Lectio Semanal de 16 a 21 de julho

SEGUNDA-FEIRA, 16 DE JULHO DE 201815ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 10,34-11,1 (Jesus causa divisões; Renuncia a si mesmo; conclusão discurso)

Um texto dos mais difíceis de compreender, por sua aparente contradição. Jesus, que mais adiante dirá que é «manso e humilde de coração» (Mt 11,29), diz agora que veio trazer discórdia, e não paz à terra (cf 10,34). Como conciliar estes ex­tremos? Em que sentido interpretar suas palavras? Em casos assim, é o contexto literário que nos ajuda a entender. O texto está situado em um contexto de perseguição por causa da fé em Jesus. De fato, Ele diz em Mt 10,32: «Se alguém se declara a meu favor diante dos homens, eu também me declararei a seu favor diante de meu Pai celestial». Isto ilumina o caminho e mostra que a divisão na família não surge por questões de tempera­mento ou dissidências pessoais, mas por sua fidelidade a Cristo. Alguns crerão nele, outros não. Nisto Jesus veio trazer divisão; quer dizer, se torna motivo de discórdia entre os que crerão e os que rejeitarão a fé. O Evangelho fala claro. Ele, que anuncia a paz e a concórdia, ao tratar o tema da verdadeira fé, de nossa adesão a Ele, prefere a divisão, a intolerância e diríamos, inclusive, em favor dos que lhe seguiram e creram nele. Por isso, e sempre na mesma linha, Jesus se põe acima de todos os valores, inclusive dos mais sagra­dos. E acrescenta que para seguir-lhe é preciso levar a cruz, renunciar e dar a própria vida. Exigências que podem parecer excessivas, a não ser pela verdade que contêm e pela excelência d’Aquele que as formulou e as pretendeu como sinal de sua autoridade e sua supremacia sobre todas as coisas.

 

 

Ex 1,8-14.22 (Opressão dos israelitas) – Vemos hoje a situação dos hebreus no Egito sob «um novo rei». O faraó já não era o que havia elevado José, mas outro que não o conhecia (v.8). Suspeitando daquele povo que crescia e se multipli­cava em sua terra, pensou que talvez um dia, poderia levantar-se contra o verdadeiro povo egípcio ou aliar-se com seus inimigos (vv.9ss). E agiu contra eles: decretou que impusesse trabalhos forçosos extremadamente duros, com o propósito de esgotar suas forças, e os empregou na cons­trução de duas cidades-armazéns no delta do Nilo (v.11). Os egípcios amarguraram a vida dos israeli­tas, os converteram em escravos obrigados com grande dureza a fabricar tijolos de argila. Mas, quanto mais lhes oprimia, mais se multiplicava o povo (v.12). Então o faraó pensou em outro método, absolutamente desu­mano e cruel, destinado a reduzir Israel à impotência e à aniquilação: a eliminação dos filhos varões que nascessem (v.22). Do ponto de vista histórico, devemos situar estes acontecimentos em tempo do Novo Império egípcio, século XIII a.C. Sobre este fundo de injustiça e sofrimento se desenrolará a magna ação salvadora de Deus, tanto mais excelsa quanto mais triste e desesperada era a situação do povo.

 

Salmo 123/124 (O Salvador de Israel) – Para manifestar os seus sentimentos, o orante do Salmo recorre a imagens fortes e violentas, como uma enchente que não pode ser contida. A força da água é destruidora: leva tudo que encontra no seu caminho. Para nós, brasileiros, esta é uma cena vista anualmente e amplamente divulgada na TV e nos jornais. E todos os anos, a mesma pergunta é pronunciada: quem nos livrará das enchentes? Serão os homens, os políticos? Obviamente eles devem fazer tudo aquilo que está a seu alcance quanto à melhoria da infra estrutura, para que se possa evitar mortes e desastres ecológicos. Mas de qual enchente o salmista está falando? Seria ela uma metáfora? Creio que ele esteja desnudando a sua alma e nos revelando a profundidade de seus sentimentos. Perseguido, abandonado por todos, endividado, doente e incapaz de encontrar acolhida nos hospitais, uma vez que tudo deve ser pago com antecedência. Sofre a violência e a enchente do pecado, e não encontra um sacerdote que lhe escute, porque todos estão muito ocupados com tantas outras coisas. Mas o Senhor está sempre ao seu lado. Não desconfie, ele é amigo de verdade e não nos abandona em momento algum.

Senhor, já faz tempo que sofro de uma forte solidão; meu coração tem necessidade de elevar-se até ti, mas a minha garganta está seca. O meu coração não encontra palavras e meus olhos não tem mais lágrimas, por isso, vem em meu socorro, Senhor. Este Salmo manifesta o sofrimento dos mártires, dos evangelizadores, de todos que preferem morrer a negar a Deus ou a trair a Palavra do Senhor. São os santos que vivem conosco. Jesus também experimentou na sua carne todo o sofrimento e amargura da inimizade, e tudo ofereceu, bebendo o cálice até o fim. Sem Deus não podemos ser fieis, mas com Ele carregaremos não só a nossa cruz, mas também a cruz dos outros. “Por nós mesmos, não somos capazes de pôr a nosso crédito qualquer coisa como vinda de nós; a nossa capacidade vem de Deus”        (2 Cor 3,5). No sofrimento, contemplemos Jesus crucificado e Maria aos pés da cruz, e a forte coragem da fidelidade surgirá de novo em nós. Amém.

 

 

MEDITATIO: O Evangelho nos mostra, uma vez mais, a importância da fé em Cristo e, em especial, de sua pessoa. Esta fé, tal como era consi­derada pelo próprio Jesus e pela comunidade primi­tiva, está acima das coisas mais sagradas e maiores da vida. Seria uma fé falsa aquela que, para não romper os vínculos familiares ou amistosos, perma­necesse em um nível superficial, sem nenhuma exigência. A verdadeira fé, nos Evangelhos, significa um corte na vida e, se for o caso, a renúncia aos sentimentos mais profundos do coração, porque o que conta é a opção por Cristo ante todos os demais valores e ideais da vida. Devemos re­forçar, em nós, a adesão total, profunda, a Cristo, preferindo-lhe, a tudo, e preferindo nossa fé, a qualquer outra fé, religião ou ideal humano, especialmente, no mundo de hoje, dividido entre poderosos de­safios da técnica e incessantes conquistas, do bem-estar e outras realidades que são, muitas vezes, ídolos do homem moderno. Ser capaz de rea­firmar a fé em Cristo e no Evangelho é uma necessidade vital para o crente de nossos dias, senão esta fé se esvairá e se perderá.

 

ORATIO: Senhor faz que nossa adesão a ti, como a de Paulo e dos apóstolos, como a de tantos santos e fieis da Igreja, seja total, absoluta; acima de todo vínculo, sentimento e afeto e todo valor humano. Pois só tu és a verdade, a luz, o caminho, o alimento, a paz, a alegria e a espe­rança de nosso coração.

 

CONTEMPLATIO: Quando o grão de trigo caiu em terra e morreu, saiu dele, toda a messe dos fieis e os filhos de Israel se multiplicaram e se tornaram muito poderosos. Assim, pois, também em ti, se morre José, quer dizer, se acolhes em teu corpo a mortificação de Cristo e fazes morrer o pecado em teus membros, se multiplicarão em ti os filhos de Israel. Por filhos de Israel se entende os sentidos bons e espirituais. Portanto, se fazemos morrer os sentidos da carne, crescem os sentidos do espírito, e, quando morrem, em ti, cada dia, os sentidos da carne, crescem os sentidos do espírito, e quando morrem cada dia, em ti, os vícios, cresce o número de virtudes. Tu que escuta estas coisas, se, por acaso, já recebeste a graça do batismo, foste contado entre os filhos de Israel, acolheste em ti o Deus-Rei e, após isso, quiseste desviar-te, realizar ações do mundo, levar a cabo atos terrestres e trabalhos com o barro, deves saber e reconhecer que se levantou em ti outro rei que não conhece José; é um rei do Egito, que te obriga a fazer suas obras, te faz trabalhar para ele com ladrilhos e barro. É ele quem, pondo sobre ti instrutores e vigias, te empurra com golpes de vara às obras da terra, para construir-lhe cidades. É ele que te faz correr de um lado para outro no mundo e faz turbar, pela cobiça da ganância, os elementos do mar e da terra. É este rei do Egito que te faz percorrer o foro com as lides, atormentar aos parentes com as disputas por pedaços de terra, por não falar demais: tender insídias a castidade, enganar a inocência, cometer porcarias em privado, crueldades em público, perversões no íntimo da consciência. E visto que são muitos os mestres e doutos de malícia que o faraó nos coloca, o Senhor Jesus criou outros mestres e doutores que nos ensinaram “a ver a Deus com a alma, a abandonar por completo o homem velho com suas ações e revestir-nos do no­vo, criado segundo Deus” (Orígenes).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Bem-aventurados os perseguidos por fazer a vontade

