2ª Semana da Pácoa (Estudo Bíblico)

DOMINGO:

João 20,19-31

(Aparição aos discípulos) Estes dois episódios, próximos e relacionados a um mesmo tema, a fé, são eco fiel do que ocorreu no coração dos apóstolos após a mor­te de Jesus. No primeiro (vv.19-22), Jesus aparece aos onze, que, apesar do anúncio de Maria Madalena, estão ainda fechados no cenáculo por medo dos judeus. Jesus vence as barreiras: passa através da porta, ma­nifestando que sua condição é totalmente nova, ainda que não tenha desaparecido nada do sofrimento que padeceu na carne. A insistente referência ao seu lado traspassado é própria de João, para indicar o cumprimento das profecias em Jesus (Ez 47,1; Zc 12,10.14). A tradicional saudação de paz assume, também, em seus lábios, sentido novo: do desejo passa à pre­sença. A paz, dom messiâ­nico por excelência, que inclui todo bem, é, pois, uma pessoa: é o Senhor crucificado e ressuscitado em meio dos seus (“se apresentou»:vv.14.19b.26b). Ao vê-lo, ficam cheios de alegria e confirmados na fé. O Espírito que Jesus sopra sobre eles, principio de uma nova criação (Gn 2,7), confe­re-lhes uma missão que prolonga a sua no tempo e no espaço e lhes concede o poder divino de libertar do pecado. O segundo quadro (vv.24-29) personaliza em Tomé as duvidas e o ceticismo que atribuem os sinóticos, de modo genérico, a «alguns» dos doze, e que po­dem surgir em qualquer um. Tomé viu a agonia de seu Mestre e se nega a crer agora em uma realidade que não seja concreta, tangível, quanto ao sofrimento do que foi testemunho (v.25). Jesus condescende à obstina­da pretensão do discípulo (v.27), pois é preciso que o grupo dos apóstolos se mostre firme e forte na fé para poder anunciar a ressurreição ao mundo. Precisamente a Tomé atribui a confissão de fé mais elevada e completa: «Meu Senhor e meu Deus!» (v.28). Aplica ao Ressuscitado os nomes bíblicos de Deus, Yahweh e Elohím, e o possessivo «meu» indica sua plena adesão de amor, mais que de fé, a Jesus. A visão conduz Tomé à fé, mas o Senhor declara, de modo aberto, para todos os tempos: bem-aventurados os que creram pela palavra dos testemunhos, sem pretender ver. Estes experimentarão a graça de uma fé pura que, sem dúvida, é confirmada pelo coração e o faz exultar com uma alegria inefável e radiante (1 Pe 1,8). Os vv.30s constituem a primeira conclusão do evangelho de João: trata-se de um testemunho escrito que não pretende ser exaustivo, mas só suscitar a fé em que«Jesus é o Cristo, o Filho de Deus» (cf.Mc 1,1).

Cristo veio aos apóstolos escondidos em uma casa e entrou pela porta fechada. Porém Tomé, que não estava durante esta aparição, permaneceu incrédulo. Deseja ver, não aceita, nem lhe basta ouvir falar dela. Fecha os ouvidos e quer abrir o coração. Queima-lhe a impaciência. Tomé, homem de caráter exigente e desconfiado, põe adiante sua incredulidade, esperando gozar, assim, de uma visão. «Se ele me aparece – disse – eliminará minha incredulidade. Porei meu dedo nas cicatrizes dos cravos e abraçarei o Senhor a quem tanto amo. Re­provará também minha incredulidade, porém me cumulará com sua visão». O Senhor aparece de novo, aplaca o tormento e elimina a duvida de seu discípulo. Porém, mais que a duvida, satisfaz seu desejo. Entra com as portas fechadas. Esta incrível aparição confirma sua incrível ressurreição. Então Tomé lhe toca, desaparece sua desconfiança e, cumulado de uma fé sincera e de todo o amor que se deve ao próprio Deus, exclama: «Meu Senhor e meu Deus!». O Senhor lhe responde: «Porque me vistes, crestes. Bem-aventu­rados os que creem sem ter me visto. Tomé anuncia a ressurreição aos que não me verão. Arrasta toda gente para crer, não no que veem seus olhos, mas no que disse tua palavra». Estes são os novos recrutas do Senhor […]. Seguirão a Cristo sem tê-lo visto, o desejarão, crerão nele. Reconhecerão com os olhos da fé, não com os do corpo. Não porão seus dedos na ferida dos cravos, porém se unirão a sua cruz e abraçarão seus sofrimentos. Não verão o lado do Senhor, porém se unirão a seus membros através da graça (Basilio de Seleucia, Omelia sulla Pasqua).

