LECTIO DIVINA NA 7ª SEMANA DA PÁSCOA ANO 2020

LECTIO DIVINA

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LECTIO DIVINA 7ªSEM DA PÁSCOA ANO A ASCENÇÃO DO SENHOR

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2020

João 16,29-33 (Anúncio de pronto retorno) – O trecho começa com algumas palavras entusiastas dos discípulos de Jesus: «Agora tens falado claramente e não em linguagem figurada» (v.29). Pensam os discípulos, que as palavras do Senhor sobre sua missão são, agora, compreensíveis, porém, esquecem que Ele lhes havia dito que a nova era começaria depois da ressu­rreição e que a compreensão de suas palavras teria como mestre interior o Espírito Santo. Creem ter agora, em suas mãos, o mistério da pessoa de Jesus e possuir uma fé adulta em Deus. Jesus terá que fazer-lhes constatar que, pelo contrário, sua fé tem que ser re­forçada ainda, porque é imatura para fazer frente às provas que lhes esperam (vv.31s). São palavras que escondem uma grande amargura: o Na­zareno prediz o abandono por parte de seus amigos. Estes se escandalizarão pela sorte humilhante que sofrerá seu Mestre. Contudo, Jesus nunca está só. Vive sempre em uni­dade com o Pai. Por isso termina o colóquio com os seus pronunciando palavras cheias de esperança e de confiança: “Vos tenho dito tudo isto para que possais en­contrar a paz em vossa união comigo. No mundo encontrareis dificuldades e tereis que sofrer, porém tende ânimo; eu venci o mundo” (v.33). Jesus venceu o mundo desarmando-o com o amor. Elegeu o que tem valor aos olhos de Deus e perdura na vida, não o efêmero. E esta mensagem é o que deixa a seus discípulos como «testamento espiritual».

 

 

 

At 19,1-8 (Discípulo de Jesus em Efésio)– A cidade de Efésio se torna ponto de encontro de diferentes correntes do cristianismo primitivo, com as quais também se defronta Paulo. Também, estas, provêm dos discípulos, mais ou menos remotos, de João Batista, que fazem par­te de um movimento mais amplo e, para nós, ainda misterioso. As dezenas de «discípulos» têm, provavelmente, um pé no grupo do Batista e outro no de Jesus. Paulo os catequiza indicando que o próprio João havia indicado a superioridade de Jesus. Nota-se aqui a tentativa de esclarecer a relação entre o batismo de João e o de Jesus: o primeiro está ligado à penitência; o segundo, à ação do Espí­rito. O enlace, o encontro e, às vezes, o desencontro entre as diferentes correntes e movimentos deviam ser vivazes, ainda que Lucas não nos proporcione informações mais precisas. Não sabemos se foi Paulo quem os batizou, mas foi ele quem lhes impôs as mãos, renovando outro Pente­costes, como já havia acontecido em outras ocasiões, es­pecialmente com Pedro e João, em Samaria. O Espírito, ligado ao Batismo no nome de Jesus, os cumula de seus dons e falam em línguas e profetizam. Cabe a Lucas mostrar, entre outras coisas, que Paulo, ainda que não seja um dos doze, tem os mesmos pode­res. Também deseja mostrar que os «Atos de Paulo» se assemelham aos de Pedro. Além dos discípulos do Batista, Paulo vai defrontar-se, em Efésio, com a magia e o paganismo, no famoso episódio da revolta dos ourives.

Sl 67/68 (Gloriosa epopeia de Israel) – Considerando a extensão deste Salmo, optei por escolher apenas alguns versículos que o sintetizam, mas destaco a importância de ler e meditar todo seu conteúdo. O Livro dos Salmos, em sua totalidade, aborda a psicologia humana, tratando de sentimentos profundos e, muitas vezes, distintos, como o amor e a raiva. Toda leitura nos acrescenta algo sobre nossa essência. Este Salmo é uma história das aventuras do povo de Israel, uma recordação da escravidão e do tempo em que o povo permaneceu no deserto, à espera da terra prometida por Deus. Todos somos convidados a festejar com eles e a celebrar a vinda de Jesus, que nos conduzirá ao Céu, onde não há tristezas, e sim felicidade eterna.

Senhor, sinto no meu coração o desejo de te louvar e agradecer. Mas, não quero fazê-lo sozinho, mas com os outros, compartilhando a alegria da fé e fazendo da minha família e comunidade um lugar verdadeiramente de alegria e festa. Tenho saudades das profissões, quando todos juntos vamos para a Igreja, cantando; sinto falta da festa, do mês de maio, nas celebrações festivas da comunidade. Senhor, não deixa que meu coração se feche ao teu amor, mas abre-me cada vez mais para ti, e que todos possam ser meus irmãos de canto e de festa. Não são festas mundanas que me atraem, mas as tuas festas. Quero permanecer silencioso para contemplar tua presença que passa no mundo e convida a todos a te amar. O teu nome deve triunfar sobre todo o mal e ser presença de amor e bem. Senhor, eis-me aqui, quero ser presença viva na minha comunidade, animar os grupos de oração, ser conquista; não quero ficar de braços cruzados, mas ser dinâmico e ativo, porque o desejo de ti me faz sentir a força do teu amor. Amém.

 

 

 

MEDITATIO: A solidez da relação com Deus emerge na hora da prova, quando nos encontramos sozinhos ante Deus e, sem que esperemos, se diluem os apoios humanos e as grandes ilusões. Então, é quando se manifesta onde está apoiado, de verdade, teu coração: em tuas pró­prias seguranças ou na Palavra do Senhor, no aban­dono total nele. A fé se purifica nas provas e na solidão, e nos introduz no caminho de Jesus, que afir­ma: «Eu não estou só, pois o Pai está comigo», e nos faz considerar seriamente as palavras de Jesus: «Tende ânimo, eu venci o mundo». A prova e as tribulações pertencem também a um processo de amadurecimento, pois nos fazem entrar em nós mesmos, desejar o silêncio; submergem-nos na solidão, ali onde sempre podemos descobrir nossa vocação de estar «sozinhos com o Só», de an­corar-nos naquele que nunca nos abandonará, com aquele a quem, juntos, aclamamos nos Salmos como a nossa rocha, nosso refúgio, nossa defesa, nosso baluarte, nosso consolo. Nessas horas estas palavras assumem uma verdade, uma evidência e uma força particular, e nos sentimos crescer na compreen­são do mistério da vida e de nossa íntima relação com Deus.

 

ORATIO: Ilumina, ó Senhor, minhas noites com a luz discreta de tua presença. Não me abandones em minhas solidões, quando tudo parece fundir-se a meu redor e quando as presenças mais familiares se tornam estranhas e são incapazes de consolar-me. Tu também sabes, meu Jesus, o terrível que é a solidão, quando até o Pai se fazia impossível de encontrar e te sentiste abandonado por Ele. Por esta terrível desolação, pela qual passaste, vem em socorro de meus desertos, não me abandones quan­do me sinto abandonado pelos outros. Tu que suaste sangue, alivia minhas feridas. Tu que ressuscitaste, faz fecunda de vida, a sensação de inutili­dade e abandono. Por tua santa agonia, por tua gloriosa luta contra o sentido da derrota, enche meus momentos terríveis, as horas e os dias de vazio, para que eu possa experimentar-Te como meu doce salvador.

