LECTIO DIVINA: Segunda semana da quaresma ano 2020

COMUNIDADE CATÓLICA PAZ E BEM

LECTIO DIVINA QUARESMAL

II SEMANA DA QUARESMA ANO 2020     

 

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SEGUNDA-FEIRA, 09 DE MARÇO DE 2020

Lucas 6,36-38 (Misericórdia e gratuidade)Depois da proclamação das Bem-aventuran­ças, quase como seu desenvolvimento concreto, Lu­cas põe nos lábios de Jesus o mandato do amor universal e da misericórdia (6,27-38), um pequeno poema em três estrofes: o enunciado do mandamento (vv.27-31), suas motivações (vv.32-35) e sua prática (vv.36-38). A analogia com o “discurso da montanha” de Mateus é evidente. Porém, se dá uma pecu­liaridade no fragmento de Lucas: fala da imitação do Pai em termos de misericórdia, enquanto Mateus usa a palavra “perfeição”. Como praticar concretamente esta misericórdia? Este é o tema dos versí­culos que lemos hoje. Cinco verbos passivos nos indicam que o verdadeiro protagonista é o Pai: “Não sereis julgados…, não se­reis condenados…, sereis perdoados…, vos será dado…, devolverão uma medida generosa” (vv. 37s). É um crescimento em bondade, um dom em superlativo (perdão); assim é a misericórdia que usa o Pai, conosco, e a usa­rá plenamente.

 

 

Dn 9,4b-10 (A oração de Daniel)– Reescrita num hebreu cuidadoso, esta aparece no c. 9 como explicação de um oráculo de Jeremias sobre a duração do desterro da Babilônia e a restauração de Jerusalém (cf.Jr 25, 11s;29,10). Os 70 anos anunciados por Jeremias, segundo recentes cálculos exegéticos, se interpretam como um período de 70 semanas de anos (490 anos), uma longa “qua­resma” entre o início do desterro e a nova con­sagração do templo de Jerusalém após a profa­nação de Antíoco IV. Na prova, Daniel se dirige a Deus, fazendo uma leitura da história, à luz da tradição deuteronomista: à infidelidade do povo segue-se, automaticamente, o castigo (vv.5-7). Porém, até quando se verá obrigado, o Senhor, a corrigir, tão duramente, Israel? Só Deus pode responder, e esta é a razão da per­gunta do profeta (v.3), quase como uma provocação. De sua parte, como individuo e como porta-voz de todo o povo, Daniel confessa a Deus, grande e terrível (v.4), com sincero arrependimento, que os sofrimentos são bem merecidos (cf. Ne 1,5,Dt 7,9.21). Sem dúvida, a confissão não se traduz em desesperança, mas em uma espera confiada no perdão divino (v.9): pois o Deus de Israel é fiel e benévolo (v.4), lento para a ira e rico em amor.

 

Salmo 78/79 (Lamentação nacional) – Este Salmo é uma súplica diante da tragédia vivida por Israel: o exílio, a derrota de uma batalha, o abandono de Deus, o crescimento do ateísmo, etc. O salmista está cansado de sofrer e ser constantemente questionado: onde está o teu Deus? É comum aos homens, quando seus pedidos não são atendidos, acusarem a Deus de impotente. No entanto, é necessário ter uma visão diferente do Senhor: Ele nos dá o que necessitamos para a nossa salvação e para a realização de seus projetos. O salmista sente-se triste ao contemplar a cidade destruída, o povo disperso e a guerra que está às portas. Mas neste momento reassume a fé e confia no Senhor. O salmista reafirma com coragem, destemido diante de Deus: “nós somos o teu povo, vem em nosso socorro!”. Se o nosso olhar pudesse percorrer rapidamente todos os cantos do mundo, ficaria simplesmente abismado em ver as centenas de guerras que, todos os dias, são desencadeadas pela maldade humana, ficaríamos sem palavras em ver quantos roubos, assaltos e homicídios se cometem por dia, quanto mal existe na humanidade… E então escutaríamos alguém que, já tendo perdido a fé, zomba de nós, dizendo-nos: “e o teu Deus, onde está?” E nossa resposta seria o silêncio, que nos levantaria em juízo contra nós mesmos. Senhor, é triste o que vemos, mas cremos que o bem é maior e que a vitória definitiva será do amor e do bem. Senhor, dá-nos coragem para não nos abater ao peso do nosso desânimo e da nossa fraqueza. Quero, Senhor, aprender a ti agradecer diante dos sofrimentos, e mesmo que na hora não entenda o porquê, sei que um pai nunca pode desejar o mal ao filho, por isso nós somos teus filhos e tudo que vem de tuas mãos é bom. “Se recebemos de Deus o bem, por que também não receber o mal?” Ajuda-nos a entender esta lógica que foge da minha compreensão. Amém.

 

 

MEDITATIO: A vida cristã nos apresenta com frequência, para não dizer sempre, a dolorosa condição de comprovar nossas carências e as trágicas situações de morte e ódio que dominam no mundo. Corremos o risco de afogar a confiança e a esperança, se ficamos sozinhos na crônica. Que fazer? É preciso ter a valentia de olhar com olhos novos, purificados por um sincero arrependimento e pela oração. Na oração é onde poderemos encontrar a Deus, conhecê-lo, falar com Ele e, sobretudo, escutar sua voz. Então se manifestará a nossos olhos em sua misterio­sa e incompreensível transcendência: tão grandioso e, sem dúvida, tão próximo, benévolo, paciente. Nosso cora­ção se abrirá à sua própria verdade e à dos demais: em presença de Deus, todo juízo de condenação se transforma em humilde petição de perdão para todos, porque nós todos somos corresponsáveis de tanto mal. Neste encontro, continuamente repetido, muda o modo de ver a história pessoal e universal: na ora­ção aprendemos a descobrir as pegadas da presença de Deus, as sementes de bem, ocultas, porém, reais, das quais esperamos, com fé e paciência, que germinem e floresçam.

 

ORATIO: Quando a mesquinhez de meus horizontes pretende julgar os infinitos espaços de tua misericórdia, Senhor escuta; Senhor perdoa. A impaciência faz com que se co­lha na vida só fatigas, sofrimentos, promessas vazias ou provas inúteis. Dilata meu pobre coração para não entristecer ao Espírito que tudo sustenta e renova. Ensina-me, ó Deus, a arte de eleger o melhor em tudo e em cada um, ajuda-me a olhar o mundo com teu amor de Pai. Concede-me um olhar sincero e sereno de mim mes­mo: reconhecendo-me, fitado com benevolência, espera­do, perdoado, aprenda, assim, a perdoar, a esperar, a calar. Sugere-me o tempo e o modo mais oportunos para oferecer, a cada um, a ajuda que necessite, sem excluir ninguém em meu interior. Senhor, quando o temor me assalte e vacile minha esperança, encarrega-te de tudo; que me limite a gritar: “Até quando, Senhor?” Não com orgulho ou amargura, mas com as lágrimas de uma criança que sabe falar a seu Pai.

