ESTUDO BÍBLICO NA 1ª SEMANA COMUM ANO C 2022

SEGUNDA-FEIRA:

Marcos 1,14-20

DEIXAR-NOS CHAMAR POR JESUS

“Eu vos farei pescadores de homens”

Começamos hoje as semanas do tempo ordinario e abrimos hoje nosso caminhar na Palavra com um belo texto do evangelho de Marcos, no qual nos é narrado o inicio da pregação de Jesus. O texto tem dois momentos bem precisos:

O primeiro nos apresenta Jesus pregando num tempo e espaço bem definidos:

(a) Tempo: “Depois que João foi entregue” (v.14); e

(b) Espaço: “Marchou Jesus para a Galileia” (v.14).

Este primeiro momento também nos apresenta o conteúdo da pregação de Jesus: “Proclamada a boa nova de Deus” (v.14); Ato seguido o evangelista nos explica em que consiste essa Boa Nova e as atitudes concretas que devemos ter para acolhê-la

A Boa Nova é que “O tempo se cumpriu” (v.15). Estas palavras, ouvidas pelos habitantes da Galileia, povo que durante séculos havia esperado o Salvador, o Messias, devem ter acendido uma centelha de esperança, fazendo com que seus corações se interessassem por aquele Galileu que dizia tais coisas.

Jesus continua sua pregação afirmando a seus ouvintes que “O Reino de Deus está próximo” (v.15). É uma realidade que, em Jesus, já se ouve, se vê, se apalpa (cf.1 Jo 1,1). O importante para acolher o Reino que se aproxima o resume, Jesus, em dois verbos bem precisos: “converter-se” “crer”.

Esta dupla expressão sublinha as atitudes necessárias ao homem que se abre para a colher a boa nova. Por um lado a conversão que nos permite “adequar” o coração e a vida ao Reino que se aproxima, e por outro lado a fé para que esta seja uma realidade em nossas vidas.

O segundo nos apresenta o chamado que Jesus faz aos quatro primeiros discípulos.

Jesus partilhará com eles a tarefa de fazer com que o Reino de Deus chegue a muitos. Quem são estes primeiros privilegiados de partilhar com Jesus sua tarefa? Trata-se de quatro pescadores. Mais exatamente dois pares de irmãos, aquém Jesus dirige suas primeiras palavras de convite ao seguimento. Eles são pescadores. Jesus explica-lhes o que vão fazer em sua própria linguagem: “Venham comigo e os farei chegar a ser pescadores de homens” (v.17).

Detenhamo-nos um momento na expressão “os farei chegar a ser”. Não se trata de algo automático que se dá só pelo fato de serem chamados. Trata-se de um processo lento e constante durante o qual eles vão assumindo os comportamentos e atitudes de Jesus.

Seguramente os recém-chamados já haviam escutado algo de Jesus, pois, imediatamente, deixam seus trabalhos, suas famílias e se encaminham atrás dele. A força do chamado de Jesus os fará não só seus seguidores, mas os pilares sobre os quais se firmará a Igreja.

Aprofundemos com os nossos país na fé

  1. Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir, co-padoreira da Europa

«Deixando logo as redes, seguiram-No». Aquele que se deixa conduzir como uma criança pelo vínculo da santa obediência chegará ao Reino de Deus prometido «às criancinhas» (Mt 19,14). Esta obediência conduziu Maria, a filha de rei, da casa de Davi, para a modesta casa do humilde carpinteiro de Nazaré; conduziu os dois seres mais santos do mundo para fora do recinto protetor do seu humilde lar, pelas grandes estradas, até ao estábulo de Belém. A obediência depositou o Filho de Deus na manjedoura. Na pobreza, livremente escolhida, o Salvador e Sua mãe percorreram os caminhos da Judeia e da Galileia e viveram da esmola dos que acreditavam. Nu e despojado, o Senhor foi suspenso da cruz e entregou ao discípulo amado a proteção de sua mãe. (Jo 19,25ss.). Eis o motivo por que Ele pede a pobreza àqueles que O querem seguir. O coração deve estar livre de tudo o que o prende aos bens terrenos, não deve desejá-los, não deve inquietar-se, nem deles depender, se quer pertencer totalmente ao Esposo divino.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  • Que me diz a expressão: O tempo se cumpriu?