 

CONTEMPLATIO: Em uma noite escura, com ânsias em amores inflamada ó feliz ventura! Sai sem ser notada, estando já minha casa sossegada; às escuras e segura pela secreta escala, disfarçada, ó feliz ventura! Às escuras fechada, estando já minha casa sossegada; na noite venturosa, em segredo, que ninguém me via nem eu mirava coisa alguma, sem outra luz e guia, senão a que no coração ardia. Esta me guiava, mais certo que a luz de meio dia, aonde me esperava quem eu bem sabia, num lugar onde ninguém conhecia. Ó noite que guiaste! Ó noite mais amável que a alvorada! Ó noite que juntaste Amado com amada, amada no Amado transformada! (João da Cruz, Obras completas, Madrid).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

                                 “Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo» (Jo 16,32b)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: Quando te sintas só, deves tentar descobrir a fonte deste sentimento. És propenso a escapar de tua solidão ou a per­manecer nela. Caso fugas dela, tua solidão não diminui realmente: o único que fazes é obrigá-la a sair de tua mente de modo provisório. Quando começas a permanecer nela, teus sentimentos não fazem mais que voltar mais fortes e vais te desli­zando à depressão. A tarefa espiritual não consiste nem em fugir da solidão nem em deixar-se inundar por ela, mas em descobrir sua fonte. Não resulta fácil de fazer, porém quando se consegue identificar de algum modo o lugar de onde brotam estes sentimentos, se perde algo de seu poder sobre ti. Esta identificação não é uma tarefa intelectual; é uma tarefa do coração. Com ele deves buscar esse lugar sem medo. Trata-se de uma busca importante, porque conduz a discernir algo de bom sobre ti mesmo. A dor de tua solidão pode ter suas raízes em tua vocação mais profunda. Poderias descobrir que tua solidão está ligada a teu chamado a viver por completo para Deus. A solidão se pode revelar então como o outro lado de teu dom único. Enquanto experimentes em teu «eu» mais íntimo a verdade, poderás descobrir que a solidão não só é tolerável, mas também fecunda. O que parecia doloroso, pode converter-se depois em um sentimento que, ainda sendo penoso, te abre o caminho para um conhecimento ainda mais profundo do amor de Deus (H. J. M Nouwen, La voce dell’amore].

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 26 DE MAIO DE 2020

João 17,1-11a (Oração de Jesus) – A primeira parte da oração sacerdotal é composta de dois trechos (vv.1-5 e 6-11a), uni­dos, entre si, pelo tema da entrega de todos os homens, a Jesus, da parte do Pai. Os vv.1-5 se concen­tram na petição da glória da parte do Filho. Esta­mos no momento mais solene do colóquio entre Je­sus e os discípulos. Jesus é consciente de que sua mi­ssão está chegando ao fim, e, com o gesto típico do orante (levantar os olhos ao céu, quer dizer, ao lugar sim­bólico da morada de Deus), inicia sua oração. O primeiro que pede é que sua missão chegue a seu cume definitivo, com sua própria glorificação. Mas, essa glorificação a pede só para glorificar ao Pai (v.2). Jesus recebeu todo o poder do Pai, que pôs todas as coisas em suas mãos, até o poder de dar a vida eterna aos que o Pai lhe confiou. E a vida eterna consiste nisto: em conhecer ao único Deus verda­deiro e àquele que foi enviado por Ele aos homens, o Filho (v.3). Como é natural, não se trata da vida eter­na entendida como contemplação de Deus, mas da vida que se adquire através da fé. Esta é participação na vida íntima do Pai e do Filho. Deste modo, ao término de sua missão de revelador, professa, Jesus, que glorificou ao Pai, na terra, cumprindo em tudo, a missão que o Pai lhe havia confiado. Jesus não quer a glória como recompensa, mas unicamente chegar à plenitude da revelação, com sua livre aceitação da morte na cruz. Em seguida, pensa, Jesus, em seus discípulos, aos quais manifestou o desígnio do Pa­i. Estes responderam com a fé e, assim, glorificarão ao Filho, acolhendo a Palavra e praticando-a no amor.

 

 

Atos 20,17-27 (Adeus aos anciãos de Éfeso) – Após a questão dos ourives de Efésio Paulo retoma suas viagens. Passa à Grécia, detêm-se em Tróade (onde ressuscita um morto durante uma longa vigília eucarística) já em seguida desce a Mileto, nas proximidades de Efésio, de onde manda chamar os responsáveis desta Igreja. Com eles man­tém uma ampla conversa. Trata-se do terceiro grande discurso de Paulo referido por Lucas: o primeiro refle­tia a pregação dirigida aos judeus (capítulo 13); o segundo, dirigido aos pagãos (capítulo 17), e o terceiro, dirigido aos pastores da Igreja. Trata-se de um discurso clássico de despedida ou de um «testamento espiritual». Está dotado de uma grande densidade humana e de uma notável elevação espiritual. É natural que tenha sido muito comentado. Nele emerge a estatura de um missionário dedicado de corpo e alma à causa do serviço do Senhor. Um ser­viço total, exclusivo e continuado, que usa como crité­rio não a aprovação dos homens, mas o desígnio de Deus. Entre as muitíssimas notas que poderíamos co­mentar, há três características da ação de Paulo que parecem chamar a atenção do olhar de maneira evidente. A humildade no serviço do Senhor: trata-se de uma virtude desconhecida no mundo pagão, engrandecida e feita apetecível pelo exemplo do Senhor Jesus, que veio para servir e não para ser servido; o valor: Paulo tem anunciado o Evangelho «com lágrimas, em meio às provas», sem deixar-se condicionar pelas oposições; o desinteresse, não só trabalhando com suas próprias mãos, senão impulsionando-se até dizer: «Não im­porta minha vida, nem é para mim estimável, como tal, de levar a bom termo minha carreira». O valor mais importante é o Evangelho, não a conservação da própria vida; para Paulo, o mais importante é o que recolhem as últimas palavras da passagem: «Nunca deixei de anunciar-vos todo o desígnio de Deus». Para ele pessoalmente, para Paulo, se perfila um fu­turo obscuro, um futuro carregado de prisões e tri­bulações, iluminado pela certeza de ser «forçado pelo Espírito». O importante é “levar a bom termo minha carreira”: a evangelização é urgente, necessita impulso, empenho, concentração, dedicação exclusiva. É por demai­s importante para não tomá-la a sério. É também para mim?

