LECTIO DIVINA NA 22ª SEMANA COMUM ANO A 2020

LECTIO DIVINA NA 22ª SEMANA COMUM – COMUNIDADE PAZ E BEM

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SEGUNDA-FEIRA, 31 DE AGOSTO DE 2020 – 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM A

Lucas 4,16-30 (Jesus em Nazaré) =Mt 4,12-17.23; Mc 1,14-15.39A pregação de Jesus, em Nazaré, inicia com um rito: entra na sinagoga, levanta-se para ler, entregam-lhe o livro e, ao abri-lo, encontra a passagem… (vv.16ss). O momento é muito solene e Lucas o sublinha com vigor: é uma característica que se pode detectar, com bastante facilidade, em todo o relato. A página profética é proclamada pelo próprio Jesus, que não tarda em dar a interpretação da mesma: «Hoje se cumpriu a passagem da Escritura que acabais de escutar» (v.11). Jesus é o verdadeiro profeta, inclusive o profeta escatológico (cf. Lc 16,16), porque a profecia que proclama se cumpre em sua pregação, em seus gestos, em sua pessoa. Por isso, seu tempo é um kairós – um tempo providencial para qualquer um que se abra, mediante a escuta e acolhida da mensagem que salva. E é a presença de Jesus, em pessoa, que justifica o valor deste «hoje» (v.21). Lucas registra, também, a reação dos presentes: em parte, positivamente espantados pelas coisas que dizia e pelo modo como as dizia (“palavras de graça»: v.22); em parte, negativamente impressionados e, por isso, críticos, com respeito ao próprio Jesus (vv.28ss). Como sempre, a reação à proposta de salvação é designo ambíguo e contraditório. Encontramos, a seguir, uma longa seção polêmica: Jesus percebe que o ânimo dos presentes está indisposto com respeito à sua pregação e apresenta dois provérbios: o do médico e o do profeta (vv.23.24), que deixam entender, com clareza, o que Jesus quer dizer. As duas referencias bíblicas – às viúvas­ dos tempos de Elias e aos leprosos do tempo de Eliseu (vv.25-27) – têm, também, o objetivo polêmico de confundir as disposições interiores dos presentes. Nada tem de estranho, portanto, que, ao final, Jesus seja objeto de uma reticência comum e da mais cega rejeição.

 

 

1 Cor 2,1-5 (sabedoria do mundo e sabedoria cristã) – Frente a uma comunidade que ameaça profanar a pureza da fé cristã com alguns princípios da mentalidade grego-pagã, Paulo sente o dever de ter que chamar a atenção de todos sobre o acontecimento central do cristianismo: o mistério pascal de Cristo, o Senhor. Em sustância, são três os pensamentos que remancha: «Só Jesus Cristo, e este crucificado» (v.2) constitui o acontecimento histórico que este entranhe fatiga por causa do dever de abandonar determinadas práticas que são contrarias ao caráter específico que temos de crer para che­gar à salvação. A mediação histórica que temos de acolher consiste na pregação, e esta se caracteriza por sua debilidade humana (“Me apresentei ante vós débil, assustado e tremendo de medo»: v.3) e não pela prepo­tente demagogia de certos pregadores de outros cami­nhos de salvação. Por último, é a fé, como acolhida da Palavra da cruz, a que revela o poder do Deus que salva. A vida cristã não conhece outras características, e o apóstolo intervém com todo o peso de sua autoridade para reconduzir os cristãos de Corinto ao caminho reto, ainda da fé em Cristo. Estes três acontecimentos – Cristo crucificado, a pregação apostólica e a fé – mantém entre si uma ordem hierárquica: Paulo é muito consciente disso, e o experimentou pessoalmente no caminho de Damasco no dia de sua conversão. Sem dúvida, desde o ponto de vista histórico, a mensagem de Cristo crucificado chega aos potenciais crentes por meio da pregação apostólica, que se concentra e se consome na proposição da mensagem pascal de Cristo morto e ressuscitado: É precisamente neste momento providencial quando, segundo Paulo, se manifesta e se torna eficaz a «demonstração do poder do Espírito» (v.4), que invade tanto ao que evangeliza como aos que são evangelizados.

 

Salmo 118/119 (Elogio da lei divina) – Esta é uma oração sem fim. Provavelmente é obra não só de uma pessoa, mas de várias, que elogiam por meio de muitos artifícios literários a Palavra de Deus, a lei do Senhor, como fundamento de todo o agir humano. É um Salmo belíssimo que deve ser “saboreado” lentamente, um versículo por dia. Assim, teremos por mais de meio ano assegurado a nossa meditação. Deus se comunica conosco não para nos oprimir ou dominar, mas para ensinar-nos os caminhos mais fáceis da felicidade. Felizes os que vivem a Palavra de Deus e a ensina. Medite dia a dia este Salmo e sua vida, sem dúvida, será diferente, sendo fortalecida não por palavras humanas, mas pela Palavra de Deus.

Senhor, não quero fugir de tua Palavra nem desprezá-la. Quero amá-la como Lâmpada para os meus pés e luz no meu caminho. “Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho. Jurei, e o confirmo guardar tuas justas normas. Meu sofrimento passa dos limites, Senhor, dá-me vida segundo tua palavra. Senhor, aceita as ofertas dos meus lábios, ensina-me tuas normas. Minha vida está sempre em perigo, mas não esqueço a tua lei. Os ímpios me armaram laços, mas não me desviei de teus preceitos. Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração. Inclinei meu coração a cumprir teus estatutos, desde agora e para sempre” (Sl 119, 105-112). Amém.

 

 

MEDITATIO: Nesta liturgia da Palavra, tanto Paulo como Lucas tocam no tema da pregação. Este se situa no início do caminho da fé que, por sua própria natureza, leva à salvação. É esta uma ocasião propícia para deter-nos no valor teológico da pregação, entendida como ato litúrgico que, enquanto tal, participa da economia sacramental. Esta economia sacramental nos é dada através dos sinais litúrgicos, os quais «realizam o que significam» e, entre eles, temos de enumerar, certamente, a pregação. A pregação é, sobretudo, um acontecimento de graça. Como os habitantes de Corinto e contemporâneos de Elias e Eliseu e de Jesus, também nós, nos encontramos, não ante um acontecimento puramente humano, ainda que, em ocasiões, seja digno de admiração, mas ante um gesto que, mesmo em meio a debilidade, é portador de uma mensagem do além, ou de Deus, e de uma graça que vem do alto. A pregação cristã se vale das profecias do Antigo Testamento, mas se situa no presente histórico: «Hoje se cumpriu a passagem da Escritura que acabais de escutar». A referencia aos tempos passados não é, obviamente, um recurso de cultura, mas memória atualizadora de algumas profecias que contêm uma promessa divina. De modo semelhante, a referência ao presente histórico não é violência à liberdade dos indivíduos, mas um convite autorizado a não prescindir da Palavra de Deus, seja por preguiça ou indiferença. Por último, a pregação apostólica se encontra no início de um itinerário de fé que Paulo, entre outros, se encarrega de traçar, também nos dois primeiros capítulos de sua 1ª carta aos tessalonicenses. Quem tiver a paciência de lê-los encontrará neles um esboço completo da «teologia da pregação». De todos os modos, aconselhamos a avaliar, ou pesar, o “tudo isto” que escreve São Paulo em 1 Ts 2,13: «Por tudo isso, não cessamos de dar graças a Deus, pois, ao receber a palavra de Deus que vos anunciamos, a abraçastes, não como palavra de homem, mas como o que é, em realidade…».

