: as obras que realiza em nome do Pai testemunham sua identidade messiânica.

O criterio distintivo

Como se viu na alegoria do Bom Pastor, um dos traços distintivos do pastor é sua sintonia com as ovelhas; mas Jesus adverte: o impostor pode tratar de imitá-lo, mas as ovelhas não se deixam enganar. O verdadeiro pastor pode ser escutado, as ovelhas o seguem e confiam nele: “Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem” (Jn 10,27).

Este termo “minhas ovelhas”, tão entranhável, é importante; não se trata de posse avara, mas de pertença que provém de uma mútua entrega no amor tal como a evoca a aliança de Deus com seu povo. A ovelha é acolhida, recebida, apropriada por Jesus, que se faz responsável da vida que é confiada em suas mãos: “Eu as dou vida eterna e não perecerão jamais, e ninguém as arrebatará de minhas mãos” (10,28).

O conhecer deve levar a crer

Mas não é suficiente esta revelação de Jesus. Necessita-se de um elemento essencial: que nós creiamos nele. Esta resposta está reservada a quem pertence ao Bom Pastor: aqueles que se deixaram conhecer por Ele também são capazes de conhecer sua identidade mais profunda e dar o passo da fé.

Precisamente porque é na liberdade, que é o ambiente próprio em que pode dar-se o amor, que se pode crer ou não crer. Os judeus (aqui o termo indica os líderes religiosos) aqui aparecem como os que não crêem em Jesus porque não conseguem captar sua identidade divina (Jn 10,25: Não crês em mim”), mas o declaram um rival de Deus e, como era de esperar-se, também deles. Os líderes judeus podem valer-se da persuasão ou da perseguição para ser escutados, porém não conseguirão atrair para eles os discípulos de Jesus.

A frase de Jesus gera um grave conflito. Por uma parte os judeus encontram uma razão para justificar seu desejo de destruir Jesus e dispersar seus seguidores. Desde seu ponto de vista se trata de um assunto grave: Jesus é, de verdade, o Filho de Deus? Os judeus o acusam de autoproclamar-se divindade. Mas por outra parte, a verdade resulta ser otra, a verdade é que em Jesus Deus se faz homem e em todas as ações de Jesus, Deus Pai estende sua mão sobre todos as pessoas para cuidar delas.

O crer nos leva a conhecer a grande revelação

Qual é o fundamento desta certeza? É simples: o Pai. O Pai é maior que todos (10,29). A frase que Jesus usa é uma expressão muito significativa: “Eu e o Pai”, para indicar que atuam como se fossem uma única pessoa (Jo 10,30). Dizer isto diante das autoridades religiosas de Israel soa para eles gravíssimo, pois eles consideram uma blasfêmia ou ofensa a Deus. Ao contrario, para os discípulos de Jesus se trata de uma certeza que resume bem todo o ensinamento do Mestre.

Voltando à questão inicial “És tu o Messias” (10,24), podemos apreciar a força das palavras: “é que não credes em mim” (10,25). Para crer necessita-se de vontade, o mesmo que para amar. As evidências estão expostas ante os olhos em tudo o que Jesus faz por nós.

Mas os líderes judeus, que representam aqui os que não crêem, não aceitam em Jesus o guia prometido por Deus para conduzir-nos aos pastos da vida eterna; não querem aceitar suas obras boas feitas a favor dos mais desafortunados e débeis; não querem escutar sua voz e, portanto, não querem conhecê-lo; porém, mais ainda, cegos, porque mesmo vendo a Jesus atraindo à multidão mais que eles, recorrem às perseguições para tratar de arrancar de suas mãos àqueles que tem dado atenção ao seu ensinamento e se confiaram nas mãos dele.

Seguros e entregues nas mãos dele

O outro lado da moeda está na conclusão: ninguém poderá arrancar das mãos do Bom Pastor quem confessa a fé no único Deus, a quem há confiado sua vida, que veio para anunciar e testemunhar sua presença viva e benéfica no terreno concreto de sua cotidianidade. “Ninguém as arrebatará de minhas mãos… Ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai” (10,28.29).

