Lectio Divina de 16 a 21 de dezembro de 2018

DOMINGO, 13 DE DEZEMBRO DE 2015 – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Lucas 3,10-18 (Pregação de João Batista) Depois do acontecimento da Palavra sobre o Batista que anuncia a salvação (Lc 3,2), Lucas relata os temas éticos da pregação de João nos quais precisa os caminhos que há que endireitar e ajustar segundo os caminhos de Deus. Apresentam-se ao Batista diversas categorias de pessoas. Por três vezes (vv.10.12.14) o povo pergunta ao Batista: «Que devemos fazer?». Na resposta não pede coisas desorbitadas, mas que recomenda modos de atenção com o outro, respeito a todos na justiça.       O Batista, homem do deserto, a quem pergunta sobre o que deve fazer não lhe pede imitar-lhe na vida hermética ou ascética do deserto. Dá-lhes respostas para que as realize cada um em sua vida normal, já que é precisamente nesse âmbito onde todos devemos endireitar os caminhos de Deus. A alguns interlocutores sugere o compromisso do compartilhar: «O que tenha duas túnicas, que dê uma ao que não tem nenhuma» (v.11). Logo se aproximam os publicanos e os soldados, duas categorias «suspeitas». Porém também podem abrir-se à salvação vivendo uma vida honesta e renunciando algumas fraudes. Quando venha Jesus, precisamente os publicanos e os soldados (cf. o centurião) serão as testemunhas de uma salvação que se lhes oferece sem condições previas, salvação recebida gratuitamente, capaz de mudar a vida. Finalmente o evangelista indica que «o povo estava à expectativa» (v.15), e se perguntavam se não seria João o Cristo.      Da pergunta do «fazer» se passa à do «Messias», quer dizer, à pergunta de «Quem nos pode salvar?».           O Batista remete, mais além de si mesmo, «àquele que vem», o único que poderá mudar a vida velha, queimando a palha e regalando o Espírito.

 

 

Sf 3,14-18a (Salmos de alegria em Sião) O profeta Sofonias, que precede alguns anos ao profeta Jeremias, interpreta com estas palavras o desejo de renascer da cidade de Jerusalém após o período do rei Manassés, idólatra e violento. Trata-se de um renascer à vez espiritual e civil. A destinatária das palavras é a «filha de Sião» ou «filha de Jerusalém», que de ambos modos se designa à mesma cidade de Jerusalém, porém que talvez aludem também a algo novo que o Senhor vai fazer. No texto profético se cruzam diversos temas, todos se repetem ao menos duas vezes, e é que a repetição sublinha a urgência da exortação a fiarse desta palavra de esperança. O convite á alegria dá o tom fundamental. O profeta recorre a todos os vocábulos possíveis para manifestá-lo: gozo, alegria, regozijo, festa, dança… é esse gozo interior que se manifesta exteriormente com a participação de toda a comunidade. Porém o aspecto mais interessante deste sentimento é que não só se trata de um gozo humano, mas também do de Deus (v.17 «Ele se alegra e se compraz em ti»). O fragmento se abre com o gozo do povo e se encerra com o gozo de Deus. O motivo do gozo é a vinda de Deus, que, cancelada toda condenação, habita agora em meio da cidade como salvador: «O Senhor teu Deus no meio de ti» (vv.15.17). A salvação à sua vez se realiza como uma renovação no amor «seu amor te renovará»: v.17). Para Sofonias a salvação está no reafirmar o amor originário de Deus, em voltar a encontrar o amor perdido. É um amor que expulsa o temor, porque já não há motivo para temer quando Deus manifesta seu amor. Precisamente neste texto se inspirará a cena da anunciação em Lucas: «Alegra-te… O Senhor está contigo… Não temas…».

 

Fl 4,4-7 (Últimos conselhos) O convite à alegria, como a recomendação a não temer (“Que nada vos angustie»: v.6), encontram, para Paulo, seu fundamento no fato de que: «O Senhor está próximo». “Senhor” indica aqui não só a Deus, mas a Jesus, porque nele Deus se aproxima à humanidade. A carta aos Filipenses mostra como a esperança do cristão é diferente da esperança do qual quer ser otimista a todo custo. Esta não se baseia em um sentimento de vontade pessoal, em uma disposição interior ao otimismo, mas na pessoa de Jesus, que é garantia da espera para o futuro. Três palavras resumem os aspectos pessoais e comunitários da esperança: gozo, confiança, paz. O gozo: brota do fato de viver em comunhão com Jesus e os demais. O que afirma isto não é um espertalhão, mas um apóstolo que sofre, prisioneiro, que convida reiteradamente os filipenses ao gozo. A confiança: «Que nada vos angustie; ao contrário, em qualquer situação apresentai vossos desejos a Deus orando, suplicando e dando graças» (v. 6). Abandonar-se em Deus não é indigno do homem, não é um refugiar-se em um mundo irreal, mas que faz parte da verdadeira sabedoria, porque «o Senhor protege o caminho dos justos» (l Sm 2,9). A paz: resultado de quanto precede. Das escassas palavras de Paulo se deduz que a paz não é ausência de preocupações, mas fruto do poder de Deus, que guarda o coração e pensamentos dos crentes em Cristo Jesus (v. 7), o qual é muito distinto do simples “não ter pensamentos”. A verdadeira paz não é superficial, mas que se afiança no homem ai onde decide por si mesmo, na mente e o coração, e, deste modo, também suas ações e relações serão ações e relações de paz.

 

Ct Is 12,2-6 (O júbilo do povo redimido) (…) Constitui uma espécie de cume de algumas páginas do livro de Isaias que se tornaram célebres por sua interpretação messiânica. Trata-se dos capítulos 6-12, freqüentemente denominado “O livro do Emanuel”. De fato, no centro desses oráculos proféticos destaca-se a figura de um soberano que, mesmo ainda fazendo parte da histórica dinastia davídica, tem perfis transfigurados e recebe títulos gloriosos (…). As duas estrofes do hino marcam quase dois momentos. Na primeira (vv.1-3), que inicia com o convite a orar: “Dirás naquele dia”, domina a palavra “salvação”, repetida três vezes e aplicada ao Senhor… Por isso, nosso orante tem a certeza inquebrantável de que, na raiz da libertação e da esperança está a graça divina. É significativo notar que faz referencia implícita ao grande acontecimento salvífico do êxodo da escravidão de Egito, porque cita as palavras do canto de libertação entoado por Moisés: “Minha força e meu canto é o Senhor” (Ex 15,). A salvação dada por Deus, capaz de suscitar alegria e confiança, inclusive no dia obscuro da prova, se apresenta com a imagem, clássica na Bíblia, da água: “Retirareis água com alegria das fontes da salvação” (v.3). O pensamento se dirige, idealmente, à cena da samaritana, quando Jesus a oferece a possibilidade de ter, nela mesma, uma “fonte de água que sacia para a vida eterna” ( 4,14) (…). Por desgraça a humanidade, com freqüência, abandona esta fonte que sacia todo o ser da pessoa como afirma com amargura o profeta Jeremias: “Abandonaram a mim, manancial de águas vivas, para fazer para si mesmas, cisternas rachadas, que não retêm a água” (2,13) (…). A segunda (vv.12,4-6) começa com outro convite “Naquele dia direis”, que é uma chamada contínua ao louvor alegre em honra do Senhor. Multiplicam-se os imperativos para cantar: “dai graças, invocai, contai, proclamai, anunciai, gritai”. No centro do louvor há uma única profissão de fé em Deus salvador, que atua na historia e está ao lado de sua criatura, partilhando suas vicissitudes: “O Senhor fez proezas… Que grande é no meio de ti o Santo de Israel!” (vv.5-6). Esta profissão de fé tem também uma função missionária: “Contai aos povos suas façanhas… Anunciai-as a toda a terra” (vv.4-5).       A salvação obtida deve ser testemunhada ao mundo, de forma que a humanidade inteira acorra a essas fontes de paz, alegria e liberdade. (João Paulo II)

 

 

MEDITAÇÃO A Palavra de Deus me convida à alegria como nota qualificada de meu testemunho cristão. «Alegrar-se no Senhor»: na linguagem cotidiana nunca dizemos “alegrar-se em uma pessoa”, mas “alegrar-se com uma pessoa”, ou “por uma pessoa”. A Escritura, sem dúvida, me diz: «Alegrar-se no Senhor». Estou chamado a esta singular alegria: posso alegrar-me enquanto vivo unido a outro, no Senhor. Minha alegria verdadeira só brotará de uma experiência de relação, de comunhão com o Senhor Jesus. A alegria arraigada na esperança da vinda de Jesus se expressa na afabilidade com os outros, na mansidão nas relações com meus irmãos, no buscar sempre o conveniente, o adaptado a cada situação, no esforço por lograr a medida justa com cada irmão que encontro. Minha alegria deve manifestar-se também nas obras de justiça, nas obras de uma vida “salva”. Para poder encontrar hoje paz, o evangelho não me deixa só com a pergunta: «Que devo fazer?». Quer ajudar-me além do mais a traçar-me uma pergunta mais profunda: «A quem devo dar meu coração? Quem pode dizer-me uma palavra verdadeira que suscite e reforce em mim o querer o bem?». O Batista, mestre de moral e de justiça, me adverte a não abandonar esta pergunta e me indica também a resposta, quer dizer, me orienta para o Único que vale a pena olhar, para apostar por ele todo o sentido de minha existência.

