PALAVRA DE DEUS

24° Domingo do Tempo Comum ano A (Estudo Bíblico)

Evangelho: Mateus 18,21-35

Tema: Perdoar como quem foi alcançado pela misericórdia

“Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”
(Mt 18,33)


1. CONTEXTUALIZANDO O EVANGELHO

O Evangelho deste 24º Domingo do Tempo Comum está situado no capítulo 18 de Mateus, conhecido como “Discurso Eclesial”, porque apresenta diversos ensinamentos de Jesus sobre a vida da comunidade dos seus discípulos.

Neste capítulo, Jesus fala sobre os pequenos, o cuidado com os irmãos, a correção fraterna, a reconciliação e a vida comunitária.

É justamente nesse contexto que Pedro pergunta:

“Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?”

Pedro parece estar sendo generoso. Na tradição judaica, havia limites estabelecidos para o perdão. Sete vezes já poderia parecer uma grande disposição para perdoar.

Mas Jesus desmonta completamente essa lógica:

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”

Jesus não está propondo uma nova matemática do perdão. Ele não está dizendo que devemos perdoar 490 vezes e, depois disso, podemos parar.

A expressão significa perdão sem contabilidade.

O discípulo de Jesus não deve perguntar:
“Quantas vezes ainda preciso perdoar?”

Deve perguntar:

“Como posso viver a misericórdia que eu mesmo recebi de Deus?”


2. O PROBLEMA DE PEDRO: QUEREMOS COLOCAR LIMITES NO PERDÃO

A pergunta de Pedro revela algo profundamente humano.

Nós gostamos de contabilizar.

Contabilizamos o que fizeram conosco:

  • “Eu já perdoei uma vez.”
  • “Já dei outra oportunidade.”
  • “Ele fez isso comigo novamente.”
  • “Eu não vou aceitar de novo.”
  • “Agora chegou ao meu limite.”

Pedro quer saber qual é o limite da obrigação de perdoar.

Jesus, porém, mostra que o perdão cristão não pode ser reduzido a uma obrigação matemática.

A pergunta de Pedro ainda está presa à lógica:

“Até onde eu sou obrigado a perdoar?”

Jesus apresenta outra lógica:

“Quem experimentou a misericórdia de Deus não pode viver fazendo contas da misericórdia que oferece aos outros.”

Aqui está uma das grandes mensagens do Evangelho:

O perdão cristão nasce da experiência de ter sido perdoado.

Não começamos olhando para o tamanho da ofensa do outro.

Começamos olhando para o tamanho da misericórdia que Deus teve conosco.


3. “SETENTA VEZES SETE”: O PERDÃO SEM CONTABILIDADE

A resposta de Jesus é deliberadamente exagerada.

“Setenta vezes sete” não significa 490.

É uma maneira de dizer:

sempre.

O perdão cristão não funciona como uma conta bancária.

Não dizemos:

“Deus já me perdoou tantas vezes, mas agora acabou.”

Também não deveríamos transformar o relacionamento com o irmão em uma planilha de erros:

“Você já fez isso três vezes.”
“Eu já perdoei duas.”
“Esta é a última oportunidade.”

Jesus quer romper a contabilidade moral.

Isso não significa negar a gravidade do pecado, fingir que nada aconteceu ou permitir que alguém continue praticando o mal.

Perdoar não significa chamar o mal de bem.

Perdoar significa não permitir que o mal recebido determine para sempre o nosso coração.


4. A PALAVRA “PERDOAR”: DEIXAR IR

O verbo grego relacionado ao perdão é aphíēmi, que pode significar deixar ir, soltar, libertar, deixar partir.

Essa palavra ajuda a compreender profundamente a parábola.

O perdão é apresentado por Jesus como um movimento de libertação.

Quem não perdoa pode permanecer preso àquilo que sofreu.

A ofensa aconteceu no passado, mas continua ocupando espaço no presente.

A pessoa revive:

  • a palavra que ouviu;
  • a injustiça que sofreu;
  • a humilhação;
  • a traição;
  • a decepção;
  • a mágoa.

A pessoa que feriu pode até ter seguido sua vida, mas aquele que guarda ressentimento continua carregando a prisão dentro de si.

Por isso, o perdão não é apenas libertação do outro.

É também libertação de nós mesmos.