Para cultivar a semente da Palabra no profundo do coração:

  • Em que nos apoiamos para saber com certeza que Jesus é o Messias?
  • Segundo o ensinamento de Jesus, por que uno crêem e otros não?
  • Que me inspiram as palavras de Jesus “ninguém as arrebatará de minha mão”? Se Jesus se refere aos fiéis como “minhas ovelhas”, como posso corresponder com responsabilidade ao que Ele declara sobre mim?

QUARTA-FEIRA

João 12,44-50

ANTE JESUS HÁ QUE TOMAR UMA DECISÃO: OU LHE ACEITA OU LHE REJEITA.

“Eu vim ao mundo para que todo o que crer em mim não siga nas trevas”

 

Lemos hoje a passagem conclusiva da primeira parte do Evangelho de João (que abarca os capítulos 1-12: a revelação de Jesus Verbo através de sinais). Aqui encontramos, nos lábios de Jesus, um resumo dos principais temas expostos.

 

Estamos num texto soleníssimo. Chama a atenção à maneira de falar de Jesus: grita e o faz com a autoridade de quem já está exaltado na glória. Desde ali, confrontando com seu destino pessoal o destino de todos os homens da terra.

 

No centro de tudo está a pessoa de Jesus, que revelou amplamente através de suas obras e palavras o mistério escondido de Deus Pai e o desejo imenso de salvar à humanidade inteira.

 

Sua revelação requer a fé: a única resposta adequada, ante semelhante revelação, é o “crer”.  Ninguém que se abra à luminosa revelação de Jesus ficará sem receber um influxo vital. Sigamos a dinâmica do texto:

 

O grande horizonte da revelação de Jesus: a comunhão do Pai e o Filho (12,44-45)

 

A estreita relação do Pai e do Filho e seu inefável amor tornaram-se visíveis ao mundo por meio do Verbo Encarnado. De novo, hoje, como ontem, encontramos um paralelo entre “ver” e “crer”: quem “vê”, “crer” em Jesus, de fato está “vendo”, “crendo” no Pai, que aparece n’Ele como O que o “enviou”.

 

O mistério revelado “ilumina” a existência de quem se abandona em Jesus mediante a abertura total do “crer” (12,46)

 

O crente é alguém “iluminado” pelo fulgor da glória do Verbo (1,14). Jesus-Luz penetra, amavelmente, no mais recôndito que se permite entrar. Então as trevas se transformam, e se caminha (=seguimento) no projeto de vida de Jesus: “Eu, a Luz, vim ao mundo para que todo o que crer em mim não siga nas trevas” (14,46). Porém, por enquanto, estamos na proposta.  Em seguida surge a resposta.

 

No optar por Jesus ou rejeitá-lo julgamos a vida (12,47-48)

 

O “crer” tem que concretizar-se na “escuta” da Palavra e sua consequente “prática”. Jesus enuncia isto em positivo (12,47) e negativo (12,48) como as únicas duas alternativas possíveis. Qualquer caminho que se escolha tem uma consequência: o “crer” leva a “salvação”. O desejo de Jesus é a salvação.

 

O fim último da missão de Jesus é dar-nos vida de qualidade e eterna (12,49-50)  

 

O mandato do Pai a Jesus “é vida eterna”. Todas as palavras e ações de Jesus é o exercício obediente desta tarefa. Todo o que entre em contacto com Jesus será sempre vivificado. Jesus insiste em que tem sido fiel à sua missão: “o que Eu falo o falo como o Pai me tem dito”.  Em seguida, na segunda parte do Evangelho de João (capítulos 13-21) veremos até onde é capaz de ir esta obediência.

 

Cultivemos a semente da palavra no profundo do coração

 

  • Que revela Jesus “Palavra encarnada” através de todas suas palavras? Que deve buscar por trás de cada passagem do Evangelho?
  • O batismo é uma iluminação. Que é ser iluminado por Jesus? Que relação tem com o seguimento do Mestre?
  • Minha opção por Jesus é firme e responsável, isto é, exerço minha fé no arraigo cotidiano das palavras de Jesus no Evangelho? Minha obediência à Palavra é similar à que Jesus tinha com a Palavra de seu Pai?

