LECTIO DIVINA NA 23ª SEMANA COMUM ANO 2019

LECTIO DIVINA DA 23ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO 2019

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DOMINGO, 08 DE SETEMBRO DE 2019 – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Lucas 14,25-33 (Renunciar ao que temos de mais caro; a todos os bens) Este texto do Evangelho contém duas parábolas (vv.28-30 e 31ss) e três máximas fundamentais da sabedoria cristã (vv.26.27.33). A verdadeira sabedoria, a qual Jesus nos ensina no Evangelho, consis­te em abandonar tudo, em prescindir de tudo, em despo­jar-nos de tudo, em chegar a ser, finalmente, livres para segui-lo e mergulhar no oceano do Amor. O dom da sabedoria consiste precisamente em seguir a Jesus, a ninguém mais. As parábolas nos ensinam, de fato, que a sabedoria do cristão consiste em ir a Jesus «renuncian­do a tudo o que tem», como sugere Lucas (v.25). Isto é o que se exige para seguir a Jesus. Jesus exige para Ele, por ser o Filho de Deus, «todo o coração, todas as forças». Nada pode opor-se a este amor. Jesus quer ser amado como o único amor, como a única riqueza e o único projeto que enche o coração. Quem não «renuncia a tudo o que tem» (v.33) não pode pretender ser seu discípulo. Está incluído aqui tudo o que possamos possuir: não só os bens mate­riais, mas também as relações com outras pessoas, como os parentes mais próximos. No fundo, a sabedoria cristã está toda aqui: desvinculamos de tudo o que nos afasta ou nos separa de Deus, para chegar a viver nossa vocação de discípulos. As parábolas nos ensinam, em última instância que, para seguir Jesus, é necessário ter a sagacidade dos homens deste mundo. O que constrói uma casa se pergunta antes de iniciar as obras se vai poder concluir. Igualmente, o rei que se compromete em uma ba­talha calcula bem se poderá fazer frente ao inimigo com os meios de que dispõe. Jesus extrai destes exemplos a seguinte conclusão: «Do mesmo modo, aquele de vós que não renuncia a tudo que tem não pode ser discípulo meu» (v.33). Seguir Jesus é sério. É necessário refletir antes, com seriedade, se estamos dispos­tos a renunciar todos os bens para construir o edifício cristão e combater, unicamente, com a sabedoria divina e não com nossa própria astúcia. Outrossim, Jesus nos pede que façamos esta reflexão em silêncio. Devemos perguntar-nos se estamos dispostos realmente a abandonar tudo e esperar, com bom ânimo, toda a força, unicamente de Deus, deixando que seja Ele quem disponha de toda nossa vida. Abandonar não significa fugir a um deserto, mas, simplesmente, soltar os dedos aferrados a qualquer coisa que considero «pertença» para oferecer todo ao Senhor.

 

 

Sb 9,13-18b (Oração para obter a sabedoria) A liturgia nos oferece hoje a última parte da oração que Salomão dirigiu a Deus para obter sabedoria. Trata-se duma oração de valor incomparável, que figura entre as mais elevadas da Escritura, tanto por seu conteúdo espiritual como por sua forma estilística. É uma oração que nos situa, de modo insondável, no foco de luz da misericórdia de Deus que desce até nós. O ensinamento último do livro da Sabedoria é, pre­cisamente, a oração. Assim como a sabedoria assistiu a Deus desde a aurora da criação, assiste, também, ao homem para que continue «governando o mundo com santidade e justiça» (9,3). A vida do homem é, em essência, uma relação pura e transparente com a sabedoria, para alcançar, dela, a luz necessária para governar o mundo. Neste sentido, a vida do homem não pode ser nada mais que oração. A vida do homem é considerada pelo livro sagrado como uma maravilhosa relação com a sabedoria, e esta relação é oração: «Concede-me a sabedoria» (9,4). Mas, trata-se de uma relação misteriosa, que se baseia na experiência de nossa própria fragilidade e de nosso próprio pecado e que, por isso, só pode ser vivida no clima da acolhida dum amor e duma luz, irresistíveis e respeitosos com nossa humani­dade. Nenhuma perfeição, por rica que seja, pode ser suficiente para a obra à qual Deus chama o homem (9,6). Só o dom da sabedoria nos faz contemplar o esplendor da criação. É estupenda a riqueza desta oração. Encanta-nos pela amplitude e o esplendor com que se refletem as promessas de Deus e as esperanças do homem. Abre-se com uma invocação aflita a Deus (9,1). É uma invocação pessoal a Deus, que sem­pre tem estado presente e que segue sendo o Deus de todo um povo, com o qual tem estabelecido uma aliança. É uma invocação a esse amor e a essa bondade, que Deus tem tido sempre com todo o povo de Israel. Nela se mostra que o fundamento da oração é a expe­riência ardente da misericórdia de Deus.  Certamente, o homem se sente fraco e frágil para realizar os planos de Deus (vv.13-19). Como pode conhecer e realizar o desejo de Deus? “Quem conheceria teu designo se tu não lhe desse a sabedoria e enviasse teu santo espírito desde os céus?” (v.17), diz o livro da sabedoria. Sem dúvida, o homem sabe, do mesmo modo, que Deus lhe assistirá, também desta vez, com sua graça. O homem sabe que Deus tem lhe iluminado e guia­do sempre com sua sabedoria. Sabe que «os homens aprenderam o que te agrada, e se salvaram pela sabedoria» (v.18). Deus também pode nos assistir hoje. Por isso pedimos, continuamente, a Deus, o dom da divina sabedoria (9,10). Sabemos que esta oração é eficaz. A resposta de Deus é segura: é a descida do Verbo ao seio da Maria Santíssima. A Sabedoria se encarnou na pessoa de Jesus. Tomou um rosto humano. Entrou em nossa história, ensinando-nos a renunciar a tudo para chegar à plena disponibilidade a Deus. Jesus é a Sabedoria doce e luminosa que nos foi entregue desde o alto. Seu Evangelho nos mostra a imensa vaidade do universo e, ao mesmo tempo, a inacessível transcendência da única realidade que conta: Deus.

 

Fm 9b-10.12-17 (Pedido em favor de Onésimo) Paulo quer educar seu irmão de fé, Filemon, nesta renúncia sapiencial. Faz com uma discrição e tato verdadeiramente admirável, repletos duma profunda e delicada sabedoria cristã. Poderia «mandar-lhe» que lhe deixasse seu escravo Onésimo, que havia fugido de seu patrão depois de tê-lo roubado. Sem dúvida, dado que conhece sua ge­nerosidade, sabe que pode aduzir motivos de caridade. Paulo, «já ancião, e também prisioneiro por Cristo Jesus» (v.9), poderia muito bem reter o escravo junto a ele. Não, certamente, como escravo, mas como servidor de Cristo (v.13). Sem dúvida, lhe envia de no­vo Filemon. Deixa que seja este quem decida reter-lhe ou enviar-lhe de novo a Paulo. Deste modo, Paulo não só liberta Onésimo da escravidão, mas pede a Filemon algo muito mais difícil: convida a uma a­propriação ainda mais forte, que receba Onésimo não como escravo, mas «como um irmão muito querido» (v.16) ao qual deve amar ante o Senhor. De fato, mediante o amor de Paulo, Onésimo voltou para Filêmon, um homem como ele, autenticamente vivo, em posse de um tesouro que não perecerá nun­ca. Trata-se de que volte a ter Onésimo, não para um simples benefício temporal, mas «para que agora o recuperes de forma defi­nitiva» (v.15).

 

Salmo 89/90 (Fragilidade do homem) Com uma meditação cheia de realismo, o salmista olha ao seu redor e percebe que muitos amigos já partiram; diante desta constatação, realiza uma súplica, motivado pela brevidade da vida. O medo da morte penetra em nossos corações quando percebemos que, com o passar dos anos, tornamo-nos mais fracos e sem forças. Que fazer diante dessa dura realidade? O desespero apenas nos bloqueia e nos faz perder a esperança e a vida. Acreditar que não morreremos seria um otimismo vazio e inútil, é necessário encarar a realidade e perceber que diante de Deus não há tempo; mil anos são como um dia e um dia como mil anos. O que vale é viver a vida que nos foi dada com amor e generosidade, sendo em tudo atentos aos apelos do Senhor. Deus eterno não nos abandona nem por um minuto e sacia a cada manhã o nosso coração com seu amor. Por isso, mesmo diante da brevidade da vida, nos resta agradecer ao Senhor e cantar suas maravilhas e seu amor. Assim como esse salmo, que é um cântico de louvor e de ação de graças embora seja por breve tempo nesta terra.

