O PENTECOSTES! (Estudo bíblico de At 2,1-11)

INUNDADOS PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO

Fogo e vento impetuoso de amor

“Eram odres novos à espera do

vinho novo que chegou do céu.

O grande cacho de uva já havia

 sido pisado e glorificado.”

(Santo Agostinho)

“Recebei o Espírito Santo”

Vem, ó Santo Espírito, enche os corações de teus fiéis e acende neles o fogo de teu amor. V. Envia teu Espírito e tudo será criado. R. E se renovará face da terra. Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos fiéis com a luz do Espírito Santo, concede-nos, segundo o mesmo Espírito, conhecer as coisas retas e gozar sempre de seus divinos consolos. Por Jesus Cristo, Senhor Nosso. R. Amém

Introdução

Hoje celebramos e revivemos o mistério de Pentecostes, a plenitude do mistério da Páscoa na efusão do Espírito Santo.

Celebramos o fogo de amor que o Espírito incendiou na Igreja para que arda no mundo inteiro, fogo que não se apagará jamais, pois:

  • É o Espírito Santo que com sua força unificadora, nos leva a todos – na multiplicidade de dons – a aceitar e confessar uma mesma fé em Jesus “Senhor” nosso.
  • É o Espírito, que com toda sua potencia atua em nós ajudando-nos a compreender e a pôr em prática as palavras de Jesus; suas atitudes, gestos e comportamentos nos inpregmam graças ao sopro do Espírito. 
  • É o Espírito Santo que se faz presente nos ouvidos e no coração de todo ouvinte da Palavra, para que seja possível a “Lectio Divina”, ou seja, para que cada ouvinte se abra à força penetrante da Palavra.
  • É o Espírito que transforma o pão e o vinho no corpo entregue e no sangre derramado de Jesus, prolongando em cada assembléia eucarística seu Pentecostes.
  • É o Espírito Santo que nos impulsiona a anunciar o “Mistério da fé”, da morte e ressurreição do Senhor, da semente da Palavra – kerigma – da qual nasce a Igreja.
  • É o Espírito que sopra sobre nossa humanidade pecadora, para transformar-nos e fazer-nos pessoas que amam e perdoam seus irmãos.
  • É o Espírito Santo que faz da comunidade cristã não uma simples associação de pessoas boas e religiosas, mas o Corpo Místico de Cristo, o povo reunido no amor da Trindade que canta em louvor às maravilhas do amor de Deus na historia.
  • É o Espírito que nos impulsiona no seguimento cotidiano de Jesus, infundindo em nossa vida uma dimensão sempre nova de alegria, paz, verdade, liberdade e comunhão.
  • É o Espírito Santo que é fonte da santidade da Igreja. Porque se foi derramado o Espírito, a Igreja é santa e, inclusive, poderíamos dizer que se há santos é porque o Espírito continua trabalhando hoje como ontem.
  • É o Espírito Santo que com sua presença segue e seguirá fazendo possível a realização do plano de salvação de Deus na humanidade, até que ela chegue a sua plenitude.
  • É o Espírito Santo que faz frutuoso todos os nossos esforços em nossa peregrinação cristã de cada dia. O Espírito nos precede em tudo que fazemos porque é n’Ele que Deus realiza toda a sua obra. Sua vinda dá a luz e o sabor da presença de Deus em todas as coisas.

Porém, quem é este Espírito Santo que opera tantas coisas em nossa vida?

  • O Espírito Santo é o amor pessoal do Pai e do Filho, e amor quer dizer vida, alegria, felicidade.
  • O Espírito Santo é Deus mesmo esvaziando-se no homem e movendo-o internamente para que se abra ao irmão, amorosamente, ao modo de Jesus, e se lance confiante nos braços do Abbá-Pai.

O mesmo Deus que ao longo da história deu muitas coisas aos homens, que lhes enviou personagens, inclusive seu próprio Filho, agora se dá a si mesmo de modo inaudito. Por isso dizemos que é o dom “escatológico” ou “definitivo” de Deus (aqui escatológico quer dizer: “depois disto nada mais há”, “mais que isso não há”).

