LECTIO DIVINA NA 10ª SEMANA COMUM ANO 2020

BAIXAR EM PDF APOIO LECTIO DIVINA 10ª SEMANA DO TC 2020

LECTIO DIVINA – COMUNIDADE PAZ E BEM 10ª SEMANA COMUM

 

SEGUNDA-FEIRA, 08 DE JUNHO DE 2020

Mateus 5,1-12 (As bem-aventuranças) Estamos no primeiro dos cinco grandes discursos do Senhor. Inicia-se com a proclamação das oito bemaventuranças do «Reino». A iminência deste apela à conversão; a perspectiva escatológica, que parece dominar o texto se traduz em uma mensagem de salvação e se apresenta como imperativo moral, visto que traça um modo perfeito de vida cristã. A expressão «pobres no espírito», que não se vê no Antigo Testamento, reflete um aspecto fundamental: a espera do Reino pelos últimos. A eles está reservada o Reino, cuja instauração, segundo a esperança bíblica, já se inicia aqui em baixo: «seu é o Reino dos Céus». O “consolo” está apontado como um traço caracte­rístico de Deus e como dom messiânico por excelência.   O próprio Cristo se considera um Consolador, e com este título anuncia o Espírito Santo. A «justiça» (se repete cinco vezes no sermão) indica o reto cumprimento da vontade divina, buscada com “fome e sede” e, portanto, conota o acesso à salvação e razão mesma da encarnação do Verbo: seu nome será “Senhor-nossa-Justiça”. Daí se segue o imperativo: «Buscai primeiro seu reino e sua justiça». A “misericórdia” passa de prerrogativa divina a marco qualificativo do discípulo: «Sede miseri­cordiosos como vosso Pai…». De fato, esta prevalecerá sobre o juízo. “Coração puro” é uma expressão que se repete nas Escrituras e é sinônimo de «coração simples», que não tem dubiedade. Esta é a condição que faz possível a visão de Deus, que não se concede ao homem nesta terra, mas no céu, quando «o veremos tal como ele é». «Construtor da paz» é Deus mesmo. Quanto a Cristo, seu Enviado, é o rei messiânico pacífico, «Príncipe da paz», a qual dá a seus discípulos. A paz constitui, por fim, um «fruto do Espírito». Os «filhos da paz» não poderão deixar de ser, pois, «filhos de Deus». A perseguição «por causa da justiça» (afirma:“por causa do Filho do homem») não é senão o preço a pagar pela coerência e testemunho evangélico. O convite a alegrar-se na tribulação foi amplamente recebido na experiência apostólica. A participação nos sofrimentos de Cristo, acolhidos pelo bem de sua Igreja, nos asso­cia à gloria da ressurreição.

 

 

1 Rs 17,1-6 (Anúncio do castigo; na torrente de Carit) Aqui se fala: da sucessão davidica; do reino de Salomão e do cisma político-religioso (931 aC.) entre as dez tribos do Norte (Israel, com capital­ em Samaria) e Judá e Benjamim (com capital em Jeru­salém). O reino do Norte conheceu a alternância de uma dezena de casas reinantes, enquanto que o do Sul foi re­gido sempre pela estirpe de Davi. As leituras dos livros dos Reis seguem com o «ciclo de Elias». Procedia este de Galaad (Transjorda­nia), onde estava vigente um javismo vigoroso. O profeta havia sido enviado ao rei Acab (874-853), esposo da fenícia Jezabel, filha do rei de Tiro e Sidón. Esta havia introduzido em Samaria o culto de Baal, o deus de Tiro propiciador da chuva (1 Re 18,19), que, sem dúvida, não está em condições de assegurá-la a seus de­votos. Elias, cujo nome significa «o Senhor é meu Deus», é posto a salvo e protegido diretamente pelo céu. Como os judeus no deserto, se alimenta de ma­neira milagrosa com pão e carne. Os «profetas anteriores» (nossos «livros histó­ricos»), assim chamados pela tradição judia, nos apresen­tam uma historia que se faz teologia. De fato, os livros dos Reis constituem uma seção da historia sagrada escrita com a intenção de mostrar que a alian­ça entre Deus e seu povo se rege pelo principio da retribuição: se o povo é fiel, Deus o bendiz; se é in­fiel, o abandona a um destino de morte. Contudo o  leitor destas páginas não está convidado, a ver, nas calamidades que se abatem sobre o povo infiel «castigos» divinos destinados à conversão. Em nosso caso, a seca é sinal da reprovação di­vina dos cultos cananeus patrocinados por Jezabel, que se converteu em símbolo do sincretismo religioso (Ap 2,20). De fato, Israel esteve sempre ameaçado pelos cultos pagãos arraigados na terra da qual tomou posse sob a guia de Moisés e de Josué.

 

Sl 120/121 (O guarda de Israel) Este Salmo nos convida a confiar de todo o nosso coração em Deus e crer que ceremos escutados com profundo amor pelo Pai. As dificuldades que o salmista encontra em seu caminho rumo a Jerusalém, para onde se dirige a fim de oferecer sacrifícios e louvores a Deus, são muitas: sofrimentos físicos, rejeições e ladrões. Ao levantar seus olhos para os montes, ainda os vê muito distantes, mas já anunciam a aproximação à cidade santa. Deus vela os seus fieis em todos os momentos, não os abandona nem por um instante. Deus está sempre acordado e vigilante, por isso percebemos a força de sua presença em todas as circunstâncias. A Igreja, que peregrina na terra, também faz esta pergunta: “de onde virá a nossa salvação?” A resposta não pode ser outra: só de Deus.

Senhor hoje eu quero te rezar com uma oração de Santa Teresa. Ela que sempre sentiu forte a presença de Deus e que nos convida a não ter medo de nada porque tu és o Senhor. Vivemos numa sociedade marcada pelo medo, pela insegurança e, especialmente, pela busca de ídolos, acreditando que eles podem salvar o ser humano, que anda a deriva como barco furado no oceano. “Nada te perturbe, nada te amedronte, tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Amém.

