LECTIO DIVINA DE 28 DE OUTUBRO À 03 DE NOVEMBRO DE 2018

DOMINGO, – 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Marcos 10,46-52 (O cego à saída de Jericó) Quem é Jesus? E em consequência, quem é o discípulo? Estas perguntas constituem o eixo do Evangelho de Marcos; os diferentes episódios do caminho para Jerusalém permitem intuir de um modo cada vez mais claro a resposta. O texto de hoje, que precede ao relato da entrada de Jesus na cidade santa, nos oferece importantes indicações. Bartimeu é um cego que está sentado a mendigar no caminho, às margens da vida. A notícia da passagem de Jesus faz renascer a esperança nele e grita para atrair sua atenção, com o título messiânico de «filho de Davi». Deste modo professa sua crença que o Messias está presente e pode salvar-lhe. Confia-se todo à sua misericórdia: “Tem compaixão de mim!”. As reprovações de muitos não o fazem calar: Bartimeu sabe que se deixar passar esta ocasião única não lhe restará outra coisa que recair na obscuridade definitiva de uma simples sobrevivência. Então «Jesus se deteve» (v.49): Ele é o que pode entender até o mais profundo o sofrimento humano e a solidão que o acompanha; conhece o vislumbre de fé que já aponta no coração daquele cego e vem dar-lhe a luz plena. «Chamando-o». O entusiasmo do pobrezinho é comovedor: dá um salto esquecendo-se de toda prudência. Também a ele, como aos filhos de Zebedeu, se dirige a mesma pergunta: «Que queres que faça por ti?» (v.51; cf. v.36). Jesus pode transbordar o desejo mais profundo do coração do homem; o discípulo, no diálogo que mantém com ele, deve tomar consciência do que realmente quer e assumir sua responsabilidade. À súplica do cego corresponde o milagre, visto que Jesus reconhece essa fé que constitui o âmbito no qual se manifesta seu poder divino. E a fé leva à visão ao que antes havia crido sem ver, e depois, uma vez confirmado pela experiência viva do encontro com Jesus, se faz discípulo seu e decide seguir-lhe pelo caminho que lhe leva para a paixão e a glória (v.52).

 

 

Jr 31,7-9 (O livro da consolação; A restauração prometida a Israel) – Este oráculo se encontra no chamado «Livro das consolações» (30-33) de Jeremias, no qual o profeta dá voz à palavra de consolo que o Senhor dirige ao povo, dilacerado pela divisão em dois reinos e chagado pelo sofrimento do exílio. Yahweh promete a cura, a restauração, um novo incremento e o envio de um príncipe que será verdadeiro mediador e garantia da aliança (30,17-22). O fragmento de hoje marca o cume da promessa. A boa notícia da repatriação dos exilados prorrompe como um hino de exultação aos que estão convidados a se unir todas as nações, visto que o Senhor quer que todo o mundo conheça sua obra de salvação em favor do povo eleito e participe em sua alegria. Aparece aqui o tema do «resto de Israel», que nos profetas é, ao mesmo tempo, sinal de esperança e advertência: haverá sempre no povo uma parte que se manterá fiel ao Senhor ou voltará a Ele por meio da conversão, e por isso poderá superar todas as tormentas da história (cf.Is 7,3). Agora vem o Senhor a reunir a todo este «resto» da terra do exílio e de toda dispersão, para levá-lo de novo a sua terra. Sua Palavra abre o olhar do coração á visão do retorno de uma multidão de gente não apta para o caminho (v. 8b): há quem não tem olhos para ver o caminho e quem não tem pernas válidas para percorrê-lo, porém Yahweh renovará os prodígios do êxodo (cf. Ex 17,1-7; Is 43,19) para que os seus não padeçam a fé, a fatiga, as asperezas do caminho. Sua afetuosa presença de apoio e consolo é o verdadeiro consolo de quantos «haviam partido chorando», visto que não cessa de rodear a Israel com amor de predileção.         O povo de Deus, confiando neste afeto imutável, não tropeçará nunca no caminho da vida, apesar de suas fraquezas.

 

Hb 5,1-6 (Sacrifício terrestre: no dia de sua carne) – Depois de ter apresentado a Cristo como sumo sacerdote misericordioso (4,14-16), o autor da carta aos Hebreus esclarece o significado e a legitimidade de tal sacerdócio no marco das instituições judias. O serviço sacerdotal é tributado a Deus, em efeito, por um homem, «em favor dos homens», quer dizer, para interceder pelo perdão dos pecados mediante a oferenda de «dons e sacrifícios» (v 1).    Por outra parte, o sumo sacerdote deve ser misericordioso, pois a consciência de suas próprias fraquezas lhe ensina uma justa compaixão pela debilidade e a cegueira espiritual -«ignorância» e «extravio»- dos que se equivocam (vv. 2ss). A importância desta função mediadora é de tal tipo que não pode ser fruto de uma livre iniciativa pessoal: é resposta a um chamado preciso de Deus (v 4). Após ter enumerado as condições requeridas para ser sacerdote, o autor sagrado mostra como responde Cristo perfeitamente a estes requisitos. Já tem falado de sua humanidade real (4,15 e a manifestará ainda nos vv. 7ss): Jesus conhece bem nossas fraquezas, visto «que as tem experimentado todas, exceto o pecado». Agora bem, visto que está livre dele, pode compreender toda sua gravidade e oferecer-se a si mesmo para libertar a nós, pecadores (9,13ss). Mais difícil é demonstrar aos judeus a legitimidade do sacerdócio de Cristo, dado que não pertença à estirpe de Aarão; sem dúvida, as Escrituras atestam também outra modalidade diferente de serviço sacerdotal agradável a Deus, o realizado por Melquisedec, rei de Salém. Referindo-se a este exemplo, o autor da carta cita o Salmo 109,4, onde o Messias prometido é declarado por Deus não só seu filho, mas também sacerdote para sempre, como o foi o rei Melquisedec. Jesus é, por conseguinte, Rei-Messias («Cristo» em grego) e ao mesmo tempo sacerdote, e exerce por isso com toda justiça à mediação entre Deus e os homens que estas duas funções implicavam. Como mediador de uma nova e eterna aliança (9,15), pode redimir-nos dos pecados com a oferenda de seu próprio sangue e conduzir-nos assim á salvação e à glória, segundo a vontade do Pai (2,10).

 

Sl 125/126 (Deus protege os seus) Muitos são os motivos pela alegria do coração de quem reza: a volta dos deportados do desterro, o fim da escravidão, a expectativa de uma nova vida. Para quem nunca sofreu o exílio e teve de abandonar o próprio país por motivos políticos ou religiosos, é difícil compreender o significado de voltar à própria pátria. Que o digam os nossos migrantes brasileiros, principalmente os nordestinos, que são forçados a deixar a própria terra em busca de um trabalho melhor que lhes garanta o sustento da família ou os cristãos perseguidos que tiveram de fugir para um local onde pudessem exercer sua fé. O salmista canta também a alegria de uma colheita feliz, que significa pão, vida e saúde para todos. Assim como não pode faltar o pão na mesa para o nosso sustento, não pode faltar a nossa liberdade, pois somos livres, pela graça de Deus, de todo tipo de escravidão. A vinda de Cristo é sementeira e colheita nova. “Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!’? Pois eu vos digo: levantai os olhos e vede os campos, como estão dourados, prontos para a colheita! Aquele que colhe já recebe o salário; ele ajunta fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. Pois nisto está certo o provérbio ‘Um é que semeia e outro é que colhe’: eu vos enviei para colher o que não é fruto do vosso cansaço; outros se cansaram e vós entrastes no que lhes custou tanto cansaço” (Jo 4,35-38). Assim, semeamos o que os outros irão colher, recolhemos o que outros semearam. Sejamos semeadores da boa semente.

Senhor, não posso deixar de pensar na parábola do bom semeador (Mt 13,1-9) e te pedir: lança a semente abundantemente em nossos corações e não permitas que caia à beira da estrada nem em terreno pedregoso, nem entre espinhos, mas que caia em terra boa e possa produzir frutos abundantes. Dá-nos, Senhor, a coragem de caminhar rumo ao mundo novo que desde já construímos, no sofrimento e no suor, mas que um dia faremos a nossa colheita boa. Dá-nos a coragem de nunca desanimar, mesmo que encontremos dificuldades, e embora oprimidos, sejamos sinal de esperança para todos, como foram os mártires do campo de concentração nazista Edith Stein ou Maximiliano Kolbe e tantos outros mártires anônimos, que, diante de ti, foram semente corajosa caída em terra fértil. Que nunca me canse de fazer o bem. Amém.

 

 

MEDITAÇÃO: Quantas vezes nossa história pessoal ou a consideração das vicissitudes humanas nos produz a angustiosa impressão de um bamboleio de cegos! Rodeados por uma densa neve de incertezas e contradições, incapazes de ver sentido algum ao que estamos vivendo, acabamos por desanimar-nos e retiramos às margens da vida para mendigar algumas migalhas aos mais afortunados, que parecem percorrer o caminho sem obstáculos. Somos então nós esses pobres a quem a Palavra vem a levantar de novo oferecendo-lhes a Boa Notícia: Jesus atravessa os caminhos do homem, tem compaixão de nossas fraquezas, compartilha nossa debilidade (cf. 2ª leitura). Felizes nós se, tocados pelo anúncio, somos capazes de gritar seu nome e invocar sua misericórdia. O amor não decepcionará nossas expectativas. Jesus, sem dúvida nos interpela, nos pergunta que é que queremos de verdade. Curar, «ver», é um compromisso, temos de saber. É um compromisso para nossa fé, que deve crescer para abrir-se ao milagre, e uma tarefa para nosso futuro. O Senhor é a luz da vida e resplandece em nossa escuridão para fazer de nós seres vivos, para levantarmos do abatimento, do estancamento de quem se acostumou a uns limites estreitos. Jesus, que é o Caminho, que traça a nós, exilados na terra estrangeira da infelicidade, o caminho para voltar à pátria de origem, à comunhão com o Pai: este é o «caminho reto» pelo qual não tropeçará o que lhe segue (cf. 1ª leitura). Contudo, é necessário passar pela cruz, pela morte a nós mesmos. Queremos ver de verdade e, uma vez curados, seguir-lhe? Que o Senhor ilumine os olhos de nosso coração «para que possamos compreender a que esperança nos tem chamado» e nos dê a alegria e a força para percorrer após Ele o caminho que conduz a essa esperança.