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Encontrar Deus! Vê, estou sem luz. Penso que poderia dizer frases belas e com elas entusiasmar-me, mas justamente pronunciadas muito depressa, de modo superficial. Acho-me numa situação onde o crer já não se me apresenta como um conhecer algo sobre Deus, como um «Credo», mas como a pedra de toque de minha fé. Se eu cresse de verdade, seguiria sendo ainda presa de insignificantes contrariedades com tanta frequência? Sentir-me-ia alarmado por projetos tão medianos? Não, então nada seria objeto de desprezo, mas tudo ficaria iluminado por este inimaginável e rico cumprimento de tudo. Em consequência, é minha fé a que tem que ser reanimada… Porém, onde se encontra sua debilidade? Creio, seguramente, que Jesus é Deus que veio entre nós e deu vida a minha vida. Creio, certamente, em Jesus, verdadeiro homem, que morreu crucificado e ressuscitou dentre os mortos: como Deus verdadeiro, «a morte já não tem poder sobre Ele». Sim, Jesus, creio que ressuscitastes. Tu, o Filho de Deus encarnado, «a fidelidade encarnada de Deus», ressuscitastes com teu corpo de homem. Creio que  venceste à morte, também a minha. Porém, creio de uma maneira vital nesta ressurreição da carne, de minha carne, como afirmo no Credo? Justamente como a viveu Jesus e como a leio nos quatro evangelhos? Não entrarei de verdade na ressurreição de Jesus mas que se digo um «sim» incondicional a minha ressurreição. Este «sim» ao meu destino pessoal é o que devo pronunciar antes que qualquer outra coisa, além de todas as falsas aparência dos sentidos, um «sim» a um «eu que continua em uma vida nova». É preciso que minha vontade se comprometa com este «sim» a minha sobrevivência gloriosa, para que seja algo diferente de um simples som vocal (J.Loew,Dios incontro alí’uomo).


SEGUNDA-FEIRA

João 3,1-8

DEIXAR-SE ILUMINAR PELA PÁSCOA (I):

A VIDA NOVA NOS É DADA NO BATISMO DO PODER CRIADOR DE DEUS

“O que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”

Os sacramentos, começando pelo Batismo, infundem em nós a vida que nasce da Ressurreição. A vida nova dos homens novos e ressuscitados por Cristo.

A partir de hoje, e até a solenidade de Pentecostes, nos dias da semana estaremos lendo de maneira continua o Evangelho de João. Faremos da seguinte forma:

  • O diálogo de Jesus com Nicodemos (vv.22-30) sobre o “Batismo”: primeiro sacramento pascal;
  • Relato da multiplicação dos pães e catequese do “Pão da Vida” (Jo 6): segundo sacramento pascal;
  • Algumas passagens da alegoria do “Bom Pastor” (Jo 10);
  • O discurso de despedida de Jesus aos seus discípulos (o “Testamento de Jesus”; Jo 14-16);
  • A oração sacerdotal de Jesus (Jo 17);
  • O final do evangelho de João, com a última aparição de Jesus.

O fio condutor é… O encontro de Jesus com Nicodemos. O Evangelho de João nos descreve, com certa amplitude e com profundidade, o encontro de Jesus com diversas pessoas. Aqui temos o encontro com um dirigente do grupo judeu.

