LECTIO DIVINA de 08 a 14 de julho de 2018

 

DOMINGO, 08 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Marcos 6,1-6 (Visita a Nazaré) =Mt 13,53-58; Lc 4,16-30 – O episódio transcorrido na sinagoga de Nazaré, situado ao final do primeiro ciclo de milagres do Evangelho de Marcos, representa a rejeição de Israel à revelação de Deus em Jesus. Aqui não se entende propriamente por “Israel” o nome de um povo, mas os que são mais íntimos a Jesus, gente de sua terra, de sua casa. A cena se desenvolve no caminho de regresso da casa de Jairo, no povoado de Nazaré (tão pequeno e insignificante que nem sequer aparece nomeado no Antigo Testamento), onde sabemos que havia chegado a notícia dos prodígios (dynámus) realizados por Ele em toda a Galiléia (cf.v.2). A primeira reação, depois de ter escutado sua Palavra autorizada, é a de “admiração”, um sinal do evangelista para indicar o caráter de revelação da pregação de Jesus. As cinco perguntas que seguem indicam a dúvida de seus irmãos e conhecidos: o problema, essencialmente, é a origem de Jesus (“De onde…”), o que equivale a dizer que o conhecimento direto de seu ambiente familiar lhes impede reconhecer n’Ele o enviado de Deus. Jesus segue sendo para eles unicamente “o carpinteiro” do povo, o “filho de Maria”. A impossibilidade de fazer milagres na qual se encontra Jesus pretende significar que a incredulidade, enquanto rejeição da oferta salvifica de Deus, impede a manifestação de qualquer acontecimento de salvação. Frente a essa rejeição, Jesus “estava surpreendido” (única vez em Marcos), e toma distância deles, declara sua “não conivência” com sua falta de fé, para mostrar o contraste radical entre o plano da salvação de Deus e a incredulidade dos homens. O que provoca o escândalo é a pretensão do homem-Jesus de situar-se como lugar da revelação de Deus, escândalo que alcançará seu ponto mais elevado na norte do Filho de Deus na cruz.

 

 

Ez 2,2-5 (Visão do livro) – Narra-se aqui a vocação exemplar de um profeta. De Ezequiel sabemos que era “filho de Buzí”, sacerdote por nascimento (1,1), porém a voz de Deus lhe chama aqui “filho de adam”; já não o chama sacerdote, mas “homem”, quer dizer, “feito de terra” (íadamah, “terra” em hebraico), frágil, mortal. Sobre este homem se derrama o Espírito de Deus, que vem a pôr de pé ao que estava prostrado em terra, conferindo-lhe o poder divino (dynamis no Novo Testamento) para proclamar a Palavra de modo eficaz. À ação de Deus corresponde, por parte de Ezequiel, permanecer à escuta: à Palavra lhe corresponde à escuta. De repente, a missão do profeta aparece como algo extremamente difícil, como algo que custa: é uma missão que tem que ver com o “endurecimento do coração”, com a obstinação de uns filhos que se rebelaram contra seu Pai, uma rebelião que se manifesta no “não escutar” (v.5). Nem sequer a Palavra e o poder do Espírito puderam impulsionar a liberdade do homem para acolher a revelação de Deus. O profeta se levanta então, solitário, como sinal de contradição, como pedra de tropeço para os que correm para sua própria ruína.

 

2 Cor 12,7-10 (Paulo constrangido por fazer seu próprio elogio) – Após ter recordado a seus amados coríntios (que sem dúvida, causam tantos sofrimentos ao apóstolo) a sublimidade das revelações recebidas, e a fim de demonstrar que procede verdadeiramente de Deus, Paulo se mostra agora com toda sua humana habilidade; mais ainda, “presume” dela, do mesmo modo que em outra ocasião havia presumido da cruz de Cristo (cf.1Cor 1,17-31). Ao final da carta temos a demonstração de que Paulo entende sua própria debilidade seguindo exatamente o modelo da debilidade do Senhor: “É verdade que se deixou crucificar em sua débil natureza humana, porém agora vive pela força de Deus. Assim também nós, que compartilhamos com Ele sua debilidade compartilharemos com Ele sua poderosa vida divina à hora de enfrentar-me convosco” (2Cor 13,4). Do mesmo modo que a cruz produz escândalo, também a fragilidade do apóstolo (descrita em forma de perseguições, insultos, divisões na comunidade, enfermidade, angustias) pode provocar uma reação de desconfiança e de medo nos coríntios, porém isso é, precisamente, o sinal inconfundível de que sua missão apostólica é de Deus, dado que, ele leva consigo a marca inconfundível da cruz.

 

Sl 122/123 (Oração dos deserdados) – Esta oração, composta séculos atrás, apresenta dois opostos: o orgulho e a humildade. Há quem reze com orgulho e, por isso, volte para casa com mais pecado em seu coração, como o fariseu (cf. Lc 18,10-14). Há também quem reze com humildade, como o publicano ou a cananéia (Mt 15,22-25), que foram perdoados e atendidos por Deus. O Senhor aceita nossa oração quando ela é sinal de verdade e humildade; quando nos apresentamos a Ele sem esperar nada em troca. Aprendamos a não pronunciar muitas palavras, mas a colocar-nos como pobres diante do Pai, de mãos estendidas e com os olhos fixos no Senhor. Ele, vendo-nos prostrados pelos pecados, confiantes na misericórdia, não nos fará esperar muito tempo e nos dará o que pedimos. Entretanto devemos pedir por meio de quem? Por meio de Cristo, sumo intercessor, de Maria, nossa mãe, e de todos os santos que na terra foram amigos de Deus e no Céu continuam a interceder por nós. Podemos pensar que hoje não existe mais escravidão, mas tal concepção está errada. Há, sim, muitos escravos que são obrigados a realizar trabalhos forçados ou proibidos de manifestar a própria fé, sujeitos a leis injustas e pecaminosas. Rezemos por todos eles.

Ó Senhor, eu venho a ti como um escravo, pobre e irmão dos que sofrem. Eu não sofro, tenho uma vida tranquila, boa, com saúde e se adoecer, terei todos os recursos para me tratar. Não passo fome, não passo frio e sou respeitado, mas e meus irmãos e irmãs que não têm nada disso? Senhor, olha para os escravos de hoje, espalhados pelo mundo inteiro, que não podem ao menos ser livres de crer em ti, que não têm trabalho nem pão e são sujeitos às leis injustas. Senhor, peço-te que os olhos de todas estas pessoas, seja qual for a fé, estejam fixos em ti e sejam por ti socorridos e amados. Amém.

 

 

MEDITATIO: O escândalo, o “endurecimento do coração” (cf. Ez 2,4), a incredulidade de quem foi chamado a contemplar a revelação de Deus, constitui o fio condutor das passagens bíblicas que acabamos de ler. Está provocado, essencialmente, pela manifestação do poder de Deus em uma forma frágil, débil: o profeta é rejeitado por seus irmãos por ser também um simples ‘adão’; não se dá crédito ao apóstolo porque se apresenta de um modo completamente ordinário, quase submisso. No centro se encontra o homem Jesus, capaz de dar um sentido definitivo à história de todos os pobres da terra, com sua reafirmação da necessidade da lógica da cruz. Esta é necessária porque foi querida por Deus, porque lhe há comprazido manifestar-se assim: no futuro de um povo situado em um ínfimo recanto da terra e da história, na pobre casa de uma jovem de um obscuro povo da Galiléia, através da execução de uma condenação a morte em um lívido dia de abril, sobre o Gólgota. Nesta história, quase louca, se produz sempre, não obstante, o mesmo milagre: o ‘adão é levantado da terra, o Espírito se manifesta na ação irresistível do gesto e da palavra de um homem qualquer, o sepulcro não fica fechado e habitado pela morte, mas se abre, de par em par, para deixar sair a Vida para sempre. Assim opera Deus, porque está decidido a salvar ao homem: a todo homem.

 

ORATIO: Ó Pai, queremos dar-te graças por ter-nos feito assim: criaturas frágeis e mortais, mas saídas de tuas mãos e portadoras de tuas marcas. Ante tua Palavra que chama “bem-aventurados” os que não se escandaliza de ti e de teu Filho, te entregamos todas as nossas dúvidas e incredulidades, os medos frente à manifestação de nossa debilidade, que nos recorda sempre que somos feitos de terra, ainda que nosso desejo seja infinito. Não queremos encontrar-nos entre os que não puderam contemplar tuas maravilhas por estar muito ocupado com sua própria humanidade, considerando os próprios limites e os dos outros. Dá-nos teu olhar de Pai e de Mãe que geraram sua esplêndida criatura, teu olhar tranquilizador e fraterno de Salvador, solidário conosco por obra do Espírito Santo, para acolher, neste mesmo amor de perdão e compaixão, a nós mesmos e a cada homem e mulher como inestimável dom teu.

