Lectio Divina na 14ª semana do tempo comum ano 2020

LECTIO DIVINA BAIXE EM PDF: LECTIO DIVINA 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO A

 

DOMINGO, 05 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 11,25-30 (O Evangelho revelado aos simples. O Pai e o Filho; Jesus é o mestre com fardo leve) =Lc 10,21-22 – Este texto, quase idêntico foi definido como «o Magníficat de Jesus». Os sinóticos dão testemunho de que Jesus tinha consciência de ser O Filho de Deus de forma única e inefável. Uns poucos versículos bastam para mostrar o coração deste Filho e convidar-nos a por nele nosso coração. O contexto, ligeiramente diferente em Mateus e Lucas por motivos redacionais, destaca em ambos o marcado contraste entre a mentalidade comum e os pensamentos de Deus (cf. Is 55,8ss). Jesus bendiz o Senhor do céu e da terra chamando-o familiarmente «Pai» e louva o conhecimento que, insondável em sua simplicidade, não se pode adquirir mediante o esforço ou trabalho humano. Este conhecimento é puro dom de Deus, revelação de Deus aos simples (nepíoi: v.25). Só os «pequenos» são capazes de acolher, com naturalidade, os mistérios do Reino dos Céus anunciados por Jesus. Ele destaca com clareza: tal é o plano do Pai. Nesta afirmação, Jesus nos revela seu rosto interior, perfilado por uma adesão inquebrantável à vontade de Deus, de quem recebe tudo e ao qual o devolve tudo com obediência amorosa (vv.26-27a). Esta obediência inaugura uma comunhão perfeita com Deus, que na linguagem bíblica se expressa com o termo conhecimento: não um conhecer racional, mas uma relação vital, na qual o Filho pode introduzir-nos (v.27b). Retomando o antigo convite da Sabedoria (Prov 8,5;9,5), chama os oprimidos pelo peso das tribulações da vida e os oferece um jugo diferente do da Lei. Acolher os ensinamentos de Jesus não significa, com efeito, carregar-se com um cúmulo de normas a observar, mas aprender dele a simplicidade e a humildade de coração, que tornam mais suportável a prova e mais leve a tribulação (vv.28-30). Quem alinha seu coração com o Do Filho encontra descanso e sossego (v.29b): o peso do Amor ergue a quem o leva.

 

 

Zc 9, 9-10 (O Messias) – A segunda parte do livro do profeta Zacarias é obra de outro autor, o Segundo Zacarias. O contexto histórico é diferente: falta a perspectiva da restauração iminente da monarquia davídica e nem sequer se volta a falar da construção do templo. O povo, decepcionado e resignado, entrevê uma esperança grandiosa. Este oráculo convida à alegria e ao grito triunfal com os termos utilizados para celebrar a realeza do Senhor e a chegada da era messiânica. As linhas tradicionais do messianismo político se mesclam com elementos novos e inesperados. O rei que vem não tem os atributos do dominador vitorioso e esperado: seu poder deriva unicamente de sua relação com Deus. Ele é o «justo»; quer dizer, o que leva a cabo plenamente a vontade do Deus e faz justiça aos pobres; o «salvador» (tal qual) estabelecido por Deus. Adverte a influência dos cânticos do «Servo de YHWH» (em Is 53,11c-12a: «Meu servo trará a muitos a salvação… Dar-lhe-ei um posto de honra»); nesta passagem, a visão é universalista, em claro contraste com as promessas, que não permitiriam vislumbrar um futuro igual. Paradoxalmente, a humildade é o caminho da realeza: triunfa a rejeição da violência, a modéstia do que adota a pacífica cavalgadura dos antigos príncipes e estende seu domínio até os confins da terra. As esperanças messiânicas, insólitas e fascinantes, requerem, pelo modo de realizar-se, uma completa mudança de mentalidade; solicitam uma verdadeira transformação da mente, do coração e das obras.

 

Rm 8,9.11-13 (A vida no Espírito) – Quem, mediante o batismo, se une à morte e ressurreição de Cristo (Rm 6,3ss) é livre. A fragilidade de nossa natureza (“carne”, na linguagem paulina) nos inclina com facilidade até submeter-nos ao pecado: Paulo expressa esta realidade com os termos «viver»/«caminhar» «segundo a carne». Sem dúvida, não se trata dum destino inevitável, pois um novo principio dirige a vida do que pertence a Cristo: o mesmo Espírito de Jesus, garantia da ressurreição dos crentes (vv.9.11). E onde está o Espírito de Deus ai há liberdade (2 Cor 3,17). A nova, a esplêndida condição do cristão, que Paulo anuncia com orgulho (Rm 8,1.4), é dom irrevogável de Deus (cf 11,29) e empenho cotidiano do homem. A liberdade verdadeira é continuamente eleição e se concretiza na renúncia de si mesmo, condição imprescindível para seguir Jesus (Lc 9,23-25). O Espírito dá a luz e a força para que cada um veja e dê os passos correspondentes pelo caminho da liberdade, um caminho que pela via da mortificação conduz à vida plena (v.13).

 

Sl 144/145 (Louvor ao Rei Yahweh) Quando se deseja rezar, já se está rezando. Por isso, o apóstolo Paulo, nos recorda sabiamente que quer você coma, beba, durma ou faça qualquer outra coisa, que tudo seja feito para honra e glória de Deus. Segundo São João da Cruz: “o amado sempre pensa na amada e a amada no amado”. Deus quer que a nossa oração seja sincera, forte e corajosa, mesmo nas dificuldades. O orante do nosso Salmo sente-se sofrido, abandonado, mas também sente um grande desejo de louvar e bendizer a Deus por muitos motivos que surgem em seu coração. Rezar não significa sair da realidade, abandonar as nossas atividades e ficar o dia todo rezando ave-maria e pai-nosso. Há, sim, momentos de profunda oração, mas na maior parte do tempo devemos assumir atitudes orantes, isto é, fazer tudo com reta intenção e com amor profundo. Não esqueça, porém, de encontrar diariamente, como verdadeiro apaixonado e amante de Deus, momentos de silêncio e solidão para estar a “sós com o Só”, que é o Senhor.

Senhor, quero te rezar e louvar por tudo o que acontece na minha vida. Tu és força e refúgio. Quero a cada momento me lembrar de ti, da tua presença e do teu profundo amor. Que do meu coração subam louvores e ações de graça a todo o momento. Que a minha oração seja como o perfume agradável do incenso que sobe até a ti, que sejam rápidas orações, jaculatórias, pensamentos, flechadas de amor que lanço para o céu. Que todo o meu respiro seja louvor a ti. Que nada te ofenda em mim e nos outros. Temos contemplado a bondade de Deus em Jesus, nosso Senhor, que também viveu sempre em comunhão com o Pai. “E agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com a glória que eu tinha, antes de ti, antes que o mundo existisse. Manifestei o teu amor aos homens que, do mundo, me deste. Eles eram teus e tu os deste a mim; e eles guardaram a tua palavra. Agora, eles sabem que tudo quanto me deste vem de ti, porque eu lhes dei as palavras que tu me deste, e eles a acolheram; e reconheceram verdadeiramente que eu saí de junto de ti e creram que tu me enviaste”. (Jo 17,5-8).

 

 

MEDITATIO: A liturgia da Palavra de hoje, como um gole de água de manancial, reconforta nossa sede de caminhantes. Todo o simples e intacto conserva o poder de encanto e renovamo-nos internamente se por um instante nos detemos e desfrutamos disso. Com a simplicidade dos pequenos, Jesus desvela os propósitos que formamos, talvez de boa fé, porém que não correspondem com os planos de Deus. Com frequência, nos empenhamos em trabalhar pelo Reino do Céu com materiais e utensílios errados: não fazemos uma ideia do «êxito» que só encaixa em um horizonte estreito, «sob o domínio da carne». A Palavra nos chama à humildade de Deus e de Cristo, conduz-nos à retidão que triunfará no dia do Senhor, nos convida a edificar a paz em nosso redor apaziguando o coração. Admitamos que ainda não temos aprendido esta lição; verdadeiramente, não conhecemos nem o Pai nem o Filho. Ser conscientes disso é o primeiro fruto de escutar a Palavra. Sejamos seus discípulos: «Vinde a mim», nos diz a Sabedoria. Despojai-vos dos sofisticados andaimes de vossa pretendida inteligência e eficiência, que terminam aprisionando-vos. Descei às extremas profundidades de minha morte, e meu Espírito vos ressuscitará internamente para uma vida nova e livre. Se a liberdade e a paz são valores ainda estimados, seu nome secreto não saiu de moda: humildade e simplicidade de coração. Miremos a Deus feito homem: contemplemo-lo e ficaremos radiantes.

 

ORATIO: Rogo-te, Senhor, que ponhas por terra os andaimes de minha ciência humana; livra-me da lógica emaranhada de meus raciocínios, de minha orgulhosa auto suficiência, e concede-me a simplicidade das crianças, que descubra cada manhã a novidade de tudo quanto acontece, quando sempre parece igual. Faz-me pequeno e livre, Senhor, que me encontre entre os ditosos que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir as grandes coisas que revelaste. E então compreenderei que a nova ordem do mundo, a ordem da justiça e da paz, depositaste em minhas mãos. Amém.