 

CONTEMPLATIO: Quanto mais nos engolfamos na imensidade da bondade divina, tanto mais vamos tendo conhecimento de nós mesmos. Começam a abrir-se as fontes da graça e as flores magníficas das virtudes. A primeira, a maior, é o amor de Deus e do próximo. Como pode acender-se esse amor, senão na chama da humildade? Porque, só a alma que vê seu próprio nada se acende de amor total e se transforma em Deus. E transformada em Deus, por amor, como po­deria deixar de amar a toda criatura por igual? A transformação de amor faz amar a toda criatura, com o amor com que Deus criador ama a tudo o que por Ele foi criado. E faz ver em toda criatura a medida sem limites do amor de Deus. Transformar-se em Deus, quer dizer, amar o que Deus ama, alegrar-se e gozar dos bens do próximo. Quer dizer, sofrer e contristar-se por seus males. E com a alma aberta a estes sentimentos, está aberta ao bem e só ao bem, não se orgulha ao ver as culpas dos homens, nem julga, nem despreza. Estes sentimentos lhe impedem o orgulho que nos leva a jul­gar. E leva a ver, não só os males morais de seu próximo, sofrendo-os e fazendo-os seus, senão também os males corporais que afligem à humanidade, e pelo amor que a transforma totalmente, os toma como males próprios (Ángela de Foligno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

                                  “Atende, responde-me, Senhor Deus meu” (Sl 12,4)

 

PARA A LEITURA ESPÍRITUAL – Quando degustamos desde dentro a misericórdia de Deus, quando experimentamos interiormente a suavidade do amor de Deus, algo acontece dentro de nós. Dissolvem-se até as penas. Convertemo-nos em criaturas que penetram de tal modo os mistérios do Senhor e de uma comunhão fraterna tal que se pode comprovar quão verdadeira é a bem aventurança do Senhor que nos diz: “Felizes os misericordiosos”. Quando a misericórdia é somente fruto do cansaço não digo que não tenha valor, porém manifesta que, todavia não me identifico com a misericórdia que pratico. Reduz-se a um instrumento operativo a um método de comportamento. Porém quando a misericórdia recobra essa dimensão com a qual me identifico, então sou feliz. Então vivo o gozo de praticar a misericórdia. E esta é a razão pela qual Deus é bem-aventurado em sua misericórdia: não cansa de ser misericordioso, depende da perfeição de seu amor, da plenitude de seu amor. Estou chamado a configurar-me com o meu Senhor de tal modo que minha vida seja um testemunho da misericórdia divina na vida dos irmãos. Talvez temos encontrado em nossa vida pessoas que são de verdade sinal da misericórdia de Deus. Tem pessoas que defendem sempre a todos, a todos julgam bons. Tenho conhecido várias em minha vida e as recordo com grande gozo. Por exemplo, um irmão. Ainda que lhe pincharas para fazê-lo dizer algo carente de misericórdia perdias o tempo. Quando uma pessoa se identifica com a misericórdia do Senhor tudo é possível e se é capaz da verdadeira comunhão com os outros. A primeira vista parece que tem que ser um ao que tudo lhe resvala: não acusa a ninguém, nem agrava a ninguém, deixa-se tomar tudo por qualquer coisa. Porém os demais não podem negar-lhe nada. Tem tal fascinação que uno se converta em uma presença incisiva em sua vida. A serenidade interior destas criaturas é admirável. E a confiança na bondade do Senhor é absoluta em sua vida espiritual. Também nós estamos chamados a identificarmos com o mistério da misericórdia do Senhor a vivê-la com total serenidade a ser no mundo sua continuação e sacramento. (A. Ballestrero, Le beatitudini, Leumann 1986).

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 10 DE MARÇO DE 2020

Mateus 23,1-12 (Hipocrisia e vaidade dos escribas e dos fariseus) = Mt 12,38-40; Lc 11, 39-52; 20,45-57O texto aparece após os debates de Jesus no Templo e constitui o primeiro quadro do tríptico que Mateus dedica a denunciar escribas e fariseus (cap.23). Jesus se dirige “as multidões e a seus discípulos” com um duplo ensinamento (vv.1-12). De uma parte desmascara a incoerência (vv.2-4), a ostentação e a vangloria (vv.5-7) dos escribas e fariseus, contra os quais lançará seus sete “ais” (vv.13-36). De outro lado, põe em alerta, os discípulos, contra o vício da ambição (vv.8-10), verdadeiro câncer da comunidade, evidentemente, também nos tempos da redação do Evangelho. Qualquer atitude de puras exterioridades ou de buscas de prestígio pessoal desvirtua a própria religiosidade e a converte em idolatria. Então, que fazer? Não escutar a Palavra, da qual os chefes são intérpretes incoerentes? Je­sus convida ao discernimento, a fazer o que dizem e não o que fazem. Mateus, implicitamente, nos convida a olhar para Jesus, o verdadeiro Mestre, fiel intér­prete do Pai.

 

 

Is 1,10.16-20 (Contra a hipocrisia)Como uma espécie de introdução a todo o livro, o capítulo 1 antecipa a temática fundamental que aparecerá e se desenvolverá depois: o povo responde com infidelidade ao amor fiel de Deus (vv.2-9), atraindo o castigo divino. Mas, não há culpa, por grave que seja que não a vença a misericórdia de Deus: um pequeno resto, raiz de vida nova, será salvo. O texto que nos apresenta a liturgia de hoje é um ensino profético contra o ritualismo, imbuída no esquema literário de uma disputa jurídica, típica da tradição deuteronomista (vv.10.19.s). A referência à Sodoma e Gomorra serve de gancho ao oráculo precedente (vv.4-9): pela infidelidade de seus chefes, o “povo de Judá e Jerusalém”, termos que não se deve tomar em sentido geográfico, mas como referência ao povo eleito, está a ponto de atrair, sobre si, um castigo similar ao das duas cidades tristemente famo­sas (cf. Gn 19; Dt 29,22;32,32). Quando não há uma adesão à Lei divina, a oração é ineficaz e o culto inútil, inclusive até perverso (vv.11-15); vem a ser como oferenda de incenso a ídolos (cf. Dt 7,25s). Israel, mesmo infiel, será sempre destinatária da Palavra de vida, e os dons de Deus são irrevogáveis: os dois imperativos que aparecem (vv.16s) indicam a urgência de uma mudança para acolher o perdão que oferece o Senhor. Mas, o povo pode optar pela benção (v.19) ou pela maldição (v.20).

 

Salmo 49/50 (Para o culto em espírito) Este Salmo tem o sabor de um exame de consciência violento, daqueles que nos obriga a parar e a olhar dentro de nós para vermos se ali existe o bem ou o mal. Deus sabe elogiar o homem quando ele faz o bem, mas também sabe condená-lo quando faz o mal. Deus sabe elogiar o homem quando ele faz o bem, mas também sabe condená-lo quando faz o mal. O mesmo fazem os seus profetas. Deus nos mostra o mal para que possamos nos converter e tomar resoluções novas de uma vida santa. Deus não critica os louvores que lhe são oferecidos, exceto quando a nossa atitude de louvá-lo não condiz com a nossa vida cheia de pecados. De que serve sermos religiosos, frequentarmos a Igreja, se negamos tudo isso diariamente com as nossas atitudes?