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  • O tempo de advento e natal que foi concluído nos convidava, como faz o texto de hoje, à conversão. Como tenho vivido esta realidade em minha vida?

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Como a temos vivido em nossa familia?

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  • Jesus nos chama também a sermos, em nosso campo de ação, pescadores de homens. Como

podemos viver, pessoal e comunitariamente, esta realidade?

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TERÇA-FEIRA:

Marcos 1,21b-28

ADMIRAR-NOS DE JESUS.

“Sei quem és tu, o santo de Deus”

O Evangelho de hoje se abre com um belo costume de Jesus que repetirá muitas vezes ao longo de sua vida: “Ao chegar o sábado entrou na sinagoga e se pôs a ensinar” (1,21). Depois de ser batizado por João, inaugura sua missão na sinagoga de Cafarnaum e o primeiro que faz é pôr-se a ensinar.

Seguramente muitos mestres e pregadores haviam ensinado nessa mesma sinagoga, porém as pessoas reconhecem que este não é um pregador como os demais e “ficavam assombrados de sua doutrina” (v.22a). Qual era o motivo desse assombro? Um pouco mais adiante nos diz: “porque ensinava como quem tem autoridade” (v.22b). Para os ouvintes, esta era uma doutrina nova, era algo muito distinto do que, frequentemente, escutavam dos escribas. Havia algo especial nestas palavras que tocava o coração e eles apenas o podiam descrever afirmando que falava com autoridade.

A autoridade para Jesus Cristo, e para os que o escutavam, não estava tanto na beleza ou não da doutrina, mas na coerência entre o que ele dizia e vivia e, isto havia captado muito bem os ouvintes da sinagoga. Toda doutrina será mais convincente e gerará mais processos de mudança se, da parte de quem a expõe, vem acompanhada por aquilo que comumente chamamos ‘exemplo’ quer dizer a coerência entre o que se diz e se faz.

É paradoxal que, para os ouvintes de Jesus, esta apreciação parece que fique em um comentário em voz baixa. A continuação Marcos nos assinala a presença de um personagem muito particular: “um homem possuído por um espírito imundo” (v.23), o qual, palavra mais, palavra menos, reconhece também a autoridade da doutrina de Jesus, porém desta vez não é em voz baixa, mas aos gritos.

Enquanto nos versículos 22 e 23, parece ter uma pergunta tácita: Quem é este homem?  Aqui, no versículo 24, o mesmo espírito faz gritar ao homem: “Sei quem és tu, o Santo de Deus”. Talvez este espírito imundo tenha sentido a força das palavras de Jesus e o temor de uma iminente aniquilação. Pergunta: Que temos nós contigo, Jesus de Nazaré? Viestes a destruir-nos? (v.24).

Novamente se faz visível, e esta vez por meio das obras, a autoridade de Jesus ordenando ao espírito imundo: “cala-te e sai dele”. De forma muito gráfica Marcos nos descreve a saída do espírito: agita o homem violentamente, e com um forte grito saiu dele. O mal sempre traz consigo uma carga forte de agressividade, neste caso, física e verbal. O final do texto é como uma síntese do acontecido. Se ao início as pessoas se admiravam da autoridade, agora essa admiração se converte em assombro e certeza de que a doutrina e a pessoa de Jesus são algo nunca visto. Por isto no ambiente gira uma pergunta: “Que é isto? Uma doutrina nova exposta com autoridade!” como se eles tivessem entendido de onde vem essa autoridade.

Jesus nos convida hoje a avaliar o peso do que dizemos não tanto por ser um discurso novo, acertado, que logre mover sentimentos, mas por estar carregado e conectado a uma vivência pessoal capaz de mostrar com a vida o que se ensina com as palavras.