 

CONTEMPLATIO: «Vinde a mim todos os que estais cansados e eu vos aliviarei» (Mt 11,28). Não este ou aquele, mas todos os que tendes preocupações, sentis tristeza ou estais em pecado. Vinde não porque eu vos queira pedir contas, mas para perdoar-vos vossos pecados. Vinde não porque eu necessite de vossa glória, mas porque anseio vossa salvação. Porque eu, disse, vos aliviarei. Não disse somente: «vos salvarei», mas muito mais: «vos porei em segurança absoluta». Não vos espanteis, parece dizer-nos o Senhor, ao ouvir falar de jugo, pois é suave; não tenhais medo de que vos fale de carga, pois é ligeira. Pois como nos falou anteriormente da porta e do caminho estreito? Isso é quando somos tíbios, quando andamos espiritualmente decaídos, porque, se cumprimos suas palavras, sua carga é realmente leve. E como se cumprem suas palavras? Sendo humildes, mansos e modestos. Esta virtude da humildade é, de fato, mãe de toda filosofia. Por isso, quando o Senhor promulgou aquelas suas divinas leis no começo de sua missão, pela humildade começou (cf 7,14). E o mesmo faz aqui, agora, ao mesmo tempo em que indica para ela o mais alto prêmio. Porque não só, disse, serás útil aos outros, mas tu mesmo, antes que ninguém, encontrarás descanso para tua alma. Encontrareis, diz o Senhor, descanso para vossas almas. Já antes da vida vindoura te dá o Senhor o galardão, já aqui te oferece a coroa do combate e, deste modo, ao mesmo tempo que pondo-te Ele mesmo por exemplo, te faz mais fácil de aceitar sua doutrina. Porque, que é que temes? – parece dizer-te o Senhor? Ficar rebaixado pela humildade? Olha-me, considera os exemplos que eu vos dei e então verás com evidência a grandeza desta virtude (Juan Crisóstomo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Este é o mais belo canto de amor filial que jamais se entoou na terra. O Filho de Deus o cantou, longe da casa paterna, longe da pátria celestial, como os devotos israelitas durante o desterro elevam a Deus salmos de comovedora nostalgia. De seu coração de pobre e Filho carinhoso, Jesus, exultando no Espírito, eleva ao Pai este hino de júbilo que revela o sentimento de extrema pequenez e confiança com o que, enquanto homem, se dirige a Deus, o Onipotente, o Criador do céu e da terra. Jesus é o «pequeno» por antonomásia ao qual foram revelados os mistérios do Reino dos Céus. Para fazer-se «pequeno», Jesus despojou-se de sua glória divina, e nós, para chegar a ser pequenos, no sentido evangélico, temos que despojar-nos do homem velho,do pecado. Jesus se despojou da glória divina e assumiu nossa condição humana; temos que despojar-nos de nossa falsa grandeza, de nosso orgulho, e segui-lo. O Espírito Santo, quando toca as cordas do coração, as faz sensíveis às vibrações da graça e tira delas um canto divino, a música do amor. Sem dúvida, Jesus não canta só, nem para si; quer atrair com seu cântico a todos os homens dispersos e reuni-los e restituí-los; para isso veio, junto a Deus, como filho. Sua canção se converte em uma imensa sinfonia cósmica (A. M. Cónopi, 1/ vonge/o della vita nuovo, Milán).

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 9,18-26 (A Cura de uma hemoroísa; A ressurreição da filha de um chefe) =Mc 5,21-43; Lc 8,40-56 Este relato apresenta a típica estrutura de encaixe. Trata-se, de fato, de dois episódios tão ligados entre si que se revelam como dois aspectos de uma única realidade: a fé em Jesus, que, se é autêntica, faz passar da morte à vida. Jairo, chefe da sinagoga de Ca­farnaun, se prostra ante Jesus na casa de Mateus exatamente quando estava falando de bodas, de roupa nova e de vinho novo (cf 9,16ss). Em seu discurso de vida se insere a pena de quem acaba de ver morrer sua filha de 12 anos (cf Lc 8,42), a idade das núpcias para os judeus. Jesus se dirige para a casa da defunta quando uma mulher, que sofria hemorragias há 12 anos, toca-lhe a orla de seu manto, persuadida, pela fé, de que «tocar-lhe» significa salvar-se. E isso é exatamente o que ouve o Senhor dizer: «Ânimo, filha, tua fé te salvou» (v.22). Se perder sangue continuamente simboliza a ameaça da morte, a cura da mulher é prelúdio da vitória sobre a morte que, em seguida, Jesus opera na casa de Jairo. Diz: «A menina não morreu; dorme» (v.24). De fato, onde se dá lugar a Jesus, que viveu a morte por nós em sua pessoa e a «submergiu» com sua ressurreição (1Cor 15,55), a morte corporal se converte em «dormir», e deixar-se «tocar» por Jesus se converte em certeza de ressurreição. A vida, como um caminhar para a plenitude das bodas de amor eterno, tendo plena confiança em Jesus, acha nesta página uma interpretação exemplar. Viver é caminhar na fé, nessa fé que, em concreto, é «tocar» e «deixar-­se tocar» por Cristo vivo na Palavra, na Eucaristia e no próximo.

Os 2,16-18.21ss (Iahweh e sua esposa infiel) – O profeta Oseías escreveu no tempo de Jeroboão III (713-743 aC), num período florido, do ponto de vista social, para Israel, ainda que ameaçado pela prostituição do povo aos baals, ídolos cananeus da sexualidade, da fecundidade, da vegetação. A própria mulher do profeta abandona-o e se converte em prostituta sagrada em um templo de Baal. Oseias, na dor do coração traído, é introduzido em um significado mais amplo desse adultério: não só sua mulher, mas todo Israel é adúltero com relação a Deus. E no fato de que o profeta, por vontade do Senhor, volta à sua mulher infiel, entende o autor sagrado que deve expressar, com sua própria vida e com seu escrito, o drama de um Deus até tal ponto fiel a Israel que o atrai de novo para si, para renová-lo num encontro de profunda intimidade. Os «vinhedos», os bens perdidos por Israel quando abandonou o Senhor, ele mesmo, o esposo, os devolverá, outra vez, à amada que se converte a ele. Israel, vendo ainda mais fundo à aliança nupcial com Deus, experimentará a transfiguração das próprias experiências mais dolorosas. Precisamente como o «vale de Acor», um estreito e obscuro desfiladeiro que evocava atrozes recordações de derrotas (cf Js 7,24ss), se converterá em «porta de esperança». E será muito belo, disse Oseías, como nos tempos da libertação do Egito, dirigir cantos de amor a um Deus que deseja, cada vez mais apaixonadamente, unir a criação consigo, renovando-a com seus dons nupciais. Estes são a justiça, fonte de toda a ação de Deus que une consigo à esposa fiel; o direito, que é defende-la do mal; a ternura e esse amor intenso e terníssimo (rahamîm) que caracteriza as novas relações do Deus-Esposo com Israel-Esposa, convertida no mais profundo de seu ser. Assim é como a esposa «conhecerá» a seu Deus: não de modo formal, exterior, mas no fundo do coração.

 

Salmo 144/145 (Louvor ao Rei Iahweh) – Ver dia anterior

 

 

MEDITATIO: Os baals, os ídolos de morte denunciados por Oseías, também nos seduzem hoje. São: o dinheiro, a roupa, o culto à imagem, o sexo, o hedonismo e também esse sutil, ainda que obstinado, domínio do ego, mediante o qual, inclusive quando fazemos o bem, buscamos mais a nós mesmos e nossas próprias gratificações que a glória do Senhor e a vinda do Reino. Sem dúvida, nosso coração está profundamente insatis­feito e inquieto. É preciso escutá-lo enquanto grita a desolação de seu vazio, desse adultério que é deixar per­der a Deus no torvelinho do ativismo, na carreira para o exagero, para prostituir-se com os ídolos citados acima. É preciso que nos deixemos conduzir pelo Senhor «ao deserto». Para ver com perspicácia idolatria do viver compro­metido com as lógicas deste mundo não só é um in­sulto ao Senhor da vida, mas também, uma progressiva perda de vida, como acontecia à mulher antes de tocar o manto de Jesus. Por tudo isto; resultam preciosos alguns momentos de me­ditação. Aos poucos se perde o gosto pela oração, à alegria de fazer o bem, a sensibilidade do «fazer-se próximo». E rapidamente, se vai apagando a vida espiritual. Há mortos ambulantes com muito ativismo por dentro e aparência de bem. Contudo, é possível a salvação. Chama-se Jesus. Este só pede que o conheçamos até o profundo do coração: com esse conhecimento da fé que é «tocar-lhe», como a mulher do Evangelho, e «deixar-se tocar» (tomar pela mão) por Ele, como a menina de 12 anos que se levanta. Jesus é o Esposo que liberta quem habita nas trevas (no vazio) e nas sombras da morte (todo adultério, prostituição aos ídolos). Contudo, é preciso entrar em contato com Ele com uma fé orante.

 

ORATIO: Senhor, reconheço-me idólatra e adúltero. Falas-me com grande amor. Derrama teu Espírito para que me deixe conduzir ao deserto interior que, de lugar vazio mortal pode converter-se em lugar de intimidade nupcial, se busco o silêncio. É no coração que chamo: aumenta minha a fé que é a experiência do «tocar-te» e «deixar-me tocar» por ti. Se o Espírito suscita em mim a vontade de tocar-te e de ser tocado por ti, orando, recebendo-te eucaristicamente na comunhão, no contato com o irmão, na consciência de estar em contato contigo, então vencerás em mim o sentido de perda das energias espirituais, da morte que vem, se me aparto de ti. Graças a esta fé, ao tocar-te, conheço-te esponsalmente e experimento vida, e tudo, inclusive a dor, se transfigura e se converte em Ti. Amém.

