PALAVRA DE DEUS

17° Domingo Comum ano A (Estudo Bíblico)

Mateus 13,44-52

Introdução

No Evangelho de hoje as duas primeiras parábolas nos falam do valor insondável do reino, dom de Deus que pode ser encontrado inesperadamente ou na busca afanada da verdade.

A parábola da rede lançada no mar, que recolhe todo tipo de peixes, é semelhante à parábola do joio que cresce no meio do trigo. Ensina-nos que em sua etapa atual o Reino dos céus inclui todo tipo de pessoas, santos e pecadores.

A rede arrasta tudo para a terra. Porém, os pescadores, sentados na beira-mar, selecionam os bons e lançam fora os maus.

Assim será no fim do mundo: “Os anjos separarão aos maus dentre os justos e os lançarão no forno de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes”. Estas são imagens usadas, constantemente, por Jesus, para descrever o tormento eterno dos condenados: não só ardor físico, mas, também, amargura profunda e ódio.

Temos dito que o Reino dos céus expressa a novidade de Cristo. Porém, isto não revoga todo o revelado por Deus no Antigo Testamento, mas lhe dá cumprimento. Por isso todo escriba que se fez discípulo do Reino “tira do baú o novo e o velho”.

A relação entre os dois Testamentos – Antigo e Novo – foi formulada por um antigo adágio: “Novum in Vetere latet; Vetus in Novo patet” (= “O Novo Testamento está escondido no Antigo; o Antigo se faz manifesto no Novo”) (CIC, nº129).

  1. O texto

O Evangelho que nos apresenta a liturgia deste domingo narra às últimas três parábolas do capítulo 13 de São Mateus e a conclusão do discurso em parábolas.

Também estas têm a finalidade de explicar algum aspecto da novidade introduzida no mundo com a vinda de Cristo…

  • A Estrutura do texto

O texto de hoje está dividido em três partes:

  • As parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa (vv 44-46);
  • A parábola da rede lançada ao mar (vv.47-50);
  • A conclusão do discurso em parábolas (vv.51-52).
  • Aprofundando o texto
  •  As parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa (vv 44-46)

As parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa podem situar-se, muito bem, no contexto do convite de Jesus para deixar tudo e segui-lo.

É uma proposta bastante forte dentro da opção cristã, mas que vale à pena, porque, no fundo, o deixar tudo é adquirir um estado de liberdade necessário para o discípulo que deseja trabalhar no seguimento constante de Jesus.

É também um convite para que, quem optou por Jesus, seja coerente com a escolha feita, e viva seu desprendimento com alegria, já que o tomar o caminho do Senhor traz consigo a aquisição de uma grande riqueza que não é negociável e que, tampouco se desvaloriza.

As parábolas de domingo passado explicam o mistério cristão a partir da sociedade que o acolhe:

  • Com a parábola do grão de mostarda Jesus queria indicar o assombroso crescimento que teria a comunidade fundada por Ele;
  • Com a parábola do fermento que leveda toda a massa, queria expressar a incidência que seu ensinamento teria sobre a cultura e a vida social.

Estas duas parábolas de hoje explicam o mistério cristão a partir da pessoa, quer dizer, descrevem o que acontece em cada individuo que entra em contato com esse mistério. Ambas as parábolas insistem no mesmo ponto.

Uma e outra querem explicar um fato que todos percebem, porém, nem todos entendem: à mudança radical que se produz na pessoa que encontrou a Cristo.

Sabemos o difícil que é fazer com que alguém mude, ainda que seja um mínimo. Aqui, logo vemos que a pessoa muda radicalmente.

No caso dos apóstolos, o Evangelho diz que quando encontraram a Cristo, “deixando tudo o seguiram”.Como se explica?

Jesus o explica por meio dessas duas parábolas. Todos entendem a conduta desse agricultor e desse mercador.

Eles acharam algo de tal valor que perderam o interesse em tudo o mais. O agricultor que encontrou o tesouro está disposto a desfazer-se de tudo para adquiri-lo; O mercador está disposto a desfazer-se de tudo contanto que adquira a pérola que encontrou.