 

 

MEDITATIO: O Verbo já não nos fala através de intermediários, mas em pessoa «(abrindo sua boca») e, com seu ensinamento, restitui o homem a si mesmo, o faz mais humano. A nova Lei começa substituindo o orgulho, triste herança do pecado original, pela humildade, que é «principio da bem-aventurança» (Glosa). Aqui reside o paradoxo que atravessa todo o sermão da montanha, verdadeiro código de libertação, rejeitado pelo “homem natural, incapaz de perceber as coisas de Deus» (cf. 1 Cor 2,14). De fato, «a bem-aventurança começa ali onde, para os homens, começa a desventura» (Ambrosio). As Bemaventuranças evangélicas abarcam o agir e o padecer do crente, que, por isso mesmo, recebe o título real de «filho de Deus». Faço-me algumas perguntas: Reconheço-me como um “mendigo”, a respeito do Senhor? Considero-me, antes que nada, a mim mesmo, “terra prometida», da qual devo «tomar posse» através de um caminho de interioridade e de domínio de mim mesmo? E com respeito à humanidade, “sofro» pelos males que a afligem? Deixo aflorar esta tríplice atitude do espírito que caracte­riza o povo das bem-aventuranças…?

 

ORATIO: Senhor Jesus Cristo, Tu subiste ao monte com teus discípulos para ensinar as altas, mais altas das virtudes e, desde ali, ao transmitir-nos as bem-aventuranças, nos ensinaste a levar uma vida virtuosa, à qual prometeste o premio. Concede a mim, frágil criatura, escutar tua voz, assim como exercitar-me na prática das virtudes, conseguir seu mérito e, por tua misericórdia, receber o premio. Faz que pensando na recompensa celestial não rejeite seu preço, mas que a esperança da salvação eterna suavize em mim a dor da medicina terrena e inflame meu ânimo com o luminoso cumprimento das boas obras. Concede a mim miserável criatura, a bem-aventurança fruto da graça nesta vida, para poder gozar da bem-aventurança da gloria na pátria celestial (Landulfo de Sajonia, Vita Jesu Christi).

 

CONTEMPLATIO Escutemos com extrema atenção as palavras do Senhor. Foram ditas, então, para todos os que estavam presentes, porém está claro que foram escritas para todos aqueles que viriam em seguida. Por isso se dirige Jesus em seu sermão aos discípulos, porém restringe o que disse a suas pessoas; falando em geral e de modo indeterminado, declara «bem-aventurados­ a todos (João Crisóstomo). Felizes os pobres no espírito» Jesus afirma: «no espírito”. Quer fazer-nos compreender que aqui se trata da humildade, não da pobreza material. Felizes­ aqueles que, graças a um dom do Espírito Santo, perderam sua própria vontade. É a este tipo de pobres a quem se dirige o Salvador, falando pela boca de Isaias: «O Espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a Boa nova aos pobres» (Is 61,1) (São Jerônimo).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

Felizes os pobres no espírito» (Mt 5,3)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Também o mundo, ó Senhor, proclama as suas bem aventuranças,  diametralmente opostas às tuas: ditosos os ricos que não se fixam na miséria dos outros, mas acumulam as riquezas só para si mesmos. Faz-me compreender, Senhor, onde está a verdadeira riqueza, essa que prometes aos que te seguem. Também o mundo, ó Senhor, alardeia suas promessas, diametralmente opostas às tuas: ditosos os poderosos, que não pensam no débil necessitado de ajuda, mas avançam seguros pelo seu caminho. Faz-me compreender, Senhor, qual é a força invencível que dás aos teus fiéis. Também o mundo, ó Senhor,  ostenta a sua justiça, diametralmente oposta à tua: ditosos os dotados, que não pensam nos outros, mas que os exploram para o seu próprio êxito. Faz-me compreender, Senhor, onde posso encontrar a sensatez que tu garantes a quem a busca. Também o mundo, ó Senhor,  apresenta seu manifesto, diametralmente oposto ao teu:  ditosos os vivedores que não se preocupam do manhã, mas que buscam arrebatar o momento fugaz. Faz-me compreender, Senhor, quais são as verdadeiras alegrias, essas que não permites que faltem aos teus filhos. (C. Ghidelli, Beatitudine evangeliche e spiritualitó laicale, Brescia).

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 09 DE JUNHO DE 2020

Mateus 5,13-16 (Sal da terra e luz do mundo) Quem segue o novo código de vida contido nas bem-aventuranças será sal da terra e luz do mun­do. O “vós” enfático, parece diferenciar a conduta cristã da conduta dos fariseus e dos pagãos, a quem o sermão da montanha faz referência em mais ocasiões. A responsabilidade do cristão, por outra parte tem um valor cósmico, planetário. O sal encerra uma pluralidade de significados. É um condimento insubstituível. Possui propriedades conservan­tes. Usava-se na realização de sacrifícios (Lv 2,13) e, portanto, assumia um caráter “consacratório”, e no caso de que tivesse perdido o poder de salgar, era pisoteado com um gesto desacralizador. Por último, o sal alude à sabedoria (Mc 9,50) e com ele devemos condimentar nossas palavras (Cl 4,6). Os discípulos são «luz do mundo» não de modo diferente a Cristo, que é a fonte da mesma (Jo 8,12). Acaso se traz a lâmpada para colocá-la…», soa ao pé da letra o paralelo de Mc 4,21. Se a luz se põe sob essa vasilha de barro, sob o alqueire, um recipiente com o que se media o grão, inevitavelmente se apaga (isso é o que se fazia naquele tempo para apagar uma luz sem que fizesse fumaça). O evangelista voltará, em seguida sobre a imagem da luz (Mt 6,22ss).