 

ORATIO: Senhor, falaste ontem, porém, surdos a tua mensagem de salvação, «todos os que estavam na sinagoga se encheram de indignação». Segues falando, hoje, para proclamar, de novo, o amor do Pai, que nos liberta de toda opressão, porém, poucos te escutam e te aceitam. Falarás amanhã, e teu anuncio seguirá sendo de novo incômodo, e muitos tentarão afastar-te. Por que? Tua Palavra, Senhor, só encontra morada em um co­ração aberto ao Espírito e à surpreendente novidade de teu Evangelho: ao que anuncia lhe é indispensável um coração impregnado de verdade, livre de medos, de objetivos pessoais, de pressões inúteis; estar preo­cupado, unicamente, em fazer conhecer ao Pai e seu amor ilimitado pela humanidade; ao que escuta lhe é indispensável ter um coração desejoso de conhecer ao Senhor, que passa e o convida. Tua Palavra, Senhor, tem, sempre, em si mesma, o poder de curar e de libertar: contanto que seja acolhida livremente, nos transforma por dentro e opera maravilhas.

 

CONTEMPLATIO: Dai-vos conta, irmãos, do perigoso que po­de resultar calar-se? O malvado morre, e morre com razão; morre em seu pecado e em sua impiedade, porém, o tem matado a negligencia do mal pastor. Pois, poderia ter encontrado o pastor que vive e que diz: Por minha vida, oráculo do Senhor. Porém, como foi negligente o que recebeu o encargo de admoestá-lo e não o fez, ele morrerá com razão, e com razão se condenará o outro. Ao contrário, como diz o texto sagrado: «Se advertes ao ímpio, ao que eu tivesse ameaçado com a morte: És réu de morte, e ele não se preocupa de evitar a espada ameaçadora, e vem a espada e acaba com ele, ele morrerá em seu pecado, e tu, ao contrário, terás salvo a tua alma». Por isso, precisamente, a nós, nos toca não calar-nos, mas vós, no caso de que nos calemos, não deixeis de escutar as palavras do Pastor nas Sagradas Escri­turas (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Um grande profeta surgiu entre nós» (Lc 7,16)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL– Quando se fala de ciência da cruz, não temos de entender a palavra ciência no sentido habitual. Não se trata de uma teoria, ou seja, de um simples conjunto de proposições verdadeiras, reais ou hipotéticas, nem de uma construção ideal embutida pelo processo lógico do pensamento. Trata-se mais de uma verdade já admitida, uma teologia da cruz, mas que é uma verdade viva, real, ativa. É semear na alma como um grão de trigo que lança raízes e cresce dando a alma uma marca especial e determinante em sua conduta, até o ponto de resultar claramente discernível no exterior. Neste sentido é que […] falamos de ciência da cruz. Deste estilo e desta força – elementos vitais que atuam no mais profundo da alma – brota também a concepção da vida, a imagem que cada homem faz de Deus e do mundo, de modo que tais coisas possam encontrar sua expressão em uma construção intelectual, em uma teoria […]. [Não obstante], só se chega a possuir uma ‘scientia crucis’ quando experimentamos a cruz até o fundo. Disso esteve convencida desde o primeiro momento, por isso disse de coração: Ave crux, spes única (Edith Stein, Scientia crucis)

 

TERÇA-FEIRA, 01 DE SETEMBRO DE 2020- 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Lucas 4,31-37 (Jesus ensina em Cafarnaum e cura um endemoninhado) – O trajeto que separa Nazaré de Cafarnaum é, re­lativamente, curto, e Jesus o percorre com o objetivo de ensinar e curar. Estes são os dois mo­dos, segundo Lucas, com os quais Jesus mostra a autoridade, da qual está investido. A palavra de Jesus é uma palavra eficaz: realiza o que significa. Os gestos de Jesus são terapêuticos: levam consolo e vida a todos os que os necessitam. As palavras e os gestos são o tecido conectivo de todo o Evangelho: Lucas o afirma tanto em Lc 24,19 como em Atos 1,1. No fragmento de hoje, que dá tes­temunho do começo do ministério público de Jesus, encontramos uma confirmação, mais que evidente, do que dizemos. Jesus quer ser escutado e acolhido pelo homem, por cada homem, por todo o homem: por isso, fala ao seu coração e, ao mesmo tempo, cura seu corpo. A eficácia da Palavra de Jesus se traduz em uma intervenção de libertação: um pobre enfermo é libertado de um demônio imundo. Começa assim o combate frontal entre Jesus e o demônio, algo necessário para que Jesus possa manifestar, a cada pessoa, que Ele veio como salvador, no sentido mais cabal do termo, isto é, como o que redime do reino de satanás e nos resgata para Deus e para seu Reino. Bom será destacar, por ultimo, dois efeitos secundários da intervenção de Jesus: com este modo suscita “assombro” (v.36), em alguns casos, e sua fama se difunde por toda a comarca. É possível que aqui se entenda o assombro, o sentimento de estupor e temor que assalta a toda criatura frente à manifestação do mistério de Deus: tremendo e fascinante

 

 

I Cor 2,10b-16 (Sabedoria do mundo e sabedoria cristã) – Paulo, querendo aprofundar em seu próprio pensamento, afirma que nenhuma pessoa, contando somente com suas próprias forças, pode conhecer a Deus, nem, tampouco, o mistério da salvação, que quer entregar a nós to­dos. Tudo é graça e, só por graça, podemos participar na salvação. Isto é possível porque temos a revelação do Pai; e mais, por meio de Cristo podemos dizer que conhecemos, em certo modo, até os segredos de Deus, e nossa linguagem, apoiada pelo Espírito Santo, consegue balbuciar algo verdadeiro e autêntico do que se refere à vida de Deus. Mas, nós temos re­cebido, também, o Espírito que vem de Deus, quer dizer, o dom de Deus por excelência, do qual nos vem o dom da sabedoria. Deste modo entramos em sintonia com a mensagem revelada; mais ainda, se estabelece uma simpatia entre nós e tudo o que nos é comunicado. Quem não acolhe este dom não o saboreia a fundo e não pode compreender o mistério, os segredos de Deus, mas que fica escandalizado.      O que deveria ser sabedoria se converte, para eles, simplesmente, em loucura. Por último, nós possuímos, também, «o modo de pensar de Cristo» (v.16), a saber: estamos iluminados pela luz do Evangelho, sobre o qual compraz, a Deus, simplesmente, porque é verdadeiro, justamente porque tem se realizado em Cristo Jesus: em sua vida terrena e, de modo especial, em sua morte e ressurreição. Possuir o modo de pensar de Cristo é uma expressão carregada de significado apocalíptico, quer dizer, revelador, e não deve ser entendida em uma acepção basicamente ética.