Aprofundemos com os nossos país na fé

São Boaventura (1221-1274), franciscano, doutor da Igreja

“Eis um ensinamento novo, proclamado com autoridade!”

(…) Cristo é a fonte de todo o conhecimento verdadeiro; de fato, ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6)… Enquanto caminho, Cristo é mestre e princípio do conhecimento segundo a fé… É por isso que Pedro ensina na sua segunda carta: “Consideramos muito certa a palavra profética à qual fazeis bem prestar a vossa atenção como a uma lâmpada que brilhe num lugar escuro” (1,19)… Porque Cristo é o princípio de toda a revelação pela sua vinda no espírito e a confirmação de toda a autoridade pela sua vinda na carne. Primeiro vem no espírito, como luz reveladora de toda a visão profética. Segundo Daniel, “ele revela o que é profundo e escondido; ele conhece o que as trevas ocultam e habita na luz” (2,22); trata-se da luz da sabedoria divina que é Cristo. Em João, diz: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminha nas trevas” (8,12) e também “Enquanto tendes luz, acreditai na luz para vos tornardes filhos da luz” (12,36)… Sem esta luz que é Cristo, ninguém pode penetrar os segredos da fé. É por isso que no Livro da Sabedoria lemos: “Envia, ó Deus, essa Sabedoria do teu santo céu e do trono da tua majestade, para que esteja comigo e trabalhe a meu lado. Saberei assim o que te agrada… Na verdade, que homem pode conhecer os desígnios de Deus, imaginar a vontade de Deus?” (9,10-13) Ninguém pode atingir a certeza da fé revelada, senão pela vinda de Cristo no espírito e na carne.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

  • Por que o povo afirmava que Jesus falava com autoridade?
  • Com que frequência me aproximo à Palavra de Deus? Que descubro de novidade nela? De que forma está mudando minha vida ao lê-la e meditá-la?
  • Comunitariamente, como nos deixamos surpreender pela Palavra de Deus que nos interpela?

QUARTA-FEIRA:

Marcos 1,29-39

PASSAR FAZENDO O BEM:

“Jesus curou a muitos”

O texto de ontem em seu último versículo nos dizia que a fama de Jesus havia se estendido por toda parte, em toda a região da Galileia (cf.v.28).

O Evangelho de hoje vai nos apresentar uma parte do caminhar salvífico de Jesus, de seu passo liberador por entre a dor e o sofrimento do povo.

Jesus sai da sinagoga e se dirige com dois discípulos, Tiago e João, dois irmãos, à casa de Simão e André, outros dois irmãos. Apenas chegam a casa comentam-lhe da enfermidade da sogra de Simão.

Chama a atenção que eles não pedem abertamente a cura dela, somente lhe falam da situação. Sabem que com Jesus isto é suficiente.

Imediatamente Jesus se aproximou e “tomando-a pela mão a levantou e a febre a deixou”. Jesus não dá, simplesmente, uma ordem à distância. Aproxima-se, se envolve na situação. E mais, toma-a pela mão para salvá-la.

Imediatamente a febre desaparece. É bom ressaltar a atitude de agradecimento da mulher. Seguramente ela não estava enferma de ‘febre’, pois esta é só um sintoma de algo mais intenso e interno que Jesus se encarregou de curar.

Tão logo se sente curada ela se põe a servir, a disposição de todos. Uma reação espontânea de gratidão é pôr-se a disposição do outro. (cf.v.31)

Marcos nos diz que ao entardecer, quando a notícia do que fez Jesus já havia corrido de boca em boca, trazem à porta da casa ‘todos’ os enfermos e endemoninhados. E como se fosse pouco, assegura que: “A cidade inteira estava agrupada à porta” (v.33).

Estas são as dimensões que o coração capta, sua única missão é fazer o bem custe o que custar. Vemos um Jesus a quem lhe levam a dor e o sofrimento de toda a humanidade.

