LECTIO DIVINA NA 3ª SEMANA DA QUARESMA ANO 2020

3ªSEMANA DA QUARESMA
19 DE MARÇO É DIA DE SÃO JOSÉ! É descendente da casa real de Davi. É o esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus Cristo. Nos Evangelhos ele aparece na infância de Jesus. Pode-se ver as citações nos livros de Mateus Capítulos 1 e 2, e em Lucas 1 e2. Na Bíblia, São José é apresentado como um justo. Mateus, em seu Evangelho, descreve a história sob o ponto de vista de José. Já Lucas narra o tempo de infância do menino Jesus contando com a presença de José.

LECTIO DIVINA – 3ª SEMANA DA QUARESMA

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                      SEGUNDA-FEIRA, 16 DE MARÇO DE 2020                                                                                                       

LEITURA (Leiamos o texto, sublinhando e destacando seus pontos mais importantes).

Evangelho: Lucas 4,24-30 (Jesus em Nazaré)O fato que se narra hoje, Lucas o inicia dentro da fase inaugural da missão de Jesus. Estamos na si­nagoga de Nazaré. Jesus, entre os seus, lê uma passagem do rolo de Isaías anunciando o cumprimento em sua própria pessoa. ”Veio aos seus, e os seus não lhe receberam“: a fra­se de João (1,11), que resume o destino histórico de Je­sus, é o melhor comentário à rejeição manifestada pelos conterrâneos de Nazaré, interpretado por Lucas como prefiguração de todo o mistério pascal. A descon­certante revelação do “Verbo feito carne” – o filho de José – vai passando, pouco a pouco, da admiração à incredulidade hostil, inclusive ao ódio homicida. Pode ter um desti­no distinto para um profeta? As palavras de Jesus o ex­cluem: o testemunho de Elias e Eliseu o confirma. Qualquer prejuízo, seja religioso, cultural, nacionalista… é um obstáculo para acolher a humilde revelação de Deus. A viúva de Sarepta, em Sidonia, Naamã, o Sírio, es­trangeiros, acolhem a salvação oferecida a todos, porém, rejeitada, precisamente por seus primeiros destinatários.

 

 

Primeira leitura: 2 Rs 5,24-30 (A cura de Naamã) – Com palavras bem medidas, com umas pinceladas bem marcadas, se apresenta Naamã – nome cuja raiz hebreia (n’m) expressa beleza – como um personagem excepcional, com umas qualidades invejáveis, que con­trastam, de repente, com o abismo de solidão e maldição: “Este homem, que era poderoso, tinha lepra” (v.1). A lepra: enfermidade que significa separação, impureza, castigo divino; situação, humanamente, sem saída, sem esperança. Apesar de tudo isto, o general do exército da Siria acolhe a proposta: deveria dirigir-se ao profeta de Samaria. Até o proprio rei de Siria, benevolamente, apóia a sugestão, ainda que, ao rei de Israel, pareça uma provocação. A crescente tensão entre ambos, paí­ses hostis, se abranda pela intervenção de Eliseu, pro­feta. Só seguindo suas indicações, tão simples que parecem banais, se efetuará o milagre da cura de Naamã, como primeiro passo para chegar à profissão de fé no Deus de Israel. Junto aos personagens que aparecem em primeiro plano (Naamã, Eliseu e os dois soberanos), aparecem também, como mediadores indis­pensáveis dos que se serve o Senhor para orientar o curso dos acontecimentos, a jovem cativa, o mensa­geiro e os servos. A passagem contém claras referencias ao simbolismo batismal: imersão nas águas, a eficácia da Pa­lavra do Deus de Israel, o caráter universal da sal­vação concedida em virtude da obediência.

 

Salmo 41/42 (O desejo do Senhor e de seu templo) – 1. Una corsa sedenta, com a garganta seca, lança seu lamento ante o deserto árido, anelando as frescas águas de um arroio. Com esta célebre imagem começa o salmo 41, que acabamos de cantar. Nela podemos ver quase o símbolo da profunda espiritualidade desta composição, autentica jóia de fé e poesia. Na realidade, segundo os estudiosos do Saltério, nosso salmo deve unir-se estreitamente ao sucessivo, o 42, do que se separou quando os salmos foram ordenados para formar o livro de oração do povo de Deus. De fato, os dois salmos, alem de estar unidos por seu tema y seu desenvolvimento, contêm a mesma antífona: “Por que te curvas, alma minha?, por que te perturbas? Espera em Deus, que voltarás a louvá-lo: Salvação de meu rosto e Deus meu!” (Sl 41,6.12;42,5). Este chamamento, repetido duas vezes neste salmo, e uma terceira vez no salmo sucessivo, é um convite que o orante faz a si mesmo a evitar a melancolia por meio da confiança em Deus, que com segurança se manifestará de novo como Salvador. 2. Mas, voltemos à imagem inicial do salmo… De fato, a corsa sedenta é o símbolo do orante que tende, com todo seu ser, corpo e espírito, para o Senhor, o qual sente longe, mas, ao mesmo tempo, necessário:  “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 41,3). Em hebraico una só palavra, ‘nefesh’, indica, ao mesmo tempo, a “alma” e a “garganta”. Por isso, podemos dizer que a alma e o corpo do orante estão implicados no desejo primário, espontâneo, substancial de Deus (cf.Sl 62,2). Não é de se estranhar que uma longa tradição descreva a oração como “respiração”: é originária, necessária e, fundamental, como o alento vital. Orígenes, grande autor cristão do século III, explicava que a busca de Deus por parte do homem é uma empresa que nunca termina, porque sempre são possíveis e necessários novos progressos. Em uma de suas homilias sobre o livro dos Números, escreve: “Os que desejam o caminho da busca da sabedoria de Deus não constroem casas estáveis, mas tendas de campanha, porque realizam uma viagem contínua, progredindo sempre, e, quanto mais progridem, tanto mais se abre ante eles o caminho, projetando-se um horizonte que se perde na imensidão” (Homilía XVII in Números, GCS VII, 159-160). 3. Tratemos agora de perceber a trama desta súplica, que poderíamos imaginar composta de três atos, dois dos quais se acham em nosso salmo, enquanto o último está no salmo sucessivo, o 42… A primeira cena (cf. Sl 41,2-6) expressa a profunda nostalgia suscitada pela recordação de um passado feliz e causa das formosas celebrações litúrgicas agora inacessíveis:  “Recordo outros tempos, e alivio minha alma comigo:  como marchava à frente do grupo para a casa de Deus, entre cantos de júbilo e louvor, no movimento da festa” (v.5). “A casa de Deus”, com sua liturgia, é o templo de Jerusalém que o fiel frequentava em outro tempo, mas é, também, a sede de intimidade com Deus, “manancial de águas vivas”, como canta Jeremias (Jr 2,13). Agora a única água que aflora a suas pupilas é a das lágrimas (cf. Sl 41,4) pela distancia da fonte da vida. A oração festiva de então, elevada ao Senhor durante o culto no templo, foi substituída agora pelo pranto, o lamento e a suplica. 4. Por desgraça, um presente triste se opõe àquele passado alegre e sereno. O salmista se encontra agora longe de Sião:  o horizonte ao seu redor é o da Galiléia, a região setentrional de Terra Santa, como sugere a menção das fontes do Jordão, da parte superior do Hermon, da qual brota este rio, e de outro monte, desconhecido para nós, o Misar (cf. v.7). Portanto, nos encontramos mais o menos na área em que se acham as cataratas do Jordão, as pequenas cascatas com as quais se inicia a rota deste rio que atravessa toda a Terra prometida. Sem duvida, estas águas não matam a sede como as de Sião. Aos olhos do salmista, mais se assemelham às águas caóticas do dilúvio, que destroem tudo. Sente-as cair sobre ele como uma torrente impetuosa que aniquila a vida:  “tuas torrentes e tuas ondas me atingiram” (v.8). De fato, na Bíblia o caos e o mal e, inclusive, o juízo divino, muitas vezes são apresentados como um dilúvio que gera destruição e morte (cf. Gn 6,5-8; Sl 68,2-3). 5. Esta irrupção é definida sucessivamente em seu valor simbólico:  são os malvados, os adversários do orante, talvez, também, os pagãos que habitam nessa região remota onde o fiel está relegado. Depreciam o justo e zombam de sua fé, perguntando-o ironicamente:  “Donde está teu Deus?” (v.11; cf. v.4). E ele lança a Deus sua angustiada pergunta:  “Por que me esqueces?” (v.10). Esse “por que?” dirigido ao Senhor, que parece ausente no dia da prova, é típico das súplicas bíblicas. Frente a estes lábios secos que gritam, frente a esta alma atormentada, frente a este rosto que está a ponto de ser atingido por um mar de lama, poderá Deus fiar em silencio? Certamente, não. Por isso, o orante se anima de novo à esperança (cf. vv.6.12). O terceiro ato, que se acha no salmo sucessivo, o 42, será una confiada invocação dirigida a Deus (cf. Sl 42,1.2a.3a.4b) e usará expressões alegres e cheias de gratidão: “Eu irei ao altar de Deus, ao Deus de minha alegria, de meu júbilo” (CATEQUESE DO PAPA JOÃO PAULO II).