 

CONTEMPLATIO: Tarde te amei, formosura tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora te buscava; e disforme como era, me lançava sobre estas coisas formosas que criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que, se não estivessem em ti, não seriam. Chamaste e clamaste, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e iluminaste minha cegueira; exalaste teu perfume e respirei, e suspiro por ti; degustei de ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e abrasei-me em tua paz (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Aumenta minha fé e salva-me, Senhor”

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Como quisera, amigo de Deus, que estivesses sempre cheio do Espírito Santo nesta vida! “Julgarei na condição em que vos encontre”, disse o Senhor (cf. Mt 24,42; Mc 13,33-37; Lc 19,12ss). Ai de nós se nos encontra carregados de preocupações e fatigas terrestres! É certo que toda boa ação feita em nome de Cristo confere a graça do Espírito santo, porém a oração o faz mais que qualquer outra coisa, já que sempre está a nossa disposição. Poderias sentir o desejo, por exemplo, de ir à igreja, porém a igreja está distante ou acabaram os ofícios; poderias sentir desejos de dar esmolas, porém não encontras nenhum pobre ou não tens moedas no bolso; é possível que quisesses encontrar alguma outra boa ação para fazê-la em nome de Cristo, porém não tens força suficiente, ou bem não se te apresenta à ocasião; nada de tudo isto, sem dúvida, afeta a oração: todo o mundo tem sempre a possibilidade de orar. É possível, avaliar a eficácia da oração, até quando é um pecador que a faz, se a faz com um coração sincero a partir deste exemplo que nos refere à santa Tradição: ao ouvir a suplica de uma mãe que acabava de perder seu único filho, uma prostituta, que havia encontrado pelo caminho e se sentia comovida pelo desespero daquela mãe, se atreveu a gritar ao Senhor: “Não por mim, indigna pecadora, mas por causa das lágrimas desta mãe que chora por seu filho e segue crendo em tua misericórdia e em tua onipotência, ressuscita-o, Senhor”. E o Senhor o ressuscitou. Amigo de Deus, este é o poder da oração (I Garainof, Serafino di Sarov, Milán 1995).

 

 

TERÇA-FEIRA, 09 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 9,32-38 (Cura de um endemoninhado mudo; Miséria das multidões) – O texto está tem duas partes. Na primeira, após o milagre da cura dos dois cegos­ (9,27-31), Jesus liberta do demônio cura um mudo. A reação é dupla: gente maravilhada com as maravilhas de Deus e, em claro contraste, os fariseus insinuando que a obra de Jesus é satânica. Depois Mateus introduz o tema da missão, apresen­tando o caráter itinerante da pregação do Senhor. Este não é, de fato, um dos mestres comuns, que tinham morada fixa e onde iam os dis­cípulos. Em 4,23 Mateus o mostra percorrendo toda a Galileia, mas, aqui, se abre a uma dimensão universal. Vai a todos os povos e cidades proclamando o Evangelho e curando toda enfermidade (cf.v.35). O ponto focal do texto se encontra onde o evangelista capta o coração de Cristo compadecendo-se da multidão cansada, oprimida, sem pastor (cf.v.36). Para entender toda a intensidade que aqui se encerra bas­ta ver o texto original grego, onde a expre­ssão «sentiu compaixão» traduz o verbo splanchnízomai, reservado só a Jesus e a alguma parábola que simboliza seu «sentir», ou o do Pai. O termo correspondente, em hebreu, é raham, que significa «útero», «entranhas». Trata-se, pois, da qualidade materna do amor de Jesus por nós. Nosso mal lhe comove a tal ponto que se compadece (=com sofrer), até nos assumir em seu mistério de morte e ressurreição. Em seguida, Jesus compromete os discípulos em pedir ao Pai que suscite outras pessoas dispos­tas a seguir-lhe em uma evangelização que se assemelha à fa­diga de quem vai trabalhar na ceifa. A imagem da messe, na oração litúrgica atual, nos assimila a Jesus e nos faz orar assim: «Ó Deus, olha a magnitude de tua messe e envia operários para que se anuncie o Evangelho a toda criatura».

 

 

Os 8,4-7.11-13 (Anarquia política e idolatria) – O profeta Oseias manifesta o amor de um Deus que é grande em fidelidade e rico em misericórdia. Sem dúvida, proclama desse modo, a plena desaprovação de Deus com respeito à conduta de um Israel corrupto, cujo coração já não está com o Senhor. Estamos nos tempos de Jeroboão II e das intrigas que seguiram sua morte: tempos de egoísmos desencadeados e de uma religiosidade sem sinceridade. Trata-se da alienação do querer governar por si mesmo, elegendo chefes não designados por Deus. O próprio culto, ao exteriorizar-se cada vez mais, havia se contaminado até construir na terra de Samaria um bezerro, que ainda não era, a princípio, um ídolo, mas expressão da presença invisível de Yahweh, deslizou depois para a idolatria. Oseías alude ao rumor da «cólera de Deus»: uma categoria bíblica que temos de entender de modo adequado. Não é Deus um personagem colérico e vingador, mas alguém que se expressa como Amor em todos os sentidos do termo. Precisamente por haver criado o homem livre e responsável por suas decisões, o deixa a mercê das consequências da idolatria. Que o homem experimente o que é um vento tempestuoso que destrói o grão, o que é um talo sem espiga, o que é uma colheita presa dos estrangeiros. O castigo, a «cólera, é, pois, consequência do pecado e não um juízo externo e arbitrário de Deus.” Quando a vida não está em sintonia com o culto, multiplicar os altares é sinônimo de pecado. Trata-se de clara alusão à Lei do Sinai. A aliança nupcial (berîth) é a relação de fundo, estabelecida por Deus com seu povo, ainda que nas condições precisas ex­pressadas pela Lei. Portanto, sacrificar a Deus, esquecendo o que Ele quer, é a falta de sinceridade que Oseias condena em nome do Senhor. Precisamente esta falta de sinceridade da vida conduzirá Israel à escravidão do exílio babilônico no novo Egito.

 

Salmo 113 (O único Deus verdadeiro) – Este Salmo é importantíssimo para a nossa vida cotidiana, pessoal e litúrgica. É com ele que se inicia o pequeno grupo de Salmos chamado hallet, isto é, “louvai Javé” (Sl 113-118). A palavra aleluia, que expressa toda a nossa alegria ao louvar o Senhor, aparece com destaque nestes Salmos, que eram cantados durante e após a Páscoa. A palavra-chave para esse momento não é “pedir”, mas sim “louvor”. Todos nós somos convidados a louvar o Senhor, mesmo que seja no silêncio de nosso coração. Jesus cantará a sua aleluia na ceia pascal e firmará com seu sangue a nova e eterna aliança indestrutível. Hoje, na nova aliança, sobe a Deus um louvor novo, que é a Eucaristia.

Senhor, quero cantar a minha aleluia silenciosamente, sem rumor, no fundo do meu coração. Às vezes não sei como expressar a minha alegria por viver e por ser teu para sempre, marcado pela força do Sacramento do Batismo, inserido em Cristo, videira e purificado, podado pela sua mão sábia e santa, para que possamos produzir frutos abundantes. Vejo-me às vezes como uma árvore cheia de folhagem que faz muita sombra ou uma árvore decorativa, mas que dá muitos frutos. Quero, Senhor, hoje contemplar o Cristo, eterno sacerdote que celebra a nova Páscoa, que se entrega por nós e nos dá o mandamento novo do amor. Que eu possa amar cada vez mais a Eucaristia, Páscoa nova e, alimentando-me de Cristo, possa ser capaz de produzir os frutos abundantes do teu amor na tua Igreja, na comunidade, na família, onde eu estiver. Arranca de mim a esterilidade apostólica e torna-me fecundo pastoralmente, capaz de anunciar o Evangelho vivo a todos que encontro na minha vida. Que o meu coração não exclua ninguém do meu amor e do teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: O que resseca o coração e a vida é não estar centrados e unificados em Deus. É relativamente fácil pagar o tributo de práticas religiosas vividas como hábitos se­parados de nossa vida cotidiana. Sem dúvida, isto se converte em idolatria. «Este povo me honra com os lábios, porém seu coração está distante de mim» (Mc 7,6), disse Jesus. Todas as crises de fé e inclusive as de identidade partem desta separação entre religiosidade (formal) e vida. De outro lado, como evitar este «perigo»? Não é o voluntarismo o que nos salva. Se, contudo, deve haver compromisso e método na vida espiritual, o que importa é que tudo brote da consciência do mistério maior e consolador: o Senhor se compa­dece de nossa situação escabrosa, difícil, de nossa «sede» d’Ele, que, com nossas pobres forças, não chega a ser fonte. É necessário que o coração entre em contato, através da fé, com aquele amor, não só materno, mas ternissimamente materno, de Deus, que Jesus expressou em seu «sentir compaixão», em seu sentir-se comovido com “entranhas de mise­ricórdia” por nós. Uma vida que seja verdadeiro caminho espiritual parte de uma Palavra revelada, fulcro luminoso de nosso crer, esperar e amar: «Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4,10). Assim as coisas, inclusive nos mo­mentos de tentação, quando a carreira do ativismo ou a fascinação do aplauso ou a decepção do fracasso nos perturbam, a força do Deus-Amor, do Jesus-Presen­ça em nossa vivência nos sustentará. Poderá acontecer tudo, mas nossa união com o Senhor será certa e será salvação.