Senhor, quando penso na morte como fim de tudo, o meu coração se entristece e perco o ânimo. Sinto-me como uma frágil folha levada pelo vento ou uma flor que de manhã é bonita, mas à noite está seca, murcha e é jogada fora. Mas quando penso na morte como porta que se abre para me introduzir na verdadeira vida, os meus sentimentos se transformam e sinto-me uma criatura nova no amor e na generosidade. Senhor, não deixe que o meu coração se abata, mas que seja sempre um coração cheio de esperança e de vida. Em cada momento da vida quero expressar a minha alegria, louvando-te e bendizendo-te, porque tu és o Deus da vida e do amor. Senhor, deixe que hoje e sempre te agradeça, porque um dia me criaste para conhecer-te, amar-te e servir-te aqui na terra e louvar-te depois para sempre no Céu. Muito obrigado, Senhor, pelo dom da vida. Quer eu viva noventa ou cem anos, quer eu viva 24 anos, como Santa Teresa do Menino Jesus, nada muda, o que importa é o amor com que vivo. Amém.

 

 

MEDITATIO: Os textos deste domingo nos põem frente a um mesmo tema: o abandono em Deus. Com frequência nos perguntamos: quem pode conhecer a vontade de Deus? Ou: como podemos saber o que Deus quer de nós? As leituras de hoje nos dizem que só podemos conhecer as intenções de Deus se possuímos a sabedoria. Mas, para possuir a sabedoria é preciso renunciar a tudo, para seguir a Jesus. A sabedoria que o Senhor nos ensina é segui-lo. Nada mais. É preciso libertar-nos, despojar-nos, renunciar a tudo o que creiamos possuir, vender tudo o que temos, não levar dinheiro conosco, não dispor, nem sequer de uma pedra na qual repousar a cabeça, não fechar-nos nos vínculos familiares: «Se alguém quer vir comigo e não está disposto a renunciar a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e a seus filhos, irmãos e irmãs, e inclusive a si mesmo, não pode ser meu discípulo» (Lc 14,26). A garantia do discípulo consiste em ir a Jesus sem te­r nada. A verdadeira sabedoria consiste em não levar nenhum peso que nos impeça caminhar atrás de Jesus. Dito de modo positivo trata-se de levar um único peso: a cruz de Jesus. E o peso da cruz é o peso de seu amor. Não se trata de fazer cálculos, de contar o número de pedras necessárias para construir a casa ou o número de pessoas necessárias para a batalha. Não é esta a intenção do Senhor. Ser discípulo significa não preferir nada que não seja o amor de Jesus. Preferir, unicamente e sempre, ao Senhor, ou seja, elegê-lo cada dia e oferecê-lo toda nossa vida. O dom da sabedoria, que temos­ de pedir constantemente ao Senhor, nos permite dar-nos por completo, com liberdade e de um modo transparente a este amor. Quem foi vencido por este amor já não tem medo de nada da parte de Deus. O amor vence todo temor. Já nada poderá espantar-nos.

 

ORATIO: Ó meu Senhor, tinham razão, os santos, ao dizer que compreendiam a razão de que tivesses tão poucos segui­dores: queres demais deles! É difícil seguir-te, entre outras razões, porque é difícil compreender tua filosofia: diz-nos que, para seguir-te é necessário levar uma cruz. Para ganhá-la é preciso renunciar, para construir é preciso privar-se de bens. Sem contar com a decidida relativização dos afetos mais queridos e mais santos. Perdoa-me, Senhor, mas me causa grande fadiga compreender exigências tão rigorosas. E comigo muitos outros sentem uma forte tentação de dizer-te: «Se pedes tanto, vou buscar outro mestre de vida mais compreensivo, mais humano, mais amigo da vida», desta vida, a única que nos foi dada viver. Olha também tu, ó Senhor, a enorme extensão da apostasia, por parte de adultos e jovens, com frequência porque não compreendem as razões de tua severidade. E até os próprios pastores se sentem, com frequência, perturbados e desconcertados, e expõem sérios questionamentos… Perdoa-me este desabafo! Concede-me tua sabedoria para que eu possa ver as coisas como tu a vê para que nunca possa pôr em dúvida minha confissão de fé: só tu tens palavras de vida eterna. Concede-me tua sabedoria para que eu possa compreender-te e dar, cada vez mais, um melhor testemunho de ti e, com uma coragem cada vez maior, também possa dizer estas palavras duras e eternas. Confirma meu pobre coração, para que não vacile ante a cruz: a tua, a minha e a de meus irmãos. Sim, Senhor: «Só tu tens palavras de vida eterna».

 

CONTEMPLATIO: A cruz é a porta dos mistérios; por esta porta entra o intelecto no conhecimento dos mistérios celestiais. O conhecimento da cruz está escondido nos sofrimentos da mesma; e, na medida em que se participa neles, se experimenta o que há na cruz, segundo as palavras do apóstolo: «Na medida em que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, assim será a nossa consolação em Cristo». Chama-se consolação, à contemplação que se mostra como visão da alma. A visão gera consola­ção. Não é possível que nossa alma produza fru­tos do Espírito Santo se nosso coração não morreu ao mundo. O Pai, de fato, consolida na contempla­ção de todos os mundos, a alma que morreu com a morte de Cristo. Tu, que tens sido vencedor, saboreias em ti mesmo a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para ser digno de saborear também sua glória; se padeces efetivamente com Ele, com Ele também serás glorificado. Se o corpo não padece por Cristo, o intelecto não será glorificado com Cristo Jesus. De fato, no mesmo instante em que pise a glória, recebe­a glória, e será glorioso em seu corpo e, ao mesmo tem­po, em sua alma (Isaac de Nínive).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Se perco a vida por Jesus, reinarei com Ele eternamente

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Jerusalém é para mim o lugar mais belo e querido do mundo. Lá está a capela do Calvário na Basílica do Santo Sepulcro. Alguns de vós já haveis estado nela, outros, certamente, ireis, antes ou depois. Subindo uma série de degraus, se chega a uma capela onde há um pequeno altar reservado aos monges gregos, e ali podemos nos deter a orar. Embaixo do altar se vê um orifício para recordar o lugar onde foi cravado o lenho da cruz de Jesus. Adiante, uma grande tábua pictórica bizantina: Jesus na Cruz, a Virgem Maria, o evangelista João, Maria Madalena. Tenho passado nessa pequena capela muitísimas horas de minha vida e não me canso nunca de permanecer muito tempo, em oração silenciosa, sem conseguir dizer nada especial. Estava ali, e sentia que estava no centro do mundo, compreendi que o mundo se manifestava em sua verdade só se era visto de cima da cruz e com o olhar de Jesus. Ainda agora continuo com esta oração fundamental que é a contemplação da cruz como significado e chave de toda a história humana. Não há pessoa, não há acontecimento humano que não tenha seu ponto de referência na escuta contemplativa da mensagem da cruz. Portanto, peço a Jesus esta graça para cada um de vós: ainda podeis contemplar, cada vez mais, a luz que se desprende de sua cruz, para referir a ela todas as realidades de vossa vida e todas as realidades da história (C. M. Martini, Tú me sondeas y me conoces, Verbo Divino).

SEGUNDA-FEIRA, 09 DE SETEMBRO DE 2019 – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Lucas 6,6-11 (Cura de um homem da mão atrofiada) =Mt 12,9-14; Mc 3,1-6A atenção de Lucas volta-se, no evangelho de hoje, sobre a polêmica em torno ao sábado; sem dúvida, desta vez, toma, como oca­sião, uma intervenção miraculosa de Jesus em favor de um homem que tinha a mão atrofiada e, ao qual, o Nazareno restituiu a saúde perfeita. A ação milagrosa desencadeia o espírito crítico de seus adver­sários, como antes havia acontecido com relação à atitude dos discípulos de Jesus, que haviam colhido e comido espigas de trigo em dia de sábado. O contraste é ainda mais forte, pois uma determinada mentalidade farisaica havia desejado, não só impedir aos discí­pulos de Jesus, mas, também, desautorizar a capacidade de operar milagres do Mestre. É absurda e inaceitável esta pretensão dos fariseus e dos mestres da Lei, cuja presença crítica e pensamento maldoso já assinalara Jesus. Este lê no coração do homem: tanto nos de quem lhe escutam e lhe seguem, como nos de quem lhe espionam e querem surpreender-lhe em uma falha. Uma vez realizada a ação milagrosa, Jesus enfrenta seus adversários, não tanto no terreno do que é lícito fazer em dia de sábado, mas neste outro: «Que é permitido fazer em dia de sábado, o bem ou o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?» (v.9). A certeza que anima a Jesus é tanta, que não espera a resposta de seus adversários: dá por descontado e o mesmo faríamos nós, se nos ligássemos, com fidelidade, às indicações de seu magistério. É inútil recordar que o que Jesus tem feito e tem dito desencadeia, em seus adversários, tamanha raiva que juram, a si mesmos, condená-lo a morte. Antes de matá-lo, fisicamente, o condenam a morte, espiritualmente: na raiz disto encontramos sempre a intolerância e a violência.

