19° Domingo Comum ano A (Estudo Bíblico)
Mateus 14,22-33
CAMINHANDO EM MEIO DO MAR: Qual a profundidade de minha fé?
Introdução
No comentário ao Evangelho do domingo passado, o da multiplicação dos pães, dizíamos que Jesus revelava sua identidade divina assumindo o rosto de Deus, de quem se disse: «Ele dá o pão a todo vivente, porque é eterna a sua misericórdia» (Sl 136,25).
No Evangelho de hoje nos quer ensinar a mesma verdade. E faz isso através de alguns meios, dos quais, aqui destacamos três.
O primeiro é apresentar-nos Jesus caminhando sobre o mar.
Enquanto a barca em que iam os discípulos é jogada pelas ondas e pela violência do vento, Jesus caminha sobre as águas sem perder sua compostura, com passo sereno, como quem domina o mar.
Como não recordar o que disse Jó querendo expressar o poder de Deus: «Só Ele desceu dos céus e pisou as águas do mar» (Jó 9,8)? Os apóstolos oravam recitando os salmos e ao verificar que quem caminha sobre o mar é Jesus não podiam deixar de recordar que eles, com frequência, louvavam a Deus dizendo: «Pelo mar ia teu caminho, pelas muitas águas tua trilha» (Sl 77,20). Isto que se diz de Deus, se cumpre em Jesus.
O segundo meio é a apropriação, da parte de Jesus, do nome divino.
Quando Deus revela seu nome a Moisés e o manda libertar Israel, disse: «Assim dirás aos israelitas: ‘Eu sou’ me enviou a vocês … este é meu nome para sempre, por ele eu serei invocado de geração em geração» (Ex 3,14).
O termo sagrado Yhaweh é, claramente, uma forma do verbo hebreu “ser”. Os apóstolos, ao ver Jesus caminhar sobre o mar, se perturbaram e gritaram: «É um fantasma!». A resposta lógica deveria ter sido: «Não, sou Jesus». Porém, a sua resposta é esta outra: «Eu sou, não temam». Por que teriam que temer, se é apenas Jesus? A expressão «não temam» é o meio habitual com o qual se tranquiliza o homem quando este está diante de uma teofania (=uma manifestação de Deus).
O terceiro meio é a convicção que adquiriram os discípulos dessa realidade.
Eles a expressam, quando Jesus sobe à barca e acalma o vento: «Os que estavam na barca se prostraram ante Ele dizendo: ‘Verdadeiramente tu és Filho de Deus’». Expressam, não só de palavra, mas em atitude.
Todo judeu era proibido prostrar-se ante alguém que não fosse o Deus verdadeiro, como ordena a Lei: «Eu, Yhaweh, sou teu Deus… Não haverá para ti outros deuses diante de mim… não te prostrarás ante eles nem os darás culto, porque eu, Yhaweh, teu Deus, sou um Deus zeloso» (Ex 20,2.3.5). Já no Novo Testamento João expressa esta norma com sua própria experiência: «E quando o ouvi e vi, cai aos pés do Anjo que me havia mostrado todo isto para adorá-lo. Porém, ele me disse: ‘Não, eu sou um servo como tu… a Deus tens que adorar’» (Ap 22,8-9). «Tú és Filho de Deus». Isto é o que havia ficado em suspenso na frase de Pedro: «Senhor, se tu és…, manda-me ir até ti sobre as águas».
Com efeito, quando Jesus pergunta aos Doze: «Quem dizem vocês que sou eu?», Pedro os representa fielmente ao responder: «Tú és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,15-16). Deus não pode ter um Filho que não seja de sua mesma natureza. Mas, repugna ao conceito de Ser supremo, que é Deus, o fato de que sejam dois. Portanto, o Filho de Deus é o mesmo e único Deus, que é o Pai. Com o Espírito Santo, são três Pessoas distintas, mas um só Deus. Esta é nossa fé trinitária.
O admirável é que o Filho de Deus, havendo-se feito homem, nos elevou também à condição de filhos de Deus, como afirma, sem nenhuma vacilação, São João: «Vejam que amor nos amou o Pai para chamar-nos filhos de Deus, e, de fato, o somos!» (1 Jo 3,1).
Por isso, se, caminhando sobre as águas, Jesus revela sua identidade de Filho de Deus, Ele quer que, dessa identidade, partilhe, também, Pedro, fazendo-o caminhar com Ele. É como dizer: Eu partilho contigo e com todos os cristãos, minha condição de Filho de Deus. Isto é o que se ocorre no Batismo e demais sacramentos, sobretudo a Eucaristia. É necessária, sem dúvida, a fé.
+ Felipe Bacarreza Rodríguez, Obispo de Santa María de Los Ángeles
- O Contexto
Depois da multiplicação dos pães, Jesus reage de um modo desconcertante. Quando todos na multidão o buscavam para fazê-lo rei e para celebrar seu triunfo, Jesus obriga os discípulos a entrarem no barco e irem para a outra margem. São dois grupos que, normalmente, iam seguindo-o juntos e que agora são separados.