Senhor, dá-me a coerência de vida. Que eu te ofereça sacrifícios e que seja atento aos teus preceitos, mas nunca permita que a minha vida renegue a minha fé. Dá-me força de ser fiel, e que a minha felicidade seja a melhor pregação e a melhor evangelização. Palavras nada servem se não forem comprovadas e consagradas pelos atos. Amém.

 

 

MEDITATIO: Deixemos que nos firam as palavras que hoje a mãe Igreja faz ressoar em nossos ouvidos. Não demos nada por descontado, pensando em nosso interior: “Estas palavras vão bem a fulano ou a sicrano…“. Deus as disse para nós. E é graça inestimável que nos diga: em sua paciência quer ofertar-nos uma possibilidade de evitar um merecido castigo, ainda que só fosse por nossa ingratidão e superficialidade ou, talvez, pela malícia de nossa falta de generosidade. Quando dormimos se­guros sobre os prêmios dos preceitos que observamos (como nos parece), recebemos glória uns dos outros, em vez de dar glória ao Senhor. E Ele? Ele volta o olhar a outra parte: a seus olhos so­mos como os fariseus que ostentam suas faixas e alargam as franjas do manto. Além do mais, Isaías nos disse que, ainda não aprendemos o que é amor: res­posta agradecida, generosa e total a um Deus fiel que saiu ao nosso encontro e se uniu a nós com vínculos nupciais. Sacrifícios e oferendas não valem nada se os nossos ouvidos e o coração, seduzidos pelo pecado, se endurecem nas relações. Quem circuncidará nosso coração e lavará nossas mãos? Será, precisamente, a Palavra de Deus escutada com ouvido atento, interiorizada no coração, guardada com amor e praticada com simplicidade.

 

ORATIO: Quantas vezes, Senhor, temos feito ostentação de obras e méritos para “deixar-nos ver”…, e não, precisa­mente, por teus olhos que vêm o coração, mas para ser admirados pelos homens; quantas vezes temos bus­cado a estima e a glória! Tem piedade de nós, Se­nhor, por todas as vezes que a Palavra de vida, da qual nos mostramos mestres, deixa insensível nossa con­duta. Tu, único Mestre do homem, nos dás o exemplo mais claro, fazendo-te servo. Tu, Filho unigênito de Deus, nos convidas a buscar o olhar do Pai celestial, que, por tua extrema humilhação, te exaltou à sua direita. Lava-nos no sangue de teu sacrifício, purifica-nos de toda malícia e vaidade; faz-nos discípulos dó­ceis, abertos à escuta, prontos no bom agir, humildes e transparentes na vida de cada dia.

 

CONTEMPLATIO: Abre teu coração a todos os que são discípulos de Deus, sem olhar com suspeitas seu aspecto, sem olhar, com desconfiança sua idade. E se algum te parece pobre ou esfarrapado ou feio ou perdido, que não se perturbe teu espírito, nem re­trocedas. O aspecto visível engana a morte e ao diabo, porque a riqueza interior é invisível para eles. E, enquanto insistem no material e o desprezam, porque sabem que é débil, estão cegos para as riquezas inte­riores e ignoram “o tesouro” que levam “em vasos de ba­rro”, que defendem o poder de Deus Pai, o sangue de Deus Filho e o orvalho do Espírito Santo. Porém, não te deixes enganar tu, que provastes a verdade e foste con­siderado digno do grande resgate; e, ao contrário do que fazem outros homens, opta por um exército desar­mado, pacífico, incruento, sereno, sem contaminação: an­ciãos honrados, órfãos piedosos, viúvas transbordan­tes de mansidão, homens adornados pela caridade (Clemente de Alejandría).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Ser plenamente sinceros significa fazer tudo se preocupando unicamente com o que Deus pensa de nossas ações. Significa, portanto, não adotar atitudes diversas segundo o ambiente, não pensar de um modo quando estamos sós e outro quando se está com alguém, mas falar e agir sob o olhar de Deus, que ler os corações. A sinceridade consiste em esforçar-se para que nosso porte externo coincida cada vez mais com nosso interior. E naturalmente sem provocação, mas simplesmente sendo o que somos sem falsear a verdade por temor desagradar aos demais. Esta sinceridade exige pureza de intenção, quer dizer, preocupar-nos em nosso agir do juízo de Deus, não dos juízos humanos, agir preocupando-nos mais do que agrada ou desagrada a Deus que o que agrada ou desagrada aos homens. Este é um dos pontos essenciais da vida espiritual. Habitualmente – não nos iludamos – nos domina a preocupação de agradar ou desagradar aos homens, interessando-nos de melhorar a imagem que os outros podem ter de nós. E sem dúvidas nos preocupamos pouco com que somos aos olhos de Deus, e por esta razão nos desviamos com frequência do que só Deus vê: a oração oculta às obras de caridade secretas. E pomos maior empenho no que, ainda que façamos por Deus, o vem também dos homens e vai implicada nossa reputação. Chegar a uma total sinceridade – isto é, a agir bem do mesmo modo se não nos vêm que si nos vêm, significa chegar a uma perfeição altíssima. (J. Daniélou, Saggio sul mistero della storia, Brescia 1963).

 

 

QUARTA-FEIRA, 11 DE MARÇO DE 2020

Mateus 20,17-28 (Terceiro anúncio da paixão; o Pedido da mãe dos filhos de Zebedeu) = Mc 10,32-40; Lc 18,31-33Jesus, na peregrinação a Jerusalém, sobe à ci­dade santa perfeitamente consciente do final de seu ca­minho humano e, pela terceira vez, prediz, a seus discípulos, a paixão. E faz do modo mais explícito e desconcertante para a mentalidade dos seus contemporâneos: não só se identifica com o “Filho do homem”, figura celeste e gloriosa esperada para inaugurar o Reino escatológico de Deus, mas, com audácia e autoridade, funde este personagem com outra figura bíblica de sinal aparentemente oposto, a do “Servo sofredor” (vv.18-19.28). Os discípulos não estavam preparados para compreen­dê-lo. Preferem acolher, para o Mestre e para si mes­mo, perspectivas de êxito e poder (vv.20-23). Jesus lhes explica o sentido de sua missão e do seguimento: veio a “beber o cálice” (v.22), termo que, na linguagem profética, indica o castigo divino reservado aos pecadores. Quem deseje os postos mais importantes no Reino deve, como ele, estar disposto a expiar o peca­do do mundo. Este é o único “privilégio” que ele pode conceder. Não lhe incumbe estabelecer quem deve sentar-se à sua direita ou à sua esquerda (v.23). Ele é o Filho de Deus, mas não veio a dominar, mas a servir, como Servo de Yhaweh, oferecendo a vida como resgate (lytron), para que todos os homens, escravos do peca­do e submetidos à morte, sejam libertados.