 

CONTEMPLATIO: Tens no alto o Cristo dadivoso, tens embaixo o Cristo necessitado. Aqui é pobre e está nos pobres. O ser Cristo aqui pobre não somos nós que dizemos; ele mesmo disse: “Tive fome, tive sede, estava nu, não tinha lar, estive preso”. E a uns disse: “Socorreste-me”; a outros: “Não me socorrestes”. Fica provado ser Jesus Cristo pobre. Mas, que seja rico, o ignora alguém? Este mesmo troca a água em vinho fala de sua riqueza, pois se é rico quem tem vinho, quão rico não há de ser quem faz o vinho? Logo Cristo é rico e pobre: quanto Deus, rico; quanto homem, pobre. Certo, esse Homem subiu já rico ao céu, onde se encontra sentado à direita do Pai, mais aqui, entre nós, ainda padece fome, sede e nudez (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Teu poder, Senhor, se manifesta plenamente em minha debilidade”

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Quem á mais frágil dos dois? O que recebo na comunhão? […]. O pequeno ser ao qual queriam degolar para tirá-lo do meio, sem nenhuma proteção que não fosse à de Maria e a de José e, na Eucaristia, a da Igreja? Quando encontrares um imigrante, sentirás desejos de entrar em comunhão com ele ou terás medo? O que recebo na comunhão? […] O que carece de morada fixa e para o qual até uma pedra tivesse sido uma almofada, que te pede alimento e proteção da Eucaristia? Por que não convidas a tua casa a esta ou aquela família de ciganos que acampa já faz muito tempo atrás das lonas? Ou é que tens medo? O que recebo na comunhão? Um homem que na cruz não pode mover nem sequer um dedo, que quase não pode falar, que respira com forças sobre-humanas, ferido pela mesma impotência como na Eucaristia? E tu? Amas a este homem? Ou tens medo dele? Porém se é a Ele a quem amas, não terás medo de nada. Tu te atreverás a dizer-lhe: “Jesus em sua santa Eucaristia é mais pobre que tu, mas impotente que tu” (D. Ange, Le nozze di Dio Il povero è re, Milán, 1985).

 

 

 

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 09 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 9,18-26 (Cura da hemorroíssa e ressurreição da filha de Jairo) – Mateus situa o relato da cura da hemorroíssa dentro de outro: o da ressurreição da filha do chefe da sinagoga de Cafarnaum.            Dois relatos que, segundo a intenção do evangelista, devem ser lidos de um modo complementar, para que se compreenda o significado dos milagres realizados por Jesus. De fato, a seção em que está situada a passagem é delimitada pelos capítulos 8-9, nos quais apresenta dez milagres realizados pelo Senhor. No centro sobressai o relato da hemorroíssa, no qual se indica que a fé consiste em «tocar» no Senhor da vida. Tocar é uma forma de entrar em co­munhão com Ele através da humanidade de uma presença, na qual habita a «plenitude» da divindade (Cl 1,19). Ante a dramática situação de «perder a vida» a única salvação, da qual dispõe, é o Senhor: «se tocar sua veste ficarei curada (=salva) Animo, filha, tua fé te salvou» (vv. 21ss). A essa mulher que tocou sua tú­nica «por trás», fala Jesus «cara a cara» (v. 22), e em seu rosto e em sua palavra revela a presença poderosa e misericordiosa do Pai celestial. A fé nele, portanto, faz passar da morte à vida, como atesta o relato da filha de Jairo. Na menina que jaz morta se vê a imagem de uma vida que imaginamos projetada naturalmente para um futuro, entretanto, já inerte, marcada pela morte. A atitude de fé do pai (v. 18) motiva a que o Senhor «toque» a vida de seu fiel, e a morte deixe de ser experiência para o nada. A presença de Deus Pai, que, na pessoa de seu Filho, se inclina sobre a história humana marcada pelo limite, nos liberta do medo e da angústia da morte e nos abre à esperança da ressurreição. Com uma profunda sobriedade nos dois breves rela­tos, Mateus, enquanto assinala a proximidade de Deus ao seu povo, nos explica que, no diálogo com Jesus, podemos experimentar, já, a salvação, pois cremos em sua Palavra antes que o sinal lhe confira a evidência. Assim, o dom de sua presença só pode ser recebido na fé, pois não se pode outorgar nenhum dom a quem não o acolhe.

 

 

Gn 28,10-22a (O sonho de Jacó) – Este relato pretende evidenciar o santuário de Betel associando-o à figura do patriarca e inserindo-o no marco de sua história. De Bersabeia inicia a peregrinação de Jacó para um futuro indefinido a princípio, mas marcado sempre pela presença de Deus que se revela e oferece a esperança de uma promessa (12-15). Parecem opostos a fuga de Jacó e proteção de Deus. O compromisso assumido por Deus, de modo solene, torna esta fuga em um caminho em que o sentido repousa na presença penetrante de Deus que cumpre tudo quanto disse. De fato, Deus acompanhará e protegerá Jacó, inclusive no triste fato de sua fuga de Labão (33,1-21) e no seu regresso a Betel, onde se revelará como presença amorosa (35,1-15). Este contexto geral serve de marco a uma série de elementos de natureza cultual que constituem o cerne do relato. O primeiro é o termo «lu­gar» (mãqôm). Nada no texto parece sugerir que se trate de um lugar sagrado: mas, simplesmen­te, de um lugar para passar a noite. Como Moisés, com a sarça que ardia (cf Ex 3,5), tam­bém Jacó experimenta que a presença divina está ali: é Yahweh que ele­ge e consagra o lugar como espaço de sua presença e de sua revelação. O sonho onde Jacó «vê» a escada que «apoiando-se na terra, tocava com seu vértice o céu» expressa o conhecimento da fé, através do qual é possível «ver» o Deus transcendente, que se faz presente para dialogar com o homem e voltar a comunicar-lhe sua benção. Como a Abraão, também a Jacó Deus promete terra e descendência. A oração final de Jacó (vv.20-22) indica a única resposta possível do homem de fé que sente «terror» ante o mistério de uma presença, santa e terrível, que encontra morada no âmbito do homem e, ao mesmo tempo, une céu e terra.

 

Sl 90/91 (Sob as asas de Deus) – Este Salmo é uma aula de sabedoria e amor. O salmista canta a certeza de que Deus não abandona os que o “temem e amam”, sempre protege-os de todos os perigos, sejam eles naturais ou sobrenaturais. Protege-os dos raios fortes de sol, do frio da noite, dos animais selvagens e, em especial, do demônio, que nos ataca de todos os modos. O maligno deseja que espalhemos aos quatro cantos do mundo sua inexistência: desse modo, torna-se livre para agir, tentar e prejudicar nossa vida. Quando acreditamos na ausência do inimigo, nenhuma providência é tomada. É preciso estar atento à presença do mal e lutar com todas as nossas forças para vencê-lo. Os sacerdotes convidam o povo a confiar no Senhor e renovar sempre a aliança. Deus nos esconde sob suas asas, nos protege com sua sombra e nos defende de todos os perigos. Não podemos duvidar da presença amorosa de Deus na nossa vida, porque constantemente recebemos provas de seu amor. A Igreja nos convida a memorizar este Salmo para que todos os dias, depois de um trabalho cansativo e longo, possamos rezá-lo e nos colocar sob a proteção do Senhor.

Senhor, tenho certeza de que nada me poderá fazer mal nem atacar minha integridade pois tu és meu Deus. Ainda que a meu redor hajam muitos inimigos, não terei medo de nada. É muito difícil, Senhor, a humilhação e ver que muitos de nossos projetos humanos e espirituais são destruídos pelo avanço do mal, pela inveja, pela maldade dos irmãos. Enquanto alguns trabalham pelo bem, muitos trabalham pelo mal. Que eu nunca faça mal a ninguém e seja para todos uma presença amiga que sustenta o bem e ajuda os que se encontram em dificuldades. Peço-te só uma coisa: esconde-me sob teu manto e à sombra de tuas asas. Amém.

 

 

MEDITATIO: Em seu Filho, Deus veio visitar seu povo, tomar pela mão a humanidade que jaz na sombra da morte: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá» (Jo 11,25). Com Ele, nos outorgou o Pai, a nós que estávamos mor­tos por nossos pecados e pela nossa carne incircuncisa, o dom da vida, «perdoando-nos todos nossos pecados, destruiu o titulo de acusações que existia contra nós» (Cl 2,13ss). Por Cristo «vemos» o Deus da vida; em Cristo, presença misericordiosa e poderosa do Pai, nós podemos viver a Vida Nova, como está escrito: “Se morremos com Cristo, temos fé que com ele viveremos. Sabemos que Cristo, uma vez ressuscitado dentre os mortos, não volta a morrer, a morte não tem mais domínio sobre ele» (Rm 6,8ss). O compromisso que Deus assumiu com Abraão (Gn 15) encontrou, em Cristo, seu pleno cumprimento: em Cris­to, todas as promessas de Deus converteram-se em um “amém» (2 Cor 1,20). Seguindo o Filho, cada homem, feito discípulo, será cuidado durante a peregri­nação de sua própria vida, caminhará para a pátria de seu desejo e gozará para sempre de sua presença. Cada um o verá face a face: “Se alguém quer servir-me, que me siga, e onde eu estiver estará também meu servo» (Jo 12,26).

