Estudo Bíblico Semanal de 08 a 13 de outubro de 2018

27ª Semana da Pascoa – Ano A

Autor: Padre Fidel Oñoro, CJM

SEGUNDA-FEIRA

Lucas 10,25-37

MINHA REGRA DE VIDA É O EVANGELHO

“Vai e faz tu o mesmo”

  1. Na escola do Bom Samaritano

O evangelho de hoje nos coloca, ante uma opção radical para viver segundo o evangelho. Para o amor universal: Quem é o próximo?

Um doutor da Lei se dirige a Jesus e pergunta-lhe: “Quem é meu próximo?” (10,29). Jesus responde contando-lhe a parábola do Bom Samaritano (10,30-35). Na resposta de Jesus, um escândalo: Um samaritano ajudando a um judeu! Impossível!

A pergunta do doutor da Lei encontra assim sua resposta: o “próximo” não é alguem no meio familiar, social, racial, político ou religioso. Há uma visão mais universal: todo homem.

E não só todo homem, mas todo o que necessita de minha ajuda. Na parábola na realidade o “próximo” é o inimigo. Já sabemos que os judeus e os samaritanos não mantinham boas relações (ver Jo 4,9).

Para um amor concreto: Como fazer-se próximo?

Porém, há mais. O problema não é só “quem” é meu próximo, mas “como” é que me faço próximo.       É aqui onde Jesus nos convida a observar, cuidadosamente, as ações do samaritano.

Tudo o que ele faz é movido pela “misericórdia”: se “aproxima”, “cura suas feridas”, cede-lhe seu próprio posto “montando-o na cavalgadura”, o “leva a uma pousada” e “cuida dele” pessoalmente. Enfim, dá de seu próprio bolso para que o tratamento do ferido vá até o final. E quando se despede, ainda prevê um novo encontro: “quando voltar”, diz o samaritano ao dono da pousada (10,35b).

Cada uma das ações do bom samaritano é significativa. Hoje poderíamos deter-nos, por exemplo, no detalhe da cavalgadura: “o montou sobre sua própria cavalgadura” (10,34)

A ajuda ao irmão implica ceder-lhe nosso lugar! Isto indica um compromisso profundo: amar é saber oferecer nosso próprio posto, saindo de nossa comodidade, e pôr-se no lugar do outro. É assim que se fez próximo: com atos concretos, não só com palavras. Trata-se de “atos” que doem em quem os faz.

Se o samaritano tivesse se contentado só com aproximar-se e tivesse dito ao ferido que estava debilitado: “sinto muito!” “Que lhe aconteceu?” “Por onde foram os bandidos?” “Você tem seguro médico?” “Que Deus o abençoe”, ou outras frases similares que costumamos dizer na hora das emergências, sua intenção de ajuda não serviria de nada, não passaria de uma grosseria.

Jesus disse claramente que na prática do mandamento do amor o que importa é o “fazer”: “Faz tu o mesmo”. Este “fazer” consiste na “prática da misericórdia” (10,36), da qual não se necessita mais lições que as já dadas pela prática do samaritano.

O agora e o depois

Um dos dilemas no exercício da caridade é o da contraposição entre o urgente e o importante: Socorrer o indigente dando-lhe pão ou investir na construção da padaria onde o indigente poderá até trabalhar? E, se, enquanto constróis a padaria morre o faminto?

A parábola traz também um ensinamento a respeito: tem que atender o urgente, porém também tem que pensar no futuro. O bom samaritano não é imediatista. Ele atua de modo imediato no presente para socorrer a emergência, é verdade, porém toma decisões para adiante (“Cuida dele e, se gastar mais, te pagarei quando voltar”10,35).

Vemos ainda como o bom samaritano, ao final, se afasta, continuando viagem. De algum modo começa a desapegar-se confiando o ferido a outro que talvez cuide melhor que ele, e para isso se compromete a responder pelos gastos necessários. Hoje temos espaços especializados que se parecem a esta pousada onde o bom samaritano leva o judeu ferido.