de Deus, porque deles é o Reino dos Céus» (Mt 5,10)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Os dois primeiros capítulos do Êxodo preparam a cena da magna irrupção de Yahweh na história, destacando a situação dos filhos de Israel no Egito. Estes, durante sua permanência no Egito, dão a impressão de ter ­se esquecido, quase por completo, do Deus de seus pais. Quando Deus irrompe na história, fará com um ato absolutamente gratuito. A iniciativa é sua por completo. Deus se vê induzido e solicitado a salvar, não em virtude de mérito algum da parte de Israel, mas pela situação de miséria em que seu povo se encontrava. No êxodo iniciou Israel a entender a misteriosa predileção de Yahweh pelos humildes e débeis. Que seu próprio título de eleição não o havia proporcionado seus méritos, mas sua pequenez e impotência (cf.Dt 7,7ss). Deus se revelará ao longo de toda a história da salvação como o que «exalta os humildes» e que para realizar suas maiores obras, escolhe «o que o mundo considera débil para confundir os fortes; escolheu o vil, o desprezível, o que não é nada aos olhos do mundo, para anular os que crêem que são algo» (1 Cor 1,27ss). A escravidão que padeceram é muito mais que um fato simplesmente material. Na verdade, foram os próprios israelitas que quiseram permanecer na escravidão. É certo que os judeus gemiam em meio da opressão, desejando ardentemente ser libertados dela, porém, isso é algo perfeitamente humano, e não significa que estivessem dispostos a seguir o árduo chamado à liberdade. Haviam se convertido em gente de ânimo servil, pouco disposto a renunciar a essa pesada segurança que é a recompensa de quem se rende a um regime, totalitário (J. Plastaras, ll Dio dell’Esodo, Casale Monf. 1977).

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 17 DE JULHO DE 201815ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 11,20-24 (Desgraça para as cidades às margens do lago) – O texto é uma lição sapiencial como muitas outras do Antigo Testamento. Um fato concreto explicado a partir de uma semelhança de termos opostos (os dois caminhos: o bem e o mal; as duas árvores: plan­tadas em terreno árido e junto à água). A expectativa frustrada é uma realidade humana descon­certante, ainda que frequente na vida. Aqui vemos a dura desaprovação de Jesus às cidades que não acolhem sua Palavra. São três cidades da Galiléia que, mesmo ouvindo a pregação de Jesus e tantos milagres, permanecem frias e insensíveis: Corazin, Betsaida e Cafarnaum. Para acentuar ainda mais sua culpa, Jesus as compara com outras cidades pagãs bem conhecidas por seus pecados, como Tiro e Sidônia. E nos faz ver que estas cidades, ainda que corrompidas por tantos vícios, teriam tido um comportamento diferente, mais acolhedor e respeitoso, ainda que só tivesse sido por ter visto os milagres realizados por Jesus. Sem dúvida, as cidades «crentes» da Galiléia, apesar de suas ações milagrosas, se negam a escutar, preferem a dureza de coração e se fecham a mensagem de salvação oferecida.

 

 

Êx 2,1-15a (Nascimento de Moisés; Fuga para Madiã) – Esta história é uma das mais conhecidas do Antigo Testamento. A ordem do faraó era que todos os recém-nascidos varões fossem afogados no rio Nilo. Sem dúvida, a Providência vela por uma destas crianças, que será salva das águas de um modo surpreendente. Este era o desígnio divino: a criança será mais tarde o salvador de seu povo. O relato, similar a outros vistos nas diferentes literaturas sagradas do Meio Oriente, tem grande importância para a fé cristã: o pequeno Moisés converteu-se na figura de um outro Menino que, já em seus primeiros dias, também será perseguido de morte por Herodes. Mãe e filha abandonam o menino na água (vv.3ss), porém é encontrado pela filha do faraó. Chamou-lhe Moisés, nome que chegou a nós como simples abreviatura, na qual falta a primeira parte onde, seguramente, se encontraria (como mostram muitos antigos nomes egípcios análogos) o nome de alguma divindade do Nilo. Depois, Moisés, já na idade adulta, se dá conta da sorte de seus irmãos hebreus e se põe a favor deles. Seu zelo impetuoso o induz depois à fuga e ao auto exílio; vai a Madiã, proximidades do mar Vermelho (v.15b), onde começará outro tipo de vida e se fará pastor dos rebanhos de seu sogro, Jetro.

 

 

Salmo 68/69 (Lamentação) – Trata-se de uma belíssima “lamentação individual”. O povo de Israel tem como hábito “queixar-se de Deus” e chorar pelos pecados, tanto os próprios quanto os dos irmãos. São conscientes de que os pecados individuais tornam-se sofrimento para toda a comunidade, assim como a santidade dos indivíduos se transforma em santidade e alegria para todos. Este sentimento de coletividade deve ser recuperado e transformado em solidariedade ao bem. Infelizmente, existem pessoas que são solidárias somente com o mal. Com uma imagem forte e eloquente, o salmista fala do medo que o assalta e dos perigos que pesam sobre sua vida. O salmista está enfrentando um período em que não consegue encontrar uma saída para os seus problemas. E este sentimento é comum a todos nós; mais cedo ou mais tarde nos depararemos com situações de extrema dificuldade, e conseguir enxergar uma saída não será uma tarefa fácil. São estes momentos preciosos que devem ser lembrados como um caminho de purificação, pois neles descobrimos o amor de Deus.

Senhor, quero fazer deste Salmo a minha oração preferida nos momento duros da minha vida, quando não enxergo nada e parece que estou em meio a nuvens espessas e densas ou num túnel, como Santa Teresinha do Menino Jesus. É neste momento que eu quero cantar a misericórdia, a beleza da fé. E crer, sem dúvidas, que a noite não é para sempre, que as nuvens não cobrem para sempre o Sol, que o mal deve ser vencido. Senhor, esta fé deve me sustentar; quero rezar de novo este Salmo com amor, pensando nas milhões de pessoas que se sentem perseguidas, solitárias e abandonadas; quero fazer deste Salmo um grande “cinturão” de segurança por meio do qual quero ser solidário aos que sofrem e compreender os que nada enxergam e nada conseguem amar. Senhor, toca a humanidade sofrida, dura e insensível e faz que todos sejamos centelhas de amor e de verdade, para incendiar com o novo fogo o mundo em que vivemos. Amém.

 

 

MEDITATIO: Moisés, salvo das águas, salvará depois o seu povo. Existe sempre estreita relação entre o que se é e o que se faz; o que se experimenta e o que se comunica. Também o cristão conhece esta experiência fundamental. Trata-se de algo que nos fala de uma lógica humano-divina que não admite exceções. Dirá São Paulo: “Em outro tempo eras trevas, porém, agora, sois luz no Senhor. Comportai-vos como filhos da luz, cujo fruto é a bondade, a retidão e a verdade» (Ef 5,8ss). No Novo Testamento aparece muito esta relação: se somos uma coisa, devemos seguir o fruto desse ser. Co­mo diziam os antigos, “agere sequitur esse» (“o agir segue ao ser»). Se somos cristãos, devemos irradiar a luz de Cristo. Se somos amados, devemos amar; se somos felizes, devemos fazer felizes aos outros, e se nos foi anunciado a Palavra, devemos comunicá-la aos demais. Esta lógica procede de nossa união com Cristo: somos nele uma nova criatura, temos nos convertido em filhos de Deus, e isto supõe novo estilo de vida que deriva da nova realidade que adquirimos por graça. Fomos perdoados; pois, também nós, como Cristo, devemos perdoar; fomos salvos por Cristo, dai que também nós devemos procurar a salvação dos demais. A dignidade cristã, procedente de nossa inserção em Cristo, nos move a ser para os outros o que Cristo foi para nós, nos induz a levar aos outros o que temos recebido.