5. A PARÁBOLA DAS DUAS DÍVIDAS

Jesus conta então uma parábola.

Podemos dividi-la em três momentos.

Primeiro momento:

O servo diante do rei — Mt 18,23-27

Um servo possui uma dívida gigantesca.

Mateus fala em dez mil talentos.

Trata-se de uma quantia tão absurda que, na prática, é impossível de pagar.

O servo está diante de uma dívida impagável.

Ele pede:

“Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo.”

O rei, entretanto, faz algo que ultrapassa completamente a lógica econômica:

“Teve compaixão dele, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.”

Aqui está o coração da parábola.

O rei não perdoa porque a dívida era pequena.

Perdoa porque teve compaixão.


6. A COMPAIXÃO: O CORAÇÃO DA PARÁBOLA

Mateus utiliza o verbo grego splanchnízomai, relacionado às entranhas, ao íntimo, ao profundo da pessoa.

É uma palavra usada no Evangelho de Mateus para expressar a compaixão de Jesus diante das necessidades humanas.

Por exemplo:

  • Mt 9,36 — Jesus vê as multidões e se compadece;
  • Mt 14,14 — Jesus se compadece dos doentes;
  • Mt 15,32 — Jesus se compadece da multidão;
  • Mt 20,34 — Jesus se compadece dos cegos.

Portanto, o perdão apresentado na parábola não nasce de um cálculo.

Nasce da compaixão.

O rei olha para aquele homem e não vê apenas uma dívida.

Vê uma pessoa.

É isso que Deus faz conosco.

Deus não olha para nós apenas como uma lista de erros.

Ele olha para nós com misericórdia.


7. A SEGUNDA CENA: O SERVO DIANTE DO COMPANHEIRO

Depois de receber um perdão gigantesco, aquele mesmo servo encontra um companheiro que lhe deve cem denários.

A diferença entre as duas dívidas é propositalmente absurda.

De um lado:

dez mil talentos.

Do outro:

cem denários.

A comparação quer provocar o leitor.

O servo acaba de receber uma misericórdia incalculável.

Mas, diante de uma dívida infinitamente menor, ele não demonstra misericórdia.

Agarra o companheiro e exige:

“Paga o que me deves!”

O companheiro pede paciência.

Mas o servo se recusa.

E o coloca na prisão.


8. O GRANDE CONTRASTE

A parábola apresenta uma contradição:

Ele foi perdoado, mas não aprendeu a perdoar.

Recebeu misericórdia, mas não se tornou misericordioso.

Foi libertado de uma dívida impagável, mas escolheu aprisionar o outro por uma dívida pequena.

Aqui está uma pergunta fundamental para nossa vida espiritual:

A misericórdia que recebo de Deus está transformando a maneira como trato os outros?

Porque podemos frequentar a Igreja, participar da Eucaristia, rezar, pedir perdão a Deus e, ao mesmo tempo, continuar carregando um coração incapaz de perdoar.

Podemos querer receber misericórdia sem nos tornarmos misericordiosos.

E é exatamente isso que Jesus denuncia.


9. “NÃO DEVIAS TAMBÉM TU TER COMPAIXÃO?”

Esta é talvez a frase central da parábola:

“Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”

Percebamos a lógica.

O rei não diz simplesmente:

“Você deveria perdoar porque é uma pessoa boa.”

Ele diz:

“Eu tive compaixão de você. Você também deveria ter compaixão.”

A misericórdia recebida gera uma responsabilidade.

Quem experimenta a misericórdia de Deus é chamado a reproduzir essa misericórdia nas relações humanas.

Por isso, perdoar não é simplesmente um ato de boa vontade.

É uma necessidade evangélica.


10. PERDOAR NÃO É APENAS UMA OPÇÃO

O Evangelho é muito exigente.

Jesus não apresenta o perdão como uma qualidade opcional para pessoas especialmente bondosas.

O perdão faz parte do próprio caminho do discípulo.

Há uma razão profunda para isso:

Não podemos pedir a Deus aquilo que nos recusamos absolutamente a oferecer ao irmão.

Na oração do Pai-Nosso, rezamos:

“Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”

Essa oração coloca uma relação direta entre:

receber perdão
e
oferecer perdão.

Por isso, o cristão precisa constantemente perguntar:

“Estou permitindo que a misericórdia de Deus transforme meu coração?”