 

 

MEDITATIO: “Este homem, que era poderoso, tinha a lepra” (2 Rs 5,1)“… porém, nenhum deles foi curado, mas unicamente Naamã, o sírio” (Lc 4,27). Porém: conjunção adversativa que entre os dois textos indica mudança de situação. No primeiro caso, de uma situação de “esplendor” a uma extrema po­breza; no segundo, de uma negativa à experiência da salvação. Quantos “porém” também em nossa vida pessoal e comunitária. Às vezes, assinalando nossa própria condição de limite e de pecado; às vezes, introduzindo uma intervenção inesperada de graça. O itinerário de Naamã, de um “porém” ao outro, pode assi­nalar, também, nosso caminho de cura, que, em etapas sucessivas, nos conduz à salvação. Este caminho só se realiza após o passo de uma atitude inicial de orgulho e presunção a outra de humildade que leva a confiar nos simples meios de salvação que Deus nos oferece.

 

ORATIO: Senhor Jesus, aqui me tens. Não tenho outra esperança. Tu me conheces. Ante ti está minha miséria. Ante ti estão, também, todos os meus desejos. Só tu podes curar-me. Tu és o único que tens palavras de vida eterna. Espero em ti, Jesus, espero em tua Palavra, porque tua misericórdia é imensa. Não te peço sinais maravilhosos e desconcertantes. Peço-te o dom de um coração humilde e dócil que se deixe convencer pela força persuasiva de teu Espírito, que, junto com o Pai, está sobre todos, atua por meio de todos e está presente em todos. Peço-te o dom de um co­ração simples capaz de contemplar – maravilhado – a grandeza de teu amor oculto nos humildes sinais do pão e o vinho, na luz e água, na voz e no rosto de cada irmão. Peço-te o “milagre” de uma fé sem reser­vas que aceite -sobretudo no momento das duvidas, a impotência e o pecado – o fiar-se totalmente de ti.

 

CONTEMPLATIO: O Senhor ama a alma obediente: E se a ama, lhe dá tudo o que a alma lhe pede. Como em outras épocas, tam­bém hoje, o Senhor escuta nossas orações e atende nossas súplicas. Todos buscam a paz e a felicidade, porém, só uns poucos sabem onde encontrar esta felici­dade e esta paz e o que há que fazer para obtê-las […]. Todo o que tem sido tocado pela graça, ainda que não seja mais que ligeiramente, se submete, com alegria, a qual­quer autoridade. Sabe que Deus governa o céu, a terra e o inferno, sua própria vida e suas coisas, e tudo o que há no mundo; por esta razão, conserva a paz. O obediente abandonou-se à vontade de Deus e não teme a morte, porque sua alma está habituada a viver com Deus e lhe ama. Renunciou a sua própria vontade e, por isso, nem em sua alma, nem em seu corpo, se dá a luta que atormenta o desobediente e ao que age segundo sua própria vontade. (Por que os Santos Pais colocaram a obediência acima do jejum e a oração? Porque se, se faz esforços ascéticos, porém, sem obe­diência, isso desenvolve o espírito da vaidade; o obediente, pelo contrário, faz tudo como lhe foi dito, e não tem de que orgulhar-se. Por outra parte, o obediente renunciou, em tudo, a sua vontade e, por isso, seu espírito está livre de qualquer preocupação e recebe o dom da oração pura. Graças à obediência, o homem é preservado do orgu­lho pela obediência, se recebe o dom da oração; graças à obediência, nos dá a graça do Espírito (Archimandrita Sofronio).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Envia-nos Senhor tua luz e tua verdade” (SI 42,3)

 

 

TERÇA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2020                                                                                             

LEITURA (Leiamos o texto, sublinhando e destacando seus pontos mais importantes).

Evangelho: Mateus 18,21-35 (Perdão das ofensas; Parábola do devedor implacável)Estamos na segunda parte do discurso eclesial, (Mt 18), dedicado especialmente ao perdão da ofensa pessoal. Pedro é o interlocutor de Jesus (v.21), que pensa distanciar-se do sombrio horizonte da vingança excessiva e sem limites (cf. vergonha de La­mec em Gn 4,23s), manifestando estar disposto a per­doar “até sete vezes”, número muito significativo de sua disponibilidade total ao perdão (v.21). Na res­posta de Jesus, se dilatam, até o infinito, os limites do perdão (v.22). É a nova mentalidade à qual está chamado o cristão. Por ser de difícil compreensão, Jesus vai ilustrar com uma pa­rábola (vv.23-34) estruturada em três cenas contra­postas e complementarias: (a) o encontro do servo deve­dor com o seu senhor; (b) o encontro do servo perdoado da divida com outro servo devedor, por sua vez, do primeiro; e (c) o no­vo encontro entre o primeiro servo e o seu senhor. Os discípulos deverão aprender a imitar ao Pai ce­lestial (v.35). A divida do servo é enorme, as cifras são hiperbólicas, porém o senhor tem compaixão (v. 27: se utiliza o mesmo verbo para descrever os sentimentos de Jesus na morte do amigo Lázaro), manifestando sua grande magnanimidade com um perdão gratuito. Porém, este servo se encontra com um colega que lhe deve uma cifra irrisória (vv.28-30). Esperaríamos que imediatamente lhe perdoasse a pequena divida, porém não acontece assim e sua reação é sem piedade. A graça recebida não transformou seu coração. Por isso – e passa­mos à última cena – é digno de julgamento e do castigo divino. A conclusão é clara: o perdão do homem ao seu irmão condiciona o perdão do Pai.

 

 

Primeira leitura: Dn 3,25.34-43 (Cântico de Azarias na fornalha) – A chave de leitura da oração de Azarias está na frase: “Mostra a glória de teu nome” (v. 43; cf. o pri­meiro pedido do Pai Nosso em Mt 6,9). Azarias, na prova da perseguição, só teme uma coisa: que o nome de Deus perca sua glória, quer dizer, seu “peso”, seu poder. Nada mais lhe infunde medo: nem o ser reduzido a um “resto”, nem a humilhação (v.37); nem sequer a profanação do templo e a helenização, com a conse­guinte destituição dos chefes religiosos e a abolição do culto oficial (v.38; 2Mc 6,2). Estes aconteci­mentos, ainda que dolorosos, não prejudicam a Israel. O profeta os lê como uma purificação providencial: na prova, o povo manifesta um coração contrito e um espírito humilde, agradáveis ao Senhor, como verdadeiro sacrifício (vv.40s) que volta a dar gloria a seu nome. Então renasce a esperança (v.42). A fidelidade de Deus às promessas feitas aos patriarcas segue firme (vv.35s); a grandeza de sua misericórdia, todavia pode derramar a benevolência e a benção sobre o povo da aliança (v.42). Por isso, a súplica de Azarias se transforma em salmo penitencial (vv.26-45), em hino de louvor cantado em uníssono pelos três jovens, no forno (vv.52-90).

