LECTIO DIVINA NA SEMANA DE 15 A 19 DE ABRIL DE 2019

LECTIO DIVINA DA SEMANA SANTA

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SEGUNDA-FEIRA SANTA, 15 DE ABRIL DE 2019QUARESMA – ANO C

João 12,1-11(A unção de Betânia)= Mt 26,6-13; Mc 14,3-9 – “Seis dias antes da festa judia”: a habitual pre­cisão de João nos permite hoje reviver, pontualmente, na liturgia, a graça dos últimos acontecimentos que prepararam a Páscoa do Senhor. A ceia de Betânia é prelúdio da última ceia. Segundo a mentalidade daquele tempo, a comida, particularmente a consumida juntos, reveste-se de um caráter sagrado, pois indica comu­nhão de vida e ação de graças pela mesma. Este aspecto, nesta ceia, se aprofunda mais ainda pela presença de Lázaro, “ressuscitado dentre os mortos”, do qual se disse que era um dos que “estavam recostados” com Jesus (segundo o costume de comer): grande proximidade de vida e morte, presságio de comunhão de destino… Porém, é a figura de Maria a que apa­rece em primeiro plano com seu silencioso gesto de amor e adoração, sem cálculo, nem medida. O perfume que de­rrama aos pés de Jesus é muito caro: trezen­tos denários (corresponde ao salário de dez meses de trabalho de um operário). E toda a casa, diz o evangelista referindo-se ao Cântico dos Cânticos (1,12), se encheu da fragrância. É um detalhe que nos mostra em Maria a imagem da Igreja, Esposa unida, amorosamente, ao sacrifício de Cristo-Esposo. À doação total sem limites se contrapõe a mesquinhez de Judas (vv.4-6). Sem rodeios, João nos apresenta dois tipos no seguimento do Senhor, Maria e Judas: o amor dilatou o coração de um; a mesquinhez fechou o coração do outro.

 

 

Isaias 42,1-7 (Primeiro canto do servo) – Nestes dias santos ergue-se diante de nós a figura do Servo de Yahweh. Figura silenciosa e majestosa, que surge para introduzir-nos no mistério pascal: sua eleição, missão e sofrimento é profecia da sorte de Cristo. Deus mesmo apresenta seu Servo. Ele­geu-o para uma missão difícil e de capital importância, por isso o sustenta. Consagrado com o espírito profé­tico, o Servo levará o “direito” a todas as gentes, quer dizer, o conhecimento prático dos juízos de Deus (v.1). Este caráter “judiciário” se ilustra com a ima­gem dos vv.2ss, onde a missão do Servo se indica tomando a figura do “arauto do grande Rei”. Segundo os costumes da Babilônia, o arauto estava encarregado de proclamar nas praças da cidade os decretos de condenação à morte. Se ao con­cluir a proclamação não surgisse nenhuma testemunha em defe­sa do condenado, rompia a cana e apagava a lâmpada que levava, para indicar que a condenação era irrevogável. Agora, o Servo do único verdadeiro Rei, Deus, não quebra a cana rachada e nem apaga a chama que ainda fumega. Mensageiro de seu julgamento, não vem condenar, mas salvar. Com a força da man­sidão e a firmeza da verdade, perseverará em sua tarefa; as regiões mais longínquas, os que estão longe de Deus, atenderão à Torá, ao ensinamento que nos traz (v.4). Em Jesus Cristo, a figura se converte em realidade. Cristo é, por sua vez, o verdadeiro Servo sofredor e o verdadeiro liber­tador da humanidade, do cárcere do pecado, eleito e enviado para a salvação. Ele é a luz que veio ao mundo para iluminar a todas as gentes. Ele é o mediador de uma nova e eterna aliança (vv.6s), ratificada com seu corpo entregue e com seu sangue derramado.

 

Sl 26/27 (Junto a Deus não há temor) – Este Salmo é uma “pérola” de todo o livro do saltério. Não deixe de lê-lo e meditá-lo muitas vezes sozinho, principalmente nos momentos em que a noite avança e a tristeza nos visita, quando nos sentimos sozinhos e parece que o mal nos vence, e estamos prestes a cair debaixo da cruz. Esta leitura nos faz descobrir a intimidade da oração e da contemplação, por isso ocupa na vida dos místicos e dos santos um lugar todo especial. Deus nos ama e nos esconde no interior de sua tenda.

Senhor, que eu possa experimentar nos momentos difíceis da minha caminhada a certeza do salmista: confiar no teu amor, esconder-me na tua tenda e contemplar a vitória do bem sobre o mal. Que eu, Senhor, possa em cada momento experimentar a suavidade do teu amor. Que este Salmo possa ser o meu forte alimento e o pão da caminhada da minha vida. Amém.

MEDITATIO: Essa atmosfera cálida de afeto e amizade, também nos convida à ceia de Betânia, para estar com Jesus. Permanecemos nessa casa acolhedora para afiançar nosso seguimento de Jesus: um caminho de salvação, da morte à vida, como aconteceu a Lázaro, ou de ativa solicitude que se converte em serviço cotidiano ao Mestre e aos seus, como Marta. Um caminho de amor, de adoração que dilata, dia após dia, o coração, ou, talvez, de reservas, resistências e cálculos cada vez mais mesquinhos que acabam afogando-nos na avareza: Ma­ria e Judas, ambos discípulos do Senhor, se apresentam como limites. O estar com Jesus, ouvir sua Palavra, partilhar sua existência, não é, ainda, o que decide nossa meta e passos para conquistá-la. É decisivo reconhecer e acolher o amor que Ele é e dá. Judas não o acolheu, por isso condena o excesso de Maria, fazendo suas contas com o pretexto dos pobres… Maria fez desse amor sua vida; o centro de gravidade que a tira fora de si mesma, sem cálculos, sem raciocínios; com intuição muito precisa e luminosa, ficou com o essencial: com o pobre Jesus que dá tudo. Maria não pode esperar, e quer imitar, com o sinal de um gesto ao seu Mestre: derrama sobre esses pés que lhe abriram o caminho de uma plenitude inespera­da de amor, agora no tempo e, crê firmemente, também na eternidade, o nardo preciosíssimo, guar­dado com cuidado, imagem de uma vida totalmente de­rramada na caridade. “E toda a casa se encheu da fragrância do perfume.”

 

ORATIO: Senhor Jesus, que vieste ao mundo para ser o homem mais familiar de nossa casa, vem esta tarde e todas as tardes partilhar conosco a ceia dos amigos. Faz de cada um de nós tua Be­tânia perfumada de nardo, onde os íntimos segredos de teu coração encontrem o caminho silencioso de nosso coração, para que possamos viver contigo a hora su­prema do amor e dizer-te, com um gesto de pura adoração, porque tu viveste tua vida e morreste tua morte, por nós. Amém.