Jesus obriga seus discípulos a embarcar. Quer afastá-los do cenário do sinal messiânico e do contato com a multidão que o seguia há mais de um ano. Ele mesmo se encarrega de despedi-la, após haver saciado sua fome (cf. v.15).
Sobe ao monte sozinho (cf. v.23) para orar; é a primeira vez que fala Mateus da oração de Jesus (a segunda e última será a do Getsemani, 26,36ss).
Por que manda, Jesus, seus discípulos que se afastem da margem enquanto Ele fica em terra e se retira à solidão da oração? Certamente, os apóstolos, por sua parte, ainda não entraram na ótica do Reino de Deus. Mais ainda: tendem a confundi-lo, como a multidão, com seus esquemas humanos; por isso não sentem a necessidade de orar; se creem auto suficientes e a tormenta poderá por em evidência a distância entre seus pontos de vista e os do Reino expressados por Jesus.
João nos diz que os discípulos esperaram até que caísse a noite e que, quando viram que Jesus não viera ainda e suas esperanças triunfalistas se esfumaçam, “desceram ao lago, embarcaram e começaram a atravessar para Cafarnaum”. Querem voltar para a cidade, para a vida de todos, em vez de ficar com Jesus e com seus propósitos. Já que Jesus se nega a apoiar seus planos, que fique só.
Por outro lado, o lago é pequeno e fácil de ser atravessado. E, além do mais, isso é quase uma rotina na vida dos apóstolos, pescadores de profissão. Sem dúvida, nesse cotidiano, seguro e fácil, foi posta a prova sua fé e sua coragem.
Chegada a crise pela diferença de objetivos, entram na noite. O mar, ao qual se dirigem os discípulos e a noite que vivem seus corações, contrasta com a altura do monte em que ficou Jesus em oração.
- O Texto: Mateus 14,22-33
O relato da multiplicação dos pães é o prelúdio de um novo quadro. Será que depois de um gesto tão claro como o da multiplicação dos pães, os discípulos estão em condições de expressar sua fé em Jesus como Messias?
Recordemos:
- o primeiro quadro havia sido a “falta de fé” de seus próprios conterrâneos de Nazaré (13,53-58);
- o segundo foi nos lábios do rei Herodes Antipas que reage ante a fama de Jesus (14,1-2); e
- o terceiro são os próprios discípulos: eles, que têm sido testemunhas da obra messiânica que Jesus realizou como pastor de seu povo. Também, eles, têm que tomar uma posição frente ao Mestre.
Jesus manda-os, à sua frente, ao mar da Galiléia, para que sigam até a outra margem. Sobe para orar na montanha, enquanto os discípulos, no lago, enfrentam uma tempestade toda a noite. Já se aproxima o amanhecer, quando Jesus se aproxima deles caminhando sobre o mar. Os discípulos se perturbam.
Então, Jesus revela sua identidade, frente o qual Pedro, desafiando o poder do nome de Jesus, pede para caminhar sobre as águas. Porém, andou poucos passos e começou a afundar. Grita e é salvo por Jesus. É repreendido e, logo, todos, na orla, se prostram ante Ele, para adorá-lo como o “Filho de Deus”, quer dizer, como quem vive em uma relação de caráter privilegiado com Deus.
- Aprofundando o texto
Detenhamo-nos em algumas particularidades da passagem:
- O marco de todo o texto é a oração.
- No inicio Jesus ora na montanha e na sua oração acompanha pacientemente a travessia de seus discípulos no lago (14,23): Jesus está conosco em nossas “travessias” da vida, Ele nos mantém sempre (com sua oração e seu olhar, desde a montanha) particularmente nas situações difíceis;
- As duas intervenções de Pedro, em que grita “Senhor!” (14,28.30), tem força oracional;
- A reação final da comunidade, apoiada num gesto de prostração ante Jesus (=adoração) e expressa num claro reconhecimento da filiação divina de Jesus, é o cume deste caminho oracional que serve de eixo ao texto e de modelo a nosso caminho de oração. A fé se expressa na oração.
- O relato aponta a uma confissão de fé
Os discípulos terminam prostrados adorando o Filho de Deus. Esta reação é a primeira confissão de fé comunitária (14,33) e responde ao que se esperava que acontecesse depois da multiplicação dos pães, como se fosse seu “amém”.
- O itinerário de Pedro é um modelo de tal caminho de fé
No centro do relato está o episódio do diálogo de Pedro e Jesus.
No texto se capta o seguinte processo:
- Inicia com um jogo de palavras: Jesus diz “Sou Eu”, Pedro diz “se És Tu” (vv.27-28). O “Sou Eu”, na boca de Jesus, é um eco da revelação de Yahweh a Moisés, o mesmo que abriu caminhos impossíveis no deserto, conforme Ex 3,14-15;
- Pedro desafia Jesus para que prove o que diz ser; Jesus atende ao pedido de Pedro e faz que Pedro vá caminhando sobre as águas (v.29);
- Quando Pedro sente medo começa a afundar e grita “Senhor, salva-me!” (v.30);
- Jesus por sua parte lhe estende a mão ao mesmo tempo que lhe declara sua pouca fé (vv.31-32;
- Uma vez na barca junto com todos se prostra e confessa a fé (v.33).