 

 

Jr 18,18-20 (Por ocasião de um atentado contra Jeremias)O v.18 marca, historicamente, o presente texto: de novo Jeremias é ameaçado de morte (cf. Jr 11,18s). O complô é ago­ra mais grave que o precedente, porque são os próprios guias espirituais do povo que pretendem calar ao profeta que lhes causa incômodo. Esta situação aclara a dura invocação de vingança, segundo a lei de talião, que brota dos lábios do profeta, ainda que a liturgia de hoje omita estes ver­sículos. A presente passagem pretende colocar a atenção do leitor em outra direção, com vistas a preparar o re­lato evangélico. O profeta é imagem do Servo sofredor (cf.Is 53,8-10) e sofre perseguição por fidelidade a sua vocação, por amor a seu povo, a favor do qual, Ele, novo Moisés, atreveu-se interceder, apesar da proibição do Senhor (cf.11,14;14,11; 15,1). Sua confissão é um aban­donar-se, confiadamente, em Deus, do único que espera a salvação. O que Jeremias fez “em favor” do povo eleito e o que formula em sua oração, se realizará, plenamente, no verdadeiro Servo sofredor, em Jesus. Os chefes o executarão concretamente. E, nesse momen­to, Jesus, não só não pedirá vingança, mas também dará o perdão, oferecendo, livremente, a vida “em favor” dos que o crucificaram.

 

Sl 30/31 (Súplica na provação) – Jesus conheceu esse Salmo e o rezou no alto da cruz, quando estava prestes a morrer. Não devemos nunca nos esquecer disso, pois hoje são as mesmas palavras que elevamos ao Senhor! Trata-se de um Salmo bastante longo e ponto referencial de toda a nossa história. Nele aparecem muitas referências a várias etapas da vida: momentos de alegria, tristeza, abandono de todos e solidão… Mas mesmo enfrentando todas essas situações, sabemos que Deus virá em nossa ajuda e socorro.

Senhor, não somente no momento da morte quero entregar a minha vida nas tuas mãos, mas em cada instante quero ser nas tuas mãos como o barro dócil nas mãos do oleiro. Forma-me, Senhor, ajuda-me e mostra o caminho que devo seguir. Que em cada circunstância da vida eu seja dócil e nunca me rebele contra a tua vontade, mesmo quando ela me parecer dura e incompreensível.

 

MEDITATIO: Na Palavra de hoje aparecem duas mentalidades opostas que suscitam uma pergunta fundamental: que sentido tem a vida? Vale a pena vivê-la? O mundo nos sugere: adquire fama, busca o poder, usa tua capacidade para demonstrar que és… Ao contrário, o profeta, homem de Deus, e Jesus, o Filho predileto do Pai, nos dão o exemplo de uma existência gasta no serviço por amor. Este alcança sua plenitude quando se converte em oferenda total da vida: o outro se converte, assim, em algo mais importante que nós mesmos, tem a primazia. No fundo, se requer uma atitude de humildade, virtude que autentica qualquer gesto de amor e o liberta de equívocos ou de buscar segundas in­tenções. Este é o caminho empreendido pelo profeta. Mas, só percorrendo-o é que se aprende a conhecer o que realmente significa. Dai seu grito de lamentação ao Senhor: “Por que, depois de ter feito o bem, me pagam com males?” A tentação de desconfiar se crava no íntimo do coração. Só Jesus pode dar força para fazer, incondicionalmente, o bem: “O Filho do homem vai ser entre­gue… para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem, porém ao terceiro dia ressuscitará” (Mt 20,18s). O bem não cai no vazio, mas dará fruto, a seu devido tempo, um tempo que é vida eterna, gozo sem fim para todos.

 

ORATIO: Obrigado, Jesus, pela doce firmeza com que nos levas pela mão pelo caminho da cruz. Pela paciente benevolência em repetir-nos, até a sa­ciedade, que a verdadeira realeza se obtém servindo, dando a vida por amigos e inimigos. Tu, ó mais belo dos filhos dos homens, permitiste ser desfigurado até não ter mais aparência nem beleza que atraísse nossos olhares ingratos. Obrigado pela humilde fortaleza de teu silêncio quando todos nós provocávamos tua condenação à morte com nossas indiferenças, rebeliões e pecados. Por teu perdão esplêndido, que brotou, justa­mente, no lenho de teu atroz suplício. Obrigado, Senhor Je­sus, porque sempre estás conosco com teu precioso sangue.

 

CONTEMPLATIO: ”Filho, fala assim em qualquer coisa: ‘Senhor, se te agradar, faça-se isto assim. Senhor, se, é para tua honra, faça-se isto em teu nome. Senhor, se Tu vires que me convém e achares ser proveitoso, para mim, concede-me para que use disso para tua honra. Mas, se vires que me seria danoso e nada proveitoso à salvação de minha alma, desvia de mim tal desejo’. Porque, nem todo desejo procede do Espírito Santo, ainda que pareça justo e bom ao homem. Dificultoso é julgar se o que te incita a desejar isto ou aquilo é o bom ou o mau espírito, ou se, o que te move, é o teu próprio espírito. Muitos que, a princípio, parecem ser movidos por bom espírito, se acham engalfinhados no fim. Por isso, sem verdadeiro temor de Deus e humildade de coração, não deves desejar pedir coisa que, ao pensamento, se te oferece digna de desejar e, especialmente, com inteira renúncia, remetes tudo a mim e me podes dizer: “Ó, Senhor, tu sabes melhor, faz que se faça isto ou aquilo como te agradar! Dá-me o que quiseres, quanto quiseres e quando quiseres.” (Imitação de Cristo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive a Palavra:

“Em tuas mãos entrego meu espírito” (Sl 30,6)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A lei de Cristo só pode viver-se por corações mansos e humildes. Qualquer que seja seus dons pessoais e seu posto na sociedade, suas funções ou seus bens, sua classe ou sua raça, os cristãos permanecem como pessoas humildes: pequenos. Pequenos diante de Deus, porque são criados por ele e dele dependem. Qualquer que seja o caminho da vida ou de seus bens, Deus está na origem e fim de toda coisa. Mansos como meninos e débeis e amantes, próximos ao Pai forte e amante. Pequeno porque estão diante de Deus, porque sabem poucas coisas, porque são limitados em conhecimento e amor, porque são capazes de muito pouco. Não discutem a vontade de Deus nos acontecimentos que sucedem nem o que Cristo tem mandado fazer: em tais acontecimentos, só cumprem a vontade de Deus. Pequenos diante dos homens. Pequenos, não importantes, não super homens: sem privilégios, sem direitos, sem posses, sem superioridade. Mansos, porque são ternamente respeitosos com o criador por Deus e está maltratado ou lesionado pela violência. Mansos, porque eles mesmos são vítimas do mal e estão contaminados pelo mal. Todos tem a vocação de perdoados, não de inocentes. O cristão é lançado à luta. Não tem privilégios. Não tem direitos. Tem o dever de lutar com a infelicidade, conseqüência do mal. Por esta razão, só dispõe de uma arma: sua fé. Fé que deve proclamar, fé que transforma o mal em bem, se sabe acolher o sofrimento como energia de salvação para o mundo; se morrer para ele é dar a vida; se faz seu a dor dos demais. No tempo, por sua palavra e suas ações, através de seu sofrimento e sua morte, trabalha como Cristo, com Cristo, por Cristo (M. Delbrêl, La alegria de creer, Santander 1997).

