6° Domingo do Tempo Comum (Estudo Bíblico ano A)
ESTUTO BÍBLICO DO EVANGELHO DE Mateus 5,17-37
O Contexto do Texto:
Evangelho proclamado neste domingo, Mateus 5,17-37, faz parte do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, um dos momentos mais solenes e programáticos da missão de Jesus. Para compreendê-lo bem, é fundamental situá-lo no tempo, no lugar, na circunstância e no público a quem foi dirigido.
Este texto pertence ao Evangelho segundo Mateus e encontra-se logo no início da vida pública de Jesus.
Jesus profere este sermão na Galileia, região marginalizada e distante do centro religioso de Jerusalém. A Galileia era uma terra marcada pela mistura de culturas, pela pobreza, pelo trabalho duro dos camponeses e pescadores e por uma religiosidade simples, muitas vezes desprezada pelas elites religiosas. É ali que Jesus inicia sua pregação, anunciando que o Reino de Deus está próximo.
O cenário é uma montanha. Mateus faz questão de situar Jesus no alto do monte porque quer evocar conscientemente o Monte Sinai, onde Moisés recebeu a Lei. Ao subir à montanha e sentar-se para ensinar, Jesus assume uma posição simbólica forte: Ele se apresenta como o novo legislador, não no sentido de substituir Moisés, mas de revelar o sentido pleno da Lei dada por Deus.
A circunstância imediata do sermão é o crescimento da fama de Jesus. Após chamar os primeiros discípulos e percorrer a Galileia curando doentes, expulsando demônios e anunciando o Reino, grandes multidões começam a segui-lo. Diante disso, Jesus sobe ao monte para formar seus discípulos, oferecendo-lhes os fundamentos do modo de viver próprio do Reino de Deus.
É importante notar para quem Jesus fala. O texto diz claramente que Ele se dirige primeiramente aos discípulos. São eles os destinatários diretos do Sermão da Montanha. A multidão está presente, escuta, observa, mas o ensinamento é direcionado àqueles que decidiram segui-lo mais de perto. Ou seja, não se trata de uma moral genérica para qualquer pessoa, mas de um caminho exigente para quem escolheu ser discípulo.
Ao mesmo tempo, Mateus escreve este Evangelho para uma comunidade cristã formada majoritariamente por judeus convertidos, que continuavam profundamente ligados à Lei de Moisés. Essa comunidade vivia uma tensão concreta: como seguir Jesus sem trair a tradição recebida? Como conciliar a fé em Cristo com a observância da Lei? É nesse contexto que Mateus coloca nos lábios de Jesus a afirmação decisiva: “Não vim abolir a Lei, mas levá-la à plenitude”.
Portanto, o sermão nasce de uma necessidade real: formar discípulos capazes de viver a fé não como simples obediência externa, mas como conversão interior. Jesus fala a pessoas que conhecem os mandamentos, mas que correm o risco de viver uma religião reduzida a normas, ritos e aparências. Ele quer libertá-las do legalismo e conduzi-las ao coração da vontade de Deus.
Quando Jesus reinterpretou mandamentos como “não matarás”, “não cometerás adultério” ou “não jurarás falso”, Ele o fez num contexto em que a religião havia se tornado, em muitos casos, um sistema de controle e exclusão. Os escribas e fariseus eram modelos de observância externa, mas frequentemente distantes da misericórdia, da justiça e da verdade. Jesus, então, proclama uma justiça maior, que nasce do coração transformado e se manifesta nas relações.
Em resumo, este sermão foi pronunciado:
– na Galileia, região simples e marginal;
– sobre uma montanha, em clara referência ao Sinai;
– no início da missão de Jesus;
– num momento de formação dos discípulos;
– diante de uma comunidade marcada pela tensão entre Lei e fé em Cristo.
Jesus fala a discípulos chamados a viver uma fé adulta, coerente e profunda. Não é um discurso para impressionar a multidão, mas para fundar uma nova maneira de viver, baseada no amor, na verdade, na reconciliação e na fidelidade a Deus. O Sermão da Montanha é, portanto, o retrato do coração do Reino e o espelho no qual todo discípulo é chamado a se reconhecer.
Refletindo o Evangelho (Mt 5,17-37)
O Evangelho deste domingo, retirado do Evangelho segundo Mateus 5,17-37, coloca-nos diante do coração da proposta de Jesus. Ele fala a discípulos que conhecem a Lei, que cresceram ouvindo os mandamentos, que aprenderam desde cedo o que é permitido e o que é proibido. No entanto, Jesus provoca uma mudança decisiva: não basta cumprir a Lei; é preciso deixar-se transformar por ela.
Quando Jesus afirma que não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude, Ele não está defendendo um rigor maior nem uma religião mais pesada. Pelo contrário, está libertando a Lei de um uso estreito, legalista e frio. A Lei, quando reduzida a normas externas, pode ser cumprida sem amor, sem conversão e sem compromisso real com Deus e com os irmãos. Jesus devolve à Lei sua alma: o amor.
Por isso, Ele afirma que a justiça dos discípulos deve ser maior do que a dos escribas e fariseus. Não se trata de fazer mais coisas, mas de viver de outra maneira. Os fariseus cumpriam a letra; Jesus pede o coração. Eles se preocupavam com o exterior; Jesus olha para o interior. Eles buscavam segurança nas regras; Jesus convida à confiança e à liberdade dos filhos de Deus.
