5° Domingo do Tempo Comum (Estudo Bíblico – Ano A)
Introdução
A página ante a qual nos põe, neste dia, a liturgia dominical, continua e completa a grande abertura do Sermão da Montanha, a qual lemos domingo passado na proclamação das Bem aventuranças (Mt 5,1-12). Como no texto anterior, a atenção de Jesus segue posta sobre seus discípulos, seus “ouvintes”: “Vós sois…” (Mt 5:13-16).
Em torno dos símbolos do “sal”, da “luz” e da imagem bem significativa de “uma cidade situada no topo de uma montanha”, Jesus dá um passo adiante na proposta feita nas bem-aventuranças, a força motriz do discipulado – o “seguimento” do Reino – no Evangelho de Mateus.
Duas passagens evangélicas complementares
Consideremos que o Evangelho de hoje não se compreende a fundo sem o das Bem-aventuranças e que a proclamação destas cairia no vazio sem o evangelho de hoje. Ambas as passagens referem-se mutuamente.
Poderíamos dizer brevemente que as oito bem-aventuranças que descrevem a vida do discípulo no âmbito “do reino e da justiça”, poderiam ficar numa experiência intimista de Deus se não escutamos o Evangelho de hoje, o qual nos convida a sair de nós mesmos e expressar a novidade de vida que levamos dentro de nós – o acontecer do Reino do Pai por meio do discipulado – irradiando e transformando profeticamente nosso entorno. Ao mesmo tempo, o serviço eclesial supõe uma experiência prévia e profunda do Deus das bem-aventuranças.
O itinerário lógico é: das bem-aventuranças do Reino à cidadania do Reino, isto é, pessoas e sociedade nova ao modo de uma nova família que renasce a partir do evangelho e que reflete em seus projetos, em sua cultura, em seu agir, em sua ética, no modo de ser do “Pai que está nos céus”.
Notemos que o acento de compromisso, de profetismo e de evangelização que caracteriza o evangelho de hoje, já havia sido introduzido nas palavras finais das bem-aventuranças, onde Jesus disse “da mesma maneira perseguiram os profetas anteriores a vós” (5,12). Os discípulos – os “bem-aventurados” – são chamados expressamente “profetas”. Em que consiste dita missão profética?
Uma rota para a exploração da passagem Evangélica
Pelo mencionado anteriormente, vale a pena que nos detenhamos um pouco para examinar o contexto de maneira que estejamos preparados para desfrutar com maior prazer e proveito esta bela página do Evangelho. Em seguida veremos o modo como Jesus expõe sua formação e, finalmente, mergulharemos no tecido de palavras e frases, atribuindo-as peso uma por uma.
Então o daremos passagem, como estamos acostumados a fazer na Lectio Divina, à releitura do Evangelho em nossos novos contextos existenciais e comunitários (a seção: “Para cultivar a semente da Palavra na vida”) , para que brote a oração e deste diálogo amoroso as opções de vida segundo o Espírito do Senhor.
1. O texto no contexto
1.1. O Contexto: Das bem-aventuranças do Reino à cidadania do Reino
A última bem-aventurança, que foi a da perseguição (“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça”, 5,10), descreveu os conflitos a que pode ver-se exposto um discípulo de Jesus por causa de sua opção: posto que por seu estilo de vida ele é diferente das pessoas comuns da sociedade, já que vive e defende outros valores, é, em definitivamente, uma pessoa que não se encaixa facilmente nos moldes fabricados de seu ambiente (família, grupo de amigos, colegas de trabalho, etc.).
A pressão externa a que se vê submetida uma pessoa que assume seriamente as bem-aventuranças começa quase sempre com a crítica, a difamação e a acusação: “quando vos injuriarem e disserem todo mal contra vós” (Mt 5,11).
Mas, precisamente nessas rejeições que se padecem se verifica claramente que alguém é um verdadeiro profeta. Os profetas nunca foram do agrado das pessoas que não tinham interesse em um novo estilo de vida. Isto não é, de nenhuma maneira, uma experiência agradável. Não muito melhor que todo mundo aceite e valorize a alguém sempre e em toda circunstância? Por um lado é interessante saber que temos algo novo que dizer que oferecer a todos: um discípulo é gente de “alternativa”. Mas, por outro , custa aceitar que por isso tenhamos que viver em conflito conosco mesmos para sustentar as nossas opções e ainda mais com os outros, quando nós criticamos.