 

ORAÇÃO: Ó Cristo, nós te confessamos «Deus de Deus, luz de luz»: vem luminar nossas trevas. «Por nós os homens e por nossa salvação», tu, Filho eterno de Deus, desceste à terra do exílio de nosso pecado: vem ainda a abrir-nos o caminho reto do retorno à comunhão com o Pai. Tens assumido a frágil carne do homem para poder compadecer-te de nossas fraquezas e oferecê-las a Deus em teu sacrifício de amor: ajuda-nos a acolher a misericórdia que salva. Sabes que nós preferimos com frequência permanecer sentados mendigando coisas de pouco valor, antes que esperar uma vida em plenitude e fazer frente cada dia ao compromisso de gastá-la em teu seguimento. Jesus, Filho de Deus, tem piedade de nós. Queremos sanar de verdade, «ver» e caminhar contigo, aceitando a cruz e desejando a casa do Pai, aonde Tu nos conduz com vigor e suavidade.

 

CONTEMPLAÇÃO: Amai ao Senhor. Amai, digo, esta luz tal como amava com amor imenso o que fez chegar a Jesus seu grito: “Filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim!”. O cego gritava assim enquanto passava Jesus. Tinha medo de que passasse e não lhe devolvesse a vista. Com que ardor gritava? Com um ardor tal que, enquanto o povo tentava lhe fazer calar, continuava gritando. Sua voz triunfou sobre a dos que lhe opunham e retinham o Salvador. Enquanto a multidão produzia estrépito e queria impedir-lhe de falar, Jesus se deteve. Amai a Cristo. Desejai essa luz que é Cristo. Se aquele cego desejou a luz física, muito mais deveis desejar vós a luz do coração. Elevemos a Ele nosso grito não tanto com a voz física como com um reto comportamento. Tentemos viver santamente, redimensionemos as coisas do mundo. Que o efêmero seja como nada para nós. Quando nos comportemos assim, os homens mundanos nos censurarão… Nos criticarão certamente  e, ao ver-nos desapreciar estas coisas naturais, estas coisas terrenas, nos dirão: «Por que queres sofrer privações? Estás louco?». Esses são aquela multidão que se opunham ao cego quando este queria fazer ouvir seu chamado. Existem cristãos assim, porém nós tentamos triunfar sobre eles, e nossa vida tem de ser como um grito lançado atrás de Cristo. Ele se deterá, porque está imutável. Para que a carne de Cristo fosse honrada, «o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jn 1,14a). Gritemos, pois, e vivamos retamente (Santo Agostinho).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Que ilumine os olhos de vosso coração» (Ef 1,18)

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Neste episódio sobressai de modo evidente a lógica do amor. Cristo chega e manda chamar Bartimeu. O cego abandona seu manto, ou seja, tudo que tinha, e dando um salto se dirige para o “Filho de Davi”. O cego, que quando gritava antes era repreendido pelos discípulos e pelas pessoas que rodeavam o Senhor para que calasse, quando dizem que Ele o chama, se confia totalmente a este chamado. Podia ser muito bem um momento de insana diversão por parte do povo, como provavelmente já havia vivido Bartimeu. Mas esta alusão ao salto que deu para Jesus indica um clima festivo. É uma mostra da certeza interior do cego de que aquele que está passando junto a ele é o Messias, o rei da justiça, que pode tomar-lhe consigo em seu caminho para Jerusalém. E a pergunta que lhe faz Jesus é desconcertante: “Que queres que faça por ti?”. Existe uma autêntica angústia no homem quando pensa que, se conhecer a Deus, deverá servir-lhe, deixar de ser livre. Porém, quando o cego, expressão de toda pobreza do homem, está frente a Cristo, reconhecido como filho de Davi, é Ele, o Messias, o que pronuncia a frase típica de todo servo quando o chama seu Senhor: “Que queres que faça por ti?”. Deus desce e sai ao encontro do homem que grita, apresentando-se a este como humilde servo (M.I.Rupnik, El hombre, ícono Del creador, revelación del amor).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEGUNDA-FEIRA,  – 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 13,10-17 (Cura de uma mulher encurvada, em dia de sábado) – O evangelista Lucas nos propõe o relato de um milagre, um dos muitos que fez Jesus e, sem dúvida, um milagre singular, em virtude de uma circunstancia cronológica que o torna problemático, quase inaceitável para alguns contemporâneos seus. Este milagre desencadeia, em efeito, a famosa polêmica em torno ao sábado, uma polêmica que já conhecemos por outras pá­ginas evangélicas (cf Lc 6,6-11; 14,1-6). A beneficiada é uma mulher que um espírito maligno mantinha enferma desde fazia dezoito anos (cf. v.11). Lucas se compraz em acentuar esta especial atenção de Jesus com um membro de uma categoria débil da sociedade daquela época, precisamente as mulhe­res. Jesus não só a cura de sua enfermidade, mas que a defende frente aos ataques de seus adversários. Jesus é, em efeito, o Messias dos pobres, dos últimos, dos marginados e, enquanto tal, a Lucas lhe gosta apresentar-lhe também nesta página. O chefe da sinagoga se indigna – diz o relato de Lucas -, e esta indignação desencadeia a polêmica entre ele e Jesus. Porém, como sempre, a polê­mica conduz a uma clarificação, uma clarificação que também necessitamos em nossos dias. A questão é sempre a mesma: que critérios devem inspirar os fatos, os compromissos e as opções no dia do Senhor? Frente a um legalismo míope e mes­quinho, Jesus afirma que é preciso viver segundo o espí­rito da lei e não deixar-se levar só pela letra. Até os mandamentos mais nobres de uma lei como a de Moisés, que também é de origem divina, se não passam pelo crivo de um espírito novo, o espírito evangéli­co, correm o risco de esconder intenções mesquinhas e triviais hipocrisias para o cristão, para o discípu­lo de Jesus. Por isso, Jesus chama de «hipócritas» a seus in­terlocutores, pretendendo desmantelar sua intransigência à hora de aplicar a lei aos outros, enquanto que se mostram hábeis para encontrar exceções quando se trata de aplicar-se a lei a eles mesmos. Jesus não po­de calar frente à tamanha hipocrisia.

 

 

Rm 8,12-17 (A vida no Espírito) – A reflexão teológica de Paulo se desenrola em uma linha nova, ainda que sempre intimamente conexa com o início do capítulo oito. O apóstolo já não se conten­ta em afirmar que o crente em Cristo, mediante o batismo, vive uma vida nova pelo poder do Espírito que habita nele e lhe anima, mas especifica ainda que esta vida é uma vida de “filhos de Deus” (v.16): é a filiação divina que caracteriza agora de uma maneira de­cidida ao cristão. Trata-se, certamente, de uma filiação adotiva, porém real, autêntica, que deve ser enten­dida como participação na vida de Deus pela mediação de Cristo Jesus, Filho unigênito do Pai. Como o apostolo, também nós estamos convidados, em primeiro lugar, a contemplar esse mistério, o mistério da vida de Deus, vida trinitária transbordante e difusiva. Esta vida é o mistério da vida de Jesus, filho unigê­nito do Pai, e é também a vida dos crentes, sinal e reflexo da vida de Deus. Precisamente porque somos filhos, não só estamos habilitados, mas também convidados a comportar-nos com Deus com a liberdade e a confiança dos filhos, por isso podemos gritar: «Abba” (v.15), que, segundo o teste­munho dos evangelhos, é a palavra com a qual Jesus se dirigia a Deus. A tradução exata dessa invocação não é «pai», Mas «papai», que expressa em termos, ainda mais claros a extrema confiança e ternura que caracteriza a nossa relação filial com Deus. «E se somos filhos, também somos herdeiros» (v. 17): a reflexão de Paulo se encerra justamente com esta preci­são ulterior da riqueza, mais ainda, da fortuna ab­solutamente nossa, que supõe ser filhos de Deus. Em virtude deste dom nos convertemos em titulares de outro beneficio, a saber: o de compartilhar com Jesus a herança da vida eterna, a plena e definitiva participação na vida divina.

 

Salmo 67/68 (A gloriosa epopéia de Israel) Considerando a extensão deste Salmo, optei por escolher apenas alguns versículos que o sintetizam, mas destaco a importância de ler e meditar todo seu conteúdo. O Livro dos Salmos, em sua totalidade, aborda a psicologia humana, tratando de sentimentos profundos e, muitas vezes, distintos, como o amor e a raiva. Toda leitura nos acrescenta algo sobre nossa essência. Este Salmo é uma história das aventuras do povo de Israel, uma recordação da escravidão e do tempo em que o povo permaneceu no deserto, à espera da terra prometida por Deus. Todos somos convidados a festejar com eles e a celebrar a vinda de Jesus, que nos conduzirá ao Céu, onde não há tristezas, e sim felicidade eterna.

Senhor, sinto no meu coração o desejo de te louvar e agradecer. Mas, não quero fazê-lo sozinho, mas com os outros, compartilhando a alegria da fé e fazendo da minha família e comunidade um lugar verdadeiramente de alegria e festa. Tenho saudades das profissões, quando todos juntos vamos para a Igreja, cantando; sinto falta da festa, do mês de maio, nas celebrações festivas da comunidade. Senhor, não deixa que meu coração se feche ao teu amor, mas abre-me cada vez mais para ti, e que todos possam ser meus irmãos de canto e de festa. Não são festas mundanas que me atraem, mas as tuas festas. Quero permanecer silencioso para contemplar tua presença que passa no mundo e convida a todos a te amar. O teu nome deve triunfar sobre todo o mal e ser presença de amor e bem. Senhor, eis-me aqui, quero ser presença viva na minha comunidade, animar os grupos de oração, ser conquista; não quero ficar de braços cruzados, mas ser dinâmico e ativo, porque o desejo de ti me faz sentir a força do teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: Podemos entrever certa analogia entre as duas leitu­ras que estamos meditando. Por um lado, Paulo nos convida a viver segundo o Espírito, a superar o espírito de escravos, a viver na liberdade que nos tem dado o Es­pírito, a gritar: “Abba!”, quando falemos com Deus. Em efeito, nos consideramos, “o somos realmente”,  filhos de Deus (cf 1 Jo 3,1). Por outro lado, Jesus nos dá exemplo de como viver como filhos, de como manifestar nossa verdadeira liberdade, de como tender a uma cura perfeita confiando totalmente na ajuda de Deus. Comparando este duplo, ainda que unitário, ensinamento com nossa vida, com a experiência de todos os dias, não podemos deixar de sentir-nos provocados a realizar um exame de consciência, uma confrontação entre o ideal e a realidade de nossa vida, entre a nova lei do Espírito que dá a vida e as opções diárias que, com frequência deixam bastante a desejar. Essa confrontação se, por uma parte, nos conduz a constatar a grande distancia  que media entre nosso ser livres com a liberdade dos  filhos de Deus e nosso fazer-nos escravos de alguns «amos» que conseguem exercer direitos sobre nós, por outra não pode deixar de desembocar em um senti­mento de gratidão e de estupor, pelo simples fato de que frente a nossa debilidade e nossa impotência para viver como verdadeiros filhos de Deus se ergue  sempre o amor misericordioso daquele que é nosso Pai e deseja ser invocado por nós como “papai». Ao querer atualizar este discurso, acode de una ma­neira espontânea a nossa mente advertir que o mundo no qual hoje vivemos espera com impaciência, sobretudo dos cristãos, um testemunho vigoroso sobre a verdadeira liberdade, que marca a toda pessoa humana consciente de sua dignidade, antes ainda de caracterizar a cada cristão.

