ESTUDO BÍBLICO NA 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO C 2022

ESTUDO BÍBLICO NA 14ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO C 2022

Comunidade Católica Paz e Bem

SEGUNDA-FEIRA                                                

Mateus 9,18-26

O CONTATO COM JESUS DÁ A POSSIBILIDADE DE RETORNAR À VIDA

Se eu tocar pelo menos a ponta de seu manto eu serei curada

A multidão percebe e celebra a presença, em meio deles, de Jesus – o Salvador, o “Deus-conosco” -, pois sua presença é uma manifestação concreta da chegada do Reino de Deus que liberta e dá vida. 

Os capítulos 8 e 9 de Mateus, em uma seção de dez milagres bem narrados, apresentam-nos uma série de encontros de Jesus com diversas pessoas necessitadas que se abrem à novidade do Reino.

São estes os dez milagres: (1) um leproso; (2) um centurião romano (pagão); (3) a sogra de Pedro; (4) os discípulos atribulados em meio da tempestade; (5) os endemoninhados gadarenos; (6) um paralítico; (7) a cura de uma mulher com fluxo de sangue; (8) a ressurreição de uma menina; (9) a cura de dois cegos; (10) a cura de um endemoninhado mudo.

Em todos os casos Jesus é buscado: Ele é esperança para Israel. Ele faz presente o Deus que se venera com sacrifícios no Templo, mas, o que Ele dá e quer é misericórdia (9,13).

Aqueles que, pelas normas, não se atreviam a tocar nos pecadores, ou pessoas impuras (leprosos, pagãos, publicanos, mulher com fluxo de sangue, defuntos), e levaram as pessoas a pensar que Deus excluía todos estes portadores de miséria, foram contrariados por Jesus, que, ao ver, no fundo, a questão, pediu, não só a prática da misericórdia, mas, também, uma renovação completa (9,16-17).

Hoje lemos os milagres (7) e (8). A mulher com fluxo de sangue há doze anos e uma menina de doze anos. O rosto da opressão está em duas pessoas que trazem algo em comum.

Vejamos:

  • O número “doze” as põe em relação: doze anos de vida e doze anos de sofrimento;
  • As duas são mulheres: uma é adulta e a outra é jovem;
  • As duas é negada a possibilidade da vida: uma por sua enfermidade que a faz estéril e a outra porque morre justo quando podia começar a gerar vida (idade na qual se faz adulta);
  • Ambas fazem a experiência da morte: uma está prestes a morrer, enquanto a outra já é flor cortada em seu casulo.
  • Nenhuma das duas pode ser tocada, estão em situação de impureza legal.

O contato com Jesus as salva da morte:

  • A mulher com fluxo de sangue toca o manto de Jesus (dizia para si: Se eu tocar pelo menos a ponta de seu manto eu serei curada 9,21);
  • A jovem filha do magistrado judeu (chefe de sinagoga) é tomada, pela mão, por Jesus (“a tomou pela mão e a menina levantou-se”, 9,25).

Porém é a dupla história de fé que aqui se relata que torna possível esta manifestação de salvação. O pai da menina, no momento mais agudo de sua dor “minha filha acaba de morrer”, (9,18), suplica-lhe: “Impõe tua mão sobre ela e viverá” (9,18).

Assim como havia feito com o pagão, Jesus não faz interrogatório nem pede nada. Ele se dispõe com prontidão a socorrer (“Jesus levantou-se e o seguiu, junto com seus discípulos”, 9,19), mesmo que se trate de um possível adversário.

Jesus somente viu a fé do pai que crer que, com a imposição de suas mãos, sua filha viverá e seguirá adiante, apesar das multidões (9,23), pois ele conta com a fé do pai. A misericórdia de Jesus não tem fronteiras: o que conta é a fé da pessoa necessitada.

A mulher, por sua vez, está convencida que só o tocar o manto de Jesus será “curada”. Sua declaração de fé, no segredo do pensamento, a conhece Jesus, que a traz à luz: “Ânimo, filha, tua fé te salvou” (9,22a).