 

QUINTA-FEIRA

João 13,16-20

SENTAR-SE NA MESA COM JESUS IMPLICA IDENTIFICAR-SE COM ELE.

“Quem acolhe ao que Eu enviei a mim acolhe”

 

Começamos a leitura da segunda parte do Evangelho de João, a qual leremos quase em sua totalidade (as passagens que não aparecerem, já foram lidas nas semanas anteriores). Hoje nos situamos na mesa da última ceia de Jesus com seus discípulos.

 

Esta mesa é linguagem eloquente de “comunhão”. Em torno a ela Jesus vai falar de suas relações: com o Pai, com os discípulos, com seus adversários. Todos os discursos que vamos abordar se referem ao como tecer relação com Jesus, como avançar em seu amor.

 

O fato de, ao redor da mesa, estar os doze, é um modo de chamar a atenção dos animadores de comunidades. A tarefa principal de um pastor é a animação das relações de cada um de seus irmãos:

  • com Deus (o crescimento na fé); e
  • dos irmãos entre si (a vida comunitária mediada pela caridade e o serviço).

 

As primeiras expressões das instruções de Jesus aos seus discípulos estão no discurso silencioso, porém, eloqüente, do lava-pés: o Mestre lhes disse de que tipo é a relação que Ele tem com os seus.

 

Jesus define sua relação a partir do serviço, porém, não o serviço frio de quem, simplesmente, cumpre funções, mas o serviço que “purifica” o outro pela força do amor e “entranha” (de forma batismal: o mergulha) em sua própria existência.

 

A partir deste momento, nas palavras seguintes de Jesus, começam a aparecer os termos da mutua vinculação dos discípulos com Ele e entre eles:

  • O “serviço”. As relações na comunidade se definem a partir do lava-pés (13,15-17;
  • O “conhecimento”. Jesus “conhece” a quem tem elegeu (13,18a). As relações se aprofundam e se fazem sólidas pela rota deste conhecimento.
  • O ser um para o outro “rosto” de Cristo, assim como Jesus é o “rosto” do Pai (13,20)

 

Mas, não falta o contraste que faz ainda mais luminosa a mensagem. Justo no meio do ensinamento se menciona o traidor: aquele que teceu relações mentirosas dentro da comunidade (por isso a citação do Sl 41,10).

 

A sinceridade na relação é essencial para que esta seja fonte de crescimento e não de dor. Ao citar o Salmo 41,10 (“O que come meu pão levantou contra mim o calcanhar”) Jesus se reveste da figura de um inocente perseguido. Abrir-nos a uma relação é fazer-nos vulneráveis. Será o risco que correrá Jesus e que o levará, finalmente, à morte.

 

Mas em sua incrível humildade, Jesus não se retrai ante o mistério do fingimento e da traição humana (pois se faz mais dano a quem melhor se conhece); mas, pelo contrário, consegue entrar por esta fratura da mesquinhez humana, na situação que tem vindo redimir. Por isso em meio à traição se revela a grandeza do “Eu Sou” (13,19).

 

Cultivemos a semente da palavra no profundo do coração

 

Começa a leitura pascal mais profunda: o discurso de despedida de Jesus (Jo 13-17). O texto de hoje nos prepara para a escuta deste texto imenso (e todos os sentidos).

  • Por que a Bíblia dá tanta importância à “mesa” e à “ceia”? Quais são os espaços que hoje privilegiamos para nos relacionarmos?
  • Quais são as características de uma relação “à maneira de Jesus”?
  • Por que se menciona a traição de Judas? Sobre que me adverte?

 

SEXTA-FEIRA

João 14,1-6

JESUS RESSUSCITADO NOS CONVIDA À SUA CASA

“Voltarei e os levarei comigo, para que onde eu estiver estejais também vós”

 

Começamos uma nova etapa em nosso itinerário bíblico, a última em nosso caminhar pascal. A partir de hoje, leremos uma das partes mais belas do evangelho de João: o “discurso de despedida de Jesus” que se encontra nos capítulos 14 a 17 deste evangelho.