 

CONTEMPLATIO: Estava eu meditando sobre a morte do Filho de Deus encarnado. Todo meu afã e desejo era como poder esvaziar melhor a mente de tudo que se ocupa, para ter mais viva memória da paixão e morte do Filho de Deus. Estando ocupada com este afã, de repente ouvi uma voz que me disse: “Eu não te amei fingidamente”. Aquela pa­lavra me feriu com dor de morte, pois se me abri­ram a tal ponto os olhos da alma, vendo quão verdadeiro era o que me dizia. Via os efeitos daquele amor e o que movido por ele fez o Filho de Deus. Via em mim tudo ao contrário, porque eu lhe amava só de fingidamente, não de verdade. Ver isto era para mim uma dor de morte tão sofrida que queria morrer. Logo me foram ditas outras palavras que aumentaram minha dor […]. Enquanto dava voltas àquelas palavras, ele acrescentou: “Sou Eu mais íntimo a tua alma que tua alma a si mes­ma”. Isto aumentava minha dor, porque quanto mais ínti­mo Ele via a mim mesma, tanto mais reconhecia a hipocri­sia de minha parte. Estas palavras suscitaram em minha alma desejos de não querer sentir, nem ver, nem dizer nada que pu­desse ofender a Deus. E isso é o que Deus requer a seus filhos, aos que chamou e escolheu para sentir-lhe, ver-lhe e falar com Ele (Ángela de Foligno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:Fazei do amor a norma de vossa vida, a imitação de Cristo, que nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O unguento que Maria estende é símbolo da comunhão nupcial com Jesus manifestado pela comunidade cristã. Celebramos o chamado de nossas comunidades cristãs, representadas por Maria de Betânia, à comunhão total com Jesus, doador de vida. É ele quem transforma o que deveria ter sido um banquete fúnebre memória de Lázaro em um banquete gozoso. É ele quem muda o odor insuportável de um morto “de quatro dias” no perfume que inunda a casa de alegria. É ele quem contesta a todos os Judas da terra, que consideram um esbanjamento o unguento precioso da intimidade com Deus e opõem os pobres ao Senhor. É ele quem rejeita a “prática” dos que preferem a eficiência do dinheiro a qualquer êxtase de amor e reduzem maliciosamente a um valor monetário o que não tem preço. É a ele, em resumidas contas a quem devemos buscar na oração do abandono, na experiência contemplativa e em nosso modo de viver. Que o Senhor nos livre do erro de Judas, que, insensível ao perfume de nardo, só escuta o ressonar das moedas, e em vez de perceber o esplendor do azeite, se deixa seduzir pelo brilho do dinheiro. Qual é este perfume de unguento com o qual devemos encher a casa, e qual é este bom odor de Cristo que devemos difundir pelo mundo? O perfume que deve encher a casa é a comunhão. Naturalmente, como o que comprou Maria de Betânia, o unguento da comunicação tem um preço muito elevado. E devemos pagá-lo sem desconto, com muita oração, já que não se trata de um produto comercial de venda em nossas perfumarias, nem é fruto de nossos esforços titânicos. É um dom de Deus que devemos implorar sem cansar-nos. Porém o conseguiremos, estou seguro e seu perfume encherá toda nossa igreja. (A. Bello, Lessico di comunione, Terlizzi).  

 

 

TERÇA-FEIRA SANTA, 16 DE ABRIL DE 2019QUARESMA – ANO C

João 13,21-33.36-38 (O Anúncio da traição de Judas; A despedida) =Mt 26,21-25; Mc 14,18-21; Lc 22,21-25 – Jesus, depois do lava pés e das pri­meiras alusões à traição (vv.10-11.18), declara abertamente, profundamente comovido: “Um de vós vai me trair”. O anúncio e sua própria perturbação deixam perplexos e desconcertados, os apóstolos, que tratam de identificar o traidor… Nestas circunstân­cias aparecem alguns traços da vida da comunidade dos Doze com Jesus: a iniciativa de Pedro, eviden­ciando sua autoridade; a relação de particular sintonia de um discípulo com o Senhor; a infinita delicadeza de Jesus, que, enquanto assinala Judas o traidor, lhe oferece um bocado de pão untado, sinal de honra e consideração, último apelo do amor. Mas, como Judas rejeita, definitivamente, responder ao amor de Jesus, a sorte do Nazareno está lançada, e não cabe demora (v.27b). Uma vez tomado o bocado da amizade e rejeitado o Amigo, Judas não pode mais estar no círculo dos amigos: “Saiu imediatamente. Era noite”. A noite das trevas, da mentira, do ódio que lança na solidão, no reino de Satanás. Jesus explica o sentido de tudo que está acontecendo. Precisamente agora que Judas saiu para executar seu plano de trair seu Mestre, o Filho do homem é glorificado. E Deus é glorificado nele porque, na en­trega do Filho à cruz, manifesta seu amor sem limites à humanidade. A hora da morte e ressu­rreição, constituem, juntas, a hora única da glória, da esplêndida manifestação de Deus, que é amor. Com o v.33 começa o discurso de despedida de Jesus aos seus. Sabe que deixará um vazio impossível de encher (v.33a), ainda que necessário (v.33b), mas não definitivo, como aparece na resposta a Pedro. Porém, em sua ge­nerosidade intempestiva, o apóstolo não suporta esperar e diz estar disposto a dar a vida, com afã de seguir ao Senhor. Precisamente aqui se revela a necessidade da separação de Jesus: sem a força que brota de sua paixão e ressurreição, sem a presença do Espírito, ninguém está pronto para seguir a Cristo (Antes que o galo cante…“: v.38b).

 

Isaias 49,1-6 (Segundo canto do servo) – O Servo de YAHWEH levanta a voz pedindo que lhe escutem atentamente, inclusive os mais distantes (v.1a): sua missão deverá chegar até os confins da terra (v.6b). Nos conta sua história, resumindo-a em certos mo­mentos capitais: a vocação nas origens de sua vida, manifestando o desígnio de Deus (é ele quem forma seu eleito como instrumento adequado, ao qual lhe reserva um encargo concreto: proclamar com eficácia a palavra vv.1s); a seguir, o oráculo com o qual o Senhor lhe confirma em sua identidade (v.3a) e sua missão (v.3b). Em um primeiro momento, a missão acaba em um fra­casso, e a inutilidade da fatiga pesa no coração do Servo. Formado desde o seio materno para reunir e converter seu povo ao Senhor (v.5), experimenta o can­saço, porém sabe reconhecer que Deus leva sua causa, es­tima e recompensa seu obreiro (v.4). A estima que o Senhor lhe manifesta é a força que lhe infunde (v.5b), fortalecendo o Servo, que acolhe e pronuncia um no­vo oráculo de Deus: a hora da prova e do fracasso não acaba com sua atividade profética, mas que é instru­mento para dilatar, sem limites, a irradiação de sua mensagem. A missão do Servo será universal: por meio dele, convertido em luz das nações, Deus quer chegar com o dom de sua salvação aos últimos confins da terra (v.6).