Podemos falar de uma “caridade institucional”. Não se trata de tirar de cima de si a responsabilidade, mas de saber trabalhar pelo próximo comunitariamente, assumindo cada um a tarefa que corresponde. Uma pessoa não pode socorrer sozinha todas as necessidades.

Para que seja profética e transformadora dos problemas de fundo, a caridade individual deve vir unida a caridade institucional e é importante saber trabalhar juntos, apoiando as diversas iniciativas que se tomam na Igreja e na sociedade.

Esse modo de ser do Bom Samaritano, que, ao mesmo tempo, atende as conseqüências, também remedia as causas dos males sociais: se todos entendessem que a prioridade é o outro, que deve viver em função dos demais, não haveria mais feridos nem agressores no caminho de Jericó.

Como queria são Francisco, esta parábola tem que encarnar-se, agora, na vida cotidiana. Nossas ruas e praças são como aquele caminho de Jericó onde alguém, que talvez não conhecemos e que pode ser inclusive uma ameaça para nós, aguarda por nossa misericórdia. Deixemos que o imperativo de Jesus nos impregne no coração e se converta em regra de vida: “Vai e faz tu o mesmo!” (10,36).

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  • Quais as pessoas ao meu redor que mais necessitam de mim e a quem algumas vezes tenho negado minha ajuda oportuna? Que ajuda me pede cada uma delas? Como me farei próximo delas?
  • Alguma vez tenho agido como o sacerdote ou o levita e sendo consciente de alguma necessidade, tenho preferido “fazer-me de vista gorda”? Por que o tenho feito? Que tenho sentido depois?
  • Recordo a última vez que agi como o bom samaritano. Com quem foi? Que fiz? Que interesses e necessidades pessoais passaram a segundo plano? A mão que estendi essa vez foi só de momento ou ainda hoje continuo dando minha ajuda?

 

 

 

TERÇA-FEIRA

Lucas 10,38-42

Uma escola de oração e vida na casa de Marta e Maria
“Uma só coisa é necessária”

 

O entretenimento e o repouso que nos inspira um Jesus que tem tempo para compartilhar com suas amigas, detendo-se em sua casa em meio da viagem, sugere uma nova atmosfera oracional para a Lectio de hoje. Momentos como este são importantes.

 

A Maria lhe parecia mentira que o Mestre estivesse ali em sua casa, tão próximo dela e falando só para ela. Agora podia escutar em silencio suas palavras de vida eterna. A vemos bem recolhida aos pés do Mestre, como costumavam fazer os discípulos nos tempos bíblicos.

 

Marta, a vemos no fundo. Passa de um lado para outro, bem atarefada. Os “muitos afazeres” (10,40) de que fala o evangelho são as tarefas domésticas, as quais se multiplicam quando há visita: limpeza, comida, ambientação, quarto de hospedes, etc. São muitas coisas ao mesmo tempo para atender, sobretudo a comida. Nesse ir e vir nota-se que Marta está tensa, preocupada em agradar a Jesus. Até que se dirige a Jesus (para que ouça Maria): “Senhor, não te importa que minha irmã…” (10,40).

 

A estima que Jesus sente também por Marta suporia que não lhe agradasse vê-la carregar, sozinha, todo o trabalho da casa. O “não te importa?” tem tom de ironia. Então Jesus a responde com uma frase carregada de sentido e que abre grandes horizontes: “Marta, Marta,…” (10,41-42).

 

Por que Jesus chama a atenção de Marta? É claro que não é pelo serviço, já que ele mesmo fala da importância do serviço (22,27). Na descrição de Marta foi dito que ela estava “atarefada por muitos afazeres” (10,40): corria de um lado para outro, fazia muitas pequenas coisas com o tempo bastante fragmentado. O problema é que em toda a agitação, a ocupação se tornou ansiedade, perdeu a paz.

O que Jesus desaprova não é a atividade de Marta, mas seu ativismo. No ativismo se perde de vista a meta, é difícil manter a concentração, se desgastam as motivações e acabamos fazendo as tarefas mal. Esta vida frenética – que também ocorre em alguns apostolados – é uma das características de nosso tempo, queremos fazer muitas coisas ao mesmo tempo: estudar e trabalhar, estar na casa e estar fora, falar por telefone e ver televisão, e assim muitas mais.