O grito de fé da mulher é arrancado de sua prisão pela voz de Jesus. E é salva a partir desse exato momento (9,22b). Duas mulheres reconduzidas à vida encontram sua esperança em Jesus. Não ficaram defraudadas. Estas mulheres se tornam, no Evangelho, sinal da vida que traz o Reino de Deus.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  1. O contato com Jesus dá a possibilidade de retornar à vida. De que forma concreta manifesto que o contato diário com Jesus me dá vida? Como compartilho com os outros essa vida que Jesus me dá?
  2. A história destas duas mulheres tem alguns pontos em comum: Quais? Que me dizem?
  3. Que podemos fazer para que em nosso ambiente (bairro, comunidade, família, etc.) para que a mulher seja mais tida em conta e vá superando na sociedade toda forma de exclusão?

TERÇA-FEIRA

Mateus 9,32-38

UM BOM PASTOR, MISSIONÁRIO DA MISERICÓRDIA.

“Ao ver a multidão, sentiu compaixão, porque estavam como ovelhas sem pastor”

Após narrar o 9º milagre, a cura de dois cegos (9,27-31), Mateus nos leva ao cume das manifestações do poder do Reino com o décimo milagre (9,32-33), resumo de sua atividade em favor do povo necessitado, onde brilha seu coração de pastor (9,35-36) e com o convite final aos discípulos para que peçam operários para a messe (9,37-38). Abre-se, assim, o espaço para a missão dos discípulos.

  1. O cume dos milagres: a cura de um endemoninhado mudo (9,32-33)

Chama a atenção a curta narração. Na frase “Começou o mudo a falar” (9,33a) se diz as palavras precisas para descrever o ponto culminante dos milagres realizados pela fé, depois das duas mulheres e os dois cegos, no qual a fé tem “voz”. Agora, a ação do maligno é incapacitar para proclamar a fé. A inclusão de relatos vocacionais em lugares estratégicos da narração nos leva a notar que Jesus, não só dá forças para caminhar, como no caso do paralítico perdoado e curado, mas, também, dá voz para proclamar a fé: os dois elementos são componentes essenciais do seguimento de Jesus.

Ante o milagre as opiniões se dividem. Há duas vozes, as que proclamam a fé e as que a negam:

  1. As que proclamam a fé: do povo – o novo Israel que vai se formando ao redor da prática de misericórdia de Jesus. Proclama, com admiração, uma afirmação muito próxima à confissão de fé: “Jamais se viu coisa igual em Israel”. Reconhecem a novidade absoluta da obra salvífica de Jesus;
  2. As que a negam: dos fariseus – sempre expressando sua resistência frente à novidade do Reino, permanecendo em seu rigorismo legal, fazem um diagnóstico religioso completamente errado da pessoa de Jesus: “Pelo Príncipe dos demônios expulsa os demônios”. Fecham-se ante a evidência dos sinais de Deus e preferem pensar que, por trás de Jesus, está agindo uma força maligna.

Estas duas reações polarizadas que soam como dois coros – e chama a atenção o fato de que não há meios termos – recolhem bem o impacto que tem a obra de Jesus com os marginalizados; estas continuarão, inclusive, a propósito da missão dos apóstolos, que está por começar.

  • A atividade de Jesus, missionário da misericórdia, se multiplica:

Os dez milagres narrados não ficam em casos isolados, mas se multiplicam; sua função era descrever a constante da missão de Jesus em seu empenho por reunir o novo povo de Deus. O resumo de Mt 9,35 recorda qual é o tema central da missão: a Boa Nova do Reino anunciado com palavras e ações poderosas que promovam a vida. Seu marco geográfico: “Todas as cidades e aldeias”.

Mas, aparece também num quadro-resumo, o sujeito da missão. Emerge ante nosso olhar surpreso de leitor o panorama trágico que sacode as entranhas de Jesus: Sentiu compaixão (9,36b). Que estava impregnado na retina de Jesus? Uma multidão “ferida” e “desamparada”, uma imensidão de feridos espalhados num campo de batalha, sem assistência. Jesus percebe a gravidade da situação.

Jesus se apresenta como um bom pastor que “”, “sente compaixão” e empreende uma ação: o envio de missionários. A tarefa é reunir, curar e reconduzir o povo de Deus disperso pela inércia de seus líderes. Estes, levados por uma visão rígida da Lei, eram os verdadeiros causadores do mal estado em que se encontrava o povo de Deus, já que estes praticavam injustiças, roubavam o que era de todos, inclusive suas consciências de filhos de Deus.

Urge a missão profética e restauradora que anuncia a “justiça do Reino”, proclamada no Sermão da Montanha, com os critérios da misericórdia que acompanharam os milagres Jesus.

