ESTUDO BÍBLICO DE 21 A 26 DE JANEIRO DE 2019

2ª Semana do Tempo Comum – Ano C

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

SEGUNDA-FEIRA:

Marcos 2,18-22

RECEBER COM CORAÇÃO NOVO A NOVIDADE

 “Vinho novo em odres novos”

 

É curioso ver como na passagem que lemos sábado passado (Mc 2,13-17), na que lemos hoje (Mc 2,18-22) e na que leremos amanhã (Mc 2,23-28), encontramos um ponto em comum: as críticas lançadas pelos escribas e fariseus com respeito ao agir de Jesus e seus discípulos. E nestas críticas notamos um dado que nos revela um pouco a atitude dos próprios escribas e fariseus.

 

No Evangelho de ontem (a refeição na casa de Levi), os escribas e fariseus não estão de acordo que Jesus coma com publicanos e pecadores. Recriminam-no, porém, não o fazem de frente, não dizem, diretamente, a Jesus, mas comentam com seus discípulos.

 

No Evangelho de hoje e no que leremos amanhã, a observação que fazem os escribas e fariseus refere-se aos discípulos de Jesus: por que estes não jejuam (v.18) ou por arrancarem espigas no sábado (v.24).

 

Também desta vez os fariseus não se adiantam e não dizem diretamente a Jesus, mas aos discípulos.

Passemos agora a aprofundar um pouco o texto que nos apresenta a liturgia hoje. Trata-se de guardar e cumprir o jejum prescrito e nisso os escribas e fariseus são muito estritos. Seguramente que o grupo formado por Jesus caminhava alegre e sem nenhum sinal exterior de estar jejuando.

 

Isto para um judeu era insólito, pois para eles o jejum incluía certa dose de sinais e comportamentos externos (cinza, saco, rosto desfigurado) que lhes dava uma aparência lúgubre. Isto não era assim para Jesus e seus seguidores, Jesus mesmo recomendava: “Quando jejuares não façais cara triste como os hipócritas que desfiguram o rosto para que os homens vejam que jejuam […] Tu, ao contrário, quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava o rosto” (Mt 6,16-17).

 

As comparações sempre são ruins. Os fariseus comparam os discípulos de Jesus com os discípulos de João, pondo estes de exemplo em questões de jejum.

 

Jesus é categórico. Com um exemplo deixa claro que não é o jejum pelo jejum que interessa, mas o jejum em relação com a presença. Para os discípulos de João ainda não chegara o Messias e a ânsia da espera dava sentido ao jejum. Mas os discípulos de Jesus gozavam de sua presença.

 

Enquanto estiver com eles não jejuam, mas… quase percebemos aqui um anúncio da paixão. É nestes momentos, “quando lhes seja arrebatado o noivo”, que jejuarão.

 

Para que o assunto fique bem claro, Jesus usa uma comparação. A novidade do Evangelho não se pode converter em um retalho com o qual se trate de interpretar e dar sentido à antiga lei.

Inserir a Boa Nova em um contexto de apego a tradições, de rigidez e de intolerância, seria como disse o texto, produzir um rasgão pior e fazer que tudo vá a pique.

 

O mesmo acontece com o exemplo do vinho. Quanto mais velho mais saboroso. Porém, para este processo é preciso pô-lo em odres, em couros novos que resistam ao longo tempo da fermentação. Em outras palavras, se não recebes Jesus com coração novo, não aguentará a novidade que Ele traz.

 

A presença do Noivo-Jesus, é a novidade que não se pode interpretar à luz de tradições sem sentido. Ele está e com Ele deve ter festa, como aconteceu a Levi que convidou Jesus a sua casa, para celebrar com Ele a vida nova que surgia da graça de ser chamado.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

 

  • Por que aos escribas e fariseus lhes era tão difícil captar a pessoa e obra de Jesus?
  • Quais são as atitudes, maneiras de ver e de julgar, “velhas” que há em mim e que me impedem abrir-me à ação de Deus? Que devo fazer?
  • Se Jesus ainda não entrou plenamente em minha família, em meu grupo ou comunidade, será que nela há alguma estrutura, ponto de vista ou atitude à qual nos aferramos, não queremos soltar e que nos impede receber a novidade de Deus? Qual?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA:

Marcos 2,23-28

VER COM OLHOS LIMPOS.