Ocupar-nos dos ofícios com o coração ansioso indica que perdemos o norte, que perdemos de vista o que era essencial, que terminamos escravos do trabalho. Isto prejudica tanto a qualidade de vida como a qualidade do serviço. Para resolver isto, Jesus nos disse que o melhor modo de ser Marta é ser Maria.

Quem cultiva o bom hábito da reflexão, do cultivo da vida interior na serenidade da oração e em atenta escuta da Palavra, logra a capacidade de ver tudo desde o ponto de vista da eternidade, purifica suas ações, capta as prioridades. Com Maria se aprende a inteligente calma que ajuda a fazer tudo bem e inclusive a fazer mais do que o esperado.

Mas não se pode separar as duas, pois são irmãs. A escuta contemplativa deve levar ao compromisso e a atividade deve partir da escuta atenta do querer do Senhor. Como disse o Cardeal Martini: “Para servir no Reino tem que servir primeiro ao Rei”. Senão faremos muitas coisas que consideramos “serviço” ao Senhor, porém, era isso o que Ele queria que fizéssemos?

Enfim, o melhor e mais seguro é ter as mãos de Marta, porém, o coração de Maria. É preciso encontrar tempo – e tempo de qualidade – para a escuta do Mestre, para reencontrar-nos com nosso centro, para considerar os motivos do que fazemos, para estar em contato com nosso ser profundo e com Deus que habita dentro de nós. As palavras do Mestre serão nossa guia na viagem interior. Ainda que haja muitas coisas “urgentes” para fazer, isto é o verdadeiramente “necessário”.

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

  • Como me vêem os demais? Que espaço de meu tempo dedico a dialogar com Jesus, a escutá-lo? Poderia dedicar ainda más?
  • Com as pessoas que convivo, que momentos dedico para estar como Maria aos pés de Jesus? Será que lhe dedicamos pouquíssimo tempo enquanto que para nossos afazeres dedicamos todo o dia ou quase todo o dia? Em que podemos melhorar?
  • Uma só coisa é necessária”, disse Jesus a Marta. Qual é? E para mim que é o único necessário: o trabalho, o dinheiro, a saúde, minha família, Deus…? Será que o Senhor me pede que mude minha escala de valores? Como o farei?

QUARTA-FEIRA

Lucas 1,26-38

COMPROMETER-SE COM O PLANO DE DEUS A MANEIRA DE MARIA

“Ao sexto mês, foi enviado por Deus, o anjo Gabriel, a uma cidade da Galiléia,…”

 

Ao longo do ano lemos várias vezes o relato da anunciação e cada vez, ao ritmo da liturgia, somos convidados a pôr de relevo um dos múltiplos aspectos desta passagem tão rica e densa.

 

Neste dia em que celebramos Maria, sob o título de nossa Senhora do Rosário, a orante perfeita que apóia nossa oração, nos detemos, particularmente, nas primeiras palavras do Anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28).

 

Quando saudamos a Maria repetidamente na oração do santo rosário com estas palavras, estamos dizendo que a vida desta mulher simples de Nazaré (1,26) foi abraçada pelos braços amorosos de Deus.

 

Deus entra em sua vida com ternura e com poder, com coração e com compromisso, com palavras e com ação. É com esta maneira de entrar em sua vida, que lhe dá e redireciona seu projeto de vida inicial (ver 1,27) para inseri-lo em seu plano de salvação.

 

Estas três palavras que nunca nos cansamos de repetir, não fazem mais que, como a Maria, situar-nos da maneira justa no coração do caminho de Deus, o qual nos chama para que o façamos realidade na história com nossas mãos e com nossos passos.

 

E com Maria aprendemos que: essa é nossa vocação fundamental; Isto é possível graças a obra mesma do Senhor; Os indicadores de uma resposta autêntica ao Senhor são: (1) a alegria; (2) o amor; e (3) a certeza do apóio fiel do Senhor. Estudemos um pouco o sentido de cada uma das três palavras:

 

  • “Alegra-te”

 

O Anjo antecipa a Maria que o anúncio será para ela motivo de imensa alegria; que a Palavra do Senhor vai tocar o mais íntimo de seu ser; e que sua reação ao fim não poderá ser outra que a exultação.

