Lectio Divina na 4ª Semana da Páscoa ano 2020

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LECTIO DIVINA SEMANAL: COMUNIDADE CATÓLICA PAZ E BEM

DOMINGO, 03 DE MAIO DE 2020

João 10,1-10 (O bom pastor) – Um capítulo dominado pela figura do bom pastor, deve ser lido no contexto que lhe corresponde, para entendê-lo mais a fundo. De fato, o capítulo 9 havia reve­lado, Jesus, como «luz do mundo», através da cura do cego de nascença e, ao realizar esse milagre, pôs, deste modo, de relevo, a cegueira espiritual dos chefes dos judeus (9,40s). Agora, o Henoc etíope, um texto apócrifo contemporâneo, descreve toda a história de Israel até a vinda do Messias como uma alternação de momentos de cegueira e de posse da vista por parte das ovelhas, em virtude dos sucessivos represen­tantes de Deus, os pastores de seu povo. Isso significa que Jesus, após ter mostrado que tem o po­der de devolver a vista, pode afirmar que é o único pastor que leva as ovelhas à salvação, o Messias es­perado. Toda o texto está composto de elementos tradi­cionais e heterogêneos. Em sua origem devem ter figurado fragmentos desconexos e unidos apenas com chaves de memória: isso explica a fluidez das imagens e a difi­culdade para coordenar os discursos em uma sequência ló­gica. Nesta primeira passagem, Jesus se identifica, de maneira implícita, com o pastor das ovelhas que entra no recinto (em grego, aulé) passando pela porta. Dado que o termo “aulé” significa, também, o pátio do templo onde se reúne o povo de Deus, Jesus assume, legitimamente, a guia do mesmo, com uma autoridade que lhe vem de Deus, diferente dos «ladrões e salteadores». Como os pastores da Palestina, que lançavam uma chamada característica para fazer-se reconhecer por seu próprio rebanho, também Jesus conhece as suas ovelhas, e estas reconhecem a sua voz. O bom pastor as retira para fora, o Messias guia o povo em um êxodo salvífico, «e as ovelhas o seguem» com uma intuição segura (vv.4s). Dado que os ouvintes não lhe compreendem, recorre, Je­sus, a uma nova imagem (vv.6-10): ele é «a porta das ovelhas», do mesmo modo que é o caminho, isto é, «o único mediador entre Deus e os homens» (1Tm 2,5). Quem passa através de sua mediação encontrará a sal­vação, a segurança e o «sustento», ou seja, a plenitude da vida. A missão do pastor é, precisamente, pôr-se a serviço das ovelhas, em contraposição a quantos se arrogam uma autoridade sobre o povo que Deus que não lhes foi conferido (vv.9s) e, por isso, se convertem em uma exploração egoísta, em atropelo, em violência.

 

 

At 2,14a.36-41 (Discurso de Pedro à multidão) – Este texto apresenta a conclusão do primeiro discurso de Pedro ao povo. Com uma afirmação decidida e clara, o apóstolo resume toda a exposição precedente: «Deus constituiu Senhor e Messias a este Je­sus a quem vós crucificastes» (v.36), quer dizer, que lhe deu seu próprio nome divino (cf. Fl 2,9-11) e, em consequência, seu poder. Precisamente, àquele a quem Israel rejeitou e condenou a uma morte infame (At 3,13-15), por considerar blasfema sua pretensão de ser o Filho de Deus, o Enviado, o Cristo. O povo esperava, é certo, o Messias (em grego, Kristós), porém como triunfador político. Como conhecia estas expecta­tivas, Jesus sempre havia feito calar aos demônios que o revelavam como o Messias, como o Cristo; e havia rejeitado o título de rei, que a multidão queria dar-lhe. Só na hora em que foi condenado se pôs na cruz uma inscrição em três línguas que dizia: «Jesus Nazareno, rei dos judeus» (Jo 19,19-22), e o Pai ratificou, com a ressurreição, que Jesus é, em verdade, «Senhor e Messias». As palavras de Pedro chegaram até o fundo do co­ração dos presentes, mostrando-lhes a enormidade do mal realizado. De fato, a Palavra de Deus, mais cor­tante que uma espada de dois gumes (Hb 4,12), foi enviada para discernir e salvar, não para condenar. A multidão percebe a graça dessa pregação e se abre à fé (v.37). Pedro, seguindo o mandato recebi­do do Ressuscitado (Lc 24,47-48a), pode lançar-lhes, ago­ra, este convite: «Arrependei-vos e batizai-vos cada um de vós no nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados vossos pecados». Submergir-se, sacramen­talmente, na pessoa do Crucificado-Ressuscitado, sig­nifica fazer eficaz, em nós, a salvação que Ele levou a cabo. Por isso, acrescenta o apóstolo: «Então re­cebereis o dom do Espírito Santo» (v.38). Com o perdão dos pecados e o dom do Espírito se cumpre a nova aliança prometida pelos profetas e dirigida, agora, não só a Israel, mas a todos os homens (cf. Jr 31,31-34). Agora, esta segue sendo uma oferta da parte de Deus, uma oferta que requer uma acolhida livre da parte de cada homem (vv.40s).

 

1 Pe 2,20b-25 (Para com os senhores exigentes) – O batismo, ao tirar o pecado original, dá, ao que o recebe, a nova identidade de filhos de Deus. Para caracterizar melhor essa transformação, Pedro emprega uns termos muito precisos; os batizados na Igreja­ são pedras vivas, linhagem escolhida, sacerdócio régio e nação santa (2,1-10). Esse «privilégio» exige, não obstan­te, a aquisição de uma nova mentalidade e de uma conduta de vida conformada à de Cristo. As dife­renças de condição social, ou cultural, perdem consistência, porque todos os discípulos encontram sua uni­dade em Cristo e todos são, igualmente, «peregrinos longe, ainda, de seu lar» (2,11) neste mundo, e todos são, deste modo, servos de Deus. Por isso, Pedro, dirigindo-se a pessoas que desenvolvia tarefas humildes na sociedade de então, lhes oferece, precisamente, como modelo, a Jesus, o verdadeiro Servo de Yahweh, que, com paciência e mansidão, carregou sobre si mesmo o pecado, que Ele não havia cometido, para destruí-lo em sua própria humanidade. Assim, graças a seu oferecimento, a humanidade ficou liberta da única escravidão, a do pecado, e pode viver «pela justiça», que é amor e misericórdia. O cristão se converte, pelo batismo, em membro de Cristo e, por isso mesmo, está chamado a compartilhar sua paixão, a fim de participar, também, em sua gloria no céu, junto a todos os irmãos, aos que empenhou-se a salvar com sua vida. O grupo dos discípulos e, portanto, toda a Igreja, de rebanho disperso e debandado, por causa do escândalo do sofrimento (cf. Mc 14,27s), volta a ser, em Jesus ressuscitado, um re­banho compacto que caminha seguindo suas pegadas (v.25).

 

Salmo 22/23 (O bom Pastor) – Esse Salmo, tão conhecido por todos, deve ser meditado silenciosamente diversas vezes. Este Salmo é um dos preferidos do saltério, pela tradição de Davi pastor e pela culminação na imagem do Bom Pastor. Também por sua simplicidade e riqueza: em duas imagens ou cenas de conjunto, comprime um número inesperado de símbolos elementares. As imagens são duas: o pastor em 1-4, o anfitrião em 5-6. O versículo central, 4b, une-se ao que precede pela imagem, ao que segue pelo surgimento da segunda pessoa. A imagem do pastor é desenvolvida com realismo e concretude, por meio de traços breves que evocam a cena. Deixemo-nos conduzir pela imaginação, sem espiritualizar: a relva verde com uma fonte, para deitar-se, repousar e recuperar as forças; as trilhas do caminho, o vale ao anoitecer, o cajado que bate no chão rítmica e sonoramente. A imagem une dois planos de significado num ângulo comum; dele, numa visão de conjunto, se vêem as duas vertentes. O que se diz das ovelhas vale para o homem; o aspecto pessoal avança para o primeiro plano: “tu vais comigo”. A imagem indica vários símbolos, arquetípicos ou culturais. A imagem do pastoreio se dá nas relações do homem com os animais dominados e domésticos. O verde aplaca os olhos, revela a terra materna e acolhedora. A água mata a sede e suscita energia vital. O caminhar é energia radical. A escuridão evoca medos infantis e temores não esclarecidos; nela se sente com mais força a presença amiga. A potência simbólica desses traços não se esgota na primeira leitura. A imagem do hóspede. Na cultura nômade a hospitalidade é fundamental. Podemos imaginar um fugitivo de seu clã que pede asilo. O xeque o acolhe na sua tenda, oferece-lhe proteção, comida e bebida, unguentos aromáticos. Ao observar a cena, os inimigos perseguidores se detêm na porta ou cortina: o xeque o protege. Quando termina, o xeque lhe oferece uma escolta que o acompanhe pelo caminho até sua casa, que é a casa do Senhor. Essa parte acrescenta os símbolos de comer e beber. As tradições do êxodo nos dão uma chave para compreender a unidade das duas imagens: o Senhor guia seu povo como rebanho, pelo deserto, proporcionando-lhe água, comida e repouso. Quando chegam à terra prometida, O senhor no seu território os recebe como anfitrião: Ex 15,13;Sl 68,11;77,21. Duas vezes o poeta interrompe o descanso com o caminho, não ao contrário. Toda a vida a caminho ou a morada final no templo? O poema termina com uma tensão não resolvida, como se numa e noutra vez voltasse a começar.