 

ORATIO: Pai, tu és meu criador, porque, na plenitude de teu amor, pensastes em mim desde sempre e me­ gerastes no tempo. Tu és meu guia, porque com tuas intervenções evidentes ou inescrutáveis me conduzes através do discernimento a optar pelo bem. Tu és minha força, porque com tua firmeza e delicadeza me impulsionas para a realização de meu ser pessoal e original. Tu és meu refugio, porque com tua compaixão infinita suportas meus erros. Tu és meu pedagogo, porque, através da experiência dolorosa de minhas carências, me levas como “sobre asas de águia». Tu és minha providencia, porque te fizestes e te fazes presente em todas minhas necessidades e crises. Tu és meu farol, porque meus passos, frequentemente, inseguros e lentos, sempre encontram acesa a lâmpada de tua Palavra. Tu és minha autoridade, porque com a autoridade de teus preceitos me ensinas os valores e os ideais que dão sentido à vida. Tu és meu Pai.

 

CONTEMPLATIO: E, como o bem-aventurado apóstolo nos ensina, “e quanto a nós, não temos recebido o espírito do mun­do, mas o Espírito que vem de Deus, para que conheça­mos o que Deus gratuitamente nos ha dado» (1 Cor 2,12); e o mesmo Deus só aceita como culto piedoso o ofere­cimento do que ele nos ha concedido. E que podere­mos encontrar no tesouro da divina largueza tão adequado a honra da presente festividade como a paz, o primeiro que os anjos pregaram no nasci­mento do Senhor? A paz é a que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e origina a unidade, é o des­canso dos bem-aventurados e a mansão da eterni­dade. O fim próprio da paz e seu fruto específico consis­te em que se unam a Deus os que o próprio Senhor separa do mundo. O apóstolo nos convida a buscar esta paz quan­do disse: “Assim pois, quem mediante a fé fomos re­dimidos, estamos em paz com Deus» (Rm 5,1). Esta fra­se, em sua brevidade, resume aquilo à qual tendem quase todos os mandamentos, porque ali onde está a ver­dadeira paz não pode faltar nenhuma virtude. Em efeito, caríssimos, estar em paz com Deus significa querer o que ele ordena e não querer o que ele proíbe. Se a amizade humana exige afinidade de sentimentos e har­monia de vontade, e se a diversidade dos modos de ser não pode conduzir nunca a uma concórdia estável, como poderemos ser partícipes da paz de Deus bus­cando nosso prazer nas coisas que sabemos que lhe ofendem? Não é esse o espírito dos filhos de Deus […]. É grande o mistério do amor de Deus. Trata-se de um dom que supera a todos os dons. Deus chama o homem filho seu, e o homem se dirige a Deus chamando-lhe Pai […]. Por isso, “os que não nascem por via de geração humana, nem porque o homem o deseje, mas que nascem de Deus” (Jo 1,13), ofereçam ao Pai seus corações de filhos unidos na paz; todos os homens convertidos em filhos adotivos se reúnem naquele que é o primogênito nesta nova criação (Leão Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Os que se deixam guiar pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus» (Rm 8,14)

                               

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O CV II falou de liberdade, referindo-a a muitas coisas. Liberdade é uma palavra complexa. Deve ser estuda­da com séria e serena diligência, se não se quer apagar sua luz e convertê-la em termo de confusão equivoco e perigoso […]. Simplificando bastante a imensa e complexa matéria relati­va à liberdade, podemos observar primeiro, que o Con­cilio não descobriu em absoluto ou inventou a liberdade. Revindicou para a consciência pessoal seus direitos inalienáveis, a sufragou com a magnífica teologia do Novo Tes­tamento, proclamou-a para todos no âmbito da so­ciedade civil. Ou seja, que sustentou, além da existência, o exercício da liberdade em duas direções principais: di­reção pessoal, admitindo um alto grau de autonomia para todo homem, reconhecendo seu domínio à consciência, regra próxima e indeclinável da ação moral, assim tanto mais necessitada de ser iluminada pela verdade e sustentada pela graça, quanto mais tende a determinar-se por si só; e a direção social, exigindo uma verdadeira e pública liberdade religiosa, em um clima, não obstante, de respeito dos direitos do outro e da ordem pública; e sustentando o «principio de subsidiariedade», o qual, em uma sociedade bem organizada, aponta a deixar a mais ampla liberdade possível às pessoas e aos entes subalternos, e a fazer obrigatório só o que é necessário para um bem importante, que não se pode alcançar de outro modo, e, em geral, para o bem comum. A mentalidade favorecida pelos ensinamentos do Concilio le­va o jogo da liberdade […] ao foro interno da consciência; portanto, tende a temperar a ingerência da lei exterior, porém tende a incrementar a da lei interior, a da responsabili­dade pessoal, a da reflexão sobre os deveres supremos do homem […]. Mas, deveremos ser conscientes, ao mesmo tempo, de que nossa liberdade cristã não nos subtrai à lei de Deus, em suas exigências supremas de humana sensatez, de seguimento evangélico, de ascetismo penitencial e de obediência a ordem comunitária própria da sociedade eclesial.      A liberdade cristã não é carismática, no sentido arbitrário que hoje julgam alguns: «Sois livres, porém não utilizeis a liberdade como pretexto para o mal, mas para servir a Deus» (1 Pe 2,16) (Pablo VI, Discorsi de 9.07.69).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 13,18-21(Parábola do grão de mostarda e a do fermento) Segundo alguns exegetas, as parábolas do grão de mostarda e do fermento expressam a mesma mensagem: o contraste entre o ponto de partida (pequeno e insignificante), e o ponto de chegada, (grande e imponente). Alguém adverte também que o contraste pode ser considerado de dois pontos de vista diferentes: (a) o bem, do lado do que é pequeno: a semente (este seria o ponto de vista de Jesus histórico e, neste caso, se derivaria um convite à confiança, ao valor e a esperança); e (b) o bem, do lado do que é grande: a árvore (e este seria o ponto de vista do evangelista, que conta a parábola atualizando-a para seus destinatários, ou seja, para uma comunidade de fiéis que já está um tanto estendida). Sem dúvida, talvez nos fique ainda algo por descobrir. De fato, Lucas, em seu relato, não insiste, propriamente, no contraste entre a ‘semente pequena’ e a ‘planta grande’, como parecem fazer Marcos e Mateus, mas na idéia do ‘crescimento’. Este revela, para Lucas, a realização de uma profecia, e esta afirmação de Jesus, na pena do evangelista, se converte no anúncio de um cumprimento messiânico.      Na perspectiva de hoje poderia corresponder à expansão do Evangelho entre os pagãos e isto constituiria uma maravilhosa ponte lançada por Lucas entre as duas partes de sua obra (o terceiro evangelho e os Atos dos apóstolos). Com o dom do Espírito e com o dom da pregação apostólica, a Palavra de Deus se difundirá pelo mundo e se propagará entre os homens a única fé em Jesus. Vale destacar que, tanto na parábola, como no ministério público de Jesus, marcado por um começo simples e pobre (situação da Igreja primitiva), com a luz e a força do Espírito, a pequena semente lançada por Jesus começou a crescer, estendeu-se pelo mundo e arraigou no coração dos homens.

 

 

Rm 8,18-25 (Destinados à glóra)Fomos justificados pela graça de Deus por meio da fé, no poder do Espírito. Agora somos filhos de Deus, livres e cooerdeiros de Cristo. Sem dúvida, o que seremos deve ser preparado anteriormente. Sobre esta perspectiva futura se detém agora a reflexão teológica de Paulo. De fato, a primeira relação que estabelece é entre os padecimentos do tempo presente e a glória que um dia se nos revelará (v.18). O contraste é evidente e de fácil interpretação. A vida cristã se desenvolve de fato entre o “já” e o “ainda não”, entre um presente que freqüentemente se caracteriza pelas penumbras da dúvida e as provas da dor, e um futuro que deixa entrever um horizonte de luz e de paz. Não só o cristão, declara o apóstolo Paulo, mas a criação inteira vive e sofre esta impaciente espera da revelação do que serão os filhos de Deus (v.19). Portanto, é toda a ordem criada que partilha com a humanidade, com cada pessoa humana, o mistério pascoal da morte-vida, das trevas-luz, que constitui, agora, a chave com a qual podemos desvendar os mistérios da história. O homem, enquanto criado a imagem e semelhança de Deus, enquanto senhor da ordem criada, está chamado a viver em primeira pessoa -em ocasiões submete-se a infinitos sofrimentos- o drama de uma expectativa que parece não acabar nunca, de um gozo que não parece satisfazer nunca. Isso é o que pretende afirmar Paulo quando escreve: Porque já estamos salvos, ainda que só em esperança (v.24). Como a adoção filial (cf. v.15), também nossa salvação já está adquirida, todavia, ainda esperamos sua plena realização. Nossa tarefa, conclui o apóstolo, consiste em perseverar enquanto esperamos.

 

Salmo 125/126 (A volta do Exílio) – Muitos são os motivos da alegria do coração de quem reza: a volta dos deportados do desterro, o fim da escravidão, a expectativa de uma nova vida. Para quem nunca sofreu o exílio e teve de abandonar o próprio país por motivos políticos ou religiosos, é difícil compreender o significado de voltar à própria pátria. Sabem-no nossos migrantes brasileiros, principalmente os nordestinos, que são forçados a deixar a própria terra em busca de algo que garanta o sustento da família ou os cristãos perseguidos que tiveram de fugir para um local onde pudessem viver sua fé. O salmista canta também a alegria de uma colheita feliz, que significa pão, vida e saúde para todos. Assim como não pode faltar o pão na mesa para nosso sustento, não pode faltar nossa liberdade, pois somos livres, pela graça de Deus, de todo tipo de escravidão. A vinda de Cristo é semeadura e colheita nova. “…Pois nisto está certo o provérbio ‘Um é que semeia e outro é que colhe’: eu vos enviei para colher o que não é fruto do vosso cansaço; outros se cansaram e vós entrastes no que lhes custou tanto cansaço” (Jo 4,35-38). Assim, semeamos o que os outros irão colher, recolhemos o que outros semearam. Sejamos semeadores da boa semente.