 

Salmo 70/71 (Súplica de um ancião) – O Salmo aborda um tema já muito conhecido: as lamentações. Nele percebemos o abandono e a busca do salmista por alguém em quem possa confiar e desabafar. E esse alguém é o Senhor seu Deus, pois somente em Deus podemos depositar nossa total confiança e confidenciar os nossos “segredos” com a certeza de que nos compreenderá e não os contará a ninguém. A Bíblia insiste, em vários momentos que aquele que encontra um amigo encontra um tesouro verdadeiro. Encontrar um tesouro não é algo corriqueiro, que acontece a todo momento. É raro. Olhando para nossas vidas, muitas são as pessoas que temos conhecido e poucos os amigos que têm sido presença em todos os momentos, especialmente nos duros e difíceis. O amigo verdadeiro se prova nas horas de dor, solidão e angústia. O salmista se dirige a Deus e suplica-lhe que na velhice não o abandone, porque desde a infância tem mostrado para Ele o seu amor e fidelidade.

Senhor, hoje, para te louvar e bendizer, quero recorrer ao salmista, que me convoca para crer no teu amor para sempre; tenho certeza que na minha velhice tu estarás comigo. “Tu me instruíste, ó Deus, desde a minha juventude e ainda hoje proclamo os teus prodígios. E agora, na velhice, de cabelos brancos, Deus, não me abandones, até que eu anuncie teu poder, as tuas maravilhas a todas as gerações que virão. A tua justiça, ó Deus, é alta como o céu, fizeste grandes coisas: quem é como tu, ó Deus? Fizeste-me provar muitas angústias e desventuras; tornarás a dar-me vida, me farás subir de novo dos abismos da terra. Aumentarás minha grandeza e outra vez me consolarás. Então te darei graças com a harpa, pela tua fidelidade a Deus, vou te cantar com a cítara, ó santo de Israel. Cantando os teus louvores, exultando meus lábios e a minha vida, que resgataste” (Sl 71, 17-23).

 

 

MEDITATIO: Como alguém, ao qual estamos habituados, de repen­te pode parecer-nos desconhecido, estranho no mistério de sua pessoa, assim deve ter acontecido aos discípulos no cenáculo àquela tarde. O mesmo acontece a nós hoje com Jesus: não compreendemos mais nada, ficamos perplexos ante a predição que nos faz. Percebe­mos que realmente vê a possibilidade de nossa traição, da incapacidade de manter a palavra, dessas sutis, insinuantes afirmações que temos a flor dos lábios e ferem o coração da comunidade cristã… E nós nem sequer nos damos conta de quão profunda é a ferida em seu coração, que está em agonia até o fim do mundo, segundo a expressão Pascal. E, apesar de tudo, e assim será sempre, para ele o traidor segue sendo o amigo ao qual dispensa um último gesto de predileção. Porque o amor não retira o que deu, não renega o que é. Prefere consumir-se na dor e na morte… Porém, hoje, na noite que rodeia a sala da ceia, uma luz fica acesa: finalmente temos intuído algo do mistério de Jesus. Para cada um de nós, que levamos por dentro as trevas de Judas, os frágeis atos impulsivos de Pedro e – esperamos – o amor de João, por cada um de nós não cessa de oferecer-se a si mes­mo, porque nos amou até o extremo. Esta é sua glória: mostrar no rosto desfigurado pelo sofri­mento, que o amor de Deus é fiel sempre, que o amor vencerá a morte. E mais, já venceu.

 

ORATIO: Ó Senhor, neste crepúsculo do tempo comparti­lhamos, contigo, a ceia, mesmo não entendendo teu mistério. E, sem dúvida, acreditávamos que te conhecíamos de tanto tempo… E quando, com profunda emoção, Tu nos revelas nosso próprio mistério, a tremenda possibilidade de traição e ódio, vemos que nos conheces desde sempre. Ajuda-nos a acolher a verdade do mal que há em nós, sem olhar, com desconfiança, uns aos outros, sem manifestar um desgosto desesperado de nós mesmos, sem presumir de sermos diferentes, melhores, dispostos a dar a vida por ti: não cantaria o galo e teríamos te negado não três, mas infinitas vezes. Dai-nos a fortaleza de permanecer na luz daquela sala no andar de cima: ali se revela a tua luz, o que de verdade somos, e fora é noite. Então podere­mos compreender algo de ti, que és o Amigo para sem­pre e não cessas de atrair-nos com vínculos de bondade. Ainda que te neguemos, permaneces fiel, porque não podes negar-te a ti mesmo.

 

CONTEMPLATIO: Agora chega à tarde daquele dia e à tarde de uma vida tão breve. Jesus está com os seus […]. Notemos a profunda solidão que lhe rodeia. Jesus está tão só que nosso coração se enche de medo. Ele está sentado no meio dos seus; dirige-lhes a palavra, porém eles não lhe compreendem. Em torno a Ele reina uma terrível e miste­riosa solidão, na qual o aprisiona o mundo que se fechou em si mesmo. Trata-se, se nos permite dizer assim, da solidão de Deus, no mundo que lhe pertence, porém, que não quis acolhê-lo (Jo 1,11). E, apesar de tudo, quer presentear-lhes o dom supremo. Jesus põe sua própria pessoa neste mistério do cordeiro pascal: ele é o vivente que amanhã deverá morrer para expiar com sua morte o pecado do mundo. Trate­mos de ser muito conscientes do alcance deste aconte­cimento, frente ao qual só cabem duas alternativas: a opção que nos leva a crer e a adorar ou a rejeição. Isto é o que aconteceu aquela tarde. Logo virá a morte. E, depois da morte, a ressurreição. E 50 dias após, terá lugar o acontecimento de Pentecostes, e o Espírito fará sua entrada no tempo. Ele assumirá a direção da História Sagrada e fará os crentes capazes de compreenderem ou, melhor, de reviverem o que passou na solidão e desorientação dessa última tarde (R. Guardini).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós(Rm 8,32)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A miséria do homem consiste em ter traído a Deus. Nenhuma injustiça humana será de verdade reparada até que não se repare esta injustiça com Deus. Acusamos-nos uns aos outros, e todos somos culpáveis. E os mais culpáveis somos nós, os cristãos medíocres. Sempre deveremos fazer esta confissão, sempre seremos indignos de Cristo. Porém não é o momentos de processar o homem quando Deus agoniza em nossos corações. Certamente, há necessidade materiais que devemos satisfazer hoje, pois há misérias corporais que não podem demorar-se nem uma hora mais. Minha intenção não é tanto a de atenuar o sentimento de sua urgência quanto demonstrar que sua existência provém de nosso abandono de Deus e que sua cura se derivará infalivelmente de nosso retorno a Deus. O que resulta tão grave na hora presente – e à sua vez tão grande – é que todos os problemas levam, de maneira muito aguda, uma ressonância mística, comprometem o Reino de Deus e nos impõem o dever inexorável de ajudar a Deus crucificado, condenado por nosso egoísmo e prisioneiro de seu Amor; compadecendo sua dor antes de enternecer-nos pelo nosso, esforçando-nos por aliviar a ferida que faz derramar seu sangue a seu coração. Agora é o tempo de sair a seu encontro no caminho doloroso ao qual as culpas humanas lhe arrastam martirizando seu rosto na alma pecadora. É necessário que nosso coração se converta em sacramento seu e que nenhum de nossos irmãos possa lamentar-se de não ter encontrado em nós sua ternura. Então diminuirão a dor e a sombra que projeta sobre o rosto do Amor (M. Zundel, Il Vangelo interire, Pádua).