 

ORATIO: Senhor, tu disseste: “Quem me vê, vê ao Pai». Faz que possa­mos ser também, ainda que seja em medida mínima, um reflexo do Pai celestial. Um pequeno raio de luz que emana de sua pessoa divina e assim possamos irradiar um pouco de bondade, perdão, esperança, alegria, confiança e serviço generoso aos outros. Faz que sempre possamos recordar nossa vocação, nossa dignidade, o insigne privilegio de estar realmente inseridos na Trindade divina, e que esta consciência nos ajude a viver intensamente as realidades que a fé nos oferece, de tal modo que os outros, talvez menos privilegiados que nós, possam receber um influxo benéfico do tesouro de graça que nos foi concedido. Amém.

 

CONTEMPLATIO: (…) Não só deixou a realeza, mas que a «renegou», a odiou, a desprezou. Havia-lhe sido oferecido o céu, e não valia a pena admirar o palácio real do Egito. Estava convencido de que ser ultrajado por Cristo era melhor que estar entre comodidades, pois isto era por si uma recompensa, preferindo compartilhar os sofrimentos do povo de Deus. Vós, em efeito, sofreis em vosso próprio benefi­cio, porém ele fez pelos outros; e, espontaneamente, se lançou a enormes perigos, quando podia viver entre as honras e gozar as vantagens da corte. Para ele, o pecado era não associar-se aos sofri­mentos de seu povo. Assim, pois, se considerava pecado não sofrer espontaneamente com os outros, devia ser verdade­iramente um grande bem o sofrimento ao que se expôs, abandonando a realeza. E, prevendo algo grande, esti­mou “os ultrajes de Cristo como uma riqueza superior aos tesouros do Egito». Em que consiste o ultraje de Cristo? Em ser maltra­tados porque confiamos em Deus. Tudo isto teve lugar porque Moisés perseverou na fé como se visse o invisível. Igualmente, também a nós, se vemos sempre a Deus com nossa mente, se nos mantemos ocupa­dos com sua recordação, tudo nos parecerá fácil, tudo suportável; poderemos tolerar tudo com bom ânimo, seremos superiores a todas as tentações (João Cri­sostomo, Omelie sull’Epistola agli Ebrei, Roma 1965).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Deus escolheu o que o mundo considera fraco para confundir aos fortes» (1 Cor 1,27).

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Ainda que sem saber, todos os homens servem aos planos de Deus. As obras de Deus começam na humildade, no escon­dido, e nestas circunstâncias não sabemos nunca que é o que pode servir ao Senhor: talvez seus inimigos sejam seus melhores co­laboradores, talvez colaborem em seus planos mais que seus amigos. Também hoje continua assim: que mistério se desenrola através da história! É Deus quem conduz os acontecimentos; todos eles respondem ao desígnio divino, e os homens servem todos a este desígnio: queiram ou não, todos entram neste plano. Quem nos dará olhos para saber descobrir nos aconteci­mentos mais humildes o começo das grandes obras? Não é a grandeza e o poder o instrumento das obras divi­nas, mas precisamente a humildade, a pobreza, a debilidade, a impotência. Hoje como ontem, e sempre. Só na medida em que os homens se mantenham na humildade e no escondi­do, na pobreza e na impotência, servirão ao Senhor. Moisés, instrumento de Deus, é uma pobre criança. Porém, salvará a Israel contra o poder do faraó, e o salvará, precisamente, através do próprio faraó. O mundo, o inimigo de Deus, se enfurecerá contra um poder oposto ao seu. Não se enfurecerá contra a debilidade e contra a impotência. A filha do faraó salva a vida do pequeno Moisés. O faraó se põe duro contra Israel porque este se mostra recalcitrante às suas ordens; sem dúvida, contra este pequeno menino que nada teria podido opor-lhe se lhe houvesse matado, o faraó se encontra sem poder, e é ele mesmo quem o salva […]. Não é o poder, não é a grandeza, não é a riqueza, o que deve dar medo aos inimigos de Deus, mas a humildade dos pobres, daqueles que ainda confiam em Deus (D. Barsotti, Me­dtazione sull’Exodo, Brescia).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 18 DE JULHO DE 201815ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 11,25-27 (O Evangelho revelado aos simples; O Pai e o Filho) – O texto de hoje nos transmite uma das poucas orações explícitas de Jesus recolhidas nos Evangelhos. Esta oração é uma breve b”rãkhah, ou seja, «louvor», dirigida a Deus (do mesmo modo que tantos salmos do Antigo Testamento).         O motivo, se nos fixamos bem na tradução do texto original, é este: ter revelado as coisas do Reino de Deus aos pe­quenos antes que aos sábios do mundo. Jesus não louva ao Pai em primeiro lugar por ter escondido estas coisas aos sábios do mundo, mas antes por­que as «deu a conhecer aos simples» (v.25). Isso é o que agradou ao Pai, como o vê o amor filial de Jesus. A seguir, fora já da oração, Jesus faz umas afirmações impressionantes sobre si mesmo: primeiro diz que tudo lhe foi entregue por seu Pai (v.27a), palavras que veremos ratificadas e com­pletadas por aquele solene «Deus me deu autoridade plena sobre céu e terra» (Mt 28,18). Jesus era cons­ciente do grande poder que tinha, que era um dom do Pai. Segundo, Jesus afirma que “ninguém conhece ao Filho, senão o Pai» (v.27b), indicando, deste modo, sua reali­dade divina e messiânica, coisa que escapava absolutamente a qualquer observação ou dedução humana privada da luz da revelação. Por último, disse Jesus de modo semelhante que «ninguém conhece ao Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o queira revelar» (v.27c). Aqui temos uma explicação clara da impossibilidade, na qual se encontra o homem de conhecer, verdadeiramente, a Deus como Pai. E, precisamente, Jesus se apresenta como o revelador do Pai: que o homem chegue ao conhecimento do Pai do céu depende inteiramente dele, de Jesus.

 

 

Ex 3,1-6.9-12 (A sarça ardente; Missão de Moisés) – Se a página da infância de Moisés é uma das mais conhecidas, esta de hoje, que narra seu chamado, é uma das mais importantes deste livro. Moisés, integrado na família de Jetro, sacerdote madianita que lhe havia dado sua filha Séfora por esposa, adapta-se ao novo tipo de vida, se faz pastor naquela terra e, seguindo seu rebanho, chega, um dia, ao monte de Deus, o Horeb, no Sinai (v.1). Naquela solidão é onde Deus lhe sairá ao encontro para uma revelação transcendental que marcara não só sua vida, mas também, e de modo especial, a vida de seu povo, Israel, e a da Igreja de Cristo. De fato, Deus lhe envia a salvar a seus irmãos da escravidão, figura da opressão da humanidade que será salva e redimida pelo enviado de Deus, Cristo Jesus. A ação parte de um fato surpreendente, nunca visto: uma sarça que arde sem consumir-se (v.2). Atraído por este espetáculo, Moisés se aproxima e, quando se encon­tra próximo da sarça, ouve a voz do Senhor. Deus se mos­tra sensível a dor, ao clamor do sofrimento, e mais ainda quando este sofrimento é dos pequenos ou dos oprimidos. Não houve nenhuma oração por parte do povo que tenha movido Deus a intervir; é simplesmente «o clamor» da aflição daquela gente oprimida que tem chegado a Ele como uma súplica (v.9). E Deus responde. Dele procede a iniciativa: é Yahweh quem dá o primeiro passo. Sem dúvida, para atuar de modo concreto entre os homens, quer uns homens eleitos que colaborem em seu plano de redenção: «Vê, pois; eu te envio ao faraó para que tires do Egito o meu povo» (v.10). O homem, ante uma tarefa tão grande e difícil, expe­rimenta medo, se sente pequeno, incapaz, e apresenta a Deus suas limitações (v.11). Porém, Deus lhe tranquiliza: «Eu estarei contigo» (v.12). A obra é de Deus, Ele a começou, Ele a levará a termo. A fé do homem se entrelaça com esta iniciativa divina. Deste modo, le­vará Deus a cabo, com a cooperação humana, seu grande desígnio de salvação de Israel.