 

ORAÇÃO: Olhamos a ti, Senhor, aquele que João chama «mais forte»: e tu és pois fazes presente e operante a potencia de Deus Pai, para nossa salvação; és também porque sabes vencer todas nossas debilidades, todas nossas resistências; és porque nos livras do mal e dás a paz a nosso coração. Olhamos a ti, Senhor Jesus, que batizas no Espírito Santo: tu nos mergulhas na vida mesma de Deus, nos comunicas o Espírito que habita em ti, o Espírito cujo fruto é a caridade, o gozo, a paz, a paciência, a benevolência, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio de si. Olhamos a ti, Senhor Jesus, que vens a julgar o mundo. Atua também hoje com “fogo”: dai-nos a conhecer a santidade de Deus, seu amor exigente que nos purifica e que é insustentável para nós que temos a fragilidade da palha. Enquanto, dispersos entre o povo do Jordão, reconhecemos nosso pecado e nossas pressas, aproxima-te a nós e dai-nos força para voltar a Deus. Olhamos a ti, Senhor Jesus: enquanto buscamos a alegria em outra parte, te aproximas e nos repetes: «Teu Deus se alegra e exulta por ti».

 

CONTEMPLAÇÃO: Abrindo nossos olhos à luz de Deus, escutemos atônitos o que cada dia nos adverte a voz divina que clama: «Se hoje escutais sua voz, não endureçais vossos corações». E, buscando-se o Senhor um obreiro entre a multidão à que lança seu grito de chamamento, volta a dizer: «Há alguém que quer viver e deseja passar dias prósperos?». Se tu, ao ouvir-lhe, respondes: «Eu», outra vez te disse Deus: «Se queres gozar de uma vida verdadeira e perpetua, guarda tua língua do mal; teus lábios da falsidade; aparta-te do mal e faz o bem, busca a paz e corre atrás dela». E, quando cumpres tudo isto, terei meus olhos fixos sobre vós, meus ouvidos atenderão vossas súplicas, e antes de que me interrogueis vos direi: «Aqui estou». Irmãos amaríssimos, pode haver algo mais doce para nós que esta voz do Senhor, que nos convida? Olhai como o Senhor, em sua bondade, nos indica o caminho da vida. Se, se considera necessário algo um pouco mais severo com o fim de corrigir os vícios ou manter a caridade, não abandones em seguida, surpreendido de temor, o caminho da salvação, que forçosamente há de iniciar-se com um começo estreito. Mas, ao avançar na vida monástica e na fé, dilatando o coração pela doçura de um amor inefável, voa a alma pelo caminho dos mandamentos de Deus (Benito de Nursia, Prólogo a la Regla).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Estai sempre alegres no Senhor; vos repito, estai alegres» (Fil 4,4)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL A alegria é oração. A alegria é força. É como uma rede de amor que se prende às almas. Deus ama ao que dá com alegria. O que dá com alegria, dá mais. Não há melhor maneira de manifestar nossa gratidão a Deus e aos homens que aceitar tudo com alegria. Um coração ardente de amor é, necessariamente, um coração alegre. Não deixeis nunca que a tristeza se apodere de vós até o ponto de esquecer a alegria de Cristo ressuscitado. Continuai dando Jesus aos demais, não com palavras, mas com o exemplo, pelo amor que vos une a ele, irradiando sua santidade e difundindo seu amor profundo, ide por todas as partes. Que vossa força não seja outra que a alegria de Jesus. Vivei felizes e em paz. Aceitai tudo o que ele dá e dai tudo o que ele toma com um grande sorriso (Madre Teresa).

 

 

SEGUNDA-FEIRA,  – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Mateus 21,23-27 (Pergunta dos judeus sobre a autoridade de Jesus) O evangelista mostra aos adversários de Jesus, que protestam por considerar ilegítimo seu julgamento sobre o templo e a expulsão dos vendedores. Perguntam em nome de que autoridade tem atuado de tal modo e sentenciado sobre a relação do povo com Deus. Jesus, de sua parte, revida, pedindo que se decidam em suas posturas, sobre o batismo de João (v.25), visto que o batizar havia sido a ação mais chamativa do Batista. O Nazareno exige uma alternativa clara e decidida. Através da pergunta se vêem obrigados a fazer uma séria reflexão de sua própria atitude equivocada frente a Deus. A pergunta de Jesus, como poderia parecer ao leitor, não é uma escapatória tática, um modo de desviar do assunto, evitando, assim, dar uma resposta comprometedora. Trata-se mais de fazer um sério convite à conversão; pede tomar partido sobre a pregação de João Batista, que havia sido, precisamente, um chamado à conversão. Sua pregação punha os chefes religiosos em uma situação análoga à desejada por Jesus. A relutância em responder manifesta má vontade, o atuar com cálculos políticos de conveniência (vv.25-26), esquecendo que a primeira obrigação dos chefes, como de qualquer fiel, é a conversão. Do contrário Deus pode calar como sugere a peremptória afirmação final de Jesus: ”Pois tampouco eu vos digo com que autoridade eu faço estas coisas” (v.27).

 

Nm 24,2-7.15-17a (Oráculos de Balaão) Em uma longa e complexa narração acerca do tempo do caminho pelo deserto, o livro dos números conta como Balac, rei de Moab, para opor-se ao passar de Israel, contratou um potente adivinho pagão, Balaão, para que lançasse seus sortilégios de maldição contra Israel. Este, em vez de aniquilar o povo, como indica seu nome “devorador”, é confundido pelo Senhor e obrigado a profetizar em favor de Israel.           A presente leitura propõe alguns versículos do terceiro e quarto oráculos que pronunciou. O primeiro anuncia a prosperidade e a fecundidade de Israel com a imagem de um acampamento enorme de formosas e ricas tendas e a de uma paisagem com plantas formosas e abundância de água, que indicam a vitalidade (vv.5-7). O quarto acrescenta aos precedentes (vv.16-17) a descrição de uma realeza ideal, que é uma visão idealizada da monarquia davídica, enquanto destinatária da promessa divina comunicada pelo profeta Natã (cf. 2 Sm 7), e constitui a origem do messianismo real. Balaão, em suma, deve profetizar o grande futuro de Israel, sinal concreto da fidelidade divina à promessa dada a Davi. “Uma estrela sai de Jacó, um cetro surge de Israel” (v.17). O cetro é, claramente, símbolo da realeza; a estrela, sem dúvida, deve-se vinculá-la a uma ideia difusa da antiguidade: a aparição de um novo astro significará o nascimento de um rei ou um grande acontecimento da história. Começa aqui, no Antigo Testamento, o motivo difundido no mundo judaico intertestamentário da estrela como símbolo do Messias, o “filho da estrela”.

Salmo 24/25 (Súplica no perigo) Neste Salmo contemplamos o anseio pela conversão. Sempre que nos colocamos sinceramente diante de Deus, percebemos que temos muitas características que ainda devem ser mudadas. Estamos, constantemente, em processo de conversão, em busca de uma vida nova. A tranquilidade da consciência de uma vida santa nos libera da angústia e do peso da tristeza. Diariamente temos um caminho novo, atitudes novas. Conversão é libertação e liberdade.

Senhor, há momentos em que o meu coração se recorda do passado, dos meus pecados e erros, e então, o peso da angústia aumenta e me faz sofrer. Purifica a minha mente, o meu coração e todo o meu ser, para que eu possa experimentar o teu perdão e a tua misericórdia, vivenciando a alegria de tê-los. Amém.