 

QUARTA-FEIRA SANTA, 17 DE ABRIL DE 2019QUARESMA – ANO C

Mateus 26,14-25 (Traição de Judas; Preparativos para a ceia; Anúncio traição Judas) = Mc 14,10-16; Lc 22,3-13 – A escuta da presente passagem sempre é in­quietante: “Um dos doze”, um dos amigos mais ín­timos, dos discípulos aos quais ensinou com mimo particular, “foi…” por iniciati­va própria, por livre opção, entregar Jesus aos sumos sacerdotes (vv.3-5). Agora, como fera a espreita, Judas vive ao lado de Jesus buscando “ocasião propícia” (vv.16s). Ainda que, sendo capaz de uma iniquidade que supe­ra os limites humanos (é obra de Satanás: cf. Lc 22,3 e Jo 13,2), a liberdade do homem entra no plano de Deus: é o que Mateus deixa entender no v.15, citando a Zc 11,12 sobre o preço combinado com Judas. Ainda mais significativo é o uso teológico, comum em todas as narrações da paixão e de suas predições, do ver­bo ‘paradídomi’, (= “entregar”). Este verbo expressa, por um lado, a entrega-traição da parte dos homens e, de outro, a entrega-dom que o Pai faz do Filho e Jesus faz de si mesmo, até a suprema entrega do Espírito na cruz (Jo 19,30). O esmero com que, tradicionalmente, se prepara o rito pascal assume um significado mais profundo (vv.17-19): Jesus sabe que se aproxima seu kairós (v.16), sua hora, o tempo do acontecimento escatológico estabelecido por Deus. E ordena disposições muito precisas, porque “ardentemente desejei comer esta páscoa”: neste rito, substituirá o novo memorial ao antigo, deixando-nos seu corpo e seu sangue, como comida e bebida. Esta entrega de si mesmo com o maior amor aconte­ce em uma atmosfera carregada pelo anúncio da traição (“entrega”). Cada um, ferido em seu interior, desconfia de si mesmo e também de seus próprios companheiros. Surge um coro de perguntas, porém, enquanto os outros apóstolos se dirigem a Jesus com o apelativo de “kyrios”, Senhor, Ju­das lhe chama simplesmente “rabi”. Este Mestre é real­mente o Senhor, que conhece a seu traidor, pelo qual se cumpre a Escritura.

 

 

Isaias 50,4-9ª (Terceiro canto do servo) – Neste “terceiro poema do Servo de YAHWEH”, se acentua o tema do fracasso, que já estava presente em Is 49,1-6: O profeta encontra hostilidade e perseguição, inclusive violência. Sua vocação, com traços sa­pienciais, o qualifica como um discípulo que, por dom e missão do Senhor Deus, transmite a Palavra aos ímpios e indecisos. Só se o profeta se mani­festa cada dia como um discípulo pronto a escutar, poderá chegar a ser verdadeiro mestre: não dispõe da Palavra a seu gosto. Consciente, desde o princípio, das exigências de sua vocação, o Servo não opõe resistência a Deus; e seu pleno consentimento lhe faz forte e manso frente aos perseguidores: não se subtraiu à Palavra, nem recuou ante as injúrias e a violência dos que quiseram calá-la, reduzindo-a ao silêncio (vv.5s). Não lhe rende o sofrimento, nem lhe desorienta. O profeta confia na ajuda de Deus; ele o justificará ante os ad­versários: ninguém poderá demonstrar a culpabilidade de seu Servo, testemunha fiel e veraz da Palavra (vv.7-9).

 

Sl 68/69 (Lamentação)– Trata-se duma belíssima lamentação individual. O povo de Israel tem como hábito “queixar-se de Deus” e chorar os pecados, tanto os próprios quanto os dos irmãos. São conscientes de que os pecados individuais tornam-se sofrimento a toda a comunidade, assim como a santidade indivídual se torna em santidade e alegria para todos. Este sentimento de coletividade deve ser recuperado e transformado em solidariedade ao bem. Infelizmente, existem pessoas que são solidárias somente com o mal. Com uma imagem forte e eloquente, o salmista fala do medo que o assalta e dos perigos que pesam sobre sua vida. O salmista está enfrentando um período em que não consegue encontrar uma saída para os seus problemas. E este sentimento é comum a todos nós; mais cedo ou mais tarde nos depararemos com situações de extrema dificuldade, e conseguir enxergar uma saída não será uma tarefa fácil. São estes momentos preciosos que devem ser lembrados como um caminho de purificação, pois neles descobrimos o amor de Deus.

Senhor, quero fazer deste Salmo a minha oração preferida nos momento duros da minha vida, quando não enxergo nada e parece que estou em meio a nuvens espessas e densas ou num túnel, como Santa Teresinha do Menino Jesus. É neste momento que eu quero cantar a misericórdia, a beleza da fé. E crer, sem dúvidas, que a noite não é para sempre, que as nuvens não cobrem para sempre o Sol, que o mal deve ser vencido. Senhor, esta fé deve me sustentar; quero rezar de novo este Salmo com amor, pensando nas milhões de pessoas que se sentem perseguidas, solitárias e abandonadas; quero fazer deste Salmo um grande “cinturão” de segurança por meio do qual quero ser solidário aos que sofrem e compreender os que nada enxergam e nada conseguem amar. Ó Senhor, toca a humanidade sofrida, dura e insensível e faz que todos sejamos centelhas de amor e de verdade, para incendiar com o novo fogo o mundo em que vivemos. Amém.