  1.  “Havia um homem chamado Nicodemos…

Quem é Nicodemos?

  •  Um homem de grande prestígio:

Inicialmente se descreve Nicodemos como um fariseu e um magistrado judeu, porém, mais adiante se diz, também, que é mestre em Israel (cf. v.10) e membro do Sinédrio (cf.7,45.50), que é a mais alta instância da autoridade judia.

  • Um discípulo escondido e valente, que virá à luz na Páscoa de Jesus.

Escondido: De fato, Nicodemos é apresentado como um discípulo noturno (v.2ª). Este comportamento parece dever-se ao temor de ser reconhecido como discípulo, o que lhe pode custar à expulsão do Sinédrio e até do judaísmo (9,22;19,38-39, onde aparece associado a José de Arimatéia).

Valente: Porém, nota-se que, depois da morte de Jesus, discípulos escondidos como este aparecerão à luz pública, enquanto que os mais conhecidos se esconderam (20,19). Justo no acontecimento pascal, ao evocar este primeiro encontro com Jesus (19,39), se deixa entender que o sentido do ocorrido na Cruz já estava anunciado na conversa daquela noite.

  • Alguém que entende a obra de Jesus:

Chama a atenção que Nicodemos não considera inconveniente à sua alta dignidade ir onde está aquele Galileu. Não lhe pede nenhum sinal particular de seu messianismo, mas se apresenta já com a atitude de um fiel. Está comovido profundamente por suas obras de poder (v.2c).

Como se pode ver, ele interpreta seu verdadeiro significado: as ações de Jesus não são só uma ajuda às pessoas que estão em necessidade, mas uma demonstração de que o próprio Deus está com ele.

Nicodemos reconhece que o Deus que confessa como seu Deus, está por trás de tudo que Jesus faz. Desta observação e correta interpretação das obras de Jesus, Nicodemos deduz a autoridade de Jesus como Mestre (v.2b).

Como costumava fazer o evangelista João, que gosta de dramatizar e apresentar personagens como símbolos de um grupo inteiro, o Nicodemos que dialoga com Jesus à noite, representa todos os judeus que mostram alguma simpatia pelo jovem rabi da Galileia, mas que demonstram falta de fé, e rejeitam o revelador do amor supremo de Deus, preferindo as trevas da incredulidade (Jo 2,23-3,21).

  • Ver o Reino de Deus… Entrar no Reino de Deus…

O tema do diálogo com Jesus

A resposta de Jesus mostra que é Ele quem realmente põe o tema da conversação (se comporta como um verdadeiro Mestre): “Em verdade, te digo…“ (v.3). Jesus responde sobre uma pergunta que não foi traçada, porém que é de decisiva importância: “Que se necessita para entrar no Reino de Deus?”

Jesus põe o olhar no central: Deus está –por meio do ministério do Messias- a ponto de despregar definitivamente sua potência misericordiosa. Para poder gozar plenamente da eficácia desta benção tem que conhecer as condições e fazer o itinerário: “Nascer do alto”.

Consideremos que em João não é comum o tema do “Reino de Deus” (esta expressão só aparece aqui e no v.5), mas o tema da “Vida”: só o poder de Deus pode dar-nos a vida eterna, ou seja, a vida que não passa e que é a única verdadeira e efetiva (o veremos nos próximos dias: Jo 3,15.16.36).

  • Nascer do alto…” O caminho para entrar na Vida

É preciso nascer “do alto” (v.3), quer dizer, que para tomar parte no Reino de Deus se necessita um novo nascimento, um começo completamente novo. A vida eterna, que é a vida divina, se recebe já, desde aqui, mediante um gesto criador de Deus no crente.

Com isto Jesus ensina que a vida presente não pode transformar-se, simplesmente, em vida no Reino de Deus (no âmbito de poder da vida plena e inesgotável de Deus), mas que para obtê-la, se necessita uma nova existência.

