LECTIO DIVINA DE 18 A 24 DE NOVEMBRO DE 2018

                                   LECTIO DIVINA

(Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

DOMINGO,  – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Marcos 13,24-32 (Manifestação gloriosa do Filho do Homem; Parábola da figueira) Com este texto culmina o discurso escatológico de Jesus, que, em Marcos, tem uma extensão surpreendente (cap.13). Os «últimos tempos» estão descritos a partir da predição de acontecimentos históricos que, efetivamente, os discípulos poderão constatar, visto que ocorreram no tempo daquela geração (v.30). Contudo, o horizonte é mais amplo: a intensificação de guerras e cataclismos não é mais que «o começo das dores» (v.7 ao pé da letra). Será o sinal de que tanto para a história como para a criação começa um grandioso trabalho de parto, um trabalho que levará consigo um sofrimento inaudito (vv.19-20.24a), porém concluirá com a vinda gloriosa do Filho do homem profetizada por Daniel, um personagem apocalíptico com o qual Jesus se identifica. Como juiz da história e vencedor das forças do mal, inaugurará definitivamente o Reino de Deus para todos seus «eleitos», isto é, para os que se tenham mantido fiéis na perseguição (vv.9-13) e tenham resistido às sedutoras perspectivas oferecidas pelos falsos cristos, que serão numerosos nos últimos tempos (vv.21-23). Neste discurso se entrelaçam, pois, acontecimentos históricos e elementos apocalípticos, expressos com imagens tomadas dos profetas: Jesus quer fazer entender que o mistério pascal agora presente (sua «hora», na linguagem joanina) será o início da fase final dos tempos. Dai que convide aos discípulos, já desde agora, à vigilância, à escuta dos acontecimentos sabendo captar neles a proximidade do Filho do homem, quer dizer, de seu retorno glorioso (vv.28ss) e a aderir, plenamente, à sua Palavra, mais estável que o céu e a terra, que também «passarão»; sem dúvida, a pergunta de alguns discípulos: «Quando…?», fica sem resposta. Enquanto se revela como o Filho, mostra que não pode dispor nem do dia nem da hora do fim. Por isso, enquanto Filho e homem, se confia, Ele mesmo, por completo, ao desígnio de amor e salvação do Pai (v.32).

         

Daniel 12,1-3 (Ressurreição e retribuição) «Naquele tempo…». O tempo ao qual alude o profeta é um tempo no qual a impiedade chegou a seu ponto alto: no capítulo 11, de fato, se revelam os acontecimentos históricos que haviam concluído com a morte de Antíoco Epífanes, figura do inimigo de Deus; sem dúvida, quando o mal que se propaga parece triunfar, a história desembocará no acontecimento escatológico: esta é precisamente a mensagem de esperança oferecida por este texto onde se descreve o tempo final. Nele já não serão possíveis nem a ambiguidade nem as concordatas: todas as coisas aparecerão em sua autêntica realidade. O conflito contra as forças do mal se converterá em luta aberta, e o povo de Deus experimentará a proteção extraordinária do arcanjo Miguel. Será, portanto, um tempo de extrema angústia e, ao mesmo tempo, de salvação para quem tem sido fiel. O Senhor conhece os seus um a um, seus nomes estão escritos em seu livro: não poderá esquecê-los (v 1). Terá lugar, portanto, o traslado do tempo à eternidade; se profetiza aqui a ressurreição universal («muitos» é um semitismo que significa «todos»), na qual cada um receberá seu destino eterno de vida ou de infâmia, segundo sua própria conduta. Os sábios, os justos, ou seja, os que tenham percorrido o caminho da santidade e ajudado a outros a percorrê-lo, resplandecerão com uma glória perene. A fé na ressurreição, no juízo e na vida eterna vai se delimitando já cada vez com maior claridade agora que estamos nos umbrais do Novo Testamento. Com a ressurreição de Cristo começará o tempo do fim, e terá sua consumação na parusia.

 

Hb 10,11-14.18 (A eficácia do sacrifício de Cristo) O tema da passagem de hoje retoma o do domingo passado e o completa. De fato, o autor da carta insiste na unicidade do sacrifício de Cristo em contraposição aos muitos sacrifícios judeus: estes devem repetir-se sempre, porque «nunca podem tirar os pecados» (v.11), enquanto que a oblação de Cristo é perfeita e salvífica para quem se confia em sua mediação sacerdotal (v.14). Não obstante, aqui se acrescenta um elemento novo que põe todo este texto em estreita continuidade com a primeira leitura e o Evangelho de hoje: o sacrifício de Cristo é «de uma vez para sempre» e por isso abre uma dimensão nova no fluir do tempo («cada dia»: v.11). «Agora» Cristo venceu às forças do mal e está sentado no trono de Deus, e «unicamente espera» que sua vitória se torne evidente e definitiva (vv.12ss): então desembocará o tempo na eternidade; sem dúvida, já desde agora, «quem foram consagrados»,a saber: quem acolhe sua oblação e submetem a Ele a vontade rebelde que impulsiona ao pecado, entram nesta dimensão de eternidade («para sempre»: v.14). Porém enquanto o tempo prossegue seu curso, comungamos já o pão da vida «eterna» (cf Jo 6,48-51) na celebração eucarística (memorial do sacrifício de Cristo).

 

Sl 15/16 (Elogio da lei divina) Ninguém pode ficar sem Senhor. Ou seguimos ao Deus vivo e verdadeiro de Abraão, Isaac, Jacó, Jesus, Maria, dos apóstolos e de todos nós, ou continuaremos a inventar “ídolos” fugazes que nada sabem: espiritismo, fitinhas, Nova Era, duendes… Não devemos vender nossa alma à idolatria, mas sermos cada vez mais fiéis ao Deus vivo e verdadeiro. Idolatria e fé não combinam.

Senhor, liberta o meu coração da sedução dos ídolos. Que eu seja um adorador em espírito e verdade e que o meu coração seja o teu verdadeiro templo santo, onde possa te adorar em todos os dias da minha vida. Que eu nunca oferte nada aos ídolos, mas somente a ti, Deus vivo e amado. Amém.

 

 

MEDITATIO: O encontro com um cristão autêntico não cessa de surpreender desde dois mil anos: que insólita é sua condição! «Estrangeiro e peregrino na terra», transeunte que atravessa os caminhos do tempo que estende à eternidade, possui o que busca, ainda que, todavia não de um modo pleno e evidente. É testemunha de uma esperança bem-aventurada e possui o prêmio de uma promessa infinita. Irradia a alegria a seu redor, ainda que há renunciado a muitas das alegrias que propõe este mundo; sem dúvida, não está dispensado da dor… Qual é então o secreto do verdadeiro cristão? O custodia no fundo de seu coração e o declara com orgulho: seu secreto é Cristo, Senhor do tempo e da história. A páscoa de Jesus há destroçado a dimensão temporal e há irrompido a eternidade entre nós: a vida eterna é o Pão em que ele se entrega. Quem observa sua Palavra que não passa, quem acolhe seu sacrifício de salvação e vive com ele a dor como páscoa, entra desde agora na eternidade e permite que, através de sua própria existência, esta transfigure um pouco o tempo. O cristão abre ao sol a janela de sua morada para que tudo fique inundado de luz. Agora bem, o conflito entre as trevas e a luz permanece ainda em ato no tempo: cada discípulo de Jesus conhece esta luta dentro de si e a seu redor; por isso vigia, porque sabe que tem que combater o bom combate da fé. Cristo já há vencido, porém continua lutando em nós para que seja derrotado o mal e se estenda o Reino de Deus, até o dia que só o Pai conhece. Que seu Espírito de amor e de fortaleza nos faça cristãos autênticos, tanto mais presentes na história do homem quanto mais inclinados ao “dia de Deus”.

 

ORATIO: Jesus, Senhor da história, tu vês os males que afligem a nossa humanidade; sem dúvida, nos ensinas que, em sua raiz, é um só o mal que temos de combater. Tu o derrotaste já ao morrer por nós na cruz; ajuda-nos a estender no tempo tua vitória pascal. Faz-nos portadores de eternidade ali onde vivemos e trabalhamos: que a luz de teu amor perene inunde através de nós a pequena porção da história que nos tens confiado e a transfigure. Faz que completemos nossa peregrinação terrena tendendo à pátria celestial, para que quem nos encontre compreenda qual é a bem-aventurada esperança que nos faz exultar desde já. Que o Pão da vida eterna, repartido entre nós, nos mantenha nas provas cotidianas, para que possamos ser encontrados fieis e vigilantes em teu dia glorioso.