 

Sl 67/68 (Gloriosa epopeia de Israel) – (ver dia anterior)

 

 

MEDITATIO: «A vida eterna consiste nisto: em que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, Teu enviado» (Jo 17,3). Conhecer ao Deus de Jesus Cristo, conhecer ao Filho e ao Espírito Santo. Conhecê-los, não só com a mente, mas também com o coração; conhecê-los estando em co­munhão com Eles; conhecê-los de modo que esqueçamos tudo o mais: isso é a «vida eterna». O mais, perte­nce às coisas que passam à infinita vaidade do todo, o qual carece de consistência, o qual tem uma vida efêmera, ao qual não vale a pena apegar-se. Minha vida tem de ser um contínuo progresso no conheci­mento do Deus vivo e verdadeiro, um progresso na su­blime ciência de Cristo, um caminhar segundo o Espírito, porque esta vida é a vida eterna. Uma vida, às vezes, pouco apetecível, porque a condição humana tem que vivê-la na carne e no sangue, pois o mundo me envolve e condiciona, porque minha fé é, ainda, titu­beante e insegura. Mas, basta que me detenha um pouco a refletir nas palavras do Senhor; basta que invoque seu Espírito, para que retome o cami­nho ao inefável mundo de Deus e chegue a compreen­der a fortuna de ter escutado, também hoje, estas palavras que me unem ao Pai e ao Filho, no Espírito, para experimentar algumas gotas do dulcíssimo oceano da vida eterna.

 

ORATIO: Infunde em meu coração, Senhor, os dons da ciência e da sabedoria, para que possa conhecer-te cada vez melhor, para que possa experimentar-te cada vez melhor, para que possa amar-te cada vez melhor, para que possa possuir-te cada vez melhor. Se me abandonas a mim mesmo, pouco depois de ter lido estas palavras tuas, considerarei mais importante, algo urgente que tenha que fazer e co­rrerei o risco de esquecer-te. Concede-me o dom do conselho, para que Te busque e Te conheça inclusive em meio das ocupações que me esperam dentro de pouco. Concede-me o dom do discer­nimento, para que possa optar por Ti em todas as coi­sas, segundo o ensinamento de teu Filho. Concede-me ver bri­lhar a luz de Teu rosto em todo rosto humano, para que sempre busque a Ti e só a Ti. Concede-me o instin­to divino de buscar que sejas glorificado e conhecido, an­tes e mais do que eu possa ser. E perdoa-me, desde agora, se Te esqueço, se persigo de uma maneira imprópria, as coisas desta terra, se me encho, com frequência, de noções e sentimentos que não me unem a Ti. Não me abandones a mim mesmo, Senhor, por­que Tu és minha vida, Tu és a vida eterna.

 

CONTEMPLATIO: Nós já chegamos à fé, já cremos nas coisas divinas que temos ouvido, e amamos aquele em quem cremos. Mas, quando estamos oprimi­dos por preocupações vãs, nos encontramos na escuridão e na confusão. E, em semelhante estado, quando o Senhor nos sugere sentimentos justos com respei­to a Ele, é como se nos fizesse ouvir sua voz desde uma nuvem, porém a Ele não vemos. São, certamente, coisas sublimes as que aprendemos dele, porém àquele que nos instrui com suas secretas inspirações ainda não O vemos. Ouvimos as palavras de Deus dentro de nosso coração, sabemos com que fidelidade e empenho devemos res­ponder a seu amor e, sem dúvida, frágeis como somos, voltamos a cair, desde o alto de nossa reflexão in­terior, nas coisas de costume e nos sentimos tentados pela fastidiosa importunidade de nossos pecados. Contudo, tampouco nesses momentos, Deus nos abandona: logo em seguida volta a aparecer na mente, dissipa as nuvens das tentações, infunde a chuva da compunção e volta a trazer o sol da inteligência penetrante. E assim nos demonstra o quanto nos ama, pois não nos abando­na, nem sequer quando o rejeitamos (Gregório Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra: «A vida eterna consiste nisto: que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, Teu enviado» (Jo 17,3).

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: A pergunta que orienta, durante nossa breve existência, grande parte de nosso comportamento é esta: «Quem sou?». É possível que nos façamos em raras ocasiões esta pergunta de modo formal, mas a vivemos de modo muito concreto nas decisões que temos de tomar todos os dias. As três respostas que podemos dar, em geral, são estas: «Somos o que fazemos, somos o que os outros dizem de nós, somos o que temos» ou, com outras palavras: «Somos nosso êxito, nossa popularidade, nosso poder». Importa nos darmos conta da fragilidade de uma vida que dependa do êxito, da popularidade e do poder. Sua fragilidade deriva do fato de que os três são fatores externos, fato­res que podemos controlar de um modo bastante limitado. Perder o trabalho, a fama ou a riqueza depende com frequência de acontecimen­tos que escapam, por completo, ao nosso controle; mas, quan­do dependemos deles, nos temos vendido mal ao mundo, porque somos o que o mundo nos dá. E a morte nos tira tudo isso. A afirmação final se converte nesta: «Quando morremos, estaremos mortos», porque quando morremos não poderemos fazer nenhuma outra coisa, já não se falará de nós e já não teremos nada. Quando somos o que o mundo faz de nós, não podere­mos ser depois de ter deixado este mundo. Jesus veio anunciar-nos que, uma identidade baseada no êxito, na popularidade e no poder é uma falsa identidade: é uma ilusão. Jesus diz alto e forte: «Não sejais o que o mundo faz de vós, mas filhos de Deus» (H.J.M.Nouwen,Vivere nel Spirito).

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 27 DE MAIO DE 2020

João 17,11b-19 (Oração de Jesus) – O texto inclui a segunda parte da «Oração sacerdotal» de intercessão que Jesus, como Filho, di­rige ao Pai. Tem como objeto a proteção da comu­nidade dos discípulos, que permanecem no mundo. O texto se divide em duas partes: no começo se desenvolve o tema do contraste entre os discípulos e o mundo (vv.11b-16); em seguida se fala da santificação destes na verdade (vv.17-19). Se, por uma parte, emer­ge a oposição entre os crentes e o mundo, por outra se manifesta, com vigor, o amor do Pai, em Jesus, que ora para que os seus sejam protegidos na fé. No primeiro fragmento Jesus passa revista a vários te­mas de maneira sucessiva: a unidade dos seus (v.11b), sua proteção à exceção «do que tinha que perder-se» (v.12), a preservação do maligno e do ódio do mundo (vv.14s). No segundo fragmento, Jesus, depois de ter pedido ao Pai que defenda os seus do malig­no (v.15) e depois de ter sublinhado, em negativo, sua não pertença ao mundo (vv. 14.16), pede em positivo a santificação dos discípulos: «Faz que eles sejam com­pletamente teus por meio da verdade; tua palavra é a verdade» (v.17). Roga assim, ao Pai, ao qual tem chamado «santo» (v.11b), que faça também santos na verdade aos que lhe pertencem. Os discípulos tem a tarefa de prolongar no mundo a mesma missão de Jesus. Mas, estes, expostos ao poder do maligno, necessi­tam, para cumprir sua missão, não só a proteção do Pai, mas também a obra santificadora de Jesus.