Nicodemos fica estremecido ante a proposta (v.7: “Não te assombres de que tenha dito: tens que nascer do alto”). Apesar de ter ele reconhecido em Jesus um poder divino através de seus sinais (“Ninguém pode”), se confunde inicialmente diante da radicalidade do caminho que o Mestre acaba de propor (“Não pode ver o Reino de Deus”).

Ele não nega a necessidade deste novo nascimento, porém não consegue imaginar como pode ocorrer: “Como pode nascer já sendo velho? Pode acaso entrar outra vez…?” (v.4; nota-se a repetição contínua do verbo “poder”).

Jesus então lhe ajuda a compreender: o novo nascimento se realiza a partir da água e do Espírito Santo (v.5). O ser humano não pode conceder-se este novo começo por seus próprios meios porque as realidades do Espírito só podem provir do dom do Espírito (“o nascido da carne é carneo nascido do Espírito é espírito”, v.6; Jo 1,12-13).

Portanto, é por meio do poder criador de Deus, o Espírito Santo recebido no Batismo, que se ganha este novo ponto de partida na vida e no caminho para a plena vida. Com nossas obras não conseguiremos realizar o Reino, muito menos alcançamos os pressupostos para “entrar” nele (sentido do v.6).

Trata-se da ação do Espírito, pleno de poder, o qual opera de forma misteriosa (sentido do v.8). A nós corresponde mostrar nossa melhor disposição, reconhecer nossa incapacidade, nossa pobreza e abrir-nos à sua ação com profunda gratidão.

Para cultivar a semente da Palavra na vida:

  1. Que me diz o comportamento de Jesus frente ao assombrado Nicodemos?

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  • O ideal máximo de todo ser humano é “Viver!”. Sonho com uma vida que vai além da presente e que comece desde o presente?

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Como acolho o que Jesus me diz a respeito?

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  • Reconheço que o novo nascimento é um dom?

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Que se requer para recebê-lo?

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TERÇA-FEIRA

João 3,7b-15

DEIXAR-NOS ILUMINAR PELA PÁSCOA (II):

SOB O INFLUXO VIVIFICANTE DO CRUCIFICADO EXALTADO

“Quando for levantado o Filho do homem, que todo o que crer tenha por Ele vida eterna”

Continuando nossa leitura do diálogo de Jesus com Nicodemos, notamos como Jesus põe de relevo o caráter misterioso da realização do novo nascimento pela água e o Espírito Santo.  

Sua obra vai muito além de uma plena intelecção humana. A imagem do vento, também figura do Espírito (ruah), que é, em categorias humanas, “O vento sopra onde quer e ouves sua voz, porém não sabes de onde vem nem a onde vai” (v.8a). 

Esta plena liberdade, docilidade e abertura para o futuro é a grande característica do homem novo: “Assim é todo o que nasce do Espírito” (v.8b). A última expressão de Jesus nos convida a deixar-nos impactar, e não simplesmente admirar-nos pela obra de Deus.

A frase “Como não sabes como vem o espírito aos ossos no ventre da mulher em gestação, assim tão pouco sabes a obra de Deus que tudo faz” (cf. Ecl 11,5) revela qual é a atitude que nos corresponde: a gratidão a Deus por sua obra em nós e a humildade e abandono total nele para que a leve à plenitude. 

A nova pergunta de Nicodemos não obtém resposta. No começo ele havia reconhecido Jesus como Mestre vindo de Deus (v.2). Agora Jesus exige ser reconhecido verdadeiramente sua autoridade e que se aceite seu testemunho.

Não há nenhuma outra razão para manter suas afirmações, senão a qualidade de seu testemunho (v.11).  Ele desceu do céu: sabe, sim, porque é testemunha ocular (v12). Conhece as coisas de Deus. Portanto, é preciso que confiar em sua palavra. 