“O sábado foi instituído para o homem e não o homem para o sábado”

 

Não se passaram dois capítulos do Evangelho de Marcos e já captamos nos fariseus uma atitude de querer observar quase milimetricamente o agir de Jesus e seus discípulos.

 

Não, certamente, para aprender dele, mas para ter do que falar, do que acusá-los. Parece que se puseram de acordo para não deixá-los sozinhos um instante.

 

O texto de hoje nos apresenta Jesus caminhando com seus discípulos por entre plantações de trigo e os discípulos arrancando espigas. A versão desta mesma cena confrontada com a de Mateus (12,1-8) e Lucas (6,1-15) nos apresenta uma variante que vale a pena ressaltar.

 

Para Mateus e Lucas a ação reprovável dos discípulos está em arrancar as espigas e comê-las; ao contrário, para Marcos é arrancar as espigas para abrir caminho entre a plantação. De todos os modos isto é secundário.

 

No relato o mais importante é captar o ponto de vista de Jesus e isto nos fica sumamente claro. O problema para Jesus não está em arrancar espigas nem muito menos em comê-las. O problema está em agarrar-se a tradições vazias de conteúdo dentro das quais se pretende ‘enquadrar’ as pessoas.

Podemos refletir sobre outro aspecto que nos apresenta o texto e que o constatamos também no Evangelho de ontem. Os discípulos seguiram Jesus, colocaram-se de seu lado, estão com Ele.

 

Nas duas cenas, a de ontem e a de hoje, nas quais os fariseus os recriminam, é Jesus quem os defende, se põe da parte deles. Ante a má intenção dos fariseus, os discípulos não se defendem, é Jesus que os defende.

 

Ante qualquer necessidade pessoal ou comunitária, qualquer prescrição que impeça fazer o bem não tem sentido. Isto Jesus o ilustra muito bem com o que aconteceu ao mesmo Davi (vv.25-26), inclusive chama a atenção que o fato para Davi não aconteceu em uma plantação, mas na própria casa de Deus, como para que não fique dúvida como a pensa o próprio Deus.

 

Com respeito a isto, ainda há muito tecido para cortar. Quantas críticas e murmurações com as quais, simplesmente, repetimos o que fizeram os fariseus e tudo, talvez, por justificar uma posição pessoal.    A frase central do relato com a qual Jesus deixa bem claro sua posição é: “O sábado foi instituído para o homem e não o homem para o sábado” (v.27). Ou seja: a pessoa é muito mais importante e, quando se atua, deve-se partir sempre dela.

 

Já em outras ocasiões, Jesus havia condenado a intransigência dos escribas e fariseus que condenavam Jesus quando este pretendia fazer o bem. Isto nós veremos mais claramente no Evangelho de amanhã.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Papa Bento XVI

Exortação apostólica Sacramentum caritatis, 74)

 

«O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado»

 

É particularmente urgente no nosso tempo lembrar que o dia do Senhor é também o dia de repouso do trabalho. Desejamos vivamente que isto mesmo seja reconhecido também pela sociedade civil, de modo que se possa ficar livre das obrigações laborais sem ser penalizado por isso. De fato, os cristãos — não sem relação com o significado do sábado na tradição hebraica — viram no dia do Senhor também o dia de repouso da fadiga quotidiana. Isto possui um significado bem preciso, ou seja, constitui uma relativização do trabalho, que tem por finalidade o homem: o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho. É fácil intuir a tutela que isto oferece ao próprio homem, ficando assim emancipado duma possível forma de escravidão. Como já tive ocasião de afirmar, « o trabalho reveste-se de uma importância primária para a realização do homem e o progresso da sociedade; por isso torna-se necessário que seja sempre organizado e realizado no pleno respeito da dignidade humana e ao serviço do bem comum. Ao mesmo tempo, é indispensável que o homem não se deixe escravizar pelo trabalho, que não o idolatre pretendendo achar nele o sentido último e definitivo da vida ». É no dia consagrado a Deus que o homem compreende o sentido da sua existência e também do trabalho.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