No coração misericordioso de Jesus não há dor que não tenha lugar. Ali cabem todos e entre pequenos e necessitados. E dai sairemos renovados e cheios de vida, como esta multidão de enfermos que regressavam curados as suas casas.

A intensa jornada de Jesus se encerra com um momento de oração que também se vê interrompido pelas pessoas que o busca. O buscam porque já começam a conhecê-lo. E não são poucos, na realidade o texto põe na boca de Simão a expressão “Todos te buscam” (v.37).

Jesus é consciente de que sua missão não se pode reduzir a um lugar e a um povo determinado, mas que se abre a dimensões mais amplas. O relato se encerra com a imagem de um Jesus peregrino incansável da Palavra dita com autoridade e que traz vida para todos. Uma palavra acompanhada de sinais que a fazem acreditável.

Aprofundemos com os nossos país na fé

Santo Isaac o Sírio (séc. VII), monge perto de Mossul

Nada torna a alma pura e feliz, nem a ilumina e afasta dela os maus pensamentos, como as vigílias. Por isso, todos os nossos pais perseveraram neste trabalho das vigílias e adotaram por regra permanecer acordados de noite durante todo o curso da sua vida ascética. Fizeram-no especialmente porque tinham entendido o nosso Salvador convidar-nos a isso insistentemente em diversos lugares na Sua Palavra: «Velai, pois, orando continuamente» (Lc 21,36); «Vigiai e orai, para não cairdes em tentação» (Mt 26, 41); e ainda: «Orai sem cessar» (1 Ts 5,17). E não Se contentou com advertir-nos apenas por palavras. Deu-nos também o exemplo na Sua pessoa, honrando a prática da oração acima de qualquer outra coisa. Por isso Ele se isolava constantemente para rezar, e isso não era feito de um modo qualquer, mas escolhendo por tempo a noite e por lugar o deserto, para que também nós, evitando as multidões e o tumulto, nos tornemos capazes de orar na solidão. Por isso onossos pais receberam este alto ensino a respeito da oração como se viesse do próprio Cristo. E escolheram vigiar na oração segundo a ordem do apóstolo Paulo, sobretudo a fim de poderem permanecer sem nenhuma interrupção na proximidade de Deus pela oração contínua. […] Nada que venha do exterior os atinge e nada altera a pureza do seu intelecto, o que perturbaria estas vigílias que os enchem de alegria e que são a luz da alma.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

  • Segundo o agir de Jesus quais são os destinatários favoritos de sua missão?
  • Qual é minha atitude ante a dor e o sofrimento dos demais?

Que está me pedindo o Senhor?

  • Recordemos um caso concreto em nossa vida familiar ou de grupo, no qual tenhamos atuado como Jesus, dando vida a outros. Que contribuiu isto a nossa vida?

QUINTA-FEIRA

Marcos 1,40-45:

UM INSTANTE PARA A VIDA.

“No mesmo instante lhe desapareceu a lepra”

Entre todos os que se aproximavam de Jesus aparece um leproso… Esta introdução já obrigaria a qualquer israelita fiel a retroceder e a afastar-se dessa pessoa. Esta é a cena que nos apresenta o Evangelho de hoje.

Um leproso era sempre uma pessoa excluída da sociedade. Uma pessoa, ante a qual, a prudência sugeria não aproximar-se por medo de ficar impuro, pois segundo as tradições judias, sua lepra era a lógica consequência de um pecado.

Aproximar-se dele e, mais ainda, tocá-lo, era fazer-se partícipe de seu mesmo pecado. Por isso é melhor estar a certa distância. Era por isso, também, que o mesmo leproso, com um sino, ia gritando “impuro, impuro”, avisando a todos os que iam pelo mesmo caminho que se afastassem a fim de não vir a contaminar-se.

Porém, as coisas foram muito diferentes para aquele leproso. Ele aparece e se aproxima de Jesus, o qual não reage afastando-se, mas o acolhe e escuta.