 

 

1 Rs 17,7-16 (Em Sarepta; O milagre da farinha e o óleo) A mão do Deus de Israel opera também em terra pagã e guia Elias para uma localidade costeira do Líbano, onde terá assegurado o alimento. O prodígio que realiza é o sinal que dá autenticidade a sua missão. Não é, portanto, Jezabel e seus falsos deuses, mas uma viúva inerme quem pode dar testemunho da inter­venção de YAHWEH em favor dos que n’Ele confiam. E, visto que se trata de uma estrangeira, o episódio abre uma perspectiva universalista que tomará corpo com o Novo Testamento: a viúva de Sarepta se converte no tipo dos pagãos chamados à mesa do Reino. O sentido do episódio, nós podemos tomá-lo da citação do mesmo por Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,24-26): o profeta a quem os seus não escutam tem mais cré­dito em terras pagãs. Por outra parte, podemos esta­belecer uma comparação entre a viúva de Sarepta e a do Evangelho (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4), para sublinhar sua grande generosidade. Porém não só isto: a viúva se contra­põe assim mesmo a Jezabel, cuja insaciável avidez o autor sagrado conde­na (cf 1 Re 21,lss).

 

Salmo 4 (Oração da tarde) Em certos momentos, as nossas orações parecem não serem ouvidas e ficam sem respostas. Isso gera uma grande tentação em nossa vida: a dúvida. Será que o Senhor se esqueceu de nós! Seja qual for a situação que nos perturbe, devemos sempre confiar que Deus nos escute. O orante é amante e ama, e quem nunca duvida. Mais cedo ou mais tarde, Ele virá em nosso socorro.

Senhor, que eu saiba aceitar teu silêncio como resposta às minhas orações. Que eu nunca duvide do teu amor. Dá-me a coragem de suplicar e esperar com amor e perseverança, acreditando que teu amor é mais forte do que todas as dúvidas. Amém.

 

MEDITATIO: O homem «foi criado para as boas obras» (Ef 2,10), para irradiar a luz que Cristo derrama sobre ele (cf. Ef 5,14). O Senhor, que é a luz que ilumina, nos torna a luz que se reflete sobre nós. A comunidade dos «iluminados» (Hb 6,4;10,32) vem a constituir aquele candelabro de ouro, imagem da Igreja, onde Cristo estabelece sua morada (Ap 1,13). O candelabro dos sete braços remete, na tradição judia, à totalidade do tempo (a primeira semana do Gênesis) e à totalidade da pessoa, resumida, de maneira simbólica, nos sentidos superiores com seus sete orifícios (dois olhos, duas orelhas, dois narizes e a boca). Meditarei refletindo em que medida irradia luz meus sentidos, através dos quais interatuo com a humanidade e com o cosmo. Em que medida meus sentidos, acesos pelo fogo do Espírito, se comunicam com Deus?

 

ORATIO  Senhor, tu que disseste: «Vinde a mim», difunde tua luz em meu coração. Acende meus sentidos com o fogo do Espírito de Pentecostes, para que eu possa caminhar à luz de teu rosto. Concede-me irradiar tua luz no meio dos homens, para fazer desaparecer as trevas da ignorância e do pecado.

 

CONTEMPLATIO Após ter exortado, oportunamente, seus apóstolos, Jesus os consola de novo com elogios. Dado que os preceitos que lhes havia dado eram muito elevados e estavam infinitamente acima da Lei antiga, para evitar que ficassem perturbados (“Como poderemos cumprir tão grandes coisas?”), afirma a sequência isto: “Vós sois o sal da terra.” Com estas palavras lhes mostra que era preciso dar-lhes aqueles grandes preceitos. Disse em substância, que esse ensinamento será confiado a eles não só para sua vida pessoal, mas também para salvação de todos os homens. Não os enviou, parece dizer, como foram enviados os profetas em outros tem­pos a duas cidades, a dez ou a vinte, ou a um povo em particular, mas os envia ao mundo inteiro, a este mundo que vive na corrupção. Ao dizer «sois o sal da terra», dá a entender que a massa dos homens tem se tornado insípida e se corrompeu pelos pecados. Por isso lhes exige, sobretudo a seus apóstolos, aquelas virtudes que são necessárias­ e úteis para converter a muitos. Quando um homem é simples, humilde, misericordioso, e justo, não mantém cerradas em si mesmo essas virtudes; faz que essas fontes excelentes brotem de sua alma se difundam em benefício dos outros. Por outra parte, quem tem um coração puro, quem é pacífico quem sofre perseguições por causa da verdade, põe sua vida a serviço de todos [.,,]. Se vocês não têm suficiente virtude para comunicá-la aos outros, parece concluir Jesus, tampouco tereis bastante para vós mesmos (João Crisóstomo).

 

AÇÃO Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Vós sois sal, sois luz» (cf Mt 5,13ss)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Impõe-se a pergunta sobre como devemos entender hoje estas afirmações de Jesus transmitidas por Mateus. Mas concretamente: a quem se refere: “Vós sois sal da terra… luz do mundo… cidade situada no alto do monte”? Pessoalmente, gostaria muito de aplicar-me nestas expressões. Porém, também me vêm muitas dificuldades à hora de referi-las à Igreja de hoje. Penso mais nessas pessoas e comunidades que, dentro da Igreja, e fora da mesma, vivem as bem aventuranças ou se esforçam: penso nos pobres, nos que se mostram solidários com os oprimidos, nos que se comprometem com um mundo mais justo sem recorrer à violência, e outros mais. Poderia ser que também eu faça parte desses. O espero. Pode ser que toda a Igreja seja um dia sal da terra, luz do mundo. O espero. Mas, se não pertenço a esta categoria de bem aventurados, é importante que saiba que os destinatários das bem aventuranças, os discípulos de Jesus, hoje, poderiam ser para mim luz, poderiam ajudar-me a descobrir o sentido da solidariedade. Uma coisa é certa: quem queira ser sal da terra e luz do mundo não pode tornar-se, ele mesmo, mundo. Deve seguir umas pegadas diferentes, as pegadas deixadas por Jesus, ainda quando choque com o modo de ver e de julgar da sociedade e da Igreja. (H.J. Venetz, Il discoso della montagna, Brescia)

 