 

Salmo 24/25 (Súplica no perigo) – “Este Salmo alfabético nos concede a oportunidade de admirar a virtude interior de um justo que se dirige a Deus. Ele não se considera isento dos passos falsos e reconhece que mereceu, por seus pecados, a sua desgraça e a sua solidão. Sua confissão é indicação de uma notável retidão e honestidade moral: a de um homem humilde que se reconhece amado por Deus e que, por isso, conserva intacta, e espera, do Senhor, perdão, conselho e ajuda…” (Sociedade de São Paulo).

 

 

MEDITATIO: Santo Ambrosio indica que Deus criou o homem para ter alguém a quem perdoar e revelar assim o rosto de seu amor desconcertante, que é disponibilidade ilimitada ao perdão, a qualquer preço, inclusive o mais elevado, como é o sangue de seu Filho. Porém, amor pede amor, e a misericórdia de Deus deseja inspirar a mesma disposição no homem, pecador perdoado, em relação com seus irmãos. De que nos serve ter experimentado a misericórdia divina se não permitimos que transpa­reça em nosso rosto, em nossa vida? Quem não acei­ta perdoar ao irmão mostra não reconhecer a gravidade do próprio pecado. O perdão de Deus seria vão se não permitimos que se plasme a sua imagem e semelhança, pois Ele é um Deus “piedoso e misericordioso, lento à ira e rico em amor”. Jamais poderemos pagar a enorme divida de nossos pe­cados, de nossa cega ingratidão… Porém, Ele nos perdoa pedindo-nos fazer o mesmo: perdoar de coração “até setenta vezes sete” ao irmão. Será, na terra, o começo de uma grande festa que culminará no céu: festa da reconciliação, gloria dos filhos que Deus, adquiridos ao preço do sangue do filho, no Espí­rito derramado para o perdão dos pecados.

 

ORATIO: … Tu nos chamaste gratuitamente à vida e queres que a gastemos por ti e os irmãos em plenitude de doação. Só assim podemos ser felizes. Mas, quão longe estamos de participar nesta estranha lógica, na qual o que mais ama parece perder, na qual se é grande, à medida que nos fazemos pequenos. Ensina-nos a recordar teu amor, que não duvidou em dar­-nos o que tinha de mais precioso, teu amado Filho, mesmo sabendo sermos nós servos sem piedade: capazes, claro está, de receber tudo e acolher o perdão, mas sem estar dispostos a fazer o mesmo com nossos devedores. Abre-nos os olhos, para que saibamos reconhecer, no ordi­nário de cada dia, as mil ocasiões que se apresentam de verter nos irmãos uma medida de amor “apresentada, recheada, transbordante: a mesma que tu vertes em nosso interior cada vez que tocamos fundo em nossa pobreza.

 

CONTEMPLATIO: Ao pregar as bem-aventuranças, o Senhor antepôs os misericordiosos aos puros de coração. É que os misericordiosos descobrem em seguida a verdade em seus próximos. Projetam para eles seus afetos e se adaptam de tal maneira que sentem como próprios os bens e os males dos demais. A verdade pura, unicamente a compreende o coração puro e, ninguém sente, tão vivamente, a miséria do irmão, como o coração que assume sua própria misé­ria. Para que sintas teu próprio coração na miséria de teu irmão, necessitas conhecer primeiro tua própria miséria. Assim poderás viver em ti seus problemas, e se des­pertarão iniciativas de ajuda fraterna. Este foi o pro­grama de ação de nosso Salvador: quis sofrer para saber compadecer-se, se fez miserável para aprender a ter misericórdia. Por isso está escrito dele: “Apren­deu por seus padecimentos a obediência” (Hb 5,8) (Ber­nardo de Claraval).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Tu és, Senhor, bom e indulgente” (Sl 85,5).

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 18 DE MARÇO DE 2020

LEITURA (Leiamos o texto, sublinhando e destacando seus pontos mais importantes).

Evangelho: Mateus 5,17-19 (O cumprimento da lei) – A pessoa e os ensinamentos de Jesus desconcertam seus contemporâneos: de fato, constituem uma novidade radical. A passagem de hoje nos deixa entrever a interrogação que suscitavam e, à sua vez, reflete a deli­cada situação das primeiras gerações cristãs em suas relações com o judaísmo. O evangelho segundo Mateus, destinado em primeiro lu­gar a uma comunidade judeu-cristã, apresenta Jesus como o novo Moisés que promulga no monte a nova Lei: as bem-aventuranças. Porém, não por isso ficam abolidas a Lei e os profetas; mas, chegam a sua plenitude em Cristo. O mesmo Jesus manifesta um grande apreço à Torá, que ao longo dos séculos prepara a Israel para – uma vida de comunhão com Deus. Esta comunhão nos concede agora, por graça, em plenitude: em Jesus Deus se faz Emanuel, Deus-conosco. Os antigos preceitos em sua plenitude, em Cristo, permanecerão como norma perene. Jesus o afirma com suma auto­ridade, como evidencia o texto grego onde aparece a palavra original: “Amém” (v.18), frequente na boca de Jesus e depois do resto do Novo Testamento e da Igreja primitiva. Nem sequer os minúsculos sinais da Lei – isto é, os preceitos secundários – serão anu­lados, e de sua observância, ou não, dependerá a sorte definitiva de cada um. De fato, por lógica, e de acordo com o estilo oriental, ser considerado mínimo no Reino dos Céus significa ser excluído, como parece no v.20.            ­

 

 

Primeira leitura: Dt 4,1.5-9 (A infidelidade de fegor e a verdadeira sabedoria) – Nos três primeiros capítulos do Deuteronômio, Moisés fala a Israel, recordando-lhe a historia, para sublinhar a fidelidade de Deus com seu povo. No cap. 4 se vemos as conseqüências: pede-se ao povo uma resposta que manifeste absoluta fidelidade a Deus, que se traduza na prática das leis e normas que, por ordem do Senhor, ensinou Moisés, de acordo com o que ele mes­mo aprendeu. Estas não constituem só uma condição para entrar na posse da terra (v.1), mas também e, sobretudo, uma tarefa concreta a cumprir, uma “vocação” (v.56): pois, de fato, um estilo de vida inspirado em palavras ordenanças fará de Israel objeto de estima e admiração de outros povos, que apreciarão a sabedoria superior e poderão reconhecer a proximidade extraor­dinária de seu Deus. Israel se converterá assim, em meio das nações, em testemunho do Deus vivo e verdadeiro, que ama ao homem e se faz presente quando se invo­ca seu nome revelado a Moisés (v.7). Portanto, a lealdade a Deus se manifesta muma serie de ações expressas nos mandamentos. Não devemos enten­der os mandamentos como simples proibições, mas como resposta de amor. E como se baseiam em anteriores benefícios de Deus, para poder praticá-los livremente é indispensável recordar a historia de salvação: trazer à memória as obras do Senhor ajuda o povo a crescer em gratidão a Deus e na observância de suas leis, de geração em geração (v.3).