Seguramente, ao leproso haviam chegado os comentários da fama de Jesus, que havia se estendido por toda parte, e algo de fé já começava a nascer em seu coração.

Aproximou-se e ajoelhou-se, reconhecendo, humilde e profundamente, sua realidade de homem impuro e pronunciou a frase, a única frase que nos deixou e que é uma maravilhosa síntese de fé, de confiança e de abandono nas mãos de Jesus: “Se queres podes limpar-me” (v.40).

É uma frase de uma delicadeza extraordinária, quase como temendo pronunciá-la.

Analisemos as duas partes desta frase:

  • “Se queres…”: é como dizer: ‘és tu que decides, eu simplesmente proponho’. É um “se queres” que em nada diminui o poder curador de Jesus;
  • “podes limpar-me”:coloca-se totalmente nas mãos de Jesus. Não um imperativo categórico: ‘Senhor, limpa-me’,  mas com um condicional que abre à esperança e à confiança: “se queres”.

A reação de Jesus não se faz esperar. Algumas tradições descrevem a atitude e o sentimento de Jesus com a palavra “encolerizado” e se interpreta como indignado, ou seja, um Jesus profundamente entristecido e doído com o mal. Outras traduções preferem a palavra “compadecido” expressão que certamente se aproxima mais ao sentir de Jesus.

A resposta de Jesus retoma as duas partes das palavras ditas pelo leproso: “Quero” e “Fica limpo”. Para Ele, a frase do leproso foi suficiente para medir sua fé e sua confiança e não lhe pergunta se crê.

Não podemos deixar passar despercebido um gesto insólito de Jesus para com o leproso: “O tocou”.

Isto não se podia fazer e, muito menos, com um leproso, pois, automaticamente, a pessoa que o fazia ficava impura. Aqui aconteceu o contrário, Jesus não ficou impuro foi o leproso que ficou puro.

Duas vezes Marcos usa a expressão: “No mesmo instante”:

  • No mesmo instante lhe desapareceu a lepra; e,
  • Despediu-o no mesmo instante, pois, uma vez curado já não havia nada mais a fazer, senão regressar à vida normal.

Antes de despedi-lo Jesus lhe faz duas recomendações:

  • Que não divulgue o acontecido, coisa que não se cumpre. Pelo contrário, uma vez curado “se pôs a pregar com entusiasmo e a divulgar a notícia”. Notícia que não levava só em seus lábios e em suas palavras, mas, sobretudo, em sua própria pessoa, agora curada.
  • Que se apresente aos sacerdotes como prescrevia a lei. A nova inserção na vida normal devia ser segundo a lei.

O texto nos dá uma bela lição do que significa abandono total à vontade, ao querer de Deus.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  • Como era considerada a lepra entre os antigos?
  • Quando me encontro em alguma dificuldade, minha reação espontânea é pedir a Deus que me tire ou que se faça o que Ele queira?
  • Quando temos alguma situação difícil como família, pedimos a Deus que nos ajude?

Que passa entre nós e em nossa casa se as coisas não acontecem como queríamos e esperávamos?

SEXTA-FEIRA

Marcos 2,1-12:

UMA FÉ COMUNITÁRIA.

“Vendo Jesus a fé deles”

Até agora, segundo Marcos, o Senhor fez inumeráveis curas (1,34.39). Dentre elas duas hão ficado no texto com nome próprio: (1) A sogra de Simão; (2) O leproso.

Ressaltemos um detalhe particular. Na cura da sogra de Simão, é Jesus que se aproxima dela e a cura. Na do leproso, é este quem se aproxima de Jesus para ser curado. Na que nos apresenta o Evangelho de hoje, é uma comunidade, quatro pessoas, que levam um paralítico. É um belo exemplo do que pode lograr a fé de uma comunidade em relação com um de seus membros enfermos.

Marcos nos apresenta Jesus em casa, rodeado de muita gente. Já não podia entrar ninguém mais porque não havia lugar.