 

 

MEDITATIO: A primeira leitura desta liturgia da Palavra suscita em nós uma pergunta: que significa, concretamente, a expressão “nós possuímos o modo de pensar de Cristo»? Vale a pena que nos detenhamos na busca do sentido profundo que, certamente, está escondido nesta frase paulina. À luz da citação de lsaias 40,13, é certo que ninguém pode dizer que conhece o pensamento do Senhor-Deus. Encontramo-nos ante essa teologia negativa – que prefere calar antes que falar- cultivada antes e também, agora, sobretudo pelos místicos e os contemplativos. Mas, a referência a lsaias 64,3, que encontramos em 2,9, nos faz saber que Deus tem preparado (isto é, revelado), para aqueles que lhe amam, coisas que o olho humano nunca viu, nem o ouvido humano jamais ouviu. Assim, pois, por divina benevolência, se fez possível ao homem o que é humanamente impossível. Deste modo, se abre ante nós uma nova via de conhecimento. Graças aos dons divinos que caracterizam os tempos de Jesus, sobretudo graças aos dons do Espírito Santo, se desentranha ante nós um horizonte novo, sobre o qual podemos conhecer o que compraz a Deus e reconhecê-lo com alegria interior. Como filhos no Filho, como ouvintes da Palavra, como discípulos do Evangelho, podemos dizer muito bem como Paulo, que «possuímos o modo de pensar de Cristo»: não porque o tenhamos descoberto com nossa inteligência, mas porque o temos acolhido com alegria. Após a esteira de ls 55,9, talvez possamos dizer que os pensamentos de Cristo não são nossos pensamentos e que nossos caminhos não são seus caminhos; sem dúvida, apoiados sobre o fundamento das palavras de Paulo, nós podemos alimentar certezas que conhecem a solidez da rocha.

 

ORATIO: Ó Senhor, teus planos são inescrutáveis. Tomaste um assassino, como Paulo, para difundir o teu nome, elegeste um pescador, como Pedro, para fazê-lo chefe de tua Igreja, buscaste uma adúltera para manifestar tua misericórdia. Ó Senhor, teus caminhos são misteriosos! Agostinho segue sendo um exemplo de conversão para os atormentados e encalhados no mal. Francisco, de libertino, se fez promotor da paz; Gorbachov, o comunista, se converteu em teu instrumento para acabar com a guerra fria. Ó Senhor, teus gestos são loucuras para a sabedoria humana! Assumes a debilidade de uma criança para destruir os poderosos; dás a outra face a quem te golpeia e perdoas a quem te ofende; morres para dar a todos a vida e a salvação. Ó Senhor, és realmente incompreensível! Sem dúvida, à luz do Espírito, também eu, posso conhecer, em meio de minhas muitas vicissitudes, a presença de teu amor e dizer: tudo é graça.

 

CONTEMPLATIO: “Peço-te que penses que o nosso Senhor Jesus Cristo é, realmente, a tua cabeça, e que tu és um de seus membros. Ele é, para ti, como a cabeça é para com os membros; tudo o que é seu é teu: o espírito, o coração, o corpo, a alma e todas as suas faculdades, e tu deves usar de tudo isso como de algo próprio, para que, servindo-o, o exaltes, o ames e o glorifiques. Quanto a ti, tu és para Ele como os membros para com a cabeça, pelos quais Ele deseja, intensamente, usar de todas as tuas faculdades como se fossem pró­prias, para servir e glorificar ao Pai. E Ele não é, para ti, só isso que temos dito, mas, que, além do mais, quer estar em ti, vivendo e dominando, em ti, do mesmo modo que a cabeça vive em seus membros e os governa. Quer que tudo o que há nele viva e domine em ti: seu espírito em teu espírito, seu coração em seu coração, todas as faculdades de sua alma nas tuas, de modo que, em ti, se realizem aquelas palavras: Glorificai a Deus com vosso corpo, e que a vida de Jesus se manifeste em vós. Igualmente, tu não só és para o Filho de Deus, mas que deves estar nele como os membros estão na cabeça. Tudo o que há em ti deve ser enxertado nele, e dele deves receber a vida e ser governado por Ele. Fora dele tu não encontrarás a vida verdadeira, já que Ele é a única fonte de vida verdadeira; fora dele tu não encontrarás senão a morte e a destruição. Ele deverá ser o único princípio de todas as tuas atividades e de todas as tuas energias” (João Eudes, Tratado sobre o admirável Coração de Jesus, 1,5).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Nós possuímos o modo de pensar de Cristo» (I Cor 2,16)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Esta simples experiência me proporcionou uma alegria muito profunda, visto que supõe que Jesus me mostrava que aquele a quem amamos e adoramos no Santíssimo Sacramento é aquele a quem amamos e a quem servimos nos mais pobres entre os pobres. Nossa adoração ao Santíssimo não tem valor se descuidamos de Jesus, presente também no ultimo de nossos irmãos, no mais pobre entre os pobres, no mais pecador entre os pecadores, no mais débil entre os débeis. Na manhã seguinte relatei tudo à nossa madre Teresa, a qual me confirmou que essa era, em verdade, a experiência de nosso carisma. Qualquer coisa que façamos ao ultimo destes seus irmãos é como se a fizéssemos a Ele, e nos recompensa, por isso, duas vezes, aqui na terra e com a vida eterna nos céus. Nossa madre Teresa nos dizia sempre: “As nossas são humildes palavras de amor dirigidas aos mais pobres entre os pobres na obra de Deus; não somos trabalhadores sociais, mas contemplativas que vivem no coração do mundo” (irmã Mary Nirmala Joshi, sucessora de madre Teresa de Caucutá).

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 02 DE SETEMBRO DE 2020- 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Lucas 4,38-44 (Cura da sogra de Pedro; Diversas curas) =Mt 8,14-17;Mc 1,29-34

Esta página evangélica apresenta dois pontos muito distintos: de um lado, a cura da sogra de Simão Pedro, no marco de outras curas (vv.38ss e 40ss); de outro, a autoconsciência de Jesus sobre sua missão evangelizadora (v.43). Enquanto no primeiro é oportuno destacar que a cura habilita para o serviço: em geral, Lucas gosta de trazer à luz este binômio. É, também, obrigado a explicitar o fato de que as curas dos enfermos, enquanto libertação do demônio, convertem-se em ocasião de autênticas profissões de fé cristológica (ver v.41, e também no texto precedente v.34). Pouco importa que sejam os demônios que professem esta fé (alguém os tem caracterizado também como «os teólogos de Jesus»). No segundo, Lucas se converte em testemunho e intérprete de dois fatos fundamentais: a evangelização como característica essencial do cristianismo, e a consciência messiânica de Jesus, que explora, sobretudo a necessidade que tem de anunciar o Reino, como necessidade providencial, porque está inserida no desígnio salvífico de Deus. Jesus, por sua parte não pode subtrair-se a este dever concreto, porque essa é sua missão: «Porque para isto fui enviado» (4,43; cf. também Lc 10,16).