Fazem sem que ninguém os obrigue, mas por sua própria decisão, impulsionados “pela alegria que dá” em possuir o que encontraram.

Daqui se obtém a conclusão: assim é o Reino dos céus, quer dizer, isso ocorre quando alguém descobriu a Cristo. Isso explica a mudança radical que experimenta.

Notemos que nas duas parábolas Jesus diz: “Vende tudo o que tem”. Isto é condição necessária. Se alguém se dispôs a deixar muitas coisas deste mundo para ter Deus, mas se reserva algo, ainda não possui uma experiência profunda de Cristo. Ainda não está no gozo do Reino.

Estas duas parábolas nos mostram que Jesus, ao expor seu ensinamento, tem em mente os santos, e não os cristãos medíocres.

Enfim, há uma diferencia entre as duas parábolas. O encontro com Cristo que transforma a vida é sempre puro dom. Mas pode se dar na forma casual, fortuita, como o tesouro encontrado casualmente no campo; ou como fruto de uma busca, como a pérola de grande valor que a encontrou quem buscava com afã pérolas finas.

No primeiro caso está São Paulo, a quem Cristo veio ao encontro, enquanto perseguia aos cristãos (At 9,4). No segundo Santo Agostinho, que buscava ansioso, a verdade.

  •  A parábola do tesouro escondido (v.44)

O que distingue esta parábola, da seguinte, é o valor do Reino dos Céus para uma pessoa que, acidentalmente, o encontra. Ainda que não andasse em busca, o seu valor foi logo reconhecido.

O apóstolo Paulo, como já foi dito, é um exemplo disso:

  • Ele descobriu este tesouro de um modo inesperado (At 9,1-2):

“Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina”.

Ele pensava que estava bem, perseguindo os cristãos. Porém, quando encontrou o Senhor, aprendeu sua vontade e não vacilou em levá-la acabo, ainda que o preço a pagar fosse muito grande.

  • Ele valorizou o que havia encontrado. Disse em Fl 3,7-11:

“Mas o que para mim era lucro, eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda, tudo considero como perca, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por Ele perdi tudo, e tudo tenho como esterco, para ganhar Cristo…”.

  • Quando escreveu o “Evangelho da glória de Deus”, fez referência dele como um tesouro (2 Cor 4,7);

 “Porém temos este tesouro em vasos de barro, para que a extraordinária grandeza do poder seja de Deus e não de nós”.

  • Também citou os “tesouros de sabedoria e conhecimento” que encontramos em Cristo (Cl 2,1-3):

“Pois quero que saibais que é grande a luta que tenho por vós, e pelos que estão em Laodicéia, e por todos os que não me viram em pessoa; para que alentados seus corações e unidos em amor, alcancem todas as riquezas que procedem da plenitude de compreensão, resultando em um verdadeiro conhecimento do mistério de Deus, quer dizer, de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”.

  •  A parábola da pérola preciosa (v.45-46)

Na “parábola do tesouro escondido”, nós vimos que Jesus descreveu “o valor do reino” para aquele que o encontrou acidentalmente. Esta outra parábola é semelhante à parábola anterior, obviamente com um pouco de diferença.

Esta parábola ensina uma pessoa dedicada a buscar uma pérola de grande valor. A busca, convencido de que existe algo de muito valor que vale a pena buscá-lo. Quando a encontra, imediatamente reconhece seu valor, de modo que está disposto a vender tudo o que tem para comprá-la.

Consideremos uns exemplos bíblicos.

  • O eunuco (At 8,26-38):

Este homem havia vindo a Jerusalém para adorar e de regresso a casa ele ia lendo as escrituras, isto indica que buscava as coisas espirituais. Ao pedir para imediatamente ser batizado, ensina sua estima no valor da salvação oferecida através de Cristo.

  • Cornélio (At 10,1-8,30-33):

Sua piedade e seu temor a Deus indicam sua motivação em sua busca pela justiça. A justiça prometida por Jesus em Mt 5:6; “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados”. Deus tomou em conta sua fome e sede de justiça e lhe mandou a Pedro para que lhe falasse do Evangelho de Cristo.