 

ORATIO: Senhor, luz vívida e fecunda, nada em ti é obscu­ro, nada em ti é morte. Tu dás vida a cada ser, provês o pão para toda fome e acalmas toda sede ar­dente. Tu és paz para quem busca teu rosto e o contem­pla na nudez de sua própria carne. Senhor, Deus da história, sentido cabal de toda nossa caminhada, és o louvor dos crentes, a in­vocação dos moribundos, a vida nova de cada afã humano. Não há nenhuma miséria ante ti que resista o esplendor de tua Shekhînah, porque iluminas cada rosto, cada chaga, com a luz de teu Filho. Ele, o servo amaldiçoado pelos ímpios, é tua benção; sua cruz é a porta estreita onde todo homem encontra seu Deus. Tu és benção perene: bendigo-te porque voltaste a nós e não nos deixaste a mercê do inimigo; como águia que voa sobre seus filhotes e vela sobre sua ninhada, protege-nos com o calor de teu Espírito. Amém.

 

CONTEMPLATIO: O homem deverá voltar a começar com uma ilimi­tada humildade, deverá olhar, de novo, em seu interior e mergulhar, de novo, em sua origem. E tudo isso através da vida e da paixão de Jesus Cristo: quanto mais fielmente lhe imite, tanto mais se elevará, tanto mais essencial divina e verdadeira será a imitação. E tudo através da mortificação e da total aniquilação de si mesmo. Devemos atuar e pensar como aquela pobre mulher enferma que disse: “Se tocar a orla de seu manto ficarei curada». A franja, a orla de seu manto, signifi­ca o mínimo que podia emanar de sua santa hu­manidade. De fato, o manto significa sua sagrada hu­manidade, enquanto a franja pode ser vista como uma gota de seu santo sangue. Agora, o homem deve reconhe­cer que não pode tocar o mínimo destas coi­sas, por sua indignidade; porque, se em sua debilidade pudesse fazê-lo, curar-se-ia, certamente, de todos os seus males. Assim, em primeiro lugar, o homem tem que estabelecer-se em seu nada. Inclusive, se o homem chegasse ao alto de toda perfeição, ainda lhe seria mais necessário mergulhar no fundo mais íntimo, até chegar às raízes da humildade (João Tauler, Obras).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

 “Cristo fez resplandecer a vida por meio do Evangelho” (cf. 2 Tm 1,10)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O acontecimento da salvação, pelo qual ascende o homem à relação salvífica com Deus, se realiza na história: Deus não dá, nem comunica um sinal ou uma palavra ao homem, mas converte-se no homem mesmo, com toda sua insegurança, sua debilidade e seu caráter incompleto, na linguagem na qual expressa a Palavra da plena salvação. Ele se serve também de uma existência transcorrida no tem­po, como de um escrito no qual imprime, para o homem e para o mundo, o sinal de uma eternidade sobrenatural. O Homem Jesus, cuja existência constitui este sinal e esta palavra para o mundo, deve viver por isso, ao mesmo tempo, a trágica diástasis da temporalidade e o domínio vitorioso sobre ela (Agostinho), através da obediência, consciente e querida, à vontade do Pai Eterno, a fim de realizar, de modo misterioso, precisamente, no essencial caráter incompleto do fragmentário, aquela tarefa essencialmente impossível de desagregar. Já está claro, desde já, que, se isto teve lugar, a existência histórica foi colocada, sem ser desprovida de valor, nem reduzida à pura aparência, e sem que tenhamos que renegar dela, no movimento de retorno a Deus. Desde o momento em que o anúncio cristão, desde o começo, se concentrou neste único ponto e expôs, a partir deste centro, tudo o mais, a saber: a encarnação, vida, doutrina e paixão de Jesus, a ascensão e a efusão do Es­pírito, este deve valer, bem mais, como centro do kerigma. É impossível desagregar, aqui, a iluminadora verdade deste realizar a síntese em torno a esse centro, assim como sua fecundidade; para nossa argumentação é suficiente estabelecer que o cris­tianismo, com seu anúncio da ressurreição, pode avançar à pretensão de oferecer a única, completa e satisfatória solução do problema antropológico (H.U.von Balthasar, II Tutto nel Frammento)

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 10 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 9,32-38 (Cura de um endemoninhado mudo; Miséria das multidões) – O texto une o relato da cura do homem mudo endemoninhado com um resumo da atividade de pregação e cura de Jesus.      A primeira seção conclui a série de dez prodígios realizados por Jesus e está imediatamente precedida pela cura de dois cegos; a segunda seção antecipa o tema da missão dos doze, que fica associada, assim, à de Jesus. Aos cegos que, com uma atitude de fé, se lhe dirigem com o grito: “Filho de Davi, tem piedade de nós», Jesus lhes devolve a vista; ao mudo que lhe haviam levado por causa da fama, lhe devolve a palavra. Nestes relatos paralelos mostra Mateus que a fé é, ao mesmo tempo, visão e palavra. É capacidade de «entrever» a história com os olhos do Filho, é liberdade na palavra que comunica o sentido dado a nossa própria vida. Tudo o que diz e faz, o Senhor, nos abre à luz da vida e ao dom de contar o que temos visto e ouvido: seu amor materno (cf. o verbo splanchnizõ no v.36), que volta a levantar a quantos estão «caídos em terra», dilacerados e divididos, sem rumo, extraviados; a boa notícia de um senhorio que se põe a serviço da história humana (v.35). Jesus pede a seus discípulos que tomem parte nesta história de compaixão, na qual se revela o juízo misericordioso do Pai. A oração que lhes confia (v.38), evita ao discípulo pensar sua própria missão em termos exclusivos de eficácia em relação com a quantidade da messe. Certamente é necessário entrar em comunhão com Jesus na oração, a fim de aprender a ser filhos capazes de continuar a mi­ssão do Filho.

 

 

Gn 32,23-33 (A luta com Deus) – O texto da luta entre Jacó e Deus precisa ser contextualizado para se ver todo seu significado. Jacó, após o acordo com Labão e encontrando-se, agora, próximo à terra de seus pais, envia mensageiros ao seu irmão Esaú «para encontrar graça a seus olhos» (32,6). A res­posta é a noticia da chegada próxima de Esaú com 400 homens (v.7): situação que leva Jacó ao temor e à angústia (cf.vv.10-13). Esta não produz em Jacó um recuo, mas lhe abre à esperança. Não se trata de uma certeza, mas de uma presença próxima que protege seu fiel. Assim, a luta noturna signifi­ca a antecipação da vitória sobre todas as forças hostis, inclusive sobre sua angústia; é a indicação da esperança é certa, de que Deus não falta nunca a suas promessas; não o medo, mas a confiança deve ser a atitude de quem re­cebeu a promessa divina. A interpretação do nome «Israel», que agora assumirá Jacó (v.29), fala de um passado vitorioso con­tra as forças hostis. Do mesmo modo que Abraão, Jacob-Israel alcançou a benção divina, por isso po­de esperar, com confiança, inclusive nos momentos de profunda angústia, quando o medo lhe ronda o coração e busca respostas em estratégias inteligentes (32,14-22). O combate supõe a entrada no mistério de Deus: «Eu vi Deus face a face» (v.31). É um mistério encontrado de um modo «dramático», por meio de uma luta, na qual pergunta, roga e confia, nas mãos do antagonista, nossa própria pessoa (frente a seu misterioso combatente, Jacó se vê obrigado a revelar seu próprio nome, enquanto este esconde sua identidade: só sua palavra lhe revela). Jacó deve medir-se com um Deus presente e, ao mesmo tempo, misterioso, obscuro. Sem dúvida, com insistência, com a força e a tenacidade da paciência, através da serena acolhida da própria condição de criatura, «obriga» Deus a abençoá-lo, acolher sua oração, fazer apontar para Ele, após a noite da angústia, um novo dia de salvação para um «homem novo»: «Pois já não te chamarás Jacó, mas Israel» (v.29a).

 

Salmo 16/17 (Súplica do inocente) – Ser santo é saber reconhecer os próprios pecados e as próprias virtudes. O salmista se coloca diante de Deus exatamente como ele é, sem temor. Ele desafia-o a encontrar nele pecados e mentiras, pois sabe que é sincero em tudo aquilo que diz e faz. Esta atitude de honestidade diante do Senhor é muito importante. Somos pecadores, devemos assumir isso e desejar que a verdade – o gesto mais amado por Deus – esteja presente em todos os momentos de nossos dias.

Senhor, não posso reconhecer os pecados que em certos momentos os outros me atribuem. Sinto-me honesto e sincero, apesar de saber que sou “pecador”, mas sei também que sou capaz de vencer o pecado que está em mim e dominá-lo. Dá-me a sinceridade de ser diante de ti o que sou e nada mais. Amém.