 

 

I Cor 3,1-9 (Sabedoria do mundo e sabedoria cristã; a verdadeira função dos pregadores)- A leitura começa com uma clara distinção entre “gente imatura” e homens que “possuem o Espírito” (v.1). A primeira expressão, segundo Paulo, se refere a pessoas entregues às suas próprias forças e guiadas por critérios humanos: pessoas que poderiam ser qualifica­das de «subdesenvolvidas», do ponto de vista espiritual, talvez, também, como pessoas que não experimentaram, ainda, a plenitude da vida. Os homens que possuem o Espírito são aqueles que, de um modo livre e consciente, entraram numa no­va mentalidade, num modo de vida que compartilha a novidade de Cristo. Como se manifesta a imaturidade de alguns cristãos? Deleitam-se em criar partidos, em semear discórdias e invejas. Procedendo assim, em vez de contribuir para edificar a comunidade, tendem a destruí-la, e não só com os pensamentos que alimentam, mas, também, e, sobretudo, com as atitudes que assumem. Sem dúvida, prossegue o apóstolo, a todos lhes é possível viver e comportar-se como homens que «possuem o Es­pírito», com a condição de que compreendamos bem quem é Paulo e quem é Apolo: ministros (isto é, servos), simples colaboradores de Deus. A iniciativa da salvação corresponde só ao Senhor, só a Ele pertence o mérito e a honra. Portanto, é preciso saber e reconhecer que o protagonista, mais ainda, o único verdadeiro realizador da salvação, é Deus. Ele é quem faz crescer o que os servos se limitaram a plantar e a regar. É Ele quem salva a todos os que, mediante a escuta da pregação, se abrem ao diálogo que leva ao descobrimento da verdade. Também é preciso respeitar a ordem hierárquica entre os agentes que colaboram na obra da salvação: Deus está sempre em primeiro lugar; depois, todos os demais. Por sua parte, Paulo está sinceramente disposto a pôr-se no último lugar.

 

Salmo 32/33 (Hino à providencia) – A grande diferença entre o nosso Deus vivo de Israel e os outros “deuses” é que o nosso vê, contempla e sente-se envolvido no processo de sua libertação. O Senhor viu o sofrimento e ouvi os gritos do seu povo, por isso decidiu libertá-los. Não é um Deus estranho ou que se esconde, sendo oposto aos “deuses”, que não estão preocupados conosco e brigam entre eles para ter a primazia e o poder. Como é bom saber que Deus nos vê, nos contempla e participa tanto de nossa história a ponto de enviar o seu único Filho para morrer por nós.

Senhor, olha em cada momento para mim a fim de que a tua graça e a tua força me sustentem, e que eu nunca me deixe seduzir pelas riquezas, pelo poder, pela violência, mas em cada momento viva o dom do seu amor sob o teu olhar misericordioso. Amém.

 

 

MEDITATIO: Evangelização e nova evangelização (esta última expressão se repete agora de modo explícito em nosso vocabulário) são termos bastante difundidos em nossos dias. Fala-se também, de um modo bem espontâneo de evangelizar as culturas ou de inculturar a fé. É possível clarear estes termos, à luz do texto que lemos hoje? Penso que sim. «Devo anunciar»: em primeiro lugar, requer uma sacudida que desperte a consciência de todo cristão à inadiável tarefa de ser testemunha do Evangelho em todas as situações da vida. Também o Vaticano II sublinhou e afirmou esta necessidade e quis fundamentá-la no ato sacramental do Batismo. Podemos remeter-nos à Lumen gentium ou à Apostolicam actuasitatem (2 e 3 respectivamente): «Devo anunciar a Boa Noticia de Deus»: parece indispensável recordar que o objeto da evangelização não é a Igreja, mas, sim, o Reino: este sendo entendido, não num sentido puramente local, que se tivesse que entrar num determinado lugar, dentro dum recinto bem estabelecido; mas entender, bem mais, num sentido espiritual, destinado a assinalar, primeiro, a soberania de Deus, à qual estamos submetidos, e a comunidade de salvação que caminha para o Reino. «Para isto fui enviado»: é como dizer que não há evangelização sem missão. Não é indispensável uma missão apostólica; é suficiente referir-se, como faz o Vaticano II, ao batismo e à vocação que abraçamos. Deles nos vem, não só o direito a sermos servidores da Palavra, aqui e agora, mas também recebemos as energias espirituais necessárias para tal missão.

 

ORATIO: Senhor Jesus, liberta-me da inveja que mina meu crescimento e relação pessoal. O forte desejo de ter o que pertence aos outros cria divisões e rivali­dades; liberta-me dos sentimentos que desencadeia frus­tração, cólera e rancor, sentimento que contaminam a vida alheia e envenena a própria. Concede-me, ao contrário, a liberdade que não teme as críticas, nem quer atrair as honras.      Ó Senhor, faz que tenha sempre ante minha tua divisa trinitária: «Um para todos».

 

CONTEMPLATIO: A Igreja sabe. Ela tem viva consciência de que as palavras do Senhor: «É preciso que anuncie tam­bém o Reino de Deus em outras cidades», se aplicam, com toda verdade, a ela mesma. E, por sua parte, ela acrescenta de bom grado, seguindo São Paulo: «Porque, se evange­lizo, não é para mim motivo de gloria, mas que se me im­põe como necessidade. Ai de mim, se eu não evangelizar!». Com grande gozo e consolo temos escutado, ao fi­nal da assembleia de outubro de 1974, estas palavras luminosas: «Nós queremos confirmar, uma vez mais, que a tarefa da evangelização de todos os homens constitui a missão essencial da Igreja»; uma tarefa e missão que as mudanças amplas e profundas da so­ciedade atual fazem, cada vez mais, urgentes. Evangelizar constitui, de fato, a riqueza e vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, quer dizer, para pregar e ensinar, ser canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus, perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa, memorial de sua morte e ressurreição gloriosa. Vínculos recí­procos entre a Igreja e a evangelização (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 14).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Nós somos colaboradores de Deus» (1Cor 3,9)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Segundo um conto que aparece no Talmud, Deus queria dar sua Torá aos romanos, porém estes não a quiseram, porque uma lei que proibia matar e vingar-se era por demais contrária à suas inclinações. Então Deus ofereceu a Torá aos gregos, porém estes não quiseram uma lei que proibia desejar à mulheres e cometer adultério. Mais tarde ofereceu a Torá aos persas, porém estes nada quiseram saber de uma lei que impõe a verdade. E assim Deus teve que dar aos pobres judeus. É um fato que a consciência de Israel não é uma consciência triunfalista. Sabem que são os servos de Deus; que dele receberam o dom da Torá, porém este dom é uma hipoteca, é um compromisso. O concilio fala do caráter profético dos cristãos, de seu caráter real e de seu caráter sacerdotal, e este caráter, que todo cristão possui e deve exercer em serviço aos outros é resultado da comunicação que Deus tem feito a seu povo (P. Rossano, “Speranza e storia dal punto di vista bíblico”, en E. Gandolfo, Speranza e storia).