 

Do rosto do pastor enamorado que lava os pés dos discípulos e come com eles sua última ceia, em que instituí a sagrada Eucaristia, passamos agora à descrição viva de seu amor pelos seus e à exposição ampla do modo como é tecida uma profunda relação. Estamos ante um discurso de Jesus extenso, porém profundo e emocionante.

 

O contexto

 

Para entender melhor o texto entremos brevemente na situação.  Jesus anunciou a seus discípulos que se vai e que a comunhão de vida, a amizade vivida por três anos entre eles chega ao fim com a morte na cruz, já não o verão (visivelmente aos olhos humanos, a não ser quando ele queira se manifestar).

 

A nostalgia surge, então, como um sentimento cruel que aperta a garganta.  A primeira reação dos discípulos deixa entrever o que pensam eles: o seguimento estreito do mestre, a amizade saborosa com ele, não havia sido mais que algo passageiro que vai ficar apenas como uma bela lembrança, uma vez que a morte se interpõe no meio do amor e separa para sempre aquele que amaram tão intensamente.

 

Por isso, na hora da despedida, em meio às lágrimas, tratando de aproveitar, com intensidade, os últimos instantes que lhes restam juntos, as palavras de despedida vão se convertendo, pouco a pouco, em palavras de consolação. Jesus explica a seus amigos que não se separará deles para sempre, mas que sua separação inicia uma dimensão importante na vida de seu discipulado.

 

Não se trata de um fim, mas de uma mudança importante e decisiva na maneira de segui-lo. Esta mudança tem como finalidade a criação de laços de amor ainda mais fortes, profundos e indestrutíveis que os anteriores. A passagem de hoje nos introduz de cheio neste tema.

Detenhamo-nos em três pontos principais do texto:

 

(1) Confiar no Mestre: Jesus começa com palavras fortes (14,1).

 

Não se perturbe vosso coração” (14,1ª): O termo “perturbação” é eloquente. Para entendê-lo relembremos a passagem da morte e ressurreição de Lázaro, onde se diz que diante da tumba de seu amigo querido, Jesus “se comoveu interiormente, se perturbou” (11,33) e, em seguida, chorou.

 

Esta perturbação é a sensação prévia às lágrimas, é uma comoção profunda, é um abalo no espírito, por isso se diz “do coração”. É uma sensação mórbida, desoladora.  É isso que sentimos com a partida dos seres que amamos. “Crede em Deus, crede também em mim” (14,1b): Seguir vivendo sem o amado é como morrer.

 

Diante desse sentir-se sem apoio, Jesus os oferece um ponto de segurança: não será visto mais fisicamente, por isso dá uma pista importante: assim como Deus não é visível aos olhos mortais, também Ele não será. Em outras palavras, assim como alguém crê em Deus a quem não vê, assim também deve crer nele enquanto Senhor ressuscitado. Jesus e o Pai estão no mesmo nível.

 

O primeiro passo a dar, então, é o da fé como atitude fundamental, com a qual os discípulos devem enfrentar a separação: “crede!”. A Jesus e ao Pai devemos o mesmo tributo de fé, porque o Pai se deixa conhecer através do Filho e atua em comunhão inseparável com o Filho.

Ao “não ver”, os discípulos deverão apoiar-se com uma confiança ilimitada no Pai e no Filho, construindo tudo sobre eles, sobre o piso sólido de sua comunhão eterna.  É nessa comunhão eterna que os discípulos agora devem pôr o olhar da fé que dá sentido às suas vidas.

 

(2) Contemplar o Mistério Pascal

 

Este novo modo de comunhão é dom de Jesus.  Por isso Jesus pede a seguir que contemplem sua obra pascal: “E na casa de meu Pai há muitas moradas… (14,2-3). Não é Jesus arrumando um quarto, mas construindo uma casa, assim como os que se amam constroem uma casa para viver juntos.