  • Lidia (At 16,11-15):

Ao juntar-se com outras mulheres para a oração, indica que buscava as coisas espirituais. Ao ouvir as palavras faladas por Paulo, se batizou com toda sua família.

Esta parábola nos ensina como a pessoa responde ao reino dos céus, quando se dá conta que ali está algo que vale de verdade a pena buscá-lo.

E ao ter o Senhor como pérola e único tesouro, temos a certeza de que não há nenhuma outra aquisição mais vantajosa e rentável do que a liberdade de Deus no concreto da vida do homem.

Com o Reino dos céus acontece o mesmo que na parábola: uma vez que tenha sido descoberto em todo seu valor, temos que tomar posse, fazê-lo nosso, e nenhum preço é alto demais para sua aquisição.

  •  A parábola da rede lançada ao mar (vv.47-50)

A parábola da rede inicia com um olhar universal. A rede “lançada no mar apanha peixes de toda espécie” (47). É como se Jesus quisesse recordar-nos que o Reino dos Céus está aberto a todos. Não se trata aqui de uma rede seletiva, na qual só entram alguns peixes.

Também nos recorda o fato de que a rede a puxam somente quando está cheia. Não se trata aqui de uma rede que tem o tempo certo para ser arrastada para fora: este tempo é o tempo de Deus.

Depois Mateus nos fala de pescadores e de seleção. Eles escolhem e apartam os bons dos maus. Os primeiros põem em cestas e os outros lançam fora. Isto nos recorda a comparação de Jesus citada em Mt 25,31-46 falando do juízo final quando coloca as ovelhas a sua direita e os cabritos a sua esquerda.

Jesus aplica esta parábola da rede àquilo que acontecerá ao final do mundo com os maus, que serão lançados ao forno de fogo. “Assim será no final do mundo; os anjos sairão, e sacarão os maus dentre os justos…” (vv.49-50).

Separam os justos dos injustos (Mt 13,41: “O Filho do Homem enviará os seus anjos, e recolherão de seu reino todos os que são pedra de tropeço e que fazem…”).

O castigo dos que fazem iniquidade e são pedra de tropeço é descrito em Mt 13,50: “Os lançarão no forno de fogo. Ali haverá pranto e ranger de dentes”.

Ao dar sua explicação vemos a ênfase de Jesus nesta parábola e a diferença fundamental entre esta parábola e “a parábola do trigo e o joio”. A ênfase está na futura separação de todos os que estão no reino e não no castigo dos injustos, ou dos que fazem iniquidade.

Ao invés, na “parábola do trigo e do joio” não há nenhuma explicação concernente à combinação do bom e do mau como vimos em Mt 13,24-30. Como não há nada que descreva as bênçãos dos justo como em Mt 13,43.

A parábola da redelançadareforça as verdades espirituais ensinadas na parábola do trigo e do joio, especialmente as verdades relacionadas ao juízo vindouro e a condenação dos iníquos.

Ao enfatizar estas verdades, é propósito de Jesus mencionar as boas novas e as maldições do Reino para aqueles que o rejeitam. Sendo que esta parábola centra-se no destino dos que fazem iniquidade. Esta é uma boa oportunidade para refletir o que Jesus ensinou concernente a este destino.

Jesus ensinou que os iníquos serão julgados. Temos visto esta verdade ilustrada nas duas parábolas que temos estado comparando.

Às cidades que o rejeitaram, Jesus lhes advertiu do julgamento vindouro: (Mt 11,20-24). Também falou da condenação que virá àquela geração (Mt 12,41-42). O iníquo será ressuscitado para condenação, o justo não (Jo 5,24-30).

Jesus ensinou que o iníquo será separado de Deus. Ele falou dessa separação no sermão da montanha:

 “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome, e em teu nome lançamos fora demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? Então lhes declararei: Jamais vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:21-23).

Também quando descreveu a cena do juízo final:

“Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25,41-46).

  •  A conclusão do discurso em parábolas (vv.51-52)

Antes de concluir seu discurso, Jesus, como querendo captar a atenção de seus ouvintes, pergunta: “Entendestes todas estas coisas?” (51), e eles respondem que sim.