Diante disso geralmente se pode tomar uma destas três atitudes:
- Deixar para trás e adaptar-se ao ambiente hostil de modo que nos aceitem, evitando o conflito;
- Fazer um “gueto”, mantendo relações exclusivas com aquelas pessoas que partilham com nossa maneira de pensar e de viver, ignorando aos outros;
- Encerrar-se em uma bolha de vidro.
O primeiro caso seria lastimável: indica abertamente uma perca de identidade cristã. O segundo é lamentável: é negação da tarefa missionaria. O terceiro pareceria cômico, porém já aconteceu e é tão negativo quanto o primeiro caso. A quem vive neste conflito por viver as benaventuranças do Reino e cai na inércia espiritual, na resistência interna para dar testemunho, no pesar de assumir seu compromisso profético pela sociedade em que vive, Jesus lança este forte imperativo: “Brille vossa luz diante dos homens” (5,12a).
1.2. O texto do ensinamento de Jesus
Leiamos atentamente o texto de Mateus 5,13-16. Façamos uma primeira abordagem ao texto sublinhando algumas de suas peculiaridades.
(1) A ideia central
Todo o ensinamento de Jesus vai se desenvolvendo gradualmente , como uma cascata de imagens restantes que repousa no imperativo: “Brilhe vossa luz diante dos homens!” (5,12a) .
A idéia é que as “boas obras” são “luz”. Jesus exorta seu discípulo a um “fazer” boas ações. Mas esse “fazer” deve partir da consciência de seu “ser”, de uma identidade que sintetiza na expressão repetida duas vezes: “Vós sois…” (5,13a.14a). Se não, não é “luz”.
(2) Observe e detenha-se nas imagens
Jesus apresenta três imagens muito significativas para o auditório que está sobre a montanha e tem ante seus olhos a bela paisagem do lago da Galiléia. Desde ali parece apreciar-se no amplo horizonte, por um lado as salinas de Genesaré, por outro, sobressaindo nas alturas das Colinas de Golã, a antiga cidade de Hippos (que pertence a Decápole que está nos arredores do lago), e em torno ao lago as casas dos pescadores.
As três imagens simples e diárias para esse público Galileu são:
- O Sal (“Vós sois o sal da terra”)
- A Luz (“Vós sois a luz do mundo… não se acende uma lâmpada para por embaixo do alqueire”)
- Cidade visível no alto de uma montanha (“não se pode esconder uma cidade situada no cume de…”)
As imagens da luz e da cidade estão intimamente ligadas, dando também um caráter de comunidade ao símbolo da luz.
(3) Observar os contrastes
Note-se que na medida em que Jesus vai expondo e decifrando para seus discípulos esta rica linguagem de imagens, os ouvintes devem refletir calmamente observar e tirar conclusões a partir dos absurdos: (a) “Se o sal perde o sabor… já não serve”; (b) “Não se pode esconder uma cidade …”; (b) “Não se acende uma lâmpada para…”.
No final se expressa com força o positivo: “Brilhe vossa luz, para que vejam… e glorifiquem…”. Temos, então, quatro frases sintaticamente diferentes que vão convidando ao discernimento e à tomada de decisões responsáveis do discípulo do Senhor.
(4) Note-se a repetição de “vós” (ou “vocês”)
O texto começa com um “vós” que depois se repete duas vezes: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo”. Logo se torna em “vossa”, que aparece duas vezes: “Brilhe vossa luz… vossas boas obras”. Trata-se, portanto, de uma interpelação direta a cada um de nós (como pessoa e comunidade) que estamos ouvindo a palavra de Jesus. Estes “vós” são precisamente aqueles a quem se lhes acabam de proclamar as bem-aventuranças, especialmente a última. Lembre-se que as bem-aventuranças estão na terceira pessoa do plural (“eles”): “Bem-aventurados os pobres, os mansos…” (5:3-10).
A última – a bem-aventurança da perseguição – ao contrário passa à segunda plural (“vós”): “Bem-aventurados sereis (vós), quando os insultarem , vos perseguirem… assim foi como trataram aos profetas antes de vós” (5,11-12). Essa passagem ao “vós” e sua relação com a “perseguição” é importante. Se é “sal” e “luz” em um contexto conflituoso, ali onde se sofre pela fé. Não se trata de um evangelho fácil de viver.