 

  • Qual é o principal ensinamento que nos deixa o Evangelho de hoje? Qual é minha atitude ante as falhas dos demais? Condeno-os, os critico ou trato de salvá-los?
  • Que podemos fazer em nossa comunidade/ família para ajudar-nos mais a superar as dificuldades?
  • Como atuamos quando um membro de nossa família ou nossa comunidade nos vem fazer um comentário negativo de outro?

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTA-FEIRA:

Marcos 3,1-6

FAZER O BEM SEMPRE

“É lícito em sábado fazer o bem em vez que o mal?”

 

Novamente encontramos Jesus que entra na sinagoga “para ensinar” (pomos entre aspas porque foi um ensinamento de todo particular).

 

O primeiro que aparece quando Jesus entra na sinagoga é “um homem que tinha a mão paralisada” (v.1). Jesus percebeu isso. Também os fariseus perceberam e se puseram a “espreita para ver se o curava em sábado para acusar-lhe” (v.2). Um quadro muito interessante e bem descrito nos dois primeiros versículos. Agora, que vai acontecer?

 

Como para armar o palco Jesus dirige-se, diretamente, ao homem da mão paralisada e, querendo dar um ensinamento de como se fazer as coisas a plena luz, disse-lhe: “Levanta-te e vem para o meio” (v.3). Põe bem de frente a situação desse homem.

 

Jesus poderia fazer as coisas mais discretamente, como, por exemplo, o fez com a hemorroísa (Mc 5,25-34), ou a distância, como fez com o criado do centurião (Mt 8,5-13). Porém não. Desta vez era necessário fazê-lo direta e abertamente.

 

Aqui também caberia muito bem aquela frase que Marcos cita em 2,8, e que nos recorda que Jesus em várias ocasiões sabia tudo o que ocorria no coração de quem pretendia acusá-lo. “Conhecendo Jesus em seu espírito o que eles, (os fariseus) pensavam em seu interior”. Pergunta: “É lícito no sábado fazer o bem em vez do mal, salvar uma vida em vez de destruí-la?” (Mc 3,4).

 

Tremendo dilema para quem se agarra a defender a norma pela norma, o sábado pelo sábado e não consegue ver além dos limites apertados de sua rigidez. Com razão diz que “eles calavam” (v.4). Impossível contradizer um argumento mais lógico e evidente. Não houve no grupo um que desse razão a Jesus, que tocado com sua atitude fechada “os olhou com ira pela dureza de seu coração” (v.5).

 

É muito claro. As coisas já não iam somente contra o que fazia Jesus, mas contra sua própria pessoa, fizesse o que fizesse. Ante o fato, não existiam argumentos para acusá-lo, porém de todos os modos havia que condená-lo. Jesus havia começado sua intervenção tirando do anonimato àquele homem e agora lhe ordenava estender a mão, fazer evidente sua limitação, sua paralisia, que logo desaparece.

 

Desta vez não houve público que se maravilhasse ou exaltasse pela obra realizada. Só um punhado de fariseus que saem a confabular-se com os herodianos contra Jesus, não mais para fazê-lo cair, mas, decididamente, para ver como eliminá-lo. Desta vez, tampouco, houve explicação das escrituras, não houve pregação de Jesus, o que houve foi um estupendo ensinamento com os fatos, com a vida.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Santo Hilário (c. 315-367), bispo dePoitiers e doutor da Igreja

Tratado sobre o salmo 91,3,4-5,7

 

«É permitido, no dia de sábado, fazer o bem?… salvar uma vida?»