É assim que o irresistível amor de Deus entra no mais profundo de nossas vidas. Sua presença causa muitos efeitos, porque, como nos ensina a Palavra de Deus, o Espírito Santo vem para salvar, curar, ensinar, exortar, reforçar, consolar…

Por isso hoje clamamos com entusiasmo e todas nossas forças: Vem, Espírito Santo!”.

  1. O texto: O Pentecostes lucano

Mergulhemos, hoje, neste mistério, guiados pela Palavra de Deus, de modo que nos impregnemos dele.

Convidamos-lhes a ler com muita atenção o Pentecostes lucano narrado em Atos dos Apóstolos 2,1-11 (primeira leitura da solenidade). A “Lectio” desta passagem nos ajudará a recriar a atmosfera, o estado de ânimo de Pentecostes, porque é verdade que não pode haver um estado de ânimo melhor, uma atitude mais completa com a qual possamos viver a vida que a do Espírito Santo!.

Saido da artística pluma lucana, notamos que o relato de Pentecostes é um drama belíssimo, um drama no sentido original do termo, que é o de uma participação, de um forte movimento interno carregado de fortes emoções que dá um grande giro ao cenário.

Que intensidade há em cada palavra! Para captá-lo, entremos na atmosfera espiritual dos dois quadros que o compõem: 

  1. Dentro do cenáculo: a efusão do Espírito (2,1-4); 
  2. Fora do cenáculo (2,5-11)

Leiamos devagar o texto.

Retomemos o texto frase por frase. Porém comecemos primeiro pela descrição do contexto

  1. Dentro do cenáculo: a efusão do Espírito (2,1-4)
    1. A comunidade reunida em um dia de festa (2,1)
  2. A data: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes…(2,1a)

O termo “Pentecostes” quer dizer “o dia número 50”, o “qüinquagésimo dia”. Trata-se do nome de uma festa judia conhecida como “Festa das Semanas”, mais exatamente a das “sete semanas” que prolongavam a celebração da grande festa da Páscoa. Somava-se, assim, uma semana de semanas (7×7), número perfeito em que se celebrava no dia seguinte ao dia 49.

A festa da colheita dos cereais

Em principio se tratava de uma festa camponesa: depois de recolher os primeiros feixes, os camponeses festejavam agradecidos o fruto da ceifa, “as primícias dos trabalhos, da semeadura no campo” (Êx 23,16). Daí que se costumava oferecer a Deus dois pães com fermento cozidos com grãos do primeiro feixe (Lv 23,17).

Porém com o tempo, a festa camponesa se converteu em festa religiosa onde se celebrava o grande fruto da Páscoa: o dom da Aliança no Sinai. Por essa razão os israelitas ofereciam também nesta data sacrifícios de comunhão (Lv 23,18-20).

A festa era tão grande que merecia suspender todos os trabalhos: “Não farás nenhum trabalho servil” (Nm 28,26). Visto que era uma das três festas de peregrinação para os que viviam fora de Jerusalém, somado ao fato de que era dia feriado, se explica suficientemente que houvesse tanta gente na rua nesse dia em Jerusalém (ver Atos 2,5-6).

Da festa camponesa à festa da Aliança do Sinai.

A antiga festa camponesa se transformou depois em uma festa “histórica” que celebrava a Aliança do Sinai. Depois que Deus tirou seu povo do Egito e, no meio do deserto, o conduziu até o Monte Sinai para fazer com Ele a Aliança. Ali Deus se manifestou em meio de uma tormenta de vento e fogo.

Segundo Êxodo 19, as doze tribos foram reunidas ao pé da montanha santa para receber os mandamentos. Algumas lendas judias dizem que a voz de Deus se dividia em 70 vozes, em 70 línguas, para que todos os povos pudessem entender a Lei, porém só Israel aceitou a Lei do Sinai.

Na festa de “Pentecostes”, Deus renovava sua Aliança com os judeus de nascimento e com os convertidos e simpatizantes do judaísmo (“temerosos de Deus” e “prosélitos”), que vinham em peregrinação a Jerusalém. No relato que vamos ler em seguida notamos que assim como no Sinai havia doze tribos, em Jerusalém havia gente vinda de doze países diferentes: desde peregrinos de Roma – centro do Império – até da região do Mediterrâneo, assim como do deserto.