Agora leiamos com maior atenção cada uma das palavras do evangelho, saboreando e deixando-se levar pela pedagogia do Mestre Jesus que põe diante de nossos olhos imagens, leva-nos a decifrá-las através de confrontos e deduções, e leva até a frase mais importante que está no imperativo no final.
2. Uma lição em imágens: três símbolos e situações para refletir e reconsiderar
2.1. O discípulo de Jesus: “Sal da Terra” (5,13)
(1) A imagem do “Sal”
Entenderemos o que significa este símbolo se repassamos rapidamente que funcões e que virtudes têm o sal (sal de cozinha, é claro):
- O sal, tanto hoje como no mundo da Bíblia, é responsável por:
- dar sabor suave ao insosso: Já experimentou o arroz sem sal? E como fica a sopa?;
- evitar a putrefação: onde não há geladeira, como de fato acontecia nos tempos antigos, o sal era usado para conservar as carnes.
- As virtudes de sal são as seguintes:
- dissolvem-se na comida, se é integrado a ele, mas, apesar disso não perde seu efeito, já não se ver, porém se sente;
- distribui-se por todas as partes, uma simples colherinha salga tudo.
- Porém, também notemos que se é dissolvido ou se distribua, o sal permanece sempre sal, mantém sempre sua identidade, seu valor enquanto tal e sua eficácia.
(2) A lição para o discipulado
Eis aí descrita a tarefa do discípulo das bem-aventuranças no mundo, seja homem ou mulher, particularmente ante as pressões do ambiente que trata de absorvê-lo: este se integra com eles mas sem perder sua identidade, sem abrir mão de seus valores, sem perder a liderança.
Um discípulo, esteja onde estiver, deve manter o modo de vida que ele aprendeu de seu Pai Deus e, ao mesmo tempo, fazer de sua presença, palavras e atitudes, gestos de valor e significado para os demais.
Este tipo de presença é profética e transformadora, porque em um mundo que, com frequência, se encontra tanta gente em busca de “sentido”, o discípulo oferece – no espírito das bem-aventuranças – uma proposta de vida em Jesus que dá sabor à existência (permitindo compreeender os sofrimentos) e evita a corrupção no mundo, ou seja, um destino final absurdo.
2.2. O discípulo de Jesus: “Luz do Mundo”(5:14a)
O que expressa o símbolo do sal para o discipulado dá a sensação de que está faltando alguma coisa importante. De fato, o símbolo, como ocorre com toda comparação, é incompleto e poderia dar a impressão de que o chamado a “ser sal” seria um convite a esconder-se ou camuflar-se no meio da massa. Não! A discrição deve estar unida ao impacto. Assim, é importante a imagem seguinte: a “luz”.
No ensino de hoje a luz aparece em dois contextos: primeiro “luz do mundo”, a qual leva a pensar na luz do sol, na luz da criação inicial, mas, em seguida, aparece o contexto que é o mais modesto: uma “lâmpada” dentro de uma casa. Sabemos que uma pequena lâmpada é feita para iluminar os locais escuros. A primeira menção não precisa de muito comentário, o segundo sim.
(1) A imagem da “Luz”
Ambientémo-nos um pouco. Nos tempos de Jesus as casas das pessoas simples, que era a maioria, tinha um só quarto (claro que também havia outras construções mais complexas). Neste reduzido espaço os membros da família dormiam, cozinhavam, guardavam seus objetos de valor, colocavam tudo. Nessas casas havia poucas ou nenhuma janela. Necessitava de boa luz não só para a noite, mas até mesmo para o dia.
A iluminação provinha das lâmpadas de azeite, muitas vezes artesanais, em cerâmica, e se tinha, geralmente, uma só para iluminar todo o quarto (na prática, toda a casa). Vejamos mais: o candelabro, no qual se apoiava a lâmpada, devia situar-se, evidentemente, em uma posição elevada. Hoje não é muito diferente o assunto quando temos a dor de cabeça: e esta lâmpada onde ficará melhor posta?
Agora, além deste argumento tirado da vida cotidiana do povo da Bíblia, tenhamos presente que no Antigo Testamento a “luz” é um atributo de Deus, por exemplo: “Não será para ti, nunca mais, o sol luz do dia, nem o resplendor da lua te iluminará à noite, mas que terás a Yahweh por luz eterna, e teu Deus por tua formosura” (Is 60,19; ver também Ex 3,2). Isto é o que Deus revela de si mesmo quando sua presença e seu poder se fazem visíveis e contatáveis; a Bíblia o chama de “a glória do Senhor”.