Senhor, deixa que eu me entregue nas tuas mãos e que me deixe guiar para onde o Senhor quer. Que eu seja humilde e dócil, em todos os momentos de minha vida. Mesmo que a noite seja escura, eu confio e confiarei sempre em Ti. Amém.

 

 

MEDITATIO: Todas as leituras de hoje têm, como fundo, a pre­sença de Cristo, Bom Pastor, enviado pelo Pai a reunir a grei. O Evangelho define, também, o pastor como a «porta» que introduz no redil. Ele é quem faz entrar na intimidade e na comunhão de vida com o Pai. Esta é a orientação de toda a vida dos homens: voltar a casa, ao seio do Pai, de onde veio Cristo e para onde voltou após ter realizado sua missão de salvar-nos. Em consequência, o tempo presente é um tempo de caminho, de retorno, de busca, de nostalgia; e tudo que nos acontece tem um sentido referido à meta que devemos alcançar. Portanto, o desígnio de Deus se apre­senta, justamente, como um ir a buscar os homens dispersos para levá-los à salvação, à vida. E Jesus é a porta pela qual é preciso que entremos: a porta da salvação, da vida, da esperança. É tudo isso e muito, muito mais. Sem dúvida, que difícil é ter a humildade de reconhecer sua voz de verdadeiro pastor que nos convida a sair das estreitezas de nosso egoísmo para intro­duzir-nos no Reino da verdadeira liberdade! Toda nossa vida depende de nossa decisão de escutar, seguir e entrar em Jesus.

 

ORATIO: Jesus, Pastor e sustento de teus fieis, guia seguro e caminho de vida, tu que conheces a todos por seu nome e nos chamas todos os dias um a um, faz-nos capazes de reconhecer tua voz, de sentir o calor de tua presença que nos envolve, inclusive quando o caminho seja estreito e impraticável, e a noite, profunda e interminável. Seguindo-te, sem resistências e sem medos, chegaremos aos prados verdejantes, às fontes frescas de tua morada, onde nos farás beber e repousar.

 

CONTEMPLATIO: Nosso Senhor nos disse que é a porta do redil. Qual é, agora, o redil, cuja porta é Jesus Cristo? É o co­ração do Pai. Jesus Cristo é a amável por­ta que nos abriu, de par em par, este amável coração, antes fechado a todos os homens. Neste redil estão reunidos todos os santos. O pastor é o Verbo eterno; a porta é a humanidade de Jesus Cristo. Pelas ovelhas deste redil entendemos, agora, as almas humanas, ainda que, também, as naturezas angélicas pertençam a Ele. O Verbo eterno abriu o caminho neste amável redil a todas as criaturas razoáveis, e é o verdadeiro e bom pastor do rebanho. Porém, o hostiário, o guardião desta casa, é o Espírito Santo. Ó, com quanto amor e com quanta bondade abre esta porta, este coração paterno, e abre a todos, sempre, o tesouro escondido, a intimidade e a riqueza desta casa! Ninguém pode imaginar, nem compreender, quão aberto e bem disposto está Deus, quão acolhedor e quão seden­to, e como corre ao nosso encontro, em todo instante e a toda hora. O guardião põe para fora as suas próprias ovelhas, e o pastor as leva para fora, chamando-as por seu nome, vai adiante delas e elas o seguem. Aonde? Ao redil, ao coração do Pai, onde está a sua morada, o seu ser, o seu repouso. Ago­ra, todos os que queiram incorporar-se devem passar pela porta, que é Jesus Cristo em sua humanidade. Estas são as suas ovelhas, que têm como meta, e só buscam, a Deus, única e exclusivamente, em si mesmo e nenhuma outra coisa que não seja a sua honra e a sua vontade (João Taulero I Sermoni).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Senhor é meu pastor, nada me falta» (Sl 23,1)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Quem é Jesus? Jesus é o bom pastor. É o próprio Senhor que nos convida para pensar assim: como uma figura extremamente amável, doce, próxima. Só podemos atribuir ao Senhor expressar-se com uma bondade infinita. Apresentando-se com este aspecto, repete o convite do pastor: estabelece uma relação cumulada de ternuras e de prodígios. Conhece as suas ovelhinhas e as chama por seu nome. Como nós somos de seu rebanho, fica fácil a possibilidade de corresponder que antecede à mesma petição que o apresentamos. Êle nos conhece e nos chama por nosso nome; se acerca a cada um de nós e deseja fazer-nos chegar a uma relação afetuosa, filial, com Êle. A bondade do Senhor se manifesta aquí de uma maneira sublime, inefável […]. O Cristo que levamos à humanidade é o «Filho do Homem», como Ele mesmo se chamou. É o primogênito, o protótipo da nova humanidade, é o Irmão, o Companheiro, o Amigo por excelência. Só dele pode dizer-se, com certeza, que «conhecia tudo o que há no homem» (Jo 2,25). É o enviado por Deus não para condenar ao mundo, mas para salvá-lo. É o bom pastor da humanidade. Não há valor humano que não haja respeitado, exaltado e resgatado. Não há sofrimento humano que não haja compreendido, partilhado e valorizado. Não há necessidade humana – com exceção das imperfeições humanas – que não tenha assumido e provado em si mesmo e proposto à inventividade e à generosidade dos outros homens como objeto de sua solicitude e de seu amor, por assim dizê-lo, como condição de sua salvação (Pablo VI, Discurso del 28 de abril de 1968).

 

SEGUNDA-FEIRA, 04 DE MAIO DE 2020

João 10,11-18 (O bom pastor) – No «Discurso do bom pastor» Jesus prossegue e apro­funda na sua auto revelação messiânica: enquanto, na primeira parte (vv.1-10), se define como o pastor contraposto aos «ladrões e salteadores», no texto da liturgia de hoje se põe a atenção no adjetivo «bom» (= «belo»), que qualifica Jesus como o pastor ideal, modelo dos pastores, quer dizer, dos guias espi­rituais e políticos do rebanho de Israel (cf. Sl 23 e 79). Neste caso, a figura que se lhe contrapõe é a do «assalariado» (v.12). O distinto modo de proceder de cada um permite distinguir entre o verdadeiro pastor e o assalariado. O primeiro não foge quando chega o perigo, não abandona o rebanho, enquanto que o segundo, que atua por seu in­teresse pessoal, só tem em conta salvar sua própria vida e seus interesses. Sem dúvida, temos de sublinhar, também, outro aspecto: o bom pastor, que é Jesus, chega, inclusive, a oferecer sua vida, não só através do trabalho diá­rio, mas através da morte aceita por suas ovelhas, em seu lugar, demonstrando, assim, pô-las adiante de si mesmo de maneira absoluta. Isso não faz nenhum pas­tor. Esta semelhança ilumina, sobretudo, o amor de Deus, cuja realidade, não obstante, segue sendo insondável. O amor do bom pastor, que nos é mostrado nos vv.14s, expressa-se, sobretudo, em termos de «conhecimen­to», ou seja, de comunhão profunda entre Jesus e suas ovelhas. Este é o reflexo transparente da relação que existe entre o Pai e Jesus, uma relação de entrega ab­soluta e desinteressada que se difunde e transborda sobre os outros: «Como meu Pai me conhece e eu conheço a Ele; e eu dou minha vida pelas ovelhas». Jesus não fala aqui de «suas» ovelhas, mas «das» (todas) as ovelhas, aludindo, assim, à sua missão voltada a toda a humanidade, que veio reunir para voltar a levá-la ao Pai, como esposa toda bela, sem ruga nem mancha.

 

 

At 11,1-18 (Em Jerusalém, Pedro justifica sua conduta) – A passagem apresenta as dificuldades que encontravam os ambientes judeu-cristãos com respeito à abertura aos pagãos. Inclusive Pedro, o guia autorizado, se vê obrigado a dar contas de maneira detalhada e paciente para explicar como chegou a dar um passo tão atrevido. O descontentamento nasce por um motivo de tipo ritualista e alimentício: vem-nos à mente as recriminações que diri­giam os fariseus a Jesus porque sentava à mesa com publicanos e pecadores (Lc 5,30). Ainda que, também, po­de ser um pretexto destinado a esconder a verdadeira recriminação: como Pedro pode atrever-se a batizar sem fazer aceitar primeiro, toda a iniciação judia? Este é o verdadeiro objeto da contenda: pode-se ser cristão sem passar pelo judaísmo? Pedro compreende que os argumentos não teriam bastado para convencer, por isso passa à narração dos fatos. Destes se desprende que foi, claramente, Deus, quem, através de uma cadeia de acontecimentos, o «obrigou» a tomar esta decisão. O clima geral do ambiente da Igreja de Jerusalém é de grande franqueza, porém, também, e, sobretudo, de verdadeira fraternidade e abertura à ação do Espíri­to. Os obstáculos ainda não caíram do todo, já que suas convicções estão bastante arraigadas e seus costumes são entranhados. Porém, a conclusão mostra uma satisfação admirada: «Assim que, também aos pagãos, Deus conce­deu a conversão que leva à vida!». A suce­ssão dos acontecimentos, guiados, como é evidente, pela mão de Deus, abriu, agora, o caminho da pregação aos pagãos. A autoridade de Pedro é a garantia mais segura.