QUARTA-FEIRA, 10 DE JUNHO DE 2020

Mt 5,17-19 (O cumprimento da Lei) Após ter se referido a seu próprio ensinamento,­ Cristo toma posição sobre o ensinamento tradicional e introduz, de um modo solene e com autori­dade, o seu próprio com o «amém» (“Porém eu…»), que significa: “É verdadeiro, é digno de fé». Esta expressão se repete no sermão da montanha. «Jesus anunciou, em um primeiro momento, todas as bem-aven­turanças, com o fim de aplainar e preparar o ânimo de seus ouvintes e fazê-lo, assim, mais disposto e sensível para receber toda a nova lei» (João Crisóstomo). A Lei e os profetas eram toda a Escritura (eram, de fato, as duas fontes das quais bebia a liturgia sinagogal; po­deríamos citar Jo 6.31.45 com o duplo envio ao Êxodo e a Isaías). Jesus, antes de resumir seu ensinamento em uma frase lapidaria e programática (Mt 7,12), determina sua atitude e a de seus discípulos a respeito da Lei anti­ga. Não se trata de abolir (termo que em Mateus se aplica ao templo; a Lei e o Templo tem seu cumprimento e sua consumação em Cristo), mas de levar à plenitude de sua perfeição. Pode-se dizer que todo o sermão da montanha constitui o exemplo deste axioma. Sem dúvida, devido seu caráter «provocador», se acusará Cristo de pretender destruir a Lei e os Profetas (variante de Lc 23,2). O Mestre se opõe a uma visão formal e legalista do cumprimento dos preceitos de Moisés, recor­dando a importância que tem a intenção.           A atitude interior é comparada à ação exterior. A in­tenção qualifica à ação, e esta dá corpo à intenção. Assim, pois, o Mestre aponta à intenção, até o ponto que o cumprimento da vontade divina deverá superar o praticado pelos escribas e os fariseus (v.20, que a liturgia tem situado na leitura seguinte). Referindo-se aos escribas, Cristo atualiza o ensinamento dos pais recolhendo seu alcance profundo (5,21-48). E quanto aos fariseus, condena a não autenticidade de sua conduta religiosa, lançando um vigoroso chamado à interioridade (6,1-18).

 

 

1 Re 18,20-39 (O sacrifício no Carmelo) A seca continuava, estamos já no «terceiro ano» (1 Re 18,1), e Elias se encontra escondido para fugir do extermínio dos profetas de YAHWEH, ou seja, dos mais ferventes seguidores do javismo, levado a cabo por Jezabel. Elias lança, contra o rei Acab, a acusação de introduzir a desordem em Israel e invoca o “julgamento de Deus», desafiando os 450 profetas de Baal no monte Carmelo, onde havia um venerado altar de YAHWEH destruído por ordem de Jezabel. A gritaria para invocar ao deus de Tiro e o colocar-se em transe de seus profetas até o absurdo não conseguiram­ obter o milagre, que se produziu, sem dúvida, na hora em que os israelitas ofereciam o sacrifício vespertino. Ao reconhecimento do verdadeiro Deus segue-se a vingança, na pessoa dos falsos profetas (v. 40, omitido no texto litúrgico).

 

Sl 15/16 (Iahweh, minha parte da herança) Ninguém pode ficar sem Senhor. Ou seguimos o Deus vivo e verdadeiro de Abraão, Isaac, Jacó, Jesus, Maria, dos apóstolos e também de todos nós, ou continuaremos a inventar “ídolos” fugazes que nada sabem: espiritismo, fitinhas, Nova Era, duendes… Não vendamos nossa alma à idolatria, mas sermos cada vez mais fiéis ao Deus vivo e verdadeiro. Idolatria e fé não combinam.

Senhor, liberta o meu coração da sedução dos ídolos. Que eu seja um adorador em espírito e verdade e que o meu coração seja o teu verdadeiro templo santo, onde possa te adorar em todos os dias da minha vida. Que eu nunca oferte nada aos ídolos, mas somente a ti, Deus vivo e amado. Amém.

 

MEDITATIO: Na lei divina «até as coisas consideradas como menos importantes estão cumuladas de mistérios espirituais e todas se encontram recapituladas no Evangelho» (Jerônimo). Portanto, Cristo «cumpriu com a doutrina e com o exemplo, levou a verdade interior» da Lei antiga (Ruperto de Deutz). Ao meditar os ensinamentos do Senhor, detenho-me antes­ que nada, na autoridade com a qual foram pronunciadas. Tomo consciência de como nos alerta Cristo, para que, interiorizemos a Lei e como considera a consciência como medida da moralidade e, em consequência a converte em uma bem-aventurança: «Ao ver um trabalhando em dia de sábado lhe disse: Amigo, feliz tu, se sabes o que fazes…» (variante de Lc 6,5). Pergunto-me, pois, se vivo de maneira consciente o instante presente.

 

ORATIO: Senhor, «todas as obras de justiça» realizadas por mim são como um trapo imundo» (cf Is 64,5) por causa dos fins escusos que as inspiram. As tornam impuras: o orgulho, a hipocrisia, o cálculo, o interesse. Reconheço-me incapaz de ser um fiel cumpridor nas grandes coisas, porque esqueço e minimizo as pequenas. Liberta-me da tentação farisaica de contar com minha justiça­ ou de querer parecer justo aos olhos dos homens e concede-me alcançar tua justiça.

 