 

Salmo 147 (Hino ao Onipotente) – Com frequencia se entoa o salmo 147 referindo-o à palavra de Deus, que “corre veloz” sobre a face da terra, porém, também à Eucaristia, verdadeira “flor de farinha” outorgada por Deus para “saciar” a fome do homem (cf. vv.14-15). Orígenes, em uma de suas homilias, traduzidas e difundidas no Ocidente por são Jerônimo, comentando este salmo, relacionava, exatamente, a palavra de Deus e a Eucaristia:  “Lemos as sagradas Escrituras. Penso que o evangelho é o corpo de Cristo; penso que as sagradas Escrituras são seu ensinamento. E quando disse:  o que não comer minha carne e não beber meu sangue (Jo 6,53), ainda que estas palavras se possa entender como referidas também ao Mistério eucarístico, sem dúvida, o corpo de Cristo e seu sangre é, verdadeiramente, a palavra da Escritura, é o ensinamento de Deus. Quando se trata do Misterio (eucarístico), se ocorre cair uma partícula, nos sentimos perdidos. E quando escutamos a palavra de Deus, e se derrama em nossos ouvidos a palavra de Deus, a carne de Cristo e seu sangue, e nós pensamos noutra coisa, não caimos em um grande perigo?” (74 omelie sul libro dei Salmi, Milán 1993, pp.543-544). Os estudiosos põem de relevo que este salmo está vinculado ao anterior, constituindo uma única composição, como acontece precisamente no original hebreu. De fato, se trata de um único cântico, coerente, em honra da criação e da redenção realizadas pelo Senhor. Começa com um alegre convite ao louvor: “Louvai ao Senhor, que a música é boa; nosso Deus merece um louvor harmonioso” (Sl 146,1). Se fixamos nossa atenção na passagem que acabamos de escutar, podemos descobrir três momentos de louvor, introduzidos por um convite dirigido à cidade santa, Jerusalém, para que glorifique e louve a seu Senhor (cf. Sl 147,12). No 1º momento (cf. vv.13-14) entra em cena a ação histórica de Deus. Descreve-se mediante uma serie de símbolos que representam a obra de proteção e ajuda realizada pelo Senhor com respeito à cidade de Sião e a seus filhos. Antes de tudo se faz referencia aos “ferrolhos” que reforçam e tornam invioláveis as portas de Jerusalém. Talvez o salmista se refira a Neemias, que fortificou a cidade santa, reconstruída depois da experiência amarga do desterro na Babilônia (cf. Ne 3,3.6.13.15; 4,1-9; 6,15-16; 12,27-43). A porta, além do mais, é um sinal para indicar toda a cidade com sua solidez e tranquilidade. Em seu interior, representado como um seio seguro, os filhos de Sião, ou seja, os cidadãos gozam de paz e serenidade, envoltos no manto protetor da benção divina. A imagem da cidade, alegre e tranqüila, se destaca pelo dom altíssimo e precioso da paz, que torna seguras suas fronteiras. Porém, precisamente porque para a Bíblia a paz (shalom) não é um conceito negativo, quer dizer, a ausência de guerra, mas um dado positivo de bem-estar e prosperidade, o salmista introduz a saciedade com a “flor de farinha”, ou seja, com o trigo excelente, com as espigas cheias de grãos. Assim, pois, o Senhor reforçou as defesas de Jerusalém (cf. Sl 87,2); tem derramado sobre ela sua benção (cf. Sl 128,5; 134,3), estendendo-a a todo o país; tem dado a paz (cf. Sl 122,6-8); e tem saciado a seus filhos (cf. Sl 132,15). Na 2ª parte do salmo (cf. vv.15-18), Deus se mostra, sobretudo, como criador. De fato, duas vezes se vincula a obra criadora à Palavra que havia dado inicio ao ser:  “Disse Deus:  “haja luz”, e houve luz (…) Envia sua palavra à terra. (…) Envia sua palavra” (cf. Gn 1,3; Sl 147,15.18). Com a Palavra divina irrompem e se abrem duas estações fundamentais. De um lado, a ordem do Senhor faz que desça sobre a terra o inverno, representado de forma pitoresca pela neve branca como lã, pela geada como cinza, pelo granizo como migalhas de pão e pelo frio que congela as águas (cf. vv.16-17). De outro, uma segunda ordem divina faz soprar o vento quente que trás o verão e derrete o gelo:  assim, as águas da chuva e das torrentes podem correr livres para regar a terra e fecundá-la. De fato, a Palavra de Deus está na origem do frio e do calor, do ciclo das estações e do fluir da vida na natureza. A humanidade é convidada a reconhecer o Criador e dar-lhe graças pelo dom fundamental do universo, que a rodeia, a permite respirar, a alimenta e a sustenta. 4. Então se passa ao 3º momento, o último de nosso hino de louvor (cf. vv.19-20). Volta-se ao Senhor da historia, do qual se havia partido ao início. A Palavra divina trás a Israel um dom ainda mais elevado e valioso: o da Lei, a Revelação. Trata-se de um dom específico:  “Com nenhuma nação agiu assim nem os deu a conhecer seus mandatos” (v.20). Portanto, a Bíblia é tesouro do povo eleito, a qual deve acolher com amor e adesão fiel. É o que diz Moisés aos judeus no Deuteronômio:  “Qual é a grande nação cujos preceitos e normas sejam tão justos como toda esta Lei que eu os exponho hoje?”(4,8). Do mesmo modo que há 2 ações gloriosas de Deus, a criação e a historia, assim também existem 2 revelações:  uma inscrita na natureza mesma, aberta a todos; e a outra dada ao povo eleito, que a deverá testemunhar e comunicar à humanidade inteira, e que se acha contida na sagrada Escritura. Ainda que sejam 2 revelações distintas, Deus é único, como é única sua Palavra. Tudo foi feito por meio da Palavra -dirá o prólogo do evangelho de são João e, sem ela, não foi feito nada que existe. Sem duvida, a Palavra tambem se fez “carne”, quer dizer, entrou na história e fez sua morada entre nós (cf.Jo 1,3.14). JOÃO PAULO II.

 

MEDITATIO: O homem se caracteriza pelo desejo infinito de vida e felicidade, sede nunca plenamente aplacada e que o con­verte em um incansável buscador de Deus. E, sem dúvida, hoje, talvez mais que nunca, nos enfrentamos um novo fenômeno: o de uma humanidade cansada e into­lerante. Os caminhos antigos – os velhos? – não satisfazem; os novos aparecem, com muita freqüência, como autênticos becos sem saída e suscitam descrença ou desespero. As leituras da presente liturgia tornam a nos levar a um caminho concreto, “reto”; quer dizer, que leva di­retamente a seu fim. Primeiro: seu ponto de partida é a escuta da Palavra e exige humildade e obediência; segundo: o passo a seguir consiste em levar à prática a Palavra cada dia; e terceiro: a meta é o encontro com a Palavra – Jesus – e, por con­seguinte, a felicidade, a bem-aventurança. O caminho pode parecer exigente, porém, para quem caminha, se converte em estímulo para dilatar o coração. Não se trata tanto de praticar com rigor os precei­tos, mas de seguir a uma pessoa, passo a passo: Jesus. A palavra lei pode parecer hoje sinônimo de escravidão, legalismo, algo frio ou a hipocrisia. Pelo contrario, há algo mais estupendo que o verdadeiro amor, que sempre busca e encontra novos modos de dar-se? Precisamente, esta fidelidade absoluta ao ensinamento do Senhor pode fazer radicalmente nova nossa vida inclusive aos olhos dos demais. A fidelidade a manda­tos antigos nos fará testemunhos da perene novidade: Jesus, o Senhor, está conosco, e nele encontramos plenitude de gozo até no cotidiano trabalho da existência.

 

ORATIO: Senhor, em tua grande bondade, Tu nos tem mostrado o cami­nho a seguir, para chegar à meta da eterna comunhão contigo. Com freqüência, temos preferido escutar outras vozes diferentes da tua, temos aderido a nor­mas de acordo com nossos gostos, temos queri­do abrir atalhos alternativos para encontrar uma felicidade ilusória. Perdoa-nos, Senhor! Ajuda-nos a voltar a iniciar, a começar partindo da escuta humilde e fiel de tua Palavra, de caminhar dócil e generosamente por teus mandamentos: estes são os passos – pequenos, porém se­guros – que nos conduzirão a um amor grande, contigo e com os irmãos; são passos humildes que nos podem fazer “grandes” em teu Reino.