 

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QUINTA-FEIRA, 12 DE MARÇO DE 2020

ucas 16,19-31 (O homem rico e o pobre Lázaro) – Lucas recolhe, no capítulo 16 de seu evangelho, a catequese de Jesus sobre o uso das riquezas. A co­nhecida parábola que nos propõe, hoje, a liturgia, nos en­sina, em particular, a considerar a presente condição, à luz da eterna, que dará um giro total. Em seguida, vêm as consequências práticas (v.25). O homem rico, que nos apresenta Jesus, não tem nome. Porém, como no centro de seus interesses está o fausto banquete cotidiano, tradicionalmente se lhe dá o nome de Epulón (“banqueteador”, “comilão”). Jesus, pelo contrário, tira do anonimato o pobre. Seu próprio nome é significativo, já que significa “Deus ajuda”. A fome e a doença lhe fazem jazer à porta do rico, à espera (v.21) do que cai, descuidadamente, da mesa posta. Até os cães lhe mostram piedade, mas passa despercebido ao rico. Porém, a vida humana acaba. E Jesus, levantando o telão do tempo, mostra-nos outro banquete, o eterno, predito pelos profetas. Os anjos levam Lázaro a este ban­quete, até o posto de honra: recostado perto do patrão da casa, com a cabeça voltada para seu peito (v.22), goza dos bens da salvação. A sorte do rico é, precisamente, a contrária, e só agora, entre os tormentos infernais, “vê” Lázaro e ousa pedir, por sua mediação, um mínimo de alívio ao ardor que devora seu paladar (v.24). Sem dúvida, as opções da vida presente tornam definitiva e imutável a condição eterna (v.26). Nem sequer um milagre, como a ressurreição de um morto – disse Jesus aludin­do a si mesmo – poderia abrandar a dureza de coração que faz ouvidos surdos ao que o Senhor disse, incessante­mente, por meio das Escrituras (vv.27-31).

 

 

Jr 17,5-10 (Sentenças de sabedoria) – Jeremias nos oferece duas sentenças sa­pienciais: na primeira (vv. 5-8), contrapondo os extremos, com um típico estilo semítico, nos indica, cla­ramente, onde se encontra a maldição do homem, cujo final é a morte, e onde há benção, portadora de vida. Quanto ao ímpio, não o aponta como alguém que age mal, mas como o que confia só no humano (“carne”) e se afasta, interiormente, do Senhor: desta atitude do coração só podem vir ações más. Aquilo no qual o homem confia se assemelha ao terreno do qual suga seus nutrientes uma árvore. Por isso, o ímpio é comparado com um cardo arraigado em terra salubre e inóspita (v.6): não dará fruto, nem du­rará muito. Também o homem piedoso é descrito partindo do interior: confia no Senhor e se assemelha a uma árvore plantada a beira do canal (Sl 1), não teme a estiagem, nem as circunstâncias adversas: prosperará e dará fruto (vv.7s). A segunda (vv.9s) insiste mais explici­tamente na importância do “coração”, centro das decisões e afetos do homem. Só Deus pode conhecê-lo de verdade e curá-lo, pesá-lo e valorizar, com equidade, a conduta e fruto das obras de cada um.

 

Salmo 1 (Os dois caminhos) A vida é como uma encruzilhada existem duas entradas à nossa frente. A nós cabe a escolha de qual caminho seguir: o do bem ou o do mal. Se seguirmos o mal, encontraremos a infelicidade, enquanto que se seguirmos o bem, seremos para sempre felizes. Qual caminho vamos escolher?

Senhor, dá-me a coragem de não me deixar dominar pelo mal? Que eu saiba ser corajoso e escolher sempre o bem. Não permita que eu caminhe sozinho… O importante é que eu esteja contigo e tu comigo. Amém

 

 

MEDITATIO: A Palavra hoje apresenta, a nossos olhos, um quadro de imagens simples ao extremo, de vivas cores, sem matizes. O próprio estilo já é um ensinamento: leva-nos a buscar, sinceramente, o essencial. Emerge um tema central: o homem decide, no tempo, seu destino eterno, vida ou morte, sem que exista outra possibilidade. Quem confia em si mesmo e em uma felicidade egoísta, obra de suas mãos, penetra nas trevas e está cego até o ponto de não ver um mendigo sentado à porta de sua casa. Quem confia em Deus, reconhecendo-se de­pendente dele, e amado por ele, leva, no coração, um germe de eternidade, que florescerá em felicidade e paz eter­na. Como aprender a não confiar em nós mesmos? Nem Jeremias, nem Jesus a explicam com teorias. Utilizam imagens: uma árvore, um mendigo. Fixemos o olhar em Lázaro. O silêncio parece ser o traço principal de seu rosto. Provado, duramente, ao longo da vida, esquecido pelos que esperava ajuda, ele cala. Nenhuma palavra contra Deus, nem contra os homens. Nem rebelião, nem inveja, nem crítica. A morte liber­tadora, talvez longamente esperada, chega como amiga. E a cena muda. Ele, o desprezado, é acolhido pelos anjos e santos no seio de Abraão. Naquela luz, ele segue envolto de silêncio. Uma beleza sobrena­tural emana de seu rosto. Seu rosto deixa transparecer outro rosto. Jesus é o pobre Lázaro: ele não considerou um tesouro zeloso ser igual a Deus, mas que se despojou de sua condição; se fez pobre para enriquecer-nos com sua pobreza. Seu amor humilde o permitiu subir e atravessar esse insondável abismo que separa a terra do céu. E agora, cada dia, se senta à porta de nosso coração e chama…

 

ORATIO: Senhor, Tu nos conheces a fundo e sabes onde pomos nossa confiança: livra-nos dos projetos mesquinhos que nos dão falsas seguranças; abre-nos a horizontes de vida eterna. Tu vês nosso coração e sabes com que se sacia e de que tem fome. Tira-nos tudo que nos atrapalha, que nos fecha no palácio de nosso egoís­mo, orgulho e vaidade. Tudo aquilo que nos faz indiferentes, insensíveis a tantos irmãos sentados à margem e privados do que realmente necessitam: casa, pão, instrução, saúde, cuidados; privados de amor e esperança. Faz-nos capazes de compartilhar tudo que recebemos de tuas mãos, pão espiritual e pão material, para encontrar-nos ali, onde tu quiseste vir viver em meio de nós.

 

CONTEMPLATIO: Estende tuas mãos, pai Abraão. Uma vez mais, ó Pai, estende tuas mãos para acolher o pobre. Dilata teu seio para que entre um número cada vez maior. Estaremos com os que descansam no Reino de Deus junto com Abraão, Isaac e Jacó, que, convidados à ceia, não se recusam. Iremos ali onde se acha o paraíso de deli­cias, onde Adão, que tropeçou com ladrões, já não tem motivo para chorar por suas feridas. Ali onde o mesmo ladrão se alegra por ter sido chamado a fazer par­te do Reino dos Céus. Ali onde não existem, nem fu­racões, nem trevas, nem tarde. Onde nem o verão, nem o inverno, mudarão o curso das estações. Ali on­de não faz frio, nem cai granizo ou chuva, nem necessitaremos deste sol ou desta lua, nem brilharão as estrelas, porque só luzirá o fulgor da graça de Deus, visto que o Senhor será a luz de todos, à luz verdadeira que ilumina todo homem, resplandecerá sobre todos. Iremos ali onde o Jesus preparou moradas para seus servos (Santo Ambrosio).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Felizes os convidados à mesa do Senhor