Um novo “Pentecostes”: a realização do dom da Aliança

Lucas enquadra o acontecimento da vinda do Espírito neste âmbito histórico e religioso.

Um detalhe importante é que Lucas não se limita a dar-nos um dado cronológico, mas em sua narração dá ênfase a um “cumprimento”, por isso o texto grego se pode ler como: “quando se cumpriu a cinquentena (2,1). Com isto mostra que se trata do cumprimento de uma promessa. De fato, já em Lucas 24,49 e em Atos 1,4-5.8 o terreno havia sido preparado com a palavra profética sobre a vinda do Espírito Santo. Portanto o mais profundo da festa judia é retomado e notavelmente superado pela palavra e obra de Jesus: estamos ante a plenitude da Páscoa de Jesus.

No Pentecostes cristão, a graça da Páscoa se converte em vida para cada um de nós pelo poder do Espírito Santo, mediante uma aliança indestrutível, porque a mesma está selada em nosso interior.

  1. O lugar: “… Estavam reunidos todos em um mesmo lugar(2,1b)

A expressão todos juntos reforça a unidade da comunidade, uma característica do discipulado em Atos. Uma frase parecida encontramos em 1,14.

Assim se anuncia quem vai receber o Dom do Espírito Santo. Trata-se da comunidade que havia sido recomposta numericamente com a eleição do apóstolo Matias (1,26). Uma comunidade cujo número indica o povo da Aliança que aguarda as promessas definitivas da parte de Deus. Nela não se excluem, posto que estavam todos, a Mãe de Jesus e um grupo mais amplo de seguidores de Jesus.

Este todos anuncia também a expansão do dom a todas as pessoas que se abrem a Ele, como, efetivamente, irá narrando – a partir deste primeiro dia – o livro dos Atos. Porém, como receberam o dom do Espírito, e que fizeram em seguida? Vejamos.

  1. Dentro do cenáculo: A Efusão do Espírito (2,2-4)

Acontece a vinda do Espírito Santo sobre a comunidade. Notemos na narração lucana:

  • Dois sinais: o vento e o fogo (2,2-3);
  • A realidade: “ficaram todos cheios do Espírito Santo” (2,4ª);
  • A reação dos destinatários da unção: falar em línguas (2,4b).

Detenhamo-nos no essencial deste anúncio que faz São Lucas.

  • Dois sinais: o vento e o fogo (2,2-3)

Assim como quando o céu nos faz ver que algo vai ocorrer, seja uma tempestade ou outra coisa, assim ocorre aqui: primeiro Deus manda sinais que chamam a atenção sobre o que está a ponto de ocorrer; este prelúdio de sua manifestação logo aponta à experiência de sua maravilhosa presença. Na manifestação da vinda do Espírito Santo ao homem, vemos 2 sinais que chamam a atenção: um para o ouvido e outro para os olhos.

Um sinal para o ouvido: o vento (2,2)

Primeiro, há um vento, que é um sinal para o ouvido. Um vento que se faz sentir (ler 2,2)

O vento na Bíblia está associado ao Espírito Santo: trata-se do “Ruah”, o “sopro vital” de Deus. O profeta Ezequiel já havia profetizado que, como cume de sua obra, Deus infundiria no coração do homem um espírito novo (Ez 36,26; também Jl 3,1-2); pois bem, com a morte e ressurreição de Jesus, e com o dom do Espírito Santo, os novos tempos chegaram, o Reino foi definitivamente inaugurado.

Não só Lucas nos conta, também segundo São João, o próprio Jesus, na noite do dia da Páscoa soprou seu Espírito sobre a comunidade reunida (ver o evangelho de hoje: Juan 20,22: “Soprou sobre eles”; também Jo 3,8) Porém o que chama a atenção é o ruído, elemento que nos reenvia à poderosa manifestação de Deus no Sinai, quando selou a Aliança com o povo e o entregou o dom da Lei (Êx 19,18; ver tb Hb 12,19-20). O “ruído se converterá em voz no v.6. Este ruído é produzido por uma rajada de vento impetuoso, o qual nos aproxima a um “sopro”.