 

CONTEMPLATIO: O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, o Deus dos cristãos, é um Deus de amor e consolação, é um Deus que enche a alma e o coração de quem lhe possui. É um Deus que faz sentir interiormente aos seus sua miséria e sua infinita misericórdia; que lhes une no mais íntimo de sua alma; que lhes enche de humildade, de alegria, de confiança, de amor; que lhes faz incapazes de ter outro fim fora dele. Sem Cristo, não subsistiria o mundo, pois deveria ser destruído ou ser como o inferno. Se o mundo subsistisse para instruir o homem sobre Deus, sua divindade brilharia por todas as partes de um modo incontestável, mas visto que subsiste só em Cristo e por Cristo, e para iluminar aos homens sobre seu pecado e sobre sua redenção, por todas as partes se manifestam as provas destas duas verdades. O que se manifesta no mundo não expressa nem exclusão total nem presença manifesta da divindade, mas a presença de um Deus que se esconde. Tudo leva esta marca. Cristo, sem bens materiais e sem nenhuma produção científica, pertence à ordem da santidade. Não fez nenhum invento, não reinou. Mas é humilde, paciente, santo, santo, santo para Deus, terrível para os demônios, sem pecado. Ó, veio com grande pompa e prodigiosa magnificência aos olhos dos corações que veem a sabedoria. Para manifestar seu Reino de santidade, teria sido inútil a Cristo vir como rei; sem dúvida, veio com o esplendor que lhe é próprio (B. Pascal, Pensieri, Opusculi, Lettere,).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Esperemos e apressemos a vinda do dia de Deus» (cf. 2 Pe 3,1 lb-12a)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Encontramo-nos, uma vez mais, tendo que decidir: devemos escolher se queremos limitar a fé ao âmbito do sentimento e orientar nossos pensamentos segundo os de todos, ou melhor, se pretendemos ser cristãos também no modo de pensar. O julgamento é o último ato de Deus, e o realiza aquele que segue sendo durante toda a história o “sinal de contradição”, o momento da decisão tanto para o indivíduo como para os povos. Como se dá este juízo? Em um primeiro momento, podemos supor que o objeto do juízo devem ser as ações e as omissões do homem. Veremos, ao contrário, que tudo está fundido em uma só realidade: o amor. Porém, como tem sido fixado e se aplica o critério do amor? Aqui é onde se manifesta o caráter extraordinário do anúncio cristão do juízo: o critério segundo o qual seremos julgados é nossa atitude em respeito a Cristo. O bem definitivo é Ele, Cristo, e agir bem significa amar a Cristo. Em definitivo, “a verdade” ou “o bem” não são idéias ou valores abstratos, mas alguém, Jesus Cristo. Toda boa ação vai para Cristo e é um bem para Ele, assim como toda ação má, seja qual for sua finalidade, é no fundo um ataque contra Ele. A mais real de todas as realidades é alguém: o Filho de Deus feito homem. E nós conhecemos a tarefa que se nos impõe ao fazer-nos cristãos: ver a Cristo em sua universalidade, conservar em nosso coração sua imagem com toda sua potência, para que possa atravessar os confins do mundo, da história e da obra humana (R. Guardini, Le cose ultime, Milán 1977).

 

 

 

SEGUNDA-FEIRA,  – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 18,35-43 (O cego na entrada de Jericó; Os dois personagens, Jesus e o cego, se perfilam sobre o fundo da multidão que serve de contraste. O movimento de ambos é oposto e convergente: o cego “estava sentado”, sozinho, com uma atitude de inatividade passiva e resignada (pede esmola), de marginalização e afastamento (junto ao caminho). Jesus se faz próximo, “se aproxima” da cidade, rodeado pelo povo que se amontoa a seu redor, talvez só por curiosidade. O cego, sem dúvida, parece ir despertando de modo progressivo à vida: da curiosidade (v.36) à petição insistente (v.38ss), até a fé e o seguimento (vv. 41-43). Se distingue da multidão não mais por sua enfermidade, mas porque toma consciência de sua própria condição e pede ajuda: tentam fazer-lo calar, mas ele grita cada vez mais. Jesus, ao contrário, passa do movimento à detenção: “se deteve” para ouvi-lo e o escuta quase em surdina, só depois de sua petição (v.41), sem realizar nenhum dos gestos que acompanham sempre os milagres. Parece como se quisesse ceder ao cego o papel principal: “Que queres que faça por ti?” e “tua fé te salvou” são duas expressões que põem o acento voluntariamente na oração e na fé, mais que nos dotes extraordinários do que cura. O protagonista é o cego, figura e modelo da humanidade necessitada de conversão: se produz nele uma mudança interior, uma conversão, mais importante que a cura, que é só uma manifestação externa. A transformação do homem convertido e salvo tem conseqüências sobre os que assistem a ela: a multidão dos curiosos, que antes lhe repreendia pelos gritos, “ao vê-lo, se pôs a louvar a Deus”(v.43).

 

 

1 Mc 1,10-15,41-43.54-57.62-64 (Antíoco IV e a imposição do helenismo em Israel; Instalação dos cultos pagãos) O Primeiro livro dos Macabeus, do qual só temos a versão grega, relata os acontecimentos da insurreição judia contra Antíoco IV, da Siria, no século II AC. Os trechos da leitura de hoje mostram a figura do rei perseguidor, assim como a dos ímpios que, entre os próprios israelitas, abandonaram a fé dos pais para seguir a idolatria do dominador. Antíoco IV é definido, desde o momento de sua ascensão ao trono, como um “um rebento ímpio” (v.10). Sem dúvida, a atenção se concentra, de imediato, nos judeus que se puseram do lado do rei pagão, e eram, portanto, mais condenáveis que ele: estes traíam esperando obter vantagens pessoais e, por isso, se diz que se “venderam” (v.15). Foram eles quem introduziram os usos pagãos na cidade santa: construíram o ginásio, renegaram a aliança, ocultaram, de um modo artificial, o sinal sagrado da  circuncisão. Os vv.41-43 referem-se ao decreto do rei que unificava aos povos submetidos abolindo as leis particulares e as autonomias: é uma unidade buscada em oposição à vontade do Senhor, como no mito da torre de Babel. Foram muitos os judeus que aceitaram a imposição e abandonaram a lei do Senhor, particularmente o preceito do sábado. O cumulo da profanação se produziu quando Antioco fez colocar um ídolo sobre o altar do templo de Jerusalém e ordenou fazer sacrifícios aos ídolos em todas as cidades de Judá. A perseguição se abateu sobre os judeus fieis: a simples posse de livros sagrados, que tinham que ser destruídos, era castigada com a morte (vv.54-57). Contudo, muitos conservaram a fé apesar da perseguição: seguiram corajosamente a observância das disposições alimentares por ser o símbolo de uma fidelidade que se devia conservar inclusive a custa da vida. Esta perseverança dos crentes desencadeou o furor dos perseguidos (vv.62-64).

 

Salmo 118/119 (Elogio da lei divina) Esta é uma oração sem fim. Provavelmente é obra não só de uma pessoa, mas de várias, que elogiam por meio de muitos artifícios literários a Palavra de Deus, a lei do Senhor, como fundamento de todo o agir humano. É um Salmo belíssimo que deve ser “saboreado” lentamente, um versículo por dia. Assim, teremos por mais de meio ano assegurado a nossa meditação. Deus se comunica conosco não para nos oprimir ou dominar, mas para ensinar-nos os caminhos mais fáceis da felicidade. Felizes os que vivem a Palavra de Deus e a ensina. Medite dia a dia este Salmo e sua vida, sem dúvida, será diferente, sendo fortalecida não por palavras humanas, mas pela Palavra de Deus.

Senhor, não quero fugir nem desprezar tua Palavra. Quero amá-la como lâmpada para meus pés e luz no meu caminho. “Lâmpada para meus pés é tua palavra e luz no meu caminho. Jurei e confirmo guardar tuas justas normas. Meu sofrimento passa dos limites, Senhor, dá-me vida segundo tua Palavra, Senhor, aceita as ofertas de meus lábios, ensina-me tuas normas. Minha vida está sempre em perigo, mas não esqueço tua lei. Os ímpios me armaram laços, mas não me desviei de teus preceitos. Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração. Inclinei meu coração a cumprir teus estatutos, desde agora e para sempre” (Sl 119,105-112). Amém.

 

 

 

 

MEDITAÇÃO: Há muitos modos de ser cego e muitos modos de ver. “O essencial é invisível aos olhos”, disse o principezinho de Saint-Exupéry e, talvez, por isso, o cego de Jericó parece ligado. Tem necessidade dos outros para saber quem é que passa seguido de tanta gente, porém, a diferença dos outros, é que não se detém na primeira aparência (“disseram-lhe que era Jesus, o Nazareno”), mas vai além do reconhecimento da identidade de Jesus: “Filho de Davi, tem compaixão de mim”. Assim, pois, na primeira leitura, a astúcia dos ímpios, que seguem uma “razão”, aparentemente clara e prudente (“façamos pactos com os povos ao redor”), se contrapõe à “loucura” dos que preferem morrer que romper a aliança com o Senhor. O Evangelho impõe uma opção de vida; ou com Ele, ou contra Ele. Impõe dar a volta em nosso modo de ver, uma mudança radical no modo de pensar e agir, uma conversão. Esta é a verdadeira vida que os testemunhos da fé sabem eleger e a que lhes faz fortes e capazes de afrontar o martírio. Esta é a cura realizada por Jesus, que abre os olhos ao cego e pode abrir também a nós, que somos cegos sem saber que o somos.