(2) A lição para o discipulado
O símbolo é muito signifiativo: da mesma forma que o discípulo de Jesus não pode subtrair-se à interação com a sociedade, não pode nem deve esconder-se, deve estar em posição visível para anunciar sua experiência e atrair a outros com seu testemunho; de nenhuma forma deve esconder-se nem camuflar-se na massa , mas sair fora, expressar sua vivência, para tornar o mundo mais luminoso.
Além disso, a função da luz é permitir que se possa apreciar tudo à nossa volta no interior da casa. A luz tira as coisas da escuridão e faz tudo aparecer como é, e o mais importante: faz emergir rostos, identidades. Neste contexto se dá uma ação valorizadora: a luz permite distinguir e apreciar tudo em seu valor real. Esta tarefa é tambén a tarefa do seguidor de Jesus em meio aos que o rodeiam.
Em que consiste essa luz? Somente em palavras bonitas? Claro que não. Como se diz mais adiante , a luz com a qual respladece um discípulo de Jesus são suas “boas obras” (ver 5,16 ). Assim, não só suas palavras (e seus escritos) o que conta para um discípulo de Jesus que expressa sua identidade cristã, mas antes de tudo seus comportamentos, suas reações, suas atitudes, enfim, tudo o que ele faz, e ainda o que deixe de hacer.
Ser “luz” é, então, ser capaz de refletir e tornar visível, através de si mesmo a presença de um Deus Pai, que se compadece, se compromete e age de forma responsável com a sua criação, assim como o fez através do ministério de seu Filho Jesus Nazaré (Jo 8,12; 9,5). Enquanto “luz do mundo”, ao discípulo é confiada a mesma missão de seu Mestre.
2.3. O discípulo de Jesus: “Uma cidade no topo de uma montanha” (5:14b)
Bem no meio de ensinamento sobre a “luz” e sua ampliação na observação da iluminação adequada de uma casa, encontramos esta terceiro imagem inserida: a cidade visível do alto.
Esta imagem tem como função nos mostrar novas funções da luz. É verdade que a “luz” que emana das “boas obras” de um discípulo deve começar na própria casa (como quando dizemos ironicamente: “há gente que é luz na rua e escuridão em casa”). Mas também é verdade que há uma luz comunitária: comunidades fraternas vivas – espaço onde se vive as bem-aventuranças – e que atraem aos demais. Como se cita que foi dito da Igreja primitiva: “Vejam como eles se amam” Assim se compreende melhor a expressão: “Luz do Mundo”.
Mas talvez o que a frase de Jesus está descrevendo não é apenas esta dupla dimensão de iluminação, mas que tudo que o ser ” luz do mundo ” é o mesmo que converter-se em modelo , em ponto de referência, em paradigma da pessoa da nova sociedade que o Reino dos Céus veio gerar no mundo.
(1) A imagem da cidade no topo da montanha
Uma vez que todo mundo a vê, uma cidade sobre um monte é um ponto de referência. Já não nos aconteceu que quando viajamos à noite e vemos luzes ao longe, especialmente num ponto mais elevado, dizermos: “é ali”, “já vamos chegar!” à cidade? Ou também quando andamos no meio do campo e perguntamos a alguém por uma direção, este nos responde: “Vês aquelas casas lá em cima? Bem, seguir esse caminho, é por ai”?.
Pois bem, assim era também no tempo de Jesus, uma cidade construída no topo de uma montanha podia ser vista ao longe e era um ponto de referência de toda a região. Assim se orientavam os camponeses e pessoas simples da região.
(2) A lição para o discipulado
Esta é a missão dos discípulos de Jesus: ser ponto de luz para os outros. Não só pregadores, mas também pessoas que encarnam e refletem os valores do Reino. São páginas vivas nas quais se lê o evangelho, como disse um autor espiritual, talvez a única Bíblia que algumas pessoas lerão.
Por outra parte, a imagem significa que o discípulo de Jesus é visto e julgado por todos, não pode se esconder. Se alguém aceita o caminho do discipulado, tem uma responsabilidade que ninguém a pode remover.