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Quem sabe esquecer-se e perder-se na oferenda de si mesmo, quem pode sacrificar “gratuitamente” seu coração é um homem perfeito. Na linguagem bíblica poder se dar, pode entregar-se, poder chegar a ser “pobre”, significa está perto de Deus, encontrar a própria vida escondida em Deus, em uma palavra, isto é o céu. Girar só ao redor de si mesmo, entrincheirar-se e fazer-se forte significa pelo contrário, condenação, inferno. O homem pode encontrar-se a si mesmo e chegar a ser verdadeiramente homem somente atravessando o dintel da pobreza de um coração sacrificado. Este sacrifício não é um vago misticismo que faz perder consistência ao mundo e ao homem, mas ao contrário é uma tomada de consideração do homem e do mundo. Deus mesmo tem se achegado a nós como irmão como próximo; em resumo, como outro homem qualquer […]. O amor ao próximo não é algo distinto do amor a Deus, mas por assim dizer, sua dimensão que nos toca, seu aspecto terreno: ambas as realidades são essencialmente uma só. Assim fica garantido nosso espírito de pobreza, nossa disposição à doação e ao sacrifício desinteressado, pelo que atualizamos nosso ser humano, sempre e necessariamente em relação com o irmão e com o próximo. Bem-aventurado é o homem que tem se colocado a serviço do irmão que faz suas as necessidades dos demais. E infeliz é o homem que com sua rejeição egoísta do irmão tem cavado um abismo tenebroso que o separa da luz, do amor e da comunicação; o homem que somente tem desejado ser “rico” e “forte”, de sorte que os demais só constituam para ele uma tentação, o inimigo, condição e componente de seu inferno. No sacrifício que se esquece totalmente de si, na doação total ao outro é onde se abre e se revela a profundidade do mistério infinito; no outro, o homem chega contemporaneamente e realmente a Deus. (J. B. Metz, Povertà nello spirito. Meditazioni teologiche, Brescia 1968).

SEXTA-FEIRA, 13 DE MARÇO DE 2020

Mateus 21,33-43.45-46(Parábola dos vinhateiros homicidas)=Mc 12,1-12; Lc 20,9-19 O texto culmina no v.37 com o advérbio temporal: “finalmente”, que é como uma pedra angular (v.42; Sl 117,22s). Esse momento decisivo está em ato, enquanto Jesus, no recinto sa­grado do templo, está falando aos chefes dos judeus com uma parábola que compreendem muito bem, porque uti­liza imagens da alegoria da vinha (cf. Is 5,1-7). Alguns vinhateiros – os chefes de Israel – tem o grande privilegio de cultivar a vinha predileta de seu patrão, Deus. Porém, no momento da vindima, em vez de en­tregar os frutos de seu trabalho, pretendem apoderar-se da vinha e não duvidam em maltratar aos servos – os profe­tas – enviados pelo proprietário. “Finalmente”, no momento em que Jesus está falando – mandou seu pró­prio Filho, oferecendo, deste modo, a última chance de converterem-se em colaboradores seus no cam­po da salvação. De fato, acontece o que narra a parábola dos vinhateiros malvados: “Compreenderam que Jesus se referia a eles e queriam lançar-lhes mão” (v.45). Jesus não pronuncia um juízo; deixa que sejam os próprios que tirem as conclusões inevi­táveis de sua obstinação: “Quando volta o dono da vinha, que fará com esses lavradores? Acabará de má maneira com esses malvados e arrendará a vinha a outros lavradores” (vv.40s). Quando escreve, o evange­lista, a historia, tornou clara a verdade, alegoricamente, por Isaias e profetizada, por Jesus, na parábola: certamente os chefes mataram o Filho, lançando-o fora do recinto da vinha – os muros da cidade santa; Jerusalém caiu em mãos estrangeiras (destruição de 70 dC.) e agora outros vinhateiros (os pagãos) cultivam a nova vinha (a Igreja) e dão ao Senhor copiosos frutos: a adesão de povos cada, vez mais numerosos, à fé.

 

 

Gn 37,3-4.12-13a.17b-28 (José e seus irmãos)Na historia de José ressoa o eco das lendas do antigo Oriente Próximo, entrelaçadas com as diver­sas tradições literárias da Bíblia (javista, eloísta, sa­cerdotal). O tema da narração põe em relevo, uma vez mais, a misteriosa pedagogia divina: Deus escolhe os “pequenos”(v. 3), ao qual suscita ódio e ciúme (v. 4) até provocar o desenlace, a quase eliminação (vv. 20-28). A história se narra com um tom sapiencial e torna evidente seu fim didático. Apa­recem matizes das diversas tradições particulares que explicam algumas divergências; por exemplo, a ini­ciativa de salvar José é atribuída a Rubén (v. 21) e a Judá (vv. 26s). O horizonte está aberto ao oti­mismo e à universalidade (v. 28): dentro do jogo mes­quinho de contendas tribais e na aparente repetição do passar das caravanas (v. 28), na realidade atua a invisível providencia de Deus (cf. 45,7; 50,20), que conduz seu eleito por caminhos, aparentemente, de morte, para salvar a todos. José está atento aos sinais da vontade de Deus: é, de fato, um ba’al hajalomôth (“in­térprete de sonhos”: cf.v.19), revestido com uma túnica principesca (v. 3) que lhe separa e, inevitavelmente, o contrapõe ao resto de seus irmãos, criando entre eles uma profunda falta de comunicação (v. 4). Sua perseguição, seu sangue – figura da de Cristo – é o preço que o pai deve pagar para estreitar, num único abraço de salvação, todos os seus filhos, já não cobertos por sua corresponsabilidade no mal (v. 25), mas pelo beijo de paz que lhes oferece o irmão inocente, capaz de perdoar (cf. 45,15).

 

Sl 104/105 (A história maravilhosa de Israel) Sigamos o exemplo de São Francisco de Assis, que via na natureza a mão criadora de Deus; que saibamos conhecer Deus nos menores detalhes e que façamos d’Ele nossa oração diária, adorando e bendizendo ao Senhor por tudo o que há nesta terra. Como não admirar o nascer ou o pôr do sol ou escutar o canto do rouxinol, o murmúrio das cascatas, ou a voz do vento? Medite este Salmo num bosque ou à beira de uma lagoa serena e tranquila. Assim, sentirá algo divino acontecer no seu coração. Senhor, hoje quero pedir emprestado como oração o cântico de Daniel: “Bendizei ao Senhor, todas as obras do Senhor… (Dn 3,57-63.72-85). Amém. Senhor, é a nossa resposta à natureza como tua obra; tu és um Deus que ama a natureza e nos ensina a amá-la como obra tua ao nosso serviço. Amém.