  • A oração pela missão (9,37-38):

Os discípulos passam agora ao primeiro plano: Jesus necessita de seus braços. Para isso primeiro os convida a orar ao dono da messe (o Pai) para que envie obreiros à sua messe” (9,37). Logo os enviados sairão destes mesmos orantes. A missão amadurece primeiro no coração orante.

Ver como os discípulos vão, aos poucos, tomando maior espaço. Justo após os três primeiros milagres vem o chamado “Segue-me”(8,22), e igual após os três milagres seguintes(9,9). Respondendo, eles, ao chamado, Jesus, não só os faz pessoas novas (9,16-17), mas também participar estreitamente em sua missão. Do “seguimento” passa-se ao “envio”. Mas a verdadeira raiz da evangelização dos discípulos será anunciada em Ez 34 e Zc 13,7-9: serão missionários da misericórdia.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  1. Por que podemos afirmar que a atividade de Jesus missionário se multiplica?
  2. Considero-me um verdadeiro missionário de Jesus? Como o manifesto?

As pessoas que vivem comigo o notam? Em que?

  • Frente à ação de Jesus, ao milagre, as opiniões se dividem. Os que o aceitam e creem e os que o negam.

No ambiente em que vivo, manifesto abertamente minha fé ou faço de modo vago?

QUARTA-FEIRA

Mateus 10,1-7

O MANUAL DOS BONS OBREIROS DO EVANGELHO (I): A CONSCIÊNCIA DO SER CHAMADO

E chamando a seus doze discípulos, lhes deu poder…”

O texto de hoje começa uma nova seção no Evangelho de Mateus que se chama “o Sermão da Missão” (ou “discurso apostólico”).

Este abarca todo o capítulo dez, desenrolando-se da seguinte forma: (1) Introdução: o chamado dos missionários (1-5); (2) Instruções aos missionários para a formação do novo Povo de Deus (6-15); (3) Instruções para enfrentar os desafios e conflitos da missão (16-24); (4) Instruções sobre o perfil espiritual do missionário (25-33); (5) Instruções sobre a família: a crise nos afetos do missionário (34-39); e, (6) Conclusão: identificação de Jesus com seus missionários (40-42).

Todo este grande sermão está carregado de imperativos formativos, de atitudes, de táticas. De modo tal que constitui um verdadeiro “manual” do missionário. Vamos nos deter hoje na introdução, que trata do “chamado”  dos missionários a serem Apóstolos. Vejamos os seguintes detalhes no texto:

O chamado

Jesus “chama” (10,1a), pela segunda vez, alguns de seus discípulos para constituí-los em seus apóstolos, quer dizer, seus enviados para continuar sua obra no mundo. A missão parte de um chamado, ninguém envia a si mesmo: no exercício da missão todos somos enviados.

Os doze Apóstolos

Até o momento, no Evangelho, apareciam os “quatro primeiros”, chamados à beira do mar da Galileia (4,18-22). Agora temos o número significativo no mundo bíblico: Doze. (= às doze tribos de Israel) e, portanto, o propósito da missão: a formação da comunidade da nova aliança, novo povo de Deus.

Mateus fala expressamente de: “doze Apóstolos” (10,2a). Quanto ao “povo de Deus”, é limitado pelo marco geográfico e espiritual da missão: “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (10,6).

Missionários com nome próprio

Os “doze Apóstolos” aparecem com seus nomes próprios (10,2-4). Alguns deles, inclusive, com um dado adicional: A mudança de nome de Simão para Pedro; Tiago e João: irmãos; Mateus: publicano (cobrador de impostos romanos); Simão: cananeu (um grupo rebelde); Judas: vem de um povo desconhecido chamado Carioth (ish-carioth= homem de Carioth) e “o mesmo que entregou” o Mestre.

A menção dos nomes nos ajuda a compreender que todo apóstolo tem uma identidade própria e uma história pessoal que Jesus considera e põe em função da missão. Eles não são fichas de uma empresa, mas, pessoas. Sua relação é de uma estreita familiaridade.

Na lista já se percebe algumas fragilidades pessoais, mas, sem dúvida Jesus tem estima e confiança em todos. É isto que fará com que o apóstolo nunca deixe de ser discípulo, estará sempre em processo de crescimento na escola de Jesus.