Além disso, o testemunho deve projetar tudo para Deus, não para si mesmo. Por isso, fica claro que ser “referência” não é que se pretenda chamar a atenção de forma vaidosa e exibicionista (ver Mt 6,1-18; é preciso ter cuidado com o exibicionismo espiritual: dar esmola, a oração e o jejum para chamar a atenção), mas:
- Anunciar novos valores encarnados na vida;
- Provocar, como faziam os profetas, a reflexão dos que nos observam: “O que se passa com ele? Por que viver assim e, além disso, ele parece tão feliz?”.
- Atrair os outros à conversão: ‘Com eu gostaria de ser como ele!”.
De modo que é alguém que infui nos outros para a vida nova e não alguém que, sob a forte pressão cultural, (maus) amigos, conveniências, temor de perder certas coisas, acaba cedendo em sua opção pelo Reino e nos valores que aprendemos de Jesus, voltando para o velho, para o que já tem superado.
3. A Força do contraste: O imperativo do discipulado é refletir em si, em seu ambiente e no mundo, o rosto amável de um Deus Pai que convoca sua família
Os versículos da leitura nos ensinam que (1) dando visibilidade à experiência de Deus; (2) inserindo-se no mundo sem perder a identidade, mas com uma presença ativa e eficaz em seu contexto histórico, impregando os valores do Reino por todos partes, e (3) sendo ponto de luz e guia para os demais, aquele que encarnou as bem-aventuranças, se torna um bom missionário. E a primeira missão se faz com a vida mesma, quer dizer, com o testemunho.
3.1. Devemos honrar nosso nome: a luz que brilha em nós é nossa identidade de “Filhos do Pai Celestial”.
E tal como acorre diariamente, as pessoas que obseram perguntam: “Esse que que se distingue, donde vem? É certo que, com o comportamento, o que se faz ou se deixa de fazer, se exalta ou deprecia o nome.
Por isso, quando uma pessoa se distingue por seus valores, no fundo está encaminhado àquele de quem aprendeu. Jesus diz a seus discípulos: “Brilhe vossa luz dante dois homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (5:16).
Em poucas palavras, a maneira de ser que questiona e provoca aos outros é, em última instância, a do próprio Deus-Pai: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste” (5,48). É o rosto paterno de Deus revelado na pregação e no compromisso de Jesus, o que, finalmente descobre o mundo, quando os discípulos de Jesus se comportam como “sal” e ” luz”. Sem um testemunho de vida transformada, o anúncio das “bem-aventuranças” teria ficado em discurso vazio.
3.2 . Tudo flui finalmente para a glorificação do “Pai”
Jesus disse que os que observam os discípulos se sentirão impulsionados a “dar glória ao Pai”.
Dar glória a Deus significa reconhecer que num evento concreto manifestou-se a “glória de Deus”, ou seja, que não é o resultado do homem, muito menos do acaso, mas “obra” de Deus.
Jesus quer dizer então que frente a seus verdadeiros discípulos as pessoas reconhecerão, aceitarão plenamente e confessarão que Deus é, verdadeiramente, um “Pai”, um pai cuja família é digna dele, um pai que se manifesta, também com sua “glória”, através de cada um de seus filhos. A luz refletida é a de sua paternidade em ação, geradora de vida, de crescimento e de plenitude de seus “filhos”. Não só o anúncio, mas a realização concreta de uma vida que expressa essa dignidade.
3.3. Duas condições indispensaveis: que o “sal” não perca o gosto e que não se “esconda” a luz
Mas todas as linhas anteriores eram para que tomássemos consciência de que para que aconteça esta maravilha há uma condição: manter no alto a identidade cristã.
(1) Primeiro absurdo: o sal que perde seu sabor
Por isso, desde o início temos o ensinamento sobre o que acontece com o sal quando não é capaz de cumprir sua função “já não serve para nada, mas para, uma vez lançado fora, ser pisado pelos homens” (5,13). O mesmo absurdo vale para a lâmpada quando é colocada debaixo do alqueire.
O que Jesus quis dizer quando falou de um “sal jogado fora e pisado pelos homens”? No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs na Palestina, as famílias tinham o hábito de atirar o lixo e tudo o que já não servia no meio da rua para ir fechando os buracos. Tudo que era inútil ia parar por ali e todos os passavam, inevitavelmente, o pisava. Assim se entende o que Jesus disse sobre o sal que deixou de ser sal: é agora parte do lixo, não tem valor!