 

ORAÇÃO: Rogo-te, Senhor, faz que eu veja. Que eu veja quem és, que eu saiba reconhecer-te na multidão, quando passes mesclado com os desconhecidos dos quais não me preocupo, quando te escondes no mendigo que me importuna ou na pessoa cansada à qual não quero ceder o assento no ônibus. Rogo-te, Senhor, faz que reconheça minha debilidade. Que reconheça que tenho necessidade de ti, que seja capaz de invocar tua ajuda e pedir-te perdão quando te escondes nos irmãos, aos quais eu tenho ofendido, nos que me parecem antipáticos, nos rivais, aos quais, talvez, tento usar em meu próprio beneficio. Rogo-te, Senhor, faz que eu aceite mudar. Que aceite converter-me, que não ache que não tenho necessidade, que sempre acerto em minhas convicções e meus hábitos. Que seja capaz de levantar-me do cômodo que tenho criado, para seguir-te por teu caminho, o único que leva à vida.

 

CONTEMPLAÇÃO: O cego é símbolo de todo gênero humano, expulso do paraíso terreno na pessoa de seu primeiro pai, Adão. Desde então, os homens deixaram de ver o esplendor da luz eterna. Apesar de tudo, a humanidade está iluminada pela presença de seu Salvador, de sorte que pode ver – ao menos com o desejo – o gozo da luz interior e caminhar com os passos das boas obras pelo caminho da vida. Enquanto nosso autor se aproxima a Jericó, o cego recobra a vista. Isso quer dizer que quando o Senhor assume a debilidade de nossa natureza, o gênero humano recobra a luz que havia perdido. A resposta ao gesto de Deus, que começa a padecer debilidades humanas, é o novo modo de ser do homem, elevado a alturas divinas. O que ignora o esplendor da luz eterna é cego, e o que crer no Redentor se senta junto ao caminho. Sem dúvida, se ainda crendo, se esquece de pedir para receber a luz eterna, é um cego que se senta junto ao caminho sem mendigar. Por isso, todo que reconhece as trevas de sua própria cegueira invoca com todas as forças da alma: ”Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Insistimos com vigor na oração, detenhamos em nossa alma a Jesus, que passa. Quando insistimos com força na oração, Jesus se detém para voltar a dar-nos a luz. Assim, queridos irmãos, se já conhecemos a cegueira de nosso peregrinar; se, com a fé no mistério de nosso Redentor, já estamos sentados junto ao caminho; se com a oração cotidiana, pedimos a luz de nosso autor; se, ademais, depois da cegueira, somos iluminados pelo dom da luz que penetra em nós, esforcemo-nos em seguir com as obras ao Jesus que conhecemos com a inteligência. Observemos a onde se dirige o Senhor e, com a imitação, sigamos suas pegadas. De fato, só segue a Jesus que lhe imita… (Gregorio Magno)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim” (Lc 18,38ss)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL- A experiência da luz na luz nos faz intuir uma presen­ça que não vemos com seus contornos, posto que o Senhor não tem limitações. Sem dúvida, «gostamos» da sua presença. Todas as manifestações de Deus na Bíblia vão neste sentido. Exis­te uma presença, Deus fala, porém não lhe vemos (Ex 3,1-6;33,18-23). O homem o sente, participa de sua luz, mas não o ver (Ex 34,29;2 Co 3,7-4,6). A experiência de uma presença que não se vê é luz pois se «sente» que o Senhor é o Deus «misericordioso e piedoso, lento à cólera e rico em graça e fidelidade» (Ex 34,6ss). Como a Moisés, esta experiência nos leva a invocar-lhe «enquanto está próximo» (Is 55,6) com uma certeza confiante de que seremos ouvidos, pois Ele é «rico em misericór­dia com os que lhe invocam» (Sl 85,8; Rm 10,12) e não deixa ninguém sem resposta (Eclo 2,12). De fato, como sua grandeza, assim é sua misericórdia (Eclo 2,18;Sb 7,7). É luz porque se percebe a presença de uma Bondade que nos envolve e que antes não conhecíamos. Portanto, é um novo modo de ser, posto que esta «presença» nos liberta de nossas trevas, de nossa solidão. Instaura uma nova relação conosco mesmos. Damo-nos conta de que somos di­ferentes porque somos amados, algo que antes não era possível. Estávamos cegos, havia uma obscuridade na qual estávamos mergulhados. Agora existe a luz, a luz do amor. «Em um tempo fostes trevas, agora sois luz no Senhor…» E a luz, como dizíamos, não se pode expressar enquanto tal; se percebe na luz, porém sua expressão necessita concretar-se. Por isso «o fruto da luz consiste em toda bondade» (Ef 5,8ss). Trata-se da experiência da bondade do Senhor, que ilumina o coração e se difunde em todo nosso ser. A experiência desta bondade se converte, se assim podemos dizer, em oração. É oração no sentido de que o amor quer crescer, a alegria quer ser completa e o louvor quer ser simplesmente exultação. (B. Boldini, Desde lo hondo a ti grito, Ediciones San Pablo).

 

 

 

TERÇA-FEIRA, – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 19,1-10 (Zaqueu)  O episódio de Zaqueu está quase baseado no prece­dente (o cego de Jericó). Também aqui se vê interrom­pido um movimento de Jesus (que atravessava a cidade) pela iniciativa de um homem. Esta vez não se trata de um mendigo, mas de um rico publicano; sem dúvida, é também um marginalizado (os publicanos eram desprezados), golpeado assim mesmo por uma inferioridade física (era pequeno de estatura) e, sobretudo, necessitado também de redenção. Zaqueu passa de uma curiosidade inicial (ver quem era Jesus: v.3) a um movimento (se subiu em um sicômoro: v.4), à ação febril e alegre com a qual recebeu a Jesus em sua casa (v.6) e, por último, à con­versão e a mudança de vida (v.8). Jesus se detém, porém nesta ocasião, em vez de uma pergunta, dirige a Zaqueu uma ordem: «Zaqueu, desce depressa, porque hoje tenho que alojar-me em tua casa» (v.5). Zaqueu não pede nenhum milagre, exteriormente não parece que se encontre em nenhuma necessidade; sem dúvida, Jesus responde a sua implícita petição, porque a atenção e a pressa com as quais opera mostram já o começo da fé. A multidão, com a murmuração con­tra Jesus (v.7), serve também aqui de contraponto, porém não reage à conversão de Zaqueu. Também este episódio valoriza a iniciativa humana: o desejo de Zaqueu é algo mais que uma simples curiosidade: lhe impulsiona a realizar um gesto impróprio de um homem conhecido. O poder de Jesus se expressa com sua simples pre­sença e com a palavra: chama a Zaqueu por seu nome (v.5), e isto basta para suscitar nele alegria (v.6), o arrependimento e a reparação (v.8); em poucas palavras, a vida nova. Com Jesus entrou a salvação na casa de Zaqueu, e o mesmo Jesus dá testemunho disso.

 

 

2 Mc 6,18-31 (O martírio de Eleazar) – O 2º livro dos Macabeus conta, de um modo absolutamente independente do primeiro, a insurreição de Judas Macabeus contra Antíoco IV, com diferentes episódios de heroísmo e martírio. O texto de hoje apresenta o per­sonagem exemplar de Eleazar, um ancião irrepreensível, que faz frente, com serenidade, ao martírio, antes que transgredir as normas alimentares. Eleazar não se preocupa de sua própria vida, não é vítima de uma religiosidade formal e rígida, de um legalismo excessivo: quando lhe propõem fingir para salvar-se, sem comer as carnes proibidas, se nega, por temor a que sua ação possa constituir um mal exemplo para os israelitas jovens. O relato se abre com a nobre figura do ancião, que opõe uma firme rejeição às imposições do rei pa­gão. Vem, a continuação, a proposta dos perse­guidores, encarregados de fazer-lhe comer as carnes dos sacrifícios: sugerem-lhe alimentar-se de carnes puras, fin­gindo comer as proibidas. Porém esse comportamento teria parecido uma traição aos judeus, e isso é o que Eleazar não pode permitir: se insiste aqui na figura do ancião e na conduta irrepreensível seguida por ele durante toda a vida (cf v.23). O discurso de Eleazar (vv.24-28) é límpido: os jovens creriam que se tem pa­ssado aos ídolos, e este exemplo negativo pesaria sobre sua consciência como uma traição. Portanto, pre­fere enfrentar a morte. As últimas palavras do mártir contrapõem a dor física à alegria do coração (v.30). O versículo final (v.31) se une ao primeiro (18) para propor a Eleazar como exemplo para todo o mundo.

 

Salmo 3 (Apelo matinal do justo perseguido) – A confiança em Deus é o melhor caminho para encontrarmos a felicidade. A vida ensina-nos que devemos acreditar exclusivamente nele, pois é Ele quem cuida de nós e nos sustenta em nossas vidas. Mesmo que ao nosso redor as dificuldades aumentem, devemos manter os nossos olhos sempre fixos em Deus. Mas não podemos fazer isso numa espiritualidade de “braços cruzados”… Devemos cooperar com o trabalho de Deus, sabendo que podemos depositar no Senhor toda a nossa confiança.

Senhor, que o medo não me vença e não interrompa o meu caminhar. Que eu seja forte como os santos, os profetas que confiaram em ti, e como os meus irmãos, que souberam dizer sim ao teu amor e cooperar ativamente pela transformação do mundo. Amém.