Chama a atenção que a Igreja de Jesus não se tenha edificado sobre anônimos, mas sobre pessoas concretas conhecidas, identificáveis, porém, antes de tudo, chamados, transformados e enviados por Jesus. Assim é a comunidade apostólica.

A investidura do missionário

Jesus deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para expulsá-los, e para curar toda enfermidade e toda doença (v.1). Note como as duas ações próprias de Jesus no combate contra o mal são as mesmas ações que caracterizarão o discípulo no campo missionário: as curas e exorcismos.

Jesus lhes comunica seu próprio poder

Jesus põe em suas mãos a força transformadora do Reino.

Que responsabilidade!

Tudo se resume na palavra Reino. Os mesmos que aprenderam as bem aventuranças do Reino (5,3.10), cujo projeto de vida consiste em buscar primeiro seu Reino e sua justiça (6,33), que pela obediência à Palavra se esforçam por entrar no Reino dos Céus (7,21), são, agora, os proclamadores do anúncio que mudou primeiro suas vidas: Ide proclamai que o Reino dos Céus está próximo (10,7).

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

Hoje tomemos consciência do chamado que Jesus nos faz para que sejamos missionários. Ele elegeu livremente para associar-nos em sua missão, para que façamos o mesmo que Ele no mundo. Abandonemo-nos n’Ele para que nos forme como missionários proclamadores de sua misericórdia, a única que tem poder para mudar a fundo nossas vidas e o mundo em que vivemos.

  1. Que significa o número doze no mundo bíblico para referir-se aos apóstolos que o Senhor elegeu?
  2. Como vivo hoje esse chamado a ser, no estado em que me encontro, missionário/a de  Jesus?
  3. Na comunidade que ações concretas é chamada a realizar?

QUINTA-FEIRA

Mateus 10,7-15

MANUAL BONS OBREIROS DOEVANGELHO (II): MISSIONÁRIO SE DISTINGUE PELO ESTILO DE VIDA

“De graças recebestes, de graças daí”

Ao dar as instruções aos discípulos para o exercício da missão, Jesus coloca em suas mãos um verdadeiro “manual” que devem ter sempre presente. Mateus anota solenemente: A estes doze enviou Jesus, após dar estas instruções (v.5a). Visto que o autor da missão, em última instância, é Jesus mesmo, tudo se realiza segundo suas indicações.

O manual da missão começa com a descrição da tarefa que compete ao apóstolo de Jesus:

  • Seu marco geográfico-espiritual: as “ovelhas perdidas da casa de Israel (v.6). O espaço é bem claro: não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis na cidade dos samaritanos (v.5b). Esta abertura só se dará após a morte e ressurreição de Jesus, no envio universal: “Ide, pois, fazei discípulos a todas as gentes” (28,19). Por ora, a missão, só em casa.
  • Seu conteúdo: a proclamação da proximidade do Reino na pessoa de Jesus (v.7). O anúncio da proximidade do Reino, com poucas palavras e muitos sinais transformadores, não é outro que o da vinda de Jesus que, com seu poder tocando o homem no fundo de sua miséria, faz presente a vontade misericordiosa de Deus que cura, perdoa e traz a paz.

O que o apóstolo tem que dizer é pouco, ao contrário, as ações é que são grandes. Ele deve converter cada dia de suas vidas em uma página viva do Evangelho: “Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios” (v.8a). Os profundos conteúdos do Reino se refletem, então, no novo estilo de vida de quem os anuncia. Vejamos cinco traços distintivos deste novo estilo de vida que distingue o missionário:

  • Seu coração (v.8a)

Sua ternura ativa com os enfermos, os pobres, os leprosos, os endemoninhados. Todos os milagres enumerados por Jesus supõem uma apropriação do Evangelho, impregnando-se da compaixão de Jesus com os sofredores da terra.

  • Viver com o estritamente essencial (vv.9-10):

Ao compartilhar a pobreza de Jesus fica claro que o que conta, do início ao fim, não são os recursos materiais para a missão, mas a pessoa, ela mesma, primeiro. Mostra-se sóbrio em seu vestir, em sua alimentação e em seus recursos econômicos. Tudo isso como expressão da opção prioritária pelo Reino. Contudo, “tem direito a seu alimento” (v.10b). Precisavam de comunidades que os acolhessem e mantivessem em sua missão itinerante. (Provavelmente, havia comunidades que não queriam colaborar na manutenção dos missionários e, por isso, se recorda este dever fraterno).