 

Salmo 41/42 (Lamento do levita exilado) – Este é um dos Salmos que mais pode nos ajudar nos momentos de sede de Deus. Quando a necessidade dele se faz mais forte em nossa vida, devemos recorrer a este Salmo e meditá-lo para que nossa força seja renovada e, assim, prosseguirmos o caminho. Também podemos recorrer a ele quando Deus nos parece longe e percebemos ao nosso redor o desafio dos que nos perguntam: onde está o teu Deus? É difícil responder diante da violência, da pobreza e da maldade humana. Como podemos crer que Deus é Pai quando milhões de crianças morrem de fome, quando o mal avança com toda sua força? No entanto, nós, que temos fé, sabemos que o mal não depende de Deus, mas da maldade humana. Faça deste Salmo o teu guia nos momentos difíceis da vida.

Senhor, dá-me os pés ágeis da corça para correr as nascentes de água que és tu e, assim, saciar a minha sede de infinito, de amor e de vida. Faz que eu nunca me cale diante dos que me perguntam onde tu estás, mas que saiba dar a razão da minha esperança e possa provar que o mal do mundo é fruto da injustiça e do coração ganancioso e corrompido do ser humano. Amém.

 

 

MEDITATIO: Jesus se apresenta como o bom pastor, porém, hoje, são poucos os que desejam assumir o papel de «ovelha» e, menos ainda, a de ovelha dócil. Menos ainda, pertencer a um rebanho. Existe, em nossos dias, uma alergia inata a fazer parte de um rebanho conduzido por outros. Isso se deve­rá ao sentido da dignidade pessoal? Será a consciência dos direitos da pessoa? Será a cultura democrática a que nos impede aceitar de bom grado esta imagem, pastoral, é certo, ainda que, também, paternalista? Uma imagem contaminada, além do mais, por recor­dações ou por relatos de abusos, da parte de pastores que «tosquiavam» o rebanho, em vez de apascentá-lo com benevolência e discrição e pela recordação de, não distantes, guias políticos, que enganaram as massas com dis­cursos fascinantes e trágicos. Jesus, sem dúvida, se apresenta como o pastor dos pastos eternos que conhece caminhos que nenhum outro conhece, que mostra, de um modo bastante eficaz, que é um pastor diferente, que não se limita a dizer, mas que «chega a entregar sua vida» para avalizar seu pedido de converter-se em guia verdadeiro e bom para as metas definitivas. Não há de sua parte nenhuma pre­tensão de domínio, nenhum pedido de dominação, nenhuma condição de renúncia a nossa própria dignidade. Só pede que nos con­fiemos a ele, para chegar à meta. Está tão desprendi­do de todo poder, tão entregue a sua ação de guia manso e seguro, que dá sua própria vida pelas ovelhas. Por mim, de um modo particular e eficaz, na medida em que desejo ser guiado por Ele para a vida eterna.

 

ORATIO: Também, eu, Senhor, encontro-me, não poucas vezes, entre as ovelhas que não desejam ser dedicadamente guiadas por ti. Sem dúvida, é, então, quando me deixo guiar por este mundo. Querendo fugir de teu rebanho, agrego-me ao rebanho que caminha sem meta e sem esperança. Ou melhor, sem pre­ocupar-me pelo que poderá acontecer amanhã, preferindo viver minha jornada com minhas opiniões, que são, enfim, as da ma­ioria que vagam por caminhos que não levam a nenhuma­ parte. Vejo que estou terrivelmente condicionado pelo pensamento de meu ambiente, que se torna difícil sair do rebanho dos que vivem sua própria vida tranquilamente. Peço-te, Senhor, que me ilumines para que possa com­preender que tu és a luz, o guia, o caminho. E ilumina-­me, também, para que compreenda que entrar em teu rebanho não supõe conduzir meu cérebro ao topo do monte, mas pô-lo nos caminhos da vida, caminhos que só tu conheces, porque desceste do céu para indi­car-nos o que leva a este. Especialmente, nos dias bons, quando as luzes deste mundo brilham e nos atraem, ilumina meu coração, para que não me perca, mas para que te sinta como doce pastor e guia digno de confiança.

 

CONTEMPLATIO: O bom pastor se faz erva do pasto para quem se converte em sua ovelha. Por isso, o primeiro que te ensina a Igreja, é que deves fazer-te ovelha do bom pastor e deixar-te guiar, pela catequese, para os pastos e as fontes do ensinamento, para ser sepultado com Ele, me­diante o Batismo, em sua morte, e sem ter medo de uma morte semelhante. E é que não se trata de morte, mas de «sombra da morte», de uma imagem […]. Depois, te apoia com o cajado do Espírito Santo, porque o Espírito Santo é o consolador. Prepara para ti, com todo luxo, a mesa da Palavra de Deus, frente à mesa de teus adversários, os demônios. Perfuma a tua ca­beça com o azeite do Espírito. Limpa o teu cálice do vinho que alegra o coração e suscita, em teu espírito, essa sóbria embriaguez que te dissuade das coisas passageiras, mergulhando-te nas eternas. Quem gostou desta ebrie­dade passa desta vida fugaz à eterna e habita na casa do Senhor ao longo dos dias (Gregorio de Nisa).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Senhor é meu pastor, nada me falta» (Sl 23,1)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Os guias religiosos, sacerdotes, ministros, rabinos ou irmãos– podem ser admirados e reverenciados, ainda que também odiados e desprezados. Esperamos que nossos guias religiosos nos levem mais perto de Deus com suas orações, seu ensinamento, seu guia. Por isso, vigiamos seu comportamento com atenção e escutamos de maneira crítica suas palavras. Porém precisamente porque esperamos deles, o mínimo sem dar-nos conta, algo maior que um comportamento humano, nos sentimos facilmente decepcionados ou inclusive nos sentimos traídos quando se mostram tão humanos como nós. Nossa admiração absoluta se transforma rapidamente em um ódio ilimitado. Tentemos amar nossos guias religiosos, perdoar suas culpas e vê-los como irmãos e irmãs. Deste modo deixamos que eles através de sua humanidade exausta, nos levem mais perto do coração de Deus (H. J. M. Nouwen, Pan para el viaje).

 

 

TERÇA-FEIRA, 05 DE MAIO DE 2020

João 10,22-30 (A verdadeira identidade de Jesus)O contexto é a festa da Dedicação que se celebra em Jerusalém no período de inverno. Jesus passeia pelo pórtico de Salomão, lado oriental, e que dá vista ao vale do Cedrón. Aproximam-se alguns e lhe expõem uma pergunta sobre sua identidade messiânica (v.24), uma pergunta que tem a aparência de um interesse sincero, ainda que, na realidade, é insidiosa e provocativa. Jesus res­ponde em dois momentos sucessivos: primeiro, sobre o messianismo (vv.25-31) e, a seguir, sobre a divindade (vv.32-39). Estamos diante da magna polêmica que enfrentava Jesus, junto a seus inimigos. Ele já havia apresentado, an­tes, e de vários modos, suas próprias credenciais de Filho de Deus e de enviado do Pai, especialmente, através de suas obras extraordinárias. Deveriam ter captado seu messianismo e crido em sua missão, porém, toda tentativa havia sido inútil (vv.25s). Se muitos não aceitam seu testemunho, a verdadeira razão disso consiste no fato de que não pertencem a seu rebanho. Ao contrário, quem escuta, dá provas de pertencer ao novo povo de Deus (vv.27s). João põe na boca de Jesus três afirmações que assinalam a identidade das ovelhas e suas características com respeito a Ele: «Escutam minha voz», «me seguem», e “não perecerão para sempre». De fato, os crentes, que caminham na verdade e na luz terão que sofrer, porém, a vida de comunhão com Cristo, vencedor da morte, dá a segurança da vitória. Sua vida é, do mesmo modo, para sempre, comunhão com o Pai, cuja mão, mais poderosa que tudo, os sustenta e os protege com a doação de seu Filho. A segurança plena e definitiva que Jesus e o Pai garantem, aos crentes, se fundamenta em sua profunda unidade e comunhão: «O Pai e eu somos um» (v.30).

 

 

At 11,19-26 (Fundação da Igreja de Antioquia) – O que Pedro fez na casa de Cornélio; fizeram também, os discípulos perseguidos e dispersados e, além do mais, em grande escala, junto aos demais pagãos. Os helenistas, uma vez expulsos de Jerusalém, tornam-se missionários e pregam em Samaria, Fenícia, Chipre e Antioquia, dirigindo-se, ainda, aos gregos, ou seja, aos pagãos. Antioquia, situada na parte setentrional da Síria, junto ao Mediterrâneo, aparece como o lugar privilegiado da mi­ssão junto aos pagãos, como polo de difusão do «novo caminho» entre os gregos. É, também, o lugar onde o povo: percebe a nova realidade representada pelo fato de serem cristãos; observa sua diferença com respeito aos judeus; e assumem sua iden­tidade específica e, portanto, o novo nome: cristãos. Porém, a igreja de Jerusalém vigia: as mesmas reservas que apare­ceram, com respeito à atuação de Pedro, surgem, agora, com respeito à comunidade de Antioquia. Envia-se uma «inspeção». Afortunadamente, se escolhe o hom­em justo, Barnabé, que, não por nada, recebe o nome de «homem que infunde ânimo», o qual, por encontrar-se «cheio do Espírito Santo», estava em condições de dis­cernir a obra do mesmo Espírito e de compreender seus caminhos. E, portanto, de animar a perseverar no caminho empreendido. Apresenta-se Barnabé com grande simpatia: não só sabe ver a direção da história da salvação, mas, ainda, compreender que fazem falta, homens justos, para secundar a ação do Espírito. Por isso, não fica de braços cruzados, mas vai reconquistar Paulo, esquecido em Tarso, agora, maduro, para as grandes empresas missionárias, e o introduz no clima vivaz e dinâmico de Antioquia.