 

 

Atos 20,28-38 (Adeus aos anciãos de Efésios) – Paulo se dirige aos responsáveis -presbíteros e bispos- da Igreja, quer dizer, aos «pastores» encarre­gados de «apascentar a Igreja de Deus». Em vez de espe­cificar o conteúdo destas funções, insiste no dever da vigilância. Perfilam-se muitos perigos no horizonte, do exterior e do interior. Perigos, sobretudo, de difusão de falsas doutrinas, obra de «lo­bos cruéis». A Igreja de Deus é uma realidade preciosa porque foi adquirida «com o sangue de seu próprio Filho», daí a grande responsabilidade dos que a pre­sidem. O pastor deve vigiar «noite e dia», «com lágri­mas», primeiro a si mesmo e depois aos outros, para preservar seu próprio rebanho dos inimigos. Paulo es­boça aqui, em poucas palavras, as grandes responsabili­dades da vida do pastor. Consciente de que está pedindo muito, e quase para tranquilizá-los, os confia «a Deus e a sua Palavra de graça, que tem força para que cresçais na fé e para fazeres partícipes da herança reservada aos consagra­dos». Pareceria mais lógico que confiasse a Palavra aos responsáveis; sem dúvida, confia os responsáveis à Palavra, porque é ela que tem a força para que cresçam na fé e para fazer-lhes partícipes da heran­ça reservada aos santos. E, para terminar, outra recordação de seu interesse pes­soal destinado aos pastores, para que se esmerem também no interesse em seu ministério. Cita uma má­xima que não se encontra nos Evangelhos, porém Paulo pôde ter recolhido de viva voz na boca dos testemunhos. Conclui aqui o ciclo da evangelização dirigida ao mundo grego. Novas fadigas e novas provas esperam agora a Paulo, que sente que entra em uma fase diferente de sua apaixonada vida de apóstolo.

 

Salmo 67/68 (Gloriosa epopéia de Israel) – (ver dia anterior)

 

 

MEDITATIO: Estamos ante um texto no qual Jesus apa­rece particularmente preocupado pelo poder do mun­do e por sua possível influência em seus discípulos. No mundo atua o maligno com seu espírito de mentira, be­licosamente contrário à verdade, que é Cristo. A po­sição dos discípulos é delicada; devem permanecer no mundo, sem serem contaminados pelo mesmo. Estarão apoiados por sua oração, por sua Palavra e por seu Espírito. Em consequência, não devem temer. E acrescenta Agostinho: Que quer dizer: “Por eles me santifico eu mesmo”, senão que eu os santifico em mim mesmo enquan­to eles são eu? De fato, fala daqueles que cons­tituem os membros de seu corpo. Tudo isto nos induz a refletir, uma vez mais, sobre o poder do mundo, ainda que também sobre sua debilidade: poder para quem se deixa seduzir, debilidade para quem se deixa guiar intimamente pela Palavra de Jesus e con­duzir por seu Espírito. É possível que nestes anos tenhamos infra valorizado o «mundo», uma palavra que tem se tornado ambígua, que indica, às vezes, o lugar da ação do Espírito e dos sinais dos tempos e, outras, o lugar onde se desenrola o eterno conflito entre o ma­ligno e Jesus. A Palavra de Jesus e seu Espírito nos ajudam a discernir os distintos rostos do mundo, a distin­guir os chamados do Espírito Santo, dos sutis enganos do maligno, as mensagens de Deus da mentira do inimigo. Isto é tanto mais seguro na medida em que a Palavra e o Espírito Santo não são assumidos e quase gestados indivi­dualmente, mas acolhidos dentro da comunidade dos discípulos, que formam a santa comunhão da Igreja.

 

ORATIO: Impressiona-me, Senhor, tua insistência no perigo do mundo. E percebo que hoje, também, temos necessidade deste pôr-se em guarda. E eu, o primeiro de todos. O mundo da liberdade, da igualdade de oportunidades para todos – para todas as religiões, todas as opiniões, todos os modos de vida – tem seu encanto, pois, afinal de contas, é o mundo da tolerância, da laicidade, da liberdade para todos. Porém, é, também, o mundo onde são admitidas todas as «transgressões», onde todas as modas, até as mais perversas e detestáveis, são apresentadas como normais, onde toda a imprensa tem direito à livre cir­culação. Confia-me, Senhor, Tua Palavra. Recorda-me que não sou deste mundo, que pertenço a Ti. Santifica-me em Tua verdade, assimila-me à Tua mentalidade, à Tua vida. Tu que tens orado por mim, fazei-me santo em Tua verdade, para que caminhe sempre por Teus caminhos.

 

CONTEMPLATIO: «Não pertencem ao mundo, como tampouco eu pertenço» (Jo 17,14). Esta separação dos discípulos com respeito ao mundo é realizada pela graça que os tem regenerado, enquanto que, por sua geração natural, pertencem ao mundo e, por isso, o Senhor havia dito antes: «Não pertenceis ao mundo, porque eu os elegi e os separei dele» (Jo 15,19). A graça lhes concedeu não pertencer mais ao mundo, do mesmo modo que o Senhor não faz parte dele, que os tem libertado. O Senhor não pertenceu nunca ao mundo, porque, inclusive, em sua for­ma de servo, nasceu do Espírito Santo, desse Espírito do qual renascerão os discípulos. Estes, repito, não são, já do mundo, porque renasceram do Espírito Santo (Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, 108,1).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Eles não pertencem ao mundo, como tampouco eu perte­nço» (Jo 17,16)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: “Estar no mundo sem ser do mundo”. Esta frase é um belo resumo do modo como fala Jesus da vida espiritual. É uma vida na qual o Espírito de amor nos transforma por completo. Sem dúvida, é uma vida onde tudo parece mudado. A vida espiritual pode ser vivida de tantos modos quanto há pessoas. A novidade consiste em deslocar-se da multidão das coisas ao Reino de Deus. Consiste em sermos libertados das constrições do mundo e em encaminhar nossos corações para o único necessário. A novidade consiste no fato de que não vivemos, já, os muitos negócios, nossa relação com os outros e os acontecimentos, como causas de preocupações sem fim, mas que comecemos a considerá-los como a rica variedade dos modos, através dos quais, Deus se faz presente em meio de nós. Nossos conflitos e dores, deveres e promessas, nossas famílias e amigos, as atividades e projetos, as esperanças e inspi­rações, não se nos apresentam já como outros tantos aspectos fati­gosos de uma realidade que dificilmente logramos manter juntos, mas como modalidade de afirmação e de revelação da nova vida do Espírito que está em nós. «Tudo o mais», que antes nos ocupava e nos preocupava tanto, agora se converte em dom ou desafio que reforça ou aprofunda a nova vida que temos des­coberto (H. J. M. Nouwen, Invifo a Ia vita spirituale).