 

Sl 102 /103 (Deus é amor) Por meio de um canto suave, o salmista goteja afeto e amor ao Senhor e canta suas maravilhas e seus atos de ternura para conosco. Devemos meditar este Salmo lentamente, saboreando cada palavra que nos introduz nos ministérios do coração de Deus. Quando rezamo-lo com fé, o Senhor nos fortalece e confronta. Todo o amor de Deus Pai nós podemos contemplar na pessoa de Jesus: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4) O Pai nos enviou o seu único Filho, Jesus, por puro amor a nós e para que Ele nos ensinasse o caminho da vida plena. O grande hino de ação de graças que podemos oferecer ao Pai em resposta à sua generosidade não é realizado por meio de palavras, mas sim com a própria vida. Tocam-me profundamente as palavras deste Salmo: “[O Senhor é] lento para a cólera e rico em bondade”. Ele tem pressa em nos amar, em nos perdoar. Não perca tempo, o Senhor está lhe esperando!b Se você compreende melhor este Salmo, leia e medite o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, as três grandes parábolas da misericórdia.

Senhor, como é maravilhoso parar um pouco minhas atividades e pensar em quantos benefícios até hoje recebi do teu amor. Deixa que minha alma, como a do salmista, se expanda, se dilate e cante “bendize minha alma ao Senhor por todos os benefícios e não esqueça nenhum”. Quero agradecer-te por me ter criado; como é bela a vida; mesmo mesclada de sofrimento, decepções e dores, vale a pena viver e agradecer com todas as batidas do meu coração, com todos os meus tons e repertório. Que tudo cante teu louvor. Bendigo-te por minha família, pelos pais, por todas as pessoas que passaram hoje na minha vida: obrigado. Senhor, animado pela força da fé, te quero também bendizer pelas cruzes, pelos sofrimentos e por todas as pessoas que me fizeram sofrer e que me ajudaram a amadurecer na minha caminhada. Com Santa Teresinha quero te dizer “tudo é graça”; agradeço-te com a lucidez que hoje tenho, Senhor, por tudo o que vier até a minha morte; dá-me a força para sempre dizer: muito obrigado por tudo. Amém.

 

 

MEDITATIO: Hoje escutamos duas maravilhosas revelações divinas, uma do Antigo e outra do Novo Testamento. Na primeira Deus se revela como o Deus vivo, próximo, que escuta o grito do oprimido. Que salva, porque ama os homens e seu povo. O Deus da revelação, da fé, é, do mesmo modo, o Deus aliado de seu povo, que lhe segue e não pode tolerar o sofrimento que o oprime. E por isso decide salvá-lo. Para realizar esta salvação, se serve de circunstân­cias históricas e de homens, inclusive fracos e pobres; se servirá das reações da mente e do co­ração humano, variável e mesquinho. E levará a porto seu desígnio. Na revelação do Novo Testamento vemos que Je­sus nos revela o mesmo Deus do Antigo Testamento, porém indo muito mais além de quanto tivera podido comunicar-nos a primeira fase da revelação. Para re­velar-nos Jesus emprega o mais belo dos nomes: Pai. Nos mostra que Deus é antes de tudo Pai, Pai eterno do Filho unigênito, gerado antes de todos os séculos. E, com a vinda de seu Filho ao mundo, também os homens se converterão em filhos seus, em herdeiros de sua mesma glória. É «Pai», portanto, não em um sen­tido alegórico, tampouco em um sentido moral (como para indicar-nos sua bondade ou sua providência), mas de uma maneira real: «Pai» em sentido próprio, porque nos tem comunicado sua própria vida divina e nos tem feito herdeiros de sua mesma glória.

 

ORATIO: Senhor Jesus, luz verdadeira do Pai, irra­diação de sua glória, como poderemos agradecer a ti e ao Pai este dom imerecido de ser filhos do Pai e irmãos teus? Este foi o teu desígnio que desde sempre pensou em nos criar para entrar na sua própria divindade e compartilhar conosco sua vida e sua glória eterna. Graças ao Espírito Santo, que é Espírito da ver­dade e da vida, este prodígio se renova cada dia em virtude de seu poder e mediante o sacramento do batismo. Bendito seja Deus!

 

CONTEMPLATIO: Moisés orou a fim de que Deus se mostrasse e então pu­desse vê-lo face a face. Certamente, o eleito do Senhor sabia que não era possível ver a Deus face a face, pois é invisível. Mas, a santa devoção a Deus su­pera todos os limites e considera que também isto era possível a Deus, a saber: fazer os olhos do corpo ca­pazes de captar o que é incorpóreo. Este erro não é criticável; mas, foi, inclusive, um desejo agradável o desejar apertar, quase com a mão, a seu Senhor e vê-lo com os olhos. Sabia que o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus. Quando foi eleito pelo Senhor como libertador do povo e foi ­cumulado de espírito de sabedoria, pôde contemplar o anjo e seu rosto glorioso. Isto é tão verdade que expe­rimentou terror ante a luz resplandecente e via arder à sarça sem converter-se em cinza. Experimentou maravilhas ante àquela visão e aquele resplendor. Aproximou-se, impulsionado pelo desejo e pela beleza, para olhar dentro com maior atenção. Então, depois de ter visto o anjo entre as línguas de fogo que saíam da sarça, experimentou nele um calor tão grande, se via subjugado por uma curiosidade tão viva que, contudo, queria olhar dentro, ainda­ que, acossado pelo medo, não se atrevia olhar ao interior. Imagina então quanto mais ardente devia ser seu desejo de ver fisicamente o rosto do Senhor, enquanto ia dizendo como aquele rosto estava cheio de luz, cheio de glória, cheio de poder e cheio de Deus. Sobre Deus não posso dizer ou pensar mais. Quando o homem chega ao cume, então está nos começos (Santo Ambrósio, Comentário ao Salmo 118).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo» (Sl 41,3)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A vinda de Deus é repentina, imprevista. Moisés não foi conscientemente à busca de Yahweh: foi Ele que se apresentou de um modo imprevisível. Este dado da reve­lação foi mostrado de modo repetido tanto no Antigo como no Novo Testamento. Israel havia compreendi­do que o contato com o Deus vivo não é algo que o homem possa obter mediante técnicas de contemplação. A revelação é sempre efeito da intervenção soberanamente livre de Deus. É sempre Deus quem começa o diálogo com o homem. No caso de Moisés, o encontro tem lugar no momento em que Deus o chama pelo nome (Ex 34). Quando Deus chama, o que primeiro se pede o homem é prontidão e dis­ponibilidade para acolher a Palavra de Deus. A resposta de Moisés nesta circunstância é concisa, uma só palavra he­braica, hinnenî, que implica resposta franca e ime­diata: “Aqui estou! A teu serviço!». Existe, entretanto, uma inequívoca ambivalência na reação de Moisés ante a presença de Deus. Se a experiência do sagrado atrai o homem com sua fascinação misteriosa, o cumula, ao mesmo tempo, de temor e tremor, já que a expe­riência do sagrado é, simultaneamente, experiência de sua própria natureza profana e de sua indignidade. Então, toma o homem, consciência de que nem o fato de tirar as sandálias, nem as purificações rituais podem lhe preparar de modo adequado para entrar na presença do Deus vivo. Assim acontece a Moisés: sua primeira reação frente à sarça ardente foi de audaz e profana curiosidade, mas agora co­bre o rosto e tem medo de olhar para não vislumbrar o Deus absolutamente santo. Moisés não tenta fugir nem esconder-se, porém cobre o rosto para não ver a Deus. Israel, em efeito, estava convencido de que Deus era demasiado santo para ser visto pelo homem, como Deus mesmo dirá de imediato a Moisés: «Não poderás ver minha face, porque quem a vê não segue vivo» (Ex 33,20) (J. Plastaras).