Senhor, não posso deixar de pensar na parábola do bom semeador (Mt 13,1-9) e te pedir: lança a semente abundantemente em nossos corações e não permitas que caia à beira da estrada nem em terreno pedregoso, nem entre espinhos, mas que caia em terra boa e possa produzir frutos abundantes. Dá-nos, Senhor, a coragem de caminhar rumo ao mundo novo que desde já construímos, no sofrimento e no suor, mas que um dia faremos a nossa colheita boa. Dá-nos a coragem de nunca desanimar, mesmo que encontremos dificuldades, e embora oprimidos, sejamos sinal de esperança para todos, como foram os mártires do campo de concentração nazista Edith Stein ou Maximiliano Kolbe e tantos outros mártires anônimos, que, diante de ti, foram semente corajosa caída em terra fértil. Que nunca me canse de fazer o bem. Amém.

 

 

MEDITATIO: Também entre as duas leituras da liturgia da Palavra de hoje parece que podemos entrever uma forte analogia. De fato, de um lado, Paulo abre à vida cristã a perspectiva de um futuro que será a plena manifestação do dom de Deus: a isto nos sentimos chamados e orientados pelo dom da esperança que nos sustenta ao longo do carinho, ainda que esta perspectiva não elimina a dor da peregrinação terrena. De outro lado, com as parábolas do grão de mostarda e do fermento, Jesus nos faz descobrir que o Reino anunciado e inaugurado por Ele terá um crescimento e um desenvolvimento extraordinário, humanamente imprevisível. Porém, realização é segura. Parece-nos descobrir uma grande lição de vida neste horizonte, um horizonte aberto a todo crente pela fé em Cristo. É a lição que se desprende dessa pequena semente, ainda que seleta, que é a esperança, a menor, porém a mais preciosa de todas as virtudes, diria Charles Péguy. A segunda virtude teologal, que está estreitamente ligada com a fé, e é prelúdio da caridade, é capaz, de fato, de lançar pontes invisíveis, porém reais, entre este presente histórico e o futuro escatológico; entre a experiência que consumamos neste vale de lágrimas e o dom que nos está assegurado na pátria celestial, entre as lutas que devemos sustentar aqui embaixo e a coroa de glória que nos espera lá em cima. Desta perspectiva, devemos refletir, também, sobre o significado exato da expressão “ao Reino de Deus”, com a qual são introduzidas as duas parábolas evangélicas. Esse Reino foi inaugurado pela presença, pela palavra e pelas ações de Jesus, porém se realizará plenamente quando o próprio Filho entregar tudo e todos a Deus, seu Pai. Portanto, a indicação com a expressão “ao Reino de Deus” é uma realidade escatológica. Só Jesus pode dizer que é uma antecipação autêntica e uma realização pessoal da mesma. Tudo o mais é só indício e figura. Isso diz, também com clareza, o Concilio Vaticano II, quando afirma, na constituição dogmática sobre a Igreja, que a Igreja é germe e início do Reino de Deus (LG, 5).

 

ORATIO: Ó Senhor, semear requer atenção ao terreno, para que seja fértil; vigilância para que as ervas daninhas não sufoquem a semente; paciência com o processo até a colheita, pois não é seguro. Fermentar a massa também é um trabalho sério; exige delicadeza e cuidados, para que o calor propício e o tempo necessário aumentem o volume da massa e não fique sem fermentar. O mesmo é trabalhar por ti e pelas almas, sendo que teu mandato, ó Senhor, é muito mais radical: é preciso que nos convertamos em semente e em fermento. E isto é algo que me faz pensar, pois devo fazer a parte que me cabe. Porém requer, sobretudo, entrega total, transformação profunda e morte para dar início a novas vidas. Ó, Senhor, dai-me coragem para não desertar, dai-me força para perseverar. Dai-me zelo para fazer florescer teu amor nessa parte da massa na qual não tem fermentado o fermento.

 

CONTEMPLATIO: Eu tenho plena consciência de que é a ti, Deus Pai onipotente, a quem devo oferecer a obra principal de minha vida, de sorte que todas minhas palavras e pensamentos falam de ti. E o maior prêmio, que pode dar-me esta faculdade de falar que tu me tens concedido, é o de servir-te, pregando a ti e demonstrando ao mundo que o ignora, ou aos hereges que o negam, o que tu és, na realidade: Pai. Pai, a saber, o Deus unigênito. E ainda que seja esta a única intenção, é necessário para ele invocar o auxílio de tua misericórdia, para içar com o sopro de teu Espírito, as velas de nossa fé e nossa confissão, estendidas para ir até ti, e nos impulsione, assim, no caminho da pregação que temos empreendido. Porque merece toda confiança aquele que nos tem prometido: Pedi e se os dará; buscai e encontrareis; Batei e se os abrirá. Somos pobres e, por isso, pedimos curar nossa indigência; ponhamos nosso esforço tenaz em penetrar as palavras de teus profetas e apóstolos e chamemos com insistência para que se nos abram as portas da compreensão de teus mistérios, porém, nos dar o que pedimos, nos fazer encontrar-te quando te busquemos e nos abrir os ouvidos quando chamemos, isso depende de ti. Quando se trata de compreender as coisas que se referem a ti, nos vemos freiados pela preguiça e o torpor inerentes a nossa natureza, e nos sentimos limitados por nossa inevitável ignorância e debilidade, porém o estudo de teus ensinamentos nos dispõe para captar o sentido das coisas divinas, e a submissão de nossa fé nos faz superar nossas culpas naturais. Confiamos, pois, que farás progredir nosso tímido esforço inicial e que, à medida que vamos progredindo, o afiançará e nos chamarás a partilhar o espírito dos profetas e apóstolos; deste modo, entenderemos suas palavras no mesmo sentido no que eles as pronunciaram e penetraram no verdadeiro significado de sua mensagem.  Disponhamo-nos a falar do que eles anunciaram de um modo velado: que tu, ó Deus eterno, és o Pai do Filho eterno unigênito;, que tu és o único não gerado e que o Senhor Jesus Cristo é o único gerado por ti desde toda a eternidade, sem negar, por isto, a unicidade divina, nem deixar de proclamar que o Filho foi gerado por ti, que és um só Deus, confessando, ao mesmo tempo, que o que nasceu de ti, Pai, Deus verdadeiro, é também Deus verdadeiro como tu. Outorga-nos, pois, um modo de expressão adequado e digno, ilumina nossa inteligência, faz que não nos apartemos da verdade da fé; faz também que nossas palavras sejam expressão de nossa fé, e dizer, que nós, pelos profetas e apóstolos, conhecemos a Deus Pai, e ao único Senhor Jesus Cristo, e que argumentamos, agora, contra os hereges que isto negam, possamos também celebrar a ti, como Deus, no que não tem unicidade de pessoa e confessar teu Filho, em tudo igual a ti (Hilário de Poitiers, De Trinitate).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Os padecimentos do tempo presente não podem

comparar-se com a glória que um dia se nos revelará” (Rm 8,18)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A condição humana é sempre situada em um espaço e em um tempo, em um limite e um além, o qual se reveste da ausência e do desconhecido. A tensão que move o que “espera” o futuro está, pois, ao menos em certo sentido, fora de seu alcance “O que é esperado, em sentido restrito, está subtraído ao poder daquele que espera. Ninguém diz que espera o pode provocar”. Precisamente a este respeito, são Tomé dizia que o objeto da esperança é sempre algo “alto”. Por outra parte não se pode dizer que o objeto da esperança está impossível de todo; em tal caso, deveríamos falar de mera ilusão e, em última instância, de desespero… A esperança está sustentada, pela confiança: pode se esperar também o que parece impossível, mas, enquanto espera, aponta a uma determinada certeza, a uma confiança que já é comunhão com o que tem de vir. Esperando, como tem dito G. Marcel, contribuo a “preparar”, disponho o caminho ao que tem de vir e, em certo modo, participo já dele. “Não é que falando com propriedade, atribua, eu, uma eficácia causal ao fato de esperar ou desesperar. Na verdade, o melhor é que, ao esperar, tenho consciência de reforçar, e desesperando, ou, simplesmente duvidando, tenho consciência de soltar certo vínculo que me une ao que está em causa” (V.Meichiorre, Sub speranza, Brescia 2000).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 6,12-19 (Escolha dos doze) Jesus detém uma atenção toda par­ticular sobre os doze, seus discípulos: primeiro os elege, depois os institui como colégio (Mc 3,13-19) e, mais tarde, os envia em missão (Mt 10,1-15). Assim, pois, dentro do grupo de seus discípulos, Jesus reserva aos doze um trato especial: certamente em vistas a sua missão, que é também especial. Para pro­ceder à eleição decisiva de seu ministério público, Ele se prepara e Lucas o sublinha passando toda uma noite orando no monte. Por isso, na tradição da Igreja, toda grande decisão se prepara com uma intensa e prolongada oração. Antes da eleição, Jesus chama-os seus discípulos: a vocação figura sempre na origem de toda instituição ou ministério eclesial. Depois Jesus os chama «apóstolos». Ainda que este título pareça, aos espe­cialistas, ter cor e origem pascal, aqui Lucas o atribui ante litteram aos doze, com a intenção de evidenciar a importância que tem este colégio na Igreja que Jesus vai fundar.

 

 

Efésios 2,19-22 (Reconciliação dos judeus e gentios entre si e com Deus) – Para Paulo, o mistério de Cristo e o da Igreja está intimamente unido. Cristo é nossa paz: nele, todos, os afastados (pagãos) e os próximos (judeus), encontram o caminho da unidade. Já não há dois povos, já não há separação entre diferentes, mas unidade entre semelhantes. Tudo é dom de Deus Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo. Neste contexto, Paulo imagina a Igreja como um grande edifício, um templo santo, como a mora­da de Deus. Os fundamentos desse edifício, no qual todos habitam como «concidadãos dentro do povo de Deus; Sois família de Deus» (v.19), são os após­tolos e os profetas.     A «pedra angular», sem dúvida, é «o próprio Cristo» (v.20): ele é a chave de abóboda que consolida o conjunto, nele todo o edifício encontra sua compatibilidade e pode crescer de um modo ordenado. Desta perspectiva cristológica, a doutrina ecle­siológica de Paulo assume claridade absolutamente particular. Nela a presença, o papel e o ministério dos apóstolos assume toda sua importância. A Igreja de Cristo, portanto, é una, santa, católica e apostólica: no sentido de que nela os apóstolos, por vontade de Deus e por opção histórica de Jesus, constituem o fundamento da comunidade dos crentes.

 

Salmo 18/19 (Iahweh, sol de justiça) – Quais os princípios que nos orientam? Se eles forem pecaminosos, toda a nossa vida será injusta; mas se eles forem justos, o nosso agir será reto. Os Salmos nos convidam a ter nossas vidas coerentes com a Palavra. A doçura da Palavra de Deus sacia o nosso coração. Que a nossa boca não fale mentira, que o nosso falar seja reto e honesto.