 

 

MEDITATIO: A promessa messiânica da primeira leitura nos convida a meditar na fidelidade de Deus, nas promessas e no poder do Senhor que desbarata qualquer poder que se oponha a seu projeto de libertação, uma vez que se trata de forças humanas ou sobre humanas. De fato, em Balaão obrigado a profetizar em favor de Israel, eu descubro o exemplo eficaz e alentador do irresistível triunfo do plano de Deus. A leitura do evangelho exige confrontar minhas oposições com as exigências, perguntando-me se não poderei reconhecer-me, às vezes, na atitude dos adversários de Jesus e se sua reação incrédula não será também o retrato de minha condição interior a não disponibilidade. Não sou, talvez, como os adversários de Jesus que rejeitam o convite a tomar uma decisão responsável frente a Deus? Serei como eles, se não formo, seriamente, um juízo pessoal de fé sobre as vicissitudes da vida, preferindo ficar em termos de conveniência e em outras considerações. O evangelho desmascara muitas de minhas preocupações humanas demais, ditadas, não pelo temor de Deus, mas pelo desejo de conservar o poder ou, simplesmente, para que se cumpram minhas apetências. Meus desejos, se não buscam a vontade do Senhor, têm a mesma consistência que os projetos de Balac e de Balaão, confundidos e desbaratados, por Deus, em um instante.

 

ORATIO: Como fizeste com Balaão, ó Pai, descerra o véu de nossos olhos, para que possamos admirar as maravilhas que fazes em meio de teu povo e para que se alegre nosso coração com e por teu povo que adquiriste e formaste em teu Filho. Como fizeste com Balaão, ó Pai, descerra o véu de nossos olhos, para que possamos acolher, na fé, a teu Filho que vem. Que seja Ele a estrela que nos guia no caminho e que nos cumula de gozo. Que sua luz dissipe as trevas de nosso coração, quando damos voltas a nossos cálculos e lógicas que ignoram tua soberania sobre nós. Que sua luz ponha em claro a qualidade de tantas de nossas preocupações, que se movem, não por teu santo temor, mas pelo desejo míope de conservar nossos ridículos tesouros e de que se executem nossos projetos. Agora, ó Pai, como fizeste, de antemão, com Balaão, obrigando-o a profetizar em favor de teu povo, ajuda-nos a recordar que só teus planos têm êxito e que nada se pode opor a teu querer soberano.

 

CONTEMPLATIO: O que acontece aos que, desde o cume de uma montanha alta, vêem abaixo um mar profundo e insondável, é o que me acontece quando baixo os olhos desde a altura da misteriosa frase do Senhor: ”Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. A promessa de Deus é tão grande que supera os últimos limites da felicidade. Existe outro bem que se possa desejar? O que vê a Deus tem obtido todos os bens, uma vida sem ocaso, a bem-aventurança imortal, um gozo perene, a verdadeira luz, uma paz espiritual e doce, uma perpétua alegria. Porém, acaso a pureza de coração não é uma dessas virtudes inalcançáveis porque supera nossa natureza? As coisas não são assim. Parece-me que Deus deseja mostrar-se, cara a cara, ao que tenha o olho da alma bem purificado. Se, portanto, removes as mazelas que tem encoberto teu coração, resplandecerá, em ti, a beleza divina. Este sublime espetáculo, em que consiste? Na santidade, na simplicidade e em todos os resplendores radiantes da natureza divina, pelos quais se vê a Deus. (Gregório de Nisa)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Feliz o que escuta a Palavra de Deus e conhece a ciência do Altíssimo” (Nm 24, 4.16)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL De verdade queres converter-te? Queres ser transformado? Ou manténs firmemente com uma mão os seus velhos hábitos, enquanto com a outra suplica às pessoas que te ajude a mudar? A conversão é algo que não podes dar-te a ti mesmo. Não é questão de força de vontade. Tens que confiar na voz interior que te mostra o caminho. Conheces essa voz. Tu a ouves com frequência. Mas depois de haver ouvido claramente o que se te pede que faças, começas a por obstáculos e a buscar a opinião dos outros. Dessa forma, te vês emaranhado em uma variedade incontável de opiniões, sentimentos e ideias contraditórias, e perdes o contato com Deus que está contigo. Assim terminas por depender das pessoas que buscastes para que estejam ao teu redor. Só com uma atenção constante à voz interior te converterás a uma nova vida livre e gozosa (H.J.M. Nouwen, La voz interior del amor).

 

 

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA,  – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Mateus 21,28-32 (Parábola dos dois filhos) Os chefes do povo, que no contexto anterior apareciam como malévolos interlocutores de Jesus, não têm intenção de lhe escutar. Jesus põe à luz sua incoerência e os provoca com a perspectiva de uma vantagem religiosa dos publicanos e prostitutas sobre eles. E o faz com a parábola dos dois filhos diferentes, que se esclarece, tendo, como fundo, a tradição veterotestamentária sobre a necessidade da “justiça”, aceita tanto pelo Batista como por Jesus, isto é, de uma fé que busca levar fielmente à prática a vontade de Deus no dia a dia. A parábola não exalta os pecadores e despreza os devotos, como pode parecer, baseando-nos em certas leituras tendenciosas, mas anuncia a extraordinária proximidade de Deus ao pecador, ao qual oferece sempre uma mudança de vida. Também aparece a denúncia da frequente incoerência de tantos crentes a exemplo do primeiro filho, cumpridores só de boca. A confrontação chamativa entre publicanos e prostitutas e os homens de religião (v.31-32) não é tanto uma condenação destes últimos por parte de Jesus, quanto um último chamado apressado à conversão.

Sf 3,1-2.9-13 (Contra os dirigentes das nações; Conversão dos povos; O humilde resto de Israel)              O começo deste fragmento litúrgico relata uma ameaça do Senhor contra os chefes da nação que buscavam seu próprio interesse, em vez de dedicar-se à fé do povo. Sem dúvida, depois do julgamento aparece a palavra de esperança, na qual, a purificação do povo e de Jerusalém olha para a promessa da alegria messiânica e a reunião dos dispersos (cf. Sf 3,14-20). O anúncio da purificação dos povos (v.9), que abandonam o culto a outras divindades e elevam a sua profissão de fé ao Senhor, manifestam a espera profética de uma profunda renovação da humanidade, por obra do Senhor. Esta renovação consiste na conversão do coração humano, que se traduz em acolher a lei divina, no culto ao Deus verdadeiro. É uma transformação antropológica que afeta, sobretudo o povo de Deus, no qual desaparece todo rastro de soberba, como síntese do pecado humano, de um orgulho que tende a ocupar o posto de Deus (v.11). O povo do tempo da salvação, ao qual se promete o descanso e a paz é um “resto” (v.13), quer dizer, um grupo politicamente frágil e culturalmente irrelevante e desprezado, que não pode, presumir de suas próprias forças, mas que experimenta, com gratidão, a fidelidade de Deus. Está constituído pelos “pobres do Senhor” (v.12), ou seja, os que têm Deus como único recurso de sua própria vida e confiam plenamente nele, traduzindo sua humilde confiança em uma obediente prática da vontade divina.

 

 

Salmo 33/34 (Louvor à justiça divina) – Deus é vida e amor, mas precisamos estar atentos, pois estamos cercados de situações que nos levam à morte: o mal, a violência, o ódio, as guerras. Além disso, vivemos um momento em que a vida está sendo destruída já no seu nascer, por meio do aborto. Há também uma morte que engana, pois não parece morte, mas igualmente pode matar: a injúria, o ódio, o rancor, a inimizade, a calúnia. Quem se decide a seguir o Senhor deve viver de acordo com a Palavra.

Senhor, que eu seja coerente no meu dia a dia, defenda a vida e participe de todos os atos e realizações que busquem resplandecer o amor e a justiça. A pedagogia do seu amor nunca se altera: os ricos que não partilham passarão fome e os pobres que te amam sempre serão saciados do teu amor e da tua paz. Amém.

 

 

MEDITATIO: A parábola dos dois filhos é um severo alerta a mim, se, como o primeiro filho, afirmativamente respondo, mas não vou. Devo hoje pôr à luz minhas incoerências e a obediência meramente formal, quando anteponho às exigências do Evangelho meu pequeno “eu”. O risco não é só o não cumprimento, mas também o reduzir minha justiça moral e religiosa a uma imagem de fachada, enquanto meu coração esquece a amorosa inquietude da busca sincera da vontade de Deus. É, portanto importante à contemplação do paradoxo estilo de nosso Deus, que chama à conversão, inclusive, aos mais distantes, e derrama suas bênçãos aos pobres, aos que só confiam nele sem poder presumir de si mesmos, nem de seus méritos. A parábola evangélica dos filhos diferentes me interpela sobre a suma importância da humildade como qualidade necessária da fé que dá acesso ao reino de Deus. E, de outra parte, esta dura palavra evangélica me enche, também, o coração, de gratidão, recordando-me que Deus ama os que não se apóiam em seus próprios méritos, mas que, confiando só em sua misericórdia e sua fidelidade, estão dispostos a mudar, realmente, de vida.