CONTEMPLATIO: Agora, vós me perguntareis, de que modo não revogou Cristo a Lei? De que modo deu cumprimento à Lei e os profetas? Por que se refere aos profetas, confirmou com suas obras tudo quanto estes haviam predito sobre Ele; por isso disse, sempre, o evangelista: «A fim de que se cumprisse tudo o que haviam dito os profetas». Quando nasceu, quando os anjos lhe cantaram um hino maravilhoso, quando montou em um jumento, e em uma infinidade de circunstâncias cumpriu as profecias, umas profecias que nunca teriam se cumprido se Ele não tivesse vindo ao mundo. Pelo que se refere, sem dúvida, à Lei, a cumpre porque não transgrediu nenhum dos preceitos legais. Suas palavras, recolhidas por João, atestam, de fato, que os cumpriu todos: “É conveniente que cumpramos assim com toda justiça»; disse também aos judeus: «Quem de vós poderá acusar-me de pecado?», e, por último, aos discípulos: “Aproxima-se o, príncipe deste mundo. E ainda que não tenha nenhum poder sobre mim». O profeta já havia previsto isto quando disse: “Não cometeu pecado» Por outra parte, cumpriu a Lei mediante os preceitos que daria. De fato, nada do quanto disse Jesus Cristo no Evangelho tem que ver em absoluto com revogar, mas com estender e completar a Lei antiga (João Crisóstomo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Que se cumpra tudo»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Porém os únicos que podem ter essa justiça melhor [que a dos escribas e os fariseus; cf. 2,20] são aqueles a quem Cristo fala, os que ele chamou. A condição desta justiça melhor é o chamado de Cristo, é Cristo mesmo. Resulta assim compreensível que Jesus, neste momento do sermão do monte, fale pela primeira vez de si mesmo. Entre a justiça melhor e os discípulos, aos quais a exige, se encontra ele. Veio para cumprir a Lei da antiga aliança. Este é o pressuposto de todo o mais; Jesus dá a conhecer sua união plena com a vontade de Deus no Antigo Testamento, na Lei e os profetas. De fato, não tem nada que acrescentar aos preceitos de Deus; os guarda, e isto é o único que acrescenta. Disse de si mesmo que cumpre a Lei. E é verdade. Cumpre-a até o mínimo. E ao cumpri-la, se “consuma tudo” o que há de acontecer para o cumprimento da Lei […]. A justiça dos discípulos é justiça sob a cruz. É a justiça dos pobres, dos combatidos, famintos, mansos, pacíficos, perseguidos por amor a Cristo; a justiça visível dos que são luz do mundo e cidade sobre o monte, pelo chamado de Cristo. Se a justiça dos discípulos é “melhor” que a dos fariseus se deve a que só se apoia na comunidade daquele que cumpriu a Lei; a justiça dos discípulos é autêntica justiça porque agora cumprem a vontade de Deus observando a Lei (Dietrich Bonhoeffer, El precio de La gracia. El seguimiento, Sígueme, Salamanca 1999)

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 1 DE JUNHO DE 2020 festa de Corpus Christi

TEXTO BÍBLICO: João 6.51-58
Disse Jesus: Aqui está o pão que desce do céu; e quem comer desse pão nunca morrerá. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer desse pão, viverá para sempre. E o pão que eu darei para que o mundo tenha vida é a minha carne.
Começaram a discutir entre si: – Como é que este homem pode dar a sua própria carne para a gente comer? Então Jesus disse: – Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, vocês não terão vida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é a comida verdadeira, e o meu sangue é a bebida verdadeira Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele. O Pai, que tem a vida, foi quem me enviou, e por causa dele eu tenho a vida. Assim, também, quem se alimenta de mim terá vida por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que os antepassados de vocês comeram e mesmo assim morreram. Quem come deste pão viverá para sempre.1. LEITURA
O que diz o texto?
Corpus Christi (expressão latina que significa Corpo de Cristo).
Em João cap. 6, depois que Jesus multiplicou os pães e deu de comer a uma multidão, as pessoas julgavam que Jesus poderia lhes dar a comer pão todos os dias. E começaram a segui-lo. Jesus, apresenta-se como o pão que dá a vida. Fala do maná: “Os antepassados de vocês comeram o maná no deserto, mas morreram “. Quando Deus liberta o povo de Israel da escravidão, rumo à terra prometida, no deserto, o povo sente fome, e Deus envia-lhe o maná. Com isso conseguem viver 40 anos, tempo da travessia (Ex 16).
Jesus se apresenta como o pão para que todos tenham a vida e este pão lhes dará vida eterna! Jesus diz que Ele é o Pão que desceu do céu, na unidade que o Filho tem com o Pai, na divindade deste novo pão que vem do alto, que vem de Deus.
Não é alimento para o corpo, mas para a vida espiritual, para a vida eterna, para a união com Jesus. Os judeus não entendem: “Como é que ele pode dar a sua própria carne para a gente comer?” Jesus continua: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia ” Jesus diz: A minha carne é a comida verdadeira, e o meu sangue é a bebida verdadeira: é alimento que conserva a vida da pessoa., e é de todo necessário comer seu corpo. Quem come minha carne permanece em mim, se une a Ele. Quem come o corpo e bebe o sangue, mantém perfeita união com Cristo, converte-se em um com Ele e nele, unindo-se, a Cristo e, com Ele, a todo o mistério de Deus. .
O texto começa e termina da mesma maneira: “Aqui está o pão que desce do céu; e quem comer desse pão nunca morrerá”(v. 50). “Quem come deste pão viverá para sempre” (v.58). Todo o texto volta-se para o crer em Jesus como o enviado de Deus, para dar a vida eterna.
Textos a serem comparados: Êx 16; Mc 14.22-24; l Cor 11.23-29; Atos 1.9-11.
Perguntas para a leitura
* Que atitude Jesus pede às pessoas? Que acontece com os que crêem em Jesus?
* Que dúvidas tinham os judeus que o escutavam?
* Que diferença existe entre a vida humana terrena e a vida eterna?
* O que acontece com os que comem o corpo de Cristo?
* Que acontecerá, no fim do mundo, aos que comeram o Corpo de Cristo?
* Que acontece com os que crêem em Jesus como o enviado do Pai para salvar-nos?

 

2 – M E D I T A Ç Ã O
* Onde está minha fé? Creio verdadeiramente em Jesus? Como o manifesto?
* Compreendo a importância de comer do seu corpo e beber do seu sangue?
* Entendo isto em minha vida? Valorizo-o como alimento que nutre minha vida espiritual?
Aproximo-me com frequência para consumir seu corpo e seu sangue? Ou desperdiço esse maravilhoso presente que Jesus me concedeu?
Creio que tu, Senhor estás presente no pão e no vinho consagrados? Para mim, é importante permanecer unido a ti? Deixo que tu entres em mim como queres? Testemunho, com minha vida, que tu estás em mim?Necessito de Ti para estar bem. Prefiro a Ti a outras coisas? Permaneço unido a ti? Ou, ao contrário, afasto-me de tua presença?