 

 

MEDITATIO: Um é o protagonista dos casos narrados pelas presentes leituras. Uma só é também a reação dos personagens em questão. Fala-se de Jesus. Fala-se de nós. Ele é quem está detrás da historia de José, vendido por seus invejosos irmãos. Ele é o herdeiro enviado a perceber o fruto da vinha. Nós somos os irmãos malvados. Nós somos os pérfidos vinhateiros. Porém, não se atualizam estes relatos para condenar-nos, mas nos convidam a levantar o olhar ao coração do Pai. De fato, é dele de quem, sobretudo, se fala; dele, o qual Jesus veio reve­lar. Por amor, o Pai envia Jesus, como José – figura que o anuncia – a “buscar a seus irmãos” (cf. Gn 37,16). A predileção por eles, que os faz “diferentes”, é só uma maior participação no amor paterno. Ao final, triunfando, mostrará a inconsistência do mal e vencerá perdoando o ódio e a rivalidade. Também sobre nós, filhos no Filho amado, transbordou um amor que nos faz “diferentes”, partíci­pes, desde agora, de uma natureza regia. Porém, assim como o “auge” de amor por José sofreu a prova de ser lançado ao poço, a prisão, a solidão, também, cada um de nós está chamado a reconhecer que o cami­nho de Deus passa sempre, como para Jesus, pelo sofrimento e a cruz. Só a este preço poderemos ser colaboradores da salvação de nossos irmãos e testemunhar-lhes o gozo de ser chamados juntos á liberdade do amor.

 

ORATIO: Pai Santo, vinhateiro celestial, queremos cantar teu inconcebível amor pela vinha que tua mão plantou e que confiaste a vinhateiros infiéis e hostis; reconhece­mo-nos também entre eles, por ignorância, por superficia­lidade. Também queremos cantar teu amor por teu Filho predi­leto, que enviastes no momento oportuno, dizen­do: “A meu filho o respeitarão”. Era justo, bom, manso. O viram aqueles vinhateiros e o odiaram. Que grande vindima neste tempo de graça! E nós estáva­mos ali observando e ninguém o defendeu… Pai, que infinito amor te levou a entregar o teu Filho, o Amado, como preço altíssimo pelo resgate de tua vinha, a amada infiel! Que loucura de amor te move, hoje, Pai bom, a entregar o teu Filho em nossas mãos, sabendo que somos capazes de exercer violência!

 

CONTEMPLATIO – Para amar aos inimigos, que é no que consiste a perfeição da caridade fraterna, nada nos anima tanto como considerar, com agradecimento, a admirável paciência do “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44,3). Considera, ó humana soberba, ó altaneira impa­ciência, o que suportou, quem e como o suportava. Quem há que, ante este admirável quadro, não sosse­gue em sua cólera? Quem, ao escutar aquela maravilhosa voz cheia de doçura, de caridade e de im­perturbável serenidade: “Pai, perdoai-os” (Lc 23,24), não abraçará, imediatamente, aos seus inimigos, com todo afeto? Poderia acrescentar a esta petição algo mais doce e caritativo? Pois o acrescentou e, parecendo-lhe pouco o rogar, quis ademais desculpar-lhes: “Pai”, disse, “perdoai-os, por­que não sabem o que fazem”. Assim, pois, para aprender a amar, o homem não deve degradar-se com os prazeres da carne. Para que não su­cumba ante a concupiscência carnal, derrame todo seu afeto na suavidade da carne do Senhor. Descansan­do assim, mais suave e perfeitamente no deleite da ca­ridade fraterna, também abraçará aos seus inimigos com os braços do verdadeiro amor. E para que este divino fo­go não se apague pela condição das injurias, con­temple, continuamente, com os olhos da alma, a tranquila paciência de seu amado Senhor e Salvador (J. Elredo de Ril’val).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Revestiu-me com um traje de salvação” (ls 61,10)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A única realidade inquebrantável na história de José, que não se tem perdido, ainda que se tenha esquecido, incompreendida, não assumida conscientemente, é o amor de Jacó. O amor de Jacó que vive nos filhos e não pode ser pisoteado, morto, esquecido, porque ressuscitará nos mesmos filhos como amor fraterno. Existe um valor, ao qual podemos chamar “o valor”, que está no fundo de todos os desejos, de todos os esforços, de toda a atividade humana, é o amor do Pai, o amor com que cria a todo homem. O homem pode viver desvinculado deste amor, inclusive negando este amor, porém nunca poderá destruí-lo, porque é um valor que ressuscita sempre; é a realidade que atua na páscoa. Às vezes falamos acaloradamente sobre os valores, porém a história de José nos diz que cada valor é valor se creres a partir deste único valor fundante que é o amor do Pai vivido nos filhos, ressuscitado nos irmãos. Um valor é valor se ajuda as pessoas a aderir-se livremente ao organismo da fraternidade de todos os homens. O que não ajuda à livre adesão, à fraternidade, à comunicação cada vez mais universal, a descobrir a unidade do amor que cria a todos e que se exercita ao reconhecer-se um ao outro, não é valor, é ilusão, engano, uma espécie de idolatria cultural. Ao final da história de José, em uma carestia, em uma tragédia fraticida; a qual leva uma falsa cultura, emerge uma cultura do amor, ou melhor, uma cultura entendida como um tecido no qual a atividade humana, sua criatividade, respira e recebe vida do único valor indestrutível, que é o amor do Pai e move o universo para uma filiação e fraternidade consciente. (M. I. Rupnik, “Cerco i miei Fratelli”).

 

SÁBADO, 14  DE MARÇO DE 2020

Lucas 15,1-3.11-32 (O filho perdido e o filho fiel: “o filho pródigo”)Na introdução das parábolas da misericórdia (c.15), Lucas indica a quem estas vão dirigidas (vv.1s): os destinatários se dividem em dois grupos: os pecadores que rodeavam Jesus para escutar-lhe; e os escribas e fariseus que murmuram entre eles. A todos, indis­tintamente, Jesus revela o rosto do Pai, por uma parábola tirada da vida ordinária e que comove profundamente aos ouvintes. O filho menor decide levar sua vida de acordo com seus planos pessoais, Por isso, ele pede, ao pai, a par­te da “herança” (“vida”; v.12;) que lhe corresponde, para, depois, gastar (”perder”, v.13), dissolutamente. A ambivalên­cia dos termos empregados indica que o que se perde é, antes de tudo, o homem inteiro. A experiência da fome (v.17) leva, a refletir, ao que, com fama de vida alegre, saiu depressa da casa paterna e, agora, está distante. A decisão de co­meçar uma nova vida o leva para longe (vv.18s) por um caminho que o pai observava, fazia tempo, esperando-o (v.20). É Ele que reduz qualquer distân­cia, porque seu coração permanecia próximo daquele filho. Comovido, profundamente, corre ao seu encontro, abraça-lhe e reveste-lhe da dignidade perdida (vv.22-24). Assim é que Jesus manifesta o proceder do Pai celestial (e o seu próprio) com os pecadores que “se aproximam”, dando, a duras penas, um e outro passo. Mas, os escribas e fariseus, que rejeitam participar na festa do perdão, são como “o filho maior”, que, obe­dientes aos preceitos (v.29), se sentem credores de um pai-dono, do qual nunca compreenderam seu amor (v.31), ainda que vivendo sempre com ele. Também, para ir ao encontro deste filho, de coração mesquinho e mal­vado (v.30), o pai sai de casa (v.29), manifestando, assim, a cada um, o amor humilde que espera, busca, exorta, porque quer estreitar, a todos, em um único abraço, reuni-los em uma mesma casa.