ORATIO: Senhor, derrama teu Espírito em mim, para que minha vida, com frequência triturada e, com facilidade idólatra, chegue a ser livre e unificada em ti. Cria em mim um coração sincero, para que me relacione contigo, não de um modo ritualista e rotineiro, mas com toda a consciência de que «tu és meu dono, meu único bem; nada há comparável a ti” (Sl 16,2) e de que «me ensinarás a senda da vida, me encherás de gozo em tua presença, de felicidade eterna a tua direita» (SI 16,11). Concede-me viver a certeza de que és a revelação do infinito amor do Pai, que se inclina para mim amando-me, até padecer comigo em teu mistério de paixão-morte, para abrir-me ao poder da ressurreição. Senhor, que eu sofra contigo minhas dificuldades e dores, e vença contigo todos os males graças a tua ressurreição. Dentro deste ritmo de vida pascal rogo-te que me faças partícipe de tua ânsia de salvação. Senhor envia-me, envia a tantos outros irmãos melhores que eu, ao campo do Pai, onde já se doura a messe do Reino.

 

CONTEMPLATIO: Que a alma, assim como se reúnem os filhos desviados, reúna seus pensamentos perversos, os torne a levar à casa do coração e espere, sem trégua, na sobriedade e do amor, o dia em que o Senhor venha a visitá-la[…]. Assim, o pecado não fará dano algum aos que vivem na esperança e na fé, esperando o Redentor. Quando Ele vem, transforma os pensamentos do coração[…], ensina a verdadeira oração que permanece estável e inquebrantável. «Caminharei diante de ti, derrubarei as fortalezas; romperei as portas de bronze, quebrarei os barrotes de ferro» (Is 45,2) (Seudomacario).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Confio em ti, Senhor. Faz-me alegre anúncio de tua sal­vação»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Nestes dias não tenho podido ler muito a Sagrada Escritura. Porém tenho meditado com atenção a Carta de São Tiago. Os cinco capítulos que a compõem constitui um resumo admirável da vida cristã. A doutrina sobre o exercício da caridade (Tg 1,27), o uso da língua (Tg 1,19-26), a dinâmica do homem de fé (Tg 2), a colaboração da paz (Tg 4), o respeito ao próximo, as ameaças ao rico injusto e avarento, e por último, o convite à confiança, ao otimismo, à oração (Tg 5): tudo isto e outras coisas constitui um tesouro incomparável de sinais, de exortações, para os eclesiásticos e os leigos, segundo a necessidade de todos os tempos. Seria conveniente aprendê-la toda, ponto por ponto, a doutrina celestial. Agora, já com sessenta e oito anos, não me resta mais que envelhecer. Agora bem, a sensatez, que sempre é jovem, está ai, no livro divino (João XXIII, Il giornale dell’alma, Ed. de F. Capovilla, Turin 1991, p 98)

 

 

QUARTA-FEIRA, 08 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 10,1-7 (Missão dos doze) =Mc 3,16-19; Lc 6,13-16 É interessante assinalar que no discurso sobre a necessidade da missão (cf. Mt 9,38: «Rogai portanto ao Senhor da messe que envie operários a sua messe») segue-se o cha­mado dos Doze, que são enviados de imediato. Exis­te, de fato, um vínculo profundo entre o ser chamado a «estar» com o Senhor e o ser «enviado» com Ele aos irmãos. E trata-se de um chamado pelo próprio nome, quer dizer, dentro da própria identidade, pensada, desde sempre, por um Deus que nos tem chamado, antes de tudo, à vida, por amor. Como em Lc 9,1, Jesus confere, de imediato, seu próprio “poder” aos seus discípulos, um poder que se concretiza em vencer as forças demoníacas e curar o mal parcial (a enfermidade), como antecipação e sinal da libertação total do mal. O evangelista Mateus tem um grande interesse na lista dos nomes, que, enfatizando bem, seguem a mesma ordem de Mc 3,16-19; Lc 6,14-16 e At 1,13. Não é casual que o primeiro nome da lista seja o de Simão Pedro, que é o primeiro em dignidade. Os outros apa­recem emparelhados. O evangelista, o próprio, que se chama Mateus, não se envergonha de acrescentar ao seu nome o pouco honorável oficio de publicano. Por fim, vem o nome de Judas Iscariotes, que passará, tristemen­te, a história, tal como aqui se diz: «o que o entregou». Vejamos as primeiras instruções de Jesus aos enviados: o convite a consagrar sua própria «missão» an­tes de tudo aos israelitas «perdidos» e a anunciar pelo caminho a grande proximidade do Reino de Deus. Razão nós temos de buscá-lo, no fato de que Jesus, judeu entre os judeus, conhece as possibilidades latentes em seu povo que, oprimido por tanta religiosidade, que havia se tornado legalista e formal e ca­recia de guias espirituais. Toda a Igreja primitiva, se­gundo os Atos dos Apóstolos, se moveu depois dentro deste mesmo direcionamento: anunciando aos judeus, antes que aos outros, o cumprimento das promessas feitas a Abraão: “Na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra” At 3,25. E a realização da benção, da qual o próprio Israel é portador, se con­verte, é «o Reino de Deus», quer dizer, a presença do Deus-Amor que, em Jesus, liberta e salva.

 

 

Oséias 10,1-3.7-8.12 (Destruição dos símbolos idolátricos de Israel) – O profeta Oséias compara Israel com uma videira, uma imagem familiar aos autores bíblicos (cf Is 3,14; 5,1-7; 27,2; Jr 3,21; 12,10; Ez 15,1; 17,6-10; Sl 80,9-19; Mt 20,1ss). De fato, Israel se tornou cultivador; enriqueceu. Porém, foi, justamente, com o bem estar material que tomou impulso para abandonar-se a um culto materialista e idólatra. «Tem dividido o coração». O profeta sublinha, com vigor, a falta de sinceridade que o formalismo religioso produziu, em concomitância com a construção de rastros (“massebe”, quer dizer, colunas talhadas com ambições artísticas), mas com uma depravação idólatra. O povo se lamenta, em seguida, por não ter um rei como as outras nações. O comentário do profeta constitui, sem dúvida, uma verdadeira desaprovação: sem Yahweh, Israel está perdido, com ou sem rei. A destruição de Samaria, dividida e idólatra, está predita, com vigor, junto com o fim de seu rei, arrastado como «galho quebrado» nas trágicas águas do assédio. «Espinhos e cardos» (cf Gn 3,18) subirão pelas colinas de seus altares, e o povo, consciente, ao final, de sua própria destruição, desejará que os montes lhes caiam por cima de suas cabeças para ocultar a sua vergonha. Como não sentir aqui algo assim como: uma antecipação do anúncio lucano (Lc 23,30)? No v.12 Oseías convida o povo a mudar de vida: «Semeai justiça», entendida esta como obediência à vontade de Deus; então colherão em um clima de «amor». Mas, uma imagem agrícola, um campo, «novo» como o coração do povo convidado a realizar esta justiça, uma justiça, na qual o que conta, de modo fundamental, é buscar a Deus, quer dizer, o que Ele quer.

Sl 104/105 (A história maravilhosa de Israel) – A caminhada do ser humano nesta terra não pode ser baseada no egoísmo; ela deve se firmar na preocupação com os irmãos e na observação do seu passado à luz do presente. Nesta observação, percebemos que Deus nos tem acompanhado em todos os momentos de nossa vida. Qualquer personagem bíblico que tenha amado a Deus e crido nele sentiu sua mão forte ao seu lado nos momentos de dificuldade e luta. Saiba: o Senhor caminha sempre ao nosso lado para impedir que sejamos abatidos ou dominados pelo desespero. Diariamente somos chamados a dar a nossa resposta a Deus, que nos convida a viver com coerência e iluminados pela sua Palavra. O nosso sim ao chamado do Senhor constantemente renova esta aliança. O salmista nos leva a visualizar a fidelidade de Deus que, desde Abraão até hoje, é a mesma e não muda em decorrência de nossa infidelidade. Deus é fiel, recorda-nos a Escritura, mesmo que o homem seja infiel. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é o nosso Deus, que se fez e se faz presença permanente em Jesus Cristo, nosso Salvador e redentor. Paulo recorda à comunidade de Corinto: “Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolhe o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma coisa. Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus. É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Cor 1,27-31).