3 – O R A Ç Ã O
Jesus, não me é fácil compreender que queres dar-me teu corpo como alimento. Como posso comer-te, Deus meu? Somente o amor comete semelhantes loucuras.
Sinto pelas vezes que deixei de receber-te, podendo tê-lo feito! Pelas vezes que te recebi sem dar-te a devida atenção. Reconheço que na comunhão te fazes carne em mim, e pedes que eu seja teu corpo e que aja em teu nome com pessoas que me cercam. Tu me identificas contigo. Obrigado por esta honra! Ajuda-me a responder-te com todo o meu coração!
Senhor, creio, mas aumenta minha fé. Preciso ter uma fé mais firme e testemunhar-te diante dos outros. Jesus, creio que Tu és o enviado do Pai para salvar-nos Aumenta minha fé

4 – C O N T E M P L A Ç Ã O
Em maior intimidade com Deus, repita em silêncio, alguns verso do Salmo 63 (62):
Teu amor vale mais que a vida. Deus, tu és o meu Deus; procuro estar na tua presença. Todo o meu ser deseja estar contigo. Tenho sede de ti como terra cansada, seca. Quero ver-te no Templo; como és poderoso. O teu amor é melhor que a própria vida, por isso eu te louvarei. Enquanto viver, falarei da tua bondade,levantarei as mãos a ti em oração. Tuas bênçãos são alimentos que me satisfazem, por isso canto canções de louvor a ti. Se estou deitado, lembro-me de ti. Penso em ti a noite toda porque me tens ajudado. Na sombra das tuas asas eu canto de alegria. A tua mão direita me segura bem firme, e eu me apego a ti.

5 – A Ç Ã O
Propostas pessoais
Como está sua fé? Onde está sua fé? Quanta fé você tem em Jesus e quanta fé tem nas coisas deste mundo? Examine-se sobre a fé, prepare-se com a reconciliação, pedindo perdão pelas faltas de fé, e vá comungar o Senhor. Estimule sua família, para que os de sua casa possam participar do banquete do Senhor, ao qual somos todos convidados.
Propostas comunitárias
Faça lista das coisas nas quais nós cremos hoje em dia. Analisar nossas carências diante deste texto, e descobrir as diferenças entre o que se crê do mundo e o que Jesus nos propõe.
Participar, todos juntos, como grupo, da Santa Eucaristia, e procurar com que todos
se aproximem do sacramento da Comunhão. Participe da Procissão e chame outros também
Buscar pelo menos uma pessoa de nossa comunidade que não conheça este dom do Corpo e do Sangue de Cristo, e prepare-a para que faça a Primeira Comunhão.

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 12 DE JUNHO DE 2020

Mateus 5,27-32 (A nova justiça é superior à antiga) Cristo, destaca João Crisóstomo, «combatia os vícios com a grande autoridade de um legislador, começando pelos que são mais comuns em nós, a saber: a ira e a concupiscência (as paixões que mais nos tiranizam e são mais inerentes à natureza humana), reprimindo-as com todo esmero». Daí se segue que a segunda e a terceira antítese têm a ver com o sexto e com o nono mandamentos (Ex 20,14.17; Dt 5,18.21). Dizer olho direito e mão direita significa referir-se a toda a pessoa através das funções primárias do ver e do agir. Prescindindo também de que o lado direito é considerado, por definição, como o mais importante está o fato de que quem era deficiente deste lado era considerado inválido.    A dupla amputação serve para indicar o radicalismo com o qual estamos chamados a seguir os mandamentos divinos. Esse radicalismo se aplica do mesmo modo no caso do divórcio, consentido pela Lei antiga (Dt 24,1ss), porém ao qual Cristo considera igualmente como adultério legalizado (cf. Mt 19,3ss). O único motivo que pode legitimar o repúdio é o «caso de união ilegítima» (aqui e em Mt 19,9). Esta cláusula, exclusiva de Mateus, é possível que indique simplesmente o adultério, com o qual se infringe o caráter sagrado do vínculo matrimonial no âmbito judaico-cristão uniões consideradas como ilegítimas no ambiente judeu (cf. At 15,20.29). Devemos destacar que a tomada de posição de Cristo se fundamenta na defesa das categorias mais fracas e no restabelecimento da ordem social. Não é em vão que o ensinamento dado aqui em relação às mulheres será tomado também com respeito às crianças (Mt 18,1-10).

 

 

1 Rs 19,9ª.11-16 (O encontro com Deus) Apesar do prodígio que havia realizado, Elias está ameaçado de morte por parte da rainha Jezabel e isto faz com que Isaias se distancie  rumando para o deserto ao sul de Judá, desejando a morte por inanição. Mas o anjo do Senhor, o faz encontrar duas vezes um pedaço de pão e uma jarra de água, e diz-lhe que se alimente tendo em vista o longo caminho que o levaria ao Horeb, ou seja, ao Monte Sinai, lugar tradicional das revelações divinas. Tendo chegado ao monte Horeb, Elias entra na gruta (a mesma de Moisés, que ainda era venerada) para passar ali toda a noite. Elias manifesta a angústia que sente frente a perversão de seu povo; foi deixado só (vv.10.14), na defesa da religião dos pais. Mas Deus confirma a sua vocação através de uma teofania. No entanto, esta não é uma teofania como as clássicas (cf. Ex 19; At 2), que envolvia uma série de fenômenos atmosféricos e telúricos exepcionais, mas que Deus se manifesta no “tênue murmúrio do silêncio “(assim diz ao pé da letra, o texto hebraico), como para voltar a levar Elias à sua própria interioridade, que que encontre na “gruta do coração” o Senhor, no qual haveria encontrar a força para retomar o caminho. O profeta cobre o rosto em um sinal de respeito e com a consciência de que ninguém pode ver o rosto de Deus e continuar vivo. A experiência de Deus está destinada a fazer com que Elias retome sua própria missão. E, de fato, Elias já não estará só: o esperam “sete mil homens”, aqueles cujos joelhos não se dobraram diante de Baal, e cujos lábios não o beijaram (v.18). Além disso, deverá ocupar-se em realizar algumas coisas importantes: a unção do rei de Damasco (cf. 2 Rs 8,7-15), a de Jeú, rei de Israel (2 Re 9,1-13), que ordenará a morte de Jezabel e de toda a família real, assim como a investidura profética de Eliseu. Estes fatos fazem parte, sem dúvida, do “ciclo de Eliseu”.