 

 

MEDITATIO: “Hoje chegou a salvação a esta casa»: o dom da graça se mostra superabundante, maior do que Za­queu haveria se atrevido a esperar. Sem dúvida, o movi­mento sincero de seu coração, o desejo de «ver a Jesus», talvez tenha sido a mola que impulsionou Jesus a sair ao seu encontro. Na liturgia de hoje aparecem duas figuras muito dife­rentes. O ancião Eleazar, que havia levado uma longa vida irrepreensível à sombra da Lei, parece que não tem nada em comum com o pequeno funcionário dos impostos, submetido ao estrangeiro e acostumado nos roubos e nas fraudes. Sem dúvida, lhes une a co­ragem necessária para tomar uma decisão importante: a de pôr toda sua vida e sua própria morte sob o julgamento da Palavra de Deus. Eleazar poderia salvar tanto sua própria fidelidade à Lei como sua própria vida: que im­porta fingir que se venera aos ídolos, se estes não são nada? Zaqueu poderia seguir com seu ofício, desprezado, mas rentável: que lhe importavam as discussões entre os rabinos do judaísmo? Sem dúvida, Eleazar sabe que um só gesto hipócrita, uma só debi­lidade, anularia anos de fidelidade; sabe que prolongar sua vida a custa de sua própria consciência significaria conde­nar-se a uma morte pior que o suplício. A Zaqueu lhe basta cruzar seu olhar com o de Jesus, ele, pequeno, olha desde o alto, desde a figueira; o Mestre levanta os olhos para encontrar os seus, para compreender que todo o dinheiro que tinha ganhado não vale o que vale uma só hora com Jesus em sua casa.

 

ORATIO: Quantas vezes, Senhor, me diriges teu olhar e eu não me dou conta. Lamento-me e protesto porque não escutas minhas orações; sem dúvida, sou eu o incapaz de levantar-me acima de minha pequena estatura para ­tentar te ver. Senhor, concede-me a simplicidade do coração de Zaqueu e a firmeza de Eleazar. Perco minha vida correndo atrás de muitas coisas que me distraem, presto ouvido às li­sonjas do mundo e às murmurações dos vagabundos, tenho medo de expor-me ao julgamento das pessoas… Senhor, faz-me compreender o que queres de mim, que é o verdadeiramente importante. Faz-me compreender que a vida tem sentido e nos dá alegria só se corres­pondemos a tua vontade.

 

CONTEMPLATIO: Reconhece a Cristo: Ele é pleno de graça. Quer ver­ter em ti tudo aquilo do qual Ele está pleno. Disse isto: busca meus dons, esquece teus méritos, porque se Eu buscasse teus méritos, não alcançarias meus dons. Não te exaltes; sê pequeno, sê Zaqueu. Porém dirás: Se hei de ser Zaqueu, não poderei ver a Jesus por causa da multidão. Não te ponhas triste, sobe na árvore onde por ti pendia Jesus e lhe verás. Agora olha meu Zaqueu, observa-lhe, te rogo, enquanto quer ver Jesus no meio da multidão e não pode. Zaqueu era humilde, a multidão era soberba. A multidão faz que não se veja Jesus, serve de obstáculo para que não se veja àquele que, crucificado, disse: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Por causa da cruz de Cristo, os sábios deste mundo nos insultam e dizem: «Que sabedoria tens vós, que adorais a um Deus crucificado?» Que sabedoria temos? Certamente não é a vossa. A sabedoria deste mundo é ignorância ante Deus. Não temos em verdade vossa sabedoria, porém vós dizeis que nossa sabe­doria é estupidez. Decide também o que quereis; nós podemos subir à figueira e ver Jesus. Que se agarre Zaqueu à figueira, que suba humilde à cruz. E o Senhor viu Zaqueu. Foi visto e viu, porém se não tivesse sido visto, não teria visto. «E aos que desde o princípio destinou, também os chamou» (Rm 8,30) […]. Temos sido vistos para que possamos ver; temos sido amados para que possamos amar. Agora, pois, o Senhor, que havia acolhido Zaqueu no coração, se dignou ser hospedado em sua casa. Disse Zaqueu a Cristo: «Senhor, a metade de meus bens eis que dou aos pobres, e se enganei a alguém, lhe devolverei quatro vezes mais». Como se dissesse: «Por isso fico com uma metade não como posse, mas para ter do que dar». Isso é na realidade o que significa receber a Cristo, acolher-lhe no coração (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Filho do homem veio a buscar e salvar o que estava perdido» (Lc 19,10)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – No caminho de Jericó há muita gente, porém só emerge um, ainda que «pequeno de estatura». Como Zaqueu, somos sempre demasiado «pequenos», ainda que nos creiamos «alguém», e, como ele, demasiado impedidos por uma multidão, que é nosso mundo, do qual tomamos os julgamentos e opiniões. Não são muitos os que estão desprendidos de sua própria «suficiência» e do modo comum de pensar de seu próprio ambiente, de sorte que possamos enumerá-los entre os homens livres e, portanto, entre os dispostos a aceitar qualquer convite da verdade. Isso é o que vemos fazer Zaqueu. Este, sem im­portar-lhe pouco ou nada o nome, o censo ou o cargo, desafia o ridículo para ver Jesus, subindo com a espontaneidade e a humildade de uma criança, em uma figueira, e deste modo reconquis­ta essa inestimável liberdade pela qual pode ser ele mesmo tam­bém frente a Jesus. Os homens simples permanecem sempre livres e, como as crianças, que participam de algum modo no poder libertador do Filho de Deus, que é a simplicidade, nos ajudam a encontrar nossa liberdade. Zaqueu não sente desprazer nesse lugar no qual está encolhido, não lhe inquieta a multidão, que, à me­dida que Jesus se aproxima, se faz cada vez mais numerosa. Nem sequer toma cuidado. Tornou-se criança (“Deixai que as crianças se acerquem a mim»), e quase lhe vinha vontade de cantar se o Senhor não viesse já pelo caminho, por aquele caminho. A liberdade é o ar da caridade. «Lançou a correr adiante e subiu em uma figueira para vê-lo». «Correr» e «subir» são duas modalidades da busca. Existe o risco da aventu­ra e o risco de ser lançado fora, o que nos faz pensar no risco do grão de trigo que deve apodrecer se quer germi­nar… O risco é, portanto, uma palavra cristã. Arrisca quem «tem fome e sede de justiça e de verdade». Fui criado para «ver a Deus». Zaqueu sobe à figueira para «ver a Jesus». Um o vê fora, se o tinha visto dentro, e então, o vê em todas partes: em cada criatura, em cada homem (p. Mazzolari, Zaccheo, Vicenza).

 

 

 

QUARTA-FEIRA, – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 19,11-28 (parábolas das minas) A parábola das minas (“importante quanti­dade de dinheiro» em nosso texto), comparada com a dos talentos (Mt 25,14-30), se apresenta em Lucas mais complexa e une dois temas diferentes: o comportamen­to dos discípulos obedecendo as disposições rece­bidas (vv. 13.15b-26), e o tema do rei rejeitado por seus súditos (vv.12.14-15a.27). O fragmento está ence­rrado entre dois versículos (11.28) que se referem a Jerusalém ou à iminente conclusão da vida terrena de Jesus. A alusão à manifestação do Reino, que os discípulos acreditavam já próxima, precisa a chave de leitura escatológica de toda a parábola. O senhor que confia o dinheiro a seus servos está destinado aqui a rece­ber a investidura real (v.12), em contraste com a oposição que lhe vem de seus mesmos concidadãos (v.14). O contraste fica superado (v.15), não obstante, e o julgamento do rei sobre seus inimigos será terrível (v.28). Pode tratar-se de uma referência histórica imediata a Arquelao, filho de Herodes o Grande, que obteve o rei­no dos romanos, apesar da oposição de uma parte dos judeus, porém o evangelista tem, seguro, em sua men­te a segunda vinda de Jesus (cf. v.13b), que estabelecerá o Reino definitivamente e fará justiça aos cristãos perseguidos e a seus perseguidores. Na parábola de Lucas, diferente da de Mateus, cada servidor recebe uma mina: existe, portanto, uma igualdade inicial que faz ressaltar ainda mais seu diferente comportamento. O prêmio e a elogio do senhor vão dirigidos aos que têm trabalhado com empenho, enquanto o servo preguiçoso é condenado não tanto pela preguiça como pelo medo, que lhe faz perder a confiança no senhor. O servo é julgado por suas próprias palavras (v.22): o senhor, como foi considerado como um homem «severo», mostra toda sua severidade. A conclusão da parábola é surpreendente: a mina arre­batada ao servo folgado passa a enriquecer ao mais rico dos outros, o que parece injusto do ponto de vista humano. Porém assim funciona a «banca» da graça: superabunda e se multiplica em quem a recebe e a acolhe, e seca até desaparecer em quem se afasta dela.