 

Salmo 86/87 (Sião mãe dos povos) Para os israelitas, Jerusalém é a cidade santa, a qual devem visitar todos os anos para estar na presença do Senhor, oferecer sacrifício e cantar, em meio a toda comunidade, os louvores do Senhor. Os seus corações estão em Jerusalém. Para nós, católicos, Roma representa a cidade santa. Assim, todas as religiões têm a sua cidade santa onde desejam ir para se encontrar com Deus. Atualmente, nossa fé mostra-nos que não existe apenas um templo ou uma igreja onde podemos nos encontrar com o Senhor; o centro de nossa fé é o próprio Cristo, pois “onde duas ou três pessoas estiverem reunidas, eu estarei no meio delas”. Necessitamos redescobrir a importância da Igreja como mãe, e perceber que Deus se faz presente em cada um de nós. Somos igrejas e como cristãos somos chamados a gerar novos cristãos. É nossa missionariedade. “Não pode permanecer escondida uma cidade situada sobre o monte”. Este Salmo nos fala do amor esponsal e unitivo. Toda alma que se doa a Deus no amor é uma cidade santa que vive uma rica fecundidade. Como diz Teresa do Menino Jesus, “na Igreja minha mãe, serei amor”; nós também devemos ser um amor fecundo.

Senhor, hoje quero declarar o meu amor pela Igreja santa, imaculada, esposa de Cristo, sem ruga e sem mancha, que há séculos caminha pelas estradas poeirentas da humanidade pecadora e continua a resplandecer em toda sua beleza. É verdade, Senhor, que os homens e mulheres de Igreja muitas vezes não muito fiéis nem coerentes com o Evangelho e com o mesmo pensamento da Igreja. Isto me desanima, me aborrece. Devo aprender com o salmista a cantar a celeste Jerusalém, anunciada desde sempre, cidade, reino novo onde não haverá mais choro nem pranto. Senhor, dá-me amor pela tua Igreja, e que o meu agir e minhas palavras sejam sempre em sintonia com o Evangelho vivo que chega até mim por meio da palavra do Papa, dos bispos, dos sacerdotes, dos que têm o dever de ensinar. “[…] quem beber da água que eu darei se tornará nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”(Jo 4,14). Dá-me desta água viva que brota do manancial da Igreja e que eu possa sempre beber dele. Amém.

 

 

MEDITATIO: Nós pertencemos a Jesus porque Ele pertence ao Pai. Somos uma só coisa com Jesus porque Ele é uma só coisa com o Pai. Cremos nas obras de Jesus porque Ele realiza as obras do Pai. Jesus quer estabelecer comigo a mesma relação que Ele tem com o Pai. Por isso, escuto sua voz, que é eco da vontade do Pai. Por isso, o sigo, porque ele me conduz ao Pai. Por isso, me agarro a Ele, para não perecer nunca, porque sei que Ele me conduz ao Pai. As afirmações de Jesus são imponentes, em especial para um judeu: disse que é um com o Pai, com Deus, com o Altíssimo, com o criador do céu e da terra, com o ser que está acima de todos os outros seres. Estas e outras afirmações, particularmente numerosas no Evangelho de João surpreendem, ofuscam, e assim deve ter ocorrido a seus interlocutores. Também, hoje, ocorre o mesmo a quem fica perplexo frente à tamanha pretensão ou presunção ou luz deslumbrante. Porém, João não atenua nada, não faz descontos; procede sobre o cume de afirmações que dão vertigem, que requerem valor, porém, que, também, permitem «não perecer para sempre», porque tomam sua luminosidade da luz de Deus.

 

ORATIO: Ilumina, Senhor, meu coração, tardo para compreender. Abre minha mente à compreensão de tua Palavra, tão grande, que em ocasiões me desconcerta. Também, a mim, vem, em alguns momentos, à tentação de dizer-te: «Escutar-te-ei em outra ocasião». Em meio da com­plexidade de nossa sociedade, em meio de tantas opiniões, inclusive religiosas, ante o pu­lular de tantas divindades, velhas ou novas, da incerteza, que em ocasiões passa por mim, posso compreender o desconcerto e, inclusive, o ceticismo de muitos de meus irmãos. Estes são «ovelhas errantes sem pastor», porque é possível que tua voz tenha ressoado, alguma vez, em seus ouvidos, porém, foi superada por muitas vozes, por muitas opiniões, por muitos mestres de vida ou de morte. Suplico-te, Senhor, por mim, que me aproximo de tua Palavra: confirma-a em meu coração, com a evidência que só teu Espírito pode dar. Suplico-te, também, Senhor, por meus irmãos inseguros, perdidos e confusos: fala-os ao coração, faz-te ouvir, não como um mestre entre tantos, mas como o Mestre, porque tu és «um com o Pai».

 

CONTEMPLATIO: Eis aqui, irmãos, um grande mistério que faz pensar. O ruído de nossas palavras chega a nossos ouvidos, porém, o verdadeiro Mestre está dentro de nós. Que ninguém pense que pode aprender algo de um homem. O ensinamento exterior é só uma ajuda, um reclame. O que ensina aos corações tem sua cátedra no céu. Que seja, pois, Ele que fale dentro de vós, ali, onde nenhum homem pode penetrar, visto que, ainda que alguém possa estar ao teu lado, ninguém pode estar em teu coração. E que não tenha ninguém em teu coração: que nele esteja Cristo, sua unção, a fim de que teu coração não permaneça sedento, no deserto, sem uma fonte onde acalmar sua sede. Em consequência, é interior o Mestre que en­sina. É Cristo quem ensina com suas inspirações. Quando nos faltam suas inspirações e sua unção, em vão amotinam as palavras de fora (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Esculpe, Senhor, a Palavra em meu coração»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Deus criou o homem não para viver isoladamente, mais para formar sociedade. Do mesmo modo, Deus quis santificar e salvar os homens não isoladamente, sem conexão alguma de uns com os outros, mas constituindo um povo que lhe confessasse em verdade e lhe servisse santamente. Desde o começo da história da salvação, Deus elegeu os homens não somente enquanto indivíduos, mas também enquanto membros de uma determinada comunidade. Aos que elegeu Deus, manifestando seu propósito, denominou povo seu (Ex 3,7-12), com o qual, estabeleceu um pacto no monte Sinai. Esta índole comunitária se aperfeiçoa e se consuma na obra de Cristo. O próprio Verbo encarnado quis participar da vida social humana. Assistiu as bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a excelsa vocação do homem invocando as relações mais comuns da vida social e servindo-se da linguagem e das imagens da vida diária corrente. Submetendo-se voluntariamente as leis de sua pátria, santificou os vínculos humanos, sobretudo os da família fonte da vida social. Elegeu a vida própria de um trabalhador de seu tempo e de sua terra. Sabemos que com a oblação de seu trabalho a Deus, os homens se associam à própria obra redentora de Jesus, que deu ao trabalho uma dignidade supereminente trabalhando com suas próprias mãos em Nazaré. Daqui se deriva para todo homem o dever de trabalhar fielmente, assim como também o direito ao trabalho. E é dever da sociedade, de sua parte, ajudar segundo suas próprias circunstâncias, os cidadãos para que possam encontrar oportunidade de um trabalho suficiente.

Por último, a remuneração do trabalho deve ser tal que permitida ao homem e a sua família uma vida digna no plano material, social, cultural e espiritual, tendo presentes o posto de trabalho e a produtividade de cada um, assim como as condições da empresa e o bem comum (Gaudium et Spes, 32 e 67).