Senhor, hoje quero gloriar-me em ti. Obrigado pela vida que tu me deste e que me chamaste a gestar junto contigo em todos os momentos de minha existência. Sei que não estou só, tu estás comigo. Glorio-me, Senhor, em ti pelos amigos que encontrei na minha vida que foram capazes de estimular-me a fazer o bem e a construir a meu redor e dentro de mim teu reino. Glorio-me, Senhor, pelos sofrimentos que encontro e contradições que tenho vivido por amor a ti. Às vezes tenho sofrido a cruz porque quero ser fiel a tua Palavra, e trago também na minha carne a tua paixão que amo e me consola. Glorio-me, Senhor, pela evangelização que me confiaste na minha família, no meio da tua Igreja, no meio do povo e por meio do meu trabalho diário, que nunca seja infiel. Glorio-me, Senhor, no pouco de bem que tenho realizado não por minhas forças, mas pela tua graça; glorio-me pela minha fé, esperança e caridade que tenho recebido pelo teu amor no dia do meu batismo. Glorio-me, Senhor, pela Virgem Maria, minha mãe, que com seu manto me cobre e sob sua proteção me refugio como pecador. Glorio-me por ser cristão, agradeço-te por minha fragilidade e pelos meus pecados que me obrigam a viver numa constante humildade e necessidade de teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: Pode acontecer que nossas jornadas estejam marca­das, às vezes, pelo selo da eficiência a qualquer preço. Parecem-se à videira de Oseias, que dá fruto, porém, não pelo Senhor, nem para o Senhor. Dentro desta busca «dividida», divide-se e se entorpece o coração. As consequências disto são nefastas: «espinhos» de descontentamento profundo e «sarças» de preocupações e de falta de sentido. Mas, se o coração volta a buscar o Senhor dentro da «justiça», que é santidade de vida com Deus e para Deus, poderá colher «amor» para si e para os demais. Isso é o que sublinha o Evangelho que apresenta Jesus enquanto, chama os doze apóstolos e os envia, dando-lhes o poder de libertar do mal e de anunciar que o Reino de Deus (o amor misericordioso do Pai) está próximo de quem, com reto coração, busca ao Senhor e sua vontade. Em nossos dias, é importante que o coração entre nesta dinâmica de chamado. Jesus nos chama por nosso nome. Para Ele, eu também sou único e irrepetível. Conhece-me e me ama desde sempre. Seu projeto de sal­vação não consiste só em sacar-me fora da falsidade de uma vida centrada em interesses de curto alcance, mas que quer fazer de mim, nada menos que, um instrumen­to de sua salvação. O que importa é crer que Ele me dá seu poder e, em seu nome, posso chegar a ser luz para os irmãos, contanto que permaneça em contato com Ele, mediante uma forte oração e meu coração esteja orienta­do a Ele e aos interesses do Reino.

 

ORATIO: Não permitas Senhor Jesus, que eu seja como a vinha de teu povo quando meu coração se afasta de ti e se converte em mentiroso, percorrendo caminhos de falso frescor. Faz que não olhe a eficiência a qualquer preço, a busca do que me agrada no interior das categorias mundanas: êxito, roupa, dinheiro, aplauso, imagem, interesse pessoal. Ajuda-me a «semear justiça»: a santidade evangélica de responder a teu chamado, a realizar, momento a mo­mento, junto a ti, com o poder do Espírito Santo que me deste, tudo que o Pai quer de mim. Conce­de-me «arar o campo novo», que consiste em viver e anunciar o Reino de Deus: reino de paz, de amor, de paciência, de mansidão e de uma esperança que vai além de qualquer dificuldade. Continua chamando-me por meu nome, Senhor Jesus. E de vinha idólatra, faz-me sarmento vivo de teu ser, Videira verda­deira. Concede-me dar fruto para o Reino, em ti e por ti.

 

CONTEMPLATIO: No mais profundo de si mesma, adverte, à alma, um movimento que a atrai para Deus. Neste movimento Ele lhe diz, de modo imperceptível, que tudo irá bem, contanto que o deixe agir e não viva de outra coisa, que de sua autêntica fé, em meio a um abandono total. «Certamente, declarou o patriarca Jacó, o Senhor está neste lugar e eu não sabia» (Gn 28,16). Buscas a Deus, querida alma? Tens de saber que Ele está em todas as partes. Tudo Ele te anuncia tudo Ele te dá. Inclusive, agora, Ele passa junto a ti, ao teu redor, dentro, através. Ele mora em ti e tu o buscas. Cuidado! Buscas a ideia de Deus em sua substância, buscas a perfeição, e esta se encontra em tudo o que te sai ao encontro. Tuas próprias ações, se as fazes por Deus e com Deus, os teus sofrimentos, as tuas atrações; tudo é enigma interior ao que Deus elege entregar-se a ti. Ele não necessita de tuas ideias sublimes para habitar em ti. (J.Pierre de Caussade).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Recobrai o ânimo, vós que buscais a Deus» (Sl 69,33)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O amor ao belo segue sendo um anseio fundamental, não só da vida monástica, mas da vida cristã em geral. Dostoievski dizia inclusive que a beleza poderia salvar o mundo, e eu estou convencido disso. Mas, onde se encontra esta beleza? Onde pode germinar? A condição essencial para que floresça a beleza e ressalte as obras criadas pelos cristãos é a pobreza: ali onde está à pobreza, não a miséria, ali onde está à simplicidade, isto é, a capacidade de reconduzir as coisas ao essencial, forçosamente acabamos por reconduzir as coisas a sua harmonia, e, então, todas as criaturas manifestam sua força sinfônica, sua consonância natural, e criam por si só, o ambiente que é a obra de arte. Dionísio, o Areopagita, recorda que nenhuma das coisas que existem estão privadas por completo de beleza, posto que, disse a Escritura que todas as coisas eram muito belas quando foram criadas. Daí que seja preciso descobrir de novo e fazer ressaltar esta beleza, convertendo-nos e convertendo as coisas à unidade e a simplicidade deificante (E.Bianchi, Ricominciare, Gênova 1991).

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 09 DE JULHO DE 2020 – 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 10,7-15 (Missão dos doze) = Mc 3,16-19;Lc 6,13-16 O texto que a liturgia nos apresenta hoje traz o anúncio: «O Reino de Deus está próximo». Tanto João Batista (Mt 3,2), como Jesus Cristo (4,17), o proclamaram desde o princípio. O que crer que o Reino é o Senhor e se converte, vivendo como Ele quer, converte-se em «sinal» de sua presença e como diz esta passagem, imediatamente depois, pode rea­lizar curas, voltar a dar a vida, tomar posição contra Satanás e suas estratégias de mal (v.8). O que importa é a consciência de estar inundados, conti­nuamente, por energias divinas: a graça que não te­mos merecido, porém, que Jesus a mereceu, por nós, com sua paixão, morte e ressurreição. Esta absoluta gra­tuidade é a aposta da pessoa que crer e da co­munidade edificada sobre o Evangelho. Visto que, gra­tuitamente, recebemos tudo de Deus, podemos projetar nossa existência através do dom da gratuidade. Ainda que vivendo em uma sociedade e em suas estruturas, se faz possível, assim mesmo, tomar distância de tudo aquilo que, nestas estruturas, dá um caráter absoluto ao valor do dinheiro, da roupa, de qualquer outro bem material. Também o discípulo trabalha neste mundo e sabe que tem direito ao alimento (v.10; cf Lc 10,7), à recompensa, porém se contenta com o necessário. O exce­dente do que foi ganho não é, portanto, para ser acumu­lado, mas para a gratuidade do dom. O evangelizador ficará na casa de quem seja digno de recebê-lo (v.11). E, quem pede para ser hospedado, levará como sinal distin­tivo a paz. Esta paz messiânica (Lc 10,5 recolhe a saudação com a qual haverão de anunciar-se: «A paz esteja convosco» será o sinal distintivo. Quem acolhe os enviados de Deus, acolhe o Reino de Deus e todas as suas promessas de benção. Quem não a acolhe se exclui de tudo isto. Por isso tem sentido «sacudir o pó», gesto que faziam os que, ao entrar em Israel, deixavam para trás a terra dos infiéis. Do mesmo modo que Sodoma e Gomorra, que foi destruída por não haver acolhido os enviados de Deus (cf. Gn 19,24ss), assim também será derrotado quem não acolha ao irmão e, portanto, o Reino.

 

 

Os 11,1-3.8c-9 (Iahweh vingará seu amor desprezado; Mas, Iahweh perdoa) – Este texto de Oséias figura entre os mais importantes de todo e Antigo Testamento na ordem da revelação da natureza do Deus-Amor. Se no capítulo dois o símbolo-linguagem que nós revela é o de um Deus esposo, aqui muda. O amor de Deus é o amor de um pai terníssimo que recorda ao seu filho os dias distantes em que, arrancando-o da escravidão do Egito, o levou, suavemente, pela mão. O povo havia ido, con­tinuamente, pelo caminho da idolatria, porém, Deus estava sempre ali para torná-lo a acolher em seus braços, para expre­ssar-lhe seu amor com laços de bondade que, tocando as fibras mais secretas da humana sede de ser amados, deve ter persuadido-os, sobre a força, a fidelidade e a misericórdia deste amor de Deus pelo homem. «A de­licada intimidade do amor de Deus e, ao mesmo tempo, sua força apaixonada, não foram percebidas, nem represen­tadas, por nenhum outro profeta como por Oseias» (Weiser). Existe nestes versículos uma vontade de salvação, por parte de Deus, que supera, em muito, a indignação pelo alienante ir, à deriva, do homem. E todo o tex­to (no qual volta bastantes vezes o verbo judeu que significa «amor») sublinha a absoluta prioridade do amor de Deus ao homem. O amor do homem a Deus, na Bíblia, vem depois, e aparece aqui com uma certa vacilação, como para expressar a impotência do «coração incircunciso», do «coração endurecido», que, só quando o Espírito Santo o alcança e penetra, pode conver­ter-se em «coração de carne», capaz, portanto, de amar a Deus e, nele, aos irmãos (cf Ez 36,26ss).

 

Sl 79/80 (Oração pela restauração de Israel) – Cada um de nós traz dentro de si não só as suas próprias preocupações, mas também as dos outros e as do próprio país, especialmente o povo de Israel. O salmista, por meio de sua oração, suplica Ao Senhor Deus que não abandone a nação e que cuide de seu destino. O povo é como uma vinha bem escolhida, bem plantada pelo senhor nosso Deus em terreno fértil, mas que infelizmente está sendo devastada pela idolatria, pelo mal, pelos inimigos. O salmista se pergunta por que esta videira está tão maltratada? Sentimo-nos assim quando olhamos a situação do nosso país, uma grande desolação invade o nosso coração, vemos o avanço da pobreza, da violência, do desrespeito aos direitos humanos, da falta de amor e de solidariedade. Jesus Cristo é a videira verdadeira, apresentada na terra pela Igreja e nós somos os seus ramos. Para que a videira produza frutos abundantes, deve ser cuidada e “regada” com amor. É nosso dever impedir que ela seja infectada por pragas que podem devastá-la. Una-se ao clamor do Senhor e proteja a videira, que é fonte de vida.