 

 

MEDITATIO: O prodígio da Palavra nos impulsiona a penetrar no mistério da ternura de Deus, que se revela como força na debilidade, capaz de revestir com sua nova luz o “povo que caminhava em trevas» (Is 9,1). Deus se faz presente no momento do combate in­terior. Deixa o trono de sua glória nos céus, para sen­tar-se no trono de sua benevolência: o homem vivo, glória de Deus. Em seu Filho Jesus, em cuja luz vemos a luz, o Pai nos revela seu amor materno; em Cristo, Palavra que penetra como espada de dois gumes, “que adestra minhas mãos para a batalha, meus dedos para o combate» (Sl 144,1); nele foi engolida a morte, vencido o medo, cancelados os cálculos e as estratégias oportu­nistas do homem; o pecado se converteu em ocasião para encontrar, em nós mesmos, a marca da mão de Deus criador, porque “o que em Deus parece lou­cura é mais sábio que os homens, e o que em Deus pare­ce debilidade é mais forte que os homens» (1 Cor 1,25). De fato, Deus enviou seu Filho ao mundo (Gl 4,4) para fazer-nos filhos e renovar sua promessa, que encontra sua plenitude não mais em uma terra, mas no tempo da sal­vação para todos os confins da terra. Por isso os cegos vêem, os mudos falam, os coxos andam, os dubi­tativos e os medrosos são consolados: Deus visitou e redimiu seu povo» (Lc 1,68).

 

ORATIO: Ó Senhor, que o teu louvor se estenda até os confins da terra, que a tua beleza renove a face de toda a terra, porque só em ti se encontram o poder e a força, só em ti a beleza e o esplendor; Tu és o Deus que tudo sabe, e tuas obras são retas. Bendito seja, ó Pai, minha rocha, em teu Filho Jesus, meu Senhor: Tu dás plenitude ao tempo de minha exis­tência, dás novo vigor a minha língua seca, voltas a abrir meus olhos, reforças os meus joelhos debilitados, pois combati contigo, Senhor, e prevaleceste; seduziste-me e eu me deixei seduzir. Tu és minha benção: abençoa-me, ó Senhor, meu Deus e meu tudo. Amo-te, ó Senhor, és minha força. Amém

 

CONTEMPLATIO: Enquanto o Senhor se afasta dali, de imediato lhe se­guem dois cegos. Mas, como puderam saber uns cegos a saída e o nome do Senhor? Mais ainda, chamam-no filho de Davi e o pedem que lhes salve. Nos cegos se torna clara a economia de toda a prefigu­ração anterior. De fato, a filha do chefe aparece rela­cionada com eles, que são os fariseus e os discípulos de João, reunidos já anteriormente para pôr o Senhor à prova. Dado que não conheciam àquele a quem pe­diam a salvação, a Lei lhes indicou e mostrou seu Salvador no corpo procedente de Davi. E dado que estavam cegos por um pecado antigo que lhes im­pedia ver a Cristo se não tivesse sido atraída sua atenção, infundiu neles a luz do Espírito. O Senhor lhes mostra que não se trata da fé na salvação, mas da salvação na fé. De fato, os cegos viram por haver crido, não creram por­ que haviam visto. Disto devemos compreender que é preciso merecer, com a fé, o que pedimos, e não fazer depender nossa fé do que obtemos. Ele lhes pro­meteu que veriam se cressem e visto que haviam crido, os ordenou que calassem, visto que era aos apóstolos a quem correspondia anunciar (Hilario de Poi­tiers).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me

a levar a alegre notícia aos pobres» (Is 61,1)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Curado pela salvação de Deus, íntegro e, neste sentido, simplesmente santo, permanece numa situação de incerteza surpreendente, incompreensível para si mesmo e, exatamente, por isso, capaz de dar-lhe asas, de modo misterioso, por assim dizer. Ainda que esteja, evidentemente, convencido da impossibilidade de alcançar a perfeição nesta terra, essa impossibilidade não se torna nele, sem dúvida, em cár­cere opressor, nem tampouco o dever de alcançar sua própria perfeição se converte em ideia obsessiva. Visto que sabe que sua morada tem que ser construída junto a Deus na graça, habita confiado em sua cabana desti­nada à destruição e prossegue caminhando livre através do tempo. Ao aceitar padecer misteriosas privações, em vista a um inacessível além, dá também seu consentimento às misteriosas missões que lhe foram confiadas do alto; exatamente quando pensava que não poderia dispor já de força alguma, aumentam-lhe estas; as asas lhe sustentam e o que lhe foi confiado para que administre é, inclusive, mais do que ele mesmo podia imaginar. Dai que possa reparti-lo, ainda que seja só como algo que pertence a outros, chegado de um modo incompreensível a suas mãos (H.U.von Balthasar,II Tufto nel Frammento,Milán).

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 11 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 10,1-7(Missão dos doze) O texto de hoje tira nossa atenção do ministério de Jesus e põe no de seus discípulos. A transição se dá em 9,35-38, que encerra a magna seção dos capítulos 8-9 e introduz o capítulo 10, onde são apresentados os aspectos e as modalidades essenciais da missão dos discípulos-apóstolos. A mi­ssão de Jesus está sintetizada em três verbos: instruir, anunciar e curar (9,35); a dos discípulos está definida por seu estatuto: ter sido chamados (10,1) e enviados (10,5). Foram chamados como discípulos e envia­dos como apóstolos para continuar o anúncio e a obra do Mestre. Sua missão é, pois, participação na missão do único Mestre e Senhor; sua própria «autoridade» é participada. A vocação, portanto, precede à missão e a faz possível. Os doze, os únicos que foram enviados, repre­sentam, simbolicamente, na solene apresentação de seus nomes, ligada por Mateus com as instruções com respeito à missão, o tempo novo e a nova obra de Deus na história dos homens. Uma ação nova que, sem dúvida, não exclui o passado. Aos discípulos pede que se dirijam «às ovelhas perdidas do povo de Israel» (v.6). Assim, a missão dos discípulos se caracteriza e se modela a par­tir do ministério de Jesus (cf.15,24). Esta particularidade «temporal» da missão dos doze (cf.28,18-20) ressalta a continuidade da obra de Jesus e de seus discípulos com a promessa feita por Deus aos pais e mostra, ao mesmo tempo, que a comunidade dos discípulos é o novo Israel.

 

 

Gn 41,55-57; 42,5-7.17-24a (A fome; Primeiro conselho de José a seus irmãos) – Esta passagem se insere no último ciclo dos re­latos patriarcais do Gênesis (37-50), onde predomina a figura de José. Trata-se de uma exten­sa seção do livro, que apresenta características dife­rentes com respeito aos ciclos de relatos que a precedem: esta apresenta temas e motivos que a ligam à magna tradição sapiencial de Israel. A figura de José está esboçada seguindo os cânones clássicos do sábio: é um hábil conselheiro político; está dotado de uma inteligên­cia que lhe permite escrutar na trama da história o «conselho», o projeto de Deus; teme ao Senhor (cf.42,18) e leva uma vida honesta, marcada por uma profunda sensibilidade ética que acompanha a sua atitude confiada com respeito a Deus (cf. 39,7-20). Nesta seção se perfila uma reflexão sobre a pre­sença de Deus no acontecer da humanidade, uma presença que não recorre às grandes ações pode­rosas ou às teofanias. Deus se revela no interior do acontecer humano, nas opções que realizam os homens, com frequência inexplicável e incompreensível. José é imagem de todo homem que, pela fé, sabe que Deus não abandona seu fiel. Este é o contexto geral que ilumina o texto do primeiro encontro entre José e seus irmãos depois de que o venderam aos ismaelitas. José, na plenitude de seu êxito pessoal (41,57), não se serve de seu poder para realizar algum tipo de vingança contra seus irmãos. Sua ação tende a provocar nos irmãos a pergunta pelo que haviam feito (v.22), para que se deem conta de que a vida não pode ser dirigida a determinados tipos de violência ou, o que é pior, assumindo a violência em vista à obtenção de um «benefício» (cf.37,26). Deste modo, fica descrito o itinerário que é preciso realizar para reapropriar-se do necessário para a vida: o «pão», ao qual remete a ambientação do texto. Por isso José se converte em figura de Cristo e em imagem do crente na tradição litúrgica. É figura daquele que, anunciando a misericórdia do Pai, mostra que o benefício da própria vida consis­te em fazer a vontade do Pai; é imagem do crente que, em Cristo, verdade do homem, busca e realiza a fraternidade.

 

Sl 32/33 (Hino à providência) – A grande diferença entre o nosso Deus vivo de Israel e os outros “deuses” é que o nosso vê, contempla e sente-se envolvido no processo de sua libertação. O Senhor viu o sofrimento e ouvi os gritos do seu povo, por isso decidiu libertá-los. Não é um Deus estranho ou que se esconde, sendo oposto aos “deuses”, que não estão preocupados conosco e brigam entre eles para ter a primazia e o poder. Como é bom saber que Deus nos vê, nos contempla e participa tanto de nossa história a ponto de enviar o seu único Filho para morrer por nós.

Senhor, olha em cada momento para mim a fim de que a tua graça e a tua força me sustentem, e que eu nunca me deixe seduzir pelas riquezas, pelo poder, pela violência, mas em cada momento viva o dom do seu amor sob o teu olhar misericordioso. Amém.