 

O Senhor trabalha no dia de sábado?

Com certeza, de outra forma o céu desaparecia, a luz do sol apagava-se, a terra perderia consistência, todos os frutos perderiam a seiva e a vida dos homem pereceria, se, por causa do sábado, a força construtiva do universo deixasse de agir.

Mas, de fato, não há qualquer interrupção; durante o sábado, tal como nos seis outros dias, os elementos do universo continuam a cumprir a sua função.

Através deles, o Pai trabalha, pois, todo o tempo, mas atua através do Filho que nasceu dEle e por quem tudo isto é a sua obra…

Pelo Filho, a ação do Pai prossegue no dia de sábado.

Por consequência não há repouso em Deus, pois que nenhum dia vê cessar a obra de Deus.

É, assim, ação de Deus. Mas, então, em que consiste o Seu repouso?

A obra de Deus é a obra de Cristo.

E o repouso de Deus é Deus, é Cristo, pois tudo o que pertence a Deus está verdadeiramente em Cristo a tal ponto que o Pai pode descansar nEle.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

 

  • Que atitude teriam os fariseus em relação com os ensinamentos à pessoa de Jesus?
  • Em minha relação com os demais estou mais apto a ver as falhas, que o bem que fazem? Que posso fazer a respeito?
  • Como manifestamos concretamente em nossa vida de família que o primeiro posto em nossas decisões, tempo, projetos, damos a Deus?

 

 

 

 

 

QUINTA-FEIRA

Marcos 3,7-12

IR A JESUS.

“Uma grande multidão, ao ouvir o que fazia, acorria a Ele”

 

O Evangelho que lemos hoje apresenta-nos Jesus seguido de multidões. No texto encontramos algumas expressões que repetem a mesma idéia: “grande multidão”, “multidão”, “curou a muitos”.

 

Parece que estamos a ver Jesus caminhando pela praia, seguido de uma grande quantidade de gente que se atropela para tocá-lo e estar junto a Ele. Qual é a causa de tudo isto? O mesmo texto nos diz muito claro: “uma grande multidão, ao ouvir o que fazia, acorria a Ele” (v.8).

 

Como dizíamos faz uns dias, o povo não se deixou convencer por um pregador brilhante que comovia com suas palavras e a quem queriam seguir ouvindo. Não. O povo, e mais, a multidão, seguiu Jesus, uns porque partilharam de uma experiência. Outros contaram que havia feito Ele, que haviam presenciado, e, em ocasiões, experimentado em sua própria vida com alguma cura. O que arrasta para Jesus não são unicamente suas palavras, mas suas obras.

 

É interessante notar que Marcos quer sublinhar que a ação de Jesus está passando de um espaço, poderíamos dizer ‘doméstico’ (sua terra e os seus), a outro universal. Isso vemos claro quando se destaca a proveniência da multidão: Galileia, Judéia, Jerusalém, Iduméia, Tiro e Sidonia. A notícia se expandiu relativamente rápido, visto que não existiam os meios modernos de comunicação de hoje. Recordamos aqui o salmo 98: “Os confins da terra viram a salvação de nosso Deus” (v.3).

 

Jesus sabe tomar distância e se afasta um pouco do povo, subindo numa barca. Há momentos de nossa vida que é necessário tomar distância, ainda que seja, como diz o texto, para que a fama e as manifestações de admiração do povo não o sufoquem.

 

É bom ressaltar um detalhe. Este ato de retirar-se, de subir em uma barca, Jesus o faz com a ajuda de seus discípulos, quer dizer, teve-os em consideração, contou com eles, e não só isso, pediu que fossem eles que se encarregassem de conseguir e preparar a barca.