 

 

QUINTA-FEIRA, 19 DE JULHO DE 2018 – 15ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 12,46-50 (Os verdadeiros parentes de Jesus) – O encontro de Maria com Jesus, em meio a sua pregação, é um momento importante da revelação da identidade do Mestre e também de sua mãe, acompanhada, neste episódio, por alguns parentes. Maria aparece sempre, no Evangelho, em comunhão com todos, e conduz à comunhão com o Filho. Mas, o passar da fraternidade-familiaridade, pura­mente natural, à espiritual, que Maria já vive (como Lucas mostrou em seu Evangelho da infância), torna-se, agora, evidente, nas palavras do Filho. A pergunta retórica de Jesus, consciente da pre­sença de sua família natural e da necessidade de proclamar a novidade de sua relação com ela, em outro âmbito, é, pelo menos, significativa. Trata-se de revelar o passo necessário que foi dado agora, com a nova família que o próprio Jesus está formando com seus discípulos. Sua resposta é uma revelação que também indica a nova fraternidade que acontece mediante a acolhida de Jesus, de sua Palavra: “Estes são minha mãe e meus irmãos» (v.49). Alarga-se o círculo dos fa­miliares de Jesus, pois supera os limites da família natural. E nasce a nova relação de consanguinidade, que é a vida da Palavra e, de fato, cumprimento da vontade do Pai. Maria, serva, discípula, mãe que se oferece por completo, para que se cumpra a vontade do Pa­i, é o exemplo sumo desta comunhão familiar com Jesus, através do vínculo da Palavra escutada e vivida, que, com frequência, sublinham os Padres da Igreja. Também o cristão gera Je­sus em si mediante as fidelidade da Palavra. Corres­ponde à espiritualidade do Carmelo, toda ela centrada na escuta, meditação e contempla­ção da Palavra, a visão de Maria que apresenta a Je­sus seus verdadeiros irmãos e filhos instruídos por ela no cumprimento da vontade do Pai.

 

 

Zc 2,14-17 (Apelo aos exilados) – Zacarias viveu pelos anos 500 aC. e se esforçou em dar apoio, com a palavra de Deus, aos israelitas desiludidos de regresso à Jerusalém, vindos do exílio da Babilônia. Na primeira parte de seu livro se descreve oito visões que anunciam a vinda do Messias. Nos capítulos seguintes o profeta promete que um dia chegará à recompensa e que Israel será restaurado, não sem antes passar por guerras e calamidades por não haver reconhecido o Messias. No texto de hoje temos um apelo do profeta convidando os cativos à alegria, porque Deus está em meio de seu povo. Para nós agora isto é muito mais verdadeiro. Na Bíblia a expressão “filha de Sião” é um dos nomes do povo de Deus, imagem poética da cidade santa, representada como mulher e data da época pós-exílica, quando Jerusalém se converteu, para os judeus, em coração e centro de adoração do povo escolhido (Ez 5,5;38,12;Lm 2,13;Zc 9,9). Zacarias anuncia os tempos novos quando diz que Deus ficará para sempre em Sião, na cidade em que se reunirão todos os povos. O profeta promete a atuação permanente de Deus.

 

Lc 1,46-55 (O cântico de Maria) – Maria dirige o louvor a Deus que fez tudo. Na passagem prodigiosa da virgindade à maternidade ela descobre o estilo e esquema da renovadora ação de Deus, manifestada também na esfera política e econômica: não para mudar os lugares, deixando as coisas como estão, mas no espírito messiânico das bem-aventuranças (felicidades, venturas). A ela felicitarão todos os que reconhecerem esses valores. Ela é a “serva” que representa Israel, “servo” desvalido e socorrido por Deus (e também a igreja das bemaventuranças). O hino é de puro estilo bíblico, cheio de citações e reminiscências do Antigo Testamento. Divide-se em duas seções, com o corte final do v.50. Parece unir-se a Israel, o povo escolhido; no tempo, parte de Abraão e continua sem fim. Não menciona expressamente a maternidade, implícita no contexto próximo. Não é improvável que Lucas tenha adaptado um hino já existente. Do cântico de Ana e seu contexto toma: o tema básico da maternidade, as duplas poderosos/humildes, ricos/pobres, a reviravolta da situação, a alegria da celebração, a santidade de Deus, a atenção para a humildade ou humilhação, o Deus de Israel.

Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer, que algum daqueles que a vós têm recorrido, implorado a vossa assistência, e implorado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, com igual confiança, a Vós, ó Virgem entre todas singular, como à Mãe recorro, de Vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro a vossos pés. Não rejeiteis as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo encarnado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia, e de me alcançar o que vos rogo. Amém

 

 

MEDITATIO: A busca da sabedoria, a escuta da Palavra e o cumprimento da vontade de Deus são temas que iluminam o sentido mais verdadeiro da devoção à Virgem do Carmelo, segundo a mais pura e genuína tradi­ção da ordem. Antes, inclusive, de ser Santa Maria do Monte Carmelo para o povo fiel, ou seja, a imagem familiar que apresen­ta o escapulário às almas do purgatório para levá-las ao céu, Maria é, na espiritualidade do Carmelo, a guardiã da Palavra, a Virgem do silêncio e da oração, a Mãe da contemplação e da vida mís­tica. É a que leva os fiéis, como guia sábia, pelas vias da santa montanha, conduzindo-os até o cume que é Cristo. Como Mãe espiritual, gera seus filhos para a vida de graça na Igreja e as acompanha, do mesmo modo, com o exemplo e intercessão, e com uma delicadeza absolutamente materna, em cada etapa da vida espiritual, através das noites escuras e dos dias luminosos da vida. E, sempre na linha do Evangelho, marca mais profundamente, nos que se deixam plasmar por sua presença e ação materna, uma santidade toda mariana, interior na contemplação, generosa no serviço. Maria, sede da sabedoria, nos conduz a Cristo, sa­bedoria viva, e forma discípulos da divi­na sabedoria. Maria, discípula do Senhor, reúne e forma discípulos da divina Palavra, nova seiva vital que nos faz, com e como a Eucaristia, membros consanguíneos do próprio corpo de Cristo.

 

ORATIO: Ó, Virgem santa, Mãe do Criador e Salvador do mundo, advogada dos pecadores. É justo que, após ter dado graças a Jesus, teu Filho e Redentor meu, por entregar-se, com amor, por mim, pecador, e entregar seu santíssimo corpo, também dê graças a ti, Rainha celestial, porque de ti este Verbo divino tomou a humanidade; teu Filho e meu Deus e Criador. Com humildade suplico tua clemência, porque és Rainha do céu e Mãe da misericórdia e deste misericordioso Senhor e, visto que, da plenitude de tua graça recebem, de ti: redenção, os prisioneiros; consolo, os aflitos; perdão de seus pecados, os pecadores; ob­têm graça e glória, os justos; saúde, os enfermos; e grande glória os anjos; suplico-te que me comuniques tua benevolência, ó Senhora e Mãe da mesma graça e misericórdia.

 

CONTEMPLATIO: Após Jesus Cristo e, sem dúvida, a distância que há entre o infinito e o finito, houve também uma criatura que foi um magno louvor de glória à Santíssima Trindade, que respondeu plenamente à eleição divina, da qual fala o apóstolo. Esta foi sempre «pura, i­maculada, irrepreensível» aos olhos do Pai, três vezes santo. Sua alma é tão simples e os movimentos de seu espírito tão profundos que não podiam ser sondados. Parece reproduzir na terra a vida própria do ser di­vino, do ser simples. Ao mesmo tempo, é tão transpa­rente e luminosa que poderia ser comparada à luz. Contudo, não é mais que o «Espelho» do Sol de justiça, Speculum iustitiae. «A Virgem conservava todas estas coisas em seu coração». Toda sua vida pode resumir-se nestas poucas palavras. Vivia em seu coração, a tal profundidade, que o olhar humano não pode sondar. Quando leio no Evangelho que Maria «correu às pressas as montanhas da Judéia» para cumprir seu ministério de caridade junto a sua prima Isabel, vejo-a passar altamente bela, com grande calma e majestosa, recolhida por completo em si mesma com o Verbo de Deus. Sua oração, como a dele, também foi sempre esta: «Ecce; Aqui estou». Quem? “a escrava do Senhor, a úl­tima das criaturas», ela mesma, sua Mãe. Mostrou-se tão verdadeira em sua humildade, porque, esqueceu-se sempre de si mesma e foi sempre livre de si mesma e, por isso, podia cantar: «O Poderoso tem feito obras grandes por mim. De agora em diante, as nações me proclamarão bem-aven­turada» (Isabel da Trindade, «Último retiro», 15).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Que a Virgem Maria esteja presente em nosso pensa­mento e em nosso coração”