ORATIO: Tua palavra hoje nos provoca e consola. Provoca-nos porque, quando nos convidas a trabalhar em tua vinha, como o filho maior da parábola, com frequência, respondemos: ”Sim”; mas não vamos. Estamos ocupados demais e preocupados com nosso “eu” para estar, deveras, disponíveis a buscar, sinceramente, tua vontade. Socorre-nos com teu Espírito, para que possamos velar sobre nós mesmos, a fim de que nossa adesão a tua vontade não se reduza a palavras vazias. Mas, além de provocar-nos, tua Palavra nos consola, pois nos recorda que, inclusive àquele que esteja mais aferrado ao mal queres lhe dirigir uma palavra de salvação, dando a oportunidade de arrepender-se, mudar de vida, romper com a obstinação do coração. Com humildade e confiança, recorremos a ti, Deus que ama aos que não confiam em seus próprios méritos, e confiamos somente em tua misericórdia e fidelidade.

CONTEMPLATIO: Ó povo, ó terra inteira, gritemos ao Senhor e Ele ouvirá nossa oração, pois o Senhor se alegra com o arrependimento e a conversão dos homens. Todas as potências celestes esperam que também gozemos da suavidade de Deus e contemplemos a beleza de seu rosto. Quando os homens conservam o santo temor de Deus, a vida na terra é serena e doce. Agora, sem dúvida, os homens começaram a viver segundo sua própria vontade e razão, abandonaram os santos mandamentos e esperam encontrar felicidade sem o Senhor, não sabendo que só Ele é nossa real alegria e só nele o homem encontra felicidade. Ele reanima a alma como o sol reaviva as flores do campo e, como o vento, sopra infundindo-lhe vida. Senhor, dirige teu povo a Ti, para que conheça teu amor e todos vejam, no Espírito Santo, a mansidão de teu rosto: que todos gozem aqui na terra da visão de teu rosto e, vendo-te, se assemelhem a Ti. Glória ao Senhor, pois nos tem concedido arrependimento e por meio deste todos seremos salvos, sem exceção (Archimandrita Sofronio).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Eu deixarei em meio de ti um povo pobre e humilde” (Sf 3,12)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O povo messiânico, ainda que não inclua todos e, com certeza, seja uma grei pequena é, sem dúvida, para toda a humanidade, um germe seguríssimo de unidade, esperança e salvação. Jesus, que o instituiu para ser comunhão de vida, caridade e verdade, serve-se também dele como instrumento de redenção universal e o envia a todo o universo como luz do mundo e sal da terra (cf Mt 5,13-16). Assim como o povo de Israel, segundo a carne, peregrinando no deserto, já se lhe designa como Igreja (2 Esd 13,1; Nm 20,4; Dt 23,1ss), assim o novo Israel que, caminhando no tempo presente, busca a cidade futura e perene (cf Hb 13,14), também é designado como Igreja de Cristo (cf Mt 16,18), pois Ele a adquiriu com seu sangue (cf At 20,28), a encheu de seu Espírito e dotou dos meios apropriados de união visível e social. Deus formou uma congregação de quem, crendo, vê em Jesus o autor da salvação e princípio da unidade e da paz, e a constituiu Igreja a fim de que fosse para todos, e cada um, o sacramento visível desta unidade salutífera. Devendo difundir-se em todo o mundo, entra, pois, na história da humanidade, transcendendo os tempos e fronteiras dos povos. Caminhando, pois, a Igreja, em meio das tentações e tribulações, se vê confortada com o poder da graça de Deus, que lhe foi prometida, para que não desfaleça da fidelidade perfeita, pela debilidade da carne, antes, ao invés, persevere como esposa digna de seu Senhor, e sob a ação do Espírito não cesse de renovar-se até que pela cruz chegue à luz que não conhece ocaso (LG,9).

 

 

 

QUARTA-FEIRA,  – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Lucas 7,19-23 (Pergunta de Batista e testemunho que lhe presta Jesus) Lucas, apresentando-nos Batista, nos mostra a fi­gura de um crente que optou viver por Deus em cada instante. Ele tem se unido sempre a seu Deus, o tem sentido incrivelmente próximo e creu reconhecê-lo em um misterioso homem da Galileia, vindo batizar-se, por ele, no Jordão: Jesus de Nazaré (cf 3,16-17). Porém, em sua solidão e escuridão da prisão herodiana, um enorme temor lhe enche de tristeza: Acaso se equi­vocou a respeito ao que assinalou como sendo o cordeiro de Deus? Apesar de tudo, a fé de João é maior que sua duvida. Assim, em vez de pôr em julgamento sua espera, manda uma embaixada a Jesus, pedindo luz e ajuda para compreen­der. João se reduz mais ao essencial, se faz mais pobre que pode, perguntando simplesmente: «És tu o que há de vir, ou temos que esperar outro?» (v.19). E Jesus responde a pergunta de João, indicando o que faz ante os olhos dos enviados por ele (v.21). Porém não são simplesmente os milagres que res­pondem em seu favor, remetendo-se aos textos bíblicos do Antigo Testamento, mas também o fato de que, em suas obras, se descobrem os sinais do começo de uma humanidade nova, que sabe acolher a Palavra de Deus, ver suas maravilhas e caminhar por suas trilhas: «Os cegos vêem, os coxos andam… os surdos ouvem…» (v.22ab). Porém, sobretudo responde o profeta encarcerado: “aos pobres se lhes anuncia a boa noticia» (v.22c). Um pobre como o prisioneiro João compreenderá e não se escandalizará ante o estilo paradoxo do atuar de Deus, em Jesus; antes, será, realmente, “feliz” (v.23).

 

 

Is 45,6b-8.18.21 b-25 (Ciro, instrumento de Deus; Deus, Senhor de todo universo) As palavras do profeta dirigidas a Ciro são um hino a Deus que, através de seu Ungido, executa a sal­vação (cf Is 45,1). Afirma-se, decididamente, que só o Deus de Israel é o Senhor, porque faz tudo (luz e trevas; salvação e desgraça) e é o criador, quer dizer, sua ação é a origem do tudo “radicalmente novo”, desde o primeiro ao último dia. Em todo o texto aparece uma expressão singular: «Eu sou Yahweh» (cf.vv.5.6.14.18.22), que é um modo de afirmar a unicidade de Deus, seu poder e seu senhorio absoluto sobre a historia do homem. Seu poder se manifesta na criação do mundo, rea­lidade vazia e sem sentido, porém, com o fim positivo e altíssi­mo de ser morada da humanidade (v.18). Mas o cume de seu senhorio se manifesta mais em seu querer e poder salvar a humanidade (vv.21-22) e em suscitar na busca sincera da justiça e do bem (v. 8). Assim se revela como «Deus justo» (v.21), quer dizer, capaz de ins­taurar uma relação de comunhão e aliança e, portanto, é «Deus salvador». Sobre todas as coisas, mundo e humanidade, Deus do­mina soberano e nada pode opor-se a sua vontade: o atuar divino em favor dos fieis, ainda que sendo miste­rioso e imprevisível, está patente aos olhos de todos e manifesta sua incomparabilidade e unicidade. Este é o Deus que Israel, como povo de Deus, deve dar a conhecer aos demais povos.

 

Sl 84/85 (Oração pela paz e pela justiça) Este Salmo é um hino de louvor que brota do coração de um povo que se vê livre da opressão e do sofrimento. Atualmente, acreditamos mais na ciência e na medicina que no poder de Deus. No entanto, esquecemo-nos que foi o Senhor que criou a medicina, assim como os médicos que operam e aos quais recorremos com frequência. A ciência não é onipotente, por isso, com o auxílio da medicina, devemos confiar no Senhor. Deus não é inimigo da ciência; ambos caminham juntos, porém só Ele é a fonte única de todo saber. Do mesmo modo devem caminhar a verdade e a justiça: uma deve caminhar ao lado da outra. A verdade não existe sem que a procuremos com amor e insistência, e Deus se revela aos que incansavelmente o procuram. Mesmo em situações difíceis, na dor, no sofrimento e perante a justiça, é preciso esperar que as sementes da verdade brotem nos nossos desertos áridos e sem vida. Todo desejo de verdade e de amor encontra a sua resposta plena e total na pessoa de Cristo.

Senhor, quero assumir hoje o compromisso de buscar sempre a verdade, que está escondida em Cristo e que passa sempre através da cruz, da morte e resplandece na ressurreição. A verdade veio habitar entre nós, fez sua morada entre nós, mas nossos olhos não a souberam reconhecer e nossa inteligência se fecha à luz e ao amor. Vivemos, Senhor, num tempo de espera paciente em que a verdade, a misericórdia e a justiça devem florescer na humanidade sedenta de amor, mas que, em razão de tantos falsos profetas, percorrem caminhos obscuros que levam à morte e não à vida. Ajuda-me, Senhor, a recusar corajosamente toda cultura da morte, seja qual for: morte física, espiritual ou intelectual. Que eu busque somente defender a vida. A Virgem Maria nos ensina a abrir-nos à verdade e dizer no nosso dia a dia o sim que motiva continuamente a presença de Cristo Jesus entre nós. Somos luz no Senhor… “Outrora éreis trevas, mas agora sóis luz no Senhor. Procedei como filhos da luz. E o fruto da luz é toda espécie de bondade e de justiça e de verdade” (Ef 5,8-9).