Em meio do perigo e com um grande sentimento de impotência, Pedro clama ao Senhor com uma das orações mais breves e mais belas do Evangelho: “Senhor, salva-me!”.
A fé pura de Pedro deixa entrever sua realidade interior, que é também a realidade de todo crente: crer e ama a seu Jesus, porém, de repente, duvida d’Ele. Jesus reconhece sua fé, porém a qualifica de “pouca”. O Mestre parece querer pedir-lhe que faça sua, a oração de confiança do orante do Sl 62,2-3: “Em Deus descansa minha alma, d’Ele vem minha salvação; só Ele é minha rocha, minha salvação, minha cidadela, não vacilarei”.
Retenhamos o momento cume em que Jesus se faz salvador e pastor misericordioso de Pedro: estende-lhe a mão e o agarra (com força; v.31). O gesto é, ao mesmo tempo, sinal da vida e da salvação que Jesus oferece ao discípulo. Está indicando ainda que fé não se alcança sem a ajuda do Senhor (16,17).
Estamos hoje ante uma bela catequese sobre a confiança no Senhor em meio das dificuldades e das provas: Pedro pede o impossível, porém, agora, ele e todos nós temos de saber que o impossível nós podemos alcançar, se confiamos na Palavra do Senhor.
De outro lado, hoje, uma vez mais, aclamamos, com força, o valor da vida. Tomando Pedro pela mão e tirando-o do caos das águas, Jesus, neste gesto nos repete: “Quanto vale um homem!” (Mt 12,12).
O anterior milagre da multiplicação dos pães e este de andar sobre as águas, são como o prelúdio, disse Santo Tomás de Aquino, da doutrina sobre o Pão da vida que logo vai a expor o Evangelista.
Com o primeiro, demonstra seu inesgotável poder para dar o alimento corporal, de onde se deduz que o tem também para dar o espiritual.
Com o segundo, torna evidente o fato de que pode subtrair-se às leis da matéria e transformar seu corpo espiritual. Por estes dois milagres poderá Jesus exigir a fé na doutrina da Eucaristia, sacramento que vai prometer na sinagoga de Cafarnaum dentro de pouco tempo.
- Aprofundemos com os nossos pais na fé
- Orígenes, presbítero e teólogo.
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»
Quando tivermos suportado as longas horas da noite escura que domina os momentos de prova, quando tivermos feito o melhor que sabemos, […] tenhamos a certeza de que, ao fim da noite, quando «a noite vai adiantada, e o dia está próximo» (Rm 13,12), o Filho de Deus virá até nós caminhando sobre as ondas.
Quando O virmos aparecer assim, nós ficaremos perturbados, até compreendermos, claramente, que é o Salvador que vem a nosso encontro.
Pensando, ainda, que é um fantasma, gritaremos de medo, mas Ele dir-nos-á imediatamente: «Tende confiança, sou Eu, não temais.»
Talvez essas palavras de conforto façam surgir em nós um Pedro a caminho da perfeição, que desça da barca, seguro de ter escapado à prova que o abalava.
No início, o seu desejo de se aproximar de Jesus permitir-lhe-á andar sobre as águas. Mas, tendo ele uma fé ainda pouco segura, estando ainda cheio de dúvidas, aperceber-se-á da «força do vento», terá medo e começará a afundar-se.
Escapará, porém, a tal infortúnio, apelando para Jesus com um forte brado: «Senhor, salva-me!».
- São Tomás Moro, estadista inglês, mártir,
Carta escrita da prisão em 1534
“Caminhar sobre as águas, atravessar o fogo”
E, mal este Pedro acabe de dizer «Senhor, Salva-me!», já o Verbo terá estendido a mão para o socorrer, agarrando-o quando ele começava a afundar-se, censurando-lhe a falta de fé e as dúvidas.
Notemos, porém, que Ele não diz: «Incrédulo!», mas antes: «Homem de pouca fé!»,
e acrescenta: «Por que duvidaste?», ou seja: «Tinhas alguma fé, mas deixaste-te levar na direção contrária.»
E Jesus e Pedro voltarão a entrar na barca, o vento acalmará e os outros discípulos, compreendendo os perigos a que escaparam, adorarão a Jesus dizendo: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus», palavras que só os discípulos próximos de Jesus, os que se encontravam na barca, podem proferir.
Cultivemos a semente da Palavra em nosso coração:
- Qual é o caminho pelo qual um discípulo chega à adoração de seu Senhor?
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- Que relação tem com um caminho de fé?
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- Que relação há entre o itinerário de fé de Pedro e o meu?
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- Que me diz a imagem de um Jesus que está com o braço estendido e agarrando seu discípulo?
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- Como a vejo hoje em minha vida, em minha comunidade, em meu povo?
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