 

 

1 Cor 5,1-8 (O caso de incesto) No caso que nos ocupa aqui, trata-se de um caso de imoralidade que aflige a comunidade de Corinto: o assunto é extremamente grave e não pode ser silen­ciado. Porém, o que mais surpreende é o fato de que, em vez de acumular proibições ou recomendações, mais ou menos paternalistas, Paulo remete ao acontecimen­to pascal, que, assim como tem caracterizado a vida de Cristo, deve caracterizar também a vida de todo cristão e a vida de qualquer comunidade cristã autêntica: «Purificai-vos do velho fermento e sede nova massa». A imagem se deixa interpretar com mais facilidade: temos diante o binômio “velho/novo” e, com ele, Paulo pretende remover, não só uma espécie de preguiça espiritual, mas, também, e, sobretudo, uma adesão es­tática e nostálgica, a qual, com a vinda de Cristo foi definitivamente superada. A comunidade de Corin­to está ameaçada, pois, com o permanecer assentada nas posições de sempre, perdendo o ritmo de marcha, inaugurado pela presença de Jesus. “… pois Cristo, que é nosso cordeiro pascal, já foi imolado. Assim, que celebremos festa»: esta é a motivação pascal oferecida por Paulo a uma comu­nidade que deve viver sua própria fé em termos de gloriosa novidade, a fim de celebrar a festa, superando toda referencia passiva e servil a um passado que tem encontrado, agora, sua plena realização.

 

Salmo 5,5-7.9.12 (Oração da manhã) Deus é o Pai dos pobres e dos justos. Diante dele toda a maldade está sempre desmascarada. Somente os que vivem a justiça e praticam a verdade permanecerão de pé diante do Senhor. Não há nada mais emocionante do que deixar-se iluminar pela Palavra de Deus e, por meio dela, orientar-se em todos os momentos. Com ela, entraremos e estaremos sempre na casa de Deus, que é o nosso refúgio e proteção.

Senhor, ajuda-me a fugir de toda a maldade. Dá-me a graça de viver na tua presença e na tua casa. Que eu nunca me afaste de ti e que, cheio de amor, possa me prostrar diante de ti, permanecendo em adoração da tua vontade mesmo quando ela se manifesta de maneira difícil em minha vida. Amém.

 

 

MEDITATIO: Todo crente, mais ainda, toda pessoa, adverte a necessidade de ver, com claridade, o grande tema da liberdade humana. Há questões que não se pode evitar, como: que valor tem as leis? Até que ponto importa, a nós, a própria Lei de Deus? E, são propriamente iguais todas as leis? Existe um espaço para uma interpretação libertadora? Como conciliar, na vida diária, a autoridade com a liberdade, a norma escrita com a autodeterminação? As páginas evangélicas dedicadas ao sábado nos oferecem alguns raios de luz. A Lei, toda lei, deve ser considerada como dom de Deus ao seu povo, tanto no Antigo como no Novo Testamento, inclusive, a todo homem e mulher que queira por um ouvido ativo à Palavra, portadora da verdade. Se podemos considerar a Lei, toda lei de Deus, como dom, então se abre ante nós um caminho que temos de percorrer com a liberdade mais genuína e autêntica. A Lei, toda lei de Deus, nos é oferecida como luz para nossos passos, como lâmpada que ilumina nosso caminho. Em consequência, é preciso confessar nossa necessidade de dispor de uma luz capaz de iluminar, inclusive, os vincos mais íntimos de nosso coração, de iluminar os ângulos mais escuros de nossa vida, capaz de orientar nossas decisões no acontecer da historia. A Lei, toda lei de Deus, nos é oferecida como pedagogia, quer dizer, como instituição capaz de educar-nos no exercício da liberdade, a saber: a psicológica, com a qual afirmamos nossa dignidade frente a toda possível redução a ins­trumento e a evangélica, com a qual reconhecemos o primado de Deus e a prioridade de Cristo em cada uma de nossas decisões.

 

ORATIO: Senhor, que alivio ver-te agir com coragem seguindo a nova lei do amor, apesar de estar seguro que teus adversários iriam reagir de modo tão negativo! Que alegria ver tua segurança suste­ntada só por teu amor libertador, em contraste com a mesquinhez dos fariseus, dirigida só a mostrar sua impecável observância! Que luz supõe uma nova Lei respeitosa da liberdade, uma autoridade atenta unicamente à promoção da liberdade dos outros! Que consolo ouvir Paulo agitar à comunidade de Corinto para que substitua o fermento velho por ázimos novos de sinceridade e de verdade! Ó Senhor, liberta-nos da cegueira dos fariseus, que por amor à Lei chegaram a matar-te e, para defender suas tradições, não tinham escrúpulos na hora de piso­tear o próximo.

 

CONTEMPLATIO: Fixai-vos bem, queridos irmãos: o mistério da Páscoa é, por sua vez, novo e antigo, eterno e passageiro, corruptível e incorruptível, mortal e imortal. Antigo, segundo a Lei, porém, novo segundo a Palavra encarnada. Passageiro em sua figura, porém, eterno pela graça. Corruptível pelo sacrifício do cordeiro, porém, incorruptível pela vida do Senhor. Mortal por sua sepul­tura na terra, porém, imortal por sua ressurreição dentre os mortos. A Lei é antiga, porém a Palavra é nova. A figu­ra é passageira, porém a graça é eterna. Corruptível o cor­deiro, porém incorruptível o Senhor, o qual, imolado como cordeiro, ressuscitou como Deus. Vinde, pois, vós todos, homens que os encontrais emporcalhados no mal, recebei o perdão de vossos pecados. Porque sou vosso perdão, sou a Páscoa de salvação, sou o cordeiro imolado por vós, sou vossa água purificadora, vossa vida, vossa ressurreição, vossa luz, vossa salvação e vosso rei. Posso le­var-vos até o cume dos céus, vos ressuscitarei, vos mostrarei ao Pai celestial, vos farei ressuscitar com o poder de minha destra (Melitón de Sardes).

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

«Cristo, que é nosso cordeiro pascal, já foi imolado» (1 Cor 5,7)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL A Igreja, a saber, o conjunto dos cristãos, É chamada a avaliar desapaixonadamente as situações e a rejeitar quanto sufocar ao homem, sua dignidade, seus valores. Rejeita, portanto, todo materialismo que pretendera inspirar um mundo novo, ainda que sabe reconhecer, não obstante, sobretudo na massa dos homens que esperam e preparam este mundo novo, os autênticos valores que são o reconhecimento do homem, a solidariedade, o compromisso e o sacrifício. Por outra parte, enquanto reconhece e alenta toda autêntica liberdade, não deixa de pôr em guarda, apesar de tudo, contra os perigos de uma busca despreocupada, que acaba sempre em beneficio de um número limitado de pessoas, as quais subordinam e instrumentalizam praticamente para seus próprios fins à grande massa, exteriormente livre, porém substancialmente condicionada e dominada em todos os aspectos da vida. A Igreja se encontra assim – para repetir uma definição de Paulo VI – como “consciência critica da humanidade”. Portanto, deverá assinalar valorosamente em cada situação as injustiças que devem ser eliminadas e sugerir soluções mais humanas, sentindo-se solidária com quem lutam em favor de uma maior justiça para si mesmos e para os irmãos (L. Bettazzi, [edición catalana: L’Església entre els homes, Publicacions de l’Abadia de Monteserrat).

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2019 – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Lucas 6,12-19 (Escolha dos doze; As multidões seguem a Jesus) Seguindo uma indicação que lhe é entranhável, refere Lucas que Jesus se retira até à montanha, para orar, e passa ali toda a noite (v.12). Ainda que a relação entre a oração de Jesus e a eleição dos doze não aparece de modo explícito, à luz da fé, é mais que legítimo estabelecer uma relação íntima entre a seriedade da ação que Jesus vai realizar e sua atitude orante frente ao Pai. A eleição dos doze está em­parelhada a um chamado: «Chamou dentre eles doze, a quem deu o nome de apóstolos». A vocação e a missão são inseparáveis entre si: caso contrário, a missão, em vez de equivaler ao ministério, se reduz a um oficio. De outro lado, a vocação, sem o atraque na missão, seria uma ação incompleta. «A quem deu o nome de apóstolos» (v.13b): dá a impressão de que Lucas cai aqui em um anacronismo, visto que, ao que parece, apóstolo é um termo tipicamente pascal. Porém, conhecemos muitos destes “flash” realizados não só por Lucas, mas, tam­bém, por João. Isto não supõe nenhum problema para nós; e mais, alegra-nos ver a luz pascal proje­tada sobre o tempo do ministério público de Jesus, como para dizer que, essa mesma luz, se projeta, de fato, em nossa vida e em nossa historia. Por fim, a relação de Jesus com a multidão se caracteriza uma vez mais, de um duplo modo: a multidão vem para escutar Jesus e para ser curada de suas enfermidades (v.18). Em ambos trata-se, para Lucas, de uma «força» que dá autoridade a seu ensinamento e eficácia a suas ações taumaturgas.