Observemos que se diz “como”, ou seja, que se trata de uma comparação; o termo na linguagem bíblica nos indica o indescritível que é a experiência religiosa. O fato que provenha do céu”, quer dizer que se trata de uma iniciativa de Deus. O céu não se fechou com a volta de Jesus a ele, mas o contrário, como disse São Pedro mais adiante: “Portanto, exaltado pela direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou e é isso o que vede e ouvis” (At 2,33).

Um sinal para ser visto: o fogo (2,3)

Em seguida aparece um sinal feito para a vista (ler 2,3).

As línguas como de fogo, também de origem divina, são um sinal eloqüente. O mesmo que o “vento”, na Bíblia o “fogo” está associado às manifestações poderosas de Deus (ver Êx 19,18) e indica a presença do Espírito de Deus.

Não deveria tormar-nos de surpresa. Neste mesmo evangelho, São João Batista já nos havia familiarizado com o sinal: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo(3,16). Por sua parte Jesus havia dito: “Vim trazer fogo à terra e quanto desejo que estivesse aceso (13,49).

Assim como no sinal visual que Lucas apresentou na cena do Batismo de Jesus (“baixou sobre Ele o Espírito Santo em forma corporal, como uma pomba” (Lc 3,22), o mesmo ocorre aqui, mas com a imagem do “fogo” que “pousa sobre cada um deles”. Contudo, a diferença da misteriosa imagem da pomba, a imagem do fogo é coerente e mais facilmente compreensível dentro do que está se narrando.

A forma de “língua” atribuída ao fogo serve para descrever a distribuição do mesmo fogo sobre todos, porém cria um belo jogo de palavras com  o termo “língua” que associa as línguas como de fogo (v.3) do Espírito com o falar em outras línguas (v.4) da parte dos apóstolos. Cumpre-se a profecia de João Batista sobre o batismo no Espírito e no fogo (Lc 3,16).

  • A realidade: “ficaram todos cheios do Espírito Santo (2,4a)

Depois dos sinais iniciais, com referência ao exterior, Lucas nos convida a entrar na experiência interna e, assim, captar o significado: O que é que está acontecendo no coração dos discípulos? Qual é a ação interior do Espírito Santo?

Depois dos sinais emerge a realidade, uma realidade que se descreve com uma linha só: E todos ficaram cheios do Espírito Santo” (2,4ª).

Este é, sem dúvida, o acontecimento mais importante da história da salvação, junto com a criação, a encarnação, o mistério pascal e a 2ª vinda de Cristo. E está descrito somente em uma linha! (dar grande vontade de ficar de joelhos)

Dizer que os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo, que o próprio Deus os encheu é como dizer, para explicar com um exemplo, como um grande cachoeira, dessas que se utiliza para gerar energia, que, de repente, se convertesse em uma imensa catarata, que se esvazia através de um dique e, então, toda essa enorme massa de água, que é a vida trinitária, se esvaziasse nos pequenos recipientes dos corações de cada um dos apóstolos:

“Ficaram cheios”:

  • Após purificar os homens pela cruz de seu Filho, de prepará-los como odres novos, Deus os faz partícipes de sua própria Vida. O coração dos discípulos se tornou partícipe, por assim dizer, como um vaso comunicante, da vida trinitária. Pelo dom de seu Espírito, Deus infunde seu amor em cada criatura e a recria com sua luz. 
  • Os discípulos fizeram a experiência de serem amados por Deus, uma experiência verdadeiramente transformante, visto que cura todas profundamente todas as feridas que permanecem no coração pelas dores da vida, pelas carências, e dá à vida um novo impulso e uma nova projeção.
  • A palavra que repetimos com tanta freqüência, “o amor de Deus”, que muitas vezes é uma palavra vazia, naquele dia foi para os apóstolos uma grande realidade. Mudou-lhes a vida. Deu-lhes um coração novo, como prometido por Jeremias (31,33); e por Ezequiel (36,26). E, como veremos em seguida, nota-se que desde esse momento os apóstolos começaram a ser outras pessoas.
  • A reação dos destinatários da unção: falar em línguas (2,4b)

O “vento” se torna “sopro” santo que inunda todos os que estão no cenáculo e as “línguas como de fogo” sobre cada um se convertem em novas “línguas”, em uma capacidade nova de expressão. Aqui se nota a primeira mudança na vida dos discípulos de Jesus.