Senhor, olha a vinha que tua destra plantou. Construíste um muro de proteção para que não fosse devastada pelos “animais selvagens”, mas não raramente os inimigos estão fora, mas dentro da mesma Igreja, comunidade e família. A oração deve ser sempre uma súplica a todas as necessidades, não só para as nossas. O verdadeiro orante não se fecha sobre seus problemas, não reza só para si mesmo, mas abre os seus olhos e vê as dores dos outros e quer, como Jesus, carregá-las. O pedido de quem sofre é “Deus, mostra-nos o teu rosto e seremos salvos; faze-nos retornar aos caminhos certos de tua lei e de teu amor.” A felicidade está sempre na constante conversão, no abandono do pecado e no retorno à vida em Deus. Longe de Ti, Senhor, há trevas, noites e desespero; perto de Ti, Senhor, encontramos a verdadeira paz. Dá-nos a tua paz. Amém.

 

 

MEDITATIO: A vida, sobretudo em nossos dias, está repleta de tensões e de fadigas que tendem a triturar as jornadas, a dissipar e a empobrecer o espírito. O an­tídoto? Perceber-me em minha debilidade, precisamente hoje, não amanhã, nem depois de amanhã, como a criança que o Abbá do céu eleva até suas faces com uma força e uma ternura infinitas. Creio, estou seguro pela fé, que ele me retira dos diferentes “Egitos”, que são as distintas escravidões em que tem se enredado meu «agir», um «agir» frenético sem recordar de Deus. O drama de muitos cristãos é acolher, só intelectualmente, esta verdade: o Senhor cuida de nós. Daí o desalento, o sentido de angústia e, inclusive, de traição, quando tropeçam com a prova, com a dor, com as di­ficuldades da vida. Agora, o fato de que Deus seja «Deus, e não homem», se eu creio até o fundo em meu coração, pacifica e ordena a existência de raiz. Desta certeza de que há um Deus, cuja identidade é amor (cf 1 Jo 4,16), que nos ama e se preocupa conosco, brota esse estilo, do qual fala Jesus no Evangelho. Sou amado gratuitamente, sinto-me cumulado de diligentes cuidados. Em consequência, o lema da gratuidade é minha referência aos irmãos, anunciando, precisamen­te, esse Reino de Deus, que é a luz, o sentido e a alegria de meu viver. Esta riqueza, absolutamente gratuita, é a que estou chamado a entregar. E, precisamente dentro deste círculo de gratuidade, viver se converte no alento da grande expectativa: «Volta rápido, Senhor, como a luz difundida sobre a onda, que brilha com fulgores ines­perados» (D. Doni).

 

ORATIO: Senhor Jesus, rogo-te que tomes posses do profundo de meu co­ração. Concede-me estar seguro de tua presença no centro de meu ser, além das minhas fáceis depre­ssões, de minhas euforias e ânsias que há em mim. E faz que, através delas, entre, com frequência, em contato contigo. Tu, acima de meus «Egitos» e das «ruínas» de uma vida superficial, naturalista e, por isso, des­trutiva, podes chegar ao núcleo vital de meu ser, carregado de promessas. Tu, e só Tu, Senhor Jesus, podes fazê-la florescer em con­tínua e real atitude de entrega. Faz que te receba, dia após dia, através da gratuidade de teu amor terno e delicado, e que, com este amor, vá anunciando teu Reino com o estilo da gratuidade e da simplicidade.

 

CONTEMPLATIO: Só a ti deseja minha alma, Senhor. Não posso esquecer teu olhar sereno e tranquilo. Suplico em lágrimas: vem, faz morada em mim e purifica-me de meus pecados. Estás vendo, Senhor, do alto de tua glória, como se consome m’alma por tua causa. Não me abandones, escuta teu servo. A Ti grito como Davi: “Tem piedade de mim, ó Deus, por tua grande misericórdia» (Archim, Sofronio)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Tu me amas gratuitamente, Senhor. Faz-me viver no seio da gratuidade”

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Livre significa: alegre e afetuosamente, sem temor e de modo aberto, dando gratuitamente o que temos recebido, sem aceitar compensações, prêmios ou gratidão. A alegria deveria ser um dos aspectos principais de nossa vida religiosa. Quem dá com alegria dá muito. A alegria é o sinal distintivo de uma pessoa generosa e mortificada que, esquecendo-se de todas as coisas e até de si mesma, busca comprazer a Deus em tudo o que faz pelos irmãos. Com frequência é um manto que esconde uma vida de sacrifício, de contínua união com Deus, de fervor e de generosidade. “Que a alegria habite em vós”, disse Jesus. Que é esta alegria de Jesus Cristo? É o resultado de sua continua união com Deus cumprindo a vontade do Pai. Essa alegria é o fruto da união com Deus, de uma vida na presença de Deus. Viver na presença de Deus nos enche de alegria. Deus é alegria. Para dar-nos essa alegria Jesus Cristo se fez homem. Maria foi à primeira em receber Jesus Cristo: “Exulta meu espírito em Deus, meu salvador”. O menino saltou de alegria no seio de Isabel porque Maria lhe levava Jesus Cristo. Em Belém, todos estavam cheios de alegria: os pastores, os anjos, os reis magos, José e Maria. A alegria era também o sinal característico dos primeiros cristãos. Durante a perseguição, se buscava aos que tinham esta alegria radiante no rosto. A partir desta particular alegria viam quem eram os cristãos e assim os perseguiam. São Paulo, cujo zelo nós tentamos imitar, era um apóstolo da alegria. Exortava aos primeiros cristãos a que “se alegrassem sempre no Senhor”. Toda a vida de Paulo pode ser resumida nesta frase: “Pertenço a Cristo. Nada pode separar-me do amor de Cristo, nem o sofrimento, nem a perseguição, nada. Já não sou eu quem vivo, mas Cristo quem vive em mim”. Essa é a razão de que São Paulo estivesse tão cheio de alegria (Madre Teresa, Meditazione spirituali, Milán, 30ss).

 

 

SEXTA-FEIRA, 10 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 10,16-23 (Os missionários serão perseguidos) =Mc 13,9-13; Lc 21,12-19 –

O texto está penetrado, todo ele, pela força dramática, ainda que salvífica, da pertença a Cristo. O «Eis que» inicial introduz este novo ensino so­bre a missão. Trata-se de trilhar os caminhos da mansidão e da não violência, ainda que, sendo consciente de estar rodeado por um mundo feroz e agressivo.  A imagem das ovelhas assemelha-se, o evangelizador, com o Cordeiro «que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29): aquele que carregou as nossas iniquidades e as nossas dores (cf. 1s 59,11), para realizar o projeto de um Deus que quer que todos os homens se salvem (cf 1 Tm 2,4). A mansidão e a não violência do evangelizador não são nunca, sem dúvida, debilidade, nem simplismo, nem, me­nos ainda, masoquismo. Trata-se de viver duas virtudes que parecem opostas, ainda que não sejam: a prudência da serpente, como exercício de uma inteligência vigilante, realista e crítica, que se subtrai ao engano; e a simplicidade da pomba, como exercício do proceder puro e confiante, próprio de quem sabe que está nas mãos de um Pai onipotente e bom. A exortação a tomar cuidado com os homens (quando se trate de «lobos» dispostos a tramar perfídias) vem, portanto, da parte da prudência; a exortação a não preocupar-se pelo que tenha que dizer, pondo toda a confiança no Espírito do Pai, que se ocupará de inspirar o que tenha que dizer, vem, ao contrário, da parte da simplicidade. A perspectiva do que terá lugar antes do triunfo definitivo de Jesus Cristo não é uma perspectiva romântica: o mal é gerador de mal e agi­ta as próprias relações familiares, chegando até às raízes da vida (v.21), porém, quem suporte ser odiado (não por causa de suas próprias ações reprováveis, mas, por Cristo, sobera­namente amado e seguido: v.22), será salvo. Trata-se, em definitivo, de perseverar no agir con­tra o mal, ainda que tentando fugir dos perseguidores, com a certeza no coração de que, dentro do decorrer dos dias, segue sendo iminente a vinda do Filho do homem com sua vitória definitiva sobre o mal e a morte (v.23).