11. O PERDÃO DEVE SER “DE CORAÇÃO”

Jesus termina a parábola com uma aplicação muito forte:

“É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.”

Jesus não fala apenas de um perdão exterior.

Não se trata de dizer:

“Eu perdoo.”

Enquanto interiormente continuamos alimentando o ressentimento.

O perdão cristão precisa alcançar o coração.

Isso não significa que a ferida desapareça imediatamente.

Nem sempre conseguimos esquecer.

Nem sempre conseguimos reconstruir imediatamente uma relação.

Mas podemos começar a entregar a Deus aquilo que nos aprisiona.

O perdão pode ser um processo.

Às vezes precisamos rezar:

“Senhor, eu ainda estou ferido. Ainda dói. Mas não quero viver alimentando esse ressentimento. Começa a libertar meu coração.”

Isso também é caminho de perdão.


12. PERDOAR NÃO SIGNIFICA PERMITIR NOVAS AGRESSÕES

É importante fazer uma distinção.

Perdoar não significa aceitar abusos.

Perdoar não significa:

  • permitir que alguém continue nos violentando;
  • permanecer em uma situação de injustiça;
  • abandonar limites necessários;
  • negar a responsabilidade de quem praticou o mal;
  • impedir a busca legítima pela justiça.

O perdão cristão não elimina a verdade nem a justiça.

Ele elimina a vingança como princípio do coração.

É possível perdoar e estabelecer limites.

É possível perdoar e exigir mudança.

É possível perdoar e, em determinadas situações, manter distância.

O que o Evangelho combate é o desejo de que o mal recebido continue governando nosso coração.


13. O RESSENTIMENTO NÃO FERE APENAS UMA PESSOA

A parábola apresenta um detalhe muito importante.

Os outros servos ficam profundamente tristes ao perceber o que aconteceu.

Isso mostra que a falta de perdão não é apenas um problema entre duas pessoas.

A comunidade inteira sofre.

Quando existe:

  • ressentimento;
  • fofoca;
  • vingança;
  • rivalidade;
  • mágoa;
  • divisão;
  • falta de reconciliação;

o corpo comunitário inteiro é afetado.

Uma comunidade cristã não pode ser construída apenas sobre atividades, pastorais, reuniões e celebrações.

Ela precisa ser construída sobre relações reconciliadas.


14. A LÓGICA HUMANA E A LÓGICA DO EVANGELHO

Podemos resumir o contraste da parábola:

Lógica humanaLógica do Evangelho
“Quanto eu já perdoei?”“Quanto eu já recebi de misericórdia?”
ContabilidadeGratuidade
VingançaMisericórdia
“Você me deve.”“Eu também sou devedor.”
PrisãoLibertação
RessentimentoReconciliação
MerecimentoGraça
Coração endurecidoCoração transformado

Jesus nos convida a abandonar a primeira lógica para entrar na segunda.


15. TODOS SOMOS DEVEDORES

Existe uma verdade espiritual que precisamos reconhecer:

Diante de Deus, todos somos devedores.

Todos necessitamos de misericórdia.

Não existe pessoa que possa dizer:

“Eu não preciso ser perdoado.”

Quando reconhecemos nossa própria fragilidade, fica mais difícil olhar para o irmão apenas como alguém que errou.

Começamos a perceber:

“Eu também sou alguém que precisa da misericórdia de Deus.”

Esse reconhecimento não diminui o pecado do outro.

Mas impede que nos coloquemos na posição de quem nunca precisa ser perdoado.


16. A CRUZ É O MODELO SUPREMO DO PERDÃO

O Evangelho de Mateus nos conduz para uma compreensão cada vez mais profunda da missão de Jesus.

O perdão não é apenas uma teoria.

Ele será vivido concretamente na Cruz.

Jesus enfrentará a violência, a rejeição e a injustiça sem responder com vingança.

Na Cruz, o amor de Deus revela que a violência não terá a última palavra.

Por isso, perdoar é também assumir o caminho da Cruz.

Não significa procurar sofrimento.

Significa não devolver o mal com o mal.

Significa romper a cadeia da violência.

Alguém precisa interromper a lógica:

“Ele me feriu, então eu o firo.”

O discípulo de Jesus responde:

“O mal não continuará através de mim.”