 

CONTEMPLATIO: Ouve, filho meu, minhas palavras suavissimas, que excedem toda ciência dos filósofos e letrados deste mundo. “Minhas palavras são espírito e vida” (Jo 6,63) e não se po­dem ponderar pelo sentido humano. Não se devem trazer ao sabor do paladar, mas que se devem ouvir com silencio e receber com humildade e grande afeto. Disse: “Feliz o homem a quem tu educas, Senhor, aquele a quem instruis com tua lei” (Sl 93,12s). Eu, disse o Senhor, ensinei aos profetas desde o principio, e não cesso de falar, a todos, até agora; porém, muitos são duros e surdos à minha voz. Muitos ouvem, de melhor grado, ao mundo, que a Deus; seguem mais facilmente o apetite de sua carne que o beneplácito divino. O mundo pro­mete coisas temporais e pequenas, mas, ainda assim, lhe servem com grande ânsia. E eu? prometo coisas grandes e eternas, contudo, entorpecem-se os corações dos mortais. Eu darei o que tenho prometido. Eu cumprirei o que tenho dito, se alguém perseverar fiel em meu amor até o fim […]. Escreve tu minhas palavras em teu coração e considera-as com grande diligência, pois no tempo da tentação as farás necessário. O que não entendes quando lês, conhecerás no dia que te visite (Imitação de Cristo, lU, 3).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:                                               

“Inclino meu coração a cumprir tuas leis, minha recompensa será eterna(Sl 118,112).

 

 

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QUINTA-FEIRA, 19 DE MARÇO DE 2020                                                                                              

 

EVANGELHO DO DIA Lc 2,41-51

Evangelho de meditação Mateus 1,16.18-21.24  José e a anunciação noturna:

“Era justo”

                                       

Celebramos hoje a festa do glorioso São José, pois foi portador de grande sensibilidade espiritual diante do mistério profundo.

A liturgia da Igreja nos convida a ler as palavras que descrevem a José, primeiro na genealogia de Jesus (“Jacó gerou a José, o esposo de Maria”; Mt 1,16) e logo no relato do anúncio da concepção virginal de Jesus (Mt 1,18-24).

Na genealogia de Jesus, José aparece como um verdadeiro Israelita, o descendente davídico que dá esta dignidade – por adoção – a Jesus.  A lista dos descendentes tem uma variante – justo – quando chega a José, para expor que José é esposo de Maria, porém, que Jesus não é filho natural de José.

Jesus, nem é gerado nem gera, com Ele acaba a lista. Contudo, graças a José, Jesus se insere na história do povo do qual é a plenitude. Por meio de José recebe uma nação, um povo, uma cultura e a adesão ao povo de Abraão.

A passagem de hoje relata como José supera suas dúvidas e acolhe Maria em sua casa. Com poucas palavras se disse muitíssimo sobre Jesus, Maria e José.

O relato aponta para a afirmação, de que Jesus não tem um pai terreno, que deve a origem de sua existência ao Espírito Santo, à obra criadora de Deus. Deus interveio e pôs um novo começo na história da humanidade.

Porém, José tem um papel importante nos acontecimentos. O relato nos apresenta as diversas fases de que passa José para compreender seu lugar e sua missão.

Depois de ficar perplexo pela notícia da gravidez de Maria (1,18), José tenta resolver o impasse jurídico com um repúdio em segredo (1,19). Está planejando isto, quando Deus, intervêm com uma palavra que contradiz seus planos (1,20-21), e ao qual José responde positiva e pontualmente (1,24).

Tudo poderia sintetizar-se na “justiça” de José. De fato, é chamado “justo” (1,19). Esta justiça consiste na obediência aos projetos de Deus: se trata de uma pessoa madura na fé, que tem uma profunda relação com Deus, que percebe seus caminhos e transita por eles. Jesus nasce à sombra deste “justo”, testemunho de maturidade na fé.

Esse ânimo lhe permite confrontar seu projeto pessoal com o projeto de Deus, e deixar-se vencer pelo segundo. O faz porque é capaz de compreender a Deus, e é por isso que está em condições de saltar as barreiras legais, que se lhe apresentam no momento crítico de sua vida, e fazer algo inaudito. José compreende o projeto de Deus em sua esposa e opta por ele.

A página do Evangelho nos coloca hoje ante um quadro estimulante: um homem com uma grande estatura em sua fé, que não é eximido das vacilações e temores ante as situações difíceis, porém, que é capaz de dar o salto pelo qual se abandona na graça iluminadora de Deus, que o anjo lhe lançou quando lhe disse: “Não tenhas medo” (1,20).

Assim, atravessa a cortina escura, e se abre ante o grande horizonte da salvação que se inaugura em Jesus. Nos relatos seguintes, nos quais a vida do menino Jesus se vê ameaçada (Mt 2,13-21), José assume o papel de defensor da vida do menino e da mãe.

O que teve em seus braços o Emanuel teve a oportunidade de, primeiro ver como, nesse menino, Deus estava com Ele, foi, também, na hora da violência cruel sobre os inocentes, o mediador do Deus-Pai que protege a vida de seu filho. Em José, Jesus também viu como Deus-Pai estava com Ele.

 Aprofundemos com os nossos pais na fé

 São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja

«José, Filho de David»

Não há dúvida de que este José, cuja esposa é a Mãe do Salvador,é um homem bom e fiel.

Repito, servo fiel e prudente, que o Senhor escolheu como consolo de sua Mãe, sustento da sua carne e, na terra, o único fidelíssimo coadjutor do grande projeto de Deus.

Diz-se também que ele foi da casa de Davi…

Perfeitamente filho de David, não tanto segundo a carne, mas pela fé, pela santidade e pela devoção.

Como um outro Davi, o Senhor o julgou segundo o seu coração e lhe confiou o mistério secretíssimo e santíssimo do seu coração… revelou-lhe as coisas escondidas e ocultas da sua sabedoria e lhe fez conhecer o mistério que nenhum príncipe deste mundo conheceu; enfim, foi-lhe dado o que muitos reis e profetas, querendo ver, não viram, e ouvir, não ouviram; e não só ver e ouvir, mas também carregar, conduzir, abraçar, beijar, nutrir e guardar.

Maria e José pertenciam, ambos, à estirpe de Davi; em Maria cumpria-se a promessa feita, outrora, a Davi, enquanto José era o testemunho desse cumprimento.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida:

 

  • Que afirmações faz sobre José o Evangelho de hoje?
  • Em que consiste sua justiça? Como a pôs em prática? Que me ensina?
  • Que lições eu posso tirar sobre o mistério da paternidade no texto lido?

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SEXTA-FEIRA, 20 DE MARÇO D 2020                                                                                              

LEITURA (Leiamos o texto, sublinhando e destacando seus pontos mais importantes).

Evangelho: Marcos 12,28-34 (O primeiro mandamento) =Mt 22,34-40; Lc 10,25-28

A pergunta do escriba nos conduz a uma discussão de atualidade nas escolas rabínicas daquele tempo. Na Lei se enumeram 248 mandatos e 365 proibições, agrupados em diversas categorias. A questão se expõe a Jesus: Antigo e Novo Testamen­to se encontram, frente a frente. Talvez apareça o in­tento de estender uma armadilha ao jovem rabi. Ele resolve a dificuldade indo diretamente ao essencial. De fato a resposta de Jesus não é desconhecida: cita o Shema Israel (“Escuta, Israel”), de Dt 6,4s, que todo israelita repetia, na oração, três vezes ao dia. A este primeiro mandamento, Jesus associa – o verbo grego indica uma relação de forte e recíproca interdependência – um segundo, tirado, também, da Sagrada Escritura (Lv 19,18). Nesta união está a originalidade da resposta de Jesus ao escriba, que reconhece a ver­dadeira síntese da Lei e do culto; mais ainda: o amor vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios. Jesus elogia ao escriba, e em sua resposta aparece explícito outro elemento novo: a proximidade/presença do Reino de Deus, cuja lei é o amor e, por conseguinte, a liberdade.