 

 

2 Mc 7,1.20-31 (O martírio dos sete irmãos) De novo, um relato de martírio do tempo da insurreição de Judas Macabeus. O personagem no qual se concentra aqui a atenção é o da mãe dos sete mártires, que suporta heroicamente assistir as suas mortes antes dela morrer. «A mãe, mulher admirável e digna de gloriosa memória» (v.20), sofreu, por cada um de seus filhos mais que por si mesma, porém não cedeu e até exortou e animou a seus filhos falando-lhes na língua sagrada cujo uso estava proibido. O discurso da mulher (vv.22ss) é uma admirável profissão de fé no Deus da vida: o Criador, que tinha plasmado de uma maneira misteriosa aos seres huma­nos, saberá restituir, certamente, a vida a quem a tinha perdido por ser-lhe fiel. Esta é a expressão mais precisa, em todo o Antigo Testamento, da fé na ressurreição. Antíoco IV está irritado por esta resistên­cia e se encoleriza contra o mais jovem dos irmãos, o único que seguia vivo. Como não lhe fazem efeito às lisonjas (v.24), torna o rei à carga com a mãe, para que persuada seu filho a ceder (v.25). Lançando mão a uma argúcia, o narrador faz crer que esta aceita (v.26), para mostrar de imediato a burla: a mulher dirige em hebraico a seu filho exatamente a mesma exortação oposta à petição do rei (vv.27-29). Afirma-se uma vez mais a fé na ressurreição: «Para que eu te recobre com eles no dia da misericórdia» (v.29). O fragmento conclui com a valente profissão de fé do jovem (“Não obedeço às ordens do rei, mas à lei dada a nossos antepassados por Moisés»: v.30) e com o anúncio da condenação do rei (“Tu, autor de todos estes males contra os hebreus, não poderás fugir do castigo de Deus»: v.31).

 

Salmo 16/17 (Súplica do inocente) – Ser santo é saber reconhecer os próprios pecados e as próprias virtudes. O salmista se coloca diante de Deus exatamente como ele é, sem temor. Ele desafia-o a encontrar nele pecados e mentiras, pois sabe que é sincero em tudo aquilo que diz e faz. Esta atitude de honestidade diante do Senhor é muito importante. Somos pecadores, devemos assumir isso e desejar que a verdade – o gesto mais amado por Deus – esteja presente em todos os momentos de nossos dias.

Senhor, não posso reconhecer os pecados que em certos momentos os outros me atribuem. Sinto-me honesto e sincero, apesar de saber que sou “pecador”, mas sei também que sou capaz de vencer o pecado que está em mim e dominá-lo. Dá-me a sinceridade de ser diante de ti o que sou e nada mais. Amém.

 

 

MEDITATIO: A vida não nos pertence. Somos simplesmente seus administradores e nos foi confiada por um amo exi­gente, que nos pedirá contas de como a temos emprega­do. Agora, é também um amo liberal e generoso: será ele quem nos pague os interesses, quem nos restitua a posse perpétua do que tenhamos sido capazes de render-lhe ao final do depósito. A parábola das mi­nas surpreende pela desproporção do trato, um trato que não corresponde com nossos critérios de justiça: o amo dá ao servo mais rico o que tira ao servo me­droso. Que é que se premia aqui: a iniciativa eco­nômica, a eficiência, a despreocupação? Ilumina-nos a comparação com a história exemplar dos sete irmãos mártires com sua mãe em tempos da insurreição macabeia. Seu comportamento é irresponsável e néscio aos olhos dos pagãos: apostam a vida, «invertem» os talentos que receberam, ao apos­tar pelo que parece uma perda segura, pois serão torturados e mortos. Sem dúvida, a lúcida consciência da mãe aponta a um «título» que não lhes defraudará: precisamente por arriscar tudo, o Deus da vida lhes devolverá tudo, e com juros! O servo folgado não é castigado por desconhecer como se opera na bolsa; é castigado porque não con­fia no Senhor, lhe imagina cruel e sem piedade e prefere manter-se aferrado a sua mina: querer conservar sua vida para si mesmo, como se fosse sua, porém por isso a perderá. Ao contrário, dar a vida, sem temores nem cálcu­los, generosamente, nos permitirá recebê-la como dom, para sempre, «no dia da misericórdia».

 

ORATIO: Senhor, tenho medo. Tenho medo de sofrer, tenho medo de arriscar e perder, tenho medo de não estar à altura de minhas tarefas, tenho medo de fracassar. Não sei quantas moedas me tens confiado, Senhor, e me afano em contá-las: não quisera perder um só instante de minha vida, gostaria de realizar grandes obras. Ajuda-me, Senhor. Faz-me compreender que todas estas preocupações não têm nenhuma razão de ser. Faz-me capaz de realizar, dia a dia, com simplicidade, as pequenas coisas que podem contentar as pessoas com as quais me encontro. Faz-me capaz de percorrer cada dia o pedaço do caminho que me pões adiante, sem pretender ser um herói, sem cálculos nem temores. Faz-me ca­paz de confiar-te minha vida com generosidade e segurança, porque tu és o Senhor da vida.

 

CONTEMPLATIO: O justo, semeando no espírito, recolherá vida eterna. De fato, pertence a Deus. Diremos, pois, assim: o justo semeou, deu aos homens, e o Senhor recolherá para si tudo o que o justo semeou deste modo. Colhendo o que não semeou e recolhendo o que não espalhou, julgará como oferendas para Ele todas as coisas que foram semeadas ou espalhadas entre os pobres, dizendo aos que beneficiaram a seu próximo: (“Vinde, benditos de meu Pai…» (Mt 25,34ss). E por querer colher onde não semeou e recolher onde não espalhou, quando não encontrar nada dirá aos que não lhe deram esta possi­bilidade: “Apartai-vos de mim…» (Mt 25,41ss). Mostra-se ver­dadeiramente duro, como disse Mateus, e severo, como o define Lucas (19,21), porém com os que abusam da mi­sericórdia de Deus por sua própria negligência. Se alguém, sem dúvida, está convencido de que Deus é bom e espera ser perdoado se, se converte a Ele, Deus se mostra bom com esse. Mas, com o que o con­sidera tão bom que não se preocupa dos pecados dos homens, Deus não se mostrará bom, mas severo. Assim pois, Cristo colherá o que não tenhamos semeado e recolherá o que não tenhamos espalhado. Semeemos no espírito, distribuamos nossos bens aos pobres e não escondamos debaixo da terra o talento de Deus. Este temor não é bom nem nos liberta das trevas exteriores, onde seremos condenados como servos malvados e indolen­tes. Malvados, por não ter usado a preciosa moeda das palavras do Senhor, com as quais poderíamos ter po­dido difundir a doutrina do cristianismo e penetrar nos profundos mistérios da bondade de Deus; indolentes, por não ter negociado com a Palavra de Deus para nossa salvação e a dos outros. De fato, toda ri­queza, quer dizer, toda palavra que leva a reprodução real de Deus e a imagem de seu Verbo, é um autêntico tesouro (Orígenes).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“O Criador do mundo os devolverá misericordiosa­mente a vida» (cf. 2 Mac 7,23)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Os homens, nas poucas páginas do Evangelho, são bas­tante numerosos: são pagãos e filhos de Israel, são jovens e homens maduros, talvez inclusive anciãos, homens do culto e homens que só têm a religião do poder e do dinheiro. So­bretudo, há homens afligidos por enfermidades… Há homens que têm necessidade ou, pelo contrário, estão satisfeitos de si mesmos. No fundo, se podem dividir em homens que en­tram em relação com Cristo e homens que o rejeitam. Parece que é precisamente esta, fundamentalmente, a diferença entre eles. Podem negar-se por orgulho, resistir-se à atração da pessoa de Cristo, afastar-se porque é demasiado o que lhes pede. Pelo contrário, podem amar-lhe, implorar sua ajuda, seguir-lhe. Ele mesmo proclama que é o caminho, a luz do mundo, a verdade, a vida e até a ressurreição. É o pão, a fonte de água viva, o esposo que veio à festa das bodas. Quem lhe acolhe experimentam o que disse de si mesmo. O Evangelho é a mensagem da salvação, uma mensagem que se identifica praticamente com a pessoa de Cristo. Agora bem, assim como a obra de Cristo é sua presença, a obra do homem é crer nele; nenhuma obra do homem poderia substituir essa fé que se adere a Cristo e se confia a Ele. Quando o homem descobre que a razão de sua vida é Deus, abandona qualquer outra busca. O afirmava já o ancião Simeão no começo do Evangel­ho: será «sinal de contradição». A relação com Ele pode ser positiva na fé, no amor, e pode ser negativa na resistência obstinada, no ódio mortal. Deste modo, o Evangelho nos descobre, o drama da vida humana que se desenvolve no tempo. Esta é a verdadeira realidade da vida, este é o conteúdo verdadeiro da história, este é o combate que se desenvolve no coração de cada homem, no coração da humanidade (D. Barsotti, L’uomo nel Vangelo, Roma 1998)

 

 

 

QUINTA-FEIRA  – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 19,41-44 (Lamentação sobre Jerusalém) – O lamento de Jesus por Jerusalém, muito arcaico no estilo e na língua, parece remontar-se a uma fonte muito próxima ao Jesus histórico. É um dos pouquí­ssimos episódios nos quais Jesus chora, mostrando sua profunda humanidade. O destino da cidade santa, que simboliza o destino de todo o povo, é considerado como o cumprimento de uma vontade superior, de um juízo divino inevitável (“teus olhos seguem cerrados» para o caminho da paz: na linguagem bíblica passiva se percebe que Deus é sujeito ativo da ação). A linguagem escatológica de Jesus, que recorda as invectivas proféticas, contrapõe «este dia», o da possível salvação, aos «dias» do juízo que virão. Sal­vação e julgamento se conjugam na expressão «o momen­to no qual Deus veio visitar-te, (v.44): a «visita», de fato (episcopé) pode significar em sua raiz hebréia paqadh «castigo», mas também «graça». A destruição de Jerusalém é claramente uma profe­cia ‘ex eventu’: Lucas escreve após o ano 70. Sem dúvida, isso não diminui seu valor: Jesus foi executado, como muitos profetas, também por cau­sa de suas palavras sobre a sorte do templo e do povo (cf. Mt 26,61). O episódio tem valor não como demonstra­ção de uma capacidade vidente, mas como chave de leitura para interpretar o significado da história vi­vida pela comunidade à qual se dirige o evangelista.