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 28 DE MAIO DE 2020

João 17,20-26 (Oração de Jesus) – Na terceira parte de sua «Oração sacerdotal» Jesus di­lata o horizonte. Antes havia invocado ao Pai por si mesmo e pela comunidade dos discípulos. Agora sua oração se estende em favor de todos os fu­turos crentes (vv.20-26). Após uma invocação ge­ral (v.20), seguem-se duas partes bem distintas: a oração pela unidade (vv.21-23) e pela salvação (vv.24-26). Jesus, depois de ter apresentado as pessoas pelas quais pretende orar, pede ao Pai o dom da unidade na fé e no amor para todos os crentes. Esta unidade tem sua origem e está qualificada pelo “mesmo que» (=kathós), quer dizer, pela co-presença do Pai e do Filho, pela vida de união profunda entre Eles, fundamento e modelo da comunidade dos crentes. Neste ambiente vital, todos se fazem «um», na medida em que acolhem a Jesus e crÊem em sua Palavra. Este alto ideal, inspirado na vida de união en­tre as pessoas divinas encerra, para a comunidade, um vigoroso chamado à fé e é sinal lumino­so da missão de Jesus. A unidade entre Jesus e a comunidade se representa assim como uma habitação: «Eu neles e tu em mim» (v.23a). Em Cristo se realiza, portanto, o aperfeiçoamento para a unidade. Em seguida, Jesus manifesta os últimos desejos, nos quais associa aos discípulos, os crentes de todas as épocas da história, e para os quais pede o cum­primento da promessa já feita aos discípulos (v.24). No pedido final, Jesus volta ao tema da glória, re­cupera o tema da missão, quer dizer, o tema de fazer conhe­cer ao Pai (vv.25s), e conclui pedindo que todos sejam admitidos na intimidade do mistério, onde existe, desde sempre, a comunhão de vida no amor entre o Pai e o Filho. A unidade com o Pai, fonte do amor, tem lugar, não obstante, no crente, por meio da presença interior do Espírito de Jesus.

 

 

At 22,30; 23,6-11 (Comparecimento diante do Sinédrio) – É o segundo discurso de Paulo em sua nova con­dição de prisioneiro. Havia subido a Jerusalém para vi­sitar àquela comunidade e havia seguido, com «incau­ta» condescendência, o conselho de Tiago de subir ao templo. O descobrem e quase lhe custa à vida, se não tivesse sido sal­vo pelo tribuno romano, que lhe permite falar à multidão. Deste modo tem ocasião de contar, uma vez mais, sua conversão, re­lato ao qual se seguiu uma nova intervenção do tribuno romano ordenando aos soldados que o levassem ao quartel. Uma vez ali, Paulo declara sua cidadania roma­na. No dia seguinte levam-lhe ante o Sinedrio, onde pronuncia este habilidoso discurso. Paulo joga com as divisões entre fariseus e sadu­ceus a propósito da ressurreição dos mortos. Com isso desperta um furor teológico que faz com que a situação se complique. Os fariseus, superando a prudente posição do próprio Gamaliel, se unem com Paulo e ficam contra o adversário comum. Os romanos têm que salvar outra vez o apóstolo. A particular belicosidade dos judeus -belicosidade que se verifica nesta visita de Paulo- é um indicador da tensão nacionalista que estava crescendo no ambiente: tudo o que tinha possibilidade de ameaçar a identidade nacional era rejeitado, até o ponto de chegar à aberta rebelião contra Roma. São páginas que reproduzem o clima de exasperação nacionalista que conduzirá ao drama da des­truição da cidade. Paulo é consolado e tranquili­zado de novo sobre sua alta missão de «testemunho», não só em Jerusalém, mas no próprio coração do mundo conhecido. Foi uma vida heroica, a de Paulo, empregada, exclusivamente, a serviço do Evangelho.

 

Sl 15/16 (Iahweh, minha parte na herança) – Ninguém pode ficar sem senhor. Ou seguimos o Deus vivo e verdadeiro de Abraão, Isaac, Jacó, Jesus, Maria, dos apóstolos e também de todos nós, ou continuaremos a inventar “ídolos” fugazes que nada sabem: espiritismo, fitinhas, Nova Era, duendes… Não devemos vender nossa alma à idolatria, mas ser cada vez mais fiéis ao Deus vivo e verdadeiro. Idolatria e fé não combinam.

Senhor, liberta o meu coração da sedução dos ídolos. Que eu seja um adorador em espírito e verdade e que o meu coração seja o teu verdadeiro templo santo, onde possa te adorar em todos os dias da minha vida.

 

 

MEDITATIO: «Que também eles estejam unidos a nós; des­te modo, o mundo poderá crer que Tu me enviaste» (Jo 17,21): a «prova» de que Jesus não é um charlatão, nem um dos tantos profetas, mas o enviado de Deus confiado à fraternidade entre os discípulos, que é o sinal por excelência da origem divina do cristianismo: isso é o que dizem as palavras do Senhor. Construir fraternidade é a apologética mais segura e au­torizada. As palavras do Senhor são claras e vinculam a cre­dibilidade do cristianismo à sua capacidade de promover a fraternidade. Essa capacidade se manifesta ali onde os homens põem seu empenho em viver como irmãos; ali onde se tem como essencial aceitar-se cada um como é, para tender à uni­dade;onde não se busca sobressair, impor, rivali­zar, emergir, mas ajudar-se, compreender-se, apoiar-se; onde a benevolência constitui um programa prio­ritário; onde se põem as bases para uma recupe­ração do crédito no cristianismo. Estas palavras foram e são esquecidas com muita frequência. Isso tem tido como consequência na vida espiritual, na missão, na pastoral, outros ideais são cultivados. Outra consequência tem sido o escasso caráter incisivo desses programas, ao qual o Senhor não tem garantido o valor de «sinal provatório» de sua origem divina, nem de sua mensagem.

 

ORATIO: Quão cego estou, Senhor! Tuas palavras passam por ci­ma de mim como se fossem pedras, sem deixar um sinal per­manente. A razão disso é que tenho me comprometido em mil coisas, e tenho esquecido o que tu consideras priori­tário para promover teu reino. Tenho tentado fazer muito, mas tenho esquecido de mergulhar na fraterni­dade, que é o que tu, sem dúvida, consideras como teu sinal. Tenho de reconhecer, Senhor: com frequência tua mensagem não emerge, e não o faz porque não brotam comuni­dades fraternas perfeitamente realizadas. Abre meus olhos para compreender o mistério da fraternidade, a força missionária da comunhão, capaz de vencer os temores e as resistências. Ajuda-me a crer no mi­lagre da fraternidade como ponto de partida para toda missão. Ajuda aos cristãos a redescobrir o al­cance revolucionário destas tuas palavras, para que, se comprometam neste projeto, que é, com toda segurança, o teu. Outros projetos são, provavelmente, demasiadamente humanos.

 

CONTEMPLATIO: Revestidos do hábito religioso aos olhos de todos, te­mos vindo de situações sociais diferentes, para viver juntos nossa fé e, escutar a Palavra do Senhor onipotente, e, pecadores em diferentes graus, te­mos nos reunido até formar um só coração na santa Igreja, de tal modo que se vê realizado com claridade o que disse Isaías anunciando a Igreja: “Serão vizinhos o lobo e o cordeiro» (Is 11,6). Sim, graças às entranhas da santa caridade, o lobo viverá junto ao cordeiro, porque aqueles que no mun­do eram vorazes convivem em paz com os bons e mansos. O leopardo se deita junto ao cabrito porque um homem, marcado pelas manchas de seus pecados, aceita humilhar-se junto com quem se humilha e se re­conhece pecador (Gregório Magno, Homilias sobre Eze­quiel, 11, 4,3).