17. O QUE O EVANGELHO QUER TRANSFORMAR EM NÓS?

O Evangelho deste domingo não quer apenas nos ensinar uma regra:

“Perdoe.”

Ele quer transformar a pergunta que fazemos.

Em vez de:

“Por que eu deveria perdoar essa pessoa?”

Jesus nos conduz a outra pergunta:

“Como posso não perdoar depois de experimentar tanta misericórdia de Deus?”

O centro não é a capacidade humana de perdoar.

O centro é a misericórdia de Deus que transforma o coração humano.

Por isso, quando não conseguimos perdoar, a primeira atitude não precisa ser simplesmente:

“Eu tenho que conseguir.”

Pode ser:

“Senhor, dá-me a misericórdia que ainda não tenho.”


18. PARA A REFLEXÃO PESSOAL

1. Existe alguém que ainda estou mantendo preso dentro do meu coração?

Não apenas alguém que me fez mal, mas alguém cuja lembrança ainda provoca ressentimento, raiva ou desejo de vingança.

2. Quantas vezes eu já pedi a Deus que me perdoasse?

E quantas vezes coloquei limites para oferecer perdão?

3. Tenho consciência da minha própria dívida diante de Deus?

Ou considero os pecados dos outros muito maiores do que os meus?

4. Já confundi perdão com esquecimento?

Perdoar não significa apagar a memória, mas deixar de permitir que a ferida determine minhas atitudes.

5. Minha maneira de tratar as pessoas revela a misericórdia que recebi de Deus?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.


19. PARA A REFLEXÃO COMUNITÁRIA

Pode-se conversar em pequenos grupos a partir das seguintes perguntas:

1. Por que temos tanta dificuldade de perdoar?

2. O que significa, concretamente, “perdoar de coração”?

3. Como uma comunidade sofre quando seus membros alimentam ressentimentos?

4. Qual é a diferença entre perdão, reconciliação, justiça e permitir novamente uma situação de agressão?

5. O que muda em nossas relações quando reconhecemos que também somos necessitados da misericórdia de Deus?

6. Existe alguma situação de nossa comunidade que precisa de reconciliação?


20. UMA CHAVE PARA GUARDAR NO CORAÇÃO

Podemos resumir o Evangelho deste domingo em uma frase:

“Eu perdoo não porque a ofensa foi pequena, mas porque a misericórdia que recebi de Deus é infinitamente maior.”

O cristão não perdoa porque o outro merece.

Perdoa porque Deus foi misericordioso conosco.

Não perdoamos para ganhar pontos diante de Deus.

Perdoamos para não continuar presos ao mal.

Perdoamos para que a ferida não se transforme em veneno.

Perdoamos para que a violência não continue encontrando morada em nós.

Perdoamos porque queremos ser discípulos de Jesus.


21. CONCLUSÃO: A MISERICÓRDIA PRECISA CONTINUAR

O rei da parábola perdoa uma dívida impagável.

O problema não está na misericórdia recebida.

O problema está em interromper a misericórdia.

O servo recebeu gratuitamente, mas não foi capaz de oferecer gratuitamente.

É exatamente aqui que Jesus nos coloca diante de uma decisão.

A misericórdia de Deus chegou até mim.

E agora?

Ela vai parar em mim?

Ou vai continuar através de mim?

Essa é a grande questão do Evangelho.

Deus nos perdoa para que nos tornemos pessoas capazes de perdoar.

Deus nos liberta para que aprendamos a libertar.

Deus nos trata com misericórdia para que sejamos misericordiosos.

Por isso, o perdão cristão não é simplesmente esquecer uma ofensa.

É permitir que a misericórdia de Deus alcance uma ferida, transforme nosso coração e interrompa em nós a cadeia da vingança.

“Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”

Essa pergunta permanece ecoando.

Não apenas para o servo da parábola.

Para nós.

Para esta semana:

Escolha uma pessoa, situação ou ferida que ainda pesa no coração e coloque-a diante de Deus.

Não comece dizendo:

“Eu consigo perdoar.”

Comece dizendo:

“Senhor, eu reconheço que também fui perdoado. Dá-me um coração misericordioso.”

E peça a graça de dar um primeiro passo.

Porque, no Evangelho, perdoar não é perder. É deixar ir. É libertar. É permitir que a misericórdia tenha a última palavra.

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