 

MEDITATIO: A palavra evangélica me apresenta, hoje, o Batista, como testemunho de Cristo, com sua vida. Em João se me apre­senta a figura do verdadeiro pobre declarado feliz por Jesus, o crente que caminha na paciência e sabe corrigir as próprias apreciações da espera segundo o estilo imprevisível do vir de Deus.        Por esta razão, pode aprofundar em sua própria esperança até o testemu­nho supremo. Da figura evangélica do Batista, também aprendo que a fé mais forte e sincera pode coexistir com a duvida e que, só há um modo para vencer esta duvida, que atormenta o coração. João me recorda que só posso su­perar a prova com a oração: renunciando a pôr em juízo a promessa de Deus e revisando meus limita­dos modos de compreender a promessa divina e de espe­rar seu cumprimento, ai é onde encontro a paz. A essa fé que invoca, Deus responderá ofertando-me um novo modo de ver as coisas, que me permite contemplar os sinais de seu amor em minha vida e os sinais dessa humanidade nova que segue criando ainda hoje. Des­cubro, assim, a verdade da palavra do profeta Isaias, se­gundo o qual, mais além dos aparentes desmentidos da historia, o Senhor pode e quer salvar a seu povo, ainda quando sua atuação não deixa de ser, em grande parte, mis­teriosa e refrataria a toda comparação com as soluções humanas para tais problemas.

 

ORATIO: “Céus, destilai o orvalho; nuvens, chovei a libertação; abrase a terra e brote a salvação”. Com o profeta Isaias te invocamos, nestes dias que preparam o nascimento de teu Filho, nos quais o céu e a terra se encontram e tua divindade se une a nossa humanidade para realizar o admirável intercambio: Deus se faz filho do homem, para fazer os homens seus filhos. Esta certeza de fé não impede que brotem, em meu coração, duvidas e temores. Às vezes chego a pensar que minha vida é um caminho infinito, sem final. O único que me resta é ser eu mesmo e dirigir-te, Senhor, com todo meu ser, uma prece, pois só em ti está a vitória e o poder. Como João, dirijo-me a ti, para que tua luz me ajude a contemplar os sinais da nova humanidade que estás criando, já, agora, em nosso mundo.

 

CONTEMPLATIO: Deus e Senhor meu: atende ao meu coração e tua misericórdia escute meu desejo, porque, não só me abrasa em ordem a mim, mas também, em ordem a servir à caridade fraterna; e que assim é, o vês tu em meu coração. Dá-me o que devo oferecer pois sou um mendigo necessitado, tu és “rico com os que te invocam”. Tu, livre de toda necessidade e que, seguro, cuidas de nós. Senhor, Deus meu, luz dos cegos e fortaleza dos fracos e, também, luz dos que vêem e fortaleza dos fortes, atende a minha alma. Porque, se não estivessem lá no profundo teus ouvidos, aonde iríamos, aonde clamaríamos? E se clamo à porta, não feches. Apaga meu amor, porque já amo e isto é dom teu. Não abandones teus dons nem desprezes a tua erva sedenta. Conjuro-te, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do qual viestes em minha procura; eu que não te buscava, buscaste-me para que te buscasse (Santo Agostinho, confissões, XI,2).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Voltai-vos a mim e vos salvareis” (Is 45,22)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: No tempo do Advento deve movermos uma pergunta, a pergunta sobre o que deve vir. Que significa esta pergunta? O que se entende por “o que há de vir”? nos tempos de João Batista e de Jesus em todos de Deus, o senhorio de justiça e salvação. Esta esperança nasceu das palavras dos profetas antigos profetas, os corações do povo hebreu estava muito viva a pergunta sobre o que devia vir e a esperança nele. Trata-se da esperança do Messias, o Rei do feliz final dos tempos, que vira a por fim a toda miséria e a injustiça na terra e inaugurar o senhorio cuidadosamente recolhidos na Escritura, e havia penetrado nos corações ansiosos. De tal esperança nasce, por sua vez a pergunta: Quando virá o esperado? Quem será? “Guarda, o que resta da noite?” (Is 21,11) Com base nessa esperança se faz a Jesus a pergunta: És tu aquele que há de vir? A pergunta brota de tal esperança e só a podemos perguntar se essa esperança segue viva em nós. Não faz essa pergunta os que estão satisfeitos com o  mundo como ele é. Seja por que para estes o mundo constitui  o lugar para desfrutar a vida, sem fazer caso das sombra que o invadem, atendo-se só à luz, despreocupando a    mente de tudo e acolhendo a alegria que chega dia a dia. Seja que para esses o mundo constitua o lugar da luta e da fadiga, em que o homem, os homens creiam em comunidade suas obras, as quais recompensa pela dedicação e o sacrifício que custam e tornam a vida aceitável. (R. Bultmann, Prediche di Marburg, Brescia)

 

 

 

QUINTA-FEIRA, – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Mateus 1,1-17 (Ascendência de Jesus) – Mateus começa seu evangelho com o «livro das gerações de Jesus» (literalmente), e narra às origens humanas do segundo Adão. Começam com Abraão e concluem com «José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo» (v.16). O evangelista ao apresentar-nos uma síntese da história da salvação, cuja meta é a figura de Jesus-Messias, divide a história em três grandes períodos: Abraão, Davi e o exílio. Apesar da monotonia do texto e o caráter artificial e rígido dos nomes que se sucedem o texto apresenta um valor teológico relevante, oferecendo-nos a genealogia do que será protagonista do evangelho. Afirma-se, confirmando as promessas proféticas (cf. Gn 12,3; 2 Sm 7,1-17), que Jesus descende de Abraão, de Davi e, por conseguinte, possui as bênçãos e a glória dos antepassados. Além do mais, visto que suas raízes se fundem na história humana e no povo hebreu, goza das condições necessárias para ser o Messias esperado pelas nações, que anuncia e inaugura o reino de Deus. Este reino possui, sobretudo, a universalidade da salvação na pessoa de Cristo, que Mateus quer ressaltar com a presença de quatro mulheres estrangeiras e pecadoras: Tamar, Raab, Rut e Betsabé. O Messias, de fato, ao vir aos homens, não duvidou em assumir a fragilidade humana, coberta de obscuridade, para revesti-la de sua luz imortal. A salvação brinda não só aos justos, também aos pecadores.

 

 

Gn 49,1-2.8-10 (Bênçãos de Jacó) – No poema de Gn 49 se descreve a despedida de Jacó moribundo rodeado de seus entes queridos. As palavras que o patriarca dirige aos seus doze filhos se consideram sagradas e proféticas, e falam do futuro de seus filhos e seus descendentes. Os vv.8-10 se dirigem a Judá em particular, pai da tribo homônima, da qual nasceria o Messias. A profecia, que se remonta ao tempo de Isaías (séculos VIII-VII), é misteriosa, exalta a superioridade de Judá sobre seus irmãos por sua força real, similar à de um leão. É pelo «cetro» e o (“bastão de comando» (v.10a) que exercerá sobre as tribos de Israel e sobre todos seus inimigos. O texto alude à monarquia davídica, na qual reside o cetro do Ungido do Senhor, que levará a salvação ansiada e o verdadeiro rei anunciado, a quem pertencem o poder e o reino, domínio sobre todos os povos. Este rei ideal e definitivo aparecerá na figura do Messias, do qual disse o livro do Apocalipse: (“Venceu o leão da tribo de Judá»; Ap 5,5). Ele é o único possuidor do cetro de Deus, cujo reino não é de domínio e poder, mas de serviço e amor para com todos os povos, que lhe renderão filial obediência.

Sl 71/72 (O rei prometido) Muitas vezes a tarefa de rezar este Salmo se faz árdua, pois seu conteúdo nos parece um pouco deslocado e fora do contexto que vivemos atualmente, como se nada dissesse a nosso respeito.  É preciso que aprofundemos em sua leitura para percebermos que ele é muito atual. Há um grande esforço para que a separação entre Estado e Igreja seja maior. Busca-se uma total segregação entre o poder político e os ensinamentos do Senhor, representados pela Igreja. Esta visão não pode ser benéfica; é preciso que todas as autoridades caminhem juntas, de mãos dadas, esforçando-se para cooperar e estar a serviço do povo. A Palavra de Deus deve iluminar as normas seguidas pelos governantes e não deve existir dicotomia entre as normas da Igreja e as do governo. Paralelamente a tudo isso, é necessário que exista uma certa liberdade para que a Igreja continue a ser profética e não se deixe corromper. Na Bíblia, os poderes civis e religiosos caminham juntos e próximos ao profeta, que anuncia e denuncia os maus tratos pelo povo.