 

PARA LEITURA ESPIRITUAL – As distintas gerações do Carmelo desde as origens até hoje tentaram plasmar sua própria vida seguindo o exemplo de Maria: por isso, no Carmelo, e em toda alma mo­vida pelo terno afeto à Virgem e Mãe Santíssima, floresce a contemplação dela, que já vive em si o que todo fiel de­seja e espera realizar no mistério de Cristo e da Igreja. Por isso, os carmelitas e carmelitas elegeram justamente a Ma­ria como própria patrona e mãe espiritual. Ela é a Virgem pu­ríssima que guia a todos ao perfeito conhecimento e imitação de Cristo. Floresce, assim, uma intimidade de relações espirituais que incrementam cada vez mais a comunhão com Cristo e com Maria […]. Ela não é só modelo para imitar, mas também uma doce presença de Mãe e Irmã em quem confiar […]. Este rico patrimônio mariano do Carmelo se tornou com o tempo, através da difusão do escapulário, em um te­souro para toda a Igreja […]. Este se tornou sinal de «aliança» e de comunhão recíproca entre Maria e os fieis (…). Desta espiritualidade mariana, que plasma interiormente às pessoas e as configura a Cristo, primogênito entre mu­itos irmãos, constituem um esplêndido exemplo, os testemunhos de santidade e sabedoria de tantos, santos e santas do Carmelo todos eles criados à sombra e sob a tutela da Mãe (João Paulo II, Carta, 25 de março de 2001).

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 20 DE JULHO DE 2018- 15ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 12,1-8 (Espigas arrancadas)  O relato das espigas arrancadas é um dos mais conhecidos e significativos do ponto de vista cristão. Trata-se de uma página estupenda, na qual vemos Cristo disposto a defender seus discípulos, ensinar o verdadeiro sentido das coisas e da própria Escritura, o que permite a Jesus proclamar-se «Senhor do sábado” (v.8) e maior que o templo. Jesus cita o caso de Davi, que, por necessidade, com seus companheiros, comeu os pães reservados aos sacerdotes (1 Sm 21,1-10). Há, ainda, outro argumento: os mesmos sacerdotes, ao cumprir seus ritos em dia de sábado, infringem o repouso prescrito, em razão das diferentes ações litúrgicas. Em consequência, a própria lei, quando se trata de um motivo su­ficiente, tanto para a glória de Deus como para o bem do homem, pode ser infringida. A lei não é um obje­to monolítico, estável, absoluto (como pretendiam os fariseus); é também um meio, posto por Deus para o bem dos homens. Portanto, também a lei tem uma importância relativa. A seguir, Jesus se proclama superior ao templo e ao sábado, as duas realidades mais sagradas para os judeus; estas palavras soam como blasfêmia aos ouvidos dos que o escutam e ficam escandalizados. Sem dúvida, Cristo não retrocede, não atenua suas afir­mações: possui uma autoridade, uma plenitude, uma verdade e uma novidade que se explicam, unicamente, com sua realidade messiânica e divina, oculta aos olhos, volun­tariamente fechados, de seus adversários. Recorrendo a uma frase de Oséias (6,6), Jesus recrimina os fariseus por sua dureza de coração ao condenar os discípulos pela ação das espigas. Sua dureza de coração vai acompanhada de cegueira. O que conta de verdade na Lei de Deus é a misericórdia, não os sacrifícios rituais.

 

 

Ex 11,10-12,14 (Anúncio da morte dos primogênitos) – O texto de hoje supõe o consentimento dado pelo faraó aos israelitas para saírem do país, após as muitas calamidades infligidas ao Egito, pela negação do rei (o lecionário prescindiu da descrição das dez pragas). O que Moisés prescreveu para «essa noite» é o próprio ritual tradicional da ceia pascal judia, um rito antiquíssimo que comemora a libertação dos israelitas na noite da Páscoa. Este rito vem sendo seguido fielmente pela maior parte dos judeus em todo o mundo e é o rito que é celebrado na última ceia de Jesus com os apóstolos antes de morrer (e, portanto, também em nossa missa). O ponto central do texto, e o mais extenso, é o que faz referência ao Cordeiro Pascal: nele se descrevem as qualidades, as condições, o rito do sacrifício, da comida ritual, e a eficácia de seu sangue colocado nas ombreiras e na viga das portas. Graças a seu sangue se realizará a salvação dos israelitas: o anjo exterminador passará adiante sem tocá-los com o flagelo de morte (12,12s). O sangue do cordeiro marcou a libertação: magnífica figura da salvação universal que, alguns séculos mais tarde será realizada em Cristo Jesus, “Cordeiro de Deus que tira o pecado do o mundo” (Jo 1,29). Todos os demais detalhes descritos na passagem evo­cam uma realidade vivida pelo povo de Israel àquela noite e que agora revivem na comunidade que o cele­bra. A importância do memorial firma-se, não só na recordação que evoca o fato, senão no sentirem-se implicados no mesmo acontecimento, com sua força salvífica e transformadora.

 

Salmo 115/116b (Ação de graças) – É uma dádiva de Deus caminharmos com os salmistas que milhares de anos antes de nós se encontraram constrangidos pelas dificuldades, sofreram perseguições por serem fieis ao Senhor, foram caluniados, alguns mortos, mas não voltaram atrás e não traíram a própria fé. Diante da vontade do Senhor, pronunciaram “amém”. O verbo hebraico aman significa construir sobre uma rocha, escudo, fortaleza, pedra angular sobre a qual construímos e que nem o vento nem a tempestade poderão derrubar. Cantar a misericórdia de Deus é sentir-se vitorioso, sofrido, mas não derrotado. Perseguidos, mas não vencidos. Porque Ele, o pastor, nos acompanha sempre. Passado muito tempo, morreu o rei do Egito. Os israelitas continuaram gemendo e clamando sob dura escravidão, e, do meio da escravidão, seu grito de socorro subiu até Deus. Deus ouviu os seus lamentos e lembrou-se da aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Deus olhou para os israelitas e tomou conhecimento (Ex 2,23-25). Jesus conhecia este Salmo e o cantou na instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-30). É preciso passar por muitas dificuldades para entrar no Reino dos Céus, pois só seremos vitoriosos se carregarmos a nossa cruz.

Senhor, sou pobre, desgraçado, infeliz, mas tenho fé. Quero construir sobre a pedra Cristo todo o meu futuro e não sobre as areias movediças que, à primeira enxurrada, destroem tudo. Mas às vezes, Senhor, vejo ao meu lado muitos sofrimentos e injustiças que tentam me afastar do teu caminho e do teu amor. Sei que a vida do cristão é marcada pela cruz, e esta nos fortalece quando amada e carregada por amor. Sei também que quando sofremos por amor, somos bem-aventurados: “Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”(Mt,511-12). Senhor, na minha desgraça e pobreza que eu conserve a fé no teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: Jesus é seu real salvador e libertador. Jesus deu o autêntico sentido à vida humana e mostrou sua importância e dig­nidade, superiores a qualquer coisa, lei ou prescrição, inclusive religiosa. A religião, de fato, pode converter-se, às vezes, em uma carga, em uma opressão, em uma escravi­dão. A lei, fundamento da religiosidade do Antigo Testamento, se é considerada, exclusivamente, em seu aspecto literal, sem o Espírito, torna-se, segundo São Paulo, uma carga de maldição, que o cristão deve li­bertar-se, pois Cristo “resgatou-nos da maldição da lei” (Gl 3,13). Jesus quebrou todas as cadeias que atavam e humilhavam o homem (Gl 5,1). Com esta libertação Cristo nos deu a liberdade interior, isenta de cons­trições e legalismos e, com ela, o verdadeiro crente, sob a ação do Espírito, constrói sua persona­lidade cristã. Só o bom coração é capaz de compreender o real sentido da lei, que visa à glória de Deus e o bem do homem; e é capaz de compreender, do mesmo modo, que só na misericórdia e na bondade com o próximo se encontra o fio condutor da autêntica vontade divina.

