PALAVRA DE DEUS

14° Domingo Comum ano A (Estudo Bíblico)

Mateus 11,25-30

Introdução

Temos escutado nos últimos domingos que Jesus nos chama a segui-lo e também a anunciar o seu Evangelho. Mas, hoje, vamos dar um passo adiante: Jesus nos convida, amavelmente a viver em comunhão com Ele. Uma comunhão que oferece especialmente aos simples (aos que não se têm na conta de sábios nem entendidos), aos homens e mulheres que andam cansados e oprimidos (talvez muitos, talvez a maioria de nós). Não fiquemos tristes: estes são os preferidos de Jesus.

Quando o Mestre profere estas palavras do texto de hoje, já faz tempo que evangeliza continuamente, e, durante todo este tempo, tem encontrado de tudo. Gente que acolhe e gente que rejeita. Logo Jesus se da conta de quem são uns e outros…

E… que faz? Agradece ao Pai que se compraz de que sejam os pequenos, os humildes, os que se abram a Ele. A estes que estão cansados de “mestres” que não os conduzem a nenhuma parte, acaba convidando-os ao seu seguimento, com promessas amáveis e apresentando a si mesmo como modelo a ser seguido. Mas, quem é este que se distingue, tão claramente, dos demais profetas que vieram antes dele? O extraordinário vem, sobretudo, de que, após constatar o fracasso de seu giro a pregar pela região da galiléia, Jesus “bendiz” ao seu Pai.

Ora, não faltam, no Antigo Testamento, textos que mostrem a reação desesperada, muito humana, dos profetas, feridos pelo fracasso, prontos até mesmo a responsabilizar Deus por sua falta de êxito, como Jeremias (15,15-21). E, do mesmo modo, poderiamos tomar as frases de Jonas (3,7–4,4), obstinado em sua incapacidade de entender a Deus, seu desígnio, sua misericórdia. Diante disso se pode ver com clareza a singular força de Jesus que, em lugar de duvidar, “bendiz”.

Jesus, pois, bendiz. A bênção, é evidente, vem ao final de um acontecimento exitoso. Bendiz-se uma obra porque se a admira, e o mesmo se faz com um personagem em quem se descobrem os sinais da perfeição. Mas Jesus bendiz o resultado da pregação galiléia, tão decepcionante em apariência. Para apreciar as coisas assim, se necessita superar os motivos naturais. O impulso maravilhoso brota porque Deus foi entrevisto; a situação se tem mostrado como fruto de um ato de Deus, como obra divina; e nesse caso é a Dios, mais que a sua obra, a quem se admira: e se “bendiz”.

  1. O texto

Alegremo-nos, pois hoje nos é dada uma das páginas mais consoladoras de todo o Evangelho.

Há quem defina este evangelho de hoje como o “Magnificat de Jesus”. São palabras de um significado profundo. Só neste texto Jesus emprega cinco vezces a palavra «Pai» em relação a si mesmo, que se reconhece como Filho de Deus.

O Evangelho deste domingo – Mateus 11,25-30 – está composto de duas partes:

  • Uma reveladora oração de Jesus (vv.25-27).

Esta clarificadora oração de Jesus contém, segundo Mateus, três afirmações fundamentais:

  • a revelação do Pai Deus se abre aos pequeños e se oculta aos sábios;
  • só o Filho é capaz de revelar o verdadeiro rosto de Deus;
  • todos os que estão cansados e oprimidos podem encontrar alivio em Jesus.
  • Jesus invita aos cansados e aflitos para dar-lhes descanso (vv.28-30).