Nota-se que Maria não responde de imediato (não tem a superficialidade dos que reagem rápido sem pensar) mais começa, a partir de agora, um caminho interior que culminará com o canto feliz do “Magníficat”.

O Anjo agora disse “Alegra-te”, porém sou muito depois, depois de fazê-lo maduro no coração, Maria dirá: “Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (1,47).

  • “Cheia de Graça”

Maria é habitada pela graça divina, e este é o motivo de sua imensa alegria. Com esta palavra, Deus lhe faz conhecer a imensidão de seu amor predileto por ela, cumulando-a de seu favor e de sua complacência.

Este amor é definitivo e irrevogável. E é tão importante esta afirmação que o Anjo vai repeti-la em seguida (ver 1,30). A confiança que se necessita para poder responder ao chamado do Senhor é a certeza de seu amor.

  • “O Senhor está contigo”

Junto ao amor vem o compromisso concreto. Deus, que a chama para partilhar seu projeto, ele mesmo, em pessoa, lhe oferece sua ajuda fiel para poder levar a cabo o que se lhe pede. A Maria faz a mesma promessa que fez aos grandes personagens da Bíblia.

Estas três palavras do Anjo, que descrevem a ação de Deus em Maria, se realizam nas palavras que pronuncia mais adiante: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (1,35).

 

Com sua potência vivificante, criadora, Deus torna Maria capaz de colocar-se ao serviço da vida e do ministério de Jesus. Esta benção divina, prolongamento das bênçãos da primeira página da criação (Gn 1,22.28), será captada por Isabel, que, com toda razão dirá: “Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre” (1,42).

 

As palavras bíblicas da “Ave Maria” nos ensinam a aderir, solidamente, ao projeto de Deus Pai.

Deixemos que elas ressoem em nós como o eco do mar em uma concha que encontramos na praia, se a pomos em nossos ouvidos, o som do mar conquistará e envolverá em seu encanto todo nosso ser, impregnando sua melodia em nossa memória e em nosso coração.

 

Repitamos hoje, e sempre que seja possível, apoiados no esquema oracional do Rosário, com consciência e com força, estas palavras, até que, lentamente, sejam absorvidas no mais profundo de nosso coração, e sejamos conduzidos, assim, a ritmo de oração e pelo poder vivificante do Espírito criador, até a humanidade nova que é o mistério de Cristo que habitou em Maria.

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira

Lucas 11,5-13

ESCOLA DE PAIS: UMA ORAÇÃO QUE RENOVA NOSSO ESPÍRITO FAMILIAR

“Quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”

 

Não podemos deixar passar a riqueza do evangelho de hoje, o qual é uma maravilhosa escola de pais. O ambiente familiar dos ensinamentos que Jesus propõe depois do “Pai-nosso” (Lc 11,1-4), é claro.

 

Ali se fala da casa e da família do amigo, de seus filhos que não quer importunar, dos pais que sempre pensam no melhor para seus filhos e, sobretudo, no Papai Deus que dá seu Espírito Santo como o maior de seus dons para todos os seus filhos.

 

É claro que Jesus se apóia na família para dar seu ensinamento sobre a oração aos discípulos. Assim é a importância dda família!  Por isso, hoje estamos convidados a por maior atenção na oração em família.

 

  1. A oração em família: um espaço que eleva a fé

A oração pessoal é importante, mas, a oração comunitária em família é melhor. A comunidade familiar encontra na oração um espaço que faz crescer o espírito do amor. E, vice-versa, a vida de oração cresce quando é partilhada com aqueles que percorrem, conosco, os mesmos caminhos de crescimento, particularmente os caminhos da fé.

 

É verdade que, às vezes, não encontramos o tempo para orar em família. Cada um tem algo diferente a fazer, os hora rios não coincidem nem, tão pouco, os estados de ânimo. Acontece, também, que os momentos em que nos encontramos em casa coincidem com aqueles nos quais estamos cansados e com menor disposição para a oração.