 

MEDITATIO: Jesus revela quem é Deus e quem é o homem ma­nifestando-nos, em sua história divina e humana, o mistério da liberdade de ambos. Aparece, claramente, na paixão, quando pessoas e acontecimentos parecem, restringi-lo, quebrantá-lo, até cravá-lo na cruz. No Evangelho de hoje aparecem os dois polos extremos do poder humano: a liberdade de entregar e trair (abis­mo de apostasia: Judas) e a de entregar-se e dar-se (cume do amor maior pelos demais: Jesus). En­tre os dois polos, cada um é livre de mover-se, de realizar suas opções cotidianas, porém o Evangelho nos faz conscientes de uma realidade: nos dois extremos está, ou o poder de Deus, ou a força do maligno. Porém, hoje não só aparece a enorme e vertiginosa capacidade da liberdade humana, mas também se mostra algo da liberdade de Deus: sua onipotência, que oferta ao homem à salvação sem forçar-lhe; seu amor, que se entrega – no Filho – a si mesmo, para que o homem não seja presa eterna e quase ignorante do pecado. Desde sempre Deus havia preparado esta páscoa; e quando o Filho do homem veio cumpri-la entre nós, abriu-se, a toda criatura, um novo horizonte ilimitado de liberdade: a liberdade de amar, inclusive dando a vida para entrar-se em plenitude no seio amoroso da Trindade.

 

ORATIO: Jesus, deixa-nos, hoje, confessar diante de ti e concede­-nos, para fazê-lo, um coração arrependido verdadeiramente  e palavras humildes e sinceras. Somos nós os que te temos vendido, e não só uma vez. Cada dia, Senhor, abusamos de tua pessoa e vivemos desta mísera ganância; nós, os amados por ti. Podes, todavia, nos suportar como íntimos em tua casa para comer o pão de tuas lágrimas e beber o san­gue de tua dor? Vendido por nós por uma miséria, Tu nos compraste ao preço infinito de teu san­gue. Faz, te suplicamos, que, pela ferida de teu coração, possamos penetrar e estabelecer-nos sempre na comunhão de teu amor. Amém.

 

CONTEMPLATIO: Judas deixou o posto que Jesus tinha-lhe designado na comunidade apostólica para “ir ao seu lugar”. Separou-se dos demais, da comunidade; aos poucos chegou até este extremo: primeiro foi recolhendo-se em si mesmo seguindo um caminho seu, finalmente, se foi ao seu lugar. Certamente, a princípio, estava muito longe de querer trair o Mestre. A si­tuação política de Israel era muito complexa, e muita gente prudente do povo se perguntava se Jesus não era um motivo de desordem. De fato, que provas havia da missão de Jesus? É certo que Judas deve ter se atormentado interior­mente, ruminando muitas dúvidas e pensamentos obscu­ros. Mas, não os compartilhou com os outros, e talvez por isso continuava em suas ilusões, sua cegueira e obstinação. Estava só, fechado em si mesmo. E nestas cir­cunstâncias, nos fazemos incapazes de julgar as coisas com objetividade. Não se comunicava com os irmãos, refletia sozinho e andava a seu modo (R. Voillaume, “A seu posto”).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida” (Ap 2,10b)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Judas aparece como o protagonista da liturgia dos três primeiros dias da Semana Santa: o Evangelho sempre fala dele. E Judas está presente também no cenáculo. A presença de Judas em meio dos doze, em torno à mesa de Jesus, é, incontestavelmente, o fato mais inquietante entre os acontecimentos, todos inquietantes, que se condensam nas vésperas da paixão do Senhor. É a presença do inimigo entre os amigos, do que golpeia no momento e lugar em que se precisa a confiança, porque ninguém pode já defender-se com ninguém. Jesus não ignora esta presença, não a passa por alto; porém, à sua vez, não descobre Judas, não lhe acusa, não discute com ele, não trata de defender-se. Não cala a propósito de dita presença, para fazer-se também presente a ele até o final. Os doze, sem dúvida, tratam de descobrir quem deles mente: e já nesta tentativa sucumbem e caem na antiga lei da suspeita recíproca generalizada, da acusação, da divisão. Daqui nasce sempre a crise da relação fraterna e de comunhão: do temor de ser traídos, do temor de que o outro se aproveite, da pretensão impossível de pôr a prova e verificar as intenções do outro. Não existe outra maneira de vencer ao traidor que entregar-se em suas mãos e pôr nas mãos de Deus a própria causa. Pensemos em quantas desavenças, quantas ofensas, quantas prepotências, se escondem em nossa vida pela suspeita. Para sentar-se em torno à mesa de Jesus é preciso fiar-se um no outro sem pensar no preço que pode custar esta confiança (G. Angelini, Li amo sino Allá fine).

 

 

QUINTA-FEIRA SANTA, 18 DE ABRIL DE 2019 TRIDUO PASCAL – ANO C

João 13,1-15 (O lava-pés) – “Levou seu amor até o fim”: também João, como os sinóticos, quer evidenciar na narração da última ceia, a total entrega do amor por parte de Jesus, que antecipa para “os seus” o sacrifício da cruz; mas, em vez de descrever a instituição da eucaristia, já presente nos outros evangelhos e na tradição oral (cf. 1 Cor 11,23), João revela o significado do aconte­cimento por meio do episódio do lava-pés. O texto põe em evidência o lúcido conhecimento de Jesus (vv.1-3: “sabia”). Abraça-se livremente com o desígnio de Deus, reconhecendo como iminente essa “hora” para a qual se dirigiam todos os seus dias terrenos: a hora da verdadeira passagem (Ex 12,12s), da nova páscoa, do amor que chega a sua plenitude definitiva (v.1). Este cume do amor se manifesta concretamente no mais profundo abatimento: se o v.3b refere à en­carnação, primeiro passo decisivo da kênosis do Filho eterno, os versículos seguintes mostram até que ponto tem chegado à condição de servo (cf. Fl 2,7s), já que a tarefa de lavar os pés se reserva aos escra­vos e nem um rabi podia exigi-lo. E Jesus nos pede esta humildade, este espírito de serviço recíproco que só pode inspirar o amor (vv.12-15). É difícil acolher o escândalo da humilhação do Filho de Deus e deixar-se purificar por sua caridade (v.8). Isso nos implica no dinamismo da oblação divina, nos impõe seguir o exemplo de Cristo: esta é a condição indispensável para participar em seu memorial e cele­brar a páscoa com Ele.