Neste ficam acentuadas tres disposições que devem buscar e cultivar todos os seguidores do Mestre: 

  • Humildade (v.25): Só estes recebem luz e graça do Pai para conhecer a Cristo e ser-lhe fiéis; 
  • Confiança (v.28): O Coração de Cristo se abre a todos e chama a todos; 
  • Docilidade (v.29): Sede dóceis discípulos meus. Eis aí um formoso e gozoso programa cristão.
  • O contexto:

Digamos, em primeiro lugar, que este texto evangélico de hoje não pode ser separado dos versículos que o precedem. Acostumados a cortar este capítulo, deixam de lado o estreito laço que une as palavras de Jesus ao fracasso de sua pregação na Galiléia. Este fracasso está aqui suposto mediante a condenação das cidades incrédulas.

Com efeito, o contexto em que está situado nosso texto evangélico é polêmico. Jesus se lamenta sobre Corozaim, Betsaida, Tiro e Sidônia e Cafarnaun, cidades que não acolheram sua mensagem. Mas, para além disto, Jesus já chegou a uma conclusão geral neste momento crucial de sua vida. Os que não o entendem são os sábios nas diversas disciplinas rabínicas, os expertos na religião, os intérpretes na Lei.

No começo do capítulo Jesus chamou ditosos aos outros, aos que não se escandalizam de sua maneira de atuar (11,6). O que os enviados de João vão poder anunciá-lo não é mais que isto: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres se os anuncia a Boa Notícia” (11,5).

Após a recriminação às cidades galiléias que não responderam a suas obras e da volta dos 72 (setenta e dois) discípulos, Jesus louva ao Pai pela resposta que o estão dando as pessoas do povo simples. De fato, a revelação dos mistérios do Reino já havia sido anunciada para os pobres de boca de Jesus, quando ensinou as bem aventuranças.

Podemos recordar o Evangelho de Mateus, quando Jesus disse: “Benditos os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus” (5,3). Sem dúvida muitos não quiseram ouvi-lo, porque criam já saber muito e neste caso são chamados por Jesus de “sábios”. O texto se refere aos fariseus, quando fala de “sábios”, já que estes, ao sentir-se muito instruídos na antiga lei, rejeitam a mensagem de Jesus e desprezam seus eninamentos.

Os discípulos, ao contrário, atendem e fazem sua a mensagem que Jesus quis revelar-lhes: a mensagem dos mistérios do Reino. Aos discípulos atentos, que têm um coração disponível, se refere o texto quando fala das “crianças”.

Estes “pequeninos” que seguem a Jesus estão vivendo sob um regime de cumprimiento de normas e leis extenuantes e opressoras. Esta leis eram necessárias para não ser julgados pelos que criam ser os portadores da verdade e capazes de julgar o cumprimento das mesmas.

Jesus conhece seu rebanho e com sua nova mensagem de amor, os convida a ser como Ele, obedecer seus mandamentos. Convida-os a imitar seu exemplo, por isso diz: “aprendei de mim”. E por esse despreendimento de si mesmos e escuta da vontade de Deus, receberão o descanso e a tranquilidade que vem de Deus.

  • Aprofundando o texto
  • Uma reveladora oração de Jesus (vv.25-27)

A primeira parte do Evangelho de hoje é uma oração de louvor que leva o selo da experiência particular de Jesus. Esta oração vai dirigida ao “Pai”, que é “Senhor do céu e da terra” (11,25). Novamente Jesus quer mostrar-nos a estreita vinculação que existe entre o Pai e Ele, junto com a possibilidade que nos dá de ascender, de nos elevar, a este mesmo estado.

Os seguidores de Jesus são pessoas que conhecem muito bem sua missão e o horizonte que possuem ao conhecer Jesus: onde está à origem e qual é a meta de sua existência. Na raiz do discipulado está à relação do Pai e do Filho como realidade fundante da qual brota todo o conhecimento de Deus que se recebe e como paradigma do verdadeiro sentido do chamado recebido: participar desta comunhão.

Como deixa entender, Jesus, a boa comunicação com Deus e a constante relação com Ele, nos permite conhecer os mistérios e as verdades que estão no interior de nossa vocação e de nossa missão cristã.