 

 

1 Cor 6,1-11 (Apelação aos tribunais gentios) Deste texto se desprende outra situação da vida comunitária: alguns cristãos de Corinto, em seu desejo de dirimir alguns litígios, apelam a tribunais pagãos, em vez de resolvê-los entre eles. O apóstolo intervém, como sempre, com grande clareza e autoridade. Ponhamos de manifesto os tons típicos de sua inter­venção. O discurso de Paulo é, em primeiro lugar, provocador (vv.1,1-3): emprega um tom bastante forte para dar uma sacudida na consciência de seus interlocutores so­bre a gravidade e o caráter delicado de algumas de suas atitudes, porém o faz, sobretudo, para recordar-lhes que o julgamento entre irmãos de fé deveria obede­cer a critérios que essa mesma fé sugere e é capaz de formular. Caso contrario, deveria deduzir-se que a fé cristã dessa comunidade é absolutamente incapaz de orientar a vida dos crentes e de iluminar suas decisões. Na continuação, o discurso de Paulo se torna irôni­co (vv.4-10): pretende, nada menos, que suscitar, nos coríntios, um sentido de vergonha pelo simples fato de que, entre eles, não se encontre nenhuma pessoa entendida que possa fazer-se de árbitro entre irmãos. Trata-se de uma ironia mesclada de tristeza e, talvez, também de raiva, atitudes que já conhecemos bem, porque Paulo as tem manifestado também em outros lugares de suas cartas. Ao final, o discurso se torna teológico: de fato, Paulo volta, aqui, ao centro de seu ensinamento e, referindo-se ao grande acontecimento do batismo, recorda a todos os cristãos de Corinto, a novidade do dom recebido: «Fostes purificados, consagrados e salvos em nome de Jesus Cristo, o Senhor, e no Espírito de nosso Deus». Da novidade do dom depende, como é obvio, a novidade da vida.

Salmo 149 (Hino triunfal) Este Salmo deveria, desde os primórdios, ser cantado em todas as celebrações litúrgicas. Sempre quanto à comunidade está reunida, há a certeza da presença de Deus, pois “onde dois ou três estão reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. O mandamento de Jesus nos recorda que devemos responder à violência com a paz. São os mártires que fazem a beleza da Igreja, pois nunca usaram a força bruta para se defender, mas só a força do amor. Profetas, apóstolos, mártires, como não se lembrar de Edith Stein, Maximiliano Kolbe, Dom Romero, nos ensinam o verdadeiro cristianismo, que é o amor. Há também os mártires “brancos”, que não deram o próprio sangue, literalmente falando, mas sofreram martírio quando foram proibidos de seguir sua religião e adorar o Senhor. Sobre eles, o Evangelho nos fala que bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Cantemos este Salmo com os justos perseguidos, mas vitoriosos. Com os pobres, com os que sofrem, de uma forma ou outra. Que ninguém carregue só a sua cruz. Queremos ser bons cirineus para ajuda-los na oração e na solidariedade.

Senhor, quero te louvar hoje com as bemaventuranças de Lucas, que colocam em contraste os felizes do mundo com os que vivem teu amor. “Jesus levantou o olhar para seus discípulos e disse-lhes: ‘Felizes vós, os pobres, pois vosso é o Reino de Deus! Felizes vós que agora passais fome, pois sereis saciados! Felizes vós que agora estais chorando, pois haveis de rir! Felizes sereis quando os homens vos odiarem, expulsarem, insultarem e amaldiçoarem vosso nome por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande vossa recompensa no céu, pois era assim que seus antepassados tratavam os profetas. Mas, ai de vós, ricos, pois já tendes vossa consolação! Ai de vós que agora estais fartos, pois passareis fome! Ai de vós que agora estais rindo, porque ficareis de luto e chorareis! Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois assim era que seus antepassados tratavam os falsos profetas’” (Lc 6,20-26).

 

 

 

MEDITATIO: Visto que a eleição dos doze apóstolos constitui o centro do relato evangélico de hoje, é oportuno meditar sobre a apostolicidade da Igreja. Como sabemos, esta é uma das características da Igreja de Cristo, junto com a unidade, a santidade e a catolicidade. Assinalemos, em primeiro lugar, que não estamos frente a notas meramente jurídicas, quer dizer, que seriam tais por derivar de um estatuto ou de um ato humano, em virtude do qual poderia nascer unicamente uma sociedade mais ou menos perfeita. Trata-se mais de notas espirituais, isto é, dadas à Igreja pelo Espírito Santo e pelo Senhor ressuscitado. A Igreja de Cristo não chega a ser apostólica em um determinado ponto de seu itinerário, mas que nasceu apostólica. O motivo principal consiste no fato de que ele próprio Jesus é o apóstolo por excelência, o missionário do Pai. Jesus não é só o fundador da Igreja, mas, antes ainda, seu salvador: a Igreja nasceu do lado aberto de Cristo crucificado, com o poder do «espírito que exalou desde o alto da cruz (cf. Jo 19,30). A missão que Jesus confiou aos doze durante seu ministério público (cf. Mt 10,1ss) lhe corresponde outra mais importante, depois da ressurreição (cf. Mt 28,16-20). Mas é preciso estar atentos e não confundir a apostolicidade da Igreja com seu caráter missionário, ainda que subsista entre ambos um nexo íntimo e profundo. A apostolicidade nasceu da Igreja e está liga­da ao colégio dos doze; enquanto que o caráter mi­ssionário é tarefa da Igreja e está ligado à pessoa de todos seus membros; a primeira constitui um artigo de nossa fé: «Creio na Igreja, uma, santa, católica e apostólica», enquanto que o segundo é objeto de nosso testemunho.

 

 

ORATIO: Ó Senhor, é próprio do homem sensato fazer brotar modos de comportamento cada vez mais honestos, unidos à progressiva transparência da vida: conce­de-me envelhecer assim. É próprio do homem sensato ter calma em seu julgamento, o que lhe faz imparcial em tudo e lhe liberta de toda corrupção: concede-me relacionar-me assim. É pró­prio do homem sensato ter um respeito profundo pelos outros, assim como a capacidade de abrir-se aos julgamentos alheios: concede-me alegrar-me assim. É próprio do homem sensato valorizar a vida com todas suas sombras e todas suas luzes: concede-me crescer assim. É próprio do homem sensato favorecer o crescimento da pessoa sem distorções, castigos inúteis, prejulgamentos e fechamentos: concede-me agir assim. Ó Senhor, concede-me a discrição, essa ciência prá­tica da vida e da fé, que me faz livre desde o ponto de vista emocional, capaz de discernimento e justo no julgamento para anunciar a todos o caminho para o bem.

 

 

CONTEMPLATIO: Com razão, pois, irmãos, temos de anelar, bus­car e amar àquele que é a Palavra de Deus no céu, a fonte da sabedoria, em quem, como disse o apóstolo, estão encerrados todos os tesouros do saber e do conhecer, tesouros que Deus oferta aos que têm sede. Se tu tens sede, bebe da fonte da vida; se tens fome, come o pão da vida. Felizes os que têm fome deste pão e sede desta fonte: nunca deixam de comer e beber e sempre seguem desejando comer e beber. Tem que ser muito apetecível o que nunca se deixa de comer e beber. Sempre se apetece e se anela, sempre se gosta e sempre se deseja; por isso, disse o rei profeta: Provai e vede quão doce, quão bom, é o Senhor. Deus misericordioso, piedoso Senhor, faz-nos dignos de chegar a essa fonte. Nela poderei beber também, com os que têm sede de ti, um caudal vivo da fonte viva de água viva. Se chegasse a deleitar-me com a abun­dância de sua doçura, conseguiria levantar sempre meu es­pírito para agarrar-me a ela e poderia dizer: «Que grata resulta uma fonte de água viva, da qual sempre emana água que jorra até a vida eterna!». Senhor, tu mesmo és essa fonte que temos de anelar cada vez mais, ainda que não cessemos de beber dela. Cristo, dai-nos sempre essa água, para que tenha, também em nós, um sortimento de água viva que jorra até a vida eterna (São Columbano, Instrucción sobre Cristo fuente de vida).