 

 

 

Primeira leitura: Os 14,2-10 (Retorno sincero de Israel a Iahweh) – Neste texto, estruturado como uma liturgia penitencial, Oséias convida o povo a “voltar”, quer dizer, a converter-se ao Senhor reconhecendo o próprio pecado como causa das desgraças atuais. É necessária uma confissão lúcida e sincera da culpa; o proprio profeta sugere palavras para expressá-la e o modo de apresen­tá-la, acompanhada não com vítimas de sacrifício, mas com uma vida purificada e a oferenda de louvor (v.3). Além do mais, é necessária uma decidida renuncia ao mal, a compromissos e diversas opções idolátricas. Livre de todo apoio humano, o povo se encontrará, aparentemente, pobre, será, então, quando Deus em pessoa cuidará dele. A conversão do povo corresponde a “conver­são” de Deus: deporá sua ira e com a força de seu amor curará o mal de Israel, perdoará sua infidelidade. Os efeitos benéficos deste amor se evocam com ima­gens magníficas que recordam o Cântico dos Cânticos, em uma refrescante descrição de vida nova (cf. a imagem de Deus como orvalho). Estas promessas chegam ao cume no v.9: Deus será para o povo libertado dos ídolos “cipreste frondoso”. O epílogo do redator, da corte sapiencial, indica que é necessário o discernimento para compreender o texto de Oséias, porque nele se manifestam os caminhos de Deus, e só caminhar por eles quem proceda com retidão.

 

Salmo 80/81 (Para a festa das Tendas)“Tocai a trombeta pelo novo mês, na lua cheia, dia da nossa festa” (Sl 80,4). Estas palavras do Salmo 80, agora proclamado, remetem para uma celebração litúrgica segundo o calendário lunar do antigo Israel. É difícil definir com exatidão a festividade a que o Salmo se refere; é certo que o calendário litúrgico bíblico, embora comece com o fluxo das estações e, portanto, da natureza, se apresenta firmemente ancorado na história da salvação e, em particular, no principal acontecimento do êxodo da escravidão egípcia, ligado à lua cheia do primeiro mês (cf. Ex 12,2-6; Lv 23,5). De fato, foi ali que se revelou o Deus libertador e salvador. Como afirma poeticamente o v.7 desse mesmo Salmo, foi Deus que tirou dos ombros do hebreu escravo no Egito, a cesta repleta de tijolos, necessários para a construção da cidade de Piton e Ramsés (cf. Êx 1,11.14). O próprio Deus pôs-se ao lado do povo oprimido e, com o seu poder, tirou e cancelou o sinal amargo da escravidão, a cesta dos tijolos cozidos ao sol, expressão dos trabalhos forçados a que eram obrigados os filhos de Israel. Agora, sigamos a evolução deste cântico da liturgia de Israel. Ele abre-se com um convite à festa, ao cântico, à música: trata-se da convocação oficial da assembléia litúrgica, segundo o antigo preceito do culto, nascido já na terra do Egito, com a celebração da Páscoa (cf. Sl 81[80],2-6). Depois deste apelo, ergue-se a voz do próprio Senhor, através do oráculo do sacerdote no templo de Sião, e  estas  palavras  divinas  hão de  ocupar  todo  o  resto  do  Salmo (cf. vv.6-17). O tema que se desenvolve é simples e inclui dois pólos ideais. Por um lado, há o dom divino da liberdade que foi oferecida a Israel oprimido e infeliz: “Clamaste na opressão, e eu te libertei” (v.8). Existe uma referência também ao apoio que o Senhor ofereceu a Israel, a caminho no deserto, ou seja, ao dom da água em Meriba, num contexto de dificuldade e de provação. Por outro lado, porém, juntamente com o dom divino, o Salmista introduz outro elemento significativo. A religião bíblica não é um monólogo solitário de Deus, uma sua ação destinada a ficar inerte. Pelo contrário, é um diálogo, uma palavra acompanhada de uma resposta, um gesto de amor que exige adesão.  Por isso, reserva-se um  amplo espaço aos convites que Deus dirige a Israel. O Senhor convida, em primeiro lugar, à observância do primeiro mandamento, fundamento de todo o Decálogo, ou seja, fé no único Senhor e Salvador, e a rejeição dos ídolos (cf. Êx 20, 3-5). O discurso do sacerdote em nome de Deus é cadenciado pelo verbo “escutar”, querido ao livro do Deuteronomio, que exprime a adesão obediente à Lei do Sinai e constitui um sinal da resposta de Israel ao dom da liberdade. Com efeito, no nosso Salmo ouve-se repetir: “Escuta, meu povo… Oxalá me ouvisse, Israel! (…) E o meu povo não escutou a minha voz, Israel não quis obedecer-me… Ah, se o meu povo me escutasse!” (…) (vv. 9.12.14). É só através da fidelidade à escuta e à obediência que o povo pode receber plenamente os dons do Senhor. Infelizmente, é com amargura que Deus deve dar-se conta das numerosas infidelidades de Israel. O caminho no deserto, a que o Salmo faz alusão, está totalmente constelado de tais atos de rebelião e de idolatria, que alcançarão o seu ápice na  configuração  do  bezerro  de  ouro (cf. Êx 32,1-4). A última parte do Salmo (cf. vv.14-17) tem uma tonalidade melancólica. De fato, nele Deus exprime um desejo que até agora não foi satisfeito: “Ah, se meu povo me escutasse, se Israel  andasse  pelos  meus  caminhos!” (v.14). Porém, esta melancolia inspira-se no amor e está ligada a um profundo desejo de cumular de bens o povo eleito. Se Israel caminhasse pelas sendas do Senhor, eles poderiam dar imediatamente a vitória so- bre os seus inimigos (cf.v.15) e nutri-lo “com a flor do trigo” e saciá-lo “com o mel do rochedo” (v. 17). Seria um alegre banquete de pão fresquíssimo, acompanhado do mel que parece correr das rochas da terra prometida, representando a prosperidade e o completo bem-estar, como não raro se repete na Bíblia (cf. Dt 6,3; 11,9;26, 9.15; 27,3; 31,20). Com a apresentação desta maravilhosa perspectiva, evidentemente o Senhor procura obter a conversão do seu povo, uma resposta de amor sincero e efetivo ao seu amor, mais generoso do que nunca. Na leitura cristã, a oferta divina revela a sua amplitude. Com efeito, Orígenes oferece-nos esta interpretação: o Senhor “fe-los entrar na terra prometida; não os nutriu com o maná, como no deserto, mas com a semente que caiu na terra (cf. Jo 12,24-25), que renasceu… Cristo é a semente; Ele é também a rocha que, no deserto, saciou o povo de Israel com a água. Em sentido espiritual, saciou-o com o mel, e não com a água, a fim de que, quantos acreditarem e receberem este alimento, sintam o mel na sua boca” (Homilia sobre o Sl 80, n.17, em: Orígenes-Jerónimo, 74 Homilias sobre o Livro dos Salmos…). Como sempre, na história da salvação, a última palavra no contraste entre Deus e o povo pecador nunca é o juízo e o castigo, mas o amor e o perdão. Deus não deseja julgar nem condenar, mas salvar e libertar a humanidade do mal. Ele continua a repetir-nos as palavras que lemos no livro do Profeta Ezequiel:  “Porventura sentirei prazer com a morte do injusto… O que eu quero é ele se converta dos seus maus caminhos, e viva (…). Por que motivo deveríeis morrer, casa de Israel?  Eu não sinto prazer com a morte de ninguém. Palavra oráculo do Senhor Deus. Convertei-vos e tereis vida” (18,23.31-32). A liturgia torna-se o lugar privilegiado onde escutar o apelo divino à conversão e voltar ao abraço do Deus “misericordioso e clemente, lento para encolerizar-se, mas cheio de bondade e de fidelidade” (Êx 34,6). JOÃO PAULO II

 

 

 

MEDITATIO: Um escriba pergunta a Jesus fazendo-se porta-voz de todos nós, que tratamos de compreender melhor o que nos pede o Senhor. Trata-se de uma pergunta simples que, talvez, expomos, não por curiosidade, mas com o coração disposto a obedecer. A resposta não é menos simples: Deus, que é amor, quer de nós amor porque quer fazer-nos partícipes de sua mesma vida. O que nos manda é, antes de tudo, dom inaudito, tesou­ro, fonte de todo bem. Hoje a Palavra nos assinala, em concreto, o horizonte ilimitado desta nova realidade e como temos que atuar para poder abarcá-lo em sua plenitude. A condição essencial é renunciar a qualquer forma de idolatria: “O Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Porém, quantas vezes temos chamado “nosso deus” às obras de nossas mãos, adorando nossas reali­zações de bens materiais, de carreira e posição so­cial, de êxito… E temos nos feito escravos de coisas efêmeras, transformando os irmãos em rivais, per­dendo a liberdade tão desejada. Desde o profundo deste abismo queremos voltar aos altos cumes. Porém, não será nosso esforço que o alcançará, senão nossa humildade, nossa pobreza: mendigos de amor e de paz, receberemos, gratuitamente, o dom, se acolhemos ao Amor super-abundante que nos renova, dia após dia, rompendo as barreiras de nosso egoísmo, traspassando os estreitos horizontes de nossa capacidade de amar. Então, todo homem se converterá em “próximo”.