 

 

 

 

 

 

1 Mc 2,15-19 (A prova do sacrifício em Modin) Estamos no tempo da dominação de Antíoco IV sobre Judá, em seu intento de erradicar a reli­gião de Israel e estabelecer o culto pagão em Jerusa­lém. Matatias e sua família tinham se estabelecido em Modin, quando chegam ali os mensageiros do rei para obrigar os israelitas à apostasia. A táctica dos persegui­dores é sempre a mesma: começam pelas lisonjas, tentando atrair os homens influentes da cidade, para passar às ameaças e à força. Temos, portanto, um elogio de Matatias e a promessa de certos benefícios por parte do rei (vv.17ss) e, de imediato, a resposta indignada e firme do israe­lita (vv.19-22): ainda que todos seguissem ao rei, Matatias e sua família permaneceriam fieis à aliança, sem des­viar-se dos caminhos do Senhor. A linguagem aqui recorda a do Deuteronômio. Segue o golpe que dá co­meço à insurreição. Um judeu se aproxima ao altar para sacrificar aos ídolos, e Matatias, estremecido pela indignação, não pode conter-se: mata o apóstata e os mensageiros do rei e destrói o altar (vv.24ss). Che­gado a este ponto, toma a decisão: Matatias e os seus fogem: não por medo, mas para organizar a resistência nos montes (v.28). Suas palavras são uma verdadeira declaração de guerra: «O que queira defender a lei e ser fiel à aliança que me siga” (v.27). E foram muitos os que lhe seguiram (vv. 29ss).

 

Salmo 49/50 (Para o culto em espírito) Este Salmo tem o sabor de um exame de consciência violento, daqueles que nos obriga a parar e a olhar dentro de nós para vermos se ali existe o bem ou o mal. Deus sabe elogiar o homem quando ele faz o bem, mas também sabe condená-lo quando faz o mal. Deus sabe elogiar o homem quando ele faz o bem, mas também sabe condená-lo quando faz o mal. O mesmo fazem os seus profetas. Deus nos mostra o mal para que possamos nos converter e tomar resoluções novas de uma vida santa. Deus não critica os louvores que lhe são oferecidos, exceto quando a nossa atitude de louvá-lo não condiz com a nossa vida cheia de pecados. De que serve sermos religiosos, frequentarmos a Igreja, se negamos tudo isso diariamente com as nossas atitudes?

Senhor, dá-me coerência de vida. Que eu te ofereça sacrifícios e que seja atento a teus preceitos, mas nunca permita que a minha vida renegue a minha fé. Dá-me força de ser fiel, e que a minha felicidade seja a melhor pregação e a melhor evangelização. Palavras nada servem se não forem comprovadas e consagradas pelos atos. Amém.

 

 

MEDITATIO: O quadro apocalíptico da destruição de Jerusa­lém, castigada por sua infidelidade, se contrapõe à fi­gura exemplar de Matatias, que escolhe a luta armada contra o opressor antes que transgredir a lei do Senhor. Trata-se de umas imagens duras, imagens que nossa sensibilidade tende a rejeitar: a cidade santa, cega por uma decisão divina que a condena de um modo inexorável; o gesto sanguinário de Matatias, que golpeia com a mesma violência contra o altar profanado e contra os profanadores… Agora, bem acima da linguagem, é o radicalismo da decisão de fé o que conta. O «dia da salvação» e o «dia do julgamento» coincidem: é o dia da eleição absoluta, dia que corresponde, em nosso, caso a toda a vida e se condensa no instante da morte. Trata-se do dia no qual temos de deci­dir se estamos «com Ele» ou «contra Ele», e não valem meios tons, truques, vacilações, distinções. A per­seguição é graça sempre que se converta em ocasião de um testemunho de fé. O Senhor «visita» para salvar. Se sua visita se torna condenação, é só obra nossa.

 

ORATIO: Choraste por tua cidade, Senhor. Choraste por tua gente. Senhor, que eu te encontre como amigo junto a mim no dia de tua «visita». Que eu não feche nem o coração nem a mente, de sorte que não seja capaz de ler nos aconte­cimentos, o sinal de tua vontade. Faz que te reconheça presente nos irmãos, ao longo dos caminhos e nos acontecimentos deste mundo atormentado, para que o julgamento não recaia sobre mim como recaiu sobre a cidade que foi incapaz de reconhecer teus profetas. Faz que eu opte sempre por ti, mesmo quando esta opção exija boa dose de coragem. Faz que não perca a confiança nem a esperança ainda que se apresentem graves obstáculos à minha fé.

 

CONTEMPLATIO: O homem havia sido criado para servir a seu Cria­dor. Que pode haver mais justo para ti que servir aquele pelo qual fostes criado e sem o qual não podes existir? E que pode ser mais belo e sublime, se servir é reinar? «Não servirei», disse o homem a seu Criador. «Pois bem, te servirei eu», disse o Criador ao homem. «Repousa, tomarei sobre mim teus males, me carregarei com tuas debilidades. Usa de mim como te apraz, segundo tuas nece­ssidades; não só como teu escravo, mas, inclusive, como de um jumento… Se estás cansado, eu te levarei para ser o primeiro a cumprir a lei que diz: “Levai uns as cargas dos outros». Se te reduzem a escravidão ou se que­rem vender-te, aqui estou, vende-me… Se estás enfermo e temes a morte, eu morrerei em teu lugar e com meu sangue terás o remédio que dá vida». Ó servo bom e fiel! Serviste realmente; serviste com fidelidade e realidade; serviste com pa­ciência e longanimidade; sem tibieza, quando te lançaste como um gigante a correr pelo caminho da obediência; sem murmuração, quando flagelado, não abriste a boca. Que detestável é o orgulho humano que desdenha servir! Não podia ser dobrado de nenhum outro modo que com o exemplo do serviço, e que ser­viço!, rendido por nosso Senhor. Ó, se ao menos houvesse valido esse exemplo! Se, se desse graças por tanta humildade e bondade! Sem dúvida, ainda me parece ouvir o lamento do Senhor, que chora pela ingratidão… Certa­mente, Senhor, sofreste muito por servir-me. Se­ria verdadeiramente justo e uma obrigação que, ao menos de agora em diante, tu repousasses e teu servo te servisse: chegou teu turno. Tu triunfaste, Senhor; triun­faste sobre os rebeldes. Tendo minhas mãos nas tuas, ponho meu pescoço sob teu jugo. Permite-me servir-te e po­der sofrer algumas penas por ti (Guerrico d’Igny, Primer sennón para ei domingo de Ramos, 1-3).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Deus nos livre de abandonar a lei e seus preceitos» (1 Mac 2,21)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – «Converter-se» significa seguir a Jesus, ir com Ele, por seu cami­nho. Consiste, essencialmente, nesta decisão, em que o homem cessa de ser seu próprio criador, cessa de buscar-se só a si mesmo e de buscar sua auto-realização, e aceita sua dependência do verdadeiro Criador. Fundamentalmente, existem só estas duas possibilidades: a auto-realização, na qual o homem tenta criar-se a si mesmo para possuir seu ser completamente para ele, e a opção da fé e do amor. Esta opção é, ao mesmo tempo, a decisão em prol da verdade. Por sermos criaturas, não o somos por nós mesmos; só se «perdemos» a vida, podemos ga­nhá-la. Esta alternativa corresponde à eleição fundamental entre a morte e a vida: uma civilização do ter e uma civili­zação da morte; só uma cultura do amor é também uma cultura da vida: «Quem queira salvar sua própria vida a per­derá, porém quem a perder a salvará» (Mc 8,35). Podemos dizer assim mesmo que a alternativa entre auto-realização e amor co­rresponde à alternativa entre o poder terreno e a cruz, entre uma redenção que consiste só no bem estar e uma redenção que se abre e se confia à infinidade do amor divino. A conversão exige que não só de uma maneira geral, mas dia a dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé e o amor se tornam mais importantes que nossa vida biológica, que o bem estar, que o êxito, que o prestígio e que a tranquilidade de nossa vida. De fato, o êxito, o prestígio, a tranquilidade e a comodidade são os falsos deuses que mais impedem a verdade e o verdadeiro progresso na vida pessoal e na vida social (J. Ratzinger, EI camino pascual)

 

 

 

SEXTA-FEIRA  – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 19,45-48 (Os vendedores expulsos; Ensinamento no Templo; Os Evangelhos sinóticos colocam o episódio da purificação do templo quase para introduzir os relatos da última ceia e da paixão. Nesta passagem de Lucas se distinguem dois pontos: a expulsão dos vendedores (vv.45ss) e o ensinamento de Jesus, que provoca a reação de seus adversários (vv.47ss). Nos dois casos Jesus entra no templo como qualquer judeu observante, porém age com uma autoridade que surpreende e desconcerta. Lucas não insiste na descrição dos detalhes particulares, mas limita-se, simplesmente, a dizer “os vendedores”, reunindo, assim, as atividades que, ainda que não estejam proibidas, representam um ultraje para o lugar sagrado. Jesus os expulsa com duas citações proféticas, uma de Isaías e outra de Jeremias. Na segunda parte, se diz simplesmente que Jesus “ensinava todos os dias”: a naturalidade de sua presença no templo e a serenidade de sua atividade de mestre faz ressaltar o contraste entre os chefes e o povo. De fato, enquanto o povo lhe escuta e lhe segue, os chefes buscam um pretexto para condenar-lhe a morte, ainda que não saibam como fazer.        A Palavra de Jesus é, uma vez mais, “sinal de contradição”, que revela os pensamentos secretos dos corações e distingue os crentes dos incrédulos.