 

 

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

«Fostes purificados, consagrados e salvos em nome de Jesus Cristo» (1 Cor 6,11)

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Tens uma boa noticia para dar-me e me fazes suspirar tanto por ela? – Eu, uma boa noticia? Tenho o inferno no coração, e terei uma boa noticia para ti? Diz-me, se o sabes, qual é essa boa noticia que esperas através de mim. – Que Deus há tocado teu coração e quer fazer-te seu, respondeu com calma o cardeal. – Deus! Deus! Se o visse! Se pudesse senti-lo! Onde está esse Deus? – Tu me perguntas? Tu? E quem o tem mais próximo que tu? Não o sente no coração, não sentes que o oprime, que o agita, que não te deixa estar, e, ao mesmo tempo, te atrai, te faz pressentir uma esperança de quietude, de consolo, de um consolo que será pleno, imenso, enquanto o reconheças, o confesses, o implore? – É certo! Tenho algo aqui que me oprime, que me corroi. Porém esse Deus, se é que existe, se é o que dizem, que quer fazer de mim? […]. – Que pode fazer Deus contigo? Perdoar-te? Salvar-te? Levar a cabo em ti a obra da redenção? Não são coisas magníficas e dignas dele? Pensa. Se eu que sou um miserável, e estou cheio de mim mesmo, se eu, tal qual sou, me atormento agora deste modo por tua saúde, que por ela daria com gozo (ele me é testemunha) estes poucos dias que me restam, pensa quanta, como deve ser a caridade daquele que me infunde esta tão imperfeita, porém tão viva! Como te ama, como te quer! Como deve de ser o que me manda e me inspira com um amor por ti que me devora! (Los novios, Circulo de Lectores, Barcelona).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 11 DE SETEMBRO DE 2019 – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Lucas 6,20-26 (Discurso inaugural. As bem-aventuranças) Começa aqui, e continua até Lc 8,3, a chamada “pequena inserção” de Lucas respeito a Marcos, sua fonte. Lucas, a diferencia de Mateus, reduz as bem-aventuranças de oito a quatro, porém às quatro bem-aventuranças acrescenta quatro ameaças. Segundo a opinião dos exegetas, Lucas nos oferece uma versão das palavras de Jesus mais próxima à verdade histórica, e isto tem uma particular relevância. Contudo, bom será recordar que a mediação de vários evangelistas à hora de referir os ensinamentos de Jesus não trai a verdade da mensagem; ao contrário, a centram e a relêem para o bem de sua comunidade. Tanto as oito bem-aventuranças de Mateus como as quatro de Lucas podem ser reduzidas a uma só: a bem-aventurança – isto é, a fortuna e a felicidade – de quem acolhe a Palavra de Deus através da pregação de Jesus e tenta adequar sua vida a ela. O verdadeiro discípulo de Jesus é, ao mesmo tempo, pobre, agradável, misericordioso, trabalha pela paz, é puro de coração, etc. Pelo contrário, quem não acolhe a novidade do Evangelho só merece ameaças, que, na boca de Jesus, corresponde a outras tantas profecias de tristeza e infelicidade. A inversão lucana da bem-aventuranças-ameaças se caracteriza assim mesmo por uma contraposição entre o “já” e o “ainda não”, entre o presente histórico e o futuro escatológico. Como é obvio, a comunidade para a qual escrevia Lucas tinha necessidade de que lhe recordassem que não só devia traduzir sua fé em atos de caridade evangélica, mas que também tinha que manter viva a esperança mediante a plena adesão ao ensinamento, mais radical, das bem-aventuranças evangélicas.

 

 

 

I Cor 7,25-31 (Casamento e virgindade) Paulo recorda às pessoas solteiras uma verdade fundamental e lhes dirige algumas exortações. A verdade é esta: “O tempo se acaba” (v.29). A expressão grega deveríamos traduzi-la assim ao pé da letra: “O tempo dobrou as velas”, uma imagem bastante expressiva e que alude ao arte náutico. O pensamento do apostolo parece ser este: seja o lapso de tempo que discorra entre o hoje e a parusia, quer dizer, o retorno glorioso do Senhor, o mundo futuro está já presente, em qualquer caso, em meio de nós graças ao poder do Senhor; mediante a morte e ressurreição de Jesus, Deus inaugurou em nós e entre nós a novidade de seu Reino. A esta luz, a vida célebre, eleita livre e alegremente pelo Reino (cf.Mt 19,12), longe de ser um desprezo pelo matrimônio, constitui sinal escatológico que tende a orientar nossa espera e a alheia para a alegria ultima. As exortações são a consequência lógica da verdade anunciada. Em primeiro lugar, é preciso viver a espiritualidade do “como se” (v.29-31): a linealidade do pensamento paulino não necessita ulterior comentários. Vem, a seguir, a lógica do “que é melhor” (cf.7,9: “É melhor casar-se que abrasar-se”; 7,38.40: “O que dá sua filha em matrimonio faz bem, e o que não a dá fará ainda melhor”). Está claro que Paulo pretende propor à nossa liberdade aquilo que, por sua experiência pessoal e pelo amor que lhe une indissoluvelmente a Cristo, está convencido de que é melhor para desejar e para realizar. Em segundo lugar, ainda que só se trate de um conselho pessoal e não um mandato recebido do Senhor, aconselha Paulo que quando alguém acende à fé em Cristo continue vivendo, como casado ou como célibe-virgem, na situação na qual se encontrava antes. Porém o que mais conta, e nisso se baseia o ensinamento de Paulo, tanto para os casados como para os célibes-virgens, é a consciência de que todos temos “sido comprados a bom preço” (7,23), como é obvio, por Cristo Jesus, mediante sua morte e ressurreição. É sempre o mistério pascal o que projeta luz sobre nossa vida.

 

 

Salmo 44/45 (Epitalâmio real) A Igreja aplica este Salmo à Virgem Maria. Quem ama sente a necessidade de louvar e cantar as maravilhas do mundo. Quem mais do que Maria pode cantar a beleza do Verbo feito carne? Quem mais do que ela pode sentir a alegria de contemplar o seu Filho? E quem mais do que Jesus pode cantar as belezas de sua Mãe Maria? Este hino de amor nos faz perceber como a vida é bonita quando nos doamos no amor, quando Deus se coloca na nossa frente com toda sua beleza e poder.

Senhor, que eu possa em cada momento sentir-me atraído por ti, por um amor infinito. Que este amor nunca venha a menos e que tudo o que faço seja só feito por amor e no amor. Que nada me afaste da tua beleza. Seduz-me, Senhor, e que me deixe seduzir. Que estejamos unidos por laços de amor eterno. Amém.

 

 

 

MEDITATIO: A liturgia de hoje nos apresenta um tema forte para nossa meditação e de grande atualidade: que é bom para o cristão em matéria de matrimonio e de virgindade? Que é o melhor? Qué é o mandato e qué lo que só se aconselha? A intervenção direta de Paulo na vida da comunidade cristã de Corinto brilha por sua claridade e por seu equilíbrio. Não saberia eu dizer até que ponto sua experiência previa há influído neste modo de “ver” a situação de vida dos cônjuges e dos célibres-virgens: não se trata de investigar no ânimo de Paulo com instrumentos psicoanaliticos mais ou menos corretos. Sabemos, sem duvida, que o encontro com Cristo ressuscitado, a partir de Damasco, imprimiu uma nova direção a sua vida, porém fez nascer também nele uma nova mentalidade e, portanto, uma nova faculdade de juízo. Dizíamos claridade e equilíbrio: a primeira nos leva a considerar o matrimonio e a virgindade como duas direções de vida dignas ambas da pessoa humana, ambas boas segundo a bondade da economia da criação, ambas conformes com a novidade de vida de quem crê em Cristo, ambas compatíveis ao só com a lógica evangélica, mas também com seu radicalismo evangélico, ambas ricas em espiritualidade, ambas “lugares” nos quais se pode viver a caridade em sumo grau, ambas capazes de conduzir os crentes à mais elevados cumes de santidade. O de Paulo é também um ensinamento extremadamente equilibrado, e isso por um motivo simples e persuasivo ao mesmo tempo: Paulo não impõe nada a ninguém, consciente como é de que só uma opinião pessoal livre e alegre é digna da pessoa humana e ninguém, nem sequer Deus e muito menos Cristo, pode fazer violência ao santuário da consciência humana

 

ORATIO: Ó, Senhor, pouco a pouco vai passando a cena deste mundo: passa a juventude com todas suas forças, desaparecem pessoas queridas e amigas, se vão os momentos de fama e de glória, se reduz nosso campo de ação e nossas idéias são substituídas por outras. Ó Senhor, pouco a pouco aparece o grande além: o além do tempo que corre veloz levando consigo coisas, pessoas e sucessos; o além do homem de todos os tempos, que adverte este vertiginoso passar sem poder captar de modo pleno o desenrolar dos fatos; o grande “além” que plasma uma nova visão, que faz mais viva a fé, que acende desejos de paraíso. Ó Senhor, pouco a pouco se perfila o mundo novo: se respira ar puro, se abre caminho à fascinação do transcendente, nos sentimos fortificados pela imortalidade que dá sentido à vida, aceitamos o mistério que permite caminhar, com fé e esperança, para um futuro promissor. Vem, Senhor Jesus!