 

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 03 DE SETEMBRO DE 2020 – 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Lucas 5,1-11 (Vocação dos quatro primeiros discípulos) =Mt 4,18-22; Mc 1,16-20

Em primeiro lugar, Lucas nos faz ver que a multidão escutava «a Palavra de Deus” (v.2). Esta expressão nos remete ao contexto eclesial, para o qual Lucas escreve seu evangelho: trata-se de uma comunidade que vive sua fé, pondo, no centro dela, precisamente, «a Palavra de Deus”, isto é, Jesus como Palavra de revelação e a pregação apostólica, ao mesmo tempo. Lucas põe, deste mesmo modo, de relevo, que Jesus “sentou-se e ensinou” (v.3b): também esta nota nos leva a considerar o relato evangélico como intimamente ligado à vida da primitiva comunidade cristã, na qual era normal, e continuo, a passagem da evangelização à catequese. “Visto que tu o dizes, lançarei as redes” (v.5b): Lucas quer ressaltar, aqui, a autoridade da Palavra de Jesus; mais ainda, a suprema autoridade que esta encarna. Sabemos, de fato, que toda palavra que saía da boca de Jesus estava dotada – não só para os apóstolos, mas também para a multidão, de uma particular autoridade: Que palavra a deste homem! Manda com autoridade e poder (4,36). “Deixaram tudo e o seguiram» (v.11): esta expressão nos recorda o radicalismo evangélico, que Lucas ilustrará, também através do relato dos Atos e, também, em diferentes momentos da narração evangélica. Nesta página, Lucas quer indicar-nos que o seguimento de Jesus implica um radicalismo, não só na opção pessoal, mas também na decisão de separar-se de tudo o que, de um modo ou outro, possa diminuir a força da adesão a Jesus.

 

 

 

I Cor 3,18-23 (Conclusões) – Paulo retoma a reflexão sobre o binômio “sabedoria/insensatez» e a completa com duas referencias do Antigo Testamento: sua atenção havia se concentrado na insensatez da pregação (1,18.21) e na insensatez da cruz (1,23), assim como na insensatez da fé (2,5). Agora se dilata o discurso e se aplica à vida cristã como tal. De fato, o «viver em Cristo», em seu conjunto, inclui o compromisso de assumir a novidade de vida que Cristo pregou e que anuncia sua cruz, ainda quando esta opção pareça contraditória e escandalosa ao mundo em que vivemos. Em seguida, Paulo aperfeiçoa o discurso sobre a escala de valores e o faz com uma expressão muito rica e eloquente: «Tudo é vosso» (v.22b): temos de assinalar que aqui não se faz referencia a Paulo, Apolo ou Cefas, mas a todo crente e à comunidade dos mesmos. O pen­samento de Paulo é claro e inequívoco: os primeiros e últimos destinatários da mensagem salvífica não são os ministros, mas todos os que acolhem a mensagem da pregação. «Mas vós sois de Cristo» (v.23a): todos, vós e nós, pertencemos, disse o apóstolo, a Cristo, pela fé. Esta consciência tiveram, já, os pri­meiros cristãos, quando, em Antioquía de Siria, recebe­ram o nome de cristãos (cf. At 11,26), e é algo que pertence ao depósito da fé cristã. Ser de Cris­to significa ter uma relação especial com Ele, em virtude do chamado recebido, da Palavra escutada, do dom da graça acolhida. «E Cristo é de Deus» (v.23b): aqui encontramos reafirmado de novo o primado de Deus Pai, origem e fim de tudo e de todos. Deste modo delineia o apóstolo ante nós um itinerário teológico persuasivo e cativador.

 

Salmo 23/24 (Liturgia de entrada no santuário) – Subir a montanha do Senhor é o nosso grande ideal. E os Salmos são como guias para essa aventura: mostram-nos os caminhos que devemos seguir para alcançar o topo e, então, contemplarmos a glória do Senhor. Nunca devemos nos esquecer que o Senhor revela-se em experiência durante a noite, na montanha e no deserto. São lugares nos quais nos encontramos sozinhos com aquele que nos ama com Amor de Pai.

Senhor dá-me a coragem de me despojar de todo o peso que me impede de subir a montanha; liberta-me dos ídolos do egoísmo e de toda superstição. Que a palavra de Jesus seja para mim programa de vida. Não se pode servir a dois senhores, ou se amará um, ou o outro. Quero sempre estar diante de Ti, Senhor, em adoração e amor. Amém”.

 

MEDITATIO: A vocação dos primeiros discípulos, com o relevo dado à figura de Simão Pedro, merece uma ulterior atenção. Parece, de fato, que é possível assinalar algumas passagens que destacam este peculiar encontro entre Jesus e Simão Pedro. Não será difícil reconhecer, neles, alguns traços de nossa experiência de vida cristã: Uma passagem da decepção à confiança: um esperto pescador, como Pedro, sabe que, depois de certas noites de pesca, não se pode esperar grande coisa. A experiência constitui, também, para nós, um ponto de referencia seguro para nossas eleições, com respeito a certas decisões. Sem dúvida, Pedro dá crédito à Palavra de Jesus e se confia a sua eficácia. Uma passagem do estupor ao reconhecimento de seu ser pecador: a consciência de Pedro se ilumina, em pleno dia, pelo contato vivo com Jesus, e não só pelo milagre que teve lugar. É certo, que o milagre sacode a consciência e a interpela de um modo drástico, porém, a referencia principal e última se dirige à pessoa de Jesus, frente ao qual, Pedro reconhece que é um pobre pecador, como todos. Uma passagem de pecador a pescador de homens: Pedro adverte que Jesus entrou em sua vida, não só para atraí-lo para si, mas para ganhar, através dele, outras pessoas para a novidade da vida cristã. Sua profissão de pescador fica transformada de agora em diante. Uma passagem do deixar tudo ao seguimento de Jesus: como lemos com frequência no relato evangélico, toda vocação se qualifica, não tanto pelo que se deixa como por aquilo, ou aquele, ao qual se adere. Também Pedro advertiu desta necessidade e não trapaceou ao tomar sua decisão.

 

ORATIO: Senhor, seduziste-me e eu me deixei seduzir. Buscava algo significativo em meio de uma vida fácil, mas sem valor, em meio do aborrecimento mortal de tantos dias sempre iguais. Teu amor arcano e misterioso me atemorizava e por isso resisti durante vários anos até que uma insatisfação insuportável arrastou-me à tua irresistível sedução. Deste-me uma nova forma de vida, manifestando-me uma missão que, desse mesmo momento em diante, tem sustentado toda minha vida, ainda que em meio de contradições absurdas e situações difíceis, impossíveis de viver, do ponto de vista humano. Seguir-te supôs uma maravilhosa oportunidade para Pedro, para mim e todos os que foram chamados. Em efeito, como afirma Victor Frankl, ter um “porque na vida permite fazer frente a qualquer como”.