Os 14,2-10 (Retorno sincero de Israel a Iahweh)É o último vaticínio de Oseías, admirável tanto pelo conteúdo como pelo arroubo lírico-afetivo. O profeta proclama, uma vez mais, o amor apaixonado de Deus por Israel, expressando, em primeiro lugar, o convite a voltar ao Senhor, com consciência do próprio pecado (vv.2ss). Trata-se, em suma, do chamado, repetido por outros profetas, para que Israel se mostre, essencialmente, em sintonia com o espírito da aliança (cf. Am 5,21-24; Is 1,10-17; Mq 6,6-8; Sl 50,8-21; 51,18ss). Em resposta ao compromisso penitencial do povo que se entrega a Iahweh, persuadido, agora, da inutilidade e do perigo de qualquer recurso às potências estrangeiras (Assíria) e de toda confiança ilusória nas próprias iniciativas a margem de Deus (v.4). Em resposta a isto dizia: o Senhor é garantia de um futuro de esperança para o povo (v.5). O ponto decisivo da passagem reside na apresentação de umas imagens belíssimas da natureza: Deus se compara com o orvalho, que vivifica o que era árido. Deste modo, o povo volta a ter o frescor da flor do lírio. Parte-se da magnificência do providente olival e da fragrância do Líbano cujos cedros exalam perfume, para expressar o reflorescimento de Israel enquanto aceita voltar ao Senhor (vv.6ss). Porém, em seguida, compara-se, o próprio Senhor, com uma árvore, em cuja sombra descansará o povo, retirando novas forças para fazer florescer, como a videira, toda a nação (v.8). Para um Israel renovado por completo, Deus é al­guém que vigia e escuta. É como o cipreste, a árvore firme, forte, perenemente verde: metáfora da onipotência de Deus, que permite a Israel ainda dar frutos (v.9). O v.10 encerra o texto confiando aos sábios à compreensão de todos os vaticínios. Para o autor desta expressão conclusiva (que talvez não seja Oséias), a sabedoria é caminhar com retidão pelos caminhos do Senhor.

 

Sl 50/51 (Miserere) – Este Salmo é um capítulo do livro de nossa história. Todos nós, assim como acorreu com Davi, passamos por três fases distintas em nossa vida, dominados por sentimentos contrários: bondade, pecado e conversão. A história de Davi é belíssima: quando jovem era puro e bom. Deus, então, pousou sobre ele o seu olhar, escolhendo-o como rei e profeta. Mas o pecado e o poder o depravaram e ele, seduzido pelo amor de Betsabeia, mandou matar Urias, o hitita, a fim de roubar-lhe a mulher. Deus suscitou o profeta Natã para abrir-lhe os olhos, mostrando o pecado que cometeu. Arrependido, Davi se converte e escreve esse belo Salmo, cheio de emoção, esperança e confiança. Quando nos arrependemos de nossos erros, Deus nos lava, purifica e dá um coração novo e puro. Ele nos convida a cantar cantos de festa e de alegria. Este Salmo deve ser lido muitas vezes e considerado como um projeto de vida para todos nós. Ele ajudará a abrir o nosso coração à conversão, conscientizando-nos de nosso pecado, não por intermédio do desespero ou do medo, mas pela confiança de que nosso Deus é misericordioso. Em nosso coração, teremos a certeza de que Ele não quer sacrifícios inúteis, vazios, mas sim aqueles carregados de amor. Quando os laços do pecado nos agridem e tentam nos afastar da misericórdia do Senhor, devemos novamente meditar este Salmo. Assim, venceremos o medo e nos lançaremos na misericórdia do amor. Por que temer o amor de Deus? Por que temer confessar nosso pecado? Por que a vergonha dos erros cometidos, se não podemos voltar atrás? A pedagogia do pecado é que nos ensina a pecar mais.

Senhor, confesso e reconheço que sou pecador. Minha natureza é maldosa e pecaminosa, por isso necessito de tua graça e do teu amor para superar o mal que está em mim. Sinto na minha carne as mesmas tentações que Davi sentia e as quais nem sempre resistiu. A tentação de querer ser maior que os outros, de buscar o poder como forma de autoafirmação e fazer do poder um meio nem sempre lícito para dominar e espezinhar os outros. O poder me corrompe e me permite acreditar que tenho regalias e que me é lícito fazer o que quero. A tentação da carne, da sensualidade e da sexualidade, nem sempre orientada, é forte e não é canalizada para fazer o bem, mas sim instrumento de prazer e de condescendência aos instintos que tentam dominar e me levar para longe do projeto de amor. A tentação me faz querer tudo: coisas e pessoas. No entanto, Senhor, percebo que dentro de mim há algo de bom, um desejo de infinito, uma luta para vencer o mal e a vontade para fazer o bem. Quero entrar no meu coração para escutar a tua Palavra, para me colocar aos teus pés na atitude de discípulo. Envia-me profetas corajosos como Natã, que me jogue na cara o meu pecado para que eu possa me converter. Todos nós necessitamos de conversão, do mais santo ao mais pecador, do grande ao menor. Senhor, é o que te peço, não afasta de mim o meu pecado para que, tendo-o na minha frente, evite outros pecados. E faz que ensine, com a minha experiência e as quedas, o caminho certo, e que outros não cometam os mesmos erros meus. Amém.

 

 

MEDITATIO: Viver os dias espiritualmente significa experimentar que nenhuma potência humana nos salva e que não é «elaborando» projetos de autossuficiência, nem pondo a confiança em nossas obras, que re­alizamos o Reino de Deus em nós e à nossa volta. O segredo de uma vida verdadeira é, em primeiro lugar, o contínuo retorno ao coração habitado por Deus. Diziam os Padres da Igreja que fazer memória, continuamen­te, de Deus, ao longo de nossas próprias jornadas, é o que, concretamente, nos faz caminhar com o Senhor Jesus, dan­do frutos nele. A estratégia consiste, pois, em uma interioridade ativa: partindo da dispersão, que supõe fazer muitas coisas, termos de tomar consciência de novo, o mais frequente que pudermos, que Jesus Cristo «mora» em nós, e voltar-se a Ele com rápidos, mas, igualmente frequentes, contatos de amor. Verdadeiramente, será como «sentar-se a sua sombra» (Os 14,8) e ai encontrar repouso; será como um florescer e um dar fruto, tam­bém no campo apostólico. Sabemos que não se trata de uma aventura fácil, mas o Senhor Jesus será «orvalho» de Espírito Santo, que nos ensinará como nos relacionarmos com o mundo em que vivemos, para que possamos ser simples na busca de Deus e de tudo o que é verdade de amor, prudentes no dis­cernimento dos caminhos que não nos afastem desta verdade. A eleição de um estilo de vida, marcado pela mansidão do Cordeiro, em uma sociedade penetrada por grandes e sutis e, aparentemente, triunfantes violências, assemelha-nos ao Senhor: o Cordeiro que tira o pecado do mundo, nossos próprios pecados. N’Ele, e por Ele, dentro de uma fé que o envolve todo, é como decorrem os dias, serenos, inclusive em meio das difi­culdades, às vezes em meio as perseguições. Porque sabemos: «Esta é a vitória que vence ao mundo: a nossa fé» (1 Jo 5,4).

 

ORATIO: Senhor, faz com que eu volte a ti: a cada hora, em cada mo­mento. Que dentro do turbilhão de coisas que devo fazer, seja tua recordação, ou de tua presença gloriosa em mim, o que me permita dar «fruto», em todas as obras boas que projetaste para mim. Sê para mim, orvalho do Espírito Santo: tanto para meu contínuo «florescer» na relação de amor vital e nup­cial contigo, como para com o modo de relacionar-me com os irmãos. Não permitas que a violência, típica deste mundo, me envenene ou se mescle comigo. Que eu não me debilite em meio aos medos. Faz-me tranquilo, com a força de teu amor. Que perdoar com facilidade seja o estilo com que decorram meus dias e que a humilde aceitação e compreensão do outro, inclusive, quando não possa e não deva compar­tilhar seu credo e suas ideias, se converta em minha participação em teu ser amoroso que salva.

 

CONTEMPLATIO: Liberta-nos, Senhor, de todas as ações impuras, repugnan­tes à tua habitação em nós. Que não apaguemos os esplendores de tua graça que ilumina a vista dos olhos interiores. Que saibamos que Tu, Senhor, te unes a nós, graças à oração e a uma vida irrepreensível e santa (cf 1 Cor 6,17). E visto que Um da Trindade se ofereceu em sacrifício e Outro o recebe e se mostra propício conosco, aceita, ó Senhor, nossa súplica. Dispõem em nós santas moradas, a fim de que saboreemos o Cor­deiro celestial e recebamos o maná que dá a vida imor­tal e uma salvação nova, através de um caminho de amor. (Gregório de Norek)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Sê orvalho para mim, Senhor. Florescerei em ti»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – No exercício de seu trabalho o cristão se esforçará por ter sempre a intenção de fazer tudo para a glória de Deus e para o bem do próximo: por isso se comparará frequentemente com aqueles da comunidade ou de seu lugar de trabalho que possam ajudar-lhe e, sobretudo, com o Senhor, através da escuta da Palavra e da oração, afim de que o trabalho seja âmbito de graça e de santificação para si e para aqueles com quem se encontra e ficam superadas as contradições, os sofrimentos e as pobrezas que pesam sobre a experiência do trabalho humano. Esta espiritualidade do trabalho se converte em um modo concreto de dar graças a Deus por seus dons e viver o retorno a Ele de tudo o que, de maneira gratuita, nos foi dado ao chamar-nos à vida de fé. Educar significa assim mesmo dar gratuitamente a outros, o que nos foi dado gratuitamente: a educação é uma forma elevada de restituição dos bens recebidos, por isso a Igreja se sente chamada a ser comunidade educadora na gratuidade a Deus, doador de dons, e no compromisso prioritário do serviço às novas gerações (Carlo Maria Martini, Parlo al tuo cuore, Milán 1196).