 

Mas, vejamos quem eram os que se atropelavam por estar o mais próximo de Jesus. O próprio Marcos nos diz: “todos quantos padeciam de doenças, se lançavam sobre Ele para tocá-lo” (v.10). Haviam captado que Jesus havia vindo para eles e não queriam desperdiçar a oportunidade. A força das palavras é grande. Não diz acercaram-se” de Jesus para tocá-lo, mas “lançaram-se sobre Ele”.

 

Mais desconcertante é a atitude dos espíritos imundos que se jogam a seus pés. A multidão o seguia. Muitos eram curados e reconhecem nele um “homem” com poder, com autoridade, mas nenhum deles o reconheceu como realmente era. É desconcertante ver que só o reconheceram como Filho de Deus, os espíritos imundos. Eles, de fato, o proclamaram gritando: “Tu és o Filho de Deus” (v.11).

 

Com a última frase o evangelista nos dá a entender que Jesus encerra esta primeira etapa, na qual realizou inumeráveis curas e expulsou muitos demônios, sem pretensões publicitárias: “Porém Jesus os ordenava severamente que não falassem dele em público” (v.12).

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Santo Atanásio (295-373), bispo deAlexandria, doutor da Igreja

 

“Todos quantos sofriam de alguma coisa procuravam tocar-Lhe”

 

O Verbo de Deus, incorpóreo, incorruptível e imaterial, chegou à região que habitamos, da qual nunca estivera, contudo, afastado. Com efeito, não havia deixado nenhuma parte da criação privada da sua presença, dado que tudo preenchia, Ele que mora junto a seu Pai. Mas tornou-se presente, abaixando-se por causa do seu amor por nós, e manifestou-se a nós. Teve piedade da nossa raça, teve compaixão da nossa fraqueza, condescendeu com a nossa condição corruptível. Não aceitou que a morte tivesse domínio sobre nós; não quis ver perecer aquilo que tinha começado, nem fracassar o que seu Pai tinha realizado ao criar os homens. Assumiu, pois, um corpo,

e um corpo que não é diferente do nosso. No seio da Virgem construiu para si mesmo o templo do seu corpo;

fez dele um instrumento adaptado, para se dar a conhecer, e para nele morar. Depois de ter assumido, entre

os nossos corpos, um corpo da mesma espécie, e dado que estamos todos submetidos à corrupção da morte, entregou-o à morte por todos nós, oferecendo-o a seu Pai. E fê-lo por amor aos homens.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Em que sentido este texto nos revela a dimensão universal do atuar de Jesus?
  • Minha relação com Jesus se limita somente a ir a Ele quando necessito de uma graça, um favor?

O que eu devo melhorar a respeito?

  • Seguramente nossa família, em momentos difíceis recebeu a ajuda do Senhor. Como temos partilhado isto com os demais? Em que forma ajudamos os outros a chegar até Jesus?

 

 

 

 

 

Marcos 3,13-19

ESTAR COM JESUS

 “Instituiu doze para que estivessem com Ele”

 

Hoje o Evangelho nos apresenta um texto vocacional e missionário com um grupo de chamados que possuíam uma identidade bem definida e com uma tarefa muito clara a cumprir.

 

Marcos inicia dizendo que Jesus “Subiu ao monte” (v.13). Muitas vezes Jesus ia sozinho para orar. Para encontrar-se com seu Pai; para deixar em suas mãos sua atividade pedir indicações para orientar sua atividade segundo o seu querer.

 

Nesta ocasião, sobe para ler no coração do Pai os nomes daqueles que serão seus mais imediatos colaboradores e a seguir os chama um a um. É interessante que o texto não diz que Jesus desceu, mas que eles subiram onde estava Ele. É a realidade de todo chamado.

 

Jesus os faz partícipes de sua vida e de sua oração. Faz com que eles subam até onde está Ele, para introduzi-los no coração misericordioso do Pai. Para nós, todo chamado sempre se faz mais claro em momentos de oração, em encontros intensos com aquele que chama e que deve dar uma resposta.