 

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Que também eles estejam unidos a nós; des­te modo,

o mundo poderá crer que tu me enviaste» (Jo 17,21).

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: Jesus nos revela que fomos chamados por Deus para sermos tes­temunhos vivos de seu amor, e chegamos a sê-lo seguindo a Jesus e amando-nos uns aos outros como Ele nos ama. Que supõe tudo isto para o matrimônio, para a amizade, para a comunidade? Supõe que à fonte do amor que sustenta as relações não são os que as vivem, mas Deus, que os chama ao mesmo tempo. Amar um ao outro não significa agarrar-se ao outro para estarem seguros em um mundo hostil, mas, viver juntos de tal modo que cada um possa reconhecer-­nos como pessoas que fazem visível o amor de Deus no mundo. Não só toda paternidade e maternidade procedem de Deus, mas que também procedem dele toda amizade, toda associação em ma­trimônio e toda comunidade. Quando vivemos como se as relações humanas fossem somente de natureza humana e, portanto, su­jeitas às transformações e as mudança das normas e dos costumes, não podemos esperar outra coisa que a imensa frag­mentação e alienação que caracterizam a nossa sociedade. Porém, quando invoquemos a Deus e o reclamemos constantemente como fonte de todo amor, descobriremos o amor como um dom de Deus a seu povo (H. J. M. Nouwen, Vivere neJ/o Spirito).

 

 

SEXTA-FEIRA, 29 DE MAIO DE 2020

João 21,15-19 (Aparição à margem do lago de Tiberíades) – A passagem está totalmente centrada na figura de Pedro. O evangelista João, com dois pequenos frag­mentos discursivos, especifica qual é o papel do após­tolo na comunidade eclesial: foi chamado para de­sempenhar o ministério de pastor (vv.15-17) e para dar testemunho com o martírio (vv.18s). Daí que o Senhor Jesus, antes de confiar ao apóstolo Pedro o encargo pastoral da Igreja, lhe exija uma confissão de amor. Essa é a condição in­dispensável para poder exercer uma função de guia es­piritual. E o Senhor requer o amor de Pedro três vezes (vv.15.16.17), com um ritmo crescente. A insistência de Jesus Cristo no amor deve de ser lida como condição para estabelecer a relação de intimi­dade filial que Pedro deve manter com o Senhor. Antes que em qualquer dote humano, o ministério pastoral de Pedro se baseia em uma confiada comunhão interior e não em um posto de prestígio ou de poder: uma intimidade que não pode ser apreciada com medidas humanas, mas que é reconhecida pelo Senhor, que perscruta o coração. E o Filho de Deus, que conhece bem o ânimo do apóstolo, lhe responde confiando-lhe a missão de apascentar seu rebanho: «Apascenta minhas ovelhas» (v.17c). Ao ministério pastoral segue-se depois o testemunho do martírio. Também Pedro deve afirmar seu amor a Jesus Cristo com a entrega de sua vida (cf. Jo 15,13). O texto conclui com algumas palavras do autor sobre o tema do seguimento. A missão da Igreja e de todos os seus discípulos é sempre o segui­mento a Cristo, único modelo de vida.

 

 

At 25,13b-21(Paulo comparece perante o rei Agripa) – Passaram-se dois anos e Paulo segue prisioneiro. Porém, também tem chegado Festo, um magistrado muito mais honesto e solícito que o anterior. A leitura apre­senta uma das muitas vicissitudes pelas quais passa o prisioneiro Paulo, que não perde ocasião para anunciar o que, para ele, é o mais importante, inclusive ante o rei e os príncipes, por muito indignos e pouco exemplares que sejam como o incestuoso casal formado por Agripa e Berenice. O procurador Festo havia compreendido bem o núcleo da questão: o que separava os judeus de Paulo não era uma doutrina, mas um fato, melhor ainda: o testemunho sobre o fato da ressurreição de Jesus. Lucas parece um admirador do sistema jurídico ro­mano e inclusive traz à luz alguns de seus princípios retos. E manifesta a prontidão para explorar em favor do Evangelho este admirado ordenamento jurídico. Paulo poderá ir a Roma graças a sua apelação a César. Irá como prisioneiro, é verdade, porém irá a Roma. É interessante ler a continuação do relato, onde se apresenta o encontro de Paulo com o estranho casal e com o representante do Império romano: tam­bém eles estão interessados no assunto de Jesus e con­vertem a ressurreição em tema de conversa. A coragem de Paulo, que não teme expor-se, obriga a todo tipo de pessoas a pôr-se frente ao fato da ressurreição, que agora se converte no motivo fundador do novo caminho de salvação.

 

Salmo 102/103 (Deus é amor) – Por meio de um canto suave, o salmista goteja afeto e amor ao Senhor e canta suas maravilhas e seus atos de ternura para conosco. Devemos meditar este Salmo lentamente, saboreando cada palavra que nos introduz nos ministérios do coração de Deus. Quando rezamo-lo com fé, o Senhor nos fortalece e confronta. Todo o amor de Deus Pai nós podemos contemplar na pessoa de Jesus: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4) O Pai nos enviou o seu único Filho, Jesus, por puro amor a nós e para que Ele nos ensinasse o caminho da vida plena. O grande hino de ação de graças que podemos oferecer ao Pai em resposta à sua generosidade não é realizado por meio de palavras, mas sim com a própria vida. Tocam-me profundamente as palavras deste Salmo: “[O Senhor é] lento para a cólera e rico em bondade”. Ele tem pressa em nos amar, em nos perdoar. Não perca tempo, o Senhor está lhe esperando! Se você compreende melhor este Salmo, leia e medite o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, as três grandes parábolas da misericórdia. Bendize minh’alma e não se esqueça de nenhum dos benefícios do Senhor.

Senhor, como é maravilhoso parar um pouco com as minhas atividades e pensar em quantos benefícios até hoje tenho recebido do teu amor. Deixa que minha alma, como a do salmista, se expanda, se dilate e cante “bendize minha alma ao Senhor por todos os benefícios e não esqueça nenhum”. Quero-te agradecer por me ter criado; como é bela a vida; mesmo mesclada pelo sofrimento, com decepções; com dores, vale a pena viver e agradecer com todas as batidas do meu coração, com todos os meus tons e repertório. Que tudo cante o teu louvor. Bendigo-te por minha família, pelos pais, por todas as pessoas que passaram hoje na minha vida: obrigado, Senhor. Senhor, animado pela força da fé, quero também bendizer pelas cruzes, pelos sofrimentos e por todas as pessoas que me fizeram sofrer e que me ajudaram a amadurecer na minha caminhada. Com Santa Teresinha quero te dizer “tudo é graça”; agradeço-te com a lucidez que hoje tenho, Senhor, por tudo que vier até minha morte; dá-me força para sempre dizer: muito obrigado por tudo. Amém.