 

 

 

SÁBADO, 11 DE JULHO DE 2020- 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Mateus 10,24-33 (Falar abertamente e sem medo) = Lc 12,2-9O que líamos ontem nos colocava, vigorosamente, fren­te às exigências da missão, inclusive, de suas extremas consequências: da perseguição e da morte. Hoje Jesus intro­duz em seu discurso o tema, tipicamente bíblico, do «não ter medo», o qual aparece na Bíblia 366 vezes. A passagem está estruturada pela repetição, de modo imperativo, do convite a não temer(vv.26.28.31), à qual, em cada ocasião, seguem-se os motivos pelos quais a confiança deve pôr à prova o temor. O primeiro motivo é este: ainda que o bem esteja agora como velado e a astúcia e a virulência do mal pareçam ocultá-lo, será produzida uma inversão total e veremos, no triunfo de Cristo, o triunfo de todos os que elegeram fazer o bem. Essa é a razão de que, se anime os discípulos, à audácia do anúncio. O que nos é entregue é pequeno como um pavio nas trevas, como um sussurro ao ouvido, porém, deve ser entregue à plena luz do dia, gritado (com todos os meios), inclusive dos telhados. Ainda que o preço seja a morte, deve saber o discípulo, que a morte do cor­po, será sempre um fato natural, que temos de enfrentar com paz, sobretudo quando estamos seguros de que nada nem ninguém, se nós vivemos e anunciamos o Evangelho, poderá matar a vida em nós, visto que o verdadeiro mal destruidor desta vida, e da outra, é o pecado. A argumentação de Jesus sobre as razões para não ter medo se une, em seguida, a duas imagens muito ternas: a dos “pássaros”, que, ainda que tenham um preço irrisório, são eles objeto do amor providente do Pai; e a dos “cabelos» de nossa cabeça, que são todos eles, contados. Em verdade, disse o Senhor, é preciso que não deixemos que o medo ocupe lugar algum em nós e nos decidamos, ao contrário, a levar uma vida consagrada, a dar testemunho de Cristo e do Evangelho.

 

Is 6,1-8 (Vocação de Isaias) – Este texto é importantíssimo para a compreensão da mensagem do profeta. Foi escrita em torno do ano 724 antes de Cristo, ano da morte do rei Ozias. Marca o fim de um período de prosperidade e autonomia para o reino de Israel. E serve, ao profeta, para destacar um tema que lhe é próprio: a santidade e a glória eterna de um Deus que transcende, em muito, toda grandeza humana e é «o Santo de Israel» por excelência. É por este Deus que o profeta Isaías se sente chamado. O cenário é o templo de Jerusalém. E a descrição antropomórfica do Senhor sobre o trono, rodeado pelos serafins (criaturas com semelhança humana, porém dotadas de seis asas), reflete as representações do Oriente próximo, se bem que a solenidade e o arroubo do profeta Isaías dizem muito mais. A tríplice repetição do «Santo» tenta expressar a infinita santidade de Deus, sua transcendência, sua absoluta diferença a respeito daquilo que, por ser terreno, se corrompe e é limitado. O sentido da presença de Deus proporciona tanto o tremor das portas do templo como a fumaça (v.4), semelhante na função de significar a glória de Deus, à nuvem que cobria a tenda do tabernáculo durante o tempo que permaneceu, Israel, no deserto. Neste ponto fica o profeta Isaías como que perturbado, obscurecido pelo sentido de sua indignidade, li­gada ao seu pecado e ao do povo, frente à infinita pu­reza e santidade de Deus. Vem-nos à mente o livro do Êxodo 33,20: «Não poderás ver minha face, porque quem a vê não segue vivo». Sem dúvida Deus não quer a morte do homem e intervém, através de um ato simbólico de purificação, com o qual expressa que se trata sempre, ante tudo, de uma iniciativa de Deus e não do homem (vv.7ss).

 

Salmo 92/93 (O Deus Majestoso) – Este pequeno Salmo sempre foi muito importante, mas, especialmente hoje, sua leitura se faz necessária e muito nos engrandece. O ser humano está enfermo de uma doença que se espalha rapidamente: a doença do poder e do orgulho. O homem não aceita estar abaixo de Deus e tenta a cada momento ser o próprio Deus. Não há mais limites para ele, que acredita ser capaz de enfrentar e vencer a tudo. Brinca de ser eterno e crê que um dia a ciência ressuscitará todos os mortos e encontrará a vida eterna. Esquece-se que uma pequeníssima picada de mosquito pode causar uma infecção incurável. Precisamos recuperar o sentido de nossa fragilidade e pobreza, esconder-nos na nossa humanidade e proclamar a toda voz que somente Deus é eterno, soberano e grande, e que somos pobres e pequenos.

Senhor, a minha oração de hoje é breve: liberta-me do orgulho, e que eu nunca, mas nunca mesmo, pense nem por um breve instante que sou mais poderoso do que tu. Que me prostre e te adore mesmo quando a minha inteligência se rebela e se recusa a te servir; que saiba só dizer: “quero te servir”. Amém.

 

 

MEDITATIO: A sociedade do “ter mais” marginaliza a Deus, cada vez mais, mediante uma série de mecanismos que busca o prazer a qualquer preço, por qualquer meio. Roupa, dinheiro, serviços, experiências: tudo se oferece no grande supermercado do mundo. Sem dúvida, o homem, antes de perseguir a paz do coração, experi­menta um grande vazio, amplificado, precisamente, pelo peso dos bens de fortuna. Se não queres morrer de asfixia espiritual, chegou o tempo de inverter, por completo, sua marcha. “Buscai a Deus e vivereis», adverte o profeta Amós. E os anjos da natividade cantam: “Glória a Deus, no céu, e na terra, paz aos homens que amam o Senhor». O que o coração (muito mais que a mente) deve com­preender é o fato de que, se busco a glória do Senhor em meu agir, se meu olho interior se abre a contemplá-lo, ao querer agir por amor a Ele, chego, também, à paz. Mas, se, ao contrário, busco minha paz, aderindo a este mercado de propostas consumistas, apoiadas pelo psicolo­gismo, perco-me em becos sem saída, onde se en­contram medos dispostos a sufocar-me, cada vez mais destruidores. Agora, para que eu busque a glória do Senhor e saiba descobri-la por onde quer que eu vá – na flor entrea­berta, no céu cheio de estrelas, no rosto ami­go, no dia alegre ou cansativo – necessito deixar-me pu­rificar. O Senhor sabe de quem e de que servir-se, para que eu não esteja sob o domínio do egoísmo, mas da glória de Deus. O outro elemento fundamental é que recite repetidamente: «Não tenhais medo». Em um mundo profunda­mente perturbado, absorver o “não tenhais medo”, nos âmbitos mais profundos do ser, me faz adquirir confiança, fortaleza, liberdade, inclusive no que diz respeito ao apostolado. Direi com o profeta Isaías: “Aqui estou, envia-me”.

 

ORATIO: Senhor, Tu sabes que o prazer me atrai e que me inclino a colocá-lo no lugar da alegria e da paz que necessito. Suplico-te, em meio da corrupção do grande mercado em que eu vivo, que me leves a deixar-me purificar por ti, não só os lábios, como Isaías, mas no profundo do coração. Ajuda-me a aceitar tudo aquilo de que tu queres servir­-te para realizar esta necessária purificação. Põe-me no combate espiritual contra as paixões, para que eu deseje e anseie, em tudo, tua glória e não as mesqui­nhas satisfações de meu egoísmo. E que teu “não tenhais medo» sustente esta minha vontade dia após dia. Se tu me persuades de que buscar tua glória significa obter, do mesmo modo, a paz do coração, viverei melhor estes meus breves dias e os viverei em plenitude: não recuado em mim mesmo, mas entregue ao anúncio desta paz, desta alegria, também a meus irmãos. Purifica-me, Senhor, fortifica-me e, depois…“aqui estou, envia-me”.

 

CONTEMPLATIO: Agora amo a ti, a ti sigo, a ti busco e estou disposto a pertencer-te todo, para que só tu exerças a soberania, Senhor meu, desejo ser teu. Manda e ordena o que quiseres, rogo-te, porém, cura e abre meus ouvidos, a fim de que possa ouvir tua voz. Cura e abre meus olhos, a fim de que possa ver teus sinais. Afasta de mim o que me impede reconhecer-te. Mos­tra-me o caminho e dai-me o que necessito para a viagem. (Santo Agostinho)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Toda a terra está cheia de tua glória» (cf. Is 6,3)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Nossa carne está feita para morar em Deus, para converter-se em templo de Deus. A carne de Jesus é o templo de Deus. Deste templo correrão rios de água viva para alimentar, curar, revelar o amor e a compaixão. Nossa carne, transfigurada pelo Verbo encarnado, se torna um instrumento para difundir o amor de Deus. Como foi para Maria, também para nós a carne de Cristo, sua humanidade, é o meio através do qual e no qual nos encontramos com Deus. O chamado que recebemos não é a deixar a humanidade de Cristo para ir ao encontro de Deus, que transcende a carne, mas a descobrir e a viver a carne de Jesus como carne de Deus, seu corpo como um sacramento que dá sentido novo a nossa carne humana, que nos revela o amor eterno da Trindade onde o Pai e o Filho, na unidade do Espírito Santo, se amam desde toda a eternidade. Nossos corpos foram concebidos no silêncio e no amor. Nossa primeira relação, com nossa mãe, foi uma relação de comunhão, através do tato e da fragilidade da carne. Fomos chamados a crescer, a desenvolver-nos, a tornar-nos competentes e a lutar pela justiça e pela paz; porém, em definitiva, tudo está destinado à entrega de nós mesmos, ao repouso e à celebração da comunhão. Tudo começa na comunhão, tudo culmina na comunhão. Tudo começa na festa das bodas e tudo consuma na festa das bodas, na qual nos entregamos com amor. (Jean Vanier, Gesù: il dono dell’amore, Bolonia 1995).

 

AUTORES (Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

 

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