 

O texto sublinha que Jesus chamou aos que quis. Não diz que chamou aos que, até aquele momento, haviam colaborado com Ele; nem aos que considerava mais aptos para a tarefa que lhes ia confiar; nem aos mais preparados; nem, sequer, aos que mais conhecia. Simplesmente diz “aos que quis” (v.13).

 

Dois foram os motivos desta eleição: para que estivessem junto a Ele e para enviá-los a pregar. Acostumamo-nos a pensar que um é o momento de “estar junto a Ele” e outro o de “pregar”. Mas, na mente de Jesus e de Marcos não é assim. Mais que dois momentos, são duas atitudes de um só.

 

Para que a pregação seja eficaz devemos estar permanentemente junto a Ele. Por outro lado, o estar junto a Jesus nos impulsiona continuamente a pregar com atos e palavras. Esta unidade a podemos descobrir facilmente no modo como Marcos une as duas expressões: “para que estivessem junto a Ele” e “para mandá-los pregar”.

 

Estas expressões não estão ligadas com um “e depois”, ou com a disjunção “ou”; estão ligadas com a conjunção “e” que indica simultaneidade nos atos. Jesus investe-os também em novos chamados, o poder de expulsar os demônios.

 

Ele sabia que a Boa Nova de sua Palavra supõe um coração limpo e livre de todo mal. Em seguida aparece a lista dos doze, os quais, longe de serem doze figuras simbólicas, são doze pessoas concretas.

 

Algumas delas são identificadas com referências concretas, sejam familiares (irmão de… Filho de…), sejam de nomes novos os quais Jesus mesmo os dá (Pedro, Boanerges…), sejam de lugares precisos (o cananeu…), sejam identificando por uma ação particular não muito lisonjeiro (o traidor).

 

São rostos muito concretos que, ao longo do Evangelho, irão desvelando cada vez mais sua identidade.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, doutora da Igreja

 

O mistério da vocação

 

Vou fazer uma única coisa: começar a cantar aquilo que hei de dizer ao longo de toda a eternidade:

“as misericórdias do Senhor!” (Sl 88,1)… Ao abrir o Santo Evangelho, os meus olhos pousaram nestas palavras: “Tendo Jesus subido à montanha, chamou a si os que lhe aprouve e vieram até Ele”.

Eis o mistério da minha vocação, de toda a minha vida e, particularmente, o mistério dos privilégios

que Jesus concedeu à minha alma. Ela não chama os que são dignos mas os que lhe apraz ou, como

diz São Paulo: “Deus tem piedade de quem quer e faz misericórdia aos que quer fazer misericórdia.

Isso não é obra de quem quer nem de quem corre, mas do próprio Deus que faz misericórdia” .

Durante muito tempo perguntei porque é que Deus tinha preferências, porque é que as almas não recebiam todas o mesmo grau de graças e espantava-me ao ver que Ele concedia favores extraordinários aos santos que O tinham ofendido, como S. Paulo ou S. Agostinho, que os forçava por assim dizer a receber as graças, ou então ao ler as vidas de santos que Nosso Senhor quis acarinhar desde o berço à tumba, sem deixar no seu caminho nenhum obstáculo que os impedisse de se elevarem para Ele… Jesus dignou-se instruir-me acerca deste mistério. Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores que Deus criou são belas… Ele quis criar os grandes santos que podem ser comparados aos lírios ou às rosas; mas criou também os mais pequenos e esses devem contentar-se em ser margaridas ou violetas, destinadas a alegrar o olhar do Bom Deus quando Ele aspira… A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, a ser o que Ele quer que sejamos.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

 

  • Em que sentido podemos dizer que o v.4 apresenta duas atitudes de um mesmo momento?
  • Sinto-me cristão por tradição ou por eleição de Deus?
  • Como vivo concretamente a oração e o anúncio?