 

CONTEMPLATIO: O Senhor Jesus, antes de sua paixão, como sabeis, elegeu seus discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos. Entre eles, Pedro foi o único que representou a totalidade da Igreja, quase em todas as partes. Por isso, enquanto que ele representava só, em sua pessoa, a totalidade da Igreja, pôde escutar estas palavras: Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus (Mt 16,19). Porque estas chaves as recebeu, não um único homem, mas a Igreja única. Dai a excelência da pessoa de Pedro, enquanto ele representava a universalidade e a unidade da Igreja, quando se lhe disse: Eu te entrego, tratando-se de algo que foi entregue a todos. Pois, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do Reino dos Céus, escutai o que o Senhor disse, em outro lugar, a todos os seus apóstolos: Recebei o Espírito Santo. E a seguir: A quem lhes perdoais os pecados lhes ficam perdoados; a quem os retiverdes ficaram retidos (Jo 20,22ss). Neste mesmo sentido, o Senhor, depois de sua ressu­rreição, encomendou, também a Pedro, suas ovelhas para que as apascentasse. Não é que ele fosse o único dos discípulos que tinha o encargo de apascentar as ovelhas do Senhor; é que Cristo, pelo fato de referir-se a um só, quis significar, com isso, a unidade da Igreja; se, se dirige a Pedro, com preferência aos demais, é porque Pedro é o primeiro entre os apóstolos. Não te entristeças, apóstolo; responde uma vez, responde duas, responde três. Vença, por três vezes, tua profissão de amor, já que por três vezes o temor venceu tua presunção. Três vezes tem que ser desatado o que por três vezes havias ligado. Desata, pelo amor, o que havias ligado, pelo temor (Santo Agostinho, Sermão 295, 1-2.4.7ss).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Cor 3,23)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – “Não digo isso”, replicou Francisco. “Porém parece-me que é difícil aceitar a realidade. Em verdade, ninguém a aceita em pedaços. Aspiramos sempre a acrescentar, em certo modo, um palmo a nossa estatura. Este é o fim de quase todas nossas ações. Inclusive quando cremos trabalhar pelo Reino de Deus, não buscamos outra coisa que fazer-nos grandes, até o dia em que, derrotados, não nos resta mais que esta única desmesurada realidade: Deus existe. Então descobrimos que só ele é onipotente, que só ele é santo, que só ele é bom. O homem que aceita esta realidade e se compraz nela, encontra a serenidade em seu coração. Deus existe e é tudo. Passe o que passar, Deus existe e existe a luz de Deus. Basta com que Deus seja Deus. O homem que aceita integralmente a Deus se torna capaz de aceitar a si mesmo. Liberta-se de toda vontade particular. Já nada atrapalha nele o jogo divino da criação. Sua vontade há se tornado mais simples e, ao mesmo tempo, extensa e profunda como o mundo. A simplicidade e pura vontade de Deus que abarca e acolhe tudo” (E. Leclerc, Sapienza di um povero, Milán 1978, p.145).

 

 

SEXTA-FEIRA, 04 DE SETEMBRO DE 2020- 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Lucas 5,33-39 (Discussão sobre o jejum) =Mt 9,14-17; Mc 2,18-22Daqui em diante a liturgia da Palavra apre­senta três textos que relatam três polêmicas entre Jesus e os discípulos de João Batista e com os fariseus: uma tem que ver com a prática do jejum e duas com a observância do sábado. Sabemos que a esmola, a oração e o jejum constituem três compromissos irrevogáveis para os discípulos de Cristo (cf. Mt 6,1-18), mas o que importa a Jesus é o modo como seus discípulos aceitam dar esmola, orar e jejuar. Também este texto confirma a importância do espírito com o qual o jejum pode e deve ser praticado. A alegoria matrimonial nos impulsiona a considerar a Jesus como «o esposo» (vv.34ss), cuja presença, hoje, não pode deixar de ser considerada como motivo de alegria, e cuja ausência, amanhã, será, certamente, motivo de tristeza. A espiritua­lidade cristã não poderá separar-se nunca de algumas expressões pessoais que podem configurar nossa relação, não só de filhos com seu pai, mas tam­bém de esposa com esposo. Sabemos que, desde o Antigo Testamento, tem se desenvolvido, amplamente, a alegoria matrimonial, para iluminar, tanto as relações de Israel com seu Senhor como as relações de todo cre­nte com seu Deus. Não é difícil ver que se distingue aqui com bastante claridade os tempos de Jesus dos tempos da Igreja (é esta uma perspectiva fortemente lucana, como, por outro lado, muitos exegetas puseram de relevo). A Igreja está representada pelos convidados que participam da alegria do esposo; sem dúvida, em outras ocasiões, está representada pela esposa ou pelo amigo do esposo, que está próximo dele e o escuta (cf Jo 25,30).

 

 

1 Cor 4,1-5 (Conclusões) – Na comunidade cristã de Corinto havia alguns que começavam a contestar a legitimidade e a autenticidade do ministério que Paulo exercida entre eles e sobre eles. Primeiro, diz Paulo: somos «ministros de Cristo», isto é, servidores, servos: nada más (v.1a). Vem-nos, espontaneamente, à mente recordar aquelas palavras de Jesus aos apóstolos: «Assim também vós, quando tenhais feito o que se vos mande, dizei:”Somos servos inúteis; fizemos o que tínhamos que fazer”(Lc17,10).Este traço inicial prova a identidade do apóstolo e o define em relação a Cristo, que o chamou. Somos também «administradores dos mistérios de Deus» (v.1b), isto é, «ecônomos», porque somos res­ponsáveis da oikonomía que vê operando tanto a  Deus, que dispensa seus mistérios, como aos apóstolos, que hão sido chamados a dar o que hão recebido. Este se­gundo traço caracteriza o ministério apostólico com respeito aos fieis, que têm direito a receber o que Deus, pelas mãos de seus ministros, dispensa a mãos cheias. Aos ministros e administradores se lhes pede que sejam «fieis» (v.2): o termo grego empregado pode aludir à fidelidade pessoal do apóstolo respeito a seu Senhor, porém expressa, sobretudo, a fidelidade do servo a seu serviço ou, melhor ainda, àquele que lhe chamou para este serviço. Por último, o apóstolo se sente submetido só ao julgamento de Deus (vv. 3ss): daqui podemos coligir a extrema liberdade de Paulo frente a todos, ainda que não respeito a Deus, ao qual se tem rendido de uma vez para sempre e ao que agora permanece submetido em todo e para todo. Não é difícil reconhecer nestes elementos característicos do ministério apostólico uma autêntica espiritualidade, da qual, por outra parte, Paulo dá teste­munho em todas suas cartas.

 

Salmo 23/24 (Liturgia de entrada no santuário) – Subir a montanha do Senhor é o nosso grande ideal. E os Salmos são como guias para essa aventura: mostram-nos os caminhos que devemos seguir para alcançar o topo e, então, contemplarmos a glória do Senhor. Nunca devemos nos esquecer que o Senhor revela-se em experiência durante a noite, na montanha e no deserto. São lugares nos quais nos encontramos sozinhos com aquele que nos ama com Amor de Pai.

Senhor dá-me a coragem de me despojar de todo o peso que me impede de subir a montanha; liberta-me dos ídolos do egoísmo e de toda superstição. Que a palavra de Jesus seja para mim programa de vida. Não se pode servir a dois senhores, ou se amará um, ou o outro. Quero sempre estar diante de Ti, Senhor, em adoração e amor. Amém”.