 

ORATIO: Ó Pai, Tu és puro dom e de ti vem todo bem: acolhe nosso humilde e frágil desejo de entrar na re­gião bem-aventurada de teu amor. Não somos capazes de nada, porém tu mesmo quiseste derramar em nossos corações teu Santo Espírito; fonte de amor. Faz que acolhamos com generosidade um dom tão grande. Abre, de par em par, a capacidade de nosso coração para que deixemos que tu mesmo, feito amor em nós, chegues a todo irmão que encontremos no caminho. Sabes que todos temos necessidade de experimentar um amor santo que, superando qualquer formalismo convencio­nal, todo cálculo, se manifeste, em gestos verdadeira­mente evangélicos, criativos, capazes de surpreender em beleza. Porém, quem, senão tu mesmo, pôs em nós esta aspiração tão nobre? Dá-nos o que nos mandas, leva a plenitude o que começastes em nós.

CONTEMPLATIO – O amor não está submetido ao tempo, conserva sem­pre seu fogo. Alguns pensam que o Senhor há sofrido por amor aos homens e, como não encontram este amor em sua própria alma, lhes parece que isso aconteceu em um passado remoto. Porém quando a alma conhece o amor divino pelo Espírito Santo, percebe com claridade que o Senhor é um Pai conosco, o mais real, o mais íntimo, o mais carinhoso, o mais bom. E não existe maior felicidade que amar a Deus com todo o entendimento, com toda a alma, com todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos, como nos há mandado o Senhor. Quando este amor mora em nós, tudo dará gozo à alma. A graça vem do amor a nosso irmão, e é mediante o amor ao nosso irmão como se conserva. Porém se não amamos a nosso irmão, o amor de Deus não virá a nossa alma. Se os homens observassem os mandamentos de Cristo, a terra seria um paraíso. Todos teriam o suficiente e o indispensável com pouco esforço. O Espírito divino viveria nas almas dos homens, pois Ele bus­ca por si mesmo a alma humana e deseja viver em nós; se não fixa sua morada em nós, isso só se deve ao orgulho de nosso espírito (Archimandrita Sofronio, San Silouan el Athonita, Madrid 1996, 315).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Todo o que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7).

 

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SÁBADO, 21 DE MARÇO DE 2020                                                                          

LEITURA (Leiamos o texto, sublinhando e destacando seus pontos mais importantes).

Evangelho: Lucas 18,9-14 (O fariseu e o publicano)Estamos no contexto da subida de Jesus a Jerusalém, e a atenção se dirige às condições necessárias para entrar no Reino (cf.Lc 18,9-19, 28). Aparecem dois personagens contrapostos, e ambos oram: Em seu modo de orar se revela seu modo de viver e suas relações com Deus e os demais. Ambos, na oração, dizem a verdade de sua existência. O fariseu tira a colación seus méritos: se tem por credor de Deus. No fundo, não necessita de Deus, ainda­ que lhe dê graças, ao menos formalmente, porque lhe há concedido ser tão perfeito. Porém há mais. Sua justiça lhe faz juiz, e juiz sem piedade: tão cega é a estima que encontra em si mesmo que quando olha aos demais só é para desprezá-los (v.11). O publicano, pelo contrá­rio, consciente de seus pecados – que lhe fazem ter a ca­beça inclinada -, na realidade está aberto ao céu e espera de Deus tudo: golpeando o peito, chama à porta do Reino, e se lhe abre.

 

 

Primeira leitura: Os 6,1-6 (Conversão efêmera a Iahweh) – A passagem constitui um ato litúrgico penitencial (vv. 1-3) no qual participa todo o povo. O horizonte mais longínquo que move à conversão é o temor do dia do castigo messiânico anunciado várias vezes (cf. 5,9); o contexto próximo é, sem dúvida, o atual es­tado de guerra entre Israel e Judá. O buscar ajuda no inimigo mortal, Assíria, há extirpado as regiões sep­tentrionais do reino do Norte (732 a.C.), com os inevitáveis horrores da ocupação, a destruição e a de­portação (cf. 2 Re 15,29; 17,55). O profeta exorta e admoesta: tantas desgraças hão ocorrido porque o co­ração estava longe do Senhor, aplacado com sacrifícios vazios, pobre de amor. Com uma imagem frequente na Sagrada Escritura (cf Ex 15,26; Dt 32,29; Is 30,26; Ez 34,16), o povo re­conhece ser um enfermo (Os 5,13) que recorre a Deus como a seu médico: ele mesmo há produzido a ferida com vistas à emenda, e só ele pode curá-la (v. 1). YAHWEH é o Senhor da historia. Porém o arrependimento do povo não é só interessado (v. 3), mas também efêmero (v. 4). Deus o sabe bem. E, sem dúvida, não se cansa de convidar à conversão: sua palavra é uma espada que inexoravelmente fere para curar (cf. Is 49,2; Hb 4,12): pede amor, não holocaustos (v. 6); confiança, não uma sim­ples observância de práticas cultuais desgraçadamen­te hipócritas.

 