 

 

MEDITATIO: O discípulo experimenta, dia­riamente, um chamado que o impulsiona nos meandros da história humana, enriquecido com aquela sabedoria que não é motivo de orgulho (cf. Jr 9,22ss). Foi enviado a anunciar a necessidade da cruz, a Boa Nova da misericórdia e o perdão, que ele mesmo tem experimentado, e na qual se manifesta que o sentido de tudo está em fazer a vontade do Pai, a imagem de Cristo, primogênito de toda criatura: «Cristo não me enviou a batizar, mas a evangelizar, e esta sem fazer ostentação de eloquência, para que não se desvirtue a cruz de Cristo» (1 Cor 1,17).

ORATIO: Deus nosso, quanta fome há no fundo de minha hu­manidade… Quisera o bem pelo qual suspiro, quisera a res­piração e o calor de tua presença, que perpassa toda fria cavidade, toda absurda pretensão de meu coração des­troçado. Tu me sacias com pão de lágrimas; fazes-me beber lágrimas em abundância. Tu, ó Deus meu, me darás o pão de teu céu. Tu, ó Deus meu, me dás a teu Filho na cruz. Tu, ó Deus meu, me sacias de minha debilidade, para que, também na hora do abando­no, possa recuperar a força da memória e gritar com toda a verdade de minhas fibras: Abbá, Pai.

 

CONTEMPLATIO: Jesus exortou os discípulos a se manterem afastados dos caminhos dos pagãos, não porque não foram enviados também a oferecer a salvação aos pa­gãos, mas para que se abstivessem das obras e do modo de viver da ignorância pagã. Proi­biu entrar nas cidades dos samaritanos. Mas, acaso não curou o próprio Cristo, a uma samaritana? Em realidade, lhes exortou a que não entrassem nas igrejas dos hereges. De fato, a perversão não difere em nada da ignorância. Assim foram enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel. Sem dúvida, esta se voltou contra ele com uma língua viperina e garganta de lobo. Contudo, dado que a Lei devesse obter o privilégio do Evangelho, Israel tivesse sido tanto menos escusável por seu primeiro crime, pelo fato de que havia experimentado uma solicitude maior na exortação. Os apóstolos devem pregar que o Reino dos céus está próximo, quer dizer, que agora recebemos a imagem e a semelhança de Deus por meio de uma comunhão na verdade, que permite a todos os santos, designados com o nome de «céus», reinar com o Senhor. Devem curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os le­prosos, expulsar os demônios. Todos os males oca­sionados ao corpo de Adão, por instigação de Satanás, deviam saná-los por meio de sua participação no poder do Senhor (Hilario de Poitiers, Comentário a Mateus, Roma).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Deus conduzirá a Israel com alegria ao resplendor de sua glória» (Br 5,9)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – José nunca odiou seus irmãos; nunca lhe cegou o ciúme. Por isso pôde reconhecê-los (Gn 42,7). Porém eles estão apegados, ainda às trevas de seu ódio fratricida e não podem reconhecer-lhe. Para eles José está morto, já não existe. Nem sequer se perguntam se existe, ou não, seu irmão. Só um duro e sincero caminho de purificação e conversão lhes permitirá abrir os olhos e reconhecê-lo. José os submete, então, a prova, acusando-os de espiões. Eles se defendem (42,3). Então inicia a mudança: reconhecem-se todos irmãos, incluem também o desaparecido. É preciso «pô-los a prova» (42,15) para verificar se ocorre, verdadeiramente, uma mudança neles. Têm que voltar a seu pai, porém um deles ficará encarcerado no Egito: «A situação é perfeitamente análoga à do passado: devem voltar uma vez mais à presença de seu pai sem um deles, porém o que antes havia contemplado sem piedade em José, quando este era adolescente, o sentem agora como algo enormemente insuportável para eles mesmos» (G.von Rad). Os irmãos, que buscavam alimentos (42,7), são conduzidos por José a um descobrimento ainda maior: a fraternidade e a res­ponsabilidade frente a Deus (A. Bonora, La storia di Giuseppe, Brescia).

 

 

QUINTA-FEIRA, 12 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 10,7-15 (Missão dos doze) – Este texto é uma instrução sobre as tarefas e a práticas missionárias. Está precedido pela vocação e apresentação dos doze e por sua mi­ssão. Os que são chamados são enviados. Existe um elo necessário entre vocação e missão. Eles foram chamados para estar com o Se­nhor (cf. Mc 3,12) e serem enviados pelos caminhos dos homens a fazer ressoar a Boa Notícia que Ele veio proclamar (Mc 1,15). São enviados a dar testemunho e a dar voz à Palavra de misericórdia e salvação (v.7), apresentada nos capítulos 5-7 e 8-9, a contar a no­vidade de Cristo, que cuida do fraco, liberta da morte e da mentira, restituindo o homem a si mes­mo. Nisto o discípulo continua a obra do Mestre. E o discípulo, ao pôr-se a serviço do Evangelho como o Mestre, outorga o primado ao dom: «De graça re­cebestes, de graça dai» (v.8b). A gratuidade e a pobreza na missão constituem o testemunho de que o discípulo conta com uma só segurança e tem um único objetivo, seu Senhor e sua palavra (Mt 6,25). Assim, a missão se converte em ocasião para criar um elo de graça e de vida entre o que anuncia e testifica e o que acolhe. Um elo que faz visível a consciência da filiação divina de cada crente, que abre à fraternidade e dá cumprimento à promessa da paz messiânica na comunidade. Ao ser enviado, o discípulo “aprende» («discípulo» vem do verbo latino discere, «aprender») a alegria e a fatiga de participar na realização da promessa, de converter-se em instrumento eficaz, ainda que em meio da debilidade, da missão do Filho de Deus entre os homens.

 

 

Gn 44,18-21.23-29; 45,1-5 (Intervenção de Judá; José se dá a conhecer) – A primeira parte do texto (44,18-21.23-29) apresenta Judá, ignora que se encontra frente a seu irmão José, vendido aos ismaelitas, que tenta per­suadir-lhe de que tome a ele em vez de Benjamim, dada a promessa que havia feito a seu pai, Jacó: «Deixai o menino sob minha custodia, e ponhamo-nos a caminho, é a única maneira de sobreviver e de que não pereçamos nem nós, nem tu, nem nossos filhos. Eu me faço responsável dele; a mim me pedirás contas» (43,8ss). A segunda (45,1-5) narra como revelou José sua própria identidade a seus irmãos depois de tê-los humilhado e tratado com dureza para submetê-los a prova (42,15). As palavras de Judá selam um itinerário autêntico de mudança, de conversão: tanto ele como seus irmãos, que, em um tempo, não sentiram escrúpulos em vender José, em buscar algum tipo de lucro com seu desaparecimento, agora, diante de José, não estão dispostos por nenhum motivo a deixar longe de seu pai o pequeno Benjamim. O alegação de Judá mostra que o passado não deve determinar nem o presente nem o futuro. A res­posta de José é a revelação de sua identidade, junto a uma compreensão da história que recorre à providência divina: «Não estejais angustiados, nem vos pese o me terdes vendido para cá, pois Deus me enviou diante de vós para salvar vossas vidas» (45,5). Na trama dos acontecimentos intervém uma mão poderosa que dirige os caminhos da vida: o que havia sido objetivamente um fato cruel é relido e interpretado agora no horizonte mais amplo da his­tória da salvação. Deus gera salvação inclusive do mal; até nas contradições, nas amarguras da história humana intervém Deus para trazer luz. A reconciliação de José com seus irmãos, seu ato de perdão, firma-se na relação que tem com Deus. “Eu sou um homem que teme a Deus” (42,18): estas palavras proporcionam o horizonte no qual situa José o encontro com seus próprios irmãos. O temor do Se­nhor abre o coração do crente à reconciliação e à fraternidade que se restabelecem no diálogo vivido na paz.

 

Salmo 104/105 (A história maravilhosa de Israel) – A caminhada do ser humano nesta terra não pode ser baseada no egoísmo; ela deve se firmar na preocupação com os irmãos e na observação do seu passado à luz do presente. Nesta observação, percebemos que Deus nos tem acompanhado em todos os momentos de nossa vida. Qualquer personagem bíblico que tenha amado a Deus e crido nele sentiu sua mão forte a seu lado nos momentos de dificuldade e luta. Saiba: o Senhor caminha sempre a nosso lado para impedir que sejamos abatidos ou dominados pelo desespero. Diariamente somos chamados a dar nossa resposta a Deus, que nos convida a viver com coerência e iluminados por sua Palavra. O nosso sim ao chamado do Senhor constantemente renova esta aliança. O salmista nos leva a visualizar a fidelidade de Deus que, desde Abraão até hoje, é a mesma e não muda com nossa infidelidade. Deus é fiel, recorda-nos a Escritura, mesmo que o homem seja infiel. O Deus de Abraão, de Isaac e Jacó é nosso Deus, que se fez e se faz presença permanente em Cristo, nosso Salvador. Paulo recorda à comunidade de Corinto: (Ver 1 Cor 1,27-31).