 

Êxodo 12,1-8.11-14 (A páscoa)– O acontecimento histórico da última ceia dos he­breus no Egito, na espera da passagem do Senhor que liberta da escravidão, aparece aqui em chave litúrgica para converter-se em “um rito perpétuo”. A memória se faz memorial (zikkarôn,v.14), e, n’Ele, a eficácia salvífica do quanto YAHWEH tem executado: de uma vez por todas se atualiza para cada geração mediante a litur­gia; daí a preocupação por dar normas concretas e detalhadas para a celebração (vv.3-8.11). O rito he­braico funde elementos originariamente distintos. O sacrifício anual do cordeiro, com a as­persão do sangue, a páscoa (pesaj, festa primave­ril dos pastores nômades), se converte, para os israelitas, em sinal da proteção do Senhor (vv.7.12s). A oferenda das primícias (os ázimos festa agrícola vinculada ao ciclo das estações), posta em referên­cia com a libertação do Egito, recorda agora, de ge­ração em geração, a rápida fuga daquele país de escravidão. Em um momento preciso da história de um povo oprimido, Deus intervém com seu poder: aquele momento não pertence só ao fluir dos tempos, mas à di­mensão de Deus. Por isso, é um “hoje” oferecido sempre ao que queira entrar naquela história de salvação mediante a celebração do memorial.

 

1 Cor 11,23-26 (A ceia do Senhor) – Na última ceia nesta terra de desterro, Jesus substitui o memorial da libertação da escravidão do Egito por seu memorial. Cumprimento da Lei e os profetas, leva à plenitude o antigo rito com seu sacrifício de amor. “Por nós” se deixou entregar à morte (no v.23, o termo “entregar” faz alusão a todo o mistério pascal, não só à entrega). “Nova”: assim é a aliança com Deus, sancionada com o sangue do verdadeiro Cor­deiro, que com sua imolação nos liberta da escravidão do mal e, consumada na comunhão do Pão da oferenda que, inutilizado na morte, nos dá a vida. Também deveria ser nova a conduta do cristão:cada vez que come deste pão e bebe deste cálice, grava em sua própria existência a extraordinária riqueza da páscoa de Cristo, testemunhando-a, no tempo, até o dia da vinda gloriosa do Senhor (v.26).

 

Sl 115/116B (Ação de graças no Templo) – É dádiva de Deus caminhar com os salmistas que milhares de anos antes de nós se viram constrangidos por dificuldades, sofreram perseguições por serem fieis ao Senhor, foram caluniados, alguns mortos, mas não voltaram atrás e não traíram a sua fé. Ante a vontade do Senhor, disseram “amém”. O verbo hebraico aman significa construir sobre a rocha, escudo, fortaleza, pedra angular sobre a qual construímos e que nem o vento nem a tempestade poderão derrubar. Cantar a misericórdia de Deus é ser vitorioso, sofrido, mas não derrotado. Perseguidos, mas não vencidos. Pois Ele, o pastor, nos precede sempre. Passado muito tempo, morreu o rei do Egito. Os israelitas continuam gemendo e clamando sob dura escravidão, e, dai, seu grito de socorro subiu até Deus. Deus ouviu os seus lamentos e lembrou-se da aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Deus olhou para os israelitas e tomou conhecimento (Ex 2,23-25). Jesus conhecia este Salmo e o cantou na instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-30). É preciso passar por muitas dificuldades para entrar no Reino dos Céus, pois só seremos vitoriosos se carregarmos a nossa cruz.

Senhor, sou pobre, desgraçado, infeliz, mas tenho fé. Quero construir sobre a pedra Cristo todo o meu futuro e não sobre as areias movediças que, à primeira enxurrada, destroem tudo. Mas às vezes, Senhor, vejo ao meu lado muitos sofrimentos e injustiças que tentam me afastar do teu caminho e do teu amor. Sei que a vida do cristão é marcada pela cruz, e esta nos fortalece quando amada e carregada por amor. Sei também que quando sofremos por amor, somos bem-aventurados: “Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt,511-12). Senhor, na minha desgraça e pobreza que eu conserve a fé no teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: O discurso de Jesus na última ceia foi uma con­versa em clima de amizade, confiança e ainda o último adeus, que nos dá, abrindo seu coração. Como esperou Jesus esta hora! Era a hora para a qual tinha vindo; a hora de dar-se aos discí­pulos, à humanidade, à Igreja. As palavras do Evangelho transbordam uma energia vital que nos supera. O memorial de Jesus, a recordação de sua ceia pascal, não se repete no tempo, mas se renova, se faz presente. O que Jesus fez naquele dia, naquela hora, é o que Ele ainda, no presente, faz para nós. Por isso, não duvidamos em sentir-nos, de verdade, naquela única hora na qual Jesus entregou a si mesmo, por todos, como dom e testemunho do amor do Pai. Nós, portanto, devemos aprender de Jesus, que nos disse: “Vos dei o exemplo…”. Devemos aprender d’Ele a dizer sempre “graças”, e a celebrar a Eucaristia na vida, entrando na dinâmica do amor que se oferece e sacrifica a si mesmo pelo bem do outro. O rito do lava-pés tem como fim recordar-nos que o mandamento do Senhor deve levar-se à prática no dia a dia: servir-nos mutuamente com humildade.    A caridade não é um sentimento vago, não é uma experiência da qual podemos esperar gratificações psicológicas, mas é a vontade de sacrificar-se a si mesmo, com Cristo, pelos demais, sem cálculos.      O amor verdadeiro sempre é gratuito e sem­pre está disponível: se dá pronta e totalmente.

 

ORATIO: Partirás só, Senhor, sem nós, para enfrentar a luta suprema do inimigo. Partirás só, pois não podemos seguir-te antes que tenhas venci­do ao que nos divide. Mas, nos encontrarás no fundo de tua solidão, e nós no fundo de nossa humilhação. Nós não sabemos qual é a hora mais doce e pura do amor: se a que nos reúne juntos, con­fiados e descansados sobre teu peito, ou a que nos dis­persa na noite, perdidos e abatidos de tristeza. Mas, se Tu, desde tua distância de condenado a morte, te voltes um momento a olhar-nos, perceberemos na luz de teus olhos uma faísca do insondável mistério, que hoje nos pesa no coração e amanhã contemplaremos, sem vê-lo, no rosto do Amor. Amém.