Os “sábios e entendidos” são, no contexto deste Evangelho, os mestres da lei e os fariseus, que conhecem a Lei de Moisés, porém, rejeitam Jesus porque lhes parece insignificante. Rejeitam-no, não porque não compreendam suas palavras a nível intelectual, mas porque, captando bem o que tem ensinado, se negam, categoricamente, a aceitá-lo.

Eles não estão abertos à nova proposta de salvação e vida que provém do Reino, cuja irrupção definitiva anuncia Jesus. Ainda que, sendo grandes teólogos, eles preferem seguir atados à sua norma, a um sistema de vida rígido que os impede de ler os sinais vivos da presença de Deus em Jesus.

Ao contrário, os “pequenos” são os que, com simplicidade de coração, têm aberto, de par em par, as portas de seu coração, para receber a revelação de Jesus e a acolhido efetivamente. Os “pequenos” são os que, não importa sua condição social, têm uma atitude diferente, que parte do reconhecimento de que “não sabem tudo” e, portanto, desejam, vivamente, aprender e viver mais ao lado do Mestre.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (11,27). Esta revelação que o Filho faz do Pai é a que o Pai tem manifestado aos simples: que todos nos façamos um com Ele e para Ele.

  • Jesus invita aos cansados e aflitos para darles descanso (vv.28-3)

O olhar em oração ao Pai dos “pequenos” do Reino se converte, agora, em olhar misericordioso para os sofridos da terra. “Venham a mim…” (11,28a). Nestas palavras, Jesus faz um convite direto a todos os seus ouvintes para que se façam seus discípulos. Estes são os que “estão fatigados e sobrecarregados” e assim repousarão: “… e eu lhes darei descanso”.

Os termos que Jesus utiliza não são como as típicas “frases de gavetas” ou os lemas publicitários, que dizem belas frases para captar incautos seguidores que, cedo ou tarde, terminarão desiludidos com promessas de felicidade que nunca virão cumprir-se.

Não, o convite é que todo homem, desde as agitações internas de sua busca de sentido, dos sonhos e anseio de esperança que o Criador, desde o princípio gravou em seu coração, converta-se em um verdadeiro discípulo da sabedoria. Na literatura sapiencial bíblica (Eclesiástico) lemos: Venham a mim (24,19;51,23); Tomem meu jugo (6,24-25;51,26); Encontrarão descanso” (6,28).

Entre os fariseus do tempo do ministério de Jesus (e ainda um pouco depois), se falava de “tomar o jugo da Lei” como um modo de descrever a decisão de assumir a Palavra de Deus como norma de vida.

O “jugo”, como no caso dos bois, faz inclinar a cabeça e dá docilidade. Dadas às complicações em que havia caído o estudo da Palavra de Deus, convertida em matéria de retórica jurídica, o “jugo” da Lei do Senhor havia se convertido em um forte e esmagante peso para o povo que se sentia fatigado e sobrecarregado por ela.

“Tomai sobre vós meu jugo” (11,29a). O Evangelho de Jesus revelado aos pequenos é o novo “jugo” que não oprime, mas que liberta. O Evangelho está feito, não para esmagar, mas para levantar. Curiosamente, ao reter um termo que já começava a soar pejorativo para o povo, o de “jugo”, Jesus exprime o melhor de seus sentidos: Jesus não sobrecarrega, mas troca conosco sua carga: Ele toma nossos fardos pesados da vida sobre seus ombros e nos dá seu coração manso e humilde (11,29b).

Jesus toma nossas preocupações e dificuldades. Porém, também toma os mesmos caminhos que temos para ascender a Ele, e os faz possível com a força de seu Espírito Santo. Entrega-nos logo a “carga” da missão, do anúncio da Boa Nova do Reino, as tarefas que provêm da vontade amorosa do Pai sobre o mundo, para que lhe ajudemos a concretizá-la na história que, dia a dia, construímos e amassar, assim, o pão com o fermento do Reino (ver 13,33).