 

CONTEMPLATIO: Homem, por que te consideras tão vil, tu que tanto vales aos olhos de Deus? Por que te desonras de tal modo, tu que fostes tão honrado por Deus? Por que te perguntas tanto como o por que fostes feito, e não te preocupas de para que fostes feito? Porventura, todo este mundo, que vês com teus olhos, não foi feito, precisamente, para que seja tua morada? Par ti foi criada esta luz que aparta as trevas que te rodeiam; para ti foi estabelecida a ordenada sucessão de dias e noites; para ti o céu foi iluminado com este variado fulgor do sol, da lua, das estrelas; para ti a terra foi ornada com flores, arvores e frutos; para ti foi criada a admirável multidão de seres vivos que povoam o ar, a terra e a água, para que uma triste solidão não obscurecesse o gozo do mundo que começava.

 

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Vos digo, pois, irmãos, que o tempo se acaba” (I Cor 7,29)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Sei que o tempo trabalha de por si para a eternidade. Sei que o plano de Deus se realiza de todos os modos e que Cristo se encarnou na história e ninguém poderá suprimir jamais esta encarnação. Sei que o próprio mal coopera ao bem… Deus é superior a satanás… Mil anos são menos que um dia para a eternidade. E ninguém sabe o que pode acontecer amanhã. O que não passou em vinte séculos pode acontecer talvez esta noite ou dentro de outros vinte séculos. “Não vos toca conhecer o momento que o Pai fixou com seu poder” (At. 1,7). Porém isso não nos pertence. Isso pertence a Deus, e nós devemos atuar… Eu sou de hoje. Sou responsável desta história, do presente no qual fui chamado a viver. “Não lhes resta vinho”: este era o objetivo de toda minha vida religiosa. Conseguir cantar as núpcias cristãs; e tornar a levar nossos comedores a Jesus e a sua mãe; e converter as lágrimas em cálices de alegria; e prover por sua mediação a nossas consumíveis ebriedades (David M. Turoldo).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO DE 2019 – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Lucas 6,39-42 (Condições de zelo) O cisco ou o defeito na trave: este poderia ser o título do texto que lemos hoje. De fato, o ensinamento de Jesus versa sobre este grande contraste e se dirige a seus contemporâneos para pôr-lhes em guarda contra o perigo da presunção, que leva à ruína, precisamente como os fariseus, que, em matéria de presunção, não tinham rival. Estas palavras de Jesus vão dirigidas aos discípulos: trata-se de uma parábola – escreve Lucas – que não tem certamente necessidade de explicações, porque desmantela com toda claridade a atitude interior própria de quem exerce um ministério de guia respeito a seus irmãos. A contraluz aparece um insistente convite de Jesus à humildade, à verdadeira humildade, em virtude da qual o que é guia não se ergue em juiz dos irmãos, mas que, ao máximo, se expõe voluntariamente à recíproca correção fraterna. Do discurso parabólico passa Jesus, de uma maneira insensível, a um discurso expositivo: «O discípulo não é mais que seu mestre», e a um discurso provocador: «Como é que vês o cisco no olho de teu irmão? E como podes dizer a teu irmão? Hipócrita!» (vv.41ss). A intenção de Jesus é suscitar atitudes de vida co­munitária naqueles a quem confia seu Evangelho, esta é, sua proposta de vida nova. Não há verdadeira espiritualidade cristã sem a prática dos man­damentos e, mais ainda, sem uma adesão total à novidade evangélica. Nos lábios de Jesus, o discurso sobre o cisco e a viga se converte assim em um convite, mais insistente que nunca, a assumir com coragem nossas próprias responsabilidades e a não cair nas armadilhas que, em seu tempo, haviam enredado a prática dos fariseus.

 

 

1 Cor 9,16-19.22b-27 (O exemplo de Paulo) Igual ao capitulo quatro, também neste, Paulo se vê obrigado a defender não tanto sua própria pessoa como sua obra de apóstolo em meio da comunidade cristã de Corinto. Não hão faltado, de fato, alguns que – entre outras coisas – lhe acusavam de agir por interesse no exercício de seu ministério, como se buscasse alguma recompensa material ou, pelo menos, uma afirmação pessoal. A reação de Paulo se articula em umas quan­tas passagens fundamentais. Em primeiro lugar, afirma que é uma «obrigação» para ele, e não um motivo de gloria, pregar o Evangelho (v.16), emerge aqui a psicologia do servo-escravo, isto é, do que se pôs livremente a serviço de seu Senhor e não pode subtrair-se a esta obrigação concreta. Paulo sabe que é um mandado e que não pode fazer greve na vinha do Senhor. Mais ainda, afirma Paulo: «E pobre de mim se não anunciasse o Evangelho!» (v.16b): se sabe submetido constantemente ao julgamento de Deus, de quem espera todo veredicto de fidelidade ou infidelidade. A ameaça que sente pesar sobre ele, longe de retirar-lhe o espírito de iniciativa, lhe convida a tomar sempre novas iniciativas apostólicas. A única recompensa que espera é a de pregar gratuitamente o Evangelho, que, de maneira gratuita, lhe foi confiado (cf Mt 10,8). Acima de todas suas preocupações está esse san­to orgulho que lhe leva a dizer: «Tudo isto faço pelo Evangelho» (v.23). É formoso e instrutivo assinalar esta total concentração física e espiritual de Paulo em seu mi­nistério, no qual se manifesta cada vez mais generoso, cada vez mais desinteressado, cada vez mais consagrado. (cf. também 2 Cor 6,3-10; Fl 3,7-14).

 

 

Sl 84/85 (Oração pela paz e pela justiça) Hino de louvor que brota do coração de um povo que se vê livre da opressão e do sofrimento. Atualmente, acreditamos mais na ciência e na medicina que no poder de Deus. Esquecemo-nos que foi o Senhor que criou a medicina, assim como os médicos que operam e aos quais recorremos com frequência. Com o auxílio da medicina, devemos confiar no Senhor. Deus não é inimigo da ciência; ambos caminham juntos, mas Ele é fonte única de todo saber. Do mesmo modo devem caminhar a verdade e a justiça: uma deve caminhar ao lado da outra. A verdade não existe sem que a procuremos com amor e insistência, e Deus se revela aos que incansavelmente o procuram. Mesmo em situações difíceis, na dor, sofrimento e perante a justiça, é preciso esperar que sementes da verdade brotem em nossos desertos áridos e sem vida. Todo desejo de verdade e amor encontra a sua resposta plena e total na pessoa de Cristo.

Senhor, quero assumir, hoje, o compromisso de buscar sempre a verdade que está escondida em Cristo e que passa sempre através da cruz, da morte e resplandece na ressurreição. A verdade fez sua morada entre nós, mas nossos olhos não souberam reconhecer e nossa inteligência se fecha à luz e ao amor. Vivemos, Senhor, num tempo de espera paciente em que a verdade, a misericórdia e a justiça devem florescer na humanidade sedenta de amor, mas que, em razão de tantos falsos profetas, percorrem caminhos obscuros que levam à morte e não à vida. Ajuda-me, Senhor, a recusar corajosamente toda cultura da morte, seja qual for: morte física, espiritual ou intelectual. Que eu busque somente defender a vida. A Virgem Maria nos ensina a abrir-nos à verdade e dizer no nosso dia a dia o sim que motiva continuamente a presença de Cristo Jesus entre nós. Somos luz no Senhor… Amém

 

 

 

 