 

CONTEMPLATIO: Meu Senhor, se tiras o manto, se cinges uma toalha, põe água na bacia e lava os pés a seus discípulos, tam­bém queres lavar os nossos pés. E não só a Pedro, mas a cada um dos fieis, diz: “Se não te lavo os pés, não poderás contar-te entre os meus”. Vem, Senhor Jesus, deixa o manto que puseste por mim. Despoja-­te, para revestir-te de tua misericórdia. Cinge-te uma toalha, para que nos cinjamos com teu dom: a imortalidade. Põe água na bacia e lava-nos, não só os pés, mas tam­bém a cabeça; não só os pés de nosso corpo, mas também os da alma. Quero despojar-me de toda imundice própria de minha fragilidade. Que grande é este mistério! Como um servo, lavas os pés a teus servos e como Deus mandas orvalho do céu. Também eu quero lavar os pés a meus irmãos, quero cumprir o mandato do Senhor. Ele me man­dou não envergonhar-me nem desdenhar, mas cumprir o que Ele mesmo fez antes de mim. Aproveito-me do mistério da humildade: enquanto lavo os outros, purifico minhas manchas (Santo Ambrosio, El Espíritu Santo I, 12-15).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Fazei isto em minha memória” (1 Cor 11,24)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O dia da quinta-feira Santa se celebra a memória da primeira vez que Nosso Senhor tomou o pão e o converteu em seu corpo, tomou o vinho e o transformou em seu sangue. Esta verdade requer de nós uma grande humildade, que só pode ser um dom seu. Refiro-me a essa humildade de mente pela qual conhecemos a verdade de que o que antes era pão agora é seu corpo e o que antes era vinho agora é seu sangue. Por isso nos ajoelhamos para honrar a Jesus no Santíssimo Sacramento. Sucessivamente, quando se ora ante o altar, nos damos conta de como estamos unidos a Ele no sofrimento do horto do Getsemani, tão próximos a Ele como Maria Madalena quando O encontrou no horto no primeiro domingo da Páscoa: este fato é o que nos causa mais estranheza. No dia da quinta-feira Santa evocamos também como nosso Senhor, durante a última ceia, se levantou e se pôs a lavar os pés de seus apóstolos e, com este gesto, nos mostrou algo da divina bondade. Jesus nos revela em que consiste o divino. Jesus lavou os pés de seus discípulos para mostrar as atenções e a grande bondade que Deus tem conosco. É um pensamento maravilhoso que poderia ocupar nossa mente e nossas orações. Se esta bondade divina pode manifestar-se a nós, que poderemos fazer nós em resposta? Não deveríamos igualar esta doce bondade sua, que transborda amor por nós, e ofertar a sua mesma bondade e o mesmo amor? Isto demonstraria que o amor, a caridade cristã, não é só uma palavra fácil, mas algo que nos leva à ação e ao serviço, especialmente ao dos pobres e ao de quantos passam necessidade (B. Hume, Il mistero e l’assurdo, Casale Monf.).

 

       

SEXTA-FEIRA SANTA, 19 DE ABRIL DE 2019 TRIDUO PASCAL – ANO C

DIA DE JEJUM E ABSTINÊNCIA

João 18,1–19,42 (Paixão do Senhor) – A Igreja celebra a paixão de Jesus crendo que a cruz não é vitória das trevas, mas morte da morte. Esta visão de fé é bem sublinhada na narração joanina, onde se apresenta Jesus como quem conhece e domina a situação, e assim, se refere a ela em seus mínimos detalhes. Chegou a hora e se descreve através dos fatos, como ‘hora de sofrimento e glória’: o ódio do mundo condena-o à morte de cruz, mas, do alto da cruz Deus manifesta seu amor infinito. Nesta esplêndida re­velação e total entrega consiste a glória. A narração da paixão começa e acaba num jardim, recordação do Éden, indicando que Cristo assumiu e redimiu o pecado do primeiro Adão, e o homem recobra, agora, sua beleza original. A narração não se detém no sofrimento de Jesus; João só faz alusão à agonia do Getsêmani, enquanto sublinha, insistentemente, a identidade divina de Cristo, o “Eu sou” que põe por terra os guardas (vv.5s). Do mesmo modo, menciona, como de passagem, os escárnios e golpes, enquanto evidencia, sobretudo ante Pilatos e na crucifixão, a realeza de Jesus.        O termo rei aparece doze vezes (dezesseis só neste evangelho). Nos interrogatórios, a palavra de Jesus domina sobre a dos acusadores. No momento em que Ele é julgado se cumpre o julgamento sobre o mundo. Quando é elevado na cruz, se cumpre não um ato humano, mas a Escritura (vv.28.30), e se revela a gló­ria de Deus. Precisamente no momento da morte, nasce o novo povo eleito, confiado à Virgem Mãe (vv.25-28). Da água e sangue que emanam do lado traspassado nasce a Igreja, que regenerada no batismo e alimentada na Eucaristia celebrará ao longo do tempo a páscoa do verdadeiro Cordeiro (v.33;cf. Ex 12,16), até que se cumpra o tempo (cosummatum) também na eternidade (v.30).

 

 

Is 52,13-53,12 (Quarto canto do servo)– Do Servo sofredor nos falam os oráculos de YAHWEH que abrem e concluem este texto (52,13-15;53,11s), mostrando o êxito glorioso de seu padecer hu­milde, que se torna fonte de salvação para as multidões. Dele nos fala a comunidade da qual o profeta é porta-voz (“nós”, v.4), confessando a to­tal incompreensão na qual se consumiu a dor do Servo: incompreensão que passou da indiferença ao desprezo, do juízo ao abuso legitimado (vv.3-4.8a). Mas Ele cala. Não atrai pelo beleza de seu aspec­to (sinal de benção divina), nem por sua doutrina bri­lhante: “Familiarizado com o sofrimento”, porém, não é esta a matéria de ensino. Calado na humilhação, na opressão, na condenação (v.7) até a sepul­tura (v.9), só quando seu sacrifício de expiação se consuma, a comunidade – purificada por ele – compreende o inconcebível desígnio de Deus. O castigo, como sofrimento purificador, pressupõe uma culpa; porém aqui, por primeira vez aparece, aberta­mente, algo distinto: o misterioso sofrimento vicário. O pecado é nosso, reconhecemos, facilmente, no “nós” do texto, mas quem sofre para expiá-lo é o Servo inocente. Esta é a vontade de Deus que se cumpre. É a justiça divina que se chama “misericórdia”. É a promessa – que brilha como um relâmpago no Antigo Testamento – da luz e da glorificação após as trevas e a humilhação.

 

Hb 4,14-16; 5,7-9 (O sacerdócio de Cristo) – Texto de importância central na car­ta aos Hebreus convida-nos a considerar o valor defi­nitivo do sacrifício de Cristo, que cumpre como sumo sacerdote, e lhe faz ser, como verdadeira vítima, puro e santo. A figura de Cristo sobressai-se, assim, em toda sua majestade. Mas esta realidade não lhe afasta ou leva a um mundo inacessível. Como partilhou em todas nossas provas (4,15), sabe compadecer-se de nossa debilidade. Aproximou-se para aproximar-nos com total confiança ao Pai, Deus de misericórdia e graça que nos concede a ajuda necessária em todas as nossas tribulações (4,16) para que, qualquer prova se torne uma situação na qual brilhe, em todo seu esplendor, sua pro­vidência admirável. A sofrida adesão de Cristo ao desígnio do Pai obtém uma acolhida que supera, infinitamente, nossos horizontes: sua obediência filial, que o levou a “entre­gar-se a si mesmo à morte” (cf.Is 53,12), con­verteu-o em “causa de salvação eterna” para todos que obedecem sua Palavra(5,7-9) e se convertem, assim, nessa descendência imensa prometida ao Servo de YAHWEH: a nova prole dos filhos de Deus, renascidos do sangue de Cristo.