Mq 7,14-15.18-20 (Oração pela confusão das nações; Apelo ao perdão divino)Este texto faz parte dos oráculos que anunciam a restauração dos baluartes de Jerusalém, alargando as fronteiras. O povo, que volta do desterro, se sente exausto, e a saudade dos férteis pastos da Transjordania arranca do profeta uma lamentação cadenciosa como uma poesia fúnebre (v.14): que o Senhor volte a renovar os prodígios do Êxodo! (v.15). Mas, de repente, aparece na cena o protagonista dos grandes acontecimentos salvíficos. O que reunirá a multidão de povos re­servou um lugar deserto onde apascentará só o seu re­banho, um rebanho disperso, sem segurança alguma, que pode confiar só nele. O coração entoa, então, um apaixonado hino, único no Antigo Testamento, ao Deus que perdoa (Jr 9,24;Ex 34,6s). Deus é pai. Comove-se com sofrimentos dos filhos que erram (v.19); sua compaixão, como em tempos do Êxodo, lhe leva, com instinto quase maternal (jesed), a perdoar as culpas que os oprimem, a lançá-las ao fundo do mar como fez tempos atrás com o faraó e seus ministros no mar Vermelho, inimigos de seu povo (cf. Ex 15,1.5.16). Sua fidelidade é suma gratuidade no perdão (Sl 25,6;103,4), para que o “resto” de seu povo possa, enfim, permanecer fiel à aliança (v.20).

 

Sl 102/103 (Deus é amor) Por meio de um canto suave, o salmista goteja afeto e amor ao Senhor e canta suas maravilhas e seus atos de ternura para conosco. Devemos meditar este Salmo lentamente, saboreando cada palavra que nos introduz nos ministérios do coração de Deus. Quando rezamo-lo com fé, o Senhor nos fortalece e confronta. Todo o amor de Deus Pai nós podemos contemplar na pessoa de Jesus: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4) O Pai nos enviou o seu único Filho, Jesus, por puro amor a nós e para que Ele nos ensinasse o caminho da vida plena. O grande hino de ação de graças que podemos oferecer ao Pai em resposta à sua generosidade não é realizado por meio de palavras, mas sim com a própria vida. Tocam-me profundamente as palavras deste Salmo: “[O Senhor é] lento para a cólera e rico em bondade”. Ele tem pressa em nos amar, em nos perdoar. Não perca tempo, o Senhor está lhe esperando! Se você compreende melhor este Salmo, leia e medite o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, as três grandes parábolas da misericórdia. Senhor, como é maravilhoso parar um pouco com as minhas atividades e pensar em quantos benefícios até hoje tenho recebido do teu amor. Deixa que minha alma, como a do salmista, se expanda, se dilate e cante “bendize minha alma ao Senhor por todos os benefícios e não esqueça nenhum”. Quero-te agradecer por me ter criado; como é bela a vida; mesmo mesclada pelo sofrimento, com decepções; com dores, vale a pena viver e agradecer com todas as batidas do meu coração, com todos os meus tons e repertório. Que tudo cante o teu louvor.

 

 

MEDITATIO: As sendas da infidelidade são sempre apertadas e sem saída: a distância da casa paterna cria, ao final, uma angustiosa pena que oprime mais que a fome. Por esta razão, todo desvario pode converter-se em uma “Felix culpa”, um erro afortunado, no qual o homem escuta e se comove pelo eco da voz paterna que, incansavelmente, continuou pronunciando com amor nosso nome. Se o filho afastado desperta ao sentido de sua dignidade e ao amor filial, o que fica em casa corre o risco de não aceitar, de ficar sem amor. Todos nós podemos nos ver refletidos em um ou no outro filho. O pai é o que sempre sai ao encontro, tanto de um, como do outro. Ele nos espera sempre, quer venhamos da dispersão, como o filho pródigo, ou de um lugar ainda mais perigoso: da região de uma falsa jus­tiça, de uma falsa fidelidade. A nós Ele pede somente para deixar-nos estreitar em seu abraço, fixando-nos nessa mão que nos bendiz, desejosa de nossa felicidade e da de nossos irmãos.

 

ORATIO: Ó Pai do céu, tua Palavra nos convida, cada dia, pa­cientemente, a voltar, confiados a teu coração, para rece­ber graça e perdão. Sempre somos filhos rebeldes, bus­cando o que nada vale, porém tu segues incansável, à espera, e cada dia nos mostras o caminho. Teu Filho é o caminho mestre que nos pode levar a Ti; Ele é Palavra de verdade e de vida, sacramento do maior amor, que veio a carregar o pecado do mundo. Estreita-nos para sempre, ó Pai, em teu coração, a nós, teus filhos redimidos no Filho; enche-nos de teu Espírito, de sorte que vivamos para o louvor de tua glória.

 

CONTEMPLATIO: Senhor Jesus, Deus nosso, teu Espírito, que desde a cruz encomendaste a teu Pai, me conduza a ti, em tua graça. Careço de um coração contrito para buscar-te, de arrependimento e de ternura. Faltam-me lágrimas para orar-te. Meu espírito está entenebrecido; meu coração está frio e não sei como esquentá-lo com lágrimas de amor por ti. Porém, Tu, Senhor Jesus, Deus meu, concede-me um arre­pendimento radical, a contrição de coração, para que me ponha a buscar-te com toda a alma. Sem ti, ficaria privado de toda realidade. O Pai, que desde toda a eternidade te gerou em seu seio, renove em mim tua imagem. Tenho te aban­donado, não me abandones Tu. Tenho me distanciado de Ti. Põe-­te a buscar-me. Conduz-me a teus pastos, entre as ovelhas de teu rebanho. Nutre-me, junto a elas, com a erva fresca de teus mistérios que são morada do coração puro, do coração portador do esplendor de tuas revelações. Que possamos ser dignos de tal esplendor, por tua graça e amor pelo homem, ó Cristo, Salvador nosso, pelos séculos dos séculos. Amém (Isaac de Nínive).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Mudaste meu luto em danças(Sl 29,12)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O Deus cristão é o Deus da esperança não só no sentido de que é o Deus da promessa e por isso fundamento e garantia da esperança humana, mas também no sentido de um Deus que sabe festejar este retorno. A humildade e a esperança de Deus não deixam de esperar a seus filhos com um amor mais forte que todo o não amor com o que pode se correspondido. Deus ama como só uma mãe sabe amar, com um amor que irradia ternura. O mistério da maternidade divina é ícone da capacidade de um amor radiante e gratuito, mais fiel que qualquer infidelidade humana. Deus espera sempre, humilde e ansioso, o consentimento de sua criatura como -segundo sublinha são Bernardo- fez com o “sim” de Maria. A parábola nos põe ante um Pai que não teme perder a própria dignidade, inclusive parece pô-la em perigo. A autoridade de um Pai não está nas distâncias que mais ou menos mantém, mas no amor radiante que manifesta […]. Este é o intrépido amor de Deus: a intrepidez de romper falsas seguranças aparentes, para viver a única segurança que é a do amor mais forte que a do não amor; a intrepidez de ir ao encontro do outro superando as distâncias protetoras que nossa incapacidade de amor com frequência pretende levantar ao redor nosso. (B. Forte, Nella memória Del Salvatore, Cisnello B. 1992).

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