Provavelmente, quatro amigos ou familiares de um paralítico, o texto não nos esclarece, se eles se inteiram de que Jesus está em Cafarnaum e o mais seguro é que eles mesmos tomem a iniciativa e tomem a moléstia de carregar o paralítico para levá-lo a Jesus.

É bela a insistência destes quatro. Chegam à porta da casa. Não se podia entrar. Como dizemos: “não cabia nem uma agulha mais”. O mais razoável teria sido esperar até que Jesus acabasse de falar, ou desistir e regressar a casa. Porém não.

Eles levavam em suas mãos um paralítico e em seu coração uma fé capaz de trasladar montanhas ou ao menos com a suficiente criatividade e engenho para buscar outras soluções. Não devia ser coisa fácil subir o paralítico sobre o teto, abrir um espaço e descê-lo.

Jesus captou fundo à situação. Quando teve ante si o paralítico, o primeiro no qual se deteve, como nos disse o texto, foi na “fé deles” e não só no desejo, não tão manifesto, do paralítico de ser curado. A Jesus, o moveu, a fé dessa pequena comunidade, e agiu. Atuou de uma forma estranha para alguns presentes ao dizer ao paralítico “Teus pecados te são perdoados” (v.5).

Esta expressão fez reagir à outra “pequena comunidade”: os escribas e fariseus presentes, não mais com a fé, mas com a murmuração. Como pode falar assim? Quem pode perdoar os pecados senão só Deus? (v.8). Quando não se aceita a pessoa de Cristo facilmente se questionam e até condenam suas atitudes.

Ao final, Jesus, curando ao leproso, faz compreender aos escribas e fariseus que seu poder vai além do que podemos pensar e, segundo o texto, “Todos” (v.12) terminam assombrados e glorificando a Deus e afirmando que “Jamais se havia visto coisa parecida”. Quiséramos ter visto a reação dos escribas e fariseus ao sair da casa.

Aprofundemos com os nossos país na fé

São Pedro Crisólogo (cerca 406-450), bispo de Ravenne, doutor da Igreja

“Vendo a fé deles”

“Ele foi para a sua cidade; apresentaram-lhe um paralítico, deitado num catre” (Mt 9,1). Jesus, diz o Evangelho, ao ver a fé daquela gente, disse ao paralítico: “Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados”. O paralítico ouve este perdão e permanece mudo. Nem sequer agradece. Desejava a cura do seu corpo mais do que a da sua alma. Lamentava os males do seu corpo doente, mas os males eternos da sua alma, ainda mais doente, não os carpia. É que para ele a vida presente era mais preciosa do que a vida futura. Cristo tinha razão ao ter em conta a fé dos que lhe apresentaram o doente e não ter em nenhuma conta a patetice deste. Devido à fé doutrem, a alma do paralítico ia ser curada antes do seu corpo. “Vendo a fé deles”, diz o Evangelho. Notai aqui, irmãos, que Deus não se incomoda com o que querem os homens insensatos, não espera encontrar a fé nos ignorantes, não analisa os desejos tolos de um inválido. Em contrapartida, não recusa vir em auxílio da fé de outrem.

Esta fé é um presente da graça e ela concilia-se com a vontade de Deus

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  • Que nos diz a expressão de Jesus: Que é mais fácil dizer ao paralítico, teus pecados te são perdoados ou levanta-te, toma teu leito e anda?
  • Em que momentos nossa família ou comunidade há atuado como uma pequena comunidade salvadora de algum de seus membros? Que consequências teve esta atuação?
  • Recordo uma ocasião na qual eu tenha ajudado a salvar a uma pessoa com minha fé. Que ensinamentos tirei deste fato? Como é minha relação com essa pessoa?

SABADO

Marcos 2,13-17:

DEIXAR-SE CHAMAR.

“Não vim chamar a justos, mas a pecadores”

A liturgia de hoje nos apresenta o Evangelho da vocação de Levi. É um belo itinerário de seguimento de Jesus. Lendo detidamente o texto, se descobrem alguns aspectos que nos podem tocar profundamente.