 

Sl 30/31 (Súplica na provação) – Jesus conheceu esse Salmo e o rezou no alto da cruz, quando estava prestes a morrer. Não devemos nunca nos esquecer disso, pois hoje são as mesmas palavras que elevamos ao Senhor! Trata-se de um Salmo bastante longo e ponto referencial de toda a nossa história. Nele aparecem muitas referências a várias etapas da vida: momentos de alegria, tristeza, abandono de todos e solidão…  Mas mesmo enfrentando todas essas situações, sabemos que Deus virá em nossa ajuda e socorro.

Senhor, não somente no momento da morte quero entregar a minha vida nas tuas mãos, mas em cada instante quero ser nas tuas mãos como o barro dócil nas mãos do oleiro. Forma-me, Senhor, ajuda-me e mostra o caminho que devo seguir. Que em cada circunstância da vida eu seja dócil e nunca me rebele contra a tua vontade, mesmo quando ela me parecer dura e incompreensível.

MEDITATIO: O mesmo Espírito que conduziu Jesus ao de­serto no início de sua vida pública, leva-o a Jerusalém para “sua hora”, hora do encontro e da manifestação definitiva do amor de Deus. O Espírito Santo é quem dá, a Jesus, a força para manter a luta do Getsêmani, para aderir à vontade do Pai e chegar até o final de seu caminho, apesar da angústia que lhe ocasiona suar sangue. Logo, no Calvário, surge uma cena: no alto se delineiam as três cruzes e embaixo, como dois braços de uma só cruz, estão Maria e João. No pro­fundo silêncio do insondável sofrimento se ouve um grito: “Tenho sede”.       É um grito que recorda o encontro de Jesus com a Samaritana, onde se deu a revelação de que a sede de Jesus era da fé da Samaritana, da fé da humanidade, do de­sejo de dar água viva, de saciar a todos com sua graça. A hora da crucifixão e morte de Jesus correspon­de com a hora de máxima fecundidade no Espírito. Quando o amor de Jesus chega ao cume da imolação, de seu total aniquilamento, como do eclodir de um manancial subterrâneo surge a Igreja, a nova comunidade de crentes, novo Israel, povo da no­va aliança. E ali está Maria como cooperadora da salvação, junto a João, que representa os discípulos do Nazareno e a toda a humanidade, constituindo o núcleo primitivo da Igreja nascente.

 

ORATIO: Ao estender tuas mãos na cruz, ó Cristo, cumulaste o mundo com a ternura do Pai. Por isso entoamos um hino de vitória. Deixastes cravar na cruz para derramar sobre to­dos a luz de teu perdão e, de teu peito traspassado, fluir, até nós, o rio da vida. Ó Cristo, amor crucificado até o fim do mundo nos membros de teu corpo, faz que hoje possamos comungar com tua paixão e morte, para poder degustar tua glória de Ressuscitado. Amém.

 

CONTEMPLATIO: À, Teótimo! O Salvador conhecia todos pelo nome e apelido, mas, sobretudo, pensou em nós com amor particular, quando ofere­ceu suas lágrimas e orações, seu sangue e sua vida por nós. “Pai eterno, tomo sobre mim e carrego-me com todos os pecados do pobre Teótimo, para sofrer tormentos e morte, para que ele seja livre e não pereça, mas viva. Morra eu, contanto que ele viva; seja eu crucificado contanto que ele seja glorificado”. A morte e paixão de nosso Senhor é o motivo mais doce e mais violento que pode animar nossos corações a amar. Os filhos da cruz se gloriam em seu admirável enigma, que o mundo não alcança entender: da morte, que tudo devora, saiu à vida; da morte, mais forte que tudo, nasceu à colmeia de mel de nosso amor. O monte Calvário é Teótimo, o monte dos aman­tes. O amor que não tem origem na paixão de Jesus é frívolo e perigoso. Desgraçada é a morte sem o amor do Salvador; desgraçado é o amor sem a mor­te de Jesus. Amor e morte estão tão intimamente uni­dos na paixão do Senhor que não podem estar no co­ração um sem o outro. No Calvário não se alcança a vida sem o amor, nem o amor sem a morte do Redentor; fo­ra dali tudo é morte eterna ou amor eterno; a plena sabedoria cristã consiste em saber eleger bem (S. Fco de Sales).

 

 

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até a morte,

e  morte de cruz. Por isso Deus o exaltou” (Fl 2,8-9ª)

                                                                                                                                                                                   

 

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Hoje a Igreja nos convida a um gesto que talvez para os modernos seja superado: a adoração e beijo da cruz. Mas se trata de um gesto excepcional. O rito prevê que se desvele lentamente a cruz, exclamando 03 vezes: “Eis lenho da cruz, onde esteve cravada a salvação do mundo”. E o povo responde: “Vinde, adoremos”. O motivo da tríplice aclamação está claro. Não se pode ver de uma vez a cena do Crucificado que a Igreja proclama como a suprema revelação de Deus. Quando aos poucos se desvela a cruz, ante esta cena de sofrimento e martírio, numa atitude de adoração, podemos ver o Salvador nela. Ver o Onipotente débil, frágil, desfalecido, derrotado, é o mistério da Sexta-feira Santa que nos acercamos pela adoração. A resposta “Vinde, adoremos” significa ir beijá-lo. O beijo dum homem o entregou à morte; quando foi objeto de nossa violência é que foi salva a humanidade, descobrindo o verdadeiro rosto de Deus, o qual miramos para ter vida, já que só vive quem está com o Senhor. Beijando Cristo, como a todas as feridas do mundo, as feridas do mundo, as feridas da humanidade, as recebidas e as feridas, as que os outros nos infligiram e as que nós temos feito. Ainda mais: beijando a Cristo beijamos nossas feridas, as que temos abertas por não ser amados. Porém hoje, experimentando que um se pôs em nossas mãos e assumiu o mal do mundo, nossas feridas hão sido amadas. Nele podemos amar nossas feridas transfiguradas. Este beijo que a Igreja nos convida a dar hoje é o beijo de mudança de vida. Cristo, desde a cruz, há derramado a vida, e nós, beijando-o, acolhemos seu beijo, quer dizer, seu expirar amor, que nos faz respirar, reviver. Só no interior do amor de Deus se pode participar no sofrimento, na cruz de Cristo, que, no Espírito Santo, nos faz provar do poder da ressurreição e do sentido salvifico da dor (M. Rupnik, Omelie di páscoa. Venerdi santo).

 

 

 

 

 

SÁBADO SANTO (DIA),

SILENCIO E COMTEMPLAÇÃO

 

A NOITE MISSA DA VIGÍLIA PASCAL

 

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