Senhor, à luz desse Salmo, peço-te por todos os que têm autoridade para que sejam humildes e tenham a plena consciência de que o poder lhes foi dado pelo povo, pela Igreja; que os nossos governantes saibam dirigir com amor o povo e não se servir dele para ganhar dinheiro ou autoprojetar-se, esquecendo-se de sua missão. Senhor, peço-te também por todos que devem ser guardiães dos bens e das normas, para que o mal não afaste a humanidade da tua Palavra, do teu amor e da tua justiça. Senhor, quero também te pedir pelo Papa, pelos bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, por todos que têm uma missão profética, para que nunca se calem diante do mal, saibam gritar e denunciar todas as formas de opressão. Amém.

 

 

MEDITAÇÃO: Hoje iniciamos os últimos dias de preparação para o Natal. A liturgia faz uma pergunta: Como estamos nos preparando para acolher o que vem a nós? Jesus é o Messias, o verdadeiro descendente de Judá, herdeiro das promessas que Deus fez a Abraão, renovado a Davi e a todos os seus descendentes. Em realidade a figura de Judá é o elo que une a primeira leitura do Gênesis e o evangelho de Mateus. Cristo, o segundo Adão, entrou em nossa vida humana, marcada pelo pecado, dor e morte, pela desobediência de nossos primeiros pais, não para castigar a humanidade, mas para transformá-la e reconduzi-la à amizade com Deus, tal como era seu projeto original. Toda a história de Israel é o testemunho do anúncio da vinda de um redentor, esperado pelos homens como cumprimento da promessa: toda a lei está prenhe de Cristo. Em Jesus, Deus se fez homem, o sonho se faz realidade. O Deus conosco se fez o Deus por nós, apesar de nossa infidelidade e lentidão em acolher-lhe. Fazemos parte desta história que nos vincula estreitamente a Abraão e Davi, fio de ouro que, com frequência, temos quebrado com nosso pecado e que Deus renova em Jesus, aproximando-nos cada vez mais a seu coração. Ele, conhecedor da fragilidade do espírito humano, sabe compreender e perdoar sempre nossa debilidade, espera a conversão contínua do coração e o reconhecimento daquele a quem pertence toda realeza e a quem todos os povos devem acatamento, fidelidade e amor.

 

ORAÇÃO: Ó Senhor, tu que és o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus de Jesus Cristo e nosso Deus, tu prometestes a Judá um reino sem ocaso e uma realeza sobre todos os povos. Faz que reconheçamos sinceramente que toda a história humana, através do povo eleito, e logo pela Igreja, herdeira das bênçãos de Israel, esteja orientada a Cristo, o esperado dos povos, e faz que cada um de nós seja instrumento apto para anunciá-lo aos irmãos e irmãs que encontremos na vida. Faz que os homens, de qualquer raça e cor, saibam superar divisões e diversidades para unirmos numa renovada esperança na vinda do Salvador e com a confiança de que sua mensagem de salvação e de vida é válida para todos, sem distinção. Que nossos pecados, que tantas vezes experimentamos não nos afastem de ti, que és a luz que ilumina nosso caminho; faz-nos mais conscientes de nossas limitações e abertos a uma sincera conversão de coração. Senhor da história e dos povos, tu que compreendes nossa miséria, enche-nos de teu poder e faz com que vivamos vigilantes para reconhecer os sinais dos tempos e teu caminhar silencioso através das vicissitudes cotidianas de nossa história. Porém, sobretudo faz que reconheçamos a teu Filho Jesus, descendente de uma estirpe humana, o Messias esperado, ao qual pertencem o poder e a glória e, ao qual, todos os povos obedecerão com amor.

 

CONTEMPLAÇÃO: Hoje no evangelho se lê: «Livro da genealogia de Jesus Cristo». Nestas genealogias, nasce, todavia em nós, segundo o espírito, a Sabedoria. Se desejas, pois, que Cristo nasça em ti, tem em ti e enche-te das genealogias da Sabedoria, isto é, de Cristo. Tem em ti a Abraão, Isaac e os demais mencionados na genealogia de Cristo. Abraão foi perfeito na fé, Isaac foi o filho da promessa, Jacó viu cara a cara ao Senhor. Tende, portanto em vós uma fé perfeita e tereis espiritualmente a Abraão. Esperai nas promessas dos bens futuros, desprezai os prazeres dos bens presentes, e tereis a Isaac. Apressai-vos quanto possais à visão de Deus e tereis a Jacó. Do mesmo modo, se sois fervorosos de espírito, tereis a Abraão, se permaneceis gozosos na esperança, tereis a Isaac, se aguentais pacientes na tribulação, tereis a Jacó. Deste modo, se temos espiritualmente todos estes pais, dos quais hoje fala o evangelho, então se cumprirá o que disse a Escritura: “Sereis cumulados de minhas gerações» (Elredo De Rieval, Sermones inéditos; XXII, 16-18, Roma 1952).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Ó Sabedoria, vem ensinar-nos o caminho da vida» (da liturgia)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Os longos e prodigiosos séculos que precedem ao primeiro nascimento não estão vazios de Cristo, mas penetrados por seu potente influxo. É a agitação de sua concepção a que move as massas cósmicas e dirige as primeiras correntes biosféricas. A preparação de seu nascimento é a que acelera o progresso do instinto e faz que o pensamento desemboque na terra. Não nos escandalizemos ingenuamente da interminável espera que nos tem imposto o Messias. Buscar-se-ia nada menos que as espantosas e anônimas fatigas do homem primitivo, a durável beleza egípcia, a espera inquieta de Israel, o perfume destilado do misticismo oriental, a sabedoria cem vezes refinada dos gregos, para que do tronco de Jessé e da humanidade germinasse um rebento e pudesse abrir-se a Flor. Todas estas preparações eram cosmicamente, biologicamente necessárias para que Cristo entrasse na cena humana. E toda esta agitação se movia pelo desvelo ativo e criador de sua alma visto que esta alma era eleita para animar o Universo. Quando Cristo aparece nos braços de Maria, nele se elevava todo o mundo. Não, eu não me escandalizo destas esperas intermináveis e destes longos preparativos. Todavia o contemplo no coração dos homens de hoje, que, de luz em luz, caminham lentamente para aquele que é a luz. Caminham para esta Palavra que tem sido pronunciada, porém não escutada, algo assim como o esplendor das estrelas que empregam tantos anos para chegar a nossos olhos (P. Teilhard de Chardin, El médio divino, Madrid).

SEXTA-FEIRA, – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Mateus 1,18-24 (José assume a paternidade legal de Jesus) O evangelista Mateus nos descreve o anúncio do nasci­mento de Jesus, pelo anjo do Senhor, a José, filho de Davi. Maria, prometida a José, encontra-se grávida por obra do Espírito. Enquanto José pensa abandoná-la em segredo, respeitando, com veneração silenciosa, um fato misterioso, o anjo lhe revela, em sonhos, o plano de Deus: Maria dará a luz ao Salvador esperado. José, que é «justo» (v.19), acolhe, com fé e simplicidade, o desígnio de Deus, leva consigo Maria, reconhece legalmente o filho, transmite-lhe todos os direitos como descen­dente davídico e, impondo a Jesus o nome que qua­lifica sua missão, cumpre a vontade divina. Mesmo que não por linha de sangue, Jesus é descendente de Davi, como indica Mateus, citando Is 7,14: «A Virgem conceberá e dará a luz um filho, e lhe porão por nome Emanuel» (v.23). Deus, para realizar seu desígnio de amor e salvação se serve de homens que veneram sua vontade, com frequên­cia, misteriosa. José é um destes que, com fé e humil­de obediência, vive uma vida escondida, mas colabora com Deus para levar adiante a história de salvação. No filho de Maria e José a ponto de nascer, Deus se ma­nifesta como o Emanuel, quer dizer «Deus conosco»

                            

Jr 23,5-8 (Oráculos messiânicos. O rei do futuro)Jeremias é um dos textos bíblicos mais dramáticos, que compreende, também, os momentos mais trá­gicos da história de Israel. Sem dúvida, o profeta neste texto nos apresenta uma profecia carregada de esperança e recolhe dois oráculos: o primeiro é o anúncio de um rei sábio, descendente de Davi, que, como «descendente legítimo», guiará os seus, como verdadeiro pastor (vv.5-6);             o segundo é a declaração do fim do exílio e da dispersão do povo, que voltará a «habi­tar em sua própria terra»   (vv.7-8). A profecia nos põe ante uma intervenção de Deus que, mantendo a promessa feita a Davi (cf. 2 Sm 7,12-16), reagrupa o povo e o guia um verdadeiro rei (cf.Is 11,1-9;Zc 3,8), construindo um reino de paz e justiça; por isto terá o nome «Senhor-nossa-justiça» (v.6). As características deste sucessor de Davi se atribuem ao Messias, que governará o povo com «o direito» de sua Palavra e «a justiça» de seu amor misericordioso (v.5). E quanto ao anúncio da libertação do exílio e o voltar a terra, descreve-se como um novo êxodo, pre­figurando a verdadeira libertação messiânico-escatológica executada pelo Messias que conduzirá a todo des­terrado para introduzir-lhe na terra da paz sabática.