Senhor, hoje quero gloriar-me em ti. Obrigado pela vida que me deste e chamaste a gestar junto contigo em todos os momentos de minha existência. Sei que não estou só, tu está comigo. Glorio-me, Senhor, em ti pelos amigos que encontrei na minha vida que foram capazes de estimular-me a fazer o bem e a construir a meu redor e dentro de mim o teu reino. Glorio-me, Senhor, pelos sofrimentos que tenho encontrado e contradições que tenho vivido por amor a ti. Às vezes tenho sofrido a cruz porque quero ser fiel a tua Palavra, e trago também na minha carne a tua paixão que amo e me consola. Glorio-me, Senhor, pela evangelização que me confiaste na minha família, no meio da tua Igreja, no meio do povo e por meio do meu trabalho diário, que nunca seja infiel. Glorio-me, Senhor, no pouco de bem que tenho realizado não por minhas forças, mas pela tua graça; glorio-me pela minha fé, esperança e caridade que tenho recebido pelo teu amor no dia do meu batismo. Glorio-me, Senhor, pela Virgem Maria, minha mãe, que com seu manto me cobre e sob sua proteção me refugio como pecador. Glorio-me por ser cristão, agradeço-te por minha fragilidade e meus pecados que me obrigam a viver em constante humildade e necessidade de teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: A paz do discípulo é o resultado de sua adesão e fidelidade ao conteúdo do anúncio de Jesus (Mc 1,15). O discípulo, em seu caminhar, vive a certeza de ter recebido e ter que guardar um dom precioso, o Reino de Deus, Cristo ­pelo qual vale a pena deixar tudo, pais, trabalho, o passado e o presente, em seguida, de ime­diato, vencendo a tentação de olhar atrás, confiando seu futuro a uma Palavra que exige obediência: «Segui-me, vos farei pescadores de homens» (Mc 1,17). A palavra do seguimento, acolhida em um clima de obediência, nos introduz na diakonía de Cristo com o mundo e o homem, e se caracteriza pela configuração com o Filho, que faz o enviado perder qualquer tipo de temerosa sujeição, permitindo-lhe de­senvolver-se na livre dignidade de uma relação filial regalada (Gl 4,7). A natureza cristiforme da missão desenvolvida pelo discípulo interpreta e deixa ao mesmo tempo o exemplo de Cristo, sem pretender assinalar ao serviço da Palavra nenhuma conotação voluntarista, própria de quem pretende celebrar no agir virtuoso e compro­metido a superioridade de seu próprio estatuto moral. O discípulo sabe que a Palavra do Reino foi confiada aos pequenos e, na medida em que ele seja capaz de tornar-se como uma criança, terá em seus lábios a Palavra de vida para anunciá-la desde os telhados e levar a salvação ao mundo, até o último recanto da terra (cf. Is 49,6). O discípulo, enviado a anunciar com fatos e com verdade a Palavra da salvação, considerando que Deus dirige, em Cristo, seu olhar providente sobre a história humana, não deseja «prata, ouro ou vestes» (At 20,33), não deseja «ganhos ilícitos» (1 Tm 3,8; Tt 1,7), pois aprendeu que «onde está seu tesouro está também seu coração» (Mt 6,21). A adesão ao Senhor, a participação em sua missão, é a que enche o coração do discípulo, pois ele é “o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6).

 

ORATIO: Na terra de meu exílio te louvo, ó Senhor, e manifesto a força e grandeza de tua paternidade a todo o povo de tua criação. Na obscuridade de meu nada, te louvo porque, inclusive em meio da obscuridade da tristeza, contemplo em minha carne a marca de teu dedo poderoso. Na noite de meu errar grito a ti minha súplica e meu agradecimento, pois em meio da incerteza de meu crer, vejo tua luz gozosa que inunda de santo fogo os passos de meu errar e me permite repousar no Mistério.

 

CONTEMPLATIO: Nudez e pobreza é desterro dos cuidados, segurança da vida, caminhante livre e desembaraçado, morte da tristeza e guarda dos mandamentos. O monge desnudo é senhor de todo o mundo, porque todos esses cuidados, ele colocou em Deus: e mediante a fé possui todas as coisas. Não tem necessidade de revelar aos homens suas necessidades. Todas as coisas que se lhe oferecem toma como da mão do Senhor. Este obreiro desnudo se faz inimigo de toda aflição demasiada; e assim olha as coisas que tem como se não as tivesse; e se, se passasse à vida solitária, todas as coisas terá por esterco. Mas o que se entristece por alguma coisa transitória, não sabe ainda qual seja a verdadeira nudez. O varão desnudo faz puríssima oração: mas o cobiçoso padece muitas imagens nela. Os que perseveram humildemente na santíssima subjeção, muito apartados estão de cobiça: porque que coisa eles podem ter própria os que seu próprio cor­po ofereceram por amor de Deus ao império do outro? Verdade é que um só dano padecem estes, que é estar muito prontos e preparados para a mudança dos lugares, que nem sempre é proveitosa. Vi alguns monges que pela ocasião que tiveram­ de trabalhos em algum lugar alcançaram a virtude da paciência: mas eu tenho por mais bem-aventurados àqueles que por amor de Deus procuraram diligente­mente alcançar esta virtude. O que provou dos bens do céu facilmente despreza os da terra: mas o que ainda não o provou alegra-se com as coisas daqui. O que procura al­cançar esta nudez, não com o fim que deve; em duas coisas recebe agravo, pois carece dos bens presen­tes e dos futuros (João Clímaco, A escala espiritual).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Está chegando o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1,15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O Senhor morreu e ressuscitou: este é o ultimo acontecimento. Esta é a última hora. Frente a todos os tempos e todos os momentos. Posto que Cristo é o último acontecimento, o modo como o cristão olha a história, olha os tem­pos e se traça as interrogações não é o de quem espera uma novidade que não conhece, mas o de quem sabe que, em todo caso, a novidade não superará este acontecimento. Será uma no­vidade autêntica se tem o perfil deste acontecimento: assim, enquanto caminha no tempo, o cristão permanece voltado para este acontecimento que é o último, que é o único e que está posto em um sentido verdadeiro entre os tempos. Dai, pois, o paradoxo modo cristão de ler a história. O cristão sabe que tudo repousa neste acontecimento, conhecido já em suas linhas essenciais. É o modo paradoxalmente sereno com que o cristão olha os tempos e vive entre os tempos frente às interrogantes e aos desenvolvimentos dos tempos. Em nome desta consciência, é importante não buscar certezas sobre o futuro, não pretender dispor do futuro. Isto não é cristão não porque seja imediatamente diabólico, mas porque não responde o sentido da fé na «ultimidade» de Je­sus Cristo. Não temos necessidade de nenhuma outra coisa para viver em um clima de confiança, de esperança, entre os tempos e em seus momentos cruciais. Daqui procede assim mesmo o paradoxo modo cristão de ser criativos, de realizar suas ações no mundo, nas situações dos tempos, entendendo o mun­do não precisamente como o cosmos, mas como uma realidade humana, cultural. É o modo paradoxo de quem não se põe nunca em relação com o presente, com a situação, com os tem­pos, com as culturas, com os mundos, sem referir-se ao mesmo tem­po a um acontecimento que já tem «tido lugar» (G. Moioli, II discepolo, Milán 2000, pp. 61-63).

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 13 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 10,16-23 (Os missionários serão perseguidos) Este texto, com a recuperação do verbo da missão (apostéllein) no v.16, prolonga o discurso dirigido aos discípulos enviados, anunciando a hosti­lidade e a perseguição aos enviados como algo inevitável e necessário à missão. Mateus havia apontado já em outros textos a perseguição na qual teriam que viver os enviados (cf Mt 5,11ss). E de um modo coerente sublinha constantemente que a resposta do discípulo à prova é a fidelidade e a perseverança. Uma resposta que encontra sua razão e possibilidade nas palavras ditas pelo Mestre: elas são a única referência autorizada e a única chave de leitura para seguir sendo fieis no tempo da prova. Essas palavras recordam ao discípulo a «sabedoria» que deve caracterizar-lhe no tempo da perse­verança. Discrição e simplicidade, coerência e realismo perspicaz configuram o estilo do discípulo enviado ao mundo, a exemplo do Mestre. Neste con­texto se explica o convite à fuga das cidades que não recebem os enviados (v.23); a perseguição que obriga os discípulos evangelizadores a deixar uma ci­dade sob o constrangimento da perseguição se torna ocasião para prosseguir a missão evangelizadora na espera da vinda definitiva do Filho do homem, o único a quem corresponde o juízo final: «Asseguro-vos que não per­correrereis todas as cidades de Israel antes de que venha o Filho do homem» (v.23). Assim, fica motivada a perseverança dos discípulos e sublinhada a urgên­cia de sua obra missionária. Assim, de modo paradoxo, a conflito violento e a perseguição, manifestam o estatuto do discípulo que, em seu acontecer, compartilha o destino histórico de seu Senhor. A Cruz e o Crucificado marcam a vida do discípulo, do evangelizador. Mas, para a atividade evangelizadora temos também a promessa do Espírito do Pai (v.20), de modo que o enviado participa pelo seu testemunho no estado do Ressuscitado. A missão vem a situar-se no horizonte da esperança e se compreende a razão de que ao discípulo que persevere se lhe prometa a sal­vação (v.22).