Senhor, preserva-me do orgulho de ser santo e melhor que os outros. Que eu sempre tenha no coração a humildade. Se faço o bem, é por ti; se fujo do mal, é pela tua bondade. Nada sem ti podemos fazer. Contemplar e fazer o bem são os maiores desejos que temos dentro de nós. O bem está presente em todas as pessoas, portanto dá-me olho para enxergá-lo e coração para amá-lo. Amém.

 

 

MEDITATIO: A liturgia de hoje nos põe ante a relação entre oração e missão. Primeiro Jesus aparece como modelo insubstituível. Seu exemplo está expli­citado por Lucas de modo totalmente evidente, não só nesta, mas também em muitas outras circunstancias. Permanecer em oração antes de decidir, orar para discernir segundo o plano de Deus, orar em vista às grandes decisões da vida, tanto no âmbito pessoal como no comunitário: desta perspectiva a oração não é um momento separado da vida, mas como uma atitude prévia que nos introduz na experiência pessoal e eclesial. Empreender a missão depois que a comunidade e seu responsável se tenham recolhido em uma prolongada oração significa confiar a missão e seu desenlace àquele que é seu primeiro responsável: o dono da vinha, o pastor do rebanho, o Senhor de seu povo. Quando se diz que a oração é vida e que a vida pode ser oração não se faz outra coisa mais que confirmar a certeza de que, em uma visão de fé, tudo acontece por vontade divina, pela vontade d’Aquele a quem nos confiamos, precisamente, mediante a oração.

 

ORATIO: O mundo necessita de ti, Senhor: envia teus apóstolos para que cheguem aos confins da terra e proclamem, em teu nome, a Boa Noticia de Jesus. O mundo necessita de ti: elege, também hoje, entre nós, pessoas capazes de falar em teu nome, com extrema coragem, em qualquer situação de vida. O mundo necessita de ti:não só aqueles que não te conhecem ainda, mas também os que, ainda que te conheçam, não te reconhece como único Senhor e Mestre. O mundo necessita de ti: pedimos-te, com todo impulso de nosso coração, que tua Igreja, de uma maneira corajosa e humilde, se faça porta-voz tua e te proclame ante toda a humanidade como o úni­co Senhor e Salvador.

 

CONTEMPLATIO: A esperança! Se esta virtude não se mantém, não é certa nossa perseverança e podemos nos perder no caminho; o que, por desgraça, hoje, é muito fácil. É fácil renunciar aos ideais da vida cristã: primeiro, por serem difíceis e longínquos; segundo, por a psicologia do homem moderno está dirigida à consecução, mais, ao gozo de bens fáceis e imediatos, exteriores e sensíveis, mais que aos interiores e morais; terceiro, por o oportunismo está em moda. O êxito próximo e próprio ocupa o lugar dos ideais, obrigado a duras resistências e antipáticas posições. O entusiasmo da resistência, da coragem, do sacrifício, é substituído pelo cálculo da utilidade, a aceitação da moda, a confiança na maioria, o desconforto de manter-se à parte de uma firme, forte e incômoda impopu­laridade; posições psicológicas e outras semelhantes que não sabem viver a esperança. A esperança é a consciência que tem o cristão de estar inserido desde já, mediante a graça do Espírito, em um grande plano de salvação, com o qual sua própria sorte está comprometida, por uma promessa não ilusória (Paulo VI).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

«Jesus elegeu entre eles a doze, a quem deu o nome de apóstolos» (Lc 6,13)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Morremos, com freqüência, por dispor dirigentes com a convicção de que é isto, sobretudo, o que faz falta para que a coisa funcione, e a coisa seria a Igreja. E o que deveríamos fazer antes de tudo é ser e fazer progredir autênticos «ges­tos espirituais», como o encontro com Deus, a conversão ao Evangelho, o arrependimento, a ação apostólica corpo a corpo ao próximo, etc. Bem pouco serve polir a estrutura de um pro­grama ou de um trabalho: o que conta é uma ação pública ou privada que seja uma verdadeira oração; uma metanóia que seja verdadeiramente um movimento de penitencia e de conversão; uma comunhão que seja uma verdadeira intimidade; uma fé que seja uma convicção decisiva. Sem dúvida, são muitos os que se matam detrás de uma pastoral das coisas, onde os homens, valam muito ou pouco, servem só para preencher o cargo que se lhes foi entregue, como se sua tarefa fosse só a de manter em pé um sistema ajustado de coisas e, se é possível, fazê-lo prosperar. Assim, dentro de certos programas otimamente polidos de «religião» falta, precisamente, o ato religioso, o gesto espiritual. É evidente que, em um ambiente semelhante, os cristãos devem en­contrar muitas dificuldades para nascer. Portanto, em primeiro lu­gar, se deve buscar e suscitar o «movimento espiritual» do homem, um ato que seja próprio de alguém que se comprome­ta com toda sua espiritualidade e o Espírito possa agir nele (Yves-Marie Congar).

 

 

 

QUINTA-FEIRA, – 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 13,31-35 (Herodes, uma raposa) Sabemos (cf Lc 9,51ss) que Jesus vai a caminho de Jerusalém: ante ele se perfila agora, claramente, a meta do Calvário, como lugar no qual poderá oferecer a si mesmo, a Deus, em sacrifício de amor por toda a humanidade. Nada pode apressar ou atrasar «a hora» na qual Jesus consumará sua missão: nem Herodes, nem Pedro. O que Jesus tem que fazer pretende levá-lo a cabo com plena determinação e total liberdade. Jesus manda dizer a «essa raposa» de Herodes, ainda que seja com termos velados, que tudo o que faz, faz desde a perspectiva pascal. Como todo autêntico profeta, Jesus não pode morrer fora de Jerusalém. Assim deve subir a ela por fidelidade a sua missão e por amor a nós. Vem, a seguir, um doloroso lamento de Jesus sobre Jerusalém (vv.34ss), um lamento-profecia aberto, também, às perspectivas de um futuro imediato. Jesus quis fazer de Jerusalém um sinal de reconciliação, paz e unidade, porém nela habita a violência e divisão. A profecia de Jesus tem dois momentos: um negativo, no qual, como já fizera Jeremias (12,7), prediz a ruína de Jerusalém e de seus habitantes, apesar de amá-los intensamente, e outro positivo (cf. Sl 118,26), que parece aludir à conversão de Israel em referencia ao fim dos tempos.

 

 

Rm 8,31-39 (Hino ao amor de Deus) – A última parte do capítulo oito da carta de Paulo aos cristãos de Roma pode ser considerada como um hino ao amor de Deus que se ha manifestado plenamente em Cristo Jesus. É seguro que Paulo não tivesse podido compô-lo se não tivesse tido uma experiência pessoal e singular deste amor: essa experiência foi exatamente a de Damasco, da qual Deus saiu vencedor e Paulo vencido. Como é obvio, se trata de uma vitoria que enobrece ao mesmo tempo ao vencedor e ao’ vencido. O mistério pascal constitui, uma vez mais, o ponto de partida desta página paulina: «O que não perdoou a seu próprio Filho, antes bem o entregou à morte por todos nós…» (v.32). A expressão nos recorda claramen­te o sacrifício de Isaac narrado em Gn 22,1-22 e saca à luz do dia o mistério que Paulo recorda aqui por ené­sima vez. Os frutos desta vitória de Deus sobre Paulo também se fazem sentir, obviamente, em nossa vida. De fato, em um determinado momento, Paulo afirma: «Quem nos separará do amor de Cristo?» (v.35), e a par­tir daqui usará a primeira pessoa do plural. Daí que os frutos do amor de Deus para nós sejam a ple­na justificação ante Deus e por parte de Deus; a plena co­munhão com Deus em Cristo Jesus; a plena superação de tudo o que de qualquer modo pudera ou quisera sepa­rar-nos de Deus e de Cristo; a plena confiança no poder continuar e levar a termo nosso caminhar na fé, a esperança e a caridade; a plena certeza de que a vitoria de Deus ha começado já em nossa vida e se irá aperfeiçoando a medida que caminhe até seu termo final. Em um arranque espiritual e poético, Paulo escreve: «Deus, que nos ama, fará que saiamos vitoriosos de todas estas provas» (v.37). Vencer folgadamente: esta é a experiência do cristão quando se confia ple­namente ao amor de Deus, que se nos ha manifestado e comunicado em Cristo.

 

Salmo 108/109 (Salmo imprecatório) –

 

 

MEDITATIO: Que alegria saber que Deus está a nosso favor! Se ha posto a nosso favor de uma maneira tão decidida que nos ha dado a seu Filho único; por isso, com são Paulo, podemos cantar um hino vigoroso a este amor do qual nada poderá jamais separar-nos. O apóstolo enumera uma lista de forças hostis a nossa união com Cristo, para afirmar que r.o são capazes de afastar-nos dele. Agora bem, é verdade que não há nenhuma situação que nos impeça a união com Cristo? Em realidade, é preciso admitir que não o conseguirão nunca as coisas exteriores, porém sim há alguém que nos pode afastar de Jesus: nós mesmos. Deus, em Cristo, ha optado por estar sempre conosco, porém nós somos livres e, com frequência, não queremos estar com ele. O evangelho nos fala de gente que disse a Jesus: « Vai-te». Jerusalém não acolheu a seu Salvador. A rejeição pode assumir em nós muitas formas e graus diferentes, porque se trata de responder com amor ao amor que se nos oferece, e nós vacilamos, com frequência, entre o sim e o não, calculamos em vez de acolher gratuitamente o dom e gozar dele. Talvez estejamos tão habituados a nossas tristezas, a nossas pequenas medidas, que nos dá medo a grande alegria de Deus. Em vez de deixar-nos inundar pela luz do amor pomos uma tela que tenta reduzi-lo a nosso alcance. Meditemos a fundo sobre este formoso texto, repitamo-­nos que Deus está a nosso favor, que somos «mais que vencedores, em virtude daquele que tem nos amado», e que nada poderá nos separar do amor de Cristo. Assim também mudará nosso rosto: olhando-lhe nos tornaremos radiantes e também chegará a luz a nossos irmãos, lhes chegará o amor.

 

ORATIO: Senhor, nem Pedro nem Herodes conseguiram dissua­dir-te de cumprir tua missão. Tu disseste sempre sim, e sem demora, cada vez que o Pai te pedia: faz que eu também seja ca­paz de viver o presente com empenho e responsabilidade, pois nada é seguro amanhã. Viveste intensamente os teus 33 anos: faz que também eu valorize bem o tempo que, de modo inexorável, foge levando consigo estações e anos. Fizeste tudo extraordinariamente bem: encontros, diálogos e curas: faz que também eu saiba rejeitar uma vida cotidiana monótona e trivial, para não gastar mal minha vida com sonhos passageiros. Senhor, Tu lançaste um grito aflito sobre Jerusalém, relutante aos teus convites e profecias: faz que eu responda seriamente a teu chamado dando sabor de eternidade à minha vida.