 

Sl 71/72 (O rei prometido) Muitas vezes a tarefa de rezar este Salmo se faz árdua, pois seu conteúdo nos parece um pouco deslocado e fora do contexto que vivemos atualmente, como se nada dissesse a nosso respeito.  É preciso que aprofundemos em sua leitura para percebermos que ele é muito atual. Há um grande esforço para que a separação entre Estado e Igreja seja maior. Busca-se uma total segregação entre o poder político e os ensinamentos do Senhor, representados pela Igreja. Esta visão não pode ser benéfica; é preciso que todas as autoridades caminhem juntas, de mãos dadas, esforçando-se para cooperar e estar a serviço do povo. A Palavra de Deus deve iluminar as normas seguidas pelos governantes e não deve existir dicotomia entre as normas da Igreja e as do governo. Paralelamente a tudo isso, é necessário que exista uma certa liberdade para que a Igreja continue a ser profética e não se deixe corromper. Na Bíblia, os poderes civis e religiosos caminham juntos e próximos ao profeta, que anuncia e denuncia os maus tratos pelo povo.

Senhor, à luz desse Salmo, peço-te por todos os que têm autoridade para que sejam humildes e tenham a plena consciência de que o poder lhes foi dado pelo povo, pela Igreja; que os nossos governantes saibam dirigir com amor o povo e não se servir dele para ganhar dinheiro ou autoprojetar-se, esquecendo-se de sua missão. Senhor, peço-te também por todos que devem ser guardiães dos bens e das normas, para que o mal não afaste a humanidade da tua Palavra, do teu amor e da tua justiça. Senhor, quero também te pedir pelo Papa, pelos bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, por todos que têm uma missão profética, para que nunca se calem diante do mal, saibam gritar e denunciar todas as formas de opressão. Amém.

 

 

MEDITATIO: A união existente entre o texto de Jeremias e o evangelho de Mateus aparece no «rebento legítimo» que floresce do tronco de Davi e «reinará como rei pruden­te» (Jr 23,5). Este rei misterioso, que nasce por obra do Espírito, é o Messias que «salvará seu povo dos pe­cados» (Mt 1,21). Porém, Deus se serve de José, homem simples e de profunda fé, para levar adiante sua história de salvação centrada em Jesus. José não põe obstáculo ao desígnio divino, entra no mistério sem compreender a fundo, confia em seu criador e colabora com docilidade e confiança. O homem justo é o homem da Palavra de Deus, que não se defende, nem fica em teorias, mas que lê os acontecimentos de sua vida e os compreende, na medida em que interioriza a Palavra e a vive em seu dia a dia. Sem dúvida, se dá uma condição prévia para entrar em diálogo com Deus: estar disposto a obedecer-lhe sem demora, pois o que se põe em atitude de escuta devotada e prontidão é «utilizado» pelo Senhor para levar adiante seus planos em favor dos homens, como Ma­ria e José os verdadeiros pobres, que têm a Deus por rei. A realeza de Cristo se revela aos que têm um coração de pobre como os anawim de Israel e de to­dos os tempos. Como crentes estamos chamados à escola destes justos que, como José, eles creem plena­mente, no amor de Deus e hão experimentado seu dom.

 

ORATIO: Ó Jesus, filho de Davi, tu que escolheste o ca­minho da encarnação para salvar-nos, aparecendo entre os homens como todos nós, por meio de uma mãe, a virgem Maria, e cresceste sob o olhar vi­gilante de José, homem justo, ajuda teu povo para que reconheça em tua vinda o gozoso anúncio da sal­vação e vida nova. Tu que és o «rebento justo», que floresce no coração de todo homem, faz que teu reino de justiça e paz, com a riqueza de seus valores humanos, se estenda como luz a todos os povos. Quiseste ter a teu lado a figura simples e trabalhadora de José para fazer-nos compreender que, além dos vínculos de sangue, aprecias qualquer paternidade, como reflexo da verdadeira paternidade de teu Pai que está nos céus. Tam­bém     ensina-nos que o homem humilde e rico de fé, disponível à vontade de Deus, sempre é agradável aos teus olhos e por isso lhe fazes colaborador de teu desígnio de amor. Pedimos-te que, também nós estejamos  dispos­tos, como José, a dar nosso sincero e gozoso assenti­mento ao que nos peças, ainda que através dos caminhos misteriosos de teu amor. Mas, sobretudo desejamos que tu sejas sempre nosso Emanuel, o “Deus conosco”, para saber levar-te no coração com o mesmo amor que José, teu pai adotivo, de modo que estejamos disponíveis a servir-te em todos nossos irmãos, especialmente nos pobres e necessitados, porque estás com eles.­

 

CONTEMPLATIO: Não cabe conceber maior alegria, que nosso Senhor Jesus Cristo, que Ele, que é o Altíssimo, o Onipotente, nobre por excelência e digno de toda ho­nra; seja também o que mais se humilhe e mais se abaixe; seja o mais carinhoso e o mais atento; e, em realidade, esta alegria maravilhosa será concedida, a todos, senti-la, quan­do nos seja outorgado poder contemplar-lhe. E isto quer nosso Senhor: que andemos buscando, cheios de confiança nele, mediante sua graça e ajuda, que esta busca nos alegre e nos compraza, o quanto nos seja concedido, enquanto esperamos o tempo em que veremos sua realização. Porque a plenitude da ale­gria que nos espera no céu consistirá, segundo penso, na admirável consideração e carinho de nosso Pai celestial, nosso Criador, em nosso Senhor Jesus Cristo, nosso irmão e nosso salvador. Nossa vida se baseia na fé, junto com a esperança e a caridade. A manifestação feita àquele a quem Deus dispõe ensina completamente o mesmo, de modo manifesto e assegurado, além de outros “pontos” especiais pertencentes à fé, cujo conhecimento é digno da maior veneração (J. de Norwich, Revelações do amor de Deus, Barcelona).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:“Senhor, vem livrar-nos com teu poder” (da liturgia)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Frente ao mistério divino, José soube manter o tom justo. Não se deixou levar por sentimentos humanos. Não pode entender o que percebe em Maria e não quer penetrar o mistério. Mas se retira a parte, com tímida e respeitosa veneração, abandonando-se à vontade de Deus e deixando em suas mãos todo o mais. Porém enquanto compreende qual é a vontade divina, não divida um instante nem opõe dificuldades, em seguida leva à prática o que o anjo lhe havia mandado. Só ele, totalmente disposto a obedecer ao Senhor, poderá escuta sua Palavra e colaborar em sua obra, porque só sabe obedecer quem sabe escutar. E José obedece à Palavra a põe em prática, declarando-se com suas obras dócil instrumento nas mãos do Altíssimo. José não quer nada para si, só pretende estar simplesmente à disposição de Deus. Toma consigo Maria, sua esposa, porém não para possuí-la como esposa, mas para cumprir a vontade de Deus, para que ela possa dar a luz a seu Filho. Porém será ele, José, também por obediência, quem porá o nome ao filho. Esse nome em torno ao qual gira o universo e por cuja vontade tudo foi criado: Jesus, o Messias. O Antigo e o Novo Testamento, as palavras dos profetas e as de Deus, o nome e seu significado, o divino e o humano confluem naquele que une tudo e a todos: Jesus, o Messias Salvador (R. Grotzwiller).