 

 

Gn 46,1-7.28-30 (Saída de Jacó para o Egito) – Os elementos que caracterizam este fragmento (chegada de Jacó a Bersabéia, oferenda do sacrifício, orá­culo divino, saída de Bersabéia) recuperam as histórias patriarcais e o associam a elas. O itinerário de Jacó, ligado ao de Abraão, se converte em outra etapa decisiva da história de salvação de Israel. Se Abraão saiu de Ur para chegar à terra de Canaã, agora é Ja­có quem sai da terra de Canaã e se dirige a Egi­to, acompanhado, como Abraão, pela promessa: «ali farei de ti um grande povo» (v.3). Trata-se de um caminho que espera sua consumação no retorno à terra de Canaã. O livro do Êxodo abrirá esta nova etapa. A importância desta está sublinhada pelo fato de que Jacó, diferente do que ocorria no capítulo 28, «conhece» seu interlocutor (v.3: «Eu sou Deus, o Deus de teu pai»), recebe uma revelação que ­marca seu acontecer na história que Deus tem preparado para seu povo (cf. revela a Moisés). Uma his­tória que ele protege e dirige: «Não temas […] Eu descerei contigo ao Egito e te farei subir dali» (vv. 3ss). A es­perança, em sua contínua presença, inclusive em terra es­trangeira, é o que dá sentido a um itinerário que, de outro modo, seria incompreensível, visto que afasta Jacó para sempre da terra da promessa, já que, para ele, já não haverá retorno (v.4: «José te fechará os olhos»). Em Jacó está descrito o itinerário de todo crente, que seguindo a Palavra que Deus lhe tem dirigido, se deixa con­duzir para onde Ele queira levar-lhe: ao encontro com um “filho”, sempre desejado e que o encontrará tudo aban­donado à vontade divina: «Israel disse a José: Agora já posso morrer, porque te vi e estás vivo» (v.30).

 

Salmo 36/37 (A sorte do justo e do ímpio) – Este Salmo é uma longa reflexão sapiencial sobre o destino dos justos e dos injustos. O justo sabe que toda sua ação será lembrada por Deus e que receberá a sua recompensa de amor, paz e vida eterna. O Salmo nos convida a não cobiçar nem buscar as riquezas, que hoje são valiosas, mas que amanhã não terão valor, lembrando-nos que tudo é vaidade e que só o amor permanece para sempre em nossos corações. Na verdade, a terra, o mundo não pertence aos poderosos, nem tampouco aos ricos e prepotentes, mas sim aos pobres, que sabem contentar-se com pouco. O caminho da felicidade é voltar ao essencial, ao mínimo necessário, e eliminar da vida o supérfluo e o luxo.

Senhor, sei que a vaidade me ataca e que às vezes sinto rugir dentro de mim a fera do ódio, do rancor, da raiva. Sinto-me marginalizado ao lutar para ser bom e fazer o bem. Tudo isso me torna triste e temo sucumbir diante das dificuldades, mas confio na tua graça. Que nos momentos de tentação eu volte a meditar este Salmo de autêntica e verdadeira sabedoria. Amém.

 

 

MEDITATIO: A graça do chamado a partilhar a missão do Filho configura-o àquele que, despojando-se de sua natureza divina, se fez homem e viveu entre os homens como servo (Fl 2,7), vivendo, entre os seus, “como o que serve” (Lc 22,27). Esta configuração com Cristo “servo”, a outorga ao Espírito Santo, que permite, ao discípulo, unir, em uma existência renovada, o agir e o ser de Cristo e, em virtude disso, unificar o amor a Deus e ao próximo no serviço prestado segundo a verdade (cf. Mt 9,13). A missão e a kênoses se reclamam reciprocamente, revelan­do, com a humilhação de Deus em Cristo, o sinal histó­rico do serviço do discípulo, que prossegue, no tem­po, a ação salvifica de seu Senhor em cada homem. Em consequência, em Cristo, tanto a vida, como a mi­ssão, do discípulo, estão sob o sinal da cruz gloriosa: «Ofereci as costas aos que me golpeavam, minha face aos que me arrancavam a barba; não ocultei o rosto ante aos insultos e escarros. O Senhor me ajuda, por isso suportava os ultrajes, por isso endureci meu rosto como uma pederneira, sabendo que não ficaria desiludido” (Is 50, 6ss). Até no momento do abandono e do fra­casso, do medo que nos leva a olhar atrás, a dirigir o olhar para o passado, no qual pensamos encontrar proteção, confia, o discípulo, sua própria história, à memória de uma Palavra consoladora: “Sou eu em pessoa quem os consola. Por que temer a um ser mortal, a um homem que passa como a erva? Tu esquece­rás o Senhor, teu criador, que estendeu o céu e fundou a terra?» (Is 51,12ss). O anúncio do Evangelho fica subtraído, desta maneira, aos critérios de avaliação mundanos e é entregue, definitivamente, ao discerni­mento da Palavra do Senhor: “Irmãos, não atueis como crianças em vosso modo de julgar; tende a ino­cência da criança no que se refere ao mal, porém sede adul­tos em vossos critérios» (1 Cor 14,20).

 

ORATIO: Conduz-me, luz amável, conduz-me na escuri­dão que me estreita. A noite é escura, a casa está longe; conduz-me, luz amável. Guia meus passos. Não peço ver muito longe; basta-me um passo, só o primeiro passo. Conduz-me adiante, luz amável. Nem sempre foi assim, não te rezei para que me guiasses e me conduzisses. Quis ver por mim mesmo meu caminho, e agora és tu quem me guia luz amável. Eu queria cer­tezas; esquece aqueles dias, para que teu amor não me abandone; até que passe a noite tu me guiarás a ti com segurança, luz amável (J.H.Newman, Lead, kindly ligth).

 

CONTEMPLATIO: O Senhor Jesus preanuncia que haveria de serem muitos os que se enfureceriam contra os apóstolos, com um furor insensato, quando disse que os enviava «como ovelhas em meio de lobos». Recomenda-lhes que sejam «simples como as pombas e prudentes como as serpentes». A simplicidade das pombas é evidente. Sem dúvida, é preciso examinar que é a prudência da serpente. Eu não sei se há algo de prudente, ou de sensato, nelas. Ape­sar de que alguns autores nos tenham transmitido a este respeito que, quando compreendem que caíram nas mãos dos homens, afastam, de todos os modos possíveis, sua cabeça, dos golpes, ou escondem-na bem no corpo enrolado em espiral, ou em um buraco, abandonando a outra parte do corpo à ma­tança. Assim também nós, seguindo este exemplo, devemos esconder, em caso de perseguição, nossa cabeça, que é Cristo, para defender, expondo-nos a todas as torturas, com o sacrifício de nosso corpo, a fé que temos recebido de Cristo. Seremos conduzidos ante os juízes e ante os reis da terra com o propósito de arrancar nosso silêncio ou nossa cumplicidade. Seremos, de fato, testemunhos para eles e para os pagãos. Com nosso tes­temunho devemos arrebatar dos perseguidores a desculpa da ignorância da divindade, e, ao contrário, devemos abrir aos pagãos o caminho da fé em Cristo, pregado pelas confissões dos mártires, que persevera­ram entre os suplícios dos que lhes torturavam. Por isso nos adverte Cristo que é preciso que nos armemos da prudência da serpente (Hilario de Poitiers, Com­mentario a Matteo, Roma).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Quando vier o Espírito da verdade, ele vos iluminará para que

entendais a verdade completa e vos recor­dará tudo o que vos disse»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Para os monges, Cristo é o modelo da humanidade por excelência. O fato de suportar os sofrimentos, os insultos, as acusações (a humilhação por amor a Cristo trata-se do conteúdo de uma das bem-aventuranças) é um ideal luminoso para quem vive no deserto; é expressão de humildade. Mas, o que projeta sua sombra, de modo impressionante, ao longo de toda a literatura dos apotegmas é o exemplo de humildade que Cristo oferece, pessoalmente, sua kenosis, seu esvaziar-se de si mesmo. Os padres do deserto tentaram seguir Cristo seguindo seu caminho de humildade, partilhando seus sofrimentos, pagando sua dívida de amor a quem sofreu por eles. Este aspecto da vida de Cristo é, claramente, um dos traços mais comovedores e marcantes dos monges do deserto. Seus ditos refletem o empenho inesgotável posto por eles para realizar seu sentido em sua própria vida. Deste modo, esperavam levar Cristo à vida do deserto. Para padre Poemen, o objetivo da vida do monge no deserto só se pode entender, em sua totalidade, em referência às bem-aventuranças. «Acaso não temos vindo a este lugar para a fatiga (cf. Mt 5,10ss)?», se pergunta o ancião. De modo análogo, o padre Pafúncio indicou o caminho da hu­mildade traçado pelas bem-aventuranças a um irmão que lhe pe­diu uma palavra: «Vê e ama as tribulações mais que a quietude, o desprezo mais que a alegria, dar mais que receber» (D. Burton­ Christie, La Parola nel deserto).