 

ORATIO: Ó Senhor, amigo do homem, Salvador e Redentor nosso. Obrigado por tua doutrina, por tua nova lei, por teu exemplo, por tua defesa do homem e de seus direitos. Obrigado pelo Espírito Santo que nos concedestes Espírito de verdade e de liberdade, de amor e de fidelidade, que nos faz gritar, como Tu e contigo: “Abbá, Pai». Obrigado por tua libertação e redenção. Tu nos quebraste as cadeias que nos oprimiam, a cegueira que nos lançava nas trevas, o peso que nos esmagava. Obrigado, Senhor, pois agilizaste nosso espírito, libertaste e cumulaste de confiança em Ti. Tiveste compaixão, como do bom samaritano, e Te inclinaste sobre nós para voltar a dar-nos a vida e a esperança: nós somos pobres e nos enriqueceste; somos fracos e nos reanimaste; vivemos em trevas e nos iluminaste; somos soberbos e nos ensinas a humildade; somos duros e malvados e nos ensinas a bondade; somos incrédulos e tornas a dar-nos a fé; estamos desesperados e Tu, Jesus, tornas a abrir-nos o caminho.

 

CONTEMPLATIO: Como é do vosso conhecimento Páscoa significa passagem. Nas Sagradas Escrituras nós encontramos uma tríplice passagem ou tríplice Páscoa. Esta foi celebrada, de fato, na saída de Israel do Egito com a travessia do mar Vermelho, travessia da escravidão à liberdade, das panelas de carne ao maná dos anjos. Celebrou-se, também, outra Páscoa, quando, não só os judeus, mas também o gênero humano passou da morte à vida, do jugo do diabo ao jugo de Cristo, da servidão das trevas à liberdade da glória dos filhos de Deus, dos alimentos imundos dos vícios àquele Pão verdadeiro, o Pão dos anjos, que disse de si mesmo:       “Eu sou o pão vivo que desceu do céu». Com alegria cumpriremos a terceira Páscoa quando passemos da mortalidade à imortalidade, da corrupção a não corrupção, da miséria à felicidade, da fatiga ao repouso, do temor à segurança. A primeira Páscoa é a dos judeus; a segunda, a cristã; a terceira, a dos santos e perfeitos. Na páscoa dos judeus foi imolado o cordeiro; nossa Páscoa cristã, Cristo, e na Páscoa dos santos e dos perfeitos temos Cristo glorificado. Na páscoa dos judeus foi imolado um cordeiro, porém neste cordeiro, de um modo prefigurado e como em sombra, foi imolado Cristo. Em nossa Pás­coa foi imolado Cristo, não de um modo prefigurado, mas real. Na Páscoa dos santos e dos perfeitos já não se imola Cristo, mas que se manifesta.      Na primeira Páscoa está prefigurada a paixão de Cristo, na segunda está entregue, na terceira se encontra manifestado o fruto da própria paixão, pela ressurreição (Elredo de Rievaulx, Sennones inediti, Roma).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra: “Para que sejamos livres, Cristo nos libertou »

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O passar de Jesus deste mundo ao Pai abarca, em unidade estreitíssima, paixão e ressurreição: através de sua paixão é como chegou à glória da ressurreição. Paixão e passagem vão unidas entre si; a Páscoa cristã é um fransitus per passionem: um passar através da paixão. Porém, há uma síntese mais importante: a que se dá entre a Páscoa de Deus e a páscoa do homem. Como se realiza essa síntese na nova definição da Páscoa? Em Jesus, os dois protagonistas da Páscoa (Deus e o homem) deixam de aparecer como alternativos ou jus­tapostos e se convertem em um só, pois em Cristo a humanidade e a divindade são uma mesma pessoa. O autor e o destinatário da salvação se encontraram; graça e li­berdade se beijaram. Nasceu a «nova e eterna aliança»; eterna, pois agora ninguém poderá separar os dois contraentes, convertidos, em Cristo, em uma só pessoa. Mas resta uma dúvida a dissipar: então é só Je­sus quem leva à Páscoa? É só Ele quem passa deste mundo ao Pai? E nós? A passagem de Jesus não é uma passagem solitá­ria, mas coletiva, de toda a humanidade ao Pai. Na Páscoa nasceu a Igreja, corpo místico de Cristo como espiga crescida na tumba de Cristo. Em consequência, todos nós passamos já, com Cristo, ao Pai e «nossa vida está já escondida com Cristo em Deus» (Cl 3,3); sem dúvida, todos nós deve­mos passar ainda. Passamos in spe e em sacramento, em espe­rança e pelo Batismo, mas devemos passar na realidade da vida cotidiana, imitando sua vida e, sobretudo seu amor (Raniero Cantalamessa, ll mistero pasquale).

 

 

SÁBADO, 21 DE JULHO DE 2018- 15ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO B

Mateus 12,14-21 (Jesus é o “Servo do Yahweh) – O Evangelho nos mostra hoje a constante e sempre crescente animosidade dos inimigos de Jesus, concretamente os fariseus. Apesar de seus contínuos milagres e elevadíssima doutrina, não somente não escutam sua Palavra e cerram os olhos ante os prodígios realizados, mas que determinam sua morte. Se reunem em conselho para tirá-lo do meio (v.14). Jesus, avisado do perigo, vai a outra parte. Também Ele toma suas medidas de precaução, recomendando a seus seguidores que não divulguem sua atividade. Ainda não havia chegado sua hora. Nisto se mostra sempre obediente à vontade do Pai, que fixou pelos tempos de sua atividade e de sua morte. Mateus cita um belo parágrafo de um dos «cantos do Servo de Yahweh» (Is 42) sobre a humildade e a paciência do Servo, encarnado por Jesus de uma maneira magnífica. Deste Servo se disse que foi eleito previamente por Deus, que é seu predileto, aquele em quem encontra suas complacências. Deus pôs seu Espírito sobre Ele. Esta descrição alude a excelência de sua pessoa e à riqueza de sua vida, cumulada de virtudes e de carismas. A seguir, mostra sua atitude habitual frente às duras realidades humanas: não tem uma reação violenta, não discute nem levanta a voz. Mais ainda, salva todo o que ainda possa ter uma remota esperança de salvação ou de recuperação (Mt 12,20). Também se anuncia neste oráculo a humildade, que será um dos traços distintivos de Jesus, sua nota mais característica; mais ainda, será o aspecto no qual o próprio Jesus pedirá que o imitemos (Mt 11,29).

 

 

Ex 12,37-42 (A partida de Israel) – Descreve, de modo breve, a saída de Israel de Egito com seu primeiro itinerário (da cidade de Rameses para Sucot) e com a indicação do número dos israelitas: «seiscentos mil os que iam a pé», sem contar as crianças. O número parece evidentemente exagerado; certamente, foram bem menos, apenas alguns milhares, os que escaparam da escravidão do faraó, mas o estilo oriental gosta de recorrer à hipérbole e à abundância para realçar a importancia do fato e das pessoas. Alude-se depois ao pão ázimo, dando a explicação de que não fermentara: por causa da pressa da saída, foi impossível introduzir o fermento na massa. Faz-se, a seguir, a conta dos anos transcorridos no Egito: «quatrocentos e trinta». Parece que podemos dar crédito a este número, em nada simbólico, e isto nos permite adivinhar a cronologia desta estância e da saída dos judeus de Egito. Calcula-se, assim, que os israelitas haviam saído do Egito sob o reinado do faraó Mernefta, na segunda metade do século XIII a.C, e, em consequência, haveriam chegado a Canaã em torno do ano 1200 a.C, isto é, como dizem os estudiosos, na transição da idade do bronze à idade do  ferro. De todas as maneiras, o que quer indicar-nos o autor, em primeiro lugar, é que o acontecimento do Êxodo foi, sobretudo, uma ação de Deus: «Aquela noite, o Senhor velou para tirá-los de Egito» (v.42). Destaca-se a obra de Deus, como em todas as descrições anteriores, e por isso se afirma no refrão seguinte: «Essa mesma noite será noite de vigília em honra do Senhor para os israelitas durante todas as suas gerações», como ato de agradecimento e de louvor por tudo quanto Yahweh havia feito em favor de seu povo.