MEDITATIO: No fragmento evangélico de hoje, surpreende o con­traste entre o convite dirigido ao discípulo para que seja como o mestre e a sentença de hipocrisia pro­nunciada imediatamente depois. Trata-se da tensão na qual vive – e à qual talvez não consegue subtrair-se – todo o discípulo e todo seguidor de Jesus. Por um lado, estamos convidados a pôr o mestre, Jesus frente a nós como o único digno de ser es­cutado e imitado; ao mesmo tempo, nos sentimos convidados a pôr-nos frente a ele como frente a um modelo dificilmente imitável: «O discípulo não é mais que seu mestre» (v.40). Sabemos muito bem que não podemos tender a uma perfeição divina: seria uma atitude teme­rária, indigna de um verdadeiro discípulo; sem dúvida, estamos convidados a preparar-nos bem para seguir o mais próximo possível a nosso mestre e guia. O jugo de todo este ensinamento se encontra aqui: quem foi chamado a ser guia dos outros tem de pôr-se após os passos de Jesus como um discípulo fiel, tem de optar por Jesus como seu único guia e há de perseverar em caminhar atrás dele até Jerusalém, até o calvário. Em um segundo momento, Jesus censura aos guias cegos e néscios como “hipócritas»: este termo tem em seu uso bíblico um sentido mais amplo que o que lhe atri­buímos em nossa linguagem comum. Se bem em certas ocasiões, como em Mt 22,18, indica um fingimento volun­tario, em outras denota o contraste entre Ia conduta ex­terior e o pensamento interior (cf. assim mesmo Mt 15,7; 23,25.27) ou bem, como ocorre no caso que nos ocupa, censura a falsidade mais ou menos consciente daqueles aos quais se dirige Jesus. Uma falsidade que está tecida de soberba e presunção. A advertência é clara: só sabe mandar como é devido quem aprendeu a obedecer; sabe julgar bem aos irmãos na fé só quem se tornou dócil à escola do Evangelho e do mestre Jesus.

 

 

ORATIO: Servir ao Pai foi para ti, Senhor, uma manifestação de teu amor. Ensina-me o verdadeiro espírito de serviço, o que marca o caminho da abnegação, da pobreza, da perseguição, da obediência até a entrega total de nós mesmos. Servir aos irmãos foi para ti, Senhor, tua alegria. Ensina-me a aliviar as feridas alheias, a consolar os aflitos, a fazer viver os deprimidos, a acalmar os violentos, a instruir os ignorantes, a pregar o Evangelho sem presunção e com humildade. Para ti, Senhor, servir foi uma opção que orientou tua existência e qualificou toda tua vida. Ensina-me e faz-me compreender que para mim tampouco é opcional o ser­viço, mas que faz parte constitutiva de minha vida de apóstolo: servir para levar Cristo, como Paulo, ao maior número possível de irmão.

 

 

CONTEMPLATIO: Eu sou pecador e me tenho em muito pouca coisa, porém me acolho aos que hão servido ao Senhor com perfeição, para que roguem por ti a Cristo bendito e a sua Mãe, porém não esqueças uma coisa: tudo o que os santos façam por ti de pouco serviria sem tua cooperação; antes que nada, é assunto teu, e, se queres que Cristo te ame e te ajude, ama-o tu a ele e procura submeter sempre tua vontade à sua e não tenhas a menor duvida de que, ainda que todos os santos e criaturas te abandonassem, ele sempre estará atento as tuas necessidades. Tem por certo que nós somos peregrinos e viajantes neste mundo: nossa pátria é o céu; o que se envaidece se desvia do caminho e corre para a morte. Enquanto vivemos neste mundo, devemos ganhar-nos a vida eterna, coisa que não podemos fazer por nós sozinhos, já que a perdemos pelo pecado, porém Jesus Cristo nos a recuperou. Por isso, devemos dar-lhe sempre graças, amar-lhe, obedecer-lhe e fazer tudo quanto nos seja possível por estar sempre unidos a ele. Ele se nos tem dado em alimento: infeliz o que ignora um dom tão grande; se nos foi concedido possuir a Cristo, Filho da Virgem Maria, e às vezes não nos cuidamos disso; ai daquele que não se preocupa de recebê-lo! Filha minha, o bem que desejo para mim o peço também para ti; mas, para consegui-lo, não há outro caminho que rogar com frequência à Virgem Maria, para que te visite com seu excelso Filho; mais ainda, que te atrevas a pedir-lhe que te dê a seu Filho, que é o verdadeiro alimento da alma no santíssimo sacramento do altar. Ela te dará de boa vontade e ele virá a ti, de mais boa vontade ainda, para fortalecer-te, a fim de que possas caminhar segura por esta escura selva, na qual há muitos inimigos que nos espreitam, porém que se mantêm a distância, se nos veem protegidos com semelhante ajuda (São Cayetano, Carta a Elisabete Porto).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«E pobre de mim se não anunciar o Evangelho!» (1 Cor 9,16).

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Não é fácil falar da humildade; para poder fazê-lo, é preciso penetrar através de um muro de incompreensão e de resistência – por onde quer que se vá e em todos os tempos, também no nosso. Nietzsche se ergueu como porta-voz do pensamento de muitos quando atacou com autêntico furor à humildade, na qual ele via a essência do cristianismo: em sua opinião, era a atitude dos débeis, dos fracassados, dos escravos, que haviam convertido sua fraqueza em virtude. Porém, que é, na realidade a humildade? Trata-se de uma virtude que faz parte do dom da fortaleza. Só quem é forte pode ser realmente humilde. Sua força não se dobra à restrição, mas que se inclina, livremente, para servir a quem é mais débil, a quem é inferior. Além do mais, a humildade não pode ter sua origem no homem, mas em Deus. Deus é o primeiro humilde. Deus é tão grande, tão fora de toda possibilidade de que qualquer poder possa constrangê-lo, que pode «permitir-se» – se me é permitido falar deste modo – ser humilde. A grandeza lhe é essencial; portanto, só Ele pode arriscar-se a rebaixar esta grandeza sua até a humildade (R. Guardini, II messaggio di San Giovanni, Brescia).

 

 

 

SÁBADO, 14 DE SETEMBRO DE 2019 – 23ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO PAR

João 3,13-17 (O encontro com Nicodemos) Os versículos 13 a 17, do capítulo três, do Evangelho de São João, fazem parte do extenso discurso que responde à pergunta de Nicodemos e no qual se manifesta a necessidade da fé para ter a vida eterna e escapar do julgamento de condenação. Jesus Cristo, o Filho do homem (v.13), procede do seio do Pai; é o que «veio dali», o único que viu a Deus e pode comunicar o seu projeto de amor, cuja realização se encontra no dom do Filho unigênito. Jesus se compara à serpente de bron­ze do Antigo Testamento (cf. Nm 21,4-9), afirmando que o pleno cumpri­mento de tudo quanto aconteceu no deserto terá lugar quando Ele for levantado, quer dizer, na cruz (v.14), para a salvação do mundo (v.17). Todo o que o olhe com fé, quer dizer, todo o que crê que o Cristo crucificado é o Filho de Deus, o Salvador, terá a vida eterna. O homem, ao acolher, nele, o dom do amor do Pai, passa da morte do pecado à vida eterna. Sobre o fundo deste texto aparece o quarto canto do «Servo de YAHWEH» (cf. Is 52,13ss), onde voltamos encontrar, unidos, os verbos «levantar» e «glorificar». Entende-se, portanto, que o evangelista São João quer apresentar a cruz, ponto extremo da ignomínia, como cume da glória.

                                                                                    

Números 21,4b-9 (A serpente de bronze) O autor deste livro narra nos ca­pítulos 20 e 21 as últimas peripécias dos judeus no deserto, antes da entrada na terra prometida. O povo murmura porque não tem o que deseja; se rebe­la, não suporta o cansaço do caminho (v.2) por causa da fome e da sede (v.5). Cego por tais moléstias, não consegue reconhecer o poder de Deus, já não tem fé no Senhor; mais ainda, consideram-lhe como alguém que causa danos à vida. Deus manifesta seu juízo de castigo com respeito ao povo, enviando serpentes venenosas (v.6). Frente à experiência da morte, os judeus reconhecem o peca­do cometido, afastando-se de Deus, e pedem perdão. E como a serpente, com sua mordedura, resultava letal, assim, agora, sua imagem de bronze posta em cima de uma haste se torna motivo de salvação física para todo o que tivesse sido mordido. O Evangelho de João reconhecerá na serpente de bronze levantada por Moisés no deserto a prefiguração profética do levantamento do Filho do homem crucificado.