 

Salmo 26/27 (Junto a Deus não há temor) Deus é vida e amor, mas precisamos estar atentos, pois estamos cercados de situações que nos levam à morte: o mal, a violência, o ódio, as guerras. Além disso, vivemos um momento em que a vida está sendo destruída já no seu nascer, por meio do aborto. Há também uma morte que engana, pois não parece morte, mas igualmente pode matar: a injúria, o ódio, o rancor, a inimizade, a calúnia. Quem se decide a seguir o Senhor deve viver de acordo com a Palavra.

Senhor, que eu seja coerente no meu dia a dia, defenda a vida e participe de todos os atos e realizações que busquem resplandecer o amor e a justiça. A pedagogia do seu amor nunca se altera: os ricos que não partilham passarão fome e os pobres que te amam sempre serão saciados do teu amor e da tua paz. Amém.

 

 

MEDITATIO: Jesus não só confirma o princípio da intencionalidade no agir humano, mas indica também seu preço: amputar e eliminar quanto é ocasião de mal. O que quer o Senhor não é, que dúvida cabe, a deficiência do corpo, mas a «circuncisâo do coração» (Jr 4,4), ou seja, acabar com a «paralisia do coração» -«foi pela dureza de vossos corações…»: Mt 19,8- que rompe o vínculo sagrado do amor. Neste ponto se me impõe uma autêntica ecografia do coração, sobe a guia do implacável diagnóstico proposto por Cristo no evangelho de Marcos (7,21ss): «Porque é de dentro, do coração dos homens, de onde saem os maus pensamentos, fornicações, roubos, homicídios, adultérios, cobiças, perversidades, fraude, libertinagem, inveja, injúria, soberba e insensatez». Farei seguir a tomada de consciência de uma sincera e resoluta «tomada de distância».

 

ORATIO: Senhor, ainda que minha consciência não me reprovasse o adultério do corpo, me reconheço adúltero no olhar, na imaginação, no sentimento, no pensamento. E ainda que meu coração não me reprovasse nada de tudo isso, como poderia considerar-me imune do adultério espiritual que cometo cada vez que tu, ó Senhor, não ocupas o primeiro lugar na escala de meus afetos, de meus interesses, de meu desejo de amor? Confesso ante ti, Senhor, que, enquanto me preocupo da integridade do corpo, cuido para que nenhum de meus membros tenha que sofrer, não me preocupo com a integridade do espírito, mas que o deixo a mercê das paixões e prisioneiro dos instintos.

 

CONTEMPLATIO: Cristo não veio só para impedir-nos de desonrar nosso corpo com atos culpáveis, mas para restabelecer também a pureza da alma, inclusive antes mesmo que a do corpo. Dado que é no coração onde recebemos a graça do Espírito Santo, este se preocupa, antes de mais nada, de purificar nosso coração, assim como todo o que é interior em nós. Não cometas adultério com os olhos e não o cometerás com o coração: visto que o Senhor condenou a ira de maneira absoluta, proibindo não só o homicídio, mas excluindo do mesmo modo o mínimo sentimento neste sentido, agora fica mais fácil estabelecer esta lei. Mas, se tudo isto os parece duro demais, recorda-os do que disse o Senhor antes nas bem aventuranças e vereis que é possível e fácil observar, sem “mas” nem “porém”, estes mandamentos. De fato, como poderá um homem simples e amigo da paz, um homem pobre de espírito e misericordioso, um homem temente a Deus, chegar a repudiar sua mulher? Como poderá o que está disposto a reconciliar-se com os outros estar em luta com sua esposa? Porém, Jesus não facilita o cumprimento da Lei só deste modo, mas também de outro; de fato, deixa ao homem uma possibilidade legítima de separar-se de sua mulher: «em caso de fornicação» (Juan Crisóstomo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

                               “Lança para longe de ti o que seja obstáculo” (cf. Mt 5:29)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL A vinculação a Jesus Cristo não cabe o prazer que carece de amor, mas o proíbe aos discípulos. Visto que o seguimento é negação de si e união a Jesus, em nenhum momento pode ter curso livre a vontade própria do discípulo dominada pelo prazer. Tal concupiscência, ainda que só se resuma a um simples olhar, separa do seguimento e leva todo o corpo ao inferno. Com isso, o homem vende sua origem celestial por um momento de prazer. Não crê no que pode dar-lhe uma alegria centuplicada pelo prazer ao qual renuncia. Não confia no invisível, mas se aferra ao fruto visível do prazer. Deste modo se distancia do caminho do seguimento e fica separado de Cristo. A impureza da concupiscência e incredulidade. Por isso é preciso recusá-la. Nenhum sacrifício que libere aos discípulos deste prazer que separa de Jesus é grande demais. O olho e a mão é menos que Cristo. Se o olho e a mão servem ao prazer e impedem a todo o corpo a pureza do seguimento, é preferível renunciar a eles que renunciar a Jesus. As alegrias que proporciona o prazer são menores que seus inconvenientes; se consegue o prazer do olho e da mão por um instante, e se perde o corpo por toda a eternidade. Teu olho, que serve à impura concupiscência, não pode contemplar a Deus (Dietrich Bonhoeffer, El precio de la gracia. El seguimiento, Sígueme).

 

 

SÁBADO, 13 DE JUNHO DE 2020

Mateus 5,33-37 (A nova justiça é superior à antiga) A quarta antítese tem a ver com o segundo e o oitavo mandamentos (Ex 20,7.16; Nm30,3ss; Dt 23,22-24) . Na sociedade judaica se abusava do recurso para fazer juramento, muitas vezes em falso (Mt 23,16-22 ). E porque o nome divino era sagrado e impronunciável, se contornava o obstáculo referindo-se ao céu, à terra, à Jerusalém, à própria cabeça do que jurava. Jesus exige a total sinceridade, ressaltando que as palavras que falamos a mais para falsificar a verdade procedem do maligno, daquele que é “por natureza, um mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). Não são poucas as passagens bíblicas que denunciam o dano que causa a palavra ociosa: Mt 12,36; Ef 4,29; 5,3-5.12; Tg 3,1-3. A Carta de Tiago se faz eco do ensinamento de Cristo: “Acima de tudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem façais qualquer outro juramento. Que vosso sim seja sim, e vosso não seja não, para não incorrer em condenação“(Tg 5,12). Diz São Jerônimo “A verdade evangélica não aceita o juramento, já que a simples palavra do fiel equivale ao próprio juramento”.