 

CONTEMPLATIO: Jó, enquanto nos é dado a entender, irmãos muito amados, era figura de Cristo. Tratemos de penetrar na verdade mediante a comparação entre ambos. Jó foi declarado justo por Deus. Cristo é a própria justiça, de cuja fonte bebem todos os bem-aventurados; deles, de fato, se disse: Iluminar-vos-á um sol de justiça. Jó foi chamado veraz. Porém, a única verdade autêntica é o Senhor, que disse no evangelho: Eu sou o caminho e a verdade. Jó era rico. Porém, quem há mais rico que o Senhor? Todos os ricos são servos seus, a Ele pertence todo o orbe e toda a natureza, como afirma o salmo: Do Senhor é a terra e tudo quanto a enche, o orbe e todos seus habi­tantes. O diabo tentou três vezes a Jó. De maneira semelhante, como nos explicam os evangelhos, tentou por três vezes o Senhor. Jó perdeu seus bens. Também o Senhor, por amor a nós, se privou de seus bens celestiais e se fez pobre, para enriquecer-nos. O diabo, enfurecido, matou os filhos de Jó. Com parecido furor o povo farisaico matou os profetas, filhos do Senhor. Jó se viu manchado pela lepra. Também o Senhor, ao assumir carne humana, se viu manchado pela sordi­dez dos pecados de todo o gênero humano. A mulher de Jó queria induzir-lhe ao pecado. Também a sinagoga queria induzir o Senhor a seguir as tradições corrompidas dos anciãos. Jó foi insultado por seus amigos. Também o Senhor foi insultado por seus sa­cerdotes que deviam dar-lhe culto. Jó estava sentado em um monturo cheio de vermes. Também o Senhor habi­tou em um verdadeiro monturo isto é, no seio deste mundo e em meio de homens agitados como vermes, por multidão de crimes e paixões. Jó recobrou a saúde e a fortuna. Também o Senhor, ao ressuscitar, outorgou aos que crêem nele, não só a saúde, mas a imortalidade, e recobrou o domínio de toda a natureza, como ele mesmo testemunha quando disse: Tudo me entregou meu Pai. Jó gerou novos filhos no lugar dos anteriores. Também o Senhor ­gerou santos apóstolos como filhos seus, a­pós os profetas. Jó, cheio de felicidade, descansou, por fim, em paz. O Senhor permanece bendito para sempre, antes do tempo, no tempo, e pelos séculos dos séculos (Zenón de Verona, Libra).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Deus, que nos ama, fará que saiamos vitoriosos de todas estas provas» (Rm 8,37)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL- Todos os santos padres dizem: «O primeiro que tens que meter na cabeça, de um modo absoluto, é que não deves apoiar-te nunca em ti mesmo; o combate ao qual deves fazer frente é extraordinariamente árduo, e só tuas forças humanas são absolutamente insuficientes para desenvolvê-lo; se te fias em ti mesmo, cairás imediatamente em terra e perderás todo desejo de continuar a luta; só Deus pode dar-te a vitória que desejas». Resolver não pôr nenhuma confiança em nós mes­mos representa para muitos um sério obstáculo que impede iniciar decididamente.Devemos despojar-nos, pois, desta confiança exagerada que temos em nós mesmos. Esta confiança , com frequência, tão arraigada em nós que nem sequer nos damos conta do império que exerce sobre nosso coração. É, precisamente, nosso egoísmo, nossa preocupação por nós mesmos, nosso amor pró­prio, a causa de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior nas provas, de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Lança um olhar sobre ti mesmo e verás até que ponto estáis enganado pelo desejo de satisfazer o teu «eu» e só a ele. O sentimento de des­gosto que experimentas quando alguém te contradiz te permite constatá-lo facilmente. Vivemos, assim, como escravos. Mas, «onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade». A partir de agora deves pensar que tudo o que te acontece, seja ou não importante, Deus vem a ti para ajudar-te na luta. Só Ele sabe o que necessitas, o que te é necessário no momento presente: adversidade ou prosperidade, tentação ou queda, nada acontece por acaso; não há nenhum acontecimento do qual não tenhas que aprender algo. Deves compreender bem isto desde agora, porque, deste modo, crescerá tua confiança no Senhor, a quem elegestes seguir (T. Colliander, El sendero de los ascetas, Monte Carmelo, Burgos 2000).

 

SEXTA-FEIRA, – 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

João 11,32-45 (A ressurreição de Lázaro) No texto vemos que Maria, ao ver Jesus, tem uma atitude humilde caindo a seus pés, repetindo as mesmas palavras de Marta. Vemos o quanto Jesus era sensível. Comoveu-se ao ver Maria e os judeus chorando. Logo quis saber onde Lázaro fora posto. Jesus chorou por fazer da tristeza daquelas pessoas a sua tristeza. Todos ficaram admirados por verem Jesus chorar também. Jesus se solidariza e faz do sofrimento daquelas pessoas o seu próprio sofrimento. Foi até a porta do sepulcro. Naquela época, o defunto não era enterrado. Era colocado numa espécie de caverna. Há alguns empecilhos: uma pedra, na entrada; os quatro dias que estava morto e as ataduras. Para Jesus poder fazer a obra, era necessário “tirar a pedra“. Além disso, era preciso que acreditassem que tinha o poder de realizar o impossível: para os judeus, era impossível um homem morto a quatro dias, que já exalava mal cheiro, voltar a viver. Eles não tinham os meios modernos que temos hoje, para saber se a pessoa já estava com morte cerebral ou não. Achavam que até o terceiro dia, um defunto pudesse revitalizar-se. A partir do quarto dia, o corpo começa a entrar em processo de decomposição. Após isto, um corpo está realmente morto. Jesus começa mostrando seu poder através da palavra. Poder da fé está naquele que crê. Tiraram a pedra e ficaram curiosos querendo ver que Jesus ia fazer. Jesus ora. Para os judeus, era um pecado grave abrir o sepulcro depois de fechado. O sepulcro era a porta do Hades, do grego, ou do Sheol, do hebraico, que traduzimos como “mansão dos mortos“. Quem entrasse dentro do sepulcro ou tocasse num cadáver se tornaria impuro e precisaria fazer um ritual sério de purificação. Jesus quer fazer o sinal acontecer para que todos vejam e creiam. Jesus dá um grito. Para dar ênfase no que fala, Jesus comete um pleonasmo vicioso: ao invés de dizer: “Sai”. Falou: “Sai para fora”. Apesar de ser considerado um erro na língua portuguesa, aqui, esta locução assume uma função enfática. Estranho: como um defunto vai sair duma caverna com os braços e os pés amarrados?  Na verdade, não estavam amarrados um no outro, mas enfaixados cada um. Jesus quis contar com a ajuda daqueles que estavam ali. Mandou que o desatassem. É impossível que a glória de Deus se manifeste se a pessoa se mantiver amarrada. Há amarras que só o Espírito Santo consegue desatar. É claro que ante um fato como esse, não podia haver quem não acreditasse. A morte e ressurreição de Lázaro foi um marco para aquele momento em que a Igreja de Jesus ainda estava sendo gerada. A ressurreição de Lázaro desbancava a religião vazia dos judeus da época, que ofereciam leis hipócritas, porque nasciam de seus próprios interesses. O interesse era duplo agora: matar Jesus Cristo e matar de novo Lázaro. Pairava nisto uma dura e triste insegurança: iriam matar Jesus. E se ele ressuscitasse como ressuscitou Lázaro. Se isso já estava criando toda esta balbúrdia, o que a ressurreição de Jesus poderia causar? Não poderia ser um simples assassinato, mas um assassinato assistido e acompanhado.

 

 

Isaias 25,6ª.7-9 (O banquete divino) Este texto pertence ao chamado “apocalipse de Isaías” (cc.24-27). O profeta anônimo, discípulo do grande Isaias e que  vive logo depois do desterro da Babilônia, descreve neste  apocalipse (ou “revelação”) o juízo de Deus. Os acontecimentos imediatos da história servem como sinais que indicam o que ainda ha de vir quando tudo se revele e desapareça o véu que agora cobre todas as nações. Nossa leitura revela sob a figura dum banquete, o aspecto positivo deste juízo de Deus. Trata-se do banquete que Deus preparou para  todos os povos (cf. Mt 8,11;22,2-14; Ap 19,9), banquete da  entronização de Yahvéh (cf. 1Sb 11,15;1Re 1,25s). Pois reinará sobre todos os povos (24,23), pondo fim aos nacionalismos estúpidos. O “monte” é Sião, pois Deus quis que a salvação do mundo venha dos judeus. A manifestação de Deus, sua epifania, retirará o véu que cobre todas as nações; isto é, acabará com o erro que impede aos povos ver com clareza (cf.29,10; 2Cor 3,15s). E o conhecimento de Deus, ou reconhecimento e aceitação de Deus, acabará com o pecado e com as suas terríveis consequências: a  dor e a morte. Nesse dia Yahvé porá fim ao opróbrio que padece seu povo  eleito e findará a zombaria de seus inimigos. Este povo que ainda  espera contra toda esperança, na diáspora – “Onde está o vosso Deus?”, perguntam com indolência os incrédulos –, reunido na presença  de Deus e ante todos os povos, encontrará ao fim uma satisfação para sua esperança e a contestação às zombarias de seus inimigos. Dirá  então e responderá com gozo: “Aqui está nosso Deus, de quem esperávamos que nos salvará”. E começará uma festa sem ocaso. (Eucaristía 1987,48)

 

Filipenses 3,20-21 (O verdadeiro caminho da salvação cristã) – Aos cristãos de Filipos, Paulo repete o convite a desconfiar dos que tentam introduzir, no meio deles, as práticas judaizantes: estes são os que se vangloriam e con­fiam na observância de usos que são “carne”, ou seja, puramente humanos (3,1-4). Com este objetivo, o apóstolo põe, como exemplo, sua própria história e explica suas opções (vv.5-14). De fato, muitos quiseram desviar-lhe da fé em Cristo crucificado para substituí-la pela circun­cisão e práticas puramente externas vinculadas, em particular, ao uso de certos alimentos: coisas que, em definitivo, põem no ventre seu centro de atenção e deveriam, portanto, ser objeto de vergonha, mais que de vanglória. Desmascarando os escrúpulos de uma religiosidade tão terrena (v.19), Paulo exorta a le­vantar para o alto os olhos da fé, a dilatar a espera do coração: a terra não é nossa pátria, mas o céu, on­de mora Deus, nosso Pai; dai esperamos a vin­da gloriosa do Salvador. No começo de sua carta, Paulo havia comparado à vida cristã com os participantes de uma carreira (2,16; 3,12-14). Esta carreira vai se configurando como espera e desejo ardente de conseguir alcançar a meta. Recor­dando o hino cristológico do capítulo 2, o apóstolo abre uma nova perspectiva contemplativa das reali­dades últimas: Jesus Cristo é o Senhor e tudo se lhe subme­te. Tal é o horizonte da vida cristã: vale a pena se manter firmes no Senhor; a fidelidade da comu­nidade é, para Paulo, a coroa, o sinal de ter con­cluído, vitoriosamente, a carreira.