O Espírito Santo, o sopro vital de Deus, leva a falar outras línguas (ver 2,4b).

O termo “outras” (línguas) é importante aqui para que o distingamos do falar incompreensível (a oração em linguas, ou “glossolalia”, a qual precisa de um intérprete (disto fala Paulo em I Co 12,10). O que acontece aqui parece mais próximo ao que o próprio Paulo disse em 1 Co 14,21, citando Isaias 28,11-12, e está relacionado com a pregação cristã aos não convertidos.

Em outras palavras, o que o Espírito Santo põe na boca dos discípulos é o “kerigma”, o qual recolhe as maravilhas de Deus(2,11) realizadas através de Jesus de Nazaré, particularmente sua morte e ressurreição.

Porém esta capacidade de comunicar-se irá mais além: se converterá, aos poucos, na linguagem de um amor que se doa todo pelos outros, que ora incessantemente, que perdoa e se põe a serviço de todos. Não se deve perder de vista que o dom do Espírito é do amor de Deus.

O que aqui inicia como “língua”, ou “comunicação” terminará gerando o maior espaço de comunicação profunda que há: a comunidade cristã. Seu motor é o amor.

É como se o Espírito nos dissesse, continuamente, ao ouvido: “em tudo pôr amor”, “leva sempre amor em teu coração”; “se corriges, por amor; se deixas passar, por amor; se calas, por amor”.

  • Fora do cenáculo (2,5-11)

A segunda cena ocorre na praça frente ao cenáculo. Ali vemos como o coração novo dos apóstolos se expressa concretamente na vida.

2.1. As pessoas estavam admiradas (2,5-6)

Todos ficaram fortemente admirados. Os efeitos da vinda do Espírito são os mesmos que se davam quando Jesus entrava poderosamente na vida das pessoas.

Por exemplo, quando manifestou sobre o lago sua potência divina, se diz que os que o viram ficaram assustados (ver Lc 8,25).

Aqui se disse o mesmo com relação à manifestação do Espírito Santo: “… e se encheu de estupor ao ouvir falar cada um em sua própria língua”.

  1. A congregação de todos os povos (2,7-11)

Confrontando os humildes Galileus com a multidão internacional e pluricultural que se congrega na frente do cenáculo, Lucas segue o relato fazendo a lista das nações (ver 2,7-11ª). A enumeração segue círculos concêntricos.

A lista termina dizendo, todos o ouvimos falar em nossa língua as maravilhas de Deus(2,11b). Assim surge outro elemento importante da mensagem de Pentecostes.

Tomando o relato da torre de Babel (ver Gn 11,1-9), Lucas nos mostra uma grande transformação operada pela vinda do Espírito Santo.

Em Babel se confundem as línguas: há caos lingüístico que montra que quando cada pessoa se apega a seu próprio projeto e não é capaz de abrir-se ao dos demais, nunca é possível um projeto comunitário. Babel, então, é o caos ideológico, reflexo do caos psicológico que pode dar-se dentro de nós: conflito de projetos e desejos contraditórios que emergem continuamente. Babel se repete todos os dias: se começa falando uma mesma língua, se fazem projetos comuns, porém de repente aparecem os interesses pessoais que põem todas as alianças no chão, que rompem em definitivo as relações.

Mas em Pentecostes todos são capazes de entender-se: todos falavam diversas línguas (e por isso essa larga lista de povos), mas chega um momento em que todos se entendem como se estivessem falando uma mesma língua. Esta língua é a língua do amor cuja máxima expressão é o amor de Deus: as maravilhas de Deus”.