Vemos tres pistas importantes:

  • Para Jesus, a morte é um retorno à casa do Pai (ver também 13,1). Desta maneira, exaltado e glorificado, ele estará para sempre na comunhão perfeita com o Pai.
  • Jesus havia explicado sua morte e sua ressurreição desde o começo do Evangelho na expulsão dos vendedores do Templo dizendo que destruiria aquele construído por homens e o reconstruiria em três dias (observa o evangelista: dizia isso, referindo-se ao seu próprio corpo. Então Jesus ressuscitado é a nova construção, o novo Templo no qual se “habita” em Deus.
  • Jesus não é um templo vazio: Ele vem, toma consigo aqueles que se lançaram numa profunda relação com ele e os leva à comunhão eterna consigo e com o Pai. A Páscoa de Jesus foi a preparação da “morada”.

 

(3) Fazer o caminho para entrar na “casa”

 

Porém, o dom de Jesus, que se acaba de descrever, pede nossa participação, nosso compromisso. E isso é o que Jesus quer dizer com a imagem do “caminho”. É preciso pôr-se em movimento pelo caminho que é Ele mesmo: suas palavras, suas obras, tudo o que supõe a convivência amiga com ele. Isto é o que os discípulos já aprenderam na convivência terrena com ele (14,6).

Trata-se de um caminho que conduz à verdade e à vida, quer dizer, ao conhecimento pleno do mistério de Deus e cujo fundo é seu rosto paterno. O caminho conduz, não só a um conhecimento, mas, também, a uma relação com este Deus descoberto em sua tremenda proximidade do Pai, uma relação que gera uma união, na qual se gera uma vida eterna.

Cultivemos a semente da palavra no profundo do coração

 

  • De que sentem medo os discípulos? Qual é a raiz de meus temores?
  • Que relação há entre a Páscoa de Jesus e a preparação da morada no céu?
  • É Jesus ressuscitado o “mundo vital” em que quero habitar eternamente? Que temos que fazer para entrar na “morada” de Jesus?

 

 

 

SÁBADO

João 14,7-14

UM ANSIOSO DESEJO:

“Mostra-nos o Pai e nos basta!”

 

  1. Uma ansiosa busca: Ver o rosto do “Pai”

 

“Mostra-nos o Pai e nos basta!”, disse o discípulo Felipe a Jesus, justo no coração dos discursos de adeus do evangelho de João (14,8).  É como dizer: “já está bom de sinais, de mistérios, não nos agrada mais o desenlace de tua revelação. O que queremos é chegar à verdade completa e em seguida levar ao desfecho final que não deixa nenhuma dúvida nem obscuridade”.

 

Aquele Pai, que Felipe deseja conhecer com todo seu ser, é o máximo da felicidade, da proteção, da ternura, do cumprimento. Isso o tem captado na maneira como Jesus se refere a seu Pai: o chama Abbá na oração, com um grande sentimento de intimidade e de ternura.

 

Porém, infelizmente, muitos filhos adultos oram este “Mostra-nos o Pai”, porém tratando de passar por alto qualquer mediação. São filhos que carregam fortes desilusões com seus pais e suas mães terrenas. Muitos, inclusive, arrastam grandes feridas do passado na família: marcas dolorosas que lhe hão gerado inconsistências e sérios problemas em suas vivencias afetivas já na idade adulta.

 

E por isso algumas pessoas, inclusive têm dificuldade para recitar o “Pai Nosso”. O termo “Pai” lhes é amargo.     A propósito, não esqueçamos que a figura do Pai na Bíblia, que é o gerador de vida por excelência, contém tanto o aspecto materno como paterno.  Segundo a Bíblia, Deus “Pai” não é uma projeção das paternidades terrenas.

 

É a paternidade de Deus é uma revelação que vem do alto e que purifica as más experiências terrenas. Há uma tentação na vida espiritual: passar por alto os sinais incertos e pouco decifráveis da carta que Deus Pai nos dirige através de nossos próprios pais; teríamos gostado mais que nos tivesse chegado uma mensagem completa, perfeita, revelação total da paternidade divina.