 

Sl 114-115/116B (Ação de Graças) – É uma dádiva de Deus caminharmos com os salmistas que milhares de anos antes de nós se encontraram constrangidos pelas dificuldades, sofreram perseguições por serem fieis ao Senhor, foram caluniados, alguns mortos, mas não voltaram atrás e não traíram a própria fé. Diante da vontade do Senhor, pronunciaram “amém”. O verbo hebraico ‘aman’ significa construir sobre uma rocha, escudo, fortaleza, pedra angular sobre a qual construímos e que nem o vento nem a tempestade poderão derrubar. Cantar a misericórdia de Deus é sentir-se vitorioso, sofrido, mas não derrotado. Perseguidos, mas não vencidos. Porque Ele, o pastor, nos acompanha sempre. Passado muito tempo, morreu o rei do Egito. Os israelitas continuaram gemendo e clamando sob dura escravidão, e, do meio da escravidão, seu grito de socorro subiu até Deus. Deus ouviu os seus lamentos e lembrou-se da aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Deus olhou para os israelitas e tomou conhecimento (Ex 2,23-25). Jesus conhecia este Salmo e o cantou na instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-30). É preciso passar por muitas dificuldades para entrar no Reino dos Céus, pois só seremos vitoriosos se carregarmos a nossa cruz.

Senhor, sou pobre, desgraçado, infeliz, mas tenho fé. Quero construir sobre a pedra Cristo todo o meu futuro e não sobre as areias movediças que, à primeira enxurrada, destroem tudo. Mas às vezes, Senhor, vejo ao meu lado muitos sofrimentos e injustiças que tentam me afastar do teu caminho e do teu amor. Sei que a vida do cristão é marcada pela cruz, e esta nos fortalece quando amada e carregada por amor. Sei também que quando sofremos por amor, somos bem-aventurados: “Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt,5 11-12). Senhor, na minha desgraça e pobreza que eu conserve a fé no teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: Na verdade, esta página do Evangelho mostra Jesus como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Antes de mais nada, o evangelista insiste em sua amizade com Lázaro e com as irmãs Marta e Maria. Sublinha que Jesus os amava (cf. Jo 11,5) e por este motivo quis realizar o grande prodígio. «Nosso amigo Lázaro dorme; mas vou despertá-lo» (Jo 11,11), disse aos seus discípulos, expressando com a metáfora do sono o ponto de vista de Deus sobre a morte física: Deus a vê como um sono, do qual é possível despertar-se. Jesus demonstrou um poder absoluto diante dessa morte: isso pode ser visto quando ele devolveu a vida ao jovem filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,11-17) e à menina de doze anos (cf Mc 5,39), provocando descrédito entre os presentes. Mas é precisamente assim: a morte do corpo é um sono do qual Deus pode nos despertar a qualquer momento. Este senhorio sobre a morte não impediu Jesus de experimentar uma sincera «compaixão» pela dor da distância. Vendo que estavam chorando Marta, Maria e os que tinham vindo consolá-lo, Jesus também «ficou profundamente comovido» e «chorou» (11,33.35). O coração de Cristo é divino-humano: nele, Deus e Homem se encontraram perfeitamente, sem separação nem confusão. Ele é a imagem, e mais ainda, a encarnação do Deus que é amor, misericórdia, ternura paterna e materna, do Deus que é Vida. Por este motivo, Ele declarou solenemente a Marta: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais». E acrescentou: «Crês isto?» (vv.25-26) (v.48) (Bento XVI, Ângelus, 09 de março de 2008).

 

ORATIO: Senhor, cada dia se eleva da terra uma oração de luto por aqueles que desapareceram no mistério: a oração que pede repouso para o que expia; luz para o que espera; paz para o que anseia teu amor infinito. Descansem em paz: na paz do porto, na paz da meta, em tua paz, Senhor. Que vivam em teu amor aqueles aos quais amamos; aqueles que me amaram. Aos que passaram pela dor; aos que pareceram sacrificados por um destino de dor, revela-lhes os segredos da tua justiça, mistérios do teu amor. Concede-nos essa vida interior para que na intimidade nos comuniquemos com o mundo invisível no qual estão: com esse mundo fora do tempo e do espaço que não é lugar, mas estado, e não estão longe de nós, mas ao nosso redor; que não é de mortos, mas de vivos, como disse Santo Agostinho: “Aqueles que nos deixaram, não estão ausentes, mas apenas invisíveis. Têm seus olhos cheios de glória, fixos nos nossos, cheios de lágrimas”. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

CONTEMPLATIO: Senhor, Tu és a vida eterna da pátria verdadeira. Tu és a lâmpada da casa paterna que ilumina suavemente. Tu és o sol da justiça na terra. Tu és o dia que não chega nunca ao fim. Tu és o luzeiro da aurora. Ali só Tu és o templo, o sacerdote e a vítima. Tu és o único rei e chefe, o Senhor e Mestre. Tu és o caminho da unificação. Tu és o manancial da paz, Tu és a doçura infinita. Ali, todos os que te pertencem, te seguem, e Tu estais sempre, não te vais nunca. Diriges a casta dança sobre os prados da alegria… Por isso, quando desperta em nós a nostalgia da vida eterna, da pátria verdadeira, da comunicação com todos os santos, lá em cima, na cidade que está sobre os montes elevados, então devemos converter-nos, aqui em baixo, em humildes e pequenos na casa do Senhor; devemos carregar sobre nós a aflição, junto com nossa Mãe dolorosa, a Igreja (Karl Ranher).

 

AÇÃO: Repete com freqüência, trocando pelo seu nome, e vive hoje a Palavra:

«Lázaro, sai para fora!» (Mt 5,48)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Nós, que tantas vezes merecemos o inferno, somos extremamente indignos de ver o rosto de Deus e de que nos admitam na feliz companhia dos habitantes do céu. Sem dúvida, o Pai, o Filho, o Espírito Santo, a Santa Virgem, os Anjos e os Santos têm o desejo imenso de nos ver logo associados a eles, abismados, como eles, nas torrentes das celestiais e inefáveis delícias do divino amor que, no céu, reina em plenitude. E devemos confiar firmemente na divina bondade que assim haverá de suceder. Um dos maiores consolos que podemos ter neste mundo é o pensamento e a expectativa daquele dia em que começaremos a glorificar e amar a Deus perfeitamente. Com que entusiasmo nós deveríamos cantar, pensando nesse dia ditoso: “Que alegria quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor” (Sl 121/122,1). “Ditosos os que vivem em tua casa louvando-te sempre” (Sl 83/84,5). Certamente, se celebramos a recordação de nosso nascimento à vida da graça pelo santo batismo, com muita maior razão devemos celebrar a festa de nosso nascimento à vida da glória. (…) Roga-lhe que as repare e que realize em ti sua palavra: “Ditoso o servidor a quem seu amo, ao chegar encontre cumprindo com sua obrigação. Asseguro-vos que lhe confiará à administração de todos os seus bens” (Mt 24,46-47). Que Ele esteja sempre velando em ti e para ti e não sejas tomado de surpresa… (São João Eudes, Vida de Reino de Jesus nos cristãos).

 

 

 

 

 

SÁBADO, 30ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Lucas 14,1.7-11 (A escolha dos lugares) Trata-se, propriamente, de uma parábola, ou de uma cena tomada da vida mesmo? Talvez haja um pouco de um e de outro. O que Lucas quer dizer é que em todos, tanto nos anfitriões como nos convidados, há preconceitos egoístas, competições triviais, preocupações exageradas. Está claro que Lucas quer indicar à sua comunidade um modelo evangélico, e por ele reelabora um exemplo tomado da vida de Jesus que tende a desfazer as intenções do povo de seu tempo e a por à luz, ali, em torno à mesa, seus sentimentos. As palavras de Jesus assumem primeiro, tom ne­gativo: «Não te ponhas em lugar de preferência…» (v.8). O que se pode passar em um banquete comum deve estar previsto, ao menos por motivos de prudência, quando não, precisamente, por orgulho pessoal. Trata-se, assim, de não cair no ridículo, além de respeitar certas regras de etiqueta. O ensinamento de Jesus assume, por isso, um tom mais sapiencial que evangéli­co. Mas, no segundo momento, Jesus se ex­pressa em termos positivos: «Põe-te em lugar menos importante» (v.10). Trata-se de um convite claro à humildade (cf. também Lc 20,46), que encontrará seu epí­logo natural no último versículo deste texto: «Porque o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado» (v.11), um dito que se inspi­ra em Ez 21,31, que cita Lc 16,15 e se repetirá, ainda, em Lc 18,14. Jesus fala, pois, da humildade, uma virtude que hoje não só está em desuso, mas ainda segue vigente como rastro caracterís­tico do verdadeiro discípulo de Jesus. Será o próprio Jesus, com efeito, quem nos oferecerá, pessoalmente, um altíssimo exemplo de humildade ao lon­go de sua paixão e morte, e Paulo sintetizará este ensinamento em seu estupendo hino cristológico de Filipense 2,5-11.

 

 

Rm 11,1-2ª.11-12.25-29 (O resto de Israel já é uma prova; A salvação de todo Israel) Paulo, concluindo seu discurso sobre o mistério de Israel, se pergunta de uma maneira emblemática, se acaso havia rejeitado Deus a seu povo. A resposta não se faz esperar: «De nenhuma maneira!» (v.1). E está disposto a oferecer uma série de provas que alavancam sua certeza absoluta. A primeira lhe implica em primeira pessoa: «Eu também sou israelita» (v.1). É como dizer que ele mesmo em pessoa é a prova evidente da fidelidade de Deus a suas promessas. Isto é, certamen­te, comprometedor para Paulo, ainda que também é, para ele, um motivo de santo orgulho e fonte de uma grande es­perança. Considerando, a religião seguida, da sorte do povo eleito, Paulo nos oferece três pinceladas nítidas e seguras sobre o modo como se tem desenrolado a história da salvação e, em consequência, sobre o destino do povo eleito. A defesa de Israel, segundo Paulo, não tem sido total, mas parcial; não é definitiva, mas pro­visória; não é casual, mas providencial. Em torno des­tes três motivos se desenrola o pensamento do após­tolo nesta leitura. Os israelitas, é certo, tropeçaram para cair, ainda que não para sempre. É certo que Paulo entrevê, e nos deixa entrever também, uma maravilhosa possibili­dade de «ressurreição» para seu amado povo. E sobre esta certeza se baseia, também, nossa esperança em vis­tas a uma unidade que está diante de nós e que pe­dimos de modo insistente em nossa oração a Deus. E não só estou, mas que «com sua queda chegou a sal­vação aos pagãos» (v.11): tem aqui o aspecto provi­dencial de um acontecimento histórico, ainda que seja dra­mático e doloroso, em o qual custa a Paulo insistir. Deste modo, nos oferece uma chave de leitura de toda a his­tória da salvação, sobretudo do futuro que nos es­pera. É interessante refletir com Paulo que a conver­são dos pagãos está destinada a suscitar os brios dos israelitas. Deste modo nos deixa intuir que o cami­nho até a salvação será uma espécie de carreira: não uma carreira para ver quem chega primeiro, mas para che­gar juntos. Por último, são Paulo afirma que «o endurecimento de uma parte de Israel não é definitivo: durará até que se converta o conjunto dos pagãos» (v.25), e assim ratifica o mesmo conceito e abre nossa espe­rança a uns horizontes estupendos.