A honra ao nome de Deus (2,11b)

Retomemos a frase final: todos o ouvimos falar em nossa língua as maravilhas de Deus (2,11b). Recordemos que em Babel a torre mencionada, na realidade era um templo em forma de pirâmide sacra, portanto se tratava de uma experiência religiosa. A que se alude? Alude-se a um problema que pode surgir de uma experiência religiosa mal conduzida. O texto diz ainda: “Tornemos celebre nosso nome para que não nos dispersemos sobre a face da terra (Gn 11,4); a Bíblia de Jerusalém traduz: “façamo-nos famosos”.

Aqui, o pecado não está no fato de honrar à divindade com um templo, mas de querer “fazer celebre o nome”, ou seja, o querer ser adorados eles mesmos e não Deus. Isto acontece às vezes, é o que podemos chamar ide “instrumentalização” de Deus. Diz-se que se trabalha por Deus, porém no fundo poderia estar buscando outra coisa: um nome para si”.

Em Pentecostes é diferente: os apóstolos não trabalham para si mesmos, não querem fazer um nome para si, mas dar honra ao nome de Deus, isto é, proclamar as grandes maravilhas de Deus: (v.11).

Quando no mundo das relações cada um trata de fazer um nome pra si, se criam pólos, tantos pólos quantas sejam as pessoas que estão centradas em si mesmas. Babel é a guerra dos egoísmos, ao invés Pentecostes que é a formação da comunidade na comunhão de diversidades cujo centro é Deus.

Os mesmos discípulos que antes da Cruz de Jesus discutiam quem era o maior, vivem agora uma conversão radical que é como a revolução copernicana: descentralizam-se de si mesmos e cheios de amor centralizam-se em Deus.

Tudo está orientado para a glória de Deus, para o louvor de Deus e é n’Ele que convergemos todos, pondo nossos melhores esforços em ajudar a construir seu projeto criador no mundo. Esta é a conversão que nos aguarda. Esta é a conversão que aguarda a todos. O que aconteceu no dia de Pentecostes foi apenas ao inauguração; o evento segue envolvendo a todos os que o aguardamos com o coração ardendo pela escuta da Palavra de Deus e a oração.

Assim, em cada um de seus membros, a Igreja adquire todos os dias um rosto novo, reflexo do amor de Deus. Entremos neste caminho, fazendo nossa esta bela oração: “Vem, Espírito Santo, e dá-nos: um coração grande, aberto a tua silenciosa e potente palavra inspiradora; um coração grande para amar a todos, para servir a todos, para sofrer com todos; um coração forte para resistir qualquer tentação, qualquer prova, qualquer desilusão, qualquer ofensa; um coração feliz de poder palpitar ao ritmo do coração de Cristo e cumprir humildemente, fielmente, a vontade divina”. (Papa Paulo VI).

O que vem é grande, porque Pentecostes é festa da esperança: a esperança de que a humanidade inteira, começando por quem temos perto, possa ser invadida pelo Espírito Santo na alegria do dom de si mesmo, assim como o Cristo Pascal.

Aprofundando com os padres da Igreja

  1. São Basílio Magno: A soberania do Espírito Santo

“Toda a atividade de Cristo se realizou na presença do Espírito. Ele estava ali, mesmo quando Ele foi tentado pelo diabo, pois está escrito: ‘Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado’ (Mt 4,1). E continuava com Ele, inseparavelmente, quando Jesus realizava seus milagres, porque – são suas palavras – ‘Eu expulso os demônios em virtude do Espírito de Deus…’ (Mt 12,28). Ele não o abandonou após sua ressurreição dos mortos: quando o Senhor, para renovar o homem e restituí-lo a graça recebida pelo sopro de Deus – uma vez que a perdera –, quando o Senhor soprou sobre o rosto dos discípulos, que foi que lhes disse? ‘Recebei o Espírito Santo; os pecados serão perdoados a quem perdoardes e ficarão retidos a quem retiverdes’ (Jo 20,22-23). E a organização da Igreja? Não é, evidentemente e sem contestação, obra do Espírito Santo? De fato, segundo São Paulo, é Ele quem deu à Igreja ‘em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, doutores; depois os dons dos milagres, das curas, da assistência, do governo, e o de falar línguas distintas’ (1 Co 12,28). O Espírito distribui nesta ordem segundo a repartição de seus dons”. (“De Spiritu Santo”,16,39)