 

QUARTA-FEIRA, 06 DE MAIO DE 2020

João 12,44-50 (Conclusão: incredulidade dos judeus) O texto trata do fim da vida pública de Jesus: é o último texto do «livro dos sinais» de João. O próprio Jesus dirige um claro e definitivo chamado a todos os discípulos para que orientem sua “própria vida no essencial, com uma adesão, convenci­da e vital à sua divina Palavra”. Estas palavras são váli­das e atuais para qualquer tempo da Igreja. Antes de tudo, recorda Cristo, que o objeto da fé repousa no Pai, que enviou seu próprio Filho ao mundo. Entre o Pai e o Filho há uma vida de comunhão e unidade, pela qual, “o que crê» no Filho, crê no Pai, e o que “vê” o Filho vê o Pai. Há uma plena identidade entre «crer» em Jesus e «ver» Jesus, entre “crer» no Pai e «ver» o Pai. Para o evangelista, nos encontramos ante a um ver so­brenatural, que experimenta todo o que acolhe a Palavra do Filho de Deus e a vive. Cristo, quer dizer, a plena revelação de Deus, é o «rosto» de Deus feito visível. Quem adere a Ele reconhece e aceita o amor do Pai. A partir do Pai e do Filho passa, João, a considerar “o mundo” no qual vivem os homens. Quem tem fé em Jesus entra na vida e na luz. Mas, a necessidade de crer no Filho e em sua mi­ssão está motivada pelo fato de que Ele é «a luz do mundo» (Jo 8,12; 9,5;12,35s). Quem acolhe a luz da vida escapa das trevas da morte, da incompreensão e do pecado, e salva a si mesmo da si­tuação de cegueira na qual se encontra o homem. De fato, o verdadeiro discípulo é o que crê, guarda em seu coração e põe em prática as Palavras de Jesus. Ao invés, o que não crê, nem vive, as exigências do Evangelho, incorre no juízo de con­denação e no último dia será julgado pela mesma Palavra de vida que não acolheu.

 

 

At 12,24-25; 13,1-5ª (Barnabé e Saulo voltam a Antioquia) Ocorre uma escassez, e a comunidade de An­tioquia, por Barnabé e Saulo, envia ajuda a Jerusalém. Este é o início de um constante «intercâmbio de dons» entre as Igrejas. Tiago foi con­denado à morte, Pedro foi encarcerado e libertado; morre o perseguidor Herodes Agripa, «roído pelos vermes». “Entretanto, a Palavra de Deus crescia e se multiplicava»: os acontecimentos humanos servem de fundo ao acontecimento divino da expansão da Palavra pelo mundo. À comunidade de Antioquia, como já sabemos se mostra vivaz, e está dotada de profetas e doutores, quer dizer, de pessoas que sabem assinalar a no­vidade de Deus e sabem explicar sua Palavra. Paulo e Barnabé voltam a Antioquia com João e Marcos, têm ante eles a evangelização da grande cidade de cerca de meio milhão de habitantes, porém o Espírito Santo (através de um oráculo de algum dos profetas?) lhes destina à missão do vasto mundo. Será esta a verdadeira vontade de Deus? A res­posta procede do jejum e da oração: sim, é von­tade de Deus. Não resta mais que impor-lhes as mãos, sinal com o qual se confia ao Espírito Santo e se compartilha as responsabilidades: a missão aparece, já desde seus começos, como obra do Espírito Santo e do envio e colaboração da Igreja. A missão que constrói a Igreja não se realiza, pois, sem o discernimento da Igreja, que jejua e ora para que sua obra seja o mais conforme possível ao agir do Espírito.

 

Salmo 66/67 (Prece coletiva após a colheita anual) Apesar de pequeno, este Salmo encerra muita beleza. É como um pequeno frasco de um precioso perfume, uma vez aberto, espalha essa essência por toda a casa. Por meio de agradecimentos, súplicas, pedidos e, especialmente, louvor, a alma se deixa expandir e bendize o Senhor, proclamando a sua bondade. Santa Teresinha disse: “sou uma criança e como tal posso dizer o que penso.” Assim como ela, quando rezamos, devemos nos manter como crianças diante de Deus e não deixar que medos ou preocupações atrapalhem nossas orações. “É a sua face que eu procuro, mostra-me a tua face, Senhor, isto me basta.” Este desejo de ver a face de Deus nos faz perceber que não podemos permitir que o desânimo esteja em nós. Assim como este Salmo, que é animado pelo desejo da glória de Deus, somente fiquemos satisfeitos quando virmos Deus em nós. Que por meio do Espírito Santo – dom que o Pai tem oferecido à humanidade – possamos compreender a presença do amor divino em cada um de nós.

Senhor, como o salmista, quero te dizer sem medo de nada que me abençoe e faça-me brilhar sobre a tua face. A tua luz é grande e, como diz São João da Cruz, cega-nos sem nos fazer perder a visão. Contemplar é permanecer com os olhos, o coração e todo o nosso ser fixos no teu amor. Quero beber do teu amor numa atitude de escuta e discipulado, quero ser teu para sempre, que nada me afaste de ti. Senhor, quero aprender a louvar-te, agradecer-te em todas as circunstâncias da vida, mesmo quando o peso da cruz parece maior do que eu. Não quero arrastá-la, mas carrega-la e como um dia imprimiste o teu rosto no véu da Verônica, imprima hoje e sempre a tua face no meu coração e na minha vida. Que todos os povos te louvem e agradeçam sem cessar. Que todas as vezes que me faltar palavras, eu possa te louvar milhões de vezes com o meu coração, como uma criança que conhece poucas palavras. Amém.

 

 

MEDITATIO: No Evangelho de hoje encontramos palavras de con­fiança e de temor. Palavras de vida e de morte. Palavras de salvação e de condenação. É certo que Jesus não veio «para julgar o mundo». Sem dúvida, sua Palavra e sua missão realizam, automaticamente, um juízo e se convertem no critério último de verdade e de práxis. Minha atitude com Jesus e com sua Palavra leva, hoje, o juízo, no presente e no futuro. Na pessoa de Cristo está a realidade definitiva. E hei de fazer frente, aqui e agora, a esta realidade, porque é o definitivo o que sobrepõe o que passa, é o eterno o que criva o transitório. É hoje que decido meu destino eterno. É hoje que devo comparar-me com Cristo, é hoje que devo configurar-me com a Palavra. É hoje que minha vida está suspensa entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas, entre o tudo e o nada. Eis a importância do momento presente. Eis a importância deci­siva do instante que estou vivendo. Valor eterno deste fugaz momento. Valor do hoje para meu destino eterno. Recuperação do sentido da dramática realidade do momento presente, tão viva em muitos santos. Para onde está orientado, hoje, neste mo­mento, o profundo de meu coração?

 

ORATIO: Concede-me, Pai, que me deixe encharcar por estas tuas palavras de salvador e de juiz. Faz que, apesar da carga de miséria que eu sou, eu não perca a confiança, não me afaste de ti, entristecido e desalentado, mas que corra a ti, para deixar-me iluminar por tua luz, revigorar-me por tua vitalidade, desejoso de receber tua vida. Concede a meu coração assustado, ver sob a dureza de tuas palavras, a vontade de recuperar-me e salvar-me. Concede-me, pois, ouvi-las como uma ajuda concreta, para não perder a vida eterna que tens preparado para mim. Sei que queres salvar-me e que, por isso, tens enviado teu Filho, que me transmitiu tuas palavras. Suplico-te que nenhuma de minhas culpas me faça perder a confiança que tu queres minha salvação e não minha condenação; que fique sempre, portanto, uma fresta de esperança para mim, porque és um Deus benévolo, inclusive quando te mostras severo. Pai bom e misericordioso esculpe em meu coração as palavras de teu Filho, para que eu possa sentir hoje, amanhã e sempre o sabor de tua salvação.

 

CONTEMPLATIO: As divinas leituras, se bem que, por um lado, levantam nosso ânimo para que não nos esmague o desespero, por outro nos infundem medo, para que não nos agite o vento da soberba. Seguir o caminho verdadeiro, reto, que, como dissemos, também corre entre a esquerda do desespero e a direita da presunção, nos seria muito difícil, se Cristo não nos tivesse dito: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6). Como se tivesse dito: (Por onde queres ir? Eu sou o caminho. Aonde queres ir? Eu sou a verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a vida. Caminhemos, pois, com segurança por este caminho, mas temamos, tam­bém, as insídias que nos ameaçam) (Santo Agostinho).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Brilhe sobre nós a luz de teu rosto” (Sl 4,7b)

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O grande mistério da encarnação é que Deus tomou em Jesus a carne humana, a fim de que toda carne humana poderia revestir-se da vida divina. Nossas vidas são frágeis e estão destinadas à morte; agora bem, posto que Deus, através de Jesus, tem compartilhado nossa vida frágil e mortal, já não tem a morte à última palavra. A vida tem saído vitoriosa. Escreve o apóstolo Paulo: Quando este ser corruptível se revestir de incorruptibilidade e este ser mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá o que está escrito: A morte tem sido devorada pela vitória. Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu incentivo? (1 Cor 15,54). Jesus supriu a fatalidade de nossa existência e tem dado a nossa vida um valor eterno (H.J.M.Nouwen, Pan para el viaje).

 

 

                                                       

 

QUINTA-FEIRA, 07 DE MAIO DE 2020

João 13,16-20 (O lava-pés) – O trecho final do lava-pés trata do amor feito humilde serviço. Existe um mistério a compreender, que vai além do fato concreto, e que a comunidade deve acolher e reviver: praticar a Palavra de Jesus e viver a bem aventurança do serviço feito amor recíproco. O Senhor afirma, na intimidade da última ceia, que a vida cristã não é só entender, mas «praticar»; não só conhecer, mas «fazer», seguindo seu exemplo. Toda ação cristã nasce do «fazer» que tem sua razão na disponibilidade a todos os demais. O amor que salva é aceitar, na fé, a própria aniquilação e a prática de seu exemplo como regra de vida. Ao ajoelhar-se ante seus discípulos para lavar-lhes os pés, Jesus se entrega a eles e realiza o gesto de sua morte na cruz. Ao humilhar-se ante eles, os convida a entrar na plenitude de seu amor e a entregar-se reciprocamente. Com o convite a imitar seu exemplo na vida, Jesus se dirige a seus discípulos e, em particular, àquele que iria traí-lo. O pensamento de que um dos seus o iria entregar aflige, profundamente, ao rabi. Contudo seu amor abraça a todos e não exclui, nem sequer o traidor, dos gestos de bondade e de serviço. A única coisa que lhe preocupa é que os outros discípulos não sofram o escândalo que provocará a traição de Judas, e tenta preveni-los disto citando uma passagem da Escritura; «Até meu amigo íntimo, em quem eu confiava, o que­ compartilha meu pão, me levanta calunias» (Sl 41,10). A denúncia antecipada, da parte do Mestre, da traição de Judas, se converte, para os discípulos, em uma prova ulterior de sua divindade e da confirmação de sua presença em todos os fatos relativos à sua vida e morte (v.19). O destino de todo apóstolo segue, inseparavelmente, ligado ao de Jesus e, por meio deste, ao Pai (v.20).

 

 

At 13,13-25 (Chegada a Antioquia da Pisídia; Pregação de Paulo diante dos judeus) – Foi em Chipre onde teve lugar a conversão do pró-cônsul romano Sergio Paulo. A partir desse mo­mento se chama a Saulo com o nome romano de Paulo. Este passa de colaborador de Barnabé a verdadei­ro chefe da expedição. A partir de agora Lucas fala de «Paulo e Barnabé». Com este episodio, pode dizer-se que começam os «Atos de Paulo». De Perge a An­tioquia de Pisídia, situada no coração da atual Turquia, são uns 500 km. Tinha que percorrê-los a pé, atravessando os montes de Tauro, ex­postos às variações térmicas e os perigos de salteadores. Talvez se deva isto à volta a Jerusalém de João Marcos. Mas o interesse de Lucas está totalmente concentrado na Palavra. Esta é anunciada na sinagoga da cidade, no marco de uma celebração litúrgica. Existe um paralelismo entre o discurso programático de Jesus (cf. Lc 4,16-20) e este discurso, também programático, de Paulo. Este último parte, em sua argumentação, das grandes linhas da historia bíblica e centra seu discur­so no rei Davi, a quem está ligada a promessa do Salvador. A historia de Israel está apresentada de modo que tudo nela deva conduzir àquele que será o cumprimento da promessa, anunciado imediatamente antes da pregação de um batismo de peni­tencia, por parte de João. Apresenta Jesus como o melhor fruto da historia de Israel e como o cumprimento de suas esperanças. Devemos assinalar que a difusão das comunidades judias da diáspora, nas distintas regiões do império romano, será um terreno já prepa­rado para receber a mensagem dos primeiros missionários cristãos.

 

Salmo 88/89 (Hino e prece ao Deus fiel)Este Salmo é uma oração que descreve os vários sentimentos do orante. O salmista quer cantar as maravilhas do amor do Senhor e para isso relembra seu passado e o passado do povo; fieis ao Senhor puderam contemplar a grandeza do Pai que não desampara seus filhos e sempre cumpre suas promessas. Paralelamente a isso, o salmista se vê circundado por inimigos que tentam sua incolumidade física e religiosa. Como reagir diante do avanço do mal? O segredo é um só: a fidelidade à Palavra de Deus é a única que garante a nossa vitória. Todos nós enfrentamos momentos difíceis e é ai que devemos aprender a ouvir o silêncio e procurar resposta na solidão. Há sofrimentos que, embora os outros nos ofereçam auxílio, devem ser absorvidos e saboreados por cada um de nós, na solidão de nosso coração. Neste Salmo, o salmista nos chama a renovar diariamente nossa aliança com Deus: aliança que é sempre plena de felicidade, mas marcada com o sangue da cruz e o nosso.

Senhor, cantarei eternamente as tuas maravilhas. Quero olhar o que o Senhor fez no meu passado, quantas coisas boas, quantos amigos e amigas colocou no meu caminho que me ajudaram a chegar onde hoje eu estou com o exemplo, com uma palavra, com correção fraterna. Cantarei, Senhor, as maravilhas da minha fé. Combati mais ou menos o bom combate e conservei mais ou menos a minha fé. Sou feliz por ser carmelita e por ter todo dia a graça de viver com intensidade o meu apostolado. Agora, Senhor, os meus olhos podem ver com ternura o meu pôr-do-sol, que enuncia um porvir ainda melhor nas tuas moradas eternas. Renova, Senhor, comigo, apesar da minha infidelidade e do meu passado, a tua aliança santa, dá-me a consciência de que tanto a minha santidade como o meu pecado pesam sobre os meus ombros e sobre os ombros da Igreja, do Carmelo e da humanidade. Dá-me a certeza de que ninguém se salva sozinho. Senhor, quero levar comigo diante de ti toda a humanidade para cantar as tuas maravilhas. Amém.

 

 

 

MEDITATIO: O Pai envia o Filho e este seus discípulos; e, assim como o Filho repete o comportamento do Pai, também os fieis de Jesus devem repetir o comportamento do Filho. Mas os discípulos sabem que Jesus tem se comportado como um servo que, reconhecendo em cada homem a seu próprio senhor, se dedica a ele, incluso no mais humilde dos serviços, segundo o sig­nificado simbólico do lava-pés. Porém, como a lei do serviço é dura, logo é removida e substituída ou suavizada ou manipulada. Fala-se, assim, de serviço, teoriza-se sobre ele, porém, nos mantemos afastados do humilde serviço. Por isso, Jesus afirma ser bem aventurados, não os que falam de serviço, mas, os que os praticam. Acaso o traiu, Judas, por isto? Quando Jesus falava de serviço, entendia, por acaso, o serviço do poder? Não se foi quando viu que o serviço, para Jesus, era, precisamente, o dos autênticos servos, uma realidade dura e não uma palavra para adornar-se? E eu, como me situo ante o serviço? Conheço a sonoridade e a popularidade da Palavra mais que sua hu­milde e frequente humilhante realidade? Medito no serviço para falar bem dele ou para convencer-me de que devo rebaixar-me a servir?

 

ORATIO: Senhor misericordioso, abre meus olhos às muitas ilusões que cultivo sobre meu serviço; reforça meus joelhos, que se negam a dobrar-se para lavar os pés; dá firmeza a minhas mãos que se cansam de colher o barro com a água suja pelo pó pregado aos pés dos viajantes que chamam a minha porta. Tenho de confessar-te, Se­nhor, que sou muito débil, que ando muito longe de teu exemplo de vida. Concede-me teu Espírito para afugentar meus medos e para vencer minha timidez. Ó Senhor, tem piedade de minhas formosas palavras sobre o serviço e de minhas escassas obras. Tem piedade de meu coração que não conhece, ainda, a bem-aventurança do serviço verdadeiro e humilhante.

 

CONTEMPLATIO: O que tem de único, o lava-pés, é fazer-nos ver que estamos perdoados por antecipação e so­mos dignos de ser honrados. O exemplo que os apóstolos deverão imitar sempre é esta atitude de respeito com qualquer um, cujo verdadeiro nome está escrito nos céus; uma atitude de disponibilidade e respeito aos irmãos. Em conclusão, uma atitude de misericórdia: «Sereis felizes se o põe em prática» (Jo 13,17). Sim, porque todas as bem-aventuranças estão incluídas na misericórdia, que se realiza nas mil formas ins­piradas pelo amor: também, vós, deveis lavar os pés uns aos outros. «Um servo não pode ser maior que seu senhor» (Jo 13,16) (P. M. de La Croix).

 

AÇÃO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

«Ajudai-vos, mutuamente, a levar vossas cargas (Gl 6,2)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Chegou a hora. E o primeiro gesto que salta daquela fatal batida de gongo, em um rito que parece predisposto, é ir pegar uma jarra. Que deve fazer quem sabe que dentro de pouco morrerá? Se ama a alguém e tem algo para deixar-lhe, deve ditar seu testamento. Então fazemos com que nos tragam papel e caneta. Cristo, ao contrário, foi pegar uma jarra com água, uma toalha e a derramou em uma bacia após lavar os pés de seus discípulos. Aqui começa o testamento; aqui, após secar o último pé, poderia terminar também… «Dei-vos o exemplo…» Se tivesse que escolher uma relíquia da paixão, escolheria, entre os flagelos e as lanças, aquela bacia de água suja. Depois daria a volta ao mundo com esse recipiente debaixo do braço, olhando só os calcanhares das pessoas; e diante de cada pé cingir-me com a toalha, agachar-me, não levantar os olhos além da panturrilha, para não distinguir os amigos dos inimigos e, assim, lavar os pés, em silêncio, do ateu, do viciado em cocaína, do traficante de drogas, armas e pessoas, do assassino do jovem no canavial, do explorador da prostituta no calçadão, do suicida…, até que hajam compreendido. A mim não se me foi dado o levantar-me para transformar-me a mim mesmo em pão e em vinho, para depois suar sangue, para depois desafiar os espinhos e os cravos. Minha paixão, minha imitação de Jesus a ponto de morrer, pode resumir-se nisto. (L. Santucci, Una vita di Cristo. Volete andavene anche).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 08 DE MAIO DE 2020

João 14,1-6 (A despedida)Os apóstolos, reunidos em torno a Jesus no ce­náculo, depois do anúncio da traição de Judas, das negações de Pedro e da iminente partida do Mestre, ficaram profundamente afetados. O desconcerto e o medo inundaram a comunidade. Jesus vê no rosto de seus discípulos uma forte pertur­bação, um perigo para a fé e, por isso, lhes anima a que tenham fé no Pai e n’Ele (v.1). Se o Mestre exorta seus discípulos à confiança é porque Ele está a ponto de ir-se à casa do Pai a preparar-lhes um lugar. Não devem entristecer-se por sua partida, porque não os abandona; mais ainda, voltará para levá-los com Ele (vv.3s). Os apóstolos não compreendem as palavras de Jesus. Tomé manifesta a sua absoluta incompreensão: não sabe a meta para a qual se dirige Jesus; nem o caminho para chegar a ela; é que entende as coisas em um sentido material. Jesus, ao contrário, vai ao Pai e revela o meio para entrar em contato pessoal com Deus: Eu “sou o caminho, a verdade e a vida” (v.6). Esta revelação é um dos cumes mais elevados do mistério de Cristo e da vida trinitária: o homem Jesus é o Caminho porque é a Ver­dade e a Vida. Em consequência, a meta não é Jesus­, mas o Pai. Jesus é o mediador para o Pai. A função mediadora do homem Jesus, para o Pai, está explicitada pela verdade e pela vida. O Senhor se torna, assim, para todos os discípulos, o cami­nho ao Pai, por encarnar, em sua pessoa, a verdade e a vida (=Deus). Ele é o revela­dor do Pai, e conduz a Deus porque o Pai está presente nele e fala em verdade. Ele é o “lugar” onde se torna disponível a salvação para os homens e, estes, por sua vez, entram em comunhão com Deus.

 

 

At 13,26-33 (Pregação de Paulo diante dos judeus) – Neste seu primeiro discurso programático, Paulo desenvolve os mesmos argumentos de fundo do primeiro discurso de Pedro em Pentecostes. Devia ser um esquema habitual, no qual anunciavam a Boa Notícia nos ambientes judeus: as antigas promessas agora se cumpriram, apesar da rejeição por parte dos habitantes de Jerusalém, que entregaram a Pilatos um inocente, ao qual Deus despertou dos mortos. Os matizes do discurso são distintos, porém a substância é a mesma: Jesus, injustamente condenado, foi reconhecido justo por Deus mediante a ressurreição. E esta é «a palavra de salvação», é a «Boa Nova», é a realização «da promessa feita aos nossos antepassados»: Deus é o suficientemente forte para vencer o mal, inclusive o mais horrível. Deus dará a salvação aos que creem em seu poder, o mesmo po­der que se manifestou no acontecimento pascal de Jesus. Temos de assinalar que Paulo fundamenta o anúncio da ressurreição em declarações de «testemunhos». Paulo tem muito cuidado em não introduzir-se no número destes, com o qual reconhece seu papel insubstituível. Ele é só um porta-voz «do que tem recebido». Contudo, se apressa a acrescentar: «E nós vos anunciamos a Boa Notícia», introduzindo-se no grupo dos evangelizadores. Anuncia a Palavra de salvação a nós, que somos os verdadeiros filhos de Abraão (Mt 3,9), os herdeiros das promessas (Gl 3,16-29), verdadeiro Israel de Deus (Gl 6,16), hoje, neste contexto concreto, que é o nosso.

 

Sl 2 (O drama messiânico)Mostra-nos o perfil de um verdadeiro rei, autoridade política que deve estar a serviço de Deus e de seu povo. Nenhuma atividade deve existir se estiver afastada do Senhor, que deve estar no centro de tudo. Por isso, o político verdadeiro é “gerado por Deus”, para que o sirva e ajude na verdadeira promoção dos valores humanos e religiosos. Este Salmo é ainda utilizado na Igreja com o fim de mostrar Cristo como verdadeiro Filho de Deus, o que veio para que os homens tenham vida e a tenham em plenitude.

Senhor, ilumina todos os nossos políticos para que eles possam compreender que o mandato que lhes é dado pelo povo deve ser exercido a serviço do povo, e não na busca dos próprios interesses. A política é um dom, um ministério que deve ser motivado pelo amor e pelo serviço. Dá-nos, Senhor, bons políticos que, em comunhão com os valores evangélicos, possam construir um mundo novo. Amém.

 

 

 

MEDITATIO: Jesus, também, disse a mim hoje: “Não te inquietes». Tu sabias Senhor, que também havia de chegar para mim o momento da inquietude e da perturbação. Para mim e para tantos outros como eu. Como é possível que haja tantos ódios e vinganças? Tanta corrupção e indife­rença? Tanta fome de dinheiro e de poder? Tanta violência e prepotência? Veja como nossas cidades têm se tornado semelhantes a Sodoma e Gomorra: como é possível não sentir-se inquieto? Jesus responde à minha inquietação, assegurando-me que “também há um lugar para mim» ali onde está Ele, um lugar preparado para quem, apesar da inquietude, persevera com Ele nas provas e na tormenta. E é que, também no século XXI, segue sendo, Ele, o caminho, a verdade e a vida: com Ele é como podemos e devemos atravessar os ciclones da avidez e da sensualidade sem limites e os ventos gélidos da injustiça e do cinismo. Todas são forças que nos desviam, são tendências­ atropeladoras que nos exigem estar, firmemente, aferrados a Ele. Querem levar-te por outros caminhos? Recorda-te de que Ele é o caminho. Querem indicar-te soluções mais adiantadas, mais dignas do novo milênio? Recorda­-te de que Ele é a verdade. Querem ensinar-te como vi­ver de um modo mais intenso e livre? Recorda-te de que Ele é a vida. Recorda-te de que, com Ele, podes iniciar uma reconstrução não ilusória, ainda que difícil.

 

 

 

ORATIO: Sustenta, ó Senhor, meu coração vacilante. Tu mesmo vês o difícil que é não ser uma presa deste mundo que parece ter esquecido, inclusive, que viestes a nós. Tu mesmo estás vendo como estamos destruindo, em uns poucos decênios, um patrimônio espiritual acumulado durante séculos, mediante um tenaz trabalho missionário e pastoral. Tu mesmo estás vendo como envelhecem teus fiéis, sem que cheguem muitos reforços, como diminui a prática religiosa e o número de vocações, como se desagrega a família, como são considerados teus fiéis. Sustenta, ó Senhor, minha fé vacilante, porque não quer abandonar a ti, que é tudo para mim. Sustenta esta minha débil esperança, que quisera ver o novo milênio iluminado por tua verdade. Sustenta, cada vez menos vívida, a chama do amor por meus irmãos, aos que quisera dar o supremo presente do testemunho de Ti, como o único que liga ao Deus vivo e verdadeiro. Faz com que as palavras que disseste a Tomé vençam todo meu desânimo e triunfem sobre minha debilidade. Porque estou seguro de que és tu quem tem a última palavra: «Em ti, Senhor, me abrigo; não fique eu envergonhado para sempre» (cf. Sl 71,1).

CONTEMPLATIO: Mediante a contínua invocação e recordação de nosso Senhor Jesus Cristo, se estabelece, em nossa mente, uma espécie de divina tranquilidade, se não esquecemos a oração contínua dirigida a Ele, a sobriedade sem trégua e a obra da vigilância. Em verdade, tentamos realizar, sempre do mesmo jeito e de um modo próprio, a invocação a Jesus Cristo, gritando com um coração fervente, de modo que possamos ter parte, e saborear, o santo nome de Jesus. A seguir, de fato, tanto para a virtude, como para o vício, é a mãe o costume, e o costume tem, depois, a mesma força que a natureza. A mente que chega a semelhante tranquilidade persegue, a seguir, os inimigos, como um cão que caça as lebres no bosque. O cão para devorá-las; a mente, para aniquilá-los (Hesiquio).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Nada escapa a possibilidade de ser ferido. Todos somos pessoas feridas, física, psicológica, mental, espiritualmente. A pergunta principal não é: Como podemos esconder nossas feridas? A fim de que não nos resultem embaraçosas, mas como podemos pôr nossas feridas ao serviço dos demais? Quando as feridas deixam de ser uma fonte de vergonha e se voltam a ser fonte de cura, nos convertemos em curadores feridos. Jesus é o curador ferido de Deus: por meio de suas feridas tem curado de novo a nós. O sofrimento e a morte de Jesus têm trazido consigo alegria e vida, sua humilhação tem trazido glória, sua rejeição tem trazido uma comunidade de amor. Como seguidores de Jesus, também nós podemos fazer com que nossas feridas tragam cura aos outros (H.J.M. Nouwen, Pane per il viaggio, Brescia 1997, p. 207 [trad. Esp.: Pan para el viaje, PPC, Madrid 1999]).

 

 

 

 

 

SÁBADO, 09 DE MAIO DE 2020

João 14,7-14 (A despedida) – O tema fundamental de hoje é a relação entre Jesus e o Pai.      O evangelista, à pergunta do por que Jesus Cristo é o único mediador para chegar ao Pai, responde que só Jesus Cristo pode conduzir os homens à comunhão com Deus. Jesus é o caminho ao Pai, porque conduz a Ele através de sua pessoa: Ele está no Pai e o Pai nele. A partir desta mútua imanência, entre Jesus Cristo e o Pai, se faz compreensível que o conhecimento de Jesus leve ao do Pai (v.7). A linguagem do Mestre é obscura, para os discípulos, e, por isso, Filipe pede para ver a glória do Pai. Não compreendeu que se trata de ir ao Pai através de Jesus Cristo. Os discípulos não sabem reconhecer, na presença visível de seu rabi, as palavras e obras do Pai (v.9). Para ver o Pai no Filho é preciso crer na união misteriosa entre o Pai e o Filho. Só pela fé é possível compreender. Dai que, o único que o homem pode pedir é a fé, e esperar, com confiança, esse dom. O Senhor, em seu chamado à fé, fundamenta a ver­dade de seu ensinamento em uma dupla razão: (a) sua autoridade pessoal, que os discípulos têm experimentado, em outras ocasiões, ao viver com Ele; e (b) o testemunho «das Obras que faço» (v.11). A obra que Jesus inaugurou, com sua missão de revelador é só um começo. Os discípulos prosseguirão sua missão de salvação. Mais ainda: farão obras se­melhantes às suas e, inclusive, maiores. Por último, o Mestre se ocupa de animar os seus, e a todos os que creiam nele, a participar na obra da evangelização e em sua própria missão.

 

 

At 13,44-52 (Paulo e Barnabé dirigem-se aos gentios)Um problema muito sentido pela comunidade cristã primitiva é apresentado aqui: a rejeição do Evangelho, pelos judeus, e a consequente pre­gação aos pagãos. Sem dúvida, naquela época, estes proble­mas se consideravam com uma grande seriedade e estão apresentados, com uma grande frequência, nos Atos dos Apóstolos (13,46s; 18,6; 28,28) e em três capítulos (9-11) da Carta aos Romanos. Eram problemas que suscitavam perguntas e produziam angústia na consciência dos discípulos: como é possível que o povo das promessas não as tenha reconhecido, uma vez cumpridas estas? Aqui, se sublinha a alegria dos novos destinatários, os efeitos positivos da perseguição, o clima de oti­mismo que invadia os discípulos: «estavam cheios de gozo e do Espírito Santo», ainda que em meio de uns aconteci­mentos, que não se apresentavam, certamente, muito tranquilos. A Palavra, rejeitada pelos judeus, é acolhida, com entusiasmo, pelos pagãos. Os apóstolos, rejeitados em um lugar, sacodem o pó dos pés e difundem a Palavra em outros. A perseguição lhes enche da alegria que vem do Espírito e dá a segurança de se­guir os passos de Cristo, o justo rejeitado pelos homens e exaltado por Deus. O livro dos Atos dos Apóstolos transborda de o­timismo, desse otimismo que não procede da carne, mas do Espírito. A alegria não brota dos êxitos, mas das tribulações; não procede das realizações humanas, mas de sentir-se configurado com Cristo, de sentir-se orientado pelo caminho para Deus.

 

Sl 97/98 (O juiz da terra) – Os hinos de louvor à grandeza de Deus são um tema recorrente nos Salmos. Com sua leitura, somos convidados a unir ao canto à sua glória e beleza. Deus se faz presente em todos os detalhes, basta olhar ao redor: Está nas flores, frutos, no soprar do vento e em cada um de nós. Devemos seguir o exemplo dos santos, que souberam reconhecer a presença do Senhor no dia a dia, como São Francisco, que cantava a grandeza e a misericórdia de Deus nas flores e no canto dos pássaros, e São João da Cruz, que glorificava com rara beleza e força poética a beleza da criação como neste Cântico Espiritual:Ó bosques e espessura, Plantados pela mão do meu Amado! Ó prado de verduras, De flores esmaltado, Dizei-me se por vós Ele tem passado!”. Assim também somos chamados a despertar do sono e entrar plenamente em comunhão com o Senhor, que está sempre entre nós. Deus fala hoje como ontem e falará como amanhã, cabe a cada um saber ouvir sua voz e reconhecer seu rosto por trás dos acontecimentos e das criaturas.

Senhor, nós somos festivos. Qualquer coisa entra em nossa vida e nos faz dançar de alegria. O nosso povo é festivo… tudo é ocasião para cantar e dançar: festa de aniversário, celebrações litúrgicas, encontros. O sabor da festa está conosco, por isso queremos ser ainda mais festivos para ti, sabendo que tu estás presente entre nós e andas conosco pelos caminhos da vida. Tu és vida, a vida merece ser celebrada e cantada. Deixe que meu coração cante em todas as circunstâncias, mas que não cante sozinho, que se uma a todos os meus irmãos de comunidade, de caminhada. Com o canto o caminho se faz mais breve e mais doce, com o canto somos todos animados. Que animemos uns aos outros, como fazia o povo de Israel. Amém.

MEDITATIO: Filipe quer ver o Pai, porém, não tem sabido vê-lo em Jesus. Tem olhos para a realidade visível, porém, não tem visto a realidade escondida com os olhos muito mais penetrantes da fé. João usa de um modo típico o verbo «ver» para indicar duas realidades: a realidade do sinal visível e a realidade da glória do Verbo ou realidade sobrenatural. E tu, que vês, quando contemplas as obras de Deus? Vês só a realidade sensível, o sinal? Ou a ação de Deus, a realidade significada? É bom fazer-se esta pergunta como esta, porque o secularismo invasor não se preocupa, senão com a realidade visível, empírica, palpável, ainda que esteja disposto a correr atrás de «doutas fábulas» de tipo astrológico ou mágico ou pseudo religioso. O discípulo de Jesus deve caminhar entre o positivismo e a superstição, aceitando o real da realidade e aguçando o olhar da fé, que nos permite ver a ação, a «glória» de Deus, nos acontecimentos humanos. O Senhor prometeu à sua Igreja a possibilidade de fazer obras, inclusive maiores que as que Ele fez: a grandeza deve ser medida na ordem dos valo­res proclamados por Ele mesmo, isto é, com o sinal por excelência que é a Cruz. Trata-se do sinal do martírio, da entrega, do amor que se dá até o fim, de consu­mir nossa própria vida pelo próximo: o que exige ver e apreciar outra ordem de valores distintos dos do mundo, uma ordem de valores que, ao final, atrai todos a Ele.

 

ORATIO: Dou-me conta, Senhor, de que sou um bom companhei­ro de Filipe, quer dizer, que sou um pouco míope para ver tua ação no mundo. Ontem me lamentava da debilidade de tua Igreja, e talvez não consiga vislumbrar tua possível mensagem. Lamentava-me, ao mesmo tempo, com acentos de nostalgia, do afundamento desta «cristandade», sem conseguir ver o novo que estás fazendo brotar. Lamento-me de ver-te ausente da história e não consigo ver-te ali, onde antes não estavas e, agora, ao contrário, o es­tás. Vejo que não sei ler os «sinais dos tempos», de­ixando-me ir, algumas vezes, para o pessimismo e, outras, para o otimismo, quer dizer, lendo os acontecimentos hu­manos, vendo, exclusivamente, as debilidades dos homens. Ensina-me tua arte do discernimento, concede-me o dom de ver-te ali onde atuas e o modo com que o fazes. Purifica meu coração para que não sejam meus estados de ânimo, mas tua luz que me guie para descobrir-te e encontrar-te ali onde tu atuas, para colaborar contigo, porém, sobretudo, para amar-te como tu queres.

 

CONTEMPLATIO: Em meio das trevas da vida presente, a Es­critura tornou-se a luz para nosso caminho. Por isso disse Pedro: «Fazeis bem em prestar-lhe atenção, como a lâmpada que ilumina em lugar escuro» (2 Pe 1,19). E disse o salmo: «Lâmpada é tua palavra para meus passos…» (118,105). Sabemos, sem dúvida, que esta mesma lâmpada é escura para nós se a Verdade não a faz brilhar em nossas almas. Por isso disse ainda o salmista: «Tu, Senhor, és minha lâmpada, meu Deus que ilumina minhas trevas» (Sl 18,29). De que serve uma luz que arde e não dá luz? Porém, a luz criada não brilha para nós se não é ilu­minada pela luz não criada. Mas, o Deus onipotente, que tem criado as palavras de ambos os Testa­mentos, para nossa salvação, ele mesmo é o intérprete (Gregório Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 24,4a)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Tu te revelas, Senhor, como invisível, um Deus escondido e inefável. Porém te fazes visível em cada ser: a criatura é a flor de teu olhar. Teu olhar confere o ser, Deus meu! Tu te fazes visível na criatura. Sou incapaz de dar-te um nome, está mais além do limite de toda definição humana. Socorre aos filhos dos homens: eles te veneram em figuras diferentes e és para eles causa de guerras religiosas. Sem dúvida, eles te desejam Bem único, ó Inefável e Sem Nome. Não sigas oculto ainda, manifesta teu rosto: assim seremos salvos. Responde a nossa oração: desapareceram a espada e o ódio, encontraremos a unidade na diversidade. Aplaca-te, Senhor, tua justiça é misericórdia: tem piedade de nós, frágeis criaturas (Nicolás de Cusa, cit. Em G. Vannucci, ll libro dela preghiera universale, florencia, 1985).

 

 

 

 

Autores (Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

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