 

 

 

 

SÁBADO,  – 3ª SEMANA DO ADVENTO – ANO C

Lucas 1,5-25 (Anúncio do nascimento de João Batista) – O anúncio do nascimento de João Batista que nos oferece o evangelista Lucas é rico em detalhes significativos, a nível teológico, e aparecem muitas ligações com cenas semelhantes do Antigo Testamento, onde se narra o nascimento de personagens que ocupam um posto importante no desígnio do Senhor: aparição do anjo do Senhor, perturbação e temor da pessoa visitada; comunicação da mensagem celeste e sinal de reconhecimento (cf. Jz 13,2-7.24-25; 1 Sm 1,4-23). A presente narração da visão de Zacarias, com o anúncio prodigioso do nascimento do filho, está construído em contraste simétrico com o anúncio do nascimento de Jesus que o anjo Gabriel fará a Maria. Enquanto no anúncio de João, temos a aparição do anjo no marco grandioso do templo de Jerusalém, no de Jesus ocorre na simples casa de Nazaré; enquanto no anúncio de João aparece a incredulidade de Zacarias, no de Jesus destaca-se a fé de Maria; enquanto o nascimento do Precursor é de uma mulher casada, porém estéril, o nascimento do Messias é de uma Virgem; enquanto Batista se enche do Espírito já no ventre de sua mãe e muitos se alegrarão de seu nascimento, Jesus será concebido por obra do Espírito e nem todos se alegrarão de seu nascimento; enquanto Zacarias, como sinal de sua incredulidade, ficará mudo, Maria, ao contrário, escutará o anúncio gozoso da boca de sua parenta Isabel. Ao chegar à plenitude dos tempos da salvação só resta espaço para a fé simples e a acolhida da Palavra de Deus.

                                    

Jz 13,2-7.24-25a (Anúncio do nascimento de Sansão) – O episódio do anúncio do nascimento de Sansão se ajusta ao gênero literário clássico das anunciações bíblicas que celebra a origem dos grandes personagens da história (cf.Gn 11,30;18,10-11;1 Sm 5,20). O modelo tem os caracteres essenciais seguintes, que sempre se repetem:          a eleição divina recai em pessoas humildes de coração e “débeis”, como no caso da esterilidade da mãe de Sansão e a idade avançada do pai; o menino anunciado, como dom de Deus, desempenhará uma missão salvadora em favor do povo (v.5); as condições exigidas ao eleito por parte de Deus são a plena colaboração com ele na gozosa simplicidade e total fidelidade ao seu projeto amoroso: «Não bebas vinho nem bebidas alcoólicas, nem comas nada impuro» (vv.4.7). Estes elementos, presentes na mulher de Saraá «que não havia tido filhos» (v.2), no seu marido Manué e no filho Sansão, «nazireu consagrado a Deus» (vv.5.7), bendito do Senhor e cheio do Espírito, serão os mesmos que se realizarão, plenamente, no acontecimento salvífico do futuro redentor. Assim, o texto de Juízes se torna profecia do nascimento de Batista e do Messias.

 

Sl 70/71 (Súplica de um ancião) O Salmo aborda um tema já muito conhecido: lamentações. Nele percebemos o abandono e a busca do salmista por alguém em quem possa confiar e desabafar. E esse alguém é o Senhor, pois somente em Deus podemos depositar nossa total confiança e confidenciar os nossos “segredos” com a certeza de que não os contará a ninguém. A Bíblia insiste, em vários momentos que aquele que encontra um amigo encontra um tesouro verdadeiro. Encontrar um tesouro não é algo corriqueiro, que acontece a todo momento. É raro. Olhando para nossas vidas, muitas são as pessoas que temos conhecido e poucos os amigos que têm sido presença em todos os momentos, especialmente nos duros e difíceis. O amigo verdadeiro se prova nas horas de dor, solidão e angústia.     O salmista se dirige a Deus e suplica-lhe que na velhice não o abandone, porque desde a infância tem mostrado para Ele o seu amor e fidelidade.

Senhor, hoje, para te louvar e bendizer, recorro ao salmista, que me chama a crer no teu amor para sempre; tenho certeza que na minha velhice tu estarás comigo. “Tu me instruíste, ó Deus, desde a minha juventude e ainda hoje proclamo teus prodígios. E agora, na velhice, de cabelos brancos, Deus, não me abandones, até que eu anuncie teu poder, tuas maravilhas, a todas as gerações que virão. A tua justiça, ó Deus, é alta como o céu, fizeste grandes coisas: quem como tu, ó Deus? Fizeste-me provar muitas angústias e desventuras; tornarás a dar-me vida, me farás subir de novo dos abismos da terra. Aumentarás minha grandeza e outra vez me consolarás. Então te darei graças com a harpa, pela tua fidelidade a Deus, vou te cantar com a cítara, ó santo de Israel. Cantando teus louvores, exultando meus lábios e minha vida, que resgataste”. Amém!

 

 

 

MEDITAÇÃO – O anúncio do nascimento de personagens excepcionais da história bíblica nos ajuda a refletir na contínua e extraordinária ação que Deus realiza com os homens, e nos múltiplos dons que concede a todos quanto acolhem sua Palavra com coração humilde e confiante. Nas narrações de anunciações, Deus está presente na vida de Sansão, como na do Batista, concedendo dons especiais para uma participação total do homem em seu projeto de salvação, ainda que exija uma resposta generosa e concreta. Também nossa humilde história, desde o dia do nascimento, está marcada pela mão providente e paternal de Deus, que busca por todos os meios a comunhão conosco. Com freqüência, nossos acontecimentos cotidianos de salvação se esvanecem e não sabemos aderir à oferta divina, por falta de escuta e de fé, ou mesmo porque não conseguimos ler sua presença no mistério da encarnação, que se manifesta em situações, com freqüência, humildes ou com sentenças. O que vale é perceber e aderir, sempre, ao seu convite amoroso e venerar, docilmente, sua vontade, ainda quando escape a nosso controle. Só a escuta silenciosa e a atitude de adoração da Palavra de Deus é o caminho para compreender o projeto divino conosco. O silêncio interior, tão necessário em nossa vida, nos distancia de nós mesmos para levar-nos ao mundo do Espírito, onde se dá o verdadeiro discernimento e a gozosa comunhão de vida. Só então se conhece a Deus com a experiência do coração.

 

ORAÇÃO: Senhor da vida e da história, grande e humilde, que fazes maravilhas ante nossos olhos, enviando-nos mensageiros de alegres noticias e que te levantas como sinal de esperança e luz para a salvação de todos, vinde a nós uma vez mais, para manifestar-nos teu rosto e fazer-nos compreender que toda vida é um projeto de amor. Nós não temos anjos que nos revelem claramente o que queres de nós e qual seja nosso posto nos misteriosos caminhos de tua providência. Tu hás vivificado a mulheres estéreis, como as mães de Sansão e do Batista, hás feito prodígios por teu Espírito nos que hão crido em ti; nós te suplicamos: regenera nosso coração cansado e desconfiado, para que possa aderir a tua vontade. Faz que nasça em nós um renovado desejo de amor para com qualquer pessoa que encontremos no caminho. Faz-nos experimentar o que fazes hoje como no passado, para que, também nós, possamos contar tuas maravilhas e tuas intervenções transformando nossas debilidades e pobreza com teu poder. Porém, sobretudo, faz-nos degustar o saber que estás em nós e conosco e que nos transcendes em teu mistério, porque teu caminho se dirige ao coração, quando escutamos tua Palavra no silêncio e a acolhemos humildemente, como fez Maria, a mulher do silêncio e da interioridade.

 

CONTEMPLAÇÃO: «Houve um homem». Como podia este homem dar testemunho da verdade sobre Deus? É que era um «enviado de Deus». Qual é seu nome? João. Qual é o fim de sua missão? «Veio com a missão de dar testemunho sobre a luz, a fim de que, por ele, cressem todos nela». Quem é este que dá testemunho da luz? Algo grande é este João, imensa excelência, graça insigne, altíssimo cume. Admirá-lo, sim, mas como se admira uma montanha. Uma montanha está em trevas se não se veste da luz. Admira a João, porém ouve o que segue: «Não é ele a luz». Porque se crês que o monte é a luz, esse mesmo monte é tua ruína em vez de ser teu consolo. À montanha, como montanha, o único que deves é admirar. Levanta o vôo até Aquele que ilumina o monte, até Aquele que subiu a tanta altura para receber primeiro os raios que Ele envia a teus olhos. Pois João «não era a luz» (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com freqüência e vive hoje a Palavra:

Não temas, tua súplica foi escutada» (Lc 1,13)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Não te imagines que o Senhor em sua sublimidade esteja longe: ainda que infinitamente sublime, está próximo a ti, mais próximo que os homens que se aproximam cada dia mais próximo a ti que tu mesmo. Vigia teus passos, quando entrem na casa do Senhor. Por quê? Porque na casa do Senhor se oferece o único que pode salvar, o consolo mais feliz. Porém, atenção! Tem cuidado, sobretudo de fazer bom uso de quanto te oferece. Usa-o com fé. Não existe uma certeza tão interior, tão forte e tão bem-aventurada como a fé. Sem dúvida, a fé não nos vem por nascimento, não é a confiança de um ânimo juvenil e transbordante do gozo da vida. Menos ainda: a fé não é viver nas nuvens. A fé é certeza, certeza feliz que se possui com temor e tremor. Vista a fé deste ângulo, quer dizer o celeste, aparece como um reflexo da bem-aventurança (S. Kierkegaard, Pensierei Che feriscono alle spalle, Padua).

 

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