Ao reinterpretar os mandamentos, Jesus mostra que o pecado não começa no gesto extremo, mas nas pequenas rupturas do amor. Matar não é apenas tirar a vida física de alguém, mas também ferir com palavras, desprezar, humilhar, excluir, guardar rancor. Antes de oferecer culto a Deus, é preciso reconciliar-se com o irmão, porque não existe verdadeira comunhão com Deus onde há divisão, ódio ou indiferença. A fé que não gera reconciliação torna-se vazia.
Da mesma forma, Jesus fala do adultério como algo que nasce no coração. Ele nos convida a cuidar do mundo interior, dos desejos, dos olhares, das intenções. Não se trata de medo do pecado, mas de zelo pela dignidade das relações, pelo respeito ao outro e por nós mesmos. A linguagem forte usada por Jesus indica a seriedade do combate espiritual: tudo o que nos afasta do amor precisa ser enfrentado com decisão.
Quando Jesus aborda o divórcio e os juramentos, Ele revela o mesmo princípio. Deus não quer relações descartáveis nem palavras vazias. O Reino de Deus se constrói com fidelidade, verdade e coerência. Onde é preciso jurar para ser acreditado, algo já está quebrado. O discípulo de Jesus é chamado a viver de tal modo que sua palavra simples seja suficiente, porque brota de um coração verdadeiro.
Este Evangelho nos recorda que a proposta cristã não é uma moral mínima para evitar o pecado, mas um caminho alto de humanidade, de santidade e de plenitude. Jesus não nos chama à mediocridade espiritual, mas a uma vida inteira orientada pelo amor, pela verdade e pela reconciliação. Ele não quer apenas pessoas corretas, mas corações convertidos.
Pistas para viver este Evangelho no cotidiano.
Primeira pista: examinar não apenas os atos, mas as intenções. Perguntar-se com honestidade de onde nascem minhas palavras, reações e escolhas.
Segunda pista: fazer da reconciliação uma prioridade. Não adiar pedidos de perdão, não normalizar conflitos, não se acostumar com relações quebradas.
Terceira pista: cuidar do coração. Vigiar os pensamentos, os desejos e os olhares, lembrando que o interior molda a vida exterior.
Quarta pista: viver a verdade nas pequenas coisas. Evitar meias verdades, promessas vazias e palavras que não correspondem às ações.
Quinta pista: transformar a fé em compromisso diário. Não viver apenas de práticas religiosas, mas deixar que o Evangelho oriente as relações familiares, comunitárias e sociais.
Viver este Evangelho é aceitar o convite de Jesus a ir além do mínimo, a não se contentar com uma fé de aparência, mas a permitir que Deus refaça o coração. É escolher, todos os dias, não apenas cumprir a Lei, mas viver o amor que dá sentido à Lei e conduz ao Reino.
Aprofundando:
OS QUATRO EXEMPLOS DE JESUS (APLICAÇÃO PRÁTICA)
1º Exemplo – “Não matarás” → CUIDADO COM O CORAÇÃO FERIDO
Texto: Mt 5,21-26
Jesus amplia o mandamento:
- Matar não é só tirar a vida física;
- É também ferir com palavras, humilhar, excluir, guardar rancor.
Aplicação prática:
- Tenho ferido alguém com palavras duras?
- Tenho ignorado ou desprezado alguém?
- Evito a reconciliação mesmo podendo fazê-la?
Regra do Reino:
Antes de rezar, reconciliar.
Antes do culto, restaurar relações.
2º Exemplo – “Não cometerás adultério” → PURIFICAR OS DESEJOS
Texto: Mt 5,27-30
Jesus vai à raiz:
- O pecado começa no olhar,
- nasce no desejo desordenado,
- cresce quando não é enfrentado.
As imagens fortes (“arrancar o olho”, “cortar a mão”) significam:
Cortar, com decisão, tudo aquilo que nos afasta de Deus.
Aplicação prática:
- O que tenho alimentado no meu coração?
- Que conteúdos, hábitos ou relações me afastam da pureza interior?
- O que preciso “cortar” hoje?
3º Exemplo – O divórcio → FIDELIDADE AO PROJETO DE DEUS
Texto: Mt 5,31-32
Jesus denuncia uma lei injusta que favorecia apenas o homem.
Ele aponta para o plano original de Deus:
- Relações baseadas em amor, respeito e fidelidade;
- Não no descarte, nem na dureza do coração.
Aplicação prática:
- Como cuido das minhas relações?
- Tenho facilidade em “descartar” pessoas?
- Busco o diálogo ou fujo dos conflitos?
4º Exemplo – Os juramentos → VIVER NA VERDADE
Texto: Mt 5,33-37
No Reino:
- Quem vive na verdade não precisa jurar;
- A palavra deve ser clara, simples e confiável.
Aplicação prática:
- Minha palavra é digna de confiança?
- Uso meias verdades ou desculpas?
- Meu “sim” é realmente sim?
Regra do Reino:
Uma vida reta dispensa juramentos.
5. SÍNTESE DO ENSINAMENTO DE JESUS
| Antiga lógica | Lógica do Reino |
| Cumprir regras | Transformar o coração |
| Lei externa | Conversão interior |
| Medo do castigo | Amor que gera vida |
| Aparência religiosa | Verdade vivida |
Jesus não quer cumpridores de normas,
mas discípulos transformados.