Uma vez mais Jesus nos convida a acolhê-lo com simplicidade e, desta vez, com uma bela novidade: Ele nos acolhe primeiro com tudo o que temos e nos submerge na doçura de seu coração. É assim que viveremos sempre unidos a Ele, tendo-o como apoio que dá “repouso” a nosso coração inquieto e como modelo (“aprendei de mim”) que inspira nossa vida.

Meditemos, agora, o texto do Evangelho e tomemos consciência, mediante a acolhida repousada da Palavra, sobre a forma como estamos vivendo e acolhendo à revelação de Deus na pessoa de Jesus: que efeitos têm, em nós, a escuta diária da Palavra, a celebração eucarística, os diversos compromissos que temos com Deus e com os irmãos, no nome de Jesus, e que nos põe em contacto diário com sua presença sacramental em nosso meio.

Não caiamos na atitude dos fariseus, que pretendendo cumprir um montão de preceitos e normas, para conhecer, verdadeiramente, a Deus, esqueciam que a forma mais simples e humilde era a mais eficaz: o saber-nos amados em nossa miséria e compreendidos em nossas crises, porém, sobretudo, acolhidos, no amor de seu adorável Coração.

É na transparência de seu coração onde lemos o Evangelho e recebemos o “jugo” que dá sabedoria a nossas vidas. Só os que conhecem a Jesus, porque o Pai o há revelado por meio de seu Espírito Santo, entendem seu convite: «Venham a mim todos os que estão cansados e eu es darei  descanso».

  • Aprofundemos com os nossos pais na fé

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, doutora da Igreja 

«Tornai-vos meus discípulos» 

Ó Jésus! quando éreis Peregrino na terra dissestes: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração e achareis descanso para as vossas almas». Ó Poderoso Monarca dos Céus, sim, a minha alma acha o descanso ao ver-Vos, sob a forma e a condição de escravo (Fl 2,7), abaixar-Vos ao ponto de lavardes os pés aos apóstolos. Lembro-me então destas palavras que pronunciastes para me ensinardes a praticar a humildade: «Dei-vos o exemplo para que, aquilo que Eu vos fiz, o façais vós também; o discípulo não é mais do que o Mestre… Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes ao praticá-las» (Jo 13,15-17). Compreendo, Senhor, estas palavras saídas do Vosso Coração manso e humilde; quero praticá-las com o auxílio da Vossa graça. Quero abaixar-me, humildemente e submeter a minha vontade à das minhas Irmãs, sem as contradizer em nada e sem procurar saber se elas têm ou não o direito de me dar ordens. Ninguém, ó meu Bem-amado, tinha esse direito em relação a Vós e no entanto obedecestes não apenas à Santíssima Virgem e a S. José, mas também aos Vossos algozes. Agora é na Hóstia que Vos vejo atingir o cúmulo dos Vossos aniquilamentos. Com que humildade, ó Divino Rei de glória, Vos submeteis a todos os Sacerdotes sem fazer qualquer distinção entre os que Vos amam e os que, desgraçadamente, são tíbios e frios no Vosso serviço. Ó meu Bem-amado, que doce e humilde de coração me apareceis sob o véu da branca Hóstia!… «Ó Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao Vosso!» (Mt 11,29).

  • Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração
  1. Segundo o Evangelho de hoje, quem são os “sábios e inteligentes”?

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Quem são os pequenos?

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  • Que relação tem a passagem de hoje com os textos que lemos ontem? 

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Como se conectam?

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Que nova mensagem se agrega?

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  • Que valor simbólico tem o “jugo” na Sagrada Escritura?

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  • Que “jugos” encontramos em nossa sociedade de hoje que esmagam, fatigam, desorientam, convertendo-se em cargas intoleráveis?

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  • Que espera Jesus de nós segundo o Evangelho?

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