Diante da resposta afirmativa dos que o escutam, Jesus acrescenta o último ensinamento que nos aclara muitos aspectos. Começa com uma afirmação bem interessante. Fala do “dono de uma casa que tira de seu tesouro coisas novas e velhas” (52).

É interessante ver como Jesus, neste ensinamento, já não fala de uma comparação com o Reino dos Céus, mas com um letrado que se fez discípulo do reino.

Se considerarmos esta expressão, tendo em conta às parábolas anteriores, poderíamos afirmar que o discípulo do reino é:

  • quem deixa que a semente da Palavra de Deus dê fruto em sua vida como em um terreno fértil e produza cem, sessenta e trinta por cento;
  • quem, que crescendo junto ao joio, tem se mantido como bom trigo que, ao final, é levado, em feixes, aos celeiros do reino;
  • quem deixa que em seu coração cresça a Palavra de Deus, se tem feito árvore tão frondosa que se torna casa de abrigo para outros;
  • quem, como bom fermento, é capaz de fermentar a massa do povo onde se encontra quem se desprende, com alegria, de tudo o que tem, para adquirir o verdadeiro tesouro escondido e a maior pérola fina.

Quem assim opera será como o pescado bom, escolhido e metido na cesta.

Que é que faz de particular, quem tem se feito discípulo do reino? O texto nos diz que “se parece ao dono de uma casa que tira de seu tesouro coisas novas e velhas” (52).

É interessante esta afirmação. Não somente tira coisas ‘novas’, rejeitando o que, de algum modo, poderia chamar ‘velho’.

É o equilíbrio de quem sabe aproveitar tudo, sem aferrar-se às tradições antigas nem às novidades do momento. Sabe que tudo isto pode servir muito bem para fazer-se um ‘discípulo do reino’.

  • Aprofundemos com os padres da Igreja:

Na margem junta-se o que é bom:

“Ele governará a terra com justiça e os povos na Sua fidelidade” (Sl 95,13). Que justiça e que fidelidade? Juntará em Seu redor os eleitos (Mc 13,27) e separará os outros, colocando aqueles à Sua direita e estes à Sua esquerda (Mt 25,33). Haverá coisa mais justa, mais fiel do que essa? Aqueles que não tiverem querido exercer misericórdia antes da chegada do juiz não poderão esperar dele misericórdia. Aqueles que tiverem querido exercer a misericórdia serão julgados com misericórdia (Lc 6,37). Porque Ele dirá àqueles que tiver colocado à Sua direita: “Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo”; e atribui-lhes obras de misericórdia: “Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber”, e por aí a fora (Mt 25, 31ss.). Porque tu és injusto, não há de o juiz ser justo? Porque te acontece mentir, não há de a verdade ser verídica? Se queres encontrar um juiz misericordioso, sê misericordioso antes que Ele chegue. Perdoa a quem te tiver ofendido; dá dos teus bens, se possuis em abundância […] Dá o que dele recebes: “Que tens tu, que não hajas recebido?” (1 Cor 4,7). Eis os sacrifícios que são muito agradáveis a Deus: a misericórdia, a humildade, o reconhecimento, a paz, a caridade. Se isso levarmos, esperaremos com segurança o advento do juiz, desse juiz que “governará a terra com justiça, e os povos na Sua fidelidade” (Santo Agostinho, 354-430)

  • Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração
  1. Paulo claramente considerou que Cristo e seu reino, são um tesouro que vale a pena para que alguém deixe tudo o que seja necessário para obtê-lo. Que tem o “reino de Cristo” que o faz algo de muito valor?

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  • A que se refere Jesus quando fala de peixes bons e maus?

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Que faz com cada um deles?

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  • Segundo meu modo de proceder, aonde eu iria parar, à cesta dos peixes bons ou ao fogo?

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  • Quais são as tradições ou as novidades às quais nos aferramos na família ou na comunidade ou que mais rejeitamos?

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AUTOR: Pe. Fidel Oñoro, cjm

Centro Bíblico del CELAM

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