 

  1. A resposta de Jesus

 

Que responde Jesus frente a este ponto? Como responde frente ao desejo profundo e legítimo de seus discípulos de ver de cara a esse Pai de quem Jesus fala tanto e a quem ora com tanto amor?  Jesus lhes responde com algo de tristeza: “Tanto tempo que estou convosco e não me conheces Felipe? Quem me vê, vê o Pai. Como dizes tu: ‘Mostra-nos o Pai?” (14,9).

 

É preciso deixar-se surpreender: ver a Jesus significa ver o Pai. É claro, no evangelho de João, que não é tanto um ver físico senão intuir o mistério da pessoa de Jesus que nos mostra o Pai. Mas Jesus disse ainda mais.

 

Trás, o discípulo, à realidade, para que não se perda em abstrações: “O que crê em mim, fará também as obras que Eu faço, e fará maiores ainda, porque Eu vou ao Pai” (14,12). Jesus acabara de dizer: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (14,11). E a prova eram as obras: “O Pai que permanece em mim é o que realiza estas obras” (14,10b).

 

Pois bem, o mesmo esquema vale também para o discípulo: quem vê as obras de um discípulo de Jesus vê a Jesus que mostra o Pai através da cotidianidade de qualquer um de nós. Tudo isto é possível graças a uma ausência: ao fato de que Jesus já esteja habitando junto do Pai, que não é senão outro modo de sua presença.

 

Uma presença que será captada aceitando seu mistério através dos sinais. Assim, nós cristãos, temos uma responsabilidade seria que é a de mostrar uns aos outros o rosto de Deus Pai através de nosso “fazer”, através das obras que realizamos todos os dias.

 

  1. Palavras que lhe dá uma nova visão à vida de família

 

O desejo de ver o Pai, que manifestou Felipe, o podemos encontrar através de nossos pais terrenos: é preciso saber reconhecê-lo através deles, não importa que tenha alguma outra sombra que ainda não tenhamos compreendido na historia de nossas relações familiares.

É importante que deixemos que nossos pais sejam sinal da paternidade de Deus, para qual há de vê-los por cima de nossas expectativas e  deixando de lado nossos juízos.

 

Antes de julgar dizendo talvez que não fomos suficiente amados como filhos, que não recebemos o que merecíamos, o que deve ser feito é uma aproximação aos pais com um respeito infinito e valorizar mais seus esforços. Para entrar nesse âmbito, primeiro tem que renunciar à agressividade e as reclamações.

 

Então se verá que através deles tem se manifestado o Pai. É como se repetissem as palavras de Jesus: “Quem me vê, vê o Pai”.  Veremos os brilhos, não sempre evidentes, do rosto do Pai neles.

 

Explicamos com uma história

                  

Aconteceu a um filho que até os 40 anos havia repetido a seus familiares e amigos e, inclusive, havia contado ao seu primeiro filho pequeno que não amava seu pai, com certo ressentimento.

A todos fazia sentir que não havia sido amado. Porém, um dia recordou-se de um episódio que havia ficado guardado no coração. Seu pai, que parava pouco em casa e que, quando chegava, era bêbado, um belo dia, um dia de chuva, o carregou e pôs seus pés sobre seus próprios sapatos – enormes para o menino – para ajudá-lo a atravessar o charco de lama fria, e assim cruzar a rua. E foi o calor daquela mão que lhe acariciava a nuca que se converteu para ele no sinal da presença de Deus.

 

Cultivemos a semente da palavra no profundo do coração 

 

  • Que provoca em mim a oração de Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e nos basta”?
  • A revisão das relações com Jesus, no âmbito da última ceia, que outras relações fundamentais de minha historia pessoal me pede também que examine?
  • Como se é “Pai” e “Mãe” na escola de Jesus?

 

“Meu espelho deve ser Maria.

Visto que sou sua filha, devo parecer-me com ela.

E, assim, me parecerei com Jesus!”

(Santa Teresa de los Andes)

 

 

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

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