 

 

SÁBADO, 14 DE JULHO DE 2018 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 10,24-33 (Falar abertamente e sem medo) Mateus recorda de um modo decididamente ex­plícito, as coordenadas essenciais entre as quais o discípulo «permanece» em sua vocação. O faz através de algumas situações que caracterizam o acontecer dos enviados. Primeiro, se trata de ser como o Mestre (v.25), de encontrar, nele, o único motivo e único mo­delo de nossa existência e de nossa mi­ssão; de ter, como Ele, fé no Pai, de abandonar-nos, confiantes a sua vontade. A adesão ao Senhor cru­cificado e a confiança na providência divina formam a base da relação vital que liberta o discí­pulo de todo medo e condicionamentos humanos, e dirigem sua liberdade a optar por servir ao Evangelho. A ousadia de anun­ciar publicamente, com franqueza (parresia), a presença de Deus dá a medida da liberdade do discípulo e de sua adesão a Cristo. O discípulo sabe que o serviço ao Evangelho não é um projeto de vida pacífico ou, pior ainda, marcado por afrouxamentos, no qual desaparecem ingenuamente ou se esquivam, com hábeis cálculos, dos conflitos e das rupturas. Estas poderão chegar inclusive às relações fa­miliares, porque só é possível anunciar o Evangelho na medida em que vivemos o seguimento e a ade­são a Cristo, de modo radical (cf. Mt 10,37). Anunciar o Evangelho é «confessar Jesus ante os homens», atitude exatamente contraria à de Pedro, que na noite da prisão renegou o Mestre (cf.10,33), jurando que não lhe conhecia (27,74). O dom da comunhão com Ele, oferecido por Cristo a seus discípulos (Mc 3,12), é algo que não devemos esquecer, nem sequer frente ao peri­go de perder a vida. Desta solidariedade com o Filho do homem, um dom que vem do alto, depende o julgamento sobre a vida do discípulo (vv.32ss).

 

 

Gn 49,29-32; 50,15-26a (Últimos momentos e morte de Jacó; Da morte de Jacó à de José). Este texto une o pedido de Jacó de ser se­pultado no lugar onde jaziam seus pais com o texto conclusivo do livro do Gênesis, na qual se contrapõem o medo dos irmãos da possível represália de José com respeito a eles depois da morte de seu pai e a reação de José, na qual se confirma o perdão, junto à consciência de que, ainda sendo um homem poderoso, nunca poderia substituir a Deus, o único a quem pertence o julgamento e a vida. No regresso dos restos de Jacob-Israel à terra de seus pais, se preanuncia o itinerário de retorno do povo de Israel após o doloroso parêntese da opre­ssão egípcia. E nas palavras de José «Deus virá a buscar-vos e vos levará deste país à terra que prometeu a Abraão, Isaac e Jacó» (v.24) se evoca o compromisso (a aliança, berith) que Deus assumiu com os pais e que dá sentido à esperança do povo. Esta encontra resposta na «visita» de Deus a seu povo, que será para este a salvação definitiva, a posse dos bens prometidos, esperados e desejados. Trata-se de uma visita que abrirá uma nova fase da história e inundará de alegria toda a terra, uma fase que se cumprirá no Filho, o qual terá poder para di­rigir os passos de todo homem «pelo caminho da paz» e fará um povo único encaminhado para a pátria de seu desejo: Deus Pai.

 

Salmo 104/105 (A história maravilhosa de Israel) – (Ver quinta-feira)

 

 

MEDITATIO: Em sua missão de anunciar Cristo e seu Evangelho, o discípulo participa do dinamismo da Palavra que, saída da boca do Altíssimo (cf. Is 55,11), se difunde como testemunho de Jesus até os últimos con­fins da terra (At 1,8). Neste itinerário delineado pela vontade do Pai, o discípulo está apoiado e acompanhado pela presença de seu Senhor: “E sabei que eu estou convosco todos os dias até o final deste mundo» (Mt 28,19ss). Trata-se de uma companhia que nos liberta do medo da morte e nos impulsiona a olhar além dela. É que, em Jesus, foi destruída a morte e triun­fou a vida. Está escrito, de fato: «Se com ele morremos, viveremos com ele; se com ele sofremos, reinaremos com ele; se o negamos, também ele nos nega­rá; se somos infiéis, ele permanece fiel, porque não pode negar-se a si mesmo» (2 Tm 2,11-13). É o novo início da vida do crente, porque Jesus Cristo, ao vencer a morte, constrói a história a partir do novo começo de sua ressurreição. Daí que o discí­pulo se construa sobre Cristo (Cl 2,7) e esteja «associa­do a sua plenitude» (Cl 2,9) em virtude de que «haveis sido sepultados com Cristo no batismo, e com ele re­ssuscitastes também, pois haveis crido no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos» (Cl 2,12). A missão do discípulo encontra neste aconteci­mento seu «começo» e a certeza de que está acompa­nhada pela presença providente do Pai. Ele custodia seu fiel.

 

ORATIO: Eu te bendigo, ó meu tudo, pois completastes tua obra em mim. Tu és um Deus prodigioso, tu realizas maravilhas. Nas entranhas de teu amor tu te recordaste de mim, teu servo. Senhor, tu voltaste a dar-me a vida. Por isso cantarei teu nome entre as nações, soarão nas cítaras as suaves vibrações de meu coração e su­ssurrará em teu ouvido meu canto de amor: Eu sou narciso de Sarón, um lírio branco dos vales. Tu, amado meu, me tens introduzido no centro de tua embriaguez, me tens imprimido como selo em teu braço; em teu coração; teu estandarte sobre mim é amor. Dou-te graças em meio de teu povo; tu me inundas com tua graça, porque me fizeste filho teu no Espírito. Amém.

 

CONTEMPLATIO: «Não se vende dois pardais por um asse? E, sem dúvida, nem um deles cai por terra sem que vosso Pai per­mita ». A expressão “nenhum deles cai por terra sem que vosso Pai permita» parece contradizer as palavras do apóstolo: “Deus não se preocu­pa com os bois». E se tiraria muita credibilidade a esta última se, se constatasse que expressou uma opi­nião diferente da transmitida nos evangelhos. Nem se confere, certamente, muito prestígio aos apóstolos pelo fato de ser antepostos aos pássaros; esta passagem se explica a partir da ideia precedente. Che­gam ao cúmulo, de fato, as injustiças dos que nos en­tregarão, nos perseguirão e nos obrigarão a fugir. Para esses é necessário odiar-nos por causa do nome do Senhor, a fim de exercitar todo seu poder só sobre o cor­po, visto que não têm poder sobre a alma. Estes são os que vendem dois pássaros por muito pouco dinheiro. E, em verdade, o que foi vendido como escravo do pecado, Cristo o resgatou da Lei. Assim, pois, o que foi vendido é o corpo e a alma. Aquele ao qual foi vendido é o pecado, visto que Cristo nos resgatou do pecado e é redentor da alma e do corpo. Portanto, os que vendem dois pássaros por muito pouco dinheiro se vendem a si mesmos, ao pecado, a preço muito baixo. Estes nasceram para voar e devem elevar-se ao céu com asas espirituais. Sem dúvida, por serem escravos do preço dos prazeres presentes e estar vendidos ao luxo do mundo, com esses comportamentos regateiam, só consigo mesmos (Hilario dé Poitiers, Commentario a Matteo, Roma).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Não temais, pequeno rebanho, porque foi do

agrado do vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12,32).

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Jesus entrega, aos discípulos, seu Espírito, a fim de que tenham força, confiança, entusiasmo, ao compartilhar, com Ele, a missão re­cebida, em qualquer situação na qual possam encontrar-se. Frente às dificuldades e decepções, às fadigas e aridez, aos medos e às tentações de abandono que pesam sobre nosso compromisso de vida cristã e de anúncio do Evangelho, estamos chamados a descobrir, de novo, a absoluta fi­delidade de Cristo à promessa: «E sabei que eu estou convo­sco todos os dias até o final do mundo» (Mt 28,20). Nos momentos de fatiga e de aparente fra­casso pessoal e pastoral é quando devemos orar ao «Consola­dor», ao Espírito Santo que o Pai nos envia em nome de Cristo. Devemos rezar para que nos recorde tudo o que disse o Senhor Jesus (cf. Jo 14,26): a promessa de sua presença; mais ainda, a realidade de sua vitória: «No mundo encontrareis difi­culdades e tereis que sofrer, porém tende ânimo: eu venci ao mundo» (Jo 16,33). Santo Ambrósio nos convida a cantar: «Que Cristo seja nosso alimento, nossa bebida a fé; bebamos alegres a sóbria embriaguez do Espírito» (hino Splendor paternae gloriae). Com esta sóbria embriaguez que o Espírito criador in­funde em nosso coração, tanto a vida cristã, como a ação pastoral da Igreja, poderão experimentar, não só um sentido de serena segurança, mas também uma profunda alegria: a alegria de quem trabalha no Reino de Deus, pôr e com o Senhor. Precisamente, como os discípulos dos que falam os Atos dos apóstolos, que «estavam cheios de alegria e do Espírito Santo» (At 13,52) (D. Tettamanzi, ll tempo della missione della Chiesa, Casale Monf. 2000).

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