  • Suas relações interpessoais (v.11)

Sabe iniciar a missão no complexo mundo urbano (informa-se, saúda, é cortês, é constante;). Além de começar é capaz também de fechar bem os processos (“até que saiais”; 10,11b).

  • Sua disponibilidade (v.12)

Por realizar bem a tarefa e sem nenhuma motivação que não o serviço generoso. Assim como o despojamento externo, o despojamento pessoal é o indicador mais evidente de uma vida que se dá em oblação de si mesma: a gratuidade do dom (10,8b). Este é o modo concreto de ir até a raiz do mal como Jesus fez. Por isso é muito significativo que não se peça nada em troca e se esteja disposto a tudo que se possa exigir.

  • Capacidade de superar oposição e rejeição (vv.13-14)

O fracasso não o deprime nem as reações agressivas dos destinatários lhe roubam a paz. A missão está exposta a inconvenientes, alguns leves e outros maiores. Ele agirá com maturidade, à altura das circunstâncias, ao estilo do Mestre.

A tarefa está orientada e os requisitos para realizá-la bem já foram expostos. Com estas orientações se formará o novo povo de Deus que faz a experiência profunda do Reino. A Palavra de Jesus tem vigor para formar no mundo de hoje excelentes missionários que a façam possível.

Releiamos, agora, o texto, devagar, sublinhando os verbos em imperativo, distinguindo o que está em positivo e em negativo. E poderíamos, inclusive, comparar com o Evangelho do domingo passado. Logo confrontemos os ensinamentos com o estilo de vida que estamos levando e deixemos que a Palavra inspire em nós decisões concretas a favor de nosso crescimento pessoal.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  1. Cite alguns dos traços que devem distinguir o modo de vida de um verdadeiro missionário do Reino?

Como os vivo pessoalmente? Como os vivemos no grupo ao qual pertenço?

  • Em minha família, amigos e conhecidos, sei de alguém que tem se afastado de Jesus? Que tenho feito concretamente por essa pessoa? Tenho orado? Dialogado com ela?  Aconselhado o diálogo com alguém

que a possa ajudar? Ou sabendo do caso, me manifesto indiferente? Que farei?

  • A sociedade de consumo nos apresenta um estilo de vida muito distinto ao que propõe Jesus aos seus missionários. Que temos que fazer para viver mais de acordo com Jesus?

SEXTA-FEIRA

Mateus 10,16-23

MANUAL DOS BONS OBREIROS DO EVANGELHO (III): A HORA DOS PROBLEMAS DEVIDO A MISSÃO

Sereis odiados de todos por causa de meu nome

Se Jesus partilha conosco sua glória: o poder do Reino. Também compartilha conosco a sua cruz: a perseguição e o martírio.

Depois de expor as instruções referentes à tarefa que realizarão os missionários para a formação do novo Povo de Deus (10,6-15), Jesus passa, agora, ao mais doloroso: os conflitos que surgem na missão, que fazer quando estes se apresentam?(10,16-24).

A situação dos missionários é realmente desafiante: vivem e evangelizam em um mundo hostil. Visto que a pregação da justiça do Reino toca, profeticamente, as fibras do tecido da sociedade injusta, como resposta também se receberá o ataque furioso daqueles que querem seguir em sua injustiça e não estão interessados em perder seus privilégios.

Já nas bem-aventuranças falou-se da perseguição injusta que pode acarretar a missão: “Bem-aventurados sereis quando…” (5,11).

O v.16 nos coloca primeiro frente à difícil situação que vão encontrar os discípulos de Jesus: “Olhai que eu vos envio como ovelhas em meio de lobos” (10,16). Como resposta os missionários terão a sagaz inteligência da serpente (“prudentes como as serpentes”) e a simplicidade das pombas (“…e simples como as pombas); como quem diz: ter astúcia para sair, a tempo, de uma confusão (a fuga da serpente quando sente passos de animal grande); porém, não tornar-se tão arredio que ninguém possa se aproximar (simplicidade da pomba para deixar-se tomar entre as mãos).