 

Filpenses 2,6-11 (Manter a unidade na humildade) Trata-se de um magnífico hino cristológico pré-paulino. Complexo em cada uma das expressões que o constituem, pode entender-se a partir da expressão em grego harpagmós (v.6), que literalmente significa “objeto de rapina”. Que significado pode ter a afirmação: Cristo, que é de condição (morphé) divina, não consi­dera sua igualdade a Deus um objeto de rapina? Subtende-se aqui a comparação com Adão, que, não sendo de tal condição, quis roubá-la. Paulo propõe à comunidade de Filipos o exemplo do novo Adão, Cristo. Este aceitou reparar, mediante a humildade e a obediên­cia até a morte mais ignominiosa, a soberba deso­bediência do primeiro Adão, que precipitou a todo o gê­nero humano no pecado e na morte (cf. Rm 5,18s). Cristo se esvaziou de si mesmo e tomou a condição de es­cravo, que é a nossa (v.7), até as últimas conse­quências. Ao seu livre aniquilamento responde a ação de Deus (vv.9-11), que não só o “exaltou”, mas “superexaltou”. Agora todo o universo está cha­mado a proclamar que Jesus Cristo é Kyrios, Senhor, quer dizer, Deus, e, esta confissão é para a glória do Pai.

 

Sl 77/78 (As lições da história de Israel) Considerando a extensão deste Salmo, é necessário lê-lo com calma e dividi-lo em pequenas partes. Trata-se de um cântico histórico e profético, uma longa ladainha por meio da qual o salmista, com sua sabedoria, nos conduz através dos séculos, contando-nos as maravilhas do Senhor. O amor de Deus por nós vem desde antes de nosso nascimento, por isso é importante observar a história da humanidade, desde Abraão, Davi. É preciso que o passado seja relembrado e faça uma ponte entre o ontem, o hoje e o amanhã para percebermos que, apesar do tempo, o amor de Deus por nós continua intocável e irrevogável. Este Salmo é rico em louvor e ação de graças. O salmista nos faz uma belíssima homilia apologética e didática por meio da qual visualizamos um “filme” repleto de memórias agradáveis, mas também de momentos de desolação, quando a infidelidade ao amor de Deus ocorre. No Novo Testamento esta fidelidade ao amor de Deus será selada conosco através da aliança nova com o sangue de Jesus.

Senhor, hoje quero só prometer-te ler lentamente todo este Salmo e meditá-lo, aplicando-o na minha vida. Quero fazer a memória do teu amor a minha vida. Quantas coisas belas aconteceram e eu não soube apreciá-las nem agradecer-te por isso. Vivemos, Senhor, num mundo do momento presente, estamos quase totalmente desligados do nosso ontem e não nos preocuparmos com o amanhã. É triste ver pessoas que não se lembram da tua presença e do amor passado. Dá-me uma memória viva para te louvar e agradecer, a memória da minha família, a memória da minha comunidade e, especialmente, a memória do meu ser cristão. Senhor, vou ler e rezar atentamente este Salmo e a cada versículo quero me perguntar: o que a Palavra diz? O que a Palavra de Deus me diz? E como posso colocar em prática esta Palavra de Deus? Amém.

 

 

MEDITATIO: Cada vez que lemos a Palavra de Deus, cresce a certeza de que Jesus dá pleno cumprimento a história do povo hebreu e à nossa história. Jesus é aquele que desceu do céu, o que conhece o Pai, o que está em íntima união com Ele («O Pai e eu so­mos um»: Jo 10,30), e foi enviado pelo Pai para revelar o mistério salvífico, o mistério de amor que se realizará com sua morte na cruz. Jesus crucificado é a manifestação máxima da glória de Deus. Por isso, a cruz se converte em símbolo de vitória, dom, salvação, amor. Tudo o que possamos entender com a palavra «cruz» (dor, injustiça, perseguição, mor­te) é incompreensível aos olhos humanos. Sem dúvida, aos olhos da fé aparece como meio de configuração com aquele que nos amou primeiro. Assim, já não vemos o sofrimento como um fim em si mesmo, mas que se converte em par­ticipação no mistério de Deus, caminho que nos con­duz à salvação. Só crendo em Cristo crucificado, quer dizer, se nos abrimos à acolhida do mistério de Deus que se encar­na e dá a vida por toda criatura; só se nos situamos frente à existência, com humildade, livres no deixar-nos amar para ser, por sua vez, dom para os irmãos, seremos capazes de receber a salvação: participaremos na vida divina de amor. Celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz significa tomar consciência do amor de Deus Pai, que não duvidou em enviar-nos Cristo Jesus: o Filho que, despojado de seu esplendor divino e feito semelhante a nós, deu sua vida na cruz por todo homem, crente ou incrédulo (cf. Fl 2,6-11). A cruz se torna espelho, onde, refletindo nossa imagem, poderemos encontrar o real significado da vida, as portas da espe­rança, o lugar da comunhão renovada com Deus.

ORATIO: Ó cruz, inefável amor de Deus e glória do céu. Cruz, salvação eterna; cruz, medo dos ímpios. Ó cruz, apoio dos justos, luz dos cristãos, por ti Deus encarnado se fez escravo na terra; por meio de ti foi feito, em Deus, rei no céu; por ti saiu à verdadeira luz, a noite maldita foi vencida. Tu fizeste fundir-se para os crentes o jazigo das nações; és tu a alma da paz que une os homens em Cristo mediador.  És escada pela qual o homem sobe ao céu. Sê sempre para nós, teus fiéis, coluna e âncora; rege nossa morada. Que na cruz se consolide nossa fé, que nela seja preparada nossa coroa. (Paulino de Nola.)

 

CONTEMPLATIO: Elevando, pois, a Deus, impulsos do ardor seráfi­co de seus desejos e transformado, por sua terna compaixão, naquele que, por causa de sua extremada caridade, qui­s ser crucificado: certa manhã de um dia próximo à festa da Exaltação da Santa Cruz, enquanto orava em um dos flancos do monte, via descer do mais alto do céu um serafim que tinha seis asas tão brancas como resplandecentes. Em voo rapidíssimo avançou para o lugar onde se encontrava o varão de Deus, detendo-se no ar. Apareceu, então, entre as asas, a imagem de um homem crucificado, cujas mãos e pés es­tavam estendidos a modo de cruz e elevados a ela. Duas asas alçavam sobre a cabeça, duas se estendiam para voar e as outras duas restantes cobriam todo seu corpo. Ante tal aparição, ficou cheio de estupor, o santo, e experimentou, em seu coração, um gozo mesclado de dor. Alegrava-se, de fato, com aquele gracioso olhar com que se via contemplado por Cristo sob a imagem de um serafim; mas, ao mesmo tempo, o vê-lo cravado à cruz era como uma espada de dor compassiva que atra­vessava sua alma. Estava sumamente admirado ante uma visão tão misteriosa, sabendo que a dor da paixão de nenhum modo podia harmonizar-se com a felicidade imortal de um sera­fim. Por fim, o Senhor lhe deu a entender que aquela visão lhe havia sido apresentada assim, pela divina Providência, para que o amigo de Cristo soubesse, de antemão, que havia de ser transformado totalmente na imagem de Cristo crucificado, não pelo martírio da carne, mas pelo incêndio de seu espírito. Assim aconteceu, porque, ao desaparecer a visão, deixou, em seu coração, um ardor maravilhoso e não foi menos mara­vilhosa a imagem dos sinais que imprimiu em sua carne (“Lenda maior», em Fontes franciscanas).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Filho do homem tem que ser levantado na cruz, para que

todo o que nele crer tenha vida eterna» (cf. Jo 3,14-15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL conquista aos homens pela cruz, que se converte no centro de atração, de salvação para toda a humanidade. Quem não se rende a Cristo crucificado e não crê nele não pode obter a salvação. O homem é redimido no sinal bendito da cruz de Cristo: nesse sinal é batizado, confirmado, ab­solvido. O primeiro sinal que a Igreja traça sobre o recém-nasci­do e o último com o qual conforta e abençoa ao moribundo é sempre o santo sinal da cruz. Não se trata de um gesto simbólico, mas de uma grande realidade. A vida cristã nasce da cruz de seu Senhor, o cristão é ­gerado pelo Crucificado, e só aderindo-se à cruz de seu Senhor, confiando nos méritos de sua paixão, pode salvar-se. Agora bem, a fé em Cristo crucificado deve fazer-nos dar outro passo. O cristão, redimido pela cruz, deve convencer-se de que sua própria vida deve estar marcada – e não só de uma ma­neira simbólica, pela cruz do Senhor, ou seja, que deve levar sua marca viva. Se Jesus levou a cruz e nela se imolou, quem queira ser seu discípulo não pode eleger outro caminho: é o único que conduz à salvação porque é o único que nos configura com Cristo morto e ressuscitado. A consideração da cruz nunca deve ser separada da consideração da ressurreição, que é sua consequência e seu epílogo supremo. O cristão não foi redimido por um mor­to, mas por um Ressuscitado da morte na cruz; por isso, o fato de que Jesus levara a cruz deve ser confortado sempre com o pensamento do Cristo crucificado e pelo do Cristo ressuscitado (G. di S. M. Madalena, Infimità divina, Roma).

 

 

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