 

Salmo 135/136 (Grande ladainha de ação de graças) Neste belíssimo Salmo, em cada versículo repete-se o refrão: “pois eterno é o seu amor”, que equivale uma eterna profissão de fé no amor e de misericórdia e Deus. Aplique este cântico nos seus dias e reze-o a fim de firmar, diante de todos, que o amor de Deus é eterno. Não podemos dizer que o amor de Deus “foi” eterno e nem que “será” eterno, mas sim “é“ eterno. Hoje e sempre; a Deus pertence toda a história e para Ele tudo é presente. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou em toda benção espiritual nos céus, em Cristo. Nele, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor. Conforme o desígnio benevolente de sua vontade, ele nos predestinou à adoção como filhos, por obra de Jesus Cristo, para louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado” (Ef 1,3-6). Como é maravilhoso acreditar no amor imutável de Deus. Podemos mudar, mas Deus sempre nos amará, mesmo que não o amemos. Como a água que molha e o sol que ilumina, Deus, que é amor, ama toda e qualquer circunstância. A nós cabe dizer sim a este amor.

Deus me criou e amou, pois eterno é seu amor; chamou-me à vida, deu-me uma família, sim, pois eterno é seu amor; colocou-me neste momento histórico da Igreja, do mundo, pois terno é seu amor; deu-nos Maria como mãe, o batismo, fez-nos comunidade… Agradeço-te por todos os sacerdotes, pelos nossos bispos, pelo Papa, pela fraternidade e pela nossa capacidade de amar, por todos os pecadores que querem voltar a ti, pelos pequenos e pobres, pelos santos nossos amigos e teus amigos.

 

 

MEDITATIO: Repletas de doutrina e profundidade estão às páginas da Sagrada Escritura! Sua plenitude e riqueza constituem, sobretudo, uma síntese de tudo quanto se escreveu nos livros sagrados, síntese da profecia e cumprimento, do passado e futuro, da história e vida, da fé e Espírito Santo. Esta síntese perfeitamente realizada é Cristo, Aquele que encarna e resume em sua vida e em sua mensagem, todo o ideal da Palavra de Deus e todas as realidades da história dos homens, com suas esperanças mais profundas. Cristo é o anunciado nas profecias, nas promessas e nas figuras do Antigo Testamento, e dar cumprimento a toda esta mensagem com sua vinda e sua missão: «Todas as promessas de Deus são cumpridas nele» (2 Cor 1,20). E insiste o apóstolo na carta aos Romanos: «A lei tem seu cumprimento em Cristo» (Rm 10,4). Jesus é, além do mais, «nossa esperança» (1 Tm 1,1), esperança da vida eterna que fará o homem perfeito, completo em sua realidade humana e divina, como filho de Adão e filho de Deus, na plenitude da glória. Jesus é também o exemplo, o modelo, «o caminho, a verdade e a vida» do homem enquanto caminha sobre a terra. Quem crer nele «deve comportar-se como Ele se comportou» (1 Jo 2,6), mostrando ao mundo, com sua vida, que vive e reproduz «a imagem do Filho de Deus, chamado a ser o primogênito entre muitos irmãos» (Rm 8,29). Cristo é a síntese, o ponto culminante, a obra mestra de Deus, aparecido na história para entregar-nos uma Palavra de vida e abrir-nos horizontes novos, ilimitados, para que possamos caminhar, revestindo de uma nova existência, novos recursos e novas forças ao ser humano, convertido, graças a Ele, em Filho de Deus.

 

ORATIO: Hoje de novo, Senhor te apresentas a nós com esta veste de humildade e simplicidade, para ensinar-nos que nunca devemos cansar-nos de superar qualquer obstáculo para imitar-te. Não nos disseste para imitá-lo em teu poder, em tua autoridade, em teus milagres; tampouco nos disseste para imitá-lo em tua oração, em tua entrega total, em teu zelo pela salvação do mundo… Pediste-nos para imitá-lo no que é mais fácil, mais interior, mais compatível com nossas escassas forças e com nossa experiência: a simplicidade e a humildade de coração. Obrigada, Senhor, por esta proposta tua, que nós, com nossas inescusáveis pretensões, nos obstinamos em querer ver como difícil, como quase impossível. Faz-nos simples e humildes de coração. Faz que cheguemos à água de teu coração com a simplicidade de vida, com o sentir humilde de nosso coração.

 

CONTEMPLATIO: Egito foi golpeado com as pragas; faraó se viu obrigado a deixar livre o povo de Deus.       Os egípcios se apressam agora para expulsar àqueles que antes queriam reter. Saíram, pois, de Rameses, que a meu modo de ver deve traduzir-se por trono de alegria. Foi nesta cidade, situada nos confins de Egito, que reuniu o povo com o propósito de sair para o deserto. Distanciava-se dos vícios aos quais se havia dado e do câncer dos pecados que o corroíam: assim transformava em doçura qualquer motivo de amargura e podia ouvir a voz de Deus que estava a ponto de explodir como um trovão vindo do cume do monte Sinai. Assim, pois se temos sido sacudidos pelos toques de trombeta do Evangelho, se temos sido despertados pelo trovão da alegria, saiamos também nós no primeiro mês, quando “o inverno já houver passado e se afastado” apenas começada a primavera, quando a terra germina, quando começa uma vida nova para tudo. Quando saímos do Egito, caem os ídolos de nossos erros. Pois bem, armemo-nos de valor, revistamo-nos da força da perfeição; assim, em meio às trevas do erro e da confusão da noite, poderá aparecer-nos a luz da ciência de Cristo.      Não os foi possível chegar às águas do mar Vermelho e ver morrer nelas o faraó com seu exército, mas depois de haver tido nos lábios palavras nobres, ou seja, depois de haver confessado os prodígios do Senhor, o que sucedeu quando tiveram fé em Deus e em seu servo Moisés. E venceram. E no canto de Maria ressoaram os cantos dos triunfadores. Aprendamos assim a guardar-nos, continuamente, das insídias e a invocar a misericórdia de Deus: então não só escapar poderemos da perseguição do faraó, mas torná-lo inóquo para nós com nosso batismo espiritual. Porém estejamos alertas: às vezes podemos encontrar-nos com o mar adiante, inclusive depois de haver conhecido e praticado o Evangelho, inclusive em plena vitória; em suma, os perigos passados podemos tornar a encontrá-los ainda diante de nós (São Jerônimo, Le lettere, Roma 1962).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Louvai o Senhor porque é bom: em nossa humilhação se recordou de nós» (Sl 135,23)

 

PARA LEITURA ESPIRITUAL – Há um momento na vida de Israel que passou à sua conciência histórica como o momento do qual emana sua identidade como povo entre os povos e a identidade específica que o converteu no «povo de Yahweh». Esse momento foi sua saída do Egito. Todo o acontecer do Êxodo está narrado no texto de base do Êxodo como um grande juízo histórico de Yahweh. As forças que intervêm estão bem claras. Por uma parte, o faraó e todo o poder egípcio; por outra parte, Yahweh e a multidão sem nome dos escravos oprimidos. Yahweh tomará a defesa destes últimos contra o enorme poder do rei de Egito, reconhecerá sua justa causa e os deixará «soltos»; os libertará da injustiça do poderoso e a força da justiça se abaterá contra a arrogância do opressor. Todo o acontecer do Êxodo é considerado aqui como um caminho, um caminho que sobe e conduz para metas novas e diferentes, um caminho que faz crescer e converte em pessoas adultas. E é que no caminho encontrarão dificuldades sempre maiores (o deserto do Sinai, com suas carências: água e alimento, e suas presenças: os povos hostis) e terão que superá-los. O Êxodo como caminho de crescimento através das dificuldades é um dos esquemas mais repetidos e mais sugestivos da espiritualidade bíblica (A. Fanuli, La spiritualitá aell Antico Testamento).

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