 

 

 

MEDITATIO: Sempre é útil refletir sobre o novo trazido por Cristo e testemunhada pelo Evangelho: novidade que o texto que acabamos de meditar trás com as parábolas do traje e do vinho novo. Assinalemos, primeiro, o caráter paradoxo com o qual Lucas narra a primeira parábola. De fato, não fala, somente, dum pedaço de pano para pô-lo num traje velho, mas da ação de alguém que “corta um pedaço de pano de um traje novo e o põe em um velho”. Está claro que Lucas quer censurar a atitude daqueles que, ao rejeitar a novidade do evangelho, acabam por deformar o que é novo sem levar, a seu fim, o que é velho. “Novo” pode ser entendido em referencia ao Antigo Testamento: neste caso, o verdadeiro discípulo de Jesus, desde o começo de sua experiência de fé, percebe que a Palavra de Jesus chega como cumprimento das profecias e que sua adesão de fé a Jesus lhe põe em ­continuidade com todos aqueles que antes de Cristo se abriram à escuta da Palavra de Deus e se deixaram guiar pelos profetas. “Novo” pode ser entendido, do mesmo modo, com referencia aos mestres alternativos que, com todos os meios possíveis, faziam prosélitos, também, no tempo de Jesus; neste caso, os apóstolos e os discípulos se acham na obrigação de tomar decisões drásticas (cf. Jo 6,60-69) para não deixar-se hipnotizar por falsos mestres e por guias cegos e hipócri­tas (cf. Mt 23,15-17). “Novo”, por último, pode ser entendido, igualmente, em referencia a certas atitudes que caracterizavam a vida dos discípulos de Jesus antes de seu encontro com o mestre: neste caso, o discí­pulo de Jesus se dá conta do dever de deixar para tomar, de abandonar para receber, de perder para encontrar.

 

ORATIO: Senhor, tira-me do risco de meus hábitos. A tarefa primeira de alguém que quer amadurecer é, paradoxalmente, alcançar a inocência duma criança. Senhor, dá-me uma mente fresca, inocente, cheia de “por quês”, não por que questiona, mas por que quer aprender e, por isso, aberta e capaz de conhecimento infinito. “Ninguém corta um pedaço pano de um traje novo e o põe em uma veste velha”. Senhor, concede-me o sen­tido do bom senso, que não me mantenha fechado no “velho”, e que, ainda que apreciando-o, saiba captar a novidade de tua graça, dotada sempre de originalidade e elegância espiritual. Os discípulos de João jejuam; os teus comem e bebem. Ó Senhor, concede-me esse sentido do equilíbrio que não me liga, à força, a normas e práticas já superadas, mas que, através de intuições afortunadas, me conduz a tomar decisões espontâneas e adaptadas a todo tipo de situações.

CONTEMPLATIO: O sumo bem está na prece e no diálogo com Deus, porque equivale a uma íntima união com ele: e, assim como os olhos do corpo se iluminam quando contem­plam a luz, assim também a alma dirigida para Deus se ilumina com sua inefável luz. Uma prece, por suposto, que não seja de rotina, mas feita de coração; que não esteja limitada a um tempo concreto ou a umas horas determinadas, mas que se prolongue dia e noite sem interrupção. Quando quiseres reconstruir em ti aquela morada que Deus edificou no primeiro homem, adorna-te com a modéstia e a humildade e faz-te resplandecente com a luz da justiça; decora teu ser com boas obras, como com ouro acrisolado, e embeleze-o com a fé e a grande­za de alma, ao modo de muros e pedras. E, acima de tudo, como quem põe a cúpula para coroar um edifício, coloca a oração, a fim de preparar para Deus uma casa perfeita e poder te receber nela, como se fosse uma mansão regia e esplêndida, já que, pela graça divina, é como se possuísse a mesma imagem de Deus, colocada no templo da alma (Pseudo-Crisóstomo).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Que considerem-nos, portanto, como ministros de Cris­to

e administradores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4,1).

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Fundamento minha compreensão do mundo, dos outros e de mim mesmo na figura simbólica do servo de Iahweh ou, bem, em um amor que não pode ser arrebatado, mas oferecido. O servo de Iahweh, “O cordeiro de Deus”, é exatamente o contrário que o “cabrito expiatório”, esse que todos estão de acordo em excluir para preservar a unidade do grupo. No cristianismo, pelo contrário, o grupo foi fundado por uma vitima que foi excluída pelos outros, porém que, aceitando ser excluída, denunciou e pôs a descoberto o sistema do “cabrito expiatório”. Com a lógica simbólica da vitima conforme, a cruz fica subtraída a uma interpretação puramente punitiva, em termos de retribuição (o sangue derramado a cambio da salvação), um fato ao qual Jó já havia posto termino com seu sofrimento. O extraordinário poder de Jesus reside em um sacrifício consentido que vai a destruir de maneira definitiva todo o sistema que se fundamenta na vitima. Isso é o que sublinha São João: “Ninguém tem poder para tira-me a vida; sou eu quem a dou por minha própria vontade” (P. Ricoeur, entrevista en El diário Avvenire).

 

 

 

 

SÁBADO, 05 DE SETEMBRO DE 2020- 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM – ANO A

Lucas 6,1-5 (As espigas arrancadas) =Mt 12,1-8; Mc 2,23-28Lucas nos refere, em duas passagens consecutivas, algumas polêmicas que Jesus manteve com os fariseus, com respeito ao sábado, dia de descanso, e sobre as práticas mais ou menos permitidas nesse dia. O que mais nos surpreende neste texto de hoje é o modo positivo e dialogante com o qual Jesus entra na polê­mica: de fato, Jesus tenta libertar seus interlo­cutores de uma mentalidade excessivamente jurídica, ligada, de modo servil, a uma redução que, de fato, é orientada pelos fariseus contemporâneos de Jesus, a resumir um catalogo de 613 preceitos (além dos dez mandamentos), aos quais queriam permanecer fieis. Jesus tenta apartá-los desta mentalidade, referindo-se a um feito da vida de Davi: uma eleição livre, frente a uma tradição que parece não admitir exceções. Sabemos bem que o rei Davi constituiu, para todos e, também, para Jesus, um ponto de referencia digno do máximo respeito e da mais fiel imitação. Um motivo a mais, neste caso, para assumi-lo como modelo de liberdade frente a tradições que, se não são bem interpretadas (cf. Mc 7,1-1:5), ameaçam submeter o homem à Lei em vez de fazer que esta sirva ao homem. A afirmação final de Jesus é extremamente clara e iluminadora: «O Filho do homem é senhor do sábado» (v.5). Por um lado, Jesus se compara a Davi, por outro, com uma afirmação que não deixa dúvidas, manifesta um tom evidente, afirma sua própria superioridade sobre Davi e também, de um modo implícito, enquanto «senhor do sábado», sua dignidade divina.