Salmo 50/51 (Miserere) – Este salmo é dedicado a Davi. Este pecado do rei (2 Sm 11 e 12), que matou Urias, para tomar sua esposa, e seu admirável arrependimento, são o símbolo do “mal” e do “perdão”. Mas, no fundo deste salmo está também a trágica destruição de Jerusalém que inaugura a deportação para Babilônia: o impacto do pecado é coletivo, como é a conversão novamente. O grito de arrependimento, que se expressa aqui, é de uma pureza admirável: este pecador se sente miserável, unicamente por seu pecado… Este pecado é a ofensa a Deus. Não há nada de mórbido aqui, pois Israel tem uma concepção muito positiva do pecado. O pecador não é deixado ao seu remorso, ele está ante “alguém” que o ama. Tudo se origina no amor. Vinte verbos no imperativo se dirigem a Deus… E cada um indica que Deus vai operar em favor do penitente, para “apagar”, “lavar”, “absolver” “purificar”, “restaurar a alegria”, “renovar”, etc… Para entender a maravilha do perdão de Deus, Jesus inventou a parábola do “Filho Pródigo” e, espontaneamente, usou expressões do Salmo 50: “Eu pequei contra o céu e contra ti”… Como o salmista expressou o perdão através de “cantos festivos” e “dança”… Ao instituir o Batismo para a remissão dos pecados, Jesus toma, uma vez mais, o símbolo da purificação “lava-me, que eu ficarei mais branco que a neve”. Quando Jesus perdoou Maria Madalena, a pecadora, a fez sua discípula, como diz o Salmo: “ensinarei aos malvados teus caminhos”. Ela, a antiga prostituta, foi a primeira testemunha da ressurreição e, além do mais, foi enviada em missão a seus irmãos (Jo 20,17). E quando o Espírito renovou os Apóstolos, através do sopro de Pentecostes, os vemos, também, “desatar a lingua e cantar os louvores de Deus”. Finalmente, Jesus aprova a afirmação do escriba que, baseado neste Salmo diz: “Amar a Deus e amor ao próximo valem mais que todos os sacrifícios” (Mc 12,33). A psicologia moderna tem mostrado o quanto o homem é marcado por certos constrangimentos provenientes do corpo, das influências sociais e dos hábitos que se originam de reflexos de traumas profundos. O salmista está esmagado pelo peso do determinismo: consciente do mal que tinha feito viu-se incapaz de realizar a reparação tão desejada. Por isso recorre à intervenção de Deus… Descobre que a raiz do pecado, antes de estar na culpa pessoal, está na própria condição humana: “Eu sou mau desde que nasci, sou pecador desde o ventre de minha mãe.” Isso não é fatalismo, mas aceitação: “Sim, eu reconheço o meu pecado … O que eu fiz está errado …”. Trata-se de um homem responsável, que não deseja, de nenhuma forma, justificar-se. Não há pior inimigo da dignidade humana que certa atitude de auto-justificação. Isso é, muitas vezes, uma cegueira. Senhor, faz com que vejamos claro! Ajuda-nos a perceber o mal que fazemos: os reflexos agressivos inconscientes egoísmo dominante dissimulado, a covardia escondida. Que tenhamos a verdadeira noção de “pecado”. A realidade do pecado é a transgressão para além do mero “da lei” ou “falta subjetiva”. Davi sabia muito bem que colocar a mão sobre Urias e seduzir sua mulher… não estava cometendo um “simples” erro, ou algo que produzisse remorso ou vergonha. Ele sabia que tinha ofendido a Deus “contra ti, só contra ti pequei”. O pecado se avalia em relação ao Deus transcendente: o mal essencial se avalia em referência a uma “infidelidade”, um “amor”. Ridicularizo o amor daquele que me ama. Perdão também tem a ver com amor. “Por teu amor, ó Deus, sê propício a mim, segundo a tua grande compaixão, apaga meu pecado.” André Frossard escreveu a este respeito: “A nossa religião, o nosso Deus, é o Deus das repetições magníficas: deu-nos o poder de renascer”. O salmista abunda em palavras para falar desta “renovação”. Fala, inclusive, de uma “nova criação”. O perdão não é só um esquecer o passado, mas o surgimento de uma “nova criatura” mistério comovedor, repetido mil vezes na Bíblia… O pecado é uma realidade altamente pessoal. No entanto, a Bíblia fala, constantemente, sobre as implicações para além de quem o comete; é o que a psocologia moderna chama de “responsabilidade coletiva”… é preciso reconhecer que nos impregnamos do meio que nos rodeia e que contribuímos, de uma ou de outra forma, para tornar difícil a vida dos demais. Cada pecado “compromete” nossos irmãos. Cada tomada de consciência, cada esforço de conversão contribui para melhorar o clima no qual os outros vivem. O pecador que fala neste Salmo estava convencido de que seu pecado e seu arrependimento “interessava” aos demais. Ao converter-se, se compromete em ajudar seus irmãos: “aos malvados ensinarei teus caminhos e os pecadores voltarão a Ti”. Além disso, associa à reconstrução do seu ser pessoal, a reconstrução da cidade: “favorece a Sião, reconstrói os muros de Jerusalém”. A Igreja de hoje dá essa sentido comunitário para o sacramento da reconciliação. O adágio “toda alma que se eleva, eleva o mundo”, contém uma verdade profunda… Muitas vezes a Bíblia diz que Deus se compraz mais em nossa vida diária que nas cerimônias e rituais. “Tu não queres oferendas nem holocaustos, e eu te dar-lhes-ia, mas não é o que te agrada. As oferendas que são agradáveis a Deus é um espírito contrito”. Enfim, não é Deus quem ganha quando reconhecemos os nossos erros: o pecado é uma espécie de auto-destruição do homem, é um princípio de morte. O que Deus quer, diz o salmo, é que o homem não seja destruído novamente, mas tenha um coração novo, uma nova vida. Por isso, quando a vida do homem volta a embelezar-se, pode estar feliz e cantar  agradecido: “Aceitarás os sacrifícios exigidos, oferendas e holocaustos; então, se oferecerão novilhos sobre o teu altar”.  A renovação do sacramento da penitência, tem que ver também com o redescobrimento da alegria do perdão e da celebração festiva da misericórdia de Deus. (NOEL QUESSON).

 

 

MEDITATIO: Conhecer a Deus e conhecer-se a si mesmo, ou melhor, conhecer-se a si mesmo em Deus: esse é o começo da sa­bedoria e da verdadeira vida. Todos os santos hão experimentado. De fato, que é o homem sem Deus? Um soberbo destinado à escura solidão, rodeado de presuntos rivais ou de seres julgados indignos; em resu­midas contas, um desesperado pilado no cepo de seu egoísmo, de seu pecado. Que é o homem com Deus? Segue sendo um orgulhoso, um pecador. Porém sabe que precisamente a experiência do pecado pode conver­ter-se em um lugar no qual Deus -o Misericordioso- re­vela seu rosto. Vemos, pois, o importante que é deixar cair as ca­retas com as quais pretendemos ocultamos, sobretudo a nós mesmos, a pobreza de nosso ser, a mes­quinhez de nosso coração, a dureza de nossos julgamentos. Só pode curar-se se, se reconhece enfermo, necessitado de salvação. Deus espera este momento, in­clusivo até o provoca sabiamente com sua pedagogia inconfundível. Todos somos sempre um pouco “fariseus”, porém Deus oferta a todos poder fazer a experiência do publicano da parábola, lograr uma autêntica hu­mildade, a que reconhece que Deus é maior que nosso coração e que sempre perdoa.

 

ORATIO – Oh Deus, criador do céu e da terra, o universo in­teiro é lugar de tua presença, morada de teu santo nome. Em ti, sob teu olhar, vivemos, nos movemos e existimos. Todas nossas palavras e ações são oração que sobe a tua presença. A verdade de nós mesmos está patente a teus olhos. O temor nos assalta porque sabemos que nosso coração não é puro, que nossa vida não é santa, e tratamos de ocultar-nos e de desprezar os demais para justificar a nós mesmos; pensamos adornar-nos com tantas obras que são pura aparência. Tratamos, em vão, de buscar uma segurança. Não podemos calar uma voz que desde o fundo de nós mesmos nos grita: “Por que atuas assim? Que tratas de buscar com o que fazes?”. É tua voz, Senhor, que silenciosamente vai criando em nosso interior um grande vazio: desde este abismo brota, desesperadamen­te, o único grito verdadeiro: “Tem piedade de mim, que sou um pecador”. O orgulho me mata, humildemente te busco, Senhor.

 

CONTEMPLATIO – Me perguntais […] se uma alma pode acudir a Deus confiadamente conhecendo sua própria miséria. Respon­do que a alma conhecedora de sua própria miséria não só pode ter uma grande confiança em Deus, mas que lhe será impossível alcançar a verdadeira confiança se carece do conhecimento de sua própria miséria; porque o conhecimento e a confissão desta miséria nos in­troduzem na presença de Deus. Por isso os grandes santos, como Jó, David e outros, começavam sempre suas orações confessando a própria miséria e indigni­dade; é, portanto coisa excelente reconhecer-se pobre, vil, baixo e indigno de comparecer ante o divino acata­miento. O célebre ditado dos antigos: “Conhece-te a ti mes­mo”, se suele interpretar assim: “Conhece a grandeza e ex­celência de tua alma para não envilecerla nem profaná-la com coisas indignas de sua nobreza”. Porém se interpreta também desta outra maneira: “Conhece-te a ti mesmo, quer dizer, tua indignidade, tua imperfeição, tua miséria”. Quanto mais miseráveis somos, tanto mais devemos confiar na bondade e misericórdia de Deus; porque entre a misericórdia e a miséria existe um parentesco tão grande que a uma não se pode exercitar sem a outra. Se Deus não tivesse criado os homens, tivera sido certamente bondoso, porém não misericordioso, visto que não teria podido exercitar sua misericórdia com ninguém, já que a misericórdia se pratica com os mi­seráveis (Francisco de Sales)

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Conheces até o fundo de minha alma” (SI 138,14)

                                             

 

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