 

Portanto, é da oração que necessitamos quando estamos assim: que bom começar com uma partilha sobre o que temos feito e expressar sentimentos e ideais! Logo poderíamos unir tudo em oração na presença do Senhor. Então percebemos como a amorosa companhia de nosso Pai celestial e também a de nossos queridos termina sendo a constante de nossa vida.

 

  1. Que bençãos derrama o Senhor na oração familiar

 

A Bíblia nos ensina que a vida de casado tem sua raiz e sua força na relação com Deus. E quando a  relação  encontra esta  raiz, conta  também com uma  fonte que mantém o amor sempre renovado, sempre em crescimento e cada vez mais perfeito.

 

Então dos lábios do casal vão sair, espontaneamente, expressões de gratidão pela experiência do amor recíproco, invocarão, juntos, o dom da geração da vida, pedirão ajuda ao Senhor para que acompanhe e proteja a vida que está por nascer, suplicarão a valentia para ter o gozo de perdoar-se mutuamente e querer-se cada dia mais. O Papa João Paulo II nos ensinou que “só orando junto com os filhos, o pai e a mãe descem em profundidade no coração, deixando rastros que os eventos futuros da vida não poderão apagar” (Familiaris Consortio, 60).

 

  1. Pistas para a oração familiar

 

3.1. Para fazê-la, primeiro tem que tomar a decisão

 

Não tem que deixar que a desculpa da fadiga nos roube o espaço mais belo do dia. Tiremos um tempo para parar e entrar em oração. É preciso tomar a decisão pessoal e logo a iniciativa na casa. Quando se dá os primeiros passos, logo se nota como todos, em meio das pressões a jornada, vão sentindo a necessidade deste momento.  Muitas famílias que se reúnem, semanalmente, para orar juntas, partem da Lectio Divina.

 

E as testemunham como, nas condições de vida de hoje, em meio das tantas ocupações, dentro do cansaço, da enfermidade, da dor que, não poucas vezes, se experimenta na experiência familiar, o Senhor os tem presenteado com o dom da oração. E esta se converteu na anti-sala da celebração eucarística dominical, à qual vão também como família.

 

3.2. Suplicar o dom da oração familiar

 

Muitos temores bloqueiam a pais de família que têm a intenção de fazer de seu lar uma escola de oração para todos: muitas vezes o medo do “não” dos outros, porém, o temor mais frequente é “se nós mesmos não sabemos orar, que vamos ensinar aos filhos?”.

 

Esta era a preocupação dos apóstolos, que sabiam que na missão teriam que educar as comunidades na oração. Um dia, quando Jesus estava orando, alguém lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar” (11,1). Também nós não tenhamos medo de dirigir esta súplica ao Senhor, admitindo que não sabemos.

 

Façamos desta súplica o nosso pedido mais importante de todos os que levamos no coração. E não nos cansemos de repeti-la, seja como esposos, seja como pais de família, ou como filhos. O Pai, assim como nos assegura Jesus, “o concede o Espírito Santo aos que o pedem” (11,13) e é o Espírito Santo que conduz nossa oração.

 

3.3. Orar a vida mesma

A oração partilhada faz fluir as expressões do afeto esponsal e, também, paterno-filial. Com a oração se celebra a acolhida agradecida do dom da vida, se acompanha o partilhar alegre da comida, se agradece a benção da alegria da saude e da cura, se oferecem as enfermidades e os sofrimentos, o ter ou a carência do trabalho, do colégio e das férias.

 

A oração não deve faltar nas festas de aniversário e nas outras festas, nem na oblação da vida que morre e na memória perene dos seres queridos que já partiram para a casa do Pai.  Não esqueçamos um espaço cotidiano, simples, porém, importante, que é o da benção da mesa. É rápida, porem tem muita força.

 

Que bom incrementar em nossas casas o costume de orar antes de começar a comer! Desde os momentos mais simples, até aqueles que marcam mais profundamente a vida, como o noivado ou a espera de uma nova vida no lar, deveriam estar marcados pela oração.