 

 

MEDITATIO: O Evangelho do «discípulo amado» recupera o papel de Pedro no amor misericordioso. Só quem experimenta este amor pode apascentar o rebanho recolhido pelo Amor. Só quem responde ao amor de Cristo- amor misericordioso – pode estar em condições de ser colocado à frente de seu rebanho, pois deve ser testemunho desse amor. A página que nos ocupa é de uma enorme densidade e está impregnada pelo tema central de todo o Evange­lho de João: o amor, o amor de Deus, o amor misericordioso. Por amor, o amor misericordioso, o Pai entregou o Filho; por amor – o amor misericordioso- o Filho entregou sua vida, por amor – amor misericordioso- Cristo reuniu os seus; o amor é a lei dos discípulos, o amor misericordioso – deve mover a Pedro, e para dar tes­temunho deste amor o discípulo amado escreveu seu Evangelho. Toda a história divina e humana está movi­da por este amor, que nasce do coração de Deus, se revela no Filho, é testemunhado pelos discípulos e se pede a quem «preside no amor». Os acontecimentos huma­nos se iluminam e resolvem com esta pergunta: “Amas-me?” e com esta resposta: «Sim, te amo». A história da Igreja está baseada na pergunta que Cristo dirige a todos os seus discípulos: Amas-me?”, e na resposta: «Sim, eu te amo». Que o Espírito, que é o Amor não criado, nos permita entrar neste diálogo ilu­minador e beatificante.

 

ORATIO: Não sei que dizer-te, Senhor, frente a este diálogo. Nele se encontra, simplesmente, tudo. Está toda a vida, todo seu mistério, toda sua luz, todo seu sabor, todo seu signifi­cado. Todas as demais questões se convertem em sim­ples ocasiões para expressar-te meu «sim». E como poderia ser de outro modo? Tu me criaste para dizer-me que me amas e para pedir-me que te ame. Pedes-me como um mendigo, enviando-me teu Filho como servo, para que não te ame por medo ou estupor frente a tua grande­za, mas para tocar as fibras secretas de meu coração, para ferir-me com tua benevolência, para conquistar-me com a beleza de teu rosto desfigurado na cruz. Ainda que como Pedro -porém mais que ele- sinto às vezes mais de um titubeio para dizer-te que te amo (porque sou um pecador que persevera em seu pecado), apesar de tudo, agora, neste momento, como posso deixar de dizer-te que te amo? Como posso deixar de dizer-te que quisera amar-te por toda a vida? Como posso não dizer-te que quero amar todas as coisas e a todas as pessoas em ti? Como não dizer-te que prefiro perder todas as coisas desde que não venha perder a ti? Ó, meu amantííssimo Senhor, faz que não seja fogo de palha o que estou te dizendo, mas uma chama que não se apague nunca.

 

CONTEMPLATIO: Que significam estas palavras: «Amas-me?», «Apas­centa minhas ovelhas»? É como se, com elas, dissesse o Senhor: Se me amas, não penses em apascentar a ti mesmo. Apascenta, antes, as minhas ovelhas por serem minhas não como se fossem tuas; busca apascentar minha glória, não a tua; bus­ca estabelecer meu Reino, não o teu; preocupa-te de meus in­teresses, não dos teus, se não queres figurar entre os que, nestes tempos difíceis, amam a si mesmos e, por isso, caem em todos os outros pecados que desse amor a si mesmos derivam, como de seu princípio. Não nos amemos, pois, a nós mesmos, mas ao Senhor, e, ao apascentar suas ovelhas, busquemos seu interesse e não o nosso. O amor a Cristo deve crescer no que apascenta suas ovelhas, até alcançar um ardor espiri­tual que lhe faça vencer, inclusive, esse temor natural à morte, de modo que seja capaz de morrer, precisamente, porque quer viver em Cristo (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Amas-me?” (Jo 21,16)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: O mistério insondável de Deus consiste em que Ele é um ena­morado que quer ser amado. O que nos criou está esperan­do nossa resposta ao amor que nos deu a vida. Deus não disse só: «Tu és meu amado», mas disse ainda: “Amas-me?”, e nos proporciona inumeráveis possibilidades para res­ponder «sim». Nisso consiste a vida espiritual: na possibilidade de responder «sim» a essa verdade interior. Compreendida deste modo, a vida espiritual muda radicalmente tudo. O fato de ter nascido, crescido, ter deixado a casa paterna e buscado uma profissão, ser exaltado ou rejeitado, caminhar e repousar, orar e brincar, adoecer e ser curado, viver e morrer…, tudo pode converter-se em expressão da pergunta divina: «Amas-me?». E em qualquer momento da viagem existe sem­pre a possibilidade de responder «sim» e de responder «não». Aonde nos leva tudo isto? Ao «lugar» de onde viemos, ao «lugar» de Deus. Fomos enviados a esta terra para passar nela um breve período e para responder, através das alegrias e dores durante o tempo que temos a nossa disposição, com um grande «sim» ao amor que nos foi dado e, ao fazê-lo, voltar ao que nos enviou com esse «sim» gravado em nossos corações (H. J. M. Nouwen, Sentirsi amati).

 

 

 

SÁBADO, 30 DE MAIO DE 2020

João 21,20-25 (A aparição à margem do lago de Tiberíades) – O epílogo do Evangelho de João está relacionado com a missão própria do discípulo amado. O fragmen­to está formado por duas pequenas unidades, que tam­bém estão subdivididas por sua vez: pregação sobre o futuro do discípulo amado (vv. 20-23); e segunda conclusão do Evangelho (vv.24s). O redator deste capítulo 21, através de uma comparação entre Pedro e o outro discípulo, pretende identificar, de maneira inequívoca, o «outro discípulo, ao qual Jesus tanto queria» (Jo 13,23; 19,26; 21,7.20). A pergunta que Pedro expõe, em seguida, a Jesus sobre a sorte do discí­pulo amado, recebe da parte do Mestre uma resposta, que não deixa lugar a equívocos. Nesta afirma a li­berdade soberana de Deus a respeito de cada homem. Porém, talvez seja possível projetar alguma luz sobre estes misteriosos versículos tentando manifestar certo fundo histórico do tempo no qual o autor os escreveu. O texto não foi provocado, real­mente, pelas discussões que tiveram lugar na Igreja das origens entre os discípulos de Pedro e os do discípulo amado sobre o «poder primacial» do primeiro, mas foi introduzido pelo redator do capítulo para demonstrar, sobre uma base histórica, duas coisas: que carecia de fundamento a opinião difun­dida de que o discípulo amado não havia morrido; que essa morte, uma vez acontecida, tinha a mesma im­portância para o Senhor que o martírio sofrido pelo apóstolo Pedro. Por último, os versículos finais (vv. 24s) sublinham uma coisa simples, porém verdadeira: a revelação de Jesus, ligada ao ministério de sua pessoa, é algo tão grande e profundo que escapa ao alcance do homem.