 

 

I Cor 4, 6-15 ( A verdadeira função dos pregadores) – Paulo desenvolve o discurso sobre a verdadeira identidade dos ministros de Cristo e dos adminis­tradores dos mistérios de Deus, e o faz com algumas expressões que merecem ser unificadas. Os apóstolos estão ligados, antes de tudo, de modo indivisível, aos fieis irmãos: não podeis pretender – parece dizer Paulo – caminhar por vossa conta nem, muito menos, chegar à meta, sem nós. A consciência do apóstolo se une à de todos os fieis, precisamente porque, como eles e junto com eles, sente-se salvo pela graça de Cristo. Por outro lado, prossegue Paulo, nós só desejamos chegar, à meta, convosco. A expressão simbólica “ser reis sem contar conosco» (v.8) é extremadamente clara e expressa seu desejo de compartilhar, eternamente, a alegria da salvação com todos aqueles aos quais pode prestar o serviço da Palavra. Os apóstolos são “condenados a morte» (v.9), como Cristo, depois de Cristo: esta espécie de condenação pen­de sobre a cabeça de Paulo desde que encontrou a Cris­to no caminho para Damasco. Desde então sabe, com toda certeza, que não há outro caminho para percorrer que o da cruz, que não pode usar outra linguagem mais, que a da cruz, que não há outra perspectiva que se abra ante ele que não seja a de um novo calvário. Essa con­denação vai se realizando, historicamente, em diferentes tempos e em diversos lugares: também aqui, em Corinto, por meio de vós – parece dizer Paulo –, porém é algo que parece não assombrar-lhe, em absoluto. Os apósto­los são, também, pais com respeito aos fieis, aos que consideram «filhos meus muito queridos» (v.14): trata-se de uma paternidade espiritual, talvez, não menos compro­metedora que a física; uma paternidade que supera os limites de uma família humana e se estende às di­mensões de uma comunidade sem fronteiras. Foi essa a experiência de Paulo.

 

Salmo 144/145 (Louvor ao rei Iahweh) – (Ver terça-feira)

 

 

MEDITATIO: Segundo o evangelho, “novo” não significa “inédito”, mas «originário», no sentido de que Jesus veio restabelecer o projeto do Deus criador, para voltar a entregá-lo a todos aqueles que aceitam seguir-lhe pelo caminho da verdade. Temos um exemplo claro deste projeto de Jesus em Mt 19,1-12, onde Jesus, em polêmica com os fariseus sobre a espiritualidade conjugal, lhes convida a superar a lógica das permissões concedidas por Moisés, por causa da dureza de seus corações, mediante a lógica da entrega recíproca, total, segundo o projeto originário. Novo, segundo o evangelho, não significa «atual», mas «autêntico», no sentido de que Jesus, com suas propostas de vida nova, tende a despertar em cada pessoa, o que nela há de genuíno e de válido. Jesus veio para libertar a liberdade; por isso, quando foi necessário, não vacilou em contrapor sua proposta às propostas alternativas de falsos messias que prometiam fáceis liberdades. Novo, segundo o evangelho, não significa «genial», mas «essencial», no sentido de que Jesus – como aparece em quase todas as páginas do evangelho – veio para suprimir, ou, pelo menos, para aliviar os pesados fardos que ameaçavam entristecer e, talvez, inclusive, mortificar o coração de cada pessoa. Deste ponto de vista são extremadamente iluminadoras estas palavras de Jesus: « Vinde a mim, todos os que estais fatigados sob o peso de vossos fardos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas vidas. Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve » (Mt 11,28-30).

 

ORATIO: Ó Senhor, o sofrimento dá medo, porém, é inútil negá-lo, rejeitá-lo, evadir-se dele, porque é parte inerente da vida de cada apóstolo. Dá medo o sofrimento físico causado pelas enfermidades, pelas privações, pelo cansaço, por um corpo consumido que deteriora com o passar dos anos. Dá medo o sofrimento psicológico derivado das incompreensões, das resistências imotivadas frente a realidades evidentes, das limitações escondidas e não aceitas… Dá medo o sofrimento espiritual, velado pelas duvidas, pela aridez, pelas incertezas, pela indiferença. Porém, assim tem sido o caminho para todos teus discípulos e amigos. E assim há de ser, também, para nós, que temos escolhido seguir-te.

 

CONTEMPLATIO: Reconhece, ó cristão, a altíssima dignidade desta tua sabedoria, e entende bem qual deve ser tua conduta e quais os prêmios que a ti prometem. A misericór­dia quer que sejas misericordioso, a justiça deseja que sejas justo, pois o Criador quer ver-se refletido em sua criatura, e Deus quer ver, reproduzida, sua imagem no espelho do coração humano, mediante a imitação que tu realizas das obras divinas. Não ficará frustrada a fé dos que assim operam, teus desejos chegarão a ser reali­dade, e gozarás, eternamente, daquilo que é o objeto de teu amor. E porque tudo será puro para ti, por causa da esmola, chegarás, também, a gozar daquela outra bem-aventurança que te promete o Senhor, como conse­quência do que, até aqui, se tem dito: “Felizes os puros de coração, porque eles verão a Deus”. Grande feli­cidade é esta, amantíssimos irmãos, para a qual se pre­para um prêmio tão grande. Pois, que significa ter puro o coração, senão desejar as virtudes de que antes temos falado? Que inteligência pode chegar a con­ceber, ou que palavras conseguirão explicar a grandeza de uma felicidade que consiste em ver a Deus? (São Leão Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Filho do homem é senhor do sábado» (Lc 6,5)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Eis aqui que dois mensageiros chegaram a ela, dizendo-lhe: Joaquim, teu marido, vem a ti com seus rebanhos. Porque um anjo do Senhor desceu até ele, dizendo-lhe: Joaquim, Joaquim, o Senhor ouviu e aceitou teu rogo. Sai daqui, porque tua mulher, Ana, conceberá em seu seio. E Joaquim saiu e chamou a seus pastores, dizendo: Traz-me “dez cordeiros sem mácula, serão para o Senhor meu Deus; e doze, novilhos, serão para os sacerdotes e para o conselho dos anciãos; e cem cabritos, serão para os pobres do povo. E eis aqui que Joaquim chegou com seus rebanhos, e Ana, que o esperava na porta de sua casa, o viu vir e, correndo até ele, lhe abraçou, dizendo: Agora conheço que o Senhor, meu Deus, me cumulou de bênçãos, porque era viúva, e já não o sou; estava sem filho, e vou a conceber um em minhas entranhas. E Joaquim guardou repouso em seu lar aquele pri­meiro dia. […] E os meses de Ana se cumpriram e, ao nono, deu a luz. E perguntou à parteira: que pari eu? A parteira respondeu: Uma menina. E Ana repousou: Minha alma foi glorificada neste dia. E deitou à menina em sua cama. E, transcorridos os dias legais, Ana se lavou, deu o peito à menina e a chamou Maria. E quando a menina chegou à idade de três anos, Joaquim disse: Chamai as filhas dos hebreus que estejam sem mácula, e que tome cada qual uma lâmpada; e que estas lâmpadas se acendam, para que a menina não volte atrás e para que seu coração não se fixe em nada que esteja fora do templo do Senhor. E elas fizeram o que se lhes mandava, até o momento em que subiram ao templo do Senhor. E o grande sacerdote recebeu à criança e, abraçando-a, a bendisse e exclamou: “O Senhor glorificou teu nome em todas as gerações. E em ti, até o ultimo dia, o Senhor fará ver a redenção por Ele concedida aos filhos de Israel” (Proto Evangelho de Santiago).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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