(2) Segundo absurdo: a lâmpada que se esconde debaixo do “alqueire”
Jesus em seu ensino também destacou o absurdo que poderia cometer quem põe uma lâmpada debaixo de um “alqueire”: “Nem tampouco se acende uma lâmpada e se a coloca debaixo do alqueire” (5,15).
O “alqueire” era um recipiente mais ou menos grande (tipo um tambor) que era utilizado nas casas, particularmente na dispensa, para manter os grãos de cevada ou de trigo. Tentar cobrir a lâmpada com este recipiente é anular a luz ou, pelo menos, reduzir seu efeito ao mínimo, a um espaço muito pequeno, o certo é colocá-la sobre a “luminária” para aproveitar ao máximo.
O discípulo de Jesus não deve ocultar-se ou reduzir-se apenas à pequena extensão da sua comunidade, mas para iluminar toda a perto e de longe , para os cristãos e não-cristãos. A luz começa em casa e , em seguida, deve tornar-se “luz do mundo”.
(3) O risco de cair em um discipulado “absurda”
As comparações com o “sal que perde seu sabor” e a “luz escondida sob o alqueire”, nos diz que, com a perca da identidade cristã, com o enfraquecimento da opção batismal de renunciar aos valores do Reino, o destino do discípulo está em jogo.
Pode, então, acontecer duas coisas:
- Renunciamos aos valores do Reino e acabamos fazendo de nossa vida e de tudo o que construímos com tanto esforço algo obsoleto; ou
- Atendenos ao imperativo de Jesus e empreendemos com entusiasmo nossa missão de refletir e contagiar, com ações concretas, o rosto de Deus Pai num mundo que se apóia em outros valores e, ganhando, assim, novos filhos para sua família.
Enfim… “Brilhe a vossa luz”. Esta é a tarefa e o destino glorioso que o Evangelho de Mateus enfaticamente nos propõe e na qual hoje nos devemos ecaminhar: ser o que somos e, assim, empreender uma renovada evangelização com base nas “boas obras” que irradiam o verdadeiro rosto paterno de Deus, tantas vezes encoberto por nosso contra- testemunho.
4. Releia o Evangelho com um Padre da Igreja
“Ser sal e luz para os demais”
“Cristo, quando nos chamou o sal, fermento e luz, quis demonstrar que não devemos ser só úteis para nós mesmos, mas aos demais. Na realidade, esses elementos servem e beneficiam aos outros. A lâmpada não brilha por si mesma, mas para aqueles que estão às escuras, e tu és lâmpada não para desfrutar, só, da luz, mas para orientar o que anda perdido. Para que serve a lâmpada quando não ilumina a quem está na escuridão? E para que serve ser cristão se não se converte nada à virtude? Da mesma forma o sal não se purifica só a si mesmo, mas detém a corrupção dos corpos e não permite que se desfaçam e pereçam. Assim também tu, a partir da hora que Deus faz de ti sal espiritual, recolhe e reune os membros corruptos, ou seja, os irmãos negligentes, assim como aqueles que sempre se fatigam empregados em coisas materiais” (São João Crisóstomo)
5. Para cultivar a semente da Palavra no profundo do coração
- Qual a missão do homem ou mulher e da Igreja que vive a espiritualidade das Bem-aventuranças?
- Sabemos que vivemos e anunciamos outros valores em contradição como os que dominam a sociedade de hoje. Quais são esses valores?
Será que vivemos “conflitos” por causa deles? Como administramos estes conflitos?
- Que significam as expressões simbólicas: “Sal da terra”, “luz do mundo” e ” cidade alta”?
- Minha comunidade paroquial ou grupo é tudo isso para meu bairro, minha cidade, ou ambiente em que vivo? Que tenho que fazer de minha parte para viver esta missão? Por minha vida passaram pessoas que são sal, luz e cidade no alto.
- Como tenho sido transformado e enriquecido no contato com eles? Como sua proximidade me ajudou a ser luz, sal e cidade alta? Existe algum aspecto de minha vida, a qual deveria prestar mais atenção, porque está se desvirtuando e perdendo sua identidade? Qual? Que seria mais conveniente para fazer a respeito?
Autor: PE. FIDEL OÑORO, cjm