 

 

 

At 28,16-20.30-31– Entre a leitura de ontem e a de hoje está à agitada viagem de Paulo: de Cesareia à ilha de Creta, os 14 dias de tempestade, a estadia em Malta e da até Roma, a cálida acolhida da parte dos irmãos. O texto de hoje é um resumo de sua atividade em Roma, onde Paulo pode viver em «re­gime de liberdade vigiada» em uma casa privada. Co­meça a pregação aos judeus com resultados alternos, podia «anunciar o Reino de Deus e ensinar quanto se refere a Jesus Cristo, o Senhor, com toda liberdade e sem obstáculo algum». Lucas alcançou seu objetivo: a carreira da Pa­lavra não pára; o Evangelho chegou ao coração do mundo, é predicado com toda liberdade e sem obs­táculo algum «até os confins da terra». Nada pôde nem poderá detê-lo. Paulo é um dos muitos testemunhos de Jesus, um campeão exemplar, heróico e do­tado de autoridade, porém não o único. As vicissitudes pessoais de Paulo não parecem interessar demasiadamente a Lucas, que corta aqui seu relato, sem informar-nos sobre a sorte do campeão: o que lhe importa de verdade é que Paulo tenha culminado sua própria missão, uma mi­ssão que é a de todo cristão, a saber: ser testemunha da ressurreição, ter a coragem de anunciá-la por onde quer que vá, converter cada situação, ainda a mais improvável, em uma ocasião para dizer que Jesus é o Senhor e o Salvador. «A Palavra de Deus não está acorrentada» (2 Tm 2,8s). Não há ocasião na qual não possa ser anunciada a Palavra de Deus.

 

 

Sl 10/11 (Confiança do justo) O que sustenta o justo diante da vitória dos injustos é a confiança em Deus, a capacidade de esperar a vitória do bem. Nunca devemos desistir da luta, nem nos refugiar nos montes, e tampouco temer, pois os profetas permanecem no meio do mundo sem se deixar corromper. Jesus vem nos dizer que, apesar de estarmos no mundo, não somos do mundo. A vida é luta constante e devemos evitar o envolvimento com o mal e estar acima de tudo aquilo que não é agradável aos olhos do Senhor.

Senhor, há momentos em que tenho medo do mal, mas sei que devo enfrentá-lo corajosamente. Não posso desistir da luta contra a traição e a injustiça. Não importa que eu fique só, mas não quero mais viver com os que cometem injustiça e aumentam o sofrimento dos mais pobres. Quero ser teu profeta e amigo. Amém.

 

 

MEDITATIO CONTEMPLATIO – LEITURA ESPIRTUAL

 

Podemos concentrar nossa reflexão unindo as duas partes em um esplêndido fragmento de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona faz a comparação entre Pedro e João.

 

A Igreja conhece duas vidas, que a pregação divi­na lhe tem ensinado e recomendado:

Uma delas é na fé, a outra é na clara visão de Deus;

Uma pertence ao tempo da peregrinação neste mundo, à outra à morada perpétua na eternidade;

Uma se desenvolve na fadiga, a outra no repouso;

Uma nas obras da vida ativa, a outra no prêmio da contemplação;

Uma tenta manter-se afastada do mal para fazer o bem, a outra não tem que evitar nenhum mal, mas só gozar de um imenso bem;

Uma combata com o inimigo, a outra reina sem muitos contrastes;

Uma é forte nas des­graças, a outra não conhece a adversidade;

Uma luta para manter freadas as paixões carnais, a outra repousa nas alegrias do espírito;

Uma se afana por vencer, a outra goza tranquila em paz dos frutos da vitória;

Uma pede ajuda sob o assalto das tentações, a outra, livre de toda tentação, se mantém em alegria no seio daquele que lhe ajuda;

Uma corre em ajuda do indigente, a outra vive onde não há necessidades;

Uma perdoa as ofensas para ser, a sua vez, perdoada, a outra não sofre nenhuma ofensa que tenha que perdoar, não tem que fazer-se perdoar nenhuma ofensa;

Uma está submetida a duras provas que a preservam do orgulho, a outra está tão cumulada de graça que se sente livre de toda aflição, tão estreitamente unida ao sumo bem, que não está exposta a nenhuma tentação de orgulho;

Uma discerne entre o bem e o mau, a outra não contem­pla mais que o bem. Em consequência, uma é boa, porém se encontra, ainda em meio às misérias; a outra é melhor porque é beata.

A vida terrena está re­presentada no apóstolo Pedro; a eterna, no apóstolo João.

O curso da primeira segue até a consu­mação dos séculos e ali encontrará seu fim; a realização cabal da outra está remetida ao final dos séculos e ao mundo futuro, e não terá nenhum término.

Por isso o Senhor disse a Pedro: «Segue-me», enquanto que falando de João disse: «Se quero que ele perma­neça até que Eu volte, que te importa? Tu segue-me».

Que significam estas palavras?

Segundo o que posso julgar e compreender, este é o sentido: «Tu segue-me, supor­tando, como eu tenho feito os sofrimentos tempo­rais e terrenos; aquele, sem dúvida fica até que eu venha entregar a todos a posse dos bens eternos».

Aqui suportamos os males deste mundo na te­rra dos mortais; lá no alto veremos os bens do Senhor, na terra dos vivos, para sempre.

Que ninguém, sem dúvida, pense separar estes dois ilustres após­tolos.

Ambos viviam a vida que se personifica em Pedro e ambos viviam a vida personificada em João.

Na imagem do que representava, um seguia a Cris­to, o outro estava à espera.

Ambos, sem dúvida, por meio da fé, suportavam as misérias deste mundo e esperavam também, a felicidade futura da bem-aventurança eterna.

 

ORATIO: Ajuda-me, Senhor, a suportar, na terra os males nos quais nós temos de morrer para gozar de teus bens na terra dos vivos.

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Tu, segue-me” (Jo 21,22b)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – “’Senhor?…’ – ‘Que tens com isso? Tu segue-me’» (Jo 21,22). Deus não conduz todas as almas pelo mesmo caminho. Aquele que julga caminhar pelo caminho mais humilde é talvez o maior aos olhos do Senhor. Assim, porque neste mosteiro todas se dedicam à oração, não se conclui que todas devam ser contemplativas. É impossível, e a ignorância desta verdade pode desolar as que o não são… Eu passei mais de catorze anos sem sequer poder meditar, a não ser lendo, e deve haver muitas pessoas assim. Outras são incapazes de meditar, mesmo com a ajuda de um livro. Elas só conseguem rezar vocalmente: isso fixa-as mais… Há muitas pessoas semelhantes. Mas se são humildes, creio que no fim de contas elas não serão as menos afortunadas: elas irão juntamente com as almas inundadas de consolações. De uma certa maneira, o seu caminho é mesmo mais seguro, porque nós ignoramos se essas consolações vêm de Deus ou se o demônio é o seu autor… Essas pessoas que não têm consolações caminham na humildade, temendo sempre que seja por culpa delas, e têm um cuidado contínuo em avançarem. Ao verem outras verterem uma lágrima, logo lhes parece que se elas não choram, é sinal de que estão muito atrasadas no serviço de Deus, elas que talvez estejam mais avançadas do que as outras. Com efeito, as lágrimas, embora boas, não são inteiramente perfeitas, e há sempre mais segurança na humildade, na mortificação, no desprendimento e em outras virtudes. Assim não temais nada, e dizei a vós mesmas que não deixareis de chegar à perfeição, tal como os grandes contemplativos (Santa Teresa D’Ávila, Caminhos da Perfeição).

AUTORES:(Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra)

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