O Evangelho nos diz que “Jesus ao passar viu Levi” (14) Seguramente Jesus já o havia visto antes em seu coração, como aconteceu com Natanael. Nesta ocasião Jesus passou e o “viu”. Seguramente Levi também “viu” Jesus.

Não sabemos si em seu coração intuía o chamado, porém também mirou Jesus nos olhos e isto fez possível o “segue-me”. Levi não olhou para outro lado, não baixou a vista. Olhou Jesus e deste cruzar de olhares surgiu o “segue-me”. Jesus sabia quem era Levi e não pensou duas vezes. Estava “sentado na coletoria de impostos” (14). Não era alguém sem identidade para Jesus como tampouco era alguém muito recomendável para os demais.

Três verbos seguidos: “segue-me”, “se levantou”, “o seguiu”. Não houve espaço nem tempo para a dúvida. Acaso Levi sabia aonde tinha que ir? Como uma vez Abraão se pôs a caminho talvez atrás de um desconhecido ou de alguém de quem só havia ouvido falar por referência.

Porém, algo o havia cativado. A força de seu olhar havia lhe tocado o coração e desde então, sentiu que algo novo e grande estava nascendo dentro dele. Como não levantar-se e segui-lo?

Porém, algo singular. Depois desse “segue-me”, na realidade foi Jesus quem seguiu a Levi, sim, até sua casa. Jesus nos chama para que o deixemos entrar em nossa vida. Caminhar com Jesus significa confiarmo-nos plenamente nas mãos dele.

Que curioso. Levi não pensou, ao convidar Jesus, que devia convidar ali os amigos que estivessem  à “altura” do visitante. Gente boa… Levi deixou que Jesus entrasse em seu mundo, sem aparentar. Como era. Não pensou nem sequer em perguntar a seus discípulos, a quem também deixou entrar, que seria o mais conveniente para esse encontro.

Também os discípulos entraram porque quando entra Jesus em uma vida, entra também a comunidade, entram seus amigos…

Tudo transcorria em calma até que se ouviu uma pergunta e desta vez vinha dos fariseus, que não se sentiram capazes de enfrentar Jesus e se dirigiram aos discípulos. Que? É o que come com os publicanos e pecadores?    E já sabemos a resposta. Trata-se da verdadeira necessidade. Um bom não necessita de médico, um enfermo sim.

Jesus mesmo o disse: “Não necessitam médico os que estão fortes, mas os que estão mal; não vim chamar justos, mas pecadores”. (17). Só o pecador que se sente necessitado da misericórdia de Deus poderá escutar sua palavra “segue-me”.

Aprofundemos com os nossos país na fé

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja

«São os doentes os que precisam de médico»

Há homens fortes… que põem a sua confiança na sua própria justiça.

De fato, pretendem ser justos por si mesmos e, tendo-se por pessoas honestas, recusaram o remédio

 e mataram o próprio médico.

Na realidade, não são esses homens fortes os que o Senhor veio chamar, mas os fracos…

Ai de vós, os fortes, que não tendes necessidade de médico!

A vossa força não vem da saúde mas da insensatez…

O Mestre da humildade, que partilhou da nossa fraqueza e nos tornou participantes da sua divindade, desceu do céu para nos mostrar o caminho e ser Ele mesmo o nosso caminho.

Quis, sobretudo, deixar-nos o exemplo da sua humildade… para nos ensinar a confessar os nossos pecados, a ser humildes paranos tornarmos fortes, e a fazer nossa aquela palavra do apóstolo Paulo: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Co 12, 10) … 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

  • Que queria dizer Jesus com a frase: “Não vim chamar justos, mas pecadores”?
  • Senti alguma vez em minha vida que Deus me chama a algo? Como foi minha resposta?
  • De que forma deixamos Jesus entrar em nossa realidade tal qual é e lhe permitimos que, chamando-nos nos salve?

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