 

 

1 Mc 4,36-37.52-59 (Purificação e dedicação do Templo) O texto de hoje conta a purificação e a nova consagração do templo depois das primeiras vitórias de Judas Macabeu (vv.36ss). Após o lamento e o luto pela desolação à que havia sido reduzido o santuário, decidem o que vão fazer e se procede aos trabalhos de reconstrução. Por último, chega o momento do rito. Pela manhã oferecem sacrifícios sobre o altar reconstruído, consagrado de novo com cantos e músicas (vv52-54). O povo se prostra em adoração dando graças ao Senhor (v.55) e prosseguem os ritos durante oito dias (v.56). O templo foi renovado por completo e foi cancelada a vergonha da dominação pagã (vv.57ss). Judas estabelece que a festa se celebre a cada ano, durante oito dias, com alegria (v.59).

 

1 Cr 29,10-13 (Só a Deus a honra e a glória) Este intenso cântico de louvor, que o 1º livro das Crônicas põe nos lábios de Davi, faz-nos reviver a explosão de alegria com que a comunidade da antiga aliança saudou os grandes preparativos feitos com vista à construção do templo, fruto de um compromisso conjunto do rei e de muitos que tinham trabalhado com ele. Como que competiam em generosidade, porque isto exigia uma morada que não “se destina a um homem, mas ao Senhor Deus” (Ibid,v.1). Ao reler aquele acontecimento, séculos após, o Cronista intui os sentimentos de Davi e de todo o povo, a sua alegria e admiração por quantos tinham oferecido a sua contribuição: “O povo alegrava-se com as suas oferendas voluntárias, pois era de coração generoso que as faziam ao Senhor. O próprio rei Davi sentiu alegria” (Ibid,v.9). Este é o contexto em que nasce o Cântico. Mas ele só considera brevemente a satisfação humana, para pôr a glória de Deus imediatamente no centro da atenção: “A Vós, Senhor, a grandeza… a Vós, Senhor, a realeza…”. A grande tentação que está sempre à espreita, quando se realizam obras pelo Senhor, é a de nos colocarmos a nós mesmos no centro, como se nos sentíssemos credores de Deus. Davi, pelo contrário, atribui tudo ao Senhor. Não é o homem, com a sua inteligência e a sua força, o primeiro artífice de quanto se realizou, mas sim o próprio Deus (…) (João Paulo II 6 de Junho de 2001).

 

 

 

MEDITAÇÃO: Os documentais e as adaptações dos relatos evangélicos favorecem a criação de uma imagem adocicada e desbotada da atividade pública de Jesus, uma imagem que nos foi transmitida mais pelo costume que pela tradição. Surpreende-nos que Lucas, o mais dócil dos evangelistas, mostre em Jesus, sem sombra de dúvida, uma atitude firme e inclusive rude, numa decisão que desorienta seus adversários e os reduz ao silêncio. Manter-se fiel à Palavra, sem ceder a contendas, impõe decisões difíceis: o Reino dos céus se conquista com a violência, disse Mateus (11,12) e é, exatamente Lucas que afirma, no momento decisivo, a necessidade de não subtrair-se ao combate: “Pois agora, o que tem bolsa que a tome, e o mesmo o que tem alforje, e o que não tem espada que venda seu manto e a compre” (22,36). Impressiona-nos Judas Macabeu, que consagra o templo quase com as mãos ainda sujas de sangue dos inimigos. Também nos impressiona Jesus quando não vacila em meter-se contra os poderosos, sabendo que também o povo lhe dará a costas, em seguida. É preciso coragem e força para manter posições impopulares, porém ditadas pela consciência e pelo Evangelho. É preciso discernimento, humildade e um prolongado trato com a Palavra de Deus para conjugar o rigor dos princípios com a atenção às pessoas.

 

ORAÇÃO: Senhor, faz-me forte. Faz com que eu não mascare a minha covardia com a mansidão, que não confunda o respeito às opiniões alheias com a incapacidade de dar testemunho do Evangelho. Concede-me o discernimento necessário para reconhecer o que é sagrado, porque Tu o tens querido, distinguindo-o do que nós temos revestido de um caráter sagrado, porque assim convinha a nossos interesses humanos. Concede-me a coragem de falar, quando é necessário e de calar quando é bom fazê-lo, sem que minha palavra e meu silêncio estejam guiados pelo medo ou pelo desejo de obter vantagens para mim. Guia-me, Senhor, em todo instante de minha vida e em todo lugar, porque o mundo inteiro é sagrado para Ti, como, e muito mais que os templos ou as igrejas.

 

CONTEMPLAÇÃO: A oração autêntica é oração da Igreja: uma oração sincera opera algo na Igreja e é a Igreja mesma que ora, porque o Espírito Santo, que a anima, é, também, o que, em cada alma, “intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Esta é a verdadeira oração, porque ninguém pode dizer: “’Jesus é Senhor’ se não está movido pelo Espírito Santo” (1 Cor 12,3). Que seria da oração da Igreja se não fosse dom dos que amam com um grande amor ao Deus que é amor? O dom total de nosso coração elevado a Deus no estado mais acessível a nós, é o grau mais alto da oração. As almas que o tem alcançado constituem verdadeiramente o coração da Igreja: nelas vive o amor sacerdotal de Jesus. Difunde em outros corações o amor divino que as possui e colaboram assim à perfeição de todos. Tudo é unitário para as almas bem-aventuradas que têm chegado à unidade profunda da vida divina: repouso e ação, contemplar e atuar, calar e falar. Enquanto estamos a caminho, e mais ainda enquanto a meta está longe, permanecemos sob a lei da vida temporal e, sem dúvida, estamos seguros de que, no Corpo Místico, a vida divina em plenitude chegará a ser realidade para nós em virtude do mútuo e recíproco progredir dos membros. As formas tradicionais de oração também são necessárias, e devemos participar no culto público, tal como o estabelece a Igreja, para que nossa vida interior se sinta estimulada, permaneça em seu justo equilíbrio e se expresse do modo adequado. O louvor solene de Deus deve ter seus santuários na terra, para ser celebrado com toda a perfeição da qual os homens são capazes. Neles e em nome de toda a Igreja, pode subir ao céu, agir sobre todos os membros, manter desperta a vida interior e estimular seu esforço fraterno (Edith Stein).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Minha casa há de ser casa de oração” (Lc 19,46)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL A Igreja tem como única missão fazer presente a Cristo em meio dos homens. Deve anunciá-lo, mostrá-lo, dá-lo a todos. O resto está de sobra. Sabemos que não pode faltar a esta missão. A Igreja é e será sempre, com toda verdade, a Igreja de Cristo: “Eu estou convosco até o fim do mundo”. (Mt,28,20). Mas, é urgente que o que a Igreja é em si mesma o seja também em seus membros. O que ela é para nós deve ser também por meio de nós. Também nós devemos ser anunciadores de Cristo, deixando-o aparecer continuamente através de nosso ser. Tudo isso é algo mais que uma obrigação; é, podemos dizer, uma necessidade orgânica. Respondem sempre a isso nossos atos? Anuncia a Igreja, verdadeiramente, a Jesus Cristo através de nós? (…). Nossa mensagem há conservado a pureza dos primeiros anunciadores? Nem por isso está sempre, necessariamente, iluminada e livre de considerações humanas um zelo ativo e sincero. A fé de quem procede pode não ser suficientemente pura (…). Creiamos e sustentemos depois, obras de todo tipo, e cada uma delas responde a uma necessidade indiscutível. Estão as técnicas para cristalizar, técnicas que, portanto, temos que conhecer antes de tudo (…). Há uma imponente variedade de tarefas especializadas que requerem dotes adequados e requerem entrega, obscura ou brilhante. Todas essas coisas talvez sejam necessárias. Sem dúvida, temos de estar atentos sempre a apresentar a Igreja – e antes de tudo a compreendê-la – em sua verdade total. Na Igreja e através dela nos preocupamos constantemente por escutar aquele a quem ela anuncia, de remontarmos até aquele que é a única razão de sua existência. Cada um de nós é membro do único Corpo. Cada um de nós, no modesto setor em que se move, é a Igreja. A Igreja deve anunciar o Evangelho por meio de cada um de nós; deve fazer brilhar sua luz aos olhos de cada homem que vem a este mundo, como o candelabro que sustenta a tocha. (H. de Lubac, Meditazioni sulla Chiesa, Encuentro Ediciones, Madrid).