Do diálogo de Jesus com Nicodemos aprendemos que:

  • Para poder participar do Reino de Deus é necessário um começo completamente novo;
  • Não podemos dar a nós mesmos este inicio de uma nova vida, o qual só nos é dado no Batismo do poder criador de Deus;
  • Neste novo começo não somos passivos: este exige da nossa parte a fé no Filho de Deus. 

Porém, nem a fé é algo de ordem humana. Jesus mostra que a fé se fundamenta na prova de amor que Deus nos deu enviando seu Filho. 

O novo nascimento de Deus e a fé no Filho de Deus nos conduzem ao sentido e à plenitude de nosso ser, à verdadeira vida que não passa. Sem este nascimento e esta fé arruinamos nossa vida. 

Como evitar um fim absurdo, uma morte sem sentido e miserável? Como manter e assegurar nossa vida? Israel se fazia estas perguntas quando, no caminho do deserto, foi ameaçado por serpentes venenosas (Nm 21,4-9).

Então Deus veio em auxilio de seu povo. Encarregou Moisés de fazer uma serpente de bronze e a suspendesse no madeiro. Quem era mordido pela serpente e olhava a serpente seguia com vida.   

Assim se aclara o significado do Filho do homem exaltado sobre a Cruz: o crucificado é símbolo de salvação, fonte de vida (3,4-5). Devemos fixar o olhar d’Ele e tratar de ouvi-lo.

Devemos levantar nosso olhar para ele e reconhecê-lo como nosso salvador. Não há outro caminho para a vida, nem outra possibilidade de superar a morte se não n’Ele.  

Concluindo, a união com Jesus dá a vida. E esta união a obtemos crendo n’Ele, que é o Crucificado, abandonando-nos e confiando completamente n’Ele. Confiando no Crucificado, reconhecemos o amor sem medida de Deus e nos entramos na esfera de ação de sua potencia vivificante.

Para cultivar a semente da Palavra no coração:

  1. Por que se utiliza aqui a imagem do vento?

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  • Que tipo de Mestre é Jesus?

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De onde provem seu ensinamento?

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  • De onde se tira a imagem da serpente suspensa na haste?

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Que relação tem com a crucifixão de Jesus?

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QUARTA-FEIRA

João 3,16-21

DEIXAR-SE ILUMINAR PELA (III): ANTE LUMINOSA REVELAÇÃO DO AMOR DE DEUS NO CRUCIFICADO

“Tanto amou Deus o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça,…”

O diálogo de Jesus com Nicodemos dá um giro importante: a contemplação do amor de Deus na Cruz do Filho. Afirma-se, claramente, que detrás do Crucificado está o mesmíssimo Deus, que este Deus o ofereceu e enviou por amor à humanidade inteira, preocupando-se por sua salvação.

A Cruz de Jesus é, desde um ponto de vista externo, um sinal de como Ele foi despojado de todo poder, de como Deus o havia abandonado, e de como a crueldade humana havia triunfado sobre suas reivindicações e sobre suas obras. Porém, na Páscoa fica claro que o Crucificado foi o enviado de Deus e n’Ele estabeleceu quais eram seus caminhos de salvação.

Então a Cruz permanece como símbolo do amor de Deus sem medida. Ela demonstra quão longe é capaz de ir Deus e quão longe é capaz de ir Jesus ao jogar-se pela humanidade.

No Crucificado Deus responde nossas interrogações: Será que Deus me ama? Meu destino interessa a Deus? Fomos criados, e logo abandonados à impassibilidade das leis da natureza e ao mesquinho jogo de poder humano? O Crucificado nos diz que Deus ama o mundo e quer sua salvação. Seu amor tem intensidade e medida tal, que se fosse possível, se deveria dizer: “Deus ama o mundo, a nós, mais que seu próprio Filho”.

Deus não abandonou o mundo. Antes, se compromete de tal forma que é capaz de desprender-se do mais querido e dar seu próprio Filho como dom. E mais ainda, o expõe aos perigos desta missão, que caia nas mãos dos maus feitores, que seja vítima da cegueira e crueldade destes, que seja crucificado.