 

1 Rs 19,19-21 (Vocação de Eliseu) Inicia-se a o “Ciclo de Eliseu” rico proprietário de terras. A veste é a expressão de quem a leva e de suas prerrogativas. Isso explica a “investidura” de Eliseu por meio do manto de Elias, que constitui o sinal da vocação profética. O radicalismo das eleições de Deus está atestado pela despedida de Eliseu que se desfaz dos bois e do arado, deixando os pais e o trabalho. Cristo será ainda mais exigente quando adverte ao que pretendia dizer adeus a sua família antes de segui-lo: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62).

 

Sl 15/16 (Iahweh, minha parte na herança) Ninguém pode ficar sem senhor. Ou seguimos o Deus vivo e verdadeiro de Abraão, Isaac, Jacó, Jesus, Maria, dos apóstolos e também de todos nós, ou continuaremos a inventar “ídolos” fugazes que nada sabem: espiritismo, fitinhas, Nova Era, duendes… Não devemos vender nossa alma à idolatria, mas ser cada vez mais fiéis ao Deus vivo e verdadeiro. Idolatria e fé não combinam.

Senhor, liberta o meu coração da sedução dos ídolos. Que eu seja um adorador em espírito e verdade e que o meu coração seja o teu verdadeiro templo santo, onde possa te adorar em todos os dias da minha vida.

 

 

MEDITATIO: “A boca fala o que brota do coração” (Mt 12,34). “Se alguém pensa que se comporta como um homem religioso e não só não refreia a sua língua, mas mantém pervertido o seu coração, sua religião é vã” (Tg 1,26). De nenhum outro comportamento humano se afirma que “torna vã” a religião (aqui, “vão” lembra aos ídolos, considerados igualmente uma nulidade total) como do falar inútil e falso, cuja expressão mais desconcertante é o recurso desconsiderado ao juramento. Investigarei sobre os males das palavras da minha boca, já que “Antes de ouvi-lo falar, não elogies a um homem, porque esta é a pedra de toque” (Eclo 27,7). São vazias, ociosas, insignificantes, mentirosas, inexpressivas, estúpidas, impulsivas, vulgares minhas palavras? A assimilação vital da Palavra Divina me permitirá “falar como se pronunciasse palavras de Deus” (1 Pe 4,11), “palavras sempre cheias de graça” (Cl 4,6), isto é, falar sob a inspiração do Espírito Santo: “Porque não sereis vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vós” (Mt 10,20).

 

ORATIO: Purifica, Senhor, meus lábios com o fogo do teu Espírito. Que as palavras saídas da minha boca possam ser o reflexo de tua Palavra eterna, viva e eficaz, até o ponto de penetrar na alma dos irmãos como espada que revela os pensamentos do coração e como bálsamo que alivia suas chagas.

 

CONTEMPLATIO: O que está para além do ‘sim’ e do ‘não’ é o juramento, não o perjúrio. Este último é tão claramente de origem diabólica, e não apenas supérfluo, mas oposto e mau, que não precisa que ninguém nos diga. “O que passa daí” é, sem dúvida, supérfluo, que vai além do necessário e se acrescenta por redundância: isso, precisamente, é o juramento. Mas, podereis perguntar-me: “Por que disse Jesus que o juramento procede do maligno?” E, se tem tal origem, por que era admitido na antiga Lei? Poderieis perguntar a mesma coisa em relação ao repúdio da mulher. Por que se considera agora adultério o que em um tempo esteve permitido? De que forma se poderia responder a essas perguntas, senão que as leis de então estavam adaptadas à fragilidade e à fraqueza daqueles que as tinham recebido […]? Mas, se agora o divórcio é considerado adultério e o juramento está proibido porque provém do malígno, isto é porque Cristo nos proporcionou os meios para viver com uma maior perfeição a virtude (João Crisóstomo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Seja o vosso “sim”, “sim”, e o vosso “não”, “não”» (Mt 5,37)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL– O juramento é a prova da mentira que reina no mundo. Se o homem não pudesse mentir, o juramento seria desnecessário. Por isso o juramento é uma barreira contra a mentira. Mas, ao mesmo tempo a incentiva pois onde só o juramento reivindica a veracidade última, se concede, ao mesmo tempo um clima vital à mentira, se admite um certo direito à sua existência . A lei do Antigo Testamento rejeita a mentira com o juramento. Jesus rejeita a mentira proibindo jurar. Tanto aqui como ali, só se pretende uma coisa: aniquilar a falsidade na vida dos crentes. O juramento que a antiga aliança colocava contra a mentira ficou nas mãos da mentira mesmo e foi posto a seu serviço. Queria assegurar-se mediante ele e criar-se um direito. Por isso Jesus deve capturar a mentira no mesmo lugar onde se refugia: no juramento. Este deve desaparecer, porque se converteu em refúgio da mentira […]. O preceito da veracidade plena é só uma nova palavra na totalidade do seguimento. Só o que está ligado a Jesus no seguimento se encontra na verdade total. Não tem que ocultar nada ante seu Senhor. Vive descoberto em sua presença. É reconhecido por Jesus e situado na verdade. Está patente ante Jesus como pecador. Não é que ele se haja manifestado a Jesus, mas que quando Jesus se o revelou em seu chamado reconheceu-se a si mesmo em seu pecado. A veracidade plena só existe ao ficarem descobertos os pecados, que também são perdoados por Jesus. O único que não se vergonha da verdade, seja qual for o lugar onde haja que proclamá-la, é quem, confessando os seus pecados, se encontra ante Jesus na verdade (Dietrich Bonhoeffer, Siga-me, Salamanca).

AUTORES: (Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *