LECTIO DIVINA NA 7ª SEMANA COMUM E INÍCIO DA QUARESMA

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DOMINGO, 23 DE FEVEREIRO DE 2020 7ª SEMANA DO TEMPO COMUM AN0 A

Mateus 5,38-48 (A nova justiça é superior à antiga) Neste texto a alusão ao Antigo Testamento aponta para a «lei de talião», referência para os povos do antigo Oriente. Baseia-se no princípio do pagamento conforme o bem lesionado. Mas o caminho indicado por Jesus para quem sofra algum mal não prevê nenhuma violência, mas a rejeição a esta «contraposição» baseada na vingança. Os casos citados (vv.38b-42) refletem situações do ambiente palestino, desde o humilhante «bofete» até o empréstimo ao indigente, com o consentimento da utilização das mesmas artimanhas do agressor. O objetivo não é ensinar um modo passivo, mas atitudes que permitam dissipar a espiral de vinganças, de modo ativo e positivo. Só assim poderá se recuperar o adversário. Neste clima chegamos à última antítese, ao cume desta seção. Para ser «melhores» que os escribas e os fariseus (v.20), é preciso estender o amor aos inimigos. Este é o modo mais autêntico de imitar a Deus, sua santidade e sua perfeição (v.48). No coração do discípulo, na medula das bem aventuranças, a oração pelos perseguidores é o primeiro ato para criar novas relações com quem se mostra hostil. À oração devem seguir-se gestos que expressem a relação filial com o Pai e que permitam reconhecer e experi­mentar o rosto paterno de Deus. Como em 5,9, Mateus fala dos «filhos de Deus», e nos dois casos liga esta expressão com quem sabe estabelecer laços de paz e amor. A «perfeição» (=teléios, que voltará em 19,21, no encontro de Jesus com o jovem rico) é o resultado do amor incondicional e universal que anima este processo, e nunca o resultado matemático de uma obediência legalista. É essencialmente dom e empenho que o discípulo vê sempre manifestado em seu encontro com Cristo.

 

 

Lv 19,1-2.17-18 (Prescrições morais e culturais) A partir do capitulo dezessete, depois de uma primeira parte de tipo cultual, este livro reúne uma coleção de leis (17-26) conhecida comumente como «Lei de santidade». Nesta seção, sobretudo no capitulo 19, reaparece, repetidamente, a declaração na qual Deus fundamenta sua petição: «Eu sou o Senhor [vosso Deus]». Tal afirmação indica que a Lei não se baseia em si mesma, mas pressupõe a revelação de um Deus que ama e liberta. Junto a esta afirmação do Deus liberador vem uma segunda afirmação: “porque eu sou santo” (cf.19,2; 20,3; 20,26; 21,8; 22,2; 22,32) ligando esta mesma santidade a toda a comunidade de Israel. Ora, a santidade de Deus é sua absoluta e radical diferença, não contida, mas comunicada por eleição gratuita. Por isso, o dom outorgado ao povo exige uma resposta, não assegura privilégio algum ante os demais povos: a santidade pertence a Deus, de modo exclusivo. E Israel deve viver conforme a vocação recebida. Há atitudes irreconciliáveis com este chamado, entre outras, o ódio e a vingança, mencionadas nos vv.17ss, que ressaltam ainda mais o convite, conclusivo «Amarás a teu próximo como a ti mesmo» e que Jesus citará reportando-se a Dt 6,5. A solidariedade com os membros do próprio povo e a correção fraterna, que cura na raiz qualquer conflito, terão lugar mais tarde, quando, no v.34, se alude ao imigrante que o israelita tem que acolher.

 

1 Cor 3,16-23 (Exortação aos pregadores) Paulo quer realçar aos coríntios que alguns comportamentos barram o agir do Espírito. O orgulho e as divisões minam o edifício de Deus, que é a co­munidade (3,4-17); profanam a obra que Deus quer realizar e da qual se mostra zeloso: quem ouse atentar contra a propriedade de Deus atrairá sua própria destruição. Se sobre a Igreja, templo de Deus, não prevalece nenhuma força (cf. Mt 16,18), é também verdade que qualquer comunidade deve estar atenta às vicissitudes que ameaçam sua integridade. Depois desta advertência, Paulo conclui sua reflexão sobre a sabedoria (vv.18-23) recordando que só quem acolhe, com humildade, a loucura da cruz, pode ser realmente sábio. Em seguida, há todo um caminho a percorrer: da sabedoria autossuficiente do homem velho àquela outra, a dos pequenos, aos quais Deus revela seu mistério (Mt 11,25). O Senhor conhece os pensamentos dos sábios (v.20), que são, como facilmente se pode deduzir, as intrigas que determinam os conflitos entre os grupos, as escaramuças guiadas por cabeças pequenas que se apropriam de honras indevidas. O discípulo vinculado a Cristo e dedicado a sua causa pode considerar-se sabiamente dono de tudo. «Tudo é vosso, porém vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (v.23). Trata-se de uma pertença exclusiva que pode abolir e demolir qualquer soberana pretensa dos homens e que não permite a ninguém, no seio da comunidade, dominar uns aos outros (cf.2 Cor 1,24).

 

Salmo 102/103 (Deus é amor) Por meio de um canto suave, o salmista goteja afeto e amor ao Senhor e canta suas maravilhas e seus atos de ternura para conosco. Devemos meditar este Salmo lentamente, saboreando cada palavra que nos introduz nos ministérios do coração de Deus. Quando rezamo-lo com fé, o Senhor nos fortalece e confronta. Todo o amor de Deus Pai nós podemos contemplar na pessoa de Jesus: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4) O Pai nos enviou o seu único Filho, Jesus, por puro amor a nós e para que Ele nos ensinasse o caminho da vida plena. O grande hino de ação de graças que podemos oferecer ao Pai em resposta à sua generosidade não é realizado por meio de palavras, mas sim com a própria vida. Tocam-me profundamente as palavras deste Salmo: “[O Senhor é] lento para a cólera e rico em bondade”. Ele tem pressa em nos amar, em nos perdoar. Não perca tempo, o Senhor está lhe esperando! Se você compreende melhor este Salmo, leia e medite o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, as três grandes parábolas da misericórdia. Bendize minh’alma e não se esqueça de nenhum dos benefícios do Senhor.

Senhor, como é maravilhoso parar um pouco minhas atividades e pensar em quantos benefícios até hoje tenho recebido do teu amor. Deixa que minha alma, como a do salmista, se expanda, se dilate e cante “bendize minha alma ao Senhor por todos os benefícios e não esqueça nenhum”. Quero-te agradecer por me ter criado; como é bela a vida; mesmo mesclada pelo sofrimento, com decepções; dores, vale a pena viver e agradecer com todas as batidas do meu coração, com todos meus tons e repertório. Que tudo cante teu louvor. Bendigo-te por minha família, pelos pais, por todas as pessoas que passaram hoje na minha vida: obrigado, Senhor. Senhor, animado pela força da fé te quero também bendizer pelas cruzes, sofrimentos e por todas as pessoas que me fizeram sofrer e que me ajudaram a amadurecer na minha caminhada. Com Santa Teresinha quero te dizer “tudo é graça”; agradeço-te com a lucidez que hoje tenho, Senhor, por tudo o que vier até a minha morte; dá-me a força para sempre dizer: muito obrigado por tudo. Amém.

 

 

MEDITATIO: O evangelho de hoje não nos propõe algo impossível de praticar, apesar do que acontece dentro e fora de nós. Desencantados e resignados nos perguntamos: que ideia Deus tem do homem para propor-lhe esta «ousadia»? Mas também podemos inverter a questão: que imagem nós fazemos de Deus para considerar utópico o horizonte que nos propõe? Destruída a lista de penas calculada sobre a base da ofensa cometida e desmascarada por Deus, mostramo-nos titubeantes ante o que pode nos dizer: «Acaso não posso fazer o que quero com o que é meu? Ou tens inveja porque sou bom?» (20, 15). Esta é a santidade de Deus, sua radical diferença com res­peito à sabedoria do mundo. Sem dúvida, corremos o risco de extraviar-nos quando, fascinados, atraídos por sua perfeição, caminhamos fixos só naquilo que vemos como realismo, apagando o interesse deste «sonho» de Deus de ver as espadas transfor­madas em arados. Viver odiando, em inimizade profunda e irreversível: o dano interior provocado por uma relação assim corrói nossas melhores energias, submerge-nos na convicção de que, antes ou depois, o outro pagará por tudo que fez. O templo de Deus em nós se deteriora e sentimentos de revanche o saqueiam, o deformam lentamente, às vezes, sem que nos inteiremos disso, até o momento em que, se não apaziguamos constantemente nossas palavras e nossos gestos, sentimos desencadear-se em nosso interior uma violência devastadora. O perdão é o testamento escrito por Jesus na cruz, a herança e a benção brota­das do lado traspassado, caminho por onde passa e se dissipa o ódio espalhado ao longo da história hu­mana e das páginas obscuras de nossa história. Deus cura com seu perdão que desce como chuva sobre justos e injustos, para transformar em ternura nossas asperezas; um dom a implorar, procedente do alto, que podemos compartilhar com os outros.

 

ORATIO: Se fôssemos como Tu nos queres, Senhor, a terra seria diferente: estaríamos gozosos de existir, compreender, dar-nos e perder-nos. Igual ao Pai, que faz brilhar o sol sobre os bons e maus: estaríamos radiantes ao vencer por amor e em pôr fim a uma história de morte! Assim e só assim: de outro modo não podeis salvar-vos, homens! Ora, se matais Caim sete vezes os aniquilará a morte. Senhor, te pedimos que todos se livrem do insidioso desejo de vingar-se, do instinto justiceiro à medida, de golpe por golpe: este é o câncer que nos devora; que teus crentes, ao menos, extirpem do coração a ideia do inimigo. Amém. (D. M. Turoldo).

 

CONTEMPLATIO: Deus nos quer perfeitos em todas as orde­ns e em todas as partes. Antigamente, na Lei, se dizia: «Amarás ao amigo e odiarás ao inimigo»; tal preceito foi dado por necessidade, e em caráter provisional, a um povo terreno e carnal, por isso se explica este dito: «Olho por olho, dente por dente». Agora, a um povo evangélico foi entregue mandamentos de uma doutrina celeste e de uma justiça próxima à perfeição; ordena-nos amar aos inimigos, amar a quem nos odeia, orar por quem nos caluniam e perseguem; só deste modo mereceremos ser dignos filhos de Deus que, bom como é, ao repartir seus dons não faz distinção de bons e maus, justos e injustos: trata-se de bens que se gozam aqui embaixo, frutos de um dom celeste do Pai. O Espírito Santo, pela boca de Isaías, nos exorta a guardar zelosamente tais normas evangélicas quando proclama: «Escutai a Palavra do Senhor, vós que tremeis ante sua Palavra. Vossos irmãos que os detestam e os rejeitam por minha causa dizem: ‘Que o Senhor mostre sua glória para que vejamos vossa alegria’. Pois ficarão confundidos». Também Davi, com retidão, confirma em um salmo: «Senhor, meu Deus: se fiz isso, se devolvi mal por mal, que fique desamparado frente a meus inimigos». O Senhor nos dá a entender que é impossível alcançar um amor perfeito se só amamos a quem estamos se­guros de conseguir, em troca, um amor igual, pois, e não é nenhum segredo, um amor parecido não o podemos ver entre os pagãos e os pecadores. O Senhor quer que superemos a lei do amor humano pela lei do amor evangélico (Cromacio de Aquilea).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“A caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13,7)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Posto que temos encontrado o centro da vida em nosso coração e temos aceito a nossa solicitude não como um destino e sim como uma vocação, podemos oferecer liberdade aos demais. Se desejamos ser pobres, podemos praticar bem a hospitalidade. O paradoxo da hospitalidade está em que a pobreza nos faz ser hospitaleiros. A pobreza é a disposição interior que nos permite nós rebaixarmos e converter os inimigos em amigos. Só vemos um estranho como inimigo, se temos algo a defender, porém quando dizemos: ”Entra, minha casa é tua casa, minha alegria é tua alegria, minha tristeza é tua tristeza e minha vida é tua vida”, não temos nada que proteger, porque não temos nada que perder, senão tudo por dar. Quem nos vai roubar sabendo que tudo aquilo que queremos saldar é algo que nós oferecemos como uma oferta? Quem pode mentir-nos, se só vale a verdade, inclusive para ele? Quem vai entrar pela porta de trás, furtivamente, se nossa porta principal se encontra aberta? A pobreza é instrumento de hospitalidade. Tudo isso nos ajuda a entender a importância de uma educação na hospitalidade, no serviço, igual a educar na pobreza voluntária. Uma verdadeira educação para o serviço requer um processo de auto-despreendimnto difícil e, frequentemente, doloroso. Ensinar não a enriquecer-se, mas sim a fazer-se pobre voluntariamente; não a satisfarzer-se, mas sim a esvaziar-se; não a dominar a Deus, mas sim a entregar-se a seu poder salvador. Tudo isso, em um mundo que fala da importância d’Ele e da sua autoridade, se pode conseguir com empenho e não sem fadigas. Entretanto, é importante que neste mundo haja vozes dispostas a gritar que a realização pessoal consiste em envaziar-se, em converter o útil em inútil, em passar do poder a perder o poder. Isto é o mais importante e o mais difícil da vida espiritual: nossa relação com Ele, que é quem a dá (H. J. M. Nouwen, Viaggio spirituale per I’uomo contemporaneo).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 24 DE FEVEREIRO DE 20207ª SEMANA

Marcos 9,14-29 (O epilético endemoninhado) Todas as pessoas são vítimas do sofrimento: um jovem muito enfermo (epilepsia, provavelmente), um pai angustiado por seu filho, os discípulos incapazes e Jesus que lamenta a falta de fé destes. Os discípulos “não puderam”, não tiveram força para isso. Provavelmente, chocam-se com «o homem forte» do qual fala este evangelho (3,27) e são obrigados a aceitar o fracasso. De modo implícito declaram a existência de uma força maligna que não puderam superar. Foram driblados pelo mal. Nesta situação tenebrosa brilham duas luzes: uma um tanto fraca e outra muito luminosa: o pai do en­fermo e Jesus. O pai mostra todo seu afeto pa­terno, pois não se resigna após o fracasso dos discípulos. Recorre diretamente ao Mestre. Esta decisão denota a confiança que põe em Jesus. Credita-lhe um poder superior. Com isso já deixa irradiar um primeiro e tênue raio de luz que procede de sua fé. De sua boca sai um segundo raio: com humildade implora «Se podes, compadece-te de nós e ajuda-nos» (v.22) e, na consciência de seu próprio limi­te diz: “Creio, mas aumenta a minha fé!” (v.24). Em suas palavras não há ressentimento contra os discípulos, incapazes, mas só a amarga constatação de que sua força não se iguala, nem, muito me­nos, é superior à dos ocultos adversários. «Tudo é possível ao que tem fé» (v.23). Jesus transforma aquele pavio de esperança em fogo de certeza quando se dirige, de um modo imperioso, ao espírito do mal (v.25). Da severidade com o Maligno à ternura com o ex-enfermo: Jesus levantou-o pela mão e o fez pôr-se em pé (em grego se usa o mesmo verbo para expressar re­ssurreição). Agora é um jovem ressuscitado para uma nova vida, graças à ação de Jesus e à oração de in­tercessão e rica na fé de seu pai. Chegados aqui, podemos modificar o título. Já não se trata de um caso doloroso e difícil, mas do poder da oração confiante. Aprendamos que, enquanto há oração confiante, há vida.

 

Eclo 1,1-10 (Origem da sabedoria) O Eclesiástico ou Sirácida figura entre os chamados livros sapienciais. São livros que têm como característica seu grande interesse pela sabedoria: um caminho que, partindo de uma dimensão humana, chega ao cume de uma experiência divina. A situação histórico-religiosa explica o conteúdo do texto, ou seja, o autor, diante da infiltração da civilização grega no mundo judeu, exorta aos seus discípulos a permanecer fieis ao ensinamento genuíno da religião de seus pais. As primeiras palavras da leitura de hoje é a bússola que orienta prontamente para uma correta e completa compreensão da sabedoria. Faz saber logo de inicio, ao leitor, que a sabedoria vem de Deus, é propriedade sua. Por isso é um bem primordial criado antes de todas as coisas, não sujeito a avaliação humana, pois supera, em muito, todas as possibilidades de compreensão da parte dos homens. Depois, uma segunda e poderosa afirmação nos revela que esse bem divino foi derramado sobre toda a cria­ção. Portanto, nela encontramos os sinais da sabedoria divina. Paulo o recorda: «E o invisível de Deus, seu eterno poder e divindade, se fez visível desde a criação do mundo através das coisas criadas» (Rm 1,20). Ante a imensidão do mar, da beleza de uma noite estrelada ou ante o esplendor de um entardecer, não é difícil ascender ao Criador e apreciar sua divina magestade. A terceira grande afirmação encerra o fragmento e fica depositada como uma semente frutífera na mente do leitor: o lugar privilegiado em que está depositado este bem divino é o coração dos que amam a Deus. Já, desde o inicio, se põe ao leitor em condições de criar um útil paralelismo entre sabedoria e amor. Quem ama a Deus são os verdadeiros sábios. Neles mora a sabedoria, um atributo de Deus; mais ainda, Deus mesmo. Já se respira o ar oxigenado do Novo Testamento celebrando Cristo como a «sabedoria de Deus» (1 Cor 1,24).

 

Sl 92/93 (O Deus Majestoso) Este pequeno Salmo sempre foi muito importante, mas, especialmente hoje, sua leitura se faz necessária e muito nos engrandece. O ser humano está enfermo de uma doença que se espalha rapidamente: a doença do poder e do orgulho. O homem não aceita estar abaixo de Deus e tenta a cada momento ser o próprio Deus. Não há mais limites para ele, que acredita ser capaz de enfrentar e vencer a tudo. Brinca de ser eterno e crê que um dia a ciência ressuscitará todos os mortos e encontrará a vida eterna. Esquece-se que uma pequeníssima picada de mosquito pode causar uma infecção incurável. Precisamos recuperar o sentido de nossa fragilidade e pobreza, esconder-nos na nossa humanidade e proclamar a toda voz que somente Deus é eterno, soberano e grande, e que somos pobres e pequenos.

Senhor, a minha oração de hoje é breve: liberta-me do orgulho, e que eu nunca, mas nunca mesmo, pense nem por um breve instante que sou mais poderoso do que tu. Que me prostre e te adore mesmo quando a minha inteligência se rebela e se recusa a te servir; que saiba só dizer: “quero te servir”. Amém.

 

 

MEDITATIO: As leituras nos convidam a ser mais «sapienciais», ou seja, a partir da realidade, não para deter-nos nela, mas para ascender até os cumes de Deus. A Ele se sobe por meio da oração, que é, segundo Charles de Fou­cauld, um pensar em Deus, amando-o. O ponto de parti­da varia, segundo as circunstancias. Pode ser um aspecto da natureza que nos faz apreciar a sabedoria do Criador, que dispôs tudo com ordem e beleza. Galileu sustentava, por exemplo, que existem dois grandes livros: o da revelação (a Bíblia); e outro, sempre aberto (o da criação). É mais difícil ser sapienciais quando o ponto de partida é doloroso, como uma enfermidade que nos crava a uma cama, uma crise que faz cambalear nosso equilíbrio espiritual ou psíquico, a traição de um amigo, um fracasso profissional… O pai do jovem que vimos no evangelho nos serve de mestre. Antes de tudo, é preciso dirigir-se a Jesus, seja qual for nosso problema. O crente, sem deixar de lado o recurso humano, bate sempre à porta do céu. A seguir, devemos fazer a oração com humildade e confiança. O céu não é um caixa forte cuja combinação nós conhecemos e abrimos à vontade. E, sim, o encontro com o Pai que Jesus fez conhecer e em cujas mãos nos pomos inteiramente. Isto se encontra na base de toda oração de petição e, portanto, oramos sabendo que é possível que Deus não consinta no que lhe pedimos. Deus sabe melhor que nós qual o verdadei­ro bem. De todos os modos, é preciso orar também para glorificar, agradecer, pedir perdão… Deste modo seremos mais sapienciais. A oração pode obter o impossível, como no caso do evangelho. Inclusive, ainda que não obtenhamos o que pedimos a oração nos leva à sintonia com Deus, é expressão de nossa filiação, da comunhão com o Espírito, na intercessão perene de Cristo. Orar é, sobretudo, encontrar o acesso e a conexão entre a terra e o céu. Tudo isto é tão grande e for­moso que fica em segundo plano que seja atendida, ou não, nossa petição.

 

ORATIO: Senhor, abre-nos o coração para perceber e saborear a grandeza do Pai e o amor do Espírito. E, uma vez mergulhados no dinamismo trinitário, seremos capazes de apreciar a sabedoria que regula o mundo. Sobretudo teremos condições de descobrir a imagem divina que há em cada homem, seja no indiferente, no malvado ou depravado. Leva-nos às fontes genuínas da oração. Antes de tudo a bíblica, Palavra inspirada por ti para que possamos dizer-te coisas que te agradam; a seguir, a litúrgica, a flor nascida na boca e no coração de teus santos.

 

CONTEMPLATIO: É um fato demonstrado que os salmos, compostos por inspiração divina, e cuja coleção faz parte das sagradas Escrituras, já, desde as origens da Igreja, serviam, admiravelmente, para fomentar a piedade dos fieis que ofereciam, continuamente, a Deus, um sacrifício de louvor, quer dizer, o fruto de uns lábios que confessam seu nome. Além do mais, por um costume herdado do antigo Testamento, alcançaram um lugar importante na sagrada liturgia e no oficio divino. Dai nasceram o que são Basilio chama «a voz da Igreja» e a salmodia. Esta ultima qualificada por nosso antecessor Urbano VIII como «filha da hinodia que se canta, assiduamente, ante o trono de Deus e do Cordeiro» e que, segundo santo Atanásio, ensina, sobretudo às pessoas dedicadas ao culto divino, «como deve exaltar a Deus e quais as palavras mais adequadas» para exaltá-lo. Com relação a este tema, disse bela­mente santo Agostinho: «Para que o homem exaltasse dig­namente a Deus, Deus se exaltou a si mesmo e porque se dignou exaltar-se, o homem encontrou o modo de exaltá-lo». Os salmos têm, além do mais, uma eficácia especial, para suscitar nas almas o desejo de todas as virtudes. De fato, «se é verdade que toda Escritura, tanto do antigo como do novo Testamento, inspirada por Deus, é útil para ensinar, segundo está escrito, sem dúvida, o livro dos salmos, como o paraíso no qual se encontram (os frutos) de todos os demais livros sagrados, prorrompe em cânticos e, ao salmodiar, põe de mani­festo seus próprios frutos junto com aqueles outros». Estas palavras são, também, de santo Atanásio, que acrescenta:«A meu modo de ver, os salmos são como um espelho no qual quem salmodia se contempla a si mesmo e seus diversos sentimentos, e com esta sensação os recitam». Santo Agostinho disse no livro de suas Confissões: «Quanto chorei com teus hinos e cânticos, comovido, intensamente, pelas vozes de tua Igreja que ressoavam docemente; à medida que aquelas vozes se infiltravam em meus ouvidos, a verdade ia se fazendo mais clara em meu interior e me sentia inflamado em sentimentos de piedade e corriam as lágrimas, que me faziam muito bem».(…) (Pio X, Const.Apostólica Divino Afflatu).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:  

        «Tudo é possível para o que tem fé. Creio, porém ajuda-me a ter mais fé» (cf Mc 9,23-24)         

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Prestai muita atenção, filhinhos meus: o tesouro do cristão não está na terra, mas no céu. Portanto, nosso pensamento deve dirigir-se para onde está nosso tesouro. Esta é a bela tarefa do homem: orar e amar. Se orais vais amar. Se orais e amais, já tereis a felicidade sobre a terra. A oração não é outra coisa que a união com Deus. Se alguém tem o coração puro e unido a Deus, vive uma suavidade e doçura que embriaga, é purificado por uma luz que se difunde a seu redor de modo misterioso. E nesta união íntima, Deus e a alma são como duas peças de cera fundidas entre si e que ninguém pode mais separar. Quão bela é esta união de Deus com sua pequena criatura! É esta uma felicidade que não podemos compreender. Nós nos havíamos tornado indignos de orar; sem dúvida, Deus, em sua bondade, nos permitiu falar com Ele. Nossa oração é o incenso que mais o agrada. Filhinhos meus, vosso coração é pequeno, mas a oração o dilata e o torna capaz de amar a Deus. A oração nos faz gozar, antecipadamente, o céu como algo que desce até nós do paraíso. Não nos deixa nunca sem doçura. Com efeito, é mel que destila na alma e faz com que tudo seja doce. As dores se derretem como neve ao sol na oração bem feita. E também a oração nos dá mais isto: que o tempo decorra com tanta velocidade e tanta felicidade que o homem já não se dá conta de sua duração […]. Penso sempre que, ao adorar o Senhor, obteríamos tudo o que pedíssemos, se orássemos com uma fé viva e com um coração totalmente puro (João Maria Vianey).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 25 DE FEVEREIRO DE 2020

Marcos 9,30-37(Segundo anúncio da paixão; Quem é o maior) O caminho para Jerusalém indica uma plena consciência da parte de Jesus e um descaso total da parte dos Doze. Jesus é consciente do que significa Jerusalém. Prepara a si e os seus. Anuncia três vezes o que vai suceder: padecerá a paixão, morrerá e ressuscitará. É o anúncio pascal, ou seja, anuncio completo de morte e ressurreição (não só da paixão). Em 8,31 já fizera o primeiro e agora faz o segundo. Com isso expressa a consciência que tem e do que o espera e, ainda, o desejo de consumar a entrega de sua vida por amor. O anúncio não é informação, é catequese e formação. O fato de que anuncie também a ressurreição significa que será o bem, a vida, que triunfa, ainda que antes tenha de atravessar o túnel estreito e obscuro do sofrimento e da morte. Instrui seus discípulos para que saibam ler sua vida como mistério pascal. Enquanto os prepara para o choque com a «hora das trevas», pede que orientem também suas vidas nesta direção. Jesus é o Mestre que se aventura por primeiro pelo caminho que deverão seguir todos os discípulos; Ele é o primogênito de muitos irmãos. À consciência e seriedade com que Jesus se dirige a Jerusalém corresponde, no sentido contrário, ao descaso dos discípulos. Cada vez que Jesus anuncia o mistério pascal, estão distraídos. Não pedem explicações, não se esforçam em aprofundar no sentido tão enigmático de suas palavras, pois estão presos a seus interesses. Enquanto Jesus se apresenta como «ser entregue nas mãos dos homens», eles se preocupam em disputar o lugar mais importante (v.34). Jesus não os repreende; tem paciência, pois ainda estão «verdes» para a compreensão do mistério pascal. Prepara-lhes indicando o caminho certo que devem seguir: o do serviço humilde e desinteressado. Com esta atitude podemos nos prepara para assumir a paixão e suas consequências. Jesus, para tornar mais expressiva sua catequese faz como os antigos profetas: um gesto. Põe um menino no centro e o abraça. É a primeira mensagem de atenção dirigida à uma criança, que, no geral, não tinha nenhum valor (como as mulheres, as crianças também não entravam nas contas quando se calculava a população: cf. Mc 6,44). O terno gesto de abraçar revela com clareza até que ponto as crianças foram objeto do amor de Jesus. Por isso, as palavras completam e esclarecem a mensagem (v.37). Acolher a uma criança, sinal de quem não conta, significa dar lugar em nossa própria vida a Jesus e, através dele, ao Pai. Não temos de buscar, pois, a supremacia com a ideia implícita de ser servido, de ser reverenciado, e sim a disponibilidade de pôr-nos a serviço de todos, ser acolhedores com todos, inclusive os últimos. Este é o modo correto e frutífero de ir a Jerusalém para compartir o mistério pascal com Jesus.

 

Eclo 2,1-13 (Origem da sabedoria) O texto recolhe uma série de máximas sobre um tema clássico que volta em outras ocasiões no Antigo Testamento, especialmente nos salmos. Trata-se do tema da tentação. O termo evoca, de imediato, o espectro do pecado, pois a experiência nos mostra, muitas vezes, talvez, muitas, que a tentação é a anti-sala do pecado. Retomemos e revisemos esta ideia à luz do fragmento que se nos propõe. A frase inicial: «Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara-te para a tentação», nos permite compreender em seguida que «tentação» equivale aqui a teste, prova. Em seguida, nos dá um pequeno manual de como superar a prova: humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo que te acontecer… » (vv.2-4). O sábio mestre não agita o espantalho do medo, nem se limita a fazer uma exortação genérica, mas propõe meios concretos e acessíveis para fazer frente e superar a prova. Esta é fatigosa, mas tem ela a função de verificar a autenticidade do compromisso, do mesmo modo que o ouro se prova no fogo (cf.v.5). Mas adiante muda o registro e «temor/temer» se converte no léxico recorrente. Também este é um ponto saliente da literatura sapiencial. O mestre prossegue sua exortação recomendando o temer a Deus. Também este termo necessita ser purificado do significado lúgubre de «medo». Indica estado de abandono confiado, a serena consciência de estarem sustentados por mãos seguras, como disse o v.6 com linguagem clara e essencial: «Põe nele tua confiança, que Ele virá em tua ajuda, procede com retidão e espera nele». O abandono em Deus, o santo temor, é um modo excelente de superar a prova. Ao final do itinerário de verificação se encontra esta consoladora afirmação: «Porque o Senhor é compassivo e misericordioso, Ele perdoa os pecados e salva em tempo de angústia». É como reconhecer que superamos a prova por meio de um mínimo de nosso compromisso e uma quantidade incalculável de amor divino.

 

Sl 36/37 (A sorte do justo e do ímpio) Longa reflexão sapiencial sobre o destino dos justos e injustos. O justo sabe que toda sua ação será lembrada por Deus e que receberá a sua recompensa de amor, paz e vida eterna. O Salmo nos convida a não cobiçar nem buscar as riquezas, que hoje são valiosas, mas que amanhã não terão valor, lembrando-nos que tudo é vaidade e que só o amor permanece para sempre em nossos corações. Na verdade, a terra, o mundo não pertence aos poderosos, nem tampouco aos ricos e prepotentes, mas sim aos pobres, que sabem contentar-se com pouco. O caminho da felicidade é voltar ao essencial, ao mínimo necessário, e eliminar da vida o supérfluo e o luxo.

Senhor, eu sei que a vaidade me ataca e que às vezes sinto rugir dentro de mim a fera do ódio, do rancor, da raiva. Sinto-me marginalizado ao lutar para ser bom e fazer o bem. Tudo isso me torna triste e temo sucumbir diante das dificuldades, mas confio na tua graça. Que nos momentos de tentação eu volte a meditar este Salmo de autêntica e verdadeira sabedoria. Amém.

 

 

MEDITATIO: O verbo que emprega a Bíblia para expressar a viagem para Jerusalém é «subir». Seu significado óbvio é geográfico: a cidade se encontra a 750 metros de altitude, que se convertem em mais de 1.000 se a comparamos com Jericó, assentada na depressão do mar Morto. Mas está também no significado espiritual: se «sobe» a Jerusalém porque se vai ao encontro de Deus, que tem seu trono no templo. Os peregrinos judeus, para preparar-se dignamente, subia a Jerusalém cantando uns salmos (desde o 120 ao 134) chamados, por isso, de «salmos de subida» ou «cantos de peregrinação». A Jerusalém não se vai a turismo, mas como peregrinos. Também Jesus vai subir a Jerusalém e prepara do mesmo modo a seus discípulos. Não quer que sejam simples espectadores de quanto Ele se prepara a viver com uma forte intensidade. Consciente da dificuldade, os vai educando de um modo progressivo em diferentes valores: a eleição do último lugar, a renúncia à demagogia, a acolhida dos que não contam, como as crianças. Está ajudando-os a não fugir da cruz, entendida só em negativo, unindo-a sempre à ressurreição. Só da combinação paixão-morte-ressurreição nasce o mistério pascal. Está sensibilizando-os com o mistério pascal, ainda quando sua humanidade rebelde tende a mostrar-se recalcitrante ante um discurso comprometedor. É melhor escapulir e ficar no campo restrito do interesse pessoal, naturalmente compreensível e de gozo imediato. A verdade é grandeza que se mede com os parâmetros de Deus, não com os dos homens, que são medidas instáveis e flutuantes. Sempre anda próxima a tentação de deter-se antes de chegar a Jerusalém, de mudar de caminho, de buscar atalhos ou caminhos alternativos… Aqui está a grande prova dos discípulos e de todos os crentes. Façamos ressoar tanto para os discípulos como para nós mesmos a sugestão do livro do Eclesiástico: «Põe nele tua confiança, que Ele virá em tua ajuda». Assim é, Jesus nos ajudará a superar a prova e a «subir» com Ele a Jerusalém para celebrar sua páscoa e a nossa.

 

ORATIO: Senhor, bem entendo a falta de compreensão de teus apóstolos! Sinto-me um deles. Parece-me mais fácil ouvir falar da cruz, ou eu mesmo falar dela. Gosto de admirar a cruz, ainda mais se é artística. Há muitos modelos, de todas as dimensões e cores, de todos os materiais e preços. Sim, porque as cruzes também podem ser compradas. Sem dúvida, por mais preciosas que sejam, não valem grande coisa. Mas a cruz não é para isso. A cruz deve estar dentro, cravada na alma. Isto é incompreensível do ponto de vista racional. E temos, além do mais, que levar a cruz dos demais. Senhor, perdoa esta minha fuga da cruz, e recordame sempre que, sem as trevas da sexta-feira santa,não surgirá nunca a manhã do domingo da  ressurreição.

 

CONTEMPLATIO: Porque, sem a cruz, Cristo não haveria sido crucificado. Sem a cruz, aquele que é a vida não haveria sido cravado no lenho. Se não houvesse sido cravado, as fontes da imortalidade não houvessem manado de seu peito o sangue e a água que purificam o mundo, não houvesse sido rasgado o documento no qual constava a dívida contraída por nossos pecados, não houvéssemos sido declarados livres, não desfrutaríamos da árvore da vida, o paraíso continuaria cerrado. Sem a cruz, não haveria sido derrotada a morte, nem despojado o lugar dos mortos. Por isso, a cruz é uma coisa grande e preciosa. Grande, porque é a origem de inumeráveis bens, como foram inumeráveis os milagres e os sofrimentos de Jesus em sua obra de salvação. Preciosa, porque a cruz significa o sofrimento e a vitória do nosso Deus: sofrimento, porque na cruz ele sofreu uma morte voluntária; vitoriosa, porque na cruz ficou ferido de morte o demônio e, com ele, foi vencida a morte. Na cruz foram demolidas as portas da região dos mortos e a cruz se converteu em salvação universal para todo o mundo. A cruz é chamada também glória e exaltação de Cristo. Ela é o cálice transbordante que se refere o salmista e culminação de todos os tormentos que padeceu Cristo por nós. O próprio Cristo nos ensina que a cruz é sua glória ao dizer: agora é glorificado o Filho do Homem e Deus é glorificado nele e logo o glorificará. E mais: glorifica-me com a glória que eu tinha quando estava contigo antes que o mundo existisse. E, ainda, mais: “Pai, glorifica teu nome. Então veio uma voz do céu: eu te glorifiquei e voltarei a glorificar-te”, palavras que se referiam à glória que ele havia de receber na cruz. (Andrés de Creta).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje essa palavra:

Aquele que queira ser o primeiro, que seja o último de todos e o servidor de todos (Mc 9,35)

 

PARA UMA LEITURA ESPIRITUAL Elas, as seis pobrezinhas (as irmãs infectadas pelo vírus Ébola), se contentavam com entregar-se à crônica cotidiana do Reino, recitada com voz baixa, toda com letras minúsculas. Satisfeitas por ter seus nomes escritos no céu (Lc 10,20) e não nos jornais. Satisfeitas por pertencer à categoria dos pequenos do Reino, dos “ninguém” para o mundo, privilegiada pelo Evangelho e, por consequência, imunizadas contra a necessidade de mendigar popularidade e notoriedade. Queremos tirar desse caso uma palavra, uma virtude que está confinada a ser considerada como antiquada? Estamos falando da virtude da humildade. São seis irmãs normais que não participam do grupo dos excepcionais. Normais no serviço, normais na fidelidade, normais no “perder a vida”, normais no esquecimento de si mesmos. Normais no valor, ainda que também no medo. Normais nos impulsos, ainda que também nas debilidades. Normais em um “amor sem medidas”. Suas vidas eram a soma de muitas coisas normais, de muitas ocupações ordinárias, trabalhos comuns, tarefas normais do cotidiano. Hoje o cenário está totalmente ocupado por protagonistas, primeiros atores, que brigam por estar em primeiro lugar e serem vistos pelos homens. Já não é possível encontrar facilmente pessoas simples, cristãos e religiosos “normais”. Elas eram criaturas normais. O amor era a sua norma. E também o sacrifício, a renúncia, a fidelidade a Deus, a caridade sorridente, o serviço alegre como norma. Sejamos cristãos normais, sem pompa! Sejamos humildes como humilde foi o Senhor dos senhores! (A. Pronzato).

 

 

QUARTA-FEIRA, 26 DE FEVEREIRO DE 2020

Mateus 6,1-6.16-18 (A esmola; Orar e Jejuar em segredo) = Lc 16,14-15 – “Cuidado de não praticar vossa justiça… (assim, literalmente, no v.1): Jesus pede a seus discípulos uma jus­tiça superior à dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20) ainda quando as práticas exteriores sejam as mesmas; reclama a vigilância sobre as intenções que nos movem a agir. Após o enunciado introdutório seguem as três típicas “obras boas”, nas quais se ‘indica em que consiste a nova justiça: a esmola (6,2-4), a oração (6,5-15) e o jejum (6,16-18). Dois elementos se repetem como um estribilho ao lon­go de toda a perícope: “recompensa” (ou mais literalmen­te salário: vv.2.5.16) e “teu Pai que vê no escondido” (vv.16.18). Nos ensinam que a piedade é um grande lucro (cf.1 Tm 6,6) se não se fixa no aplauso dos homens nem busca satisfazer a vaidade, mas que busca a complacência do Pai em uma relação íntima e pes­soal e se o salário esperado não é deste mundo nem do tempo presente, mas para a comunhão eterna com Deus, que será nossa recompensa. Do contrário, ao praticar a injustiça nos faríamos hypokritói, que significa “comediantes” e, também, no uso jurídico do termo “ímpios”.

 

Joel 2,12-18 (Apelo à penitência) – A mensagem do profeta Joel se pronunciou, provavelmente, após o desterro, no templo de Jerusalém: uma praga de gafanhotos devastou os campos, ocasionando carestia e fome (1,2-2,10); como conse­quência, cessou o culto sacrificial do templo (1,13-16). O profeta deve ler os sinais dos tempos; anunciar a proximidade do “dia do Senhor” convidando todo o povo ao jejum, à oração, à penitência (2,12.15-17a). A palavra chave deste trecho, repetida três vezes nos primeiros versículos, é voltar (shûb em hebraico): verbo clássico da conversão. No v.12 manifesta o convite ao povo, indicando as modalidades desta conversão, quer dizer, com o coração e com os ritos litúrgicos, que serão autênticos e agradáveis ao senhor nosso Deus se manifestam a renovação interior. No v.13, o convite a voltar aparece de novo e a motivação é: porque o Senhor sempre é misericordioso. No v.14, o mesmo verbo se refere a Deus abrindo uma porta à esperança: “perdoará uma vez mais”. Um amor sincero ao senhor nosso Deus, uma fé mais sólida, uma esperança que se faz oração coral e penitente, à qual ninguém deve subtrair-se: com estas palavras o profeta e sacerdotes pedirão ao Senhor que se mostre “zeloso” com sua terra, compassivo com sua herança (vv.175).

 

2 Cor 5,20-6,2 (O exercício do ministério apostólico) – Paulo, como um embaixador em nome de Cristo, é portador de uma mensagem de exortação da parte de Deus (v.20). O essencial do anúncio está numa palavra: reconciliação. Tal palavra manifesta a von­tade salvífica do Pai, a obra redentora do Filho e o poder do Espírito que mantém a diakonia (serviço) dos apóstolos (vv.18-20). O cume do fragmento é o v.21, no qual se proclama o juízo de Deus todo poderoso sobre o pecado e seu incomensurável amor pelos pecadores, pelos quais não perdoou a seu próprio Filho (Rm 5,8;8,32). Cristo assumiu como próprio o pecado do mundo, espiando-o em sua própria carne para que nós pudéssemos apropriar-nos de sua justiça-santidade. O apóstolo utiliza uma linguagem radical. A assunção do pe­cado por parte de Jesus para dar-nos sua justiça não é para que o homem possa ter algo do que carecia, mas para converter-se em algo que não poderia ser por natureza: o Inocente se fez pecado, maldição (cf. Gl 3,13), para que nós cheguemos a ser justiça de Deus. Esta extraordinária graça de Deus, concedida ao mundo (v.19) mediante, a kénosis de Cristo, não deve acolher-se em vão. O anúncio apaixonado de seus minis­tros nos faz presente aqui, para nós, o tempo fa­vorável: deixemo-nos reconciliar (katallássein) com Deus. Este verbo indica uma transformação da relação do homem com Deus e, consequentemente, dos homens entre si. Por iniciativa de Deus se brinda à liberdade de cada um a possibilidade de chegar a sermos criaturas novas em Jesus Cristo (5,18), a condição de render-se a seu amor, que nos impulsiona a viver não já para nós mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por nós (vv.14s).

 

Sl 50/51 (Miserere)– Este Salmo é um capítulo do livro de nossa história. Todos nós, assim como aconteceu com Davi, passamos por três fases distintas em nossa vida, dominados por sentimentos contrários: bondade, pecado e conversão. A história de Davi é belíssima: quando jovem era puro e bom. Deus, então, pousou sobre ele o seu olhar, escolhendo-o como rei e profeta. Mas o pecado e o poder o depravaram e ele, seduzido pelo amor de Betsabeia, manda matar Urias, o hitita, para roubar-lhe a mulher. Deus suscitou o profeta Natã para abrir os olhos de Davi, mostrando o pecado que cometera. Arrependido, se converte e escreve esse belo Salmo, cheio de emoção, esperança e confiança (…). Este Salmo deve ser lido muitas vezes e considerado como um projeto de vida para todos nós. Ele ajudará a abrir nosso coração à conversão, conscientizando-nos de nosso pecado, não por intermédio do desespero ou medo, mas pela confiança que nosso Deus é misericordioso. Em nosso coração, teremos a certeza que Ele não quer sacrifícios inúteis, vazios, mas aqueles cheios de amor. Quando os laços do pecado nos agridem e tentam nos afastar da misericórdia do Senhor, devemos meditar este Salmo. Assim, venceremos o medo e nos lançaremos na misericórdia. Por que temer o amor de Deus? Por que temer confessar nosso pecado? Por que a vergonha dos erros cometidos, se não se volta atrás? A pedagogia do pecado é que nos ensina a pecar mais.

Senhor, confesso e reconheço que sou pecador. Minha natureza é maldosa e pecaminosa, por isso necessito de tua graça e teu amor para superar o mal que está em mim. Sinto na minha carne as mesmas tentações que Davi sentia e que nem sempre resistiu. A tentação de querer ser maior, de buscar o poder como forma de autoafirmação e fazer do poder meio nem sempre lícito para dominar os outros. O poder me corrompe e me permite acreditar que tenho regalias e que é lícito fazer o que quero. A tentação da carne, da sensualidade e da sexualidade, nem sempre orientada, é forte e não é canalizada para fazer o bem, mas sim instrumento de prazer e de condescendência aos instintos que tentam dominar e me levar para longe do projeto de amor. A tentação me faz querer tudo: coisas e pessoas. No entanto, Senhor, percebo que dentro de mim há algo de bom, um desejo de infinito, uma luta para vencer o mal e a vontade para fazer o bem. Quero entrar no meu coração para escutar tua Palavra, para me colocar aos teus pés na atitude de discípulo. Envia-me profetas corajosos como Natã, que me mostre meu pecado para que eu possa me converter. Todos necessitamos de conversão, do mais santo ao mais pecador, do grande ao menor. Senhor, é o que te peço, não afasta de mim meu pecado para que, tendo-o na minha frente, evite outros pecados. E faz que ensine, com minha experiência e quedas, o caminho certo, e que outros não cometam os mesmos erros meus. Amém.

 

 

MEDITATIO: A liturgia da Palavra de hoje nos leva pela mão pelo caminho da verdadeira alegria, vindo a buscar-nos nos becos sem saída onde nos metemos e onde não podemos avançar. Penitência e arrependimento não são sinônimos de abatimento, tristeza ou frustração; pelo contrário, constituem uma modali­dade de abertura à luz que pode dissipar as obscurida­des interiores, fazer-nos conscientes de nós mes­mos na verdade e fazer-nos degustar a experiência da misericórdia de Deus. Ele sempre vê e conhece nossas mesquinharias e imundícies interiores e, sem dúvida, que diferente é seu julgamento do nosso! “Em tua luz veremos a luz” (Sl 35,10b): admirados notamos que desde o momento em que nos pomos a caminho, Ele nos envolve com um amor maior, nos despoja de nosso mal e nos reviste de uma nova inocência. O Senhor havia designado ao profeta a missão de con­vocar ao povo para suscitar nova esperança através de um caminho penitencial; aos apóstolos lhes confia o ministério da reconciliação; à Igreja hoje, lhe en­carrega proclamar que agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação! Voltemos ao caminho do Senhor com todo seu povo, deixemo-nos reconciliar com Deus permitindo a Cristo que assuma nosso pecado: só ele pode conhecê-lo e expiá-lo plenamente. Renovados pelo amor aprenderemos a viver sob o olhar do Pai, contentes de poder cumprir humildemente o que lhe agrada e ajudar a nossos irmãos. Sua presença no segredo de nosso coração será a verdadeira alegria, a única recompensa esperada e desde agora pré-saboreada.

 

ORATIO: Meu Pai, Tu que vês no segredo, Tu sabes como fujo do lugar secreto do coração e como busco a ad­miração dos homens, pobre recompensa ao orgulho de meu “eu” que recita seu papel na comédia da piedade humana. Muito diferente, muito mais desconcertante, é o mis­tério de tua piedade, mas como, ainda o ignoro, vagan­do distante… Faz-me voltar, te suplico, à profundeza de meu ser onde Tu moras: na luz nova do arrependimento exultarei de gozo em tua presença. Pai nosso que estais nos céus, Tu conheces o mal do mundo e como eu o aumento cada dia. Ajuda-­me hoje a acolher o dia de salvação; concede-me agora olhar teu Filho, tratado como pecador e crucificado por nós, por mim. Reconciliado no Amor infinito, eu viverei no humilde amor que não busca outra recompensa fora de ti.

 

CONTEMPLATIO: Converte-te e volta ao temor de teu Deus: jejua, ora, chora, invoca com insistência […]. Volta, alma, ao Senhor com a penitência que te aproxima a Ele, que é bom […]. Busca o amor dos pobres, pois para Deus é melhor que oferecer-lhe um sacrifício; afasta a malícia de teu corpo e, ao contrário, da satisfação da alma; purifica tuas manchas para conhecer a doçura do Senhor, e sua luz descerá sobre ti e te livrarás das tentações do inimigo, porque o Senhor prometeu acolher os que recorrem a Ele, concedendo-lhes sua misericórdia. Presta bem atenção: abandona as reuniões mundanas, o comer e beber em demasia, para não perder o que o Senhor prometeu aos bons e justos. Assim, alma, tu construirás tua habitação com obras boas, e tua lâmpada luzirá nos céus com o azeite de sua misericórdia. Aproxima-te de seu perdão e misericórdia, e Ele fará resplandecer sobre ti seu Espírito. Lava com lágrimas teus pecados e descerá sobre ti a bondade (Giovanni Mosca).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Vinde, voltemos ao Senhor” (Os 6,1a)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Arrependimento não equivale a auto compaixão ou remorso, mas a conversão, voltar a centrar a vida na Trindade. Não significa olhar atrás triste, mas para adiante esperançoso. Nem é olhar abaixo a nossas falhas, mas ao alto, ao amor de Deus. É olhar não o que não temos podido ser, mas o que com a graça divina podemos chegar a ser […]. O arrependimento, ou mudança de mentalidade, leva à vigilância, que significa, entre outras coisas, estarmos presentes onde estamos neste ponto especifico do espaço, neste particular momento de tempo. Crescendo em vigilância e em conhecimento de si mesmo, o homem começa a adquirir capacidade de juízo e discernimento: aprende a ver a diferença entre o bem e o mal, entre o supérfluo e o essencial; aprende, portanto, a guardar o próprio coração, fechando a porta às tentações ou provocações do inimigo. Um aspecto essencial da guarda do coração é a luta contra as paixões: devem purificar-se, não matar-se; educar-se, não erradicar-se. Ao nível da alma, as paixões se purificam com a oração, a prática regular dos sacramentos, a leitura cotidiana da Escritura; alimentando a mente pensando no que é bom e com atos concretos de serviço amoroso aos demais. Ao nível corporal, as paixões se purificam, sobretudo, com o jejum e a abstinência. A purificação das paixões leva a seu fim, por graça de Deus, à “ausência de paixões”, um estado positivo de liberdade espiritual no qual não cedemos às tentações, no qual se passa de uma imaturidade de medo e suspeita a uma maturidade de inocência e confiança. Ausência de paixões significa que não somos dominados pelo egoísmo ou desejos incontrolados e que, assim, chegamos a ser capazes de um verdadeiro amor (K. Ware, Dire Dio oggi. il camino del Cristiano, Magnano).

 

 

 

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QUINTA-FEIRA, 27 DE FEVEREIRO DE 2020

Lucas 9,22-25 (Primeiro anúncio da paixão; Condições para seguir a Jesus) =Mt 16,21-27; Mc 8,34-38 – Aos discípulos que, depois de ter lhes manifes­tado as opiniões da multidão, lhe declaram a própria fé, Jesus, pela primeira vez, lhes anuncia a necessidade de sua paixão (9,18-22).      É um ensinamento feito a uns poucos, a parte. Sem dúvida, a todos (v.23) o Mestre indica claramente que caminho se deve seguir, se, se quer ser seus discípulos. Segundo o costume da época, os que entravam a fazer parte da escola de um rabi lhe seguiam atrás, seguindo suas pegadas. É o caminho da abnegação cotidiana, superando o medo à ignomínia, o sofrimento e à morte. Jesus o in­dica falando da cruz. Na época da dominação romana era frequente o espetáculo dos condenados a morte que transportavam o patibulum, ou seja, o braço transversal da cruz, pelas ruas, do lugar da condenação ao da execução. Trata-se, pois, de uma imagem terrivelmente realista: seguir Cristo como discí­pulos é viver como condenados a morte pelo mundo (2 Cor 4,10s; Rm 8,36), dispostos cada dia a enfrentar o desprezo de todos. Mas o caráter desta morte concreta (sua cruz, aceita e levada “cada dia’) é conduzir-nos à verdadeira vida. De que serve ganhar o mundo inteiro se perder a si mesmo? v.25).

 

 

Dt 30,15-20 (Os dois caminhos) – Este fragmento com o qual se conclui a procla­mação da lei deuteronômica tem como destinatá­rios os desterrados de Israel. Privados de sua terra, exorta-lhes a refletir nas causas de sua situação a acolher de novo a aliança do Senhor com todas suas exi­gências, a abrir-se à esperança. O autor ex­pressa tudo isto contrapondo vida e morte, bem e mal, benção e maldição, que se propõem a nossa livre eleição (v.15: “diante de ti”). Ao individuo e a todo o povo lhes pede uma opção responsável, de gra­ves consequências. Céu e terra são testemunhos (v.19). O cosmo criado por Deus é chamado a estar presente e a ser vingador do pacto. A vida não é só dom de Deus, mas também partici­pação de seu ser (v.20). Ele é o vivente que faz viver. Há que aderir a Ele pelo amor e a obediência a seus mandamentos: Deus está desejando comunicar-nos a vida e a benção. Para isso dá normas e preceitos: para indicar-nos claramente como caminhar por suas sen­das (v.16) e conseguir suas promessas.

 

Salmo 1 (Os dois caminhos) – A vida é como uma encruzilhada existe duas entradas à nossa frente. A nós cabe a escolha de qual caminho seguir: o do bem ou o do mal. Se seguirmos o mal, encontraremos a infelicidade, enquanto que se seguirmos o bem, seremos para sempre felizes. Qual caminho vamos escolher? Senhor, dá-me a coragem de não me deixar dominar pelo mal? Que eu saiba ser corajoso e escolher sempre o bem. Não permita que eu caminhe sozinho… O importante é que eu esteja contigo e tu comigo. Amém

 

 

MEDITATIO: O Senhor põe ante nós a vida e a morte, pedindo-nos tomar uma decisão e ratificá-la dia após dia. Trata-se de uma opção que não é evidente, já que Jesus o indica com um paradoxo: à vida segundo Deus, à vida que é Deus, se chega negando a nós mesmos, levando nossa cruz cada dia após o Mestre, aceitando perder por ela a vida presente. O cristianis­mo é uma disposição radical a seguir a Cristo até o final, não um esforço moral para melhorar o próprio ca­ráter ou os próprios costumes. Não é fácil responder: “Sim, eu” ao convite, que não deixa lugar a ilusões: “O que queira seguir-me…”. Sem dúvida, aparece clara a perspectiva de sofrimento incluída no seguimento, não aparece menos clara a meta final: a ressurreição, salvar a vida, uma vida em plenitude, sem comparação com ganhar o mundo inteiro. Op­tamos, pois, pela vida amando ao Senhor, obedecendo a sua voz e mantendo-nos unidos a Ele: se com Ele logramos atravessar a morte a nós mesmos cada dia, com Ele experimentaremos desde agora o inefável gozo da ressurreição da vida com Ele.

 

ORATIO: Ó Jesus, Tu és o Caminho, o único que conduz ao Pai: teu caminho não é de glória, oh! Homem das dores, que sabes bem o que é padecer; convidas-me a seguir-te, a optar em todo momento em dar meus passos vacilantes seguindo tuas pegadas seguras… Jesus, Tu és a Verdade, a única que leva a conhecer o rosto de Deus: não infunde muito entusiasmo ver no teu, ó Servo sofredor; está tão desfigurado que não parece rosto humano. Porém, me convidas a crer; o que te vê, vê ao Pai; este é o gozo perene… Jesus, Tu és a Vida, a eterna, que começa agora e desemboca no seio de Deus. Não é fácil aceitar perdê-la aqui e agora, negando o que satisfaz imediatamente porque sacia meus desejos orgulhosos e egoístas, porém Tu me repetes: “Quem perder sua vida por mim, a salvará”. Senhor, Tu és o único que podes dar-me força, a graça de dar um passo adiante, um passinho de cada vez; de abraçar minha cruz dizendo: “Sim, quero” a teu convite, e seguir-te caminhando contigo até a meta, sem retroce­der, pelo caminho da vida em plenitude.

 

CONTEMPLATIO: Vivemos para Aquele que, morrendo por nós, é a Vida; morremos a nós mesmos para viver para Cris­to; pois não podemos viver para Ele se antes não morremos a nós mesmos, a nossa própria vontade. Somos de Cristo, não de nós […]. Morremos, porém morremos em favor da vida, porque a Vida morre em favor dos que estão mortos. Ninguém pode morrer a si mesmo se Cristo não vive nele. Se Cristo vive nele, ninguém pode viver para si. Vive em Cristo como Cristo vive em ti! Ama a si mesmo reta­mente quem odeia a si mesmo para seu bem; isto é, se mortifica […]. Devemos dirigir nossos ataques contra todo vício, sensualidade, contra a atração do mal. Ao que luta lhe basta vencer aos adversários: vencendo-te a ti mes­mo, haverás vencido a todos. E se vences a ti mesmo, dás morte a ti mesmo, serás julgado vivo por Deus. Tratemos de não ser soberbos, malvados, sensuais, mas humildes, dóceis, afáveis, simples, para que Cristo reine em nós; Ele que é um rei humilde e, sem dúvida, excelso (São Columbano, lnstrucciones X).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Se morremos com Ele, viveremos com Ele” (2 Tm 2,11)

 

PARA A LEITURA ESPITIUAL – Acima da plenitude do espaço e do tempo, o amor infinitamente infinito de Deus vem e nos toma. Chega justo à sua hora. Temos a possibilidade de aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se permanecermos surdos, voltará uma e outra vez como um mendigo, porém também com um mendigo chegará o dia em que já não volta. E se aceitarmos, Deus depositará em nós uma semente e se irá. A partir desse momento, Deus não tem que fazer nada mais, nem tampouco nós, senão esperar. Porém sem lamentar-nos do consentimento dado, do “sim” nupcial. Isto não é tão fácil como parece, pois o crescimento da semente em nós é doloroso. Além do mais, pelo fato mesmo de aceitá-lo, não podemos deixar de destruir o que lhe molesta; temos que arrancar as más ervas, cortar a grama. E, desgraçadamente, esta grama faz parte de nossa própria carne, de modo que esses cuidados de jardineiro são uma operação cruenta. Sem dúvida, em qualquer caso a semente cresce só. Chega um dia em que a alma pertence a Deus, em que não somente dá seu consentimento ao amor, senão que, de forma verdadeira e afetiva, ama. Deve então, a sua vez, atravessar o universo para chegar até Deus. A alma não ama como uma criatura, com amor criado. O amor que há nela é divino, não criado, pois é o amor de Deus para Deus que passa por ela. Só Deus é capaz de amar a Deus. O único que nós podemos fazer é renunciar a nossos próprios sentimentos para deixar espaço a esse amor em nossa alma. Isto significa negar-se a si mesmo. Só para este consentimento fomos criados (S. Weil, A La espera de Dios, Madrid).

 

 

SEXTA-FEIRA, 28 DE FEVEREIRO DE 2020

Mateus 9,14-15 (Discurso sobre o jejum) = Mc 2,18-22; Lc 5,33-39 – Os discípulos de João acusam aos de Jesus de não jejuar. A resposta de Cristo é muito significativa: ele inaugura o tempo messiânico, o das bodas, o tem­po escatológico anunciado pelos profetas e o tempo de alegria no qual não se jejua pela presença do esposo. Muitos não sabem ver em Jesus o Messias. Não sa­bem reconhecer que o Reino de Deus é gozo, que é a pérola pela qual se está disposto a vender tudo com alegria. Sempre há quem pensa que a renúncia por Deus é um peso e sempre há quem tem medo do rosto gozoso de Deus: como se o Reino fosse unica­mente sofrimento. O jejum cristão não se limita a abster-se de alimentos, mas a desejar o encontro com Jesus que salva com sua Palavra. Para compreender esta breve leitura, é preciso situar-se no contexto dos versículos seguintes. Cristo se serve de duas comparações: não se põe um pedaço de tecido novo em um vestido velho e não se lança vinho novo em odres velhos. Ambas as comparações referem outro motivo em favor do comportamento dos discípulos de Jesus. Chegou ao Reino de Deus e os discípulos que o entenderam se sentem livres de jejum e das práticas judaicas. Os velhos esquemas já não são a me­dida adequada para julgar a “nova justiça”. Não há que esperar que a novidade de Cristo se encerre nos limites das velhas formas: o Reino rasga o tecido velho, arrebenta os velhos odres e renova os alicerces.

 

 

Is 58,1-9a (O jejum que agrada a Deus) – A presente profecia de Isaías pertence, com toda probabilidade, aos primeiros anos da volta de Israel do desterro e se desenvolve em três movimentos: intervenção do profeta para, que o povo seja cons­ciente da falsa autenticidade em que vive (vv. 1-3a); pro­clamação do verdadeiro jejum (vv. 3b-7); consequên­cias positivas para o que una jejum com a prática da justiça (vv. 8-12). O povo, que volta à pátria, estava cheio de entusias­mo e esperança, porém a situação é deprimente. As dificuldades superam toda previsão. E YAHWEH parece surdo e indiferente ante as preces e o culto de seu povo. O profeta condena um falso jejum, que esconde graves situações sociais. Ante Deus, é esté­ril um culto exterior sem solidariedade com os pobres e sem justiça. As autênticas manifestações exteriores da conversão se resumem na caridade com o necessitado e na misericórdia com o oprimido, que conduzem a mudança de coração. No texto de Isaías, nos parece ler as palavras de Jesus em Mt 25,31-46: Tive fome e me destes de co­mer…. Ao afirmar que o jejum e o verdadeiro culto estão na prática da caridade não significa negar a práti­ca do jejum. Significa recordar que o jejum e o culto tem que ter como objetivo a caridade. Quer dizer, o jejum deve ser uma renúncia que se faz por amor a Deus e ao próximo, e o verdadeiro culto é relação com Deus sem individualismos e falsidade.

 

Salmo 50/51 (Miserere) – (Ver quarta-feira de cinzas)

 

MEDITATIO: Parece como se a Igreja se divertisse pondo-nos em aperto: por uma parte recomenda o jejum; por outra, atendendo aos dois textos que nos apresenta hoje, o redimensiona. Ainda mais que redimensioná-lo, o ex­plica, dá-lhe o verdadeiro sentido. Parece bastante opor­tuno, especialmente hoje, quando se redescobre o jejum por motivos dietéticos e estéticos: guardar a linha, vigiar o peso. Acrescentamos a difusão das práticas orien­tais, nas quais o jejum tem sua importância, com vis­tas a descobrir o “eu” profundo. O jejum não é, pois, estranho a nossa civilização pluralista e aberta a to­das as correntes. Mas hoje a Igreja sublinha duas di­mensões essenciais do jejum: a cristoló­gica e a solidária. Jejua-se porque Cristo, o Esposo, ainda não está de todo presente em mim, na sociedade na qual vivo. O Esposo está preparado, porém eu não: seu amor não ocupa todo meu ser, sua causa não se há colhido verdadeiramente por inteiro. Jejuo para deixar lugar em minha vida, para criar um vazio em mim, de sorte que ele possa abarcar toda minha existência? Jejua-se por sensi­bilizar-me com o que passa fome e sede, criando em mim o sentido de responsabilidade com os pobres e necessita­dos. Não tens notado que hoje em dia, depois do Concilio, a Igreja há redimensionado o jejum exterior e há mo­vido a que os cristãos assumam “as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres”? (GetS 1). Que lugar ocupa em minha vida o jejum cristão?

 

ORATIO: Senhor, piedade de mim, que me preocupo mais da mentalidade corrente que de teu crescimento em mim. Pela saúde, se um médico me prescreve uma dieta, ainda que seja severa, estou disposto a fazer grandes sacrifícios, porém para fazer que cresças em mim, para sentir-te “ínti­mo” como Esposo muito desejado, para isso não me entu­siasmo muito, nem me preocupo por sacrificar-me em de­masia. Senhor, piedade de mim, porque me preocupo mais do aspecto exterior que do interior, estou mais atento para agradar aos homens que para agradar-te: com frequência sou materialista. “Um coração quebrantado e humilhado tu não desprezas, Senhor”. E hoje me sinto humilhado e confundido por minha dubiedade de coração e meus equívocos. Acrescenta, Senhor, o sentido esponsal de minha vida cris­tã, que me aclara tantas coisas da tradição da santidade, que de outro modo resultariam inexplicáveis. Peço-te, nesta quaresma, aprender a jejuar do que me distrai inutilmente de ti, de tudo aquilo que me afasta da contemplação de tua Palavra, do que me arras­ta a “outros amantes”, a outros amores que, pouco a pouco, podem levar-me a ser um adúltero e infiel.

 

CONTEMPLATIO: Ó Senhor, não me deixaste em terra sujando-me na lama, mas que, com entranhas de misericórdia, buscaste-me, tiraste-me dos baixos lodos […]. Arrancaste-me com força e afastaste-me dali feito uma lástima, com os olhos, orelhas e boca obstruídos de lama […]. Tu estavas próximo, lavaste-me na água, inundas­te-me e mergulhaste-me reiteradamente; quando vi o clarão de luz que brilhavam em torno a mim e os raios de teu rosto mesclados com as águas, me enchi de assombro, vendo-me aspergido por uma água luminosa. Assim tu te deixaste ver depois de ter purificado totalmente minha inteligência com a claridade, com a luz de teu Espírito. (Simeão, o novo teólogo).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

                               “Senhor; solta minhas cadeias de iniquidade” (ls 58,6)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Um jejum proporcional à tuas forças favorecerá tua vigilância espiritual. Não se pode meditar as coisas de Deus de estômago cheio dizem os mestres do espírito. Jesus deu o exemplo com seu prolongado jejum; quando venceu o demônio, Ele havia jejuado quarenta dias. Quando o estômago está vazio, o coração é humilde. O que jejua ora com um coração sóbrio, enquanto que o intemperante se dissipa em imaginação e pensamentos impuros. O jejum é um modo de expressar amor e generosidade; sacrificam-se os prazeres terrenos para alcançar os do céu. Quando jejuamos sentimos crescer em nós o reconhecimento de Deus, que deu ao homem o poder de jejuar. Todos os detalhes de tua vida, tudo que lhe acontece e o que se passa a teu redor, se iluminam com nova luz. O tempo que discorre se utiliza de modo novo, rico e fecundo. Ao longo das vigílias, a modorra e a confusão de pensamentos cedem espaço a uma grande lucidez de espírito; em vez de irritar-nos contra o que nos entedia, o aceitamos tranquilamente, com humildade e ação de graças […]. A oração, o jejum e as vigílias são o modo de chamar à porta que desejamos que nos seja aberta. Os santos padres refletiram sobre o jejum considerando-o como uma medida de capacidade. Se, se jejua muito é porque se ama muito, e se, se ama muito é porque muito se foi perdoado. O que muito jejua, muito receberá. Sem dúvida, os santos padres recomendavam jejuar com medida: não se deve impor ao corpo um cansaço excessivo, sob pena de que a alma sofra detrimento. Eliminar alguns alimentos seria prejudicial: todo alimento é dom de Deus (T. Colliander).

 

 

SÁBADO, 29  DE FEVEREIRO DE 2020

Lucas 5,27-32 (Vocação de Levi; Refeição com os pecadores na casa de Levi) = Mt 9,9-12; Mc 2,13-17 – Jesus não veio chamar os justos, mas os pecadores a que se convertam: o versículo final desta perícope resume e constitui o cume do que precede. O chamado dos primeiros discípulos, gente rude e simples; a cura do leproso, sem temer a im­pureza legal; o perdão dos pecados e a cura do paralítico: tudo isto vai revelando o rosto desconcer­tante do Mestre. Agora convida a seu seguimento a um homem duplamente desprezível por seu ofício de arrecadador e por ser colaborador com o odiado ocu­pante romano. Jesus mostra a liberdade soberana de suas eleições, uma liberdade liberadora porque brota do amor, e por isso tem poder de eleger do mundo do pecado a quantos se deixem interpelar. No brevíssimo v.28 aparecem três verbos significativos: “deixando tudo”, toda atadura, toda cadeia ou peso, “se levantou” (anastás: em grego é o mes­mo verbo usado para a ressurreição de Jesus) “e o seguiu”. A libertação e a ressurreição a uma vida se orientam a seguir a Jesus, à missão. Levi não desperdiça a ocasião do passar da mise­ricórdia em sua vida, em sua casa, e quer compartilhar com os demais a alegria deste encontro desconcertante, para que se converta em acontecimento de graça para muitos: por isso prepara “um grande banquete”, reúne a uma multidão (v. 29).

 

 

Is 58,9b-14 (O jejum que agrada a Deus) – O texto de hoje é continuação do que escuta­mos ontem: o Senhor havia pedido ao profeta dirigir ao povo uma acusação, uma denúncia “sem considerações” (58,1); agora o tom é mais sereno e exortativo. Qua­tro são os pontos que se podem ressaltar no texto: nos vv.9-10a se indicam âmbitos de conversão interior do qual hoje chamaríamos caridade fraterna. Com estas condições segue a promessa de comunhão com o Senhor e de restauração do país (vv.10b-12). A continuação reaparece o tema do primeiro ponto, porém o contexto é agora o dos direitos de Deus, o respeito ao sábado (v.13), e o v.14 indica a promessa conseguinte. O Senhor pede em primeiro lugar tirar do meio o que divide o povo (opressão, falsas acusações nos tribunais, difamação), para logo construir a comunhão nivelando as diferenças sociais (o v.10 disse: “Se dás ao faminto tua alma/vida e sacias a alma/vida do oprimido”). Com estas condições Deus promete a comunhão com Ele e a prosperidade: se sacias “de ti mesmo” ao teu irmão em dificuldade, o Senhor te saciará. E, além do mais, se reconstróis, com justiça, a trama social, o Senhor te concederá reconstruir velhas ruínas, o acréscimo com respeito ao sábado (vv.13) segue, de novo, a estrutura dos versículos precedentes (se… então…): se sabes refrear a avidez da eficiência compreendendo o sentido do repouso sabático; então o Senhor te fará degustar seu gozo e seus bens, e te dará essa soberania que buscas em vão com tuas múltiplas ocupações.

 

Sl 85/86 (Súplica na provação) – Neste Salmo aprendemos como nos apresentar a Deus; sempre com muita humildade e servidão, como verdadeiro fiel em busca de auxílio. O pobre sabe como enternecer os ricos com sua pobreza, mediante a humildade e a simplicidade. O verdadeiro pobre nunca é arrogante ou pretencioso; quando precisa de algo, só estende a mão para que o outro entenda que é necessitado. A pobreza pode nos impedir de ter uma vida feliz e afastada, e nos oprimir. São nesses momentos que devemos nos lembrar da misericórdia do Senhor; que é o nosso refúgio. Com Ele podemos nos sentir verdadeiramente amparados e seguros. A oração do pobre é mais sincera, pois tem consciência de que sem Deus nada é possível e sabe que Ele é o único a quem pode recorrer. O pobre elogia o Senhor por sua grandeza e recorda as suas promessas. Por sua sinceridade, o pobre tem a certeza do socorro. A grandeza de Deus não oprime, e o seu amor é gratuito e generoso quando o invocamos com insistência. Senhor, dá-me a graça de sentir-me pobre, de ser pobre e de viver e rezar como o pobre. Liberta-me do orgulho e da autossuficiência, concede-me a graça de recorrer a ti em todos os momentos dos meus sofrimentos. Mesmo quando me encontrar perseguido e oprimido pela dor, pela solidão ou pela calúnia, que eu nunca me desespere: tu és meu consolo e conforto, minha segurança e meu apoio, meu abrigo e meu rochedo. Senhor, quero fazer deste Salmo a fonte da minha oração; não permita que eu me aproxime de ti com arrogância, mas que sempre, numa atitude de pobreza, saiba reconhecer as minha feridas e peça o teu alívio. Sou pecador, infiel, injusto, prepotente, necessito ser curado destas enfermidades e só tu podes curar-me com o teu amor e ternura. Abraça-me, Senhor, cura-me e não permitas que jamais me separe de ti. Seja tu, Senhor, o espelho onde me reconheço e te reconheço, e reconheço o rosto amável dos meus irmãos e irmãs. Amém.

 

 

MEDITATIO: O homem pecador é chamado pela Misericórdia à conversão para saborear a comunhão com Deus. Enfer­mo no fundo do coração entrega-se, buscando no atordoamento dos sentidos ou do ativismo o paliativo à angústia que lhe devora interiormente, talvez sem saber. Se não reconheço a mim mesmo nesse homem pecador, ferido, não é para mim a festa do perdão, a alegria da cura. Continuarei sentando-me na mesa de gente “de bem”, sem contaminar-me com a sujeira moral e material dos outros, sem deixar que me inquiete o Amor que vai em busca de quem está chagado interior­mente para curá-lo. Por meio do profeta Isaías, Deus nos pede a compartilhar. No Evangelho o vemos encarnado: Jesus mesmo compartilhou até o extremo, saciando com a própria vida o faminto de justiça-santidade. A co­munhão que o Senhor nos convida a construir entre nós tem um preço elevado, que Ele pagou totalmen­te sozinho: assume toda a dor do outro, mesmo o sofrimento mais desolador e que menos se nota, o do pecado. Se reconheço ser eu o pecador curado de suas feridas, não buscarei mais, para mim ou para os meus, que o abraço infinitamente misericordioso dessas mãos crucificadas.

 

ORATIO: Pai misericordioso, Tu cuidas de todos os peque­nos da terra e queres que cada um seja sinal e ins­trumento de tua bondade com os demais. Tu brindas teu amor a todo filho ferido pelo pecado e queres unir-nos uns com os outros com vínculos de fraternidade. Perdoa-me, Senhor, se tenho fechado as mãos e o coração ao indigente que vive a meu lado, pobre de bens ou privado do Bem. Todavia não tenho compreendido que teu Filho veio a sentar-se à mesa dos pecadores; tenho crido em mim melhor que os demais. Por esta razão sou eu o pecador. Faz que ressoe tua voz em meu coração, chama-­me agora e sempre, oh! Deus. Abandonando as falsas seguranças, quero levantar-me para seguir a Cristo em uma vida nova. E será festa.

 

CONTEMPLATIO: Em sua infinita misericórdia, o Senhor se dá a si mesmo e não recorda nossos pecados, como não recordou os do ladrão na cruz. Grande é tua misericórdia, Senhor. Quem poderá dar-te graças como mereces por ter derramado na terra teu Espírito Santo? Grande é tua justiça, Senhor. Prometeste aos apóstolos: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). Agora nós vivemos desta misericórdia e nossa alma experimenta que o Senhor nos ama. Quem não o experimente que se arrependa: o Senhor lhe concederá a graça que guie sua alma. Porém se vês um pecador e não sentes compaixão, a graça te abandonará. Temos recebido o mandamento do amor, e o amor de Cristo se compadece de todos e o Espírito Santo nos infunde a força de fazer o bem. O Senhor perdoa os pecados de quem se compadece do irmão. O homem misericordioso não recorda o mal recebido: ainda que lhe tenham maltratado e ofendido, seu coração não se perturba, porque conhece a misericórdia de Deus. Ninguém pode apropriar-se da misericórdia do Senhor: é inviolável porque habi­ta no alto dos céus, com Deus (Silvano deI Monte Athos, Non disperare, Magnano).

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Por suas chagas fomos curados” (ls 53,5c)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A ascese dos padres do deserto impunha um tempo de jejum esgotante e privações rigorosas: hoje a luta ataca outra frente. O homem não necessita um suplemento dolorosíssimo, cilícios, cadeias e flagelações correriam o risco de fragmentá-lo inutilmente. A ascese consistirá bem mais em impor-se o repouso, a disciplina da calma e o silêncio, na qual o homem encontre sua capacidade de concentrar-se na oração e contemplação, ainda em meio da confusão do mundo; e, sobretudo recobrar a capacidade de perceber a presença dos demais, de saber acolher aos amigos sempre. A ascese se converte assim em atenção ao convite do Evangelho, às bem-aventuranças: busca de humildade e a pureza de coração, para libertar ao próximo e devolvê-lo a Deus. Em um mundo cansado, asfixiado pelas preocupações e ritmos de vida cada vez mais agoniados, o esforço se dirigirá a encontrar e viver “a infância espiritual”, o frescor e a espiritualidade evangélica da “vereda” que nos leva a sentar-nos à mesa com os pecadores e a compartilhar o pão juntos. A ascese não tem nada que ver com o moralismo. Estamos chamados a sermos ativos, viris, heróicos, porém estas “virtudes” são dons dos quais o Espírito pode privar-nos em qualquer momento; nada é nosso. Nas alturas da santidade está à humildade, que consiste em viver em uma atitude constante da alma em presença de Deus. A humildade nos impede sentir-nos “salvos”, porém suscita uma alegria permanente e desinteressada, simplesmente porque Deus existe. A alma reconhece a Deus confessando sua impotência radical; renunciando a pertencer-se. A oferenda, o dom de si, é a humildade em ação. O homem despido segue a Cristo despido; permanece vigilante em seu espírito e espera a vinda do Senhor. Porém sua alma leva o mundo de todos os homens; ao entardecer de sua vida, o homem será julgado de seu amor (P. Evdokimov, La novità dello Spirito, Milán).

 

 

AUTORES:

Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

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