Quanto nós valemos, aos olhos de Deus! O que Deus quer é que nossa vida não se arruíne e que alcancemos a plenitude de nossa vida. Para isto nos dá a seu Filho. Após a criação (Jo 1,2), a Lei (Jo 1,17), unida aos profetas e a tantas outras formas de sua solicitude por nós, o Filho é a última palavra, o dom mais valioso que Deus fez à humanidade. No Filho, Deus se ocupa pessoalmente de nós, nos abre o caminho da salvação e nos atrai à comunhão com Ele e à vida eterna.

Porém, Deus não busca nossa salvação sem contar conosco, nem tampouco contra nossa vontade. Requer que nos abramos a seu amor incrível e que creiamos em seu Filho crucificado.

Só se reconhecemos que o Crucificado é o único e predileto Filho de Deus, a potência deste amor de Deus pode invadir-nos e realizar, eficazmente, dentro de nós. Nossa vida, então, resplandece sob sua luz e seu calor. Nossa vida depende de nossa fé.

Como acolher a luz resplandecente deste amor, para encher-nos de sua força doadora de vida? A ele se opõe o estranho fenômeno segundo o qual os homens preferem mais as trevas à luz (cf. 3,19).

Há razões para fugir desta luz e para buscar a sombra das trevas, razões que residem no comportamento humano. Quem faz o mal evita, instintivamente, a luz. Quem faz o bem enfrenta a luz e não a evita, porque não tem nada que esconder.

Nosso agir concreto tem uma grande relação com nossa fé:

  • O “bem”: que fazemos segundo Deus (3,21), escutando-o, buscando sinceramente pôr em prática sua vontade;
  • O “mal” quando não agimos segundo estes critérios, quando não buscamos a Deus, mas que perseguimos em egoística autoafirmação nossos planos e nossos desejos, ainda contra a vontade de Deus (3,20).

Quem busca só a si mesmo, se fecha a Deus e corre o perigo de permanecer fechado ante a luminosa revelação de seu amor. Se não levamos a sério a vontade de Deus, como vamos crer em seu amor? 

Este amor o afasta de seu próprio egoísmo e lhe faria sentir ainda mais sua própria dependência de Deus. Quem busca sempre a comunhão de Deus através das obras, está aberto à luz de seu amor.

Portanto, Jesus, o Crucificado, não é um pensamento, ou uma teoria, uma hipótese, ou uma fantasia, mas uma autêntica realidade histórica. Tão real é o amor de Deus!

Para cultivar a semente da Palavra no coração:

  1. Faço idéia do amor de Deus sem medida? Para mim esse amor é decisivo?

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  • Dou-me conta de que na mensagem de Jesus tudo se fundamenta em Deus e na fé?

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  • Quem pode declarar-se sustentado pelo amor de Deus e por sua vontade de salvação?

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QUINTA-FEIRA

João 3,31-36

DEIXAR-NOS ILUMINAR PELA PÁSCOA (IV): O ESPÍRITO DADO SEM MEDIDA

 “O que crer no Filho tem vida eterna”

O texto de hoje fala da validade e autoridade que tem o ensinamento de Jesus a Nicodemos. Trata-se, pois, de um convite à obediência às Palavras de Jesus: Crer no Filho para que tenha vida eterna (3,36).

A validade e autoridade de Jesus para falar de Deus se fundamentam em três realidades:

  1. Vem do céu: O que vem do alto está acima de todos” (v.31).

Jesus procede da comunhão eterna no seio do Pai e veio ao mundo para “contar-nos” o que tem vivido nessa amorosa intimidade (1,18). Por esta razão é um testemunho direto do que ensina.

Ele não é como os demais mestres da terra que transmitem o que, por sua vez, receberam por meios escolares. Por vir do céu, Jesus “dá testemunho do que tem visto e ouvido” (v.32).