  1. Santo Agostinho: Do Sinai ao Cenáculo

“O povo hebreu celebrava a Páscoa com a imolação do cordeiro e com os ázimos (…); e 50 dias depois desta celebração, o foi dada sobre o Monte Sinai a Lei escrita com o dedo de Deus. Veio a verdadeira Páscoa e é imolado Cristo, que opera a passagem da morte à vida (…). E 50 dias após vem o Espírito Santo, o Dedo de Deus. (…) Antes o povo estava a distância, havia terror no amor.(…) Deus desceu no fogo sobre o Sinai, como está escrito, inspirando terror ao povo que estava a distância, e escreve com seu dedo sobre a pedra, não no coração. Aqui, ao contrário, quando vem o Espírito Santo, os fiéis estavam reunidos em conjunto. Não os assustou como no Monte, mas entrou na casa. De repente se escutou vindo do céu um ruído como de um vento impetuoso; houve estrondo, porém ninguém se assustou. Ouviste que houve um estrondo, note que também houve fogo. Porque sobre o monte havia um e outro, o fogo e o estrondo.… Reconhece, também, o Espírito que escreve, não sobre a pedra, mas no coração. De fato, ‘a Lei do Espírito que da vida’ está escrita no coração, não sobre a pedra; “em Cristo Jesus”, em quem foi celebrada a verdadeira Páscoa, ‘te libertou da lei do pecado e da morte’ (Rm 8,2). (Sermón 155, 5-6).

  1. Santo Agostinho: Odres novos à espera do vinho novo

“A solenidade de hoje nos traz à memória a grandeza do Senhor Deus e de sua graça, que derramou sobre nós. Para isso é que se celebra a solenidade: para que não se apague da recordação o que ocorreu de uma vez por todas (…) Hoje celebramos a vinda do Espírito Santo. De fato, o Senhor enviou desde o céu o Espírito Santo prometido já na terra. Assim era que havia prometido enviá-lo desde o céu: ‘Ele não pode vir enquanto eu não tiver ido; porém quando e tiver ido, o enviarei’. Para isso padeceu, morreu, ressuscitou e subiu ao céu; só o falta cumprir a promessa. Era o que esperavam seus discípulos, cento e vinte pessoas, segundo o que está escrito; quer dizer, dez vezes o número dos apóstolos. Efetivamente, escolheu doze e enviou o Espírito sobre cento e vinte. Esperando a promessa, eles estavam reunidos orando em uma casa, pois desejavam já com a mesma fé o mesmo que com a oração e a ânsia espiritual. Eram odres novos à espera do vinho novo que chegou do céu. O grande cacho já havia sido pisado e glorificado” (Sermón 267,1)

Cultivemos a semente da palavra no profundo do coração

Sem o Espírito Santo Deus é distante; o Evangelho é letra morta; a autoridade da Igreja é uma dominação; a liturgia é pura evocação; o agir dos cristãos é uma moral de escravos. Porém, quando o Espírito de Deus está presente, o Evangelho é Espírito e Vida, a autoridade da Igreja é serviço, a liturgia é memória e antecipação do esperado, e o atuar cristão é deificado” (Patriarca metropolitano oriental) 

  1. Quem é o Espírito Santo? Que realiza de maneira particular em nós o Espírito Santo?
  2. De onde vem a palavra “Pentecostes”? Que era para o povo de Israel? Que me dizem os sinais do “vento” e do “fogo”?
  3. Sinto-me “pleno” do Espírito Santo? Como se sabe que uma pessoa está “plena” do Espírito Santo? Que acontece dentro e fora dela? Que conversão me leva a viver o batismo no Espírito Santo? Que vou fazer no Pentecostes deste ano para avançar mais neste caminho pelo qual me conduz o Espírito Santo de Deus?
  4. Que efeitos tem Pentecostes tanto a nível comunitário (do grupo, a pequena comunidade, a paróquia) como a nível da sociedade?
  5. Por que dizemos que a Igreja nasceu em Pentecostes? Que caracteriza no fundo sua vida?

Pe. Fidel Oñoro, cjm

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