 

Como podemos ver, não se pode orar pondo entre parênteses as situações concretas da vida. Trata-se de um diálogo essencial entre a oração e a vida, entre a vida e a oração. Precisamente, este é o  “dialogo” que temos que ter dentro da família, preocupando-nos por cultivar a vida interior, na vida de oração, a todos os que vivem na casa.

 

  1. Vivendo para a grande comunidade cristã

 

Esta é a contribuição específica que a família, cada família, deve dar à grande família da comunidade  cristã. Para isso é necessário o acolhimento e cuidados da comunidade.

 

Como é importante que nossas comunidades se preocupem por sustentar o caminho espiritual das famílias, dando muita atenção aos momentos de oração comunitária nos quais as famílias estão presentes. Depois, de volta às suas casas, em cada uma das famílias se fará o mesmo.

 

Que belo espetáculo quando a família se integra na comunidade. Sobretudo quando os filhos se unem a seus pais e vice-versa, assim como quando Jesus acompanhava seus pais, Maria e José, em suas peregrinações, de Nazaré até Jerusalém. Era nesse ambiente no qual, depois dessas maravilhosas experiências de fé partilhadas, o evangelho nos diz que “Jesus progredia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52).

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração:

 

  • Como poderia caracterizar a vida de oração em minha casa? Nula? Regular? Intensa?
  • Por que é importante a oração em familia e que bençãos trás ao lar?
  • Que passos darei para estimular em minha familia a criação de espaços de oração mais frequentes?

 

 

 

Sexta-feira

Lucas 11,15-26
UM DISCÍPULO UNIDO A JESUS É MAIS FORTE QUE O MAL

“Se pelo dedo de deus expulso os demônios, é que já chegou a vós o Reino de Deus”

No ensinamento do “Pai Nosso”, a segunda invocação que Jesus pede aos discípulos que pronunciem é “Venha teu Reino” (11,3). O “Reino” vem na pessoa de Jesus e o maior de todos os seus dons é o Espírito Santo (11,13).

 

Pois bem, a passagem de hoje dá um passo adiante neste tema mostrando-nos que graças à vinda do Reino um discípulo de Jesus vive sob o Senhorio de Deus, descartando completamente qualquer dominação de Satanás. A vida no Reino de Deus supõe vitória sobre as forças do Mal.

 

Por experiência pessoal, os discípulos, quienes já hão estado em missão sabem que contam com um respaldo que lhes permite vencer o mal: “Eu via a Satanás cair do céu como um raio” (10,17), lhe disse Jesus quando eles regressavam felizes de sua experiência missionária.

 

Agora, com os discípulos detrás d’Ele, depois de realizar um exorcismo, Jesus recebe um ataque que saca a relucir o porque de sua confrontação com Satanás. Os adversários afirmam que Jesus: “Pelo (poder do) príncipe dos demônios, expulsa os demônios” (11,15).  Ele lhes responde que tal afirmação não é coerente, porque se assim fosse, então deveriam dizer o mesmo dos exorcismos que ele mesmos costumavam realizar (11,19).

 

Posto que os exorcismos, não necessariamente, eram prova de um poder divino, naquela época costumavam pedir “um sinal do céu” (11,16). Jesus aclara que seus exorcismos são, precisamente, um sinal do céu, porque se trata do “dedo de Deus” realizando esta obra (11,20; o “dedo de Deus” é uma designação bíblica do poder de Deus, como figura em Ex 8,15;3,18; Dt 9,10 e também na literatura antiga).

Com isto Jesus lhe disse a seus críticos que enquanto Ele expulsa os demônios como uma manifestação autêntica do agir de Deus, eles não fazem mais que realizar atos mágicos que, à hora da verdade não tem eficácia sobre o mal (ver contexto da primitiva Igreja, em At 9,13-17).