 

Salmo 93/94 (O Deus justo) – Já nos acostumamos a ouvir as queixas do salmista, que proclama a sua inocência a Deus e aos homens. Este tipo de súplica é muito comum a todos os salmistas, sejam eles antigos ou atuais. Quando a cruz se faz pesada, não nos resta outra alternativa senão reclamar. Mas reclamar com quem? Com Deus, pois Ele é o único que nos ouve e nos responde. Mas a resposta do Senhor não é bem como gostaríamos: há no ser humano um gostinho de vingança que é bem difícil de ser retirado. Queremos que o Senhor aja conforme os nossos sentimentos e pensamentos, no entanto, Ele é inerte à cólera e firmado no perdão. Esta oração de súplica nos apresenta uma imagem do ser humano sofrido, chateado, mas que quando não encontra consolo em ninguém volta a buscar Deus como refúgio, rochedo, fortaleza e abrigo. O amor do Senhor nos sustenta em todos os momentos.

Senhor, peço que não leves a sério os meus clamores e minhas ameaças de que vou te deixar e abandonar caso não me ajudares. Quando sofro digo tantas besteiras, mas depois me arrependo e me sinto envergonhado. Vem, Senhor, em minha ajuda. Em ti eu confio, e somente em ti. Dói-me o coração ver a injustiça mascarada de justiça e os que deveriam defender a lei e os justos se colocarem do lado dos injustos e dos pecadores. Dê-nos advogados retos e justos que prefiram a pobreza a compactuar com o mal. Amém.

 

 

MEDITATIO: Paulo tem refletido “amplamente sobre o mistério de seu povo, sobre seu endurecimento e sua incredulidade”. A rejeição de uma parte de Israel supôs a ocasião para fazer entrar a massa dos pagãos na aliança concluída no tempo com Abraão, com a qual, verdadeiramente, segundo a promessa, foi unida todas as nações da terra. O apóstolo sabe que os dons e o chamado de Deus não têm volta. A acolhida dispensada aos gentios não implica o repú­dio de Israel. Não, nem como, nem quando, terá lugar o retorno deles, que foram e seguiram sendo, para sempre, os «eleitos». Todos nós estamos convidados ao banquete do Reino, e a sala do banquete de bodas não é estreita. Pode conter a todos comodamente, pois tem as mesmas dimen­sões do coração de Deus. O que importa, pois, é que nosso comportamento seja o indicado por Jesus na parábola. Nós, que nos sentimos convidados, agora, ao banquete, não devemos en­trar em plano altaneiro, com altivez, pondo-nos no lugar principal, mas com a humildade de que sabe que tudo é graça. Nossa oração deveria alimentar o desejo de que o Senhor da casa diga a nossos «irmãos maiores»: «Subi mais acima, voltai ao primeiro posto». A festa não estará completa, de fato, até que todos, judeus e gentios, realizemos o desejo de Jesus, que vem derrubar o muro de separação, a fazer de dois, um só povo novo. Frente aos desígnios de Deus, adoremos, em silêncio, o mistério e oremos para que seu plano de salvação não tarde em realizar-se plena­mente. A nós se nos pede viver na caridade e em um clima de acolhida recíproca, para sermos verdadeiros filhos daquele que é Pai de todos e enviou seu Filho unigênito, o Predileto, a recapitular, nele, toda criatura.

 

ORATIO: Senhor, teu ensinamento é claro, ainda que difícil de reali­zar: «Aparta-te para deixar o lugar a outro; a seu tempo serás buscado”. Ouve a ofensa recebida, como se não te a houvesse feito; a seu tempo serás premiado. Há um te­souro com os dons que tens, mas não te glories, porque não são teus. Permanece em teu posto, sem invadir; a seu tempo serás exaltado Estima-te, porém, não com exces­so, para poder emitir juízos imparciais. Não acentues tudo o que fazes de bom, atua de uma maneira simples e silenciosa. Reconhece tua humana debilidade, para exaltar minha força infinita. Dá sempre testemunho da Verdade e, a seu tempo, ela triunfará. Ó Senhor, escrevi meu nome na areia, no deserto, junto às portas do Jardim, e no dia seguinte já não estava. Assim é a pessoa humilde, me dizes: saiba desaparecer, porque seu nome está escrito no céu».

 

CONTEMPLATIO: Por que, pois, temes tomar a cruz pela qual se vai ao Reino? Na cruz está a saúde, na cruz está a vida, na cruz está a defesa contra os inimigos, na cruz está a infusão da suavidade soberana, na cruz está a fortaleza do coração, na cruz está o gozo do espírito, na cruz está a suma virtude, na cruz está a perfeição da santidade. Não estão a saúde da alma e a esperança da vida eterna senão na cruz. Toma, pois, tua cruz e segue a Jesus, e irás à vida eterna. Ele foi adiante levando sua cruz (Jo 19,7) e morreu na cruz por ti, para que tu também leves tua cruz e desejes morrer nela. Porque se morreres juntamente com Ele, viverás com Ele. E se lhe fores companheiro de pena o será também de glória. Portanto, tudo consiste na cruz e tudo está em morrer nela. E não há outro caminho para ir à vida e para ir à verdadeira entranhável paz, senão o da santa cruz e da contínua mor­tificação. Vai onde quiseres, busca o que quiseres e não acharás mais alto caminho no alto, nem mais seguro no baixo, senão a via da santa cruz… Às vezes te deixará Deus, às vezes te perseguirá o próxi­mo e o pior, muitas vezes te descontentarás de ti mesmo e não serás aliviado, nem refrigerado com nenhum remédio nem consolo, mas convém que sofras até quando Deus quiser. Porque quer Deus que aprendas a sofrer a tri­bulação sem consolo e que te sujeites de todo a Ele e te faças mais humilde com a tribulação. Ninguém sente, assim, de coração, a paixão de Cristo como aquele a quem carece sofrer coisas semelhantes. Assim, a cruz sempre está preparada e te espera em qualquer lugar; não podes fugir, onde quer que vá, porque onde quer que vás a levas contigo e sempre falarás a ti mesmo. Vou acima, vou embaixo, vou fora, vou dentro, em tudo estará a cruz. E é necessário que em todo lugar tenhas paciência, se queres ter paz interior e merecer perpétua coroa. […] Assim que, lidas e bem consideradas todas as coisas, seja esta a posterior conclusão: «Que por muitas tribulações nos convém entrar no Reino de Deus» (Atos 14,21) (A imitação de Cristo, II).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Todo Israel se salvará, pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis» (cf. Rm 11,26. 29)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Sempre tentei imaginar o que foi para ti, judia, a experiência do encontro com Jesus, o Filho de Deus nas­cido de Maria, uma mulher como tu, de tua estirpe. Parece-me que devo supor uma comoção e uma alegria inexpressável e, sobretudo uma atração irresistível. Revela isto a resposta que te veio espontânea quando tua mãe, dolorida, tentava con­vencer-te de que podias ser profundamente religiosa, «devo­ta», também no judaísmo: «Certo», respondeste, «se não tens aprendido a conhecer a outro». Tu havias aprendido a conhecer aquele outro a quem nada se lhe pode comparar: ao Deus feito homem no seio do povo judeu. E já não te era possível pen­sar tua vida sem Ele. Edith, nem todos podem compreender… É necessário passar pela mesma experiência para que não nos pareça ab­surdo o que fizestes… Vamos, venha, por nosso povo!», disse a tua frágil irmã para animá-la. Para ti, a morte não era um sofrimento, mas oferecer a vida unida a Cristo, que se ha­via tornado tua vida. Havia chegado o grande dia do Kippur… Sentias-te predestinada a expiação. Vamos, Rosa, por nosso povo. Assumindo a todos os de tua raça, transfor­maste num magno holocausto, a fogueira ex­terminadora. Era como Jesus, o manso cordeiro que carregava sobre si os pecados de todos para destruir o ódio humano no fogo da caridade divina. Grande mistério, em verdade, o silên­cio e a impotência de Deus naquela hora trágica da histó­ria de tantos povos, e em particular de teu povo, o eleito, sempre amado, apesar de fazê-lo sofrer tanto, passado pelo fogo como se purifica o ouro em crisol. Um mistério que impõe silêncio e reflexão na humilde adesão de fé. Mas, acaso 60 anos daqueles acontecimentos, a recordação do holocausto se tem despertado; se falo e se escrevo muito dele, talvez até demais, com dor e indignação, nem sempre se mantém e suscita ressentimentos e desejos de vingança. É, de fato, inconcebível e inaceitável a ini­quidade cometida: um fato que tem ferido de morte, não só a milhões de judeus, mas a toda a humanidade e antes de tudo, o coração do próprio Deus. Sim, antes de tudo, o coração de Deus, porque, se não interveio para impedi-lo, talvez seja justo pensar que Ele mes­mo participava da tragédia, Ele mesmo era sacrificado de novo naqueles pelos quais, quando veio ao mundo, se despojou de sua própria glória e poder. Edith, tu agora já sabes, já compreendeste o que para nós segue ainda obscuro… Ao escrever aos romanos, Paulo prorrompia numa declaração que demonstra à medida que se sentia tudo de Cristo e ao mesmo tempo tudo de seu povo: «sinto em meu coração uma grande dor e um sofrimento contínuo». Cada vez que volto a ouvir estas palavras do apóstolo me sinto presa de uma imensa comoção e me parece que eu mesma estou invadida por esses sentimentos atormentadores. Portanto, posso imaginar um pouco, Edith, o que foi teu martírio de consciência antes, inclusive de ser levada como cordeiro mudo, ao lugar do extermínio. E assim foi, provavelmente, para os outros judeus perseguidos aos quais Jesus se manifestou de modo inequívoco. Também hoje, no trabalho que segue atravessando a história de nossos povos, fica transfigurada a dor por quem se oferece de um modo espontâneo, como fez Jesus, impulsionado unicamente pelo amor e, portanto, perdoando (A.M.Cànopi, Lettera a Edith, Casale Monf. 2000).

 

 

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