  • Deus o tem autenticado com a unção do Espírito Santo:

O que aceita seu testemunho certifica que Deus é veraz; porque aquele a quem Deus enviou fala as palavras de Deus, porque dá o Espírito sem medida” (v.33-34; 1,33)

  • Deus colocou em seu Filho esta responsabilidade: O Pai ama ao Filho e colocou tudo em sua mão” (3,35).

Por trás do amor do Pai ao Filho está, também, o amor à humanidade. Portanto, é preciso aceitar a mensagem-testemunho de Jesus. Não há desculpas para não fazê-lo.

O ensinamento de Jesus tem validade, uma validade que se constata por demais em sua eficácia: “O que aceita seu testemunho certifica que Deus é veraz” (3,33).

Jesus é a “verdade” encarnada de Deus (termo que em João traduz o hebreu “emet”, que descreve a fidelidade de Deus com seu povo).

A responsabilidade do homem é grande: aceitar Jesus é entrar, em seguida, nas relações com Deus que lhe levam à participação plena de sua vida. Não fazer isto é se autojulgar e se excluir da vida.

Aprofundemos com os nossos pais na fé:

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir

O Filho revela o Pai

Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” 

Desde o começo, é o Filho quem revela o Pai, porque Ele está junto do Pai desde o começo.

No tempo fixado, foi Ele quem deu a conhecer aos homens, para proveito destes, as visões proféticas, a diversidade das graças, os ministérios e a glorificação do Pai, tudo como uma melodia bem composta e harmoniosa.

Com efeito, onde há composição, há melodia; onde há melodia, há tempo fixado; onde há tempo fixado, há proveito. Foi por isso que, para proveito dos homens, o Verbo Se fez dispensador da graça do Pai, segundo os Seus desígnios.

Ele mostra Deus aos homens e apresenta o homem a Deus, preservando a invisibilidade do Pai, com receio de que os homens venham a desprezar a Deus e para que eles tenham sempre progressos a fazer, ao mesmo tempo que torna Deus visível aos homens de numerosas formas, com receio de que, totalmente privados de Deus, eles acabem por se esquecer da Sua existência.

Porque a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.

Se a revelação de Deus pela criação já dá a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus!

Para cultivar a semente da Palavra no coração:

  1. Jesus é revelador. De que?

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  • Em que se baseia a autoridade de Jesus?

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  • A que faz referência à imensa generosidade de Jesus, que “dá o Espírito sem medida”?

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SEXTA-FEIRA

João 6,1-15

PÃO DE VIDA (I): O SINAL DO PÃO EM ABUNDANCIA.

“Encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães de cevada que sobraram”

Jesus ressuscitado nos comunica sua vida no Batismo, porém, também na Eucaristia. É por esta razão que agora começamos a ler o capítulo 6 de João.

O capítulo 6 do Evangelho de João tem um desenvolvimento linear que vale observar desde já:

  • Começa com o sinal da multiplicação dos pães e dos peixes (6,1-15);
  • Narra, a seguir, a travessia noturna do lago pelos discípulos em meio da tempestade (6,16-21);
  • Prolonga-se logo no discurso do “Pão da Vida” que clarifica o sentido do sinal (6,22-59);
  • E a este se responde com a decisão de “deixar” (6,66) ou de “seguir” a Jesus (6,68-69).

Entre o começo e o final deste capítulo, notamos um forte contraste. No começo o número dos seguidores de Jesus alcança seu número mais alto (5.000 homens; ver 6,10).

Depois do discurso do Pão Vivo descido do Céu, ficam somente doze como seguidores de Jesus (6,67). Com isto aprendemos que o critério que marca a ação de Jesus não é o proselitismo, mas, sobretudo e, em primeiro lugar, a missão que Deus Pai lhe confiou, sem fazer concessões às expectativas populares.

É assim como o relato da multiplicação dos pães, o relato introdutório da catequese sobre o “Pão Vivo descido do Céu” é uma catequese que pedirá, ao final, uma clara opção por Jesus. É, portanto, a porta de entrada de um itinerário de purificação-maduração da fé.