A partir do v.17 se passa da página da ameaça à da realidade mesma da perseguição e do martírio: “vos entregarão… sereis levados… se levantarão e vos matarão… sereis odiados… quando vos perseguirem…”(10,17.18.21.22.23). Os missionários serão tidos até mesmo como delinquentes ou subversores da ordem estabelecida e, isto incomoda, notavelmente. Jesus enumera os diversos âmbitos da perseguição e mostra como transformar a adversidade em oportunidade para anunciar, com maior eficácia, o Evangelho:

  • O tribunal judeu e a sinagoga (=Juízo por heresia, 10,17)

Está se fazendo referência a alguns tribunais locais que existiam, mas também ao castigo aplicado na sinagoga aos judeus rebeldes (é o que parece estar tratando de fazer Paulo na véspera de sua conversão; At 9,1-2).

  • Os palácios reis do mundo grego-romano (=Juízo por subversão, 10,18)

Não só ante o mundo judeu, mas também ante os pagãos serão levados os missionários, “por minha causa”. Porém, eles, guiados pelo Mestre, sabem mudar a adversidade em oportunidade: “para que deis testemunho de mim diante deles” (10,18). Após apresentar os dois primeiros âmbitos, Jesus faz uma pausa para dizer o que fazer (10,19-20). Quem entrou com todo seu ser a semear no campo do mundo a semente do Reino, deve confiar no dono do Reino, que é o Pai. Ele lhe dará sua ajuda especial através de seu Espírito.

  • A própria família (=clima de denúncia e insegurança, 10,21-22)

A tensão afetará até a família e chegará ao pior: filhos contra pais, os matarão (v.21). Porém, o ódio generalizado também será ocasião para tirar a pérola do tesouro do coração: “o que perseverar até o fim, será salvo (v.22). A salvação está na fidelidade ao Mestre.

  • As cidades (= linchamento popular, 10,23)

O missionário não deve expor-se inutilmente: não é assim que se faz um mártir. A vida é um valor incalculável que não vale a pena perder. Por isso se aconselha a fuga: “Quando vos perseguirem em uma cidade, fujam a outra (10,23b). Deve fazer sem angustiar-se porque o Filho do homem é o Senhor da história (“Não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem, 10,23c).

O horizonte do seguimento em meio da perseguição

Os vv.24-25 serão lidos amanhã, porém é mais lógico considerá-los dentro da passagem de hoje. Que deve ter em mente um discípulo quando se apresentam todos estes problemas? Deve saber que todos estes aspectos que giram em torno ao tema da perseguição, por causa da missão, é parte integral da própria vida de Jesus, por isso o discípulo os assumirá como consequência lógica do “seguimento”. Dai que os discípulos devem contar com sofrimentos e perseguições, e vivê-los com o olhar no Evangelho, aprendendo como agia Jesus ante os conflitos que se apresentavam. A identidade com Jesus é a chave.

Três imagens devemos ter presentes na oração, que reforçam este sentido de pertença e comunhão com Jesus: Jesus é o Mestre e nós somos seus discípulos (vv.24.25); Jesus é o Senhor e nós somos seus servos (vv.24.25); Jesus é o Dono da casa e nós somos seus familiares (em grego “hoikiakós”) (vv.24b). N’Ele deve repousar nosso olhar. N’Ele está nossa inspiração. Atrás d’Ele cada passo.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  1. De que forma os missionários devem tornar a adversidade em oportunidade para dar testemunho?
  2. No momento que tensões desafiam-me a nível famíliar, na comunidade e no grupo? Como eu tenho reagido?
  3. Se com alguém me sinto distanciado que vou fazer concretamente para estabelecer a relação?
  4. Tenho sentido alguma vez a rejeição ou a oposição de alguém ao manifestar abertamente minha fé?

Se Jesus mesmo os teve, posso dar-me ao luxo de passar melhor que Ele?

SÁBADO

Mateus 10,24-33

O MANUAL DOS BONS OBREIROS DO EVANGELHO (IV): O PERFIL ESPIRITUAL DO MISSIONÁRIO

Não tenham medo!”

Todos nós gostaríamos que o que empreendemos sempre saia bem e sem nenhum problema. Porém, nem sempre é assim, e o pior é que, às vezes, dá vontade de desistir. Isto que acontece em tantos outros âmbitos da vida é, também, o que acontece no exercício da missão.

Na comunidade, a qual Mateus transmitia o Evangelho, parecia haver um ambiente de ceticismo e desencanto, devido a uma série de fracassos e problemas surgidos dentro da comunidade.