 

 

 

 

 

SABADO

Marcos 3,20-21

NÃO DESCONHECER JESUS

“Está fora de si”

 

No Evangelho de hoje vemos que as coisas não são tão fáceis para Jesus. Este texto nos apresenta duas cenas por demais simbólicas, em contraposição e que, a primeira vista, não só aparecem opostas, mas incompreensíveis.

 

Por um lado, a multidão que, uma vez mais, admira-se das palavras que saem da boca de Jesus e se aglomera para escutá-lo. Isto não é raro na vida de Jesus.

 

Encontramo-nos no terceiro capítulo e até aqui, em várias ocasiões se fala de multidão, de muita gente.

Jesus oferece, generosamente, seu ensinamento e diz-se que o faz em casa, lugar no qual se aglomera o povo e não lhe deixa espaço nem para comer. Valorizando-o humanamente poderíamos concluir que este momento é de triunfo e êxito para Jesus.

 

Porém, imediatamente aparece o segundo momento do breve texto de hoje, o qual é narrado assim: “Inteiraram-se, seus parentes, e foram buscá-lo, pois diziam: ‘Está fora de si’”.

 

Talvez fosse grande demais a polêmica contra Jesus e muitos eram os que o atacavam. Era necessário protegê-lo de qualquer modo e por isto afirmam que está “fora de si” (v.21) para poder, como diz o texto, “levá-lo”. Era um modo de fazê-lo regressar para os seus e salvá-lo dos falatórios do povo.

 

Aprofundemos com os nossos pais na fé

 

Cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629), teólogo, fundador do Oratório

 

Jesus, homem comido, dom de Deus

 

Jesus Cristo é o dom de Deus aos homens e o dom dos homens a Deus.

É o dom de Deus aos homens; põe-se entre as mãos dos homens pela eficácia da sua palavra e nesta qualidade deve ser recebido pelos homens.

Na eucaristia, é dado aos homens e dado na plenitude de todos os seus estados e de todos os seus mistérios, é dado como vida e alimento de vida eterna.

Jesus Cristo é o dom dos homens a Deus, tal como é o dom de Deus aos homens.

É uma coisa como sacramento; é a outra como sacrifício.

Outrora, ofereciam-se a Deus frutos da terra que nos tinha sido dada; agora oferecemos um fruto do próprio Deus, um fruto que cresceu no seu próprio seio, um fruto que foi produzido pela terra virginal de Maria, revestida da virtude do Altíssimo, e que, por essa razão, é chamado simultaneamente pelo profeta Isaías “o fruto da terra” e “o germe de Deus” (4,2).

 

Santa Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade

Não há maior amor

 

Jesus, um homem que é alimento

 

Quando Jesus veio a este mundo, amou-o tão fortemente que deu por ele a Sua vida.

Veio para satisfazer a nossa fome de Deus.

E como é que o fez?

Transformou-se ele próprio em Pão da Vida.

Fez-se pequeno, frágil, desarmado para conosco.

As migalhas de pão são tão minúsculas que até um bebê pode mastigá-las.

Ele transformou-se em Pão da Vida para acalmar o nosso apetite de Deus, a nossa fome de amor.

Não creio que alguma vez pudéssemos ter amado a Deus se Jesus não se tivesse feito um de nós.

E foi para nos tornar capazes de amar a Deus que se tornou um no meio de nós em todas as coisas, salvo no pecado.

Criados à imagem de Deus, fomos criados para amar, pois Deus é amor.

Pela Sua paixão, Jesus ensinou-nos como perdoar por amor, como esquecer por humildade.

Procura Jesus e encontrarás a paz.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.

 

  • Como explicar a atitude dos parentes de Jesus?
  • Que diz este texto para minha vida?
  • De que forma concreta, interesso-me em escutar e conhecer Jesus e ajudo, para que, em minha família, seja Ele escutado e conhecido?

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