Para apropriar-nos melhor de seu rico conteúdo, vamos observar o desenvolvimento da ação no texto:

  • A introdução (vv.1-4) Aparecem os personagens: Jesus, sentado na montanha; os discípulos que o rodeiam; e uma grande multidão que se aproxima deles. Acrescenta-se, além do mais, que “estava próxima a Páscoa”. O fato de que a multiplicação dos pães se situa neste contexto festivo de vida e liberdade, assinala a rota pela qual temos que compreender o sinal que vai realizar-se: o dom pascal da vida de Jesus Cristo na Cruz.
  • O diálogo de Jesus com os discípulos (vv.5-9) À pergunta de Jesus sobre “onde” comprar pães para alimentar à multidão, dão duas respostas. Primeiro a de Filipe, que vê a intenção de Jesus como absurda. Logo a de André que, apesar de confessar a incapacidade, apresenta a Jesus um menino portador de cinco pães e dois peixes. Ao final das contas os pães são dados.
  • Jesus serve a mesa (vv.10-11) O pouco que se coloca nas mãos de Jesus se multiplica. Notemos três ações chaves de Jesus: (manda que o povo sente-se (Jesus organiza, pois a ideia de fundo é formar comunidade); ora ao Pai; e reparte os pães e os peixes, isto é, serve a mesa.
  • Jesus manda recolher as sobras (vv.12-13) O núcleo do relato está aqui. O povo ficou satisfeito. A “abundância” de pão é expressão da generosidade de Deus e da plenitude para a qual Ele quer conduzir a cada ser humano. Há pão para os presentes e também para os ausentes, há abundância, mas não há exclusão nem desperdício (“que nada se perca”).
  • As Reações da multidão e de Jesus (vv.14-15) O milagre supera todas as expectativas. Faz-se um primeiro reconhecimento do significado do acontecimento proclamando Jesus como “o profeta que devia vir ao mundo” (Dt 18,15-19), como Moisés (que dá pão-maná no deserto).

Porém, Jesus se dá conta que o querem fazer rei à força e foge. Jesus não se deixa impor nenhuma etiqueta que o prenda às pretensões populares, sacrificando o sentido de sua missão.

O povo não entendeu plenamente o sinal. O relato termina com a fuga de Jesus. No centro deste acontecimento o evangelista insiste em colocar a pessoa de Jesus.

Com a multiplicação de pães e peixes demonstra que tudo começa n’Ele e provém d’Ele, que tem capacidade para dar pão-vida a todos, e em abundância:

  • Tudo começa em Jesus

Ele atua por si mesmo, sem necessidade de que lhe dêem ordens, o realiza segundo o encargo que lhe deu seu Pai. Notemos como cada passo que se dá no relato está previsto e decidido por Jesus. Todo é uma expressão de sua missão.

  • Tudo provém de Jesus

Mesmo que os discípulos tivessem comprado pão, não seria suficiente para todos. Os cinco pães e os dois peixes do jovem, também não são suficientes. O pão abundante, em última instância, provém de Jesus.

  • Onde está Jesus, ai há abundância

A capacidade de ajudar, própria de Jesus, não está limitada a algumas pessoas ou a pequenos grupos. Não há limites para seu poder. Seu poder para dar vida o faz sem exclusões: há suficiente para todos.

Para cultivar a semente da Palavra no coração:

  1. Por que Jesus multiplica os pães e os peixes?

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Que quer ensinar com isso?

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  • Como vivemos hoje na comunidade, família, paróquia, pastoral, o desafio que Jesus pôs a Filipe?

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Também nós hoje podemos multiplicar pães?

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  • Como entender o gesto do “jovem” que oferece seus pães e peixes?

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Por que seu gesto é um sinal pascal?

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Que diz este gesto à sociedade neoliberal, competitiva e marginalizadora?

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Desde onde se constrói uma comunidade fraterna e solidária?

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Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

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