O fato de que o evangelista insista tanto no tema da perseguição (começando pelo próprio Jesus, já desde sua infância (ver Mt 2,13-18) reflete a complexidade do ambiente, no qual os cristãos viviam e lutavam em sua fé: não era nada fácil, era como um passar por uma porta estreita (7,13).

Por isso, no “manual da missão” do evangelista Mateus, encontramo-nos com uma seção feita para renovar os ânimos de uma comunidade missionária que está perdendo o impulso.

Três vezes, com insistência, faz soar o imperativo: Não tenham medo!” (10,26.28.31). O medo paralisa, fecha a pessoa em falsas seguranças, mata os projetos. Gera resistências internas que levam depois a desistir das opções tomadas e a renunciar os sonhos.

Por isso os adversários sabem que é por meio do “medo” que se faz o maior dano. Pois bem: é ai mesmo onde Jesus fortalece seus discípulos. Que faz brilhar Jesus no coração do missionário? Como o fortalece interiormente?

Na passagem de hoje aparecem três certezas que o missionário grava em sua vida interior:

  1. A palavra do profeta não será tímida (10,26-27)

Os missionários devem ter claro qual é a proposta de Jesus. Jesus não os manda a que enfrentem seus perseguidores, mas a que continuem pregando sem medo, publicamente, desde o mais alto: “proclamado desde os terraços” (10,27).

Este é o modo próprio de atuar de quem vive a bem-aventurança da “mansidão” (5,5) e ainda do que é “puro de coração” que, por não ter nada que esconder, não tem nada que temer.

A Palavra de todos os modos se manifestará pela força própria que tem, não poderá ser paralisada ou “encoberta” (10,26).

Além do mais, o discípulo sabe que a palavra que proclama não é sua. Como “profeta”, ele tem recebido a Palavra de Deus como um dom que não é para si mesmo, mas para os demais.

O que Deus deu internamente isso é o que anuncia (10,17).Aqui um traço fundamental da espiritualidade do missionário: cultiva uma profunda vida interior. A Palavra que ali “escuta” é sua maior força.

2.  A vida do missionário está nos braços poderosos do Pai (10,28-31)

Esta certeza também acompanhou Jesus em suas dificuldades, particularmente na hora da Cruz. E Jesus a transmite também aos seus: Deus é Pai que tem cuidados maternos com sua comunidade, n’Ele se pode confiar.

A vida está segura em suas mãos: até os cabelos de sua cabeça estão todos contados (10,30). Cada pessoa vale muito para Ele (10,31). O conhecimento desta hierarquia de valores de Deus Pai infunde uma grande segurança.

Mas, a confiança deve estar junta com a vigilância: o maior risco do missionário não é sua vida física, mas o que pode desviá-lo de sua opção (10,28). Esta estratégia dos perseguidores é bem conhecida: quando não conseguem calar o profeta, nem com ameaças de morte, lhe oferece atrativos para mudar seu modo de pensar.

O missionário deve estar sempre muito centrado em sua opção, porque senão, o mundo que ele encontra difícil de mudar pode terminar mudando a ele. Por isso: Temam mais ao que pode destruir o homem inteiro no fogo que não se apaga (10,28).

3. A fidelidade de Jesus com seu missionário (10,32-33)

Com uma mesma frase, dita, primeiro, em positivo e, logo, em negativo, diz que o comportamento do discípulo determina seu posicionamento no juízo final.Em positivo disse: Todo aquele que se declare por mim ante os homens, eu também me declararei por ele ante meu Pai que está nos Céus (10,32).

O “declarar-se” por Jesus descreve a obstinação do missionário quando as circunstâncias lhe pedem que esconda sua identidade. O “sim” dado por amor a Jesus não ficará no vazio.Esta tríplice certeza encravada no coração do discípulo-missionário dá força interna para o exercício da sua missão, ajuda a superar suas crises e salva sua vocação.  Façamos hoje um bom repouso sabático para refletir sobre nossas crises e temores, e curá-las.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  1. Como entendemos que a vida do missionário está nos braços misericordiosos do Pai?
  2. Tenho sentido medo ante a missão que me é confiada? Tenho me sentido impotente, sem ânimo?
  3. Qual tem sido minha primeira reação? Rejeitá-la? Evitá-la? Arriscar-me e confiar? Tudo o que faço está sustentado por uma profunda vida interior ou simplesmente o faço com motivações puramente humanas?

               Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

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