 

 

 

SÁBADO,  – 33ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 12,46-55 (Os verdadeiros parentes de Jesus) Jesus havia iniciado há tempo sua atividade publica e messiânica: se encontrava num estágio mais além do círculo familiar, que podia limitar ou condicionar sua obra. Nem sequer lhe acompanhava sua mãe. Jesus não havia renegado os seus; tratava-se, simplesmente, de que fora de seu ambiente podia sentir-se e ser totalmente livre. Os vínculos naturais da família ou de amizade pertencem já a um plano anterior: são relativos, secundários. Neste sentido devemos compreender as palavras de Jesus (vv.48-50), de nenhum modo ofensiva com sua mãe ou seus parentes. Jesus situa as coisas e as pessoas na perspectiva de Deus e de seus desígnios. Marcos se fixa no detalhe do olhar de Jesus pousado sobre seus discípulos na hora de falar de sua nova família. É coisa sabida que o evangelista Mateus mostra preferência pelo tema do discipulado, e por isso, ao sublinhar o gesto da mãe de Jesus, disse qual é a verdadeira família de Jesus: não já a da carne e a do sangue, mas a formada segundo o Espírito, que faz semelhantes os corações, que abre à escuta da Palavra, a renúncia a nós mesmos, à fidelidade de um seguimento de Jesus absoluto e gozoso, comparável à alegria do mercador de pérolas preciosas que adquire uma de grande valor. Jesus mesmo é o primeiro em observar a renúncia que impõe a seus seguidores; renúncia aos sentimentos mais naturais, às tendências mais fortes, aos impulsos mais legítimos quando esse sacrifício sirva para a difusão do Reino.

 

 

Zc 2,14-17 (O apelo aos exilados) – Este oráculo data provavelmente do ano 519 a.C, quando se iniciou a reconstrução do templo de Jerusalém, enquanto alguns israelitas estão ainda longe da pátria e afloram vigorosas esperanças de renascimento. Estes quatro versículos se encontram no centro da terceira das oito visões oraculares de Zacarias. O texto é claramente festivo, e ressoa nele uma das convicções e experiências que figuram entre as mais firmes de Israel: a presença do Senhor em meio de seu povo, sua morada no templo, como em sua casa. A mensagem confirma a fé, injeta esperança, fortalece uma atitude, pois o Senhor se apresenta no templo, garante uma morada estável, pré-anuncia sua própria disponibilidade a uma acolhida universal, exorta, de uma parte, à alegria na forma de exultação e, por outra, à contemplação silenciosa de sua presença.

 

Lc 1,46-50 (O cântico de Maria) Espontaneamente, Maria, para expressar sua oração utiliza fórmulas de “salmos” que sabe de cor. Todas as frases do “Magnificat” são retiradas do Antigo Testamento. Vemos aqui o clima habitual da oração de Maria… “Minha alma exalta o Senhor, meu espírito exulta em Deus meu Salvador” (1Sm 2,1): Gozo, exultação. Um gozo que vem de Deus. “Ele se inclinou sobre sua humilde serva. (1Sm 1,11): Pequenez, pobreza, humildade. Quando a mãe de Deus vivia na terra, era uma humilde doméstica. Não habitava em Roma, a cidade triunfante, nem em Atenas, a cidade sábia, nem em Babilônia, a cidade soberba, nem mesmo em Jerusalém, a cidade santa… mas, no lugar mais escondido de um vilarejo desconhecido… Pois bem, Maria passou toda sua vida “no meio de um povo”. Entre os povos estão os notáveis, as pessoas da elite, logo vem as pessoas de media condição e, por fim, os humildes, aqueles de quem ninguém fala. Maria era destes! E Deus se inclinou sobre ela. “Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Gn 30,13): Sabe-se pequena e humilde, porém, não tem estreiteza de espírito. Longe disso, o olhar de Maria é amplo e de longo alcance. Esta mulher insignificante pensa na humanidade inteira. As colinas que rodeiam sua aldeia não podem cerrar-lhe os olhos ao seu horizonte… “O Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é seu nome”. As maravilhas de Deus continuam também hoje; com frequência, encobertas. Temos que detectá-las no profundo do cotidiano, do banal. “Seu amor se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (Sl 103,17): Deus é amor. É preciso abrir-se a esse amor. Deus não o impõe. (…) (Noel Quesson).

 

 

MEDITAÇÃO: Só os livros apócrifos imaginam e se estendem na descrição da apresentação de Maria no templo de Jerusalém. Desse modo, o acontecimento da “apresentação” não aparece em nenhum texto do Novo Testamento, e além do mais, é improvável o que certa tradição lhe atribui, a saber: confiar uma menina ao clero de Jerusalém, em um templo inacessível às mulheres… O símbolo da apresentação de Maria no templo, por conseguinte, equivaleria à consciência da identidade de Maria e de sua função junto ao Messias, que vai crescendo pouco a pouco: primeiro, por parte de seus familiares – ou seja, a dos outros -; em seguida, por parte da própria Maria e, por último, por parte dos de todos os crentes. O sentido essencial é este: Maria está sempre na presença do Senhor, totalmente dedicada a servir, peregrina no conhecimento.

 

ORAÇÃO: Maria, mulher casta, florescida à luz do amor do Senhor, socorre-nos no trabalho de tirar os véus que obscurecem a pureza de nosso coração para ver a Deus; mulher humilde, crescida à sombra do Onipotente, guia-nos à alegria do testemunho de termos encontrado ao Senhor. Virgem orante nas liturgias de teu povo, peregrina ante Deus em seu templo santo, presença materna na igreja em oração, acompanha-nos quando nos apresentemos ante a Santíssima Trindade para implorar misericórdia e contemplar seu rosto. Templo santificado pelo Espírito deposita nos santos braseiros os grãos de incenso de nossos sacrifícios e as luzes acesas de nossas esperanças, mediante tua caridade agradável a Deus. Serva, presente em toda festa de fraternidade, acolhe a oração de teus servos.

 

CONTEMPLAÇÃO: Preocupai-vos mais, irmãos meus, preocupai-vos mais, por favor, do que disse o Senhor, estendendo a mão sobre seus discípulos: Estes são minha mãe e meus irmãos, e quem fizer a vontade de meu Pai, que me enviou, é para mim um irmão, irmã e mãe (Mt 12,49-50). Acaso não fazia a vontade do Pai a Virgem Maria, que na fé creu, na fé concebeu, escolhida para que dela nascesse a salvação entre os homens, criada por Cristo antes que Cristo fosse nela criado? Fez sem dúvida Santa Maria a vontade do Pai; por isso, é mais para Maria ser discípula de Cristo que haver sido mãe de Cristo. Mais felicidade lhe dá o ter sido discípula de Cristo que o ter sido sua mãe. Por isso era Maria bem-aventurada, pois antes de dar a luz levou em seu seio o Mestre. Olha se não é certo o que digo. Enquanto caminhava o Senhor com as multidões que lhe seguiam, fazendo divinos milagres, uma mulher gritou: bem-aventurado o ventre que te levou! Mais, para que não se buscasse a felicidade na carne, que replicou o Senhor? Bem-aventurado, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam (Lc 11,27-28). Por isso era bem-aventurada Maria, porque ouviu a Palavra de Deus e a guardou: guardou a verdade na mente melhor que a carne em seu seio. Verdade é Cristo, carne é Cristo; Cristo Verdade estava na mente de Maria, Cristo carne estava no seio de Maria: mais é o que está na mente que o que é levado no ventre. Santa é Maria, bem-aventurada é Maria, porém melhor é a Igreja que a Virgem Maria. Por quê? Porque Maria é uma porção de Igreja, um membro santo, um membro excelente, um membro supereminente, porém, ao fim, membro de um corpo inteiro. E, se é parte do corpo inteiro, mais é o corpo que um de seus membros… (Agostinho de Hipona).

 

 

AÇÃO: Permanece longo tempo na Igreja ante uma imagem de Maria e repete hoje:

“Bem aventurado o que cumpre a vontade de Deus”

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL  “Não posso volver para Ti meu olhar, Senhor Jesus, sem contemplar aquela que está sentada à tua direita, aquela que Te formou e Te glorificou e que Te fez reinar sempre nela de maneira tão admirável e perfeita. Saúdo-a e venero, depois de Ti, como a tua mãe gloriosa, mãe de vida e de amor e como a minha soberana senhora e mãe amabilíssima. Honrar a santa mãe de Deus com nosso espírito e pensamentos, considerando a santidade de sua vida e a perfeição de suas virtudes, tratando de reproduzi-las em nós, especialmente sua humildade, sua caridade, seu amor puro, seu desprendimento de todas as coisas, sua pureza divina. Por fim, podemos honrar a Virgem com alguma devoção com o santo rosário, nunca se repetirá demasiado a Ave Maria, porque jamais se proclamará suficientemente a memória do mistério da encarnação do Filho de Deus na santa Virgem Maria” (São João Eudes).

 

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