 

No texto se distingue entre o “Príncipe dos demônios” e os “demônios” (11,15 e 19). A idéia é que Satanás(aqui com o título de “Beelzebul”) é o chefe da quadrilhas de demônios. Sobre isto, Jesus ensina que as vitórias sobre os “demônios” que se realizam ao longo de seu ministério, são uma antecipação da vitória final sobre Satanás que se realizará na Cruz (4,13 e 22,3).

 

Desde esta perspectiva, o ministério de Jesus e também nossa vida como discípulos d’Ele, se apresenta como um campo de batalha (11,2-22) no qual teremos que definir-nos: De que lado estamos? (11,23).

Finalmente, Jesus dirige seu olhar para todo aquele que já há começado uma vida nova: há de estar sempre vigilante.  Não há que confiar-se porque pode haver recaídas e estas –a experiência o demonstra– normalmente deixar à pessoa numa situação pior que a inicialmente superada (11,24-26).

 

Não se deve dar chance ao demônio com um retrocesso. Para impedi-lo, uma pessoa libertada deve manter-se na linha de frente,  no campo de Jesus, construindo a fidelidade na renovação continua da fé e na aprendizagem do Evangelho. Este é o verdadeiro “estar e recolher comigo” (11,23).

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Que relação há entre a catequese sobre a oração em Lc 11,1-13 e esta passagem?
  • Que implica a “vinda do Reino de Deus” que suplicamos na oração para a vida do discípulo?
  • Quais as formas do “mal” (e de um reino do mal organizado) que atacam aos discípulos de Jesus?

 

“Tenho visto tantas almas voar como pobres mariposas e queimar as asas, seduzidas por essa falsa luz, e logo voltar à verdadeira, à doce luz do amor que lhes emprestava novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, para voar para Jesus, esse Fogo divino ‘que queima sem consumir-se’(Ex3,2)”

(Santa Teresinha do Menino Jesus)

 

 

 

Sábado

Lucas 11,27-28

Maria: Nossa Senhora da Escuta Ativa da Palavra.

“Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”

 

A cena do evangelho se situa no meio da cotidianidade do ministério público de Jesus. Ali onde sua deslumbrante misericórdia com os pobres e enfermos, com os marginados e pecadores, tudo isso como sinal da sobrepujante vitória sobre o mal,  atraiu a admiração de muitos.

 

De repente uma mulher anônima, de modo espontâneo levanta-se em meio da multidão e se atreve a interromper o discurso de Jesus para lançar um grito de felicitação para a grande mãe de tão grande filho: “Felizes o ventre que te levou e os seios que te amamentaram!(11,27).

 

Esta mulher quer dizer que quando ao filho lhe sai bem, a primeira em pôr-se contente é a mãe. Porém, Que ensinamento nos dá esta passagem? A mulher estava fortemente impressionada pela pessoa de Jesus. E foi o amor por Jesus o que a levou a pôr o olhar na Mãe. O que, em principio, lhe impressionou, foram as palavras de Jesus e seu poder sobre os demônios (ver 11,14-26).

 

Porém esta mulher sabe ver mais além no mistério de Jesus: a estreita e recíproca relação entre mãe e filho, e a significação que tem um para o outro:

  • O Filho deve estar agradecido com sua Mãe: o ventre materno o circundou, o protegeu e o nutriu antes de seu nascimento; ainda depois do nascimento o seio materno lhe seguiu dando vida.
  • A Mãe deve estar feliz com seu Filho: a felicidade da Mãe depende da condição do Filho, tudo o que Jesus fez pela salvação do homem faz feliz à Mãe. Na alegria de Maria celebramos nossa salvação.

 

Visto que um filho deve a vida à mãe, na vida do filho permanece, por assim dizer, a vida da mãe, vivendo-a na felicidade e na dor. Assim, a relação entre ambos não pode ser mais estreita, e mais quando por obediência ao projeto de Deus o caminho dos dois se vai tornando um só (Lc 2,34-35).

 

Felizes melhor os que ouvem a Palavra de Deus a põem em prática” (10,28). A resposta de Jesus à mulher que felicita a sua Mãe Maria não é uma rejeição de tão espontâneo lisonjeio.

Jesus retoma suas palavras e as completa: a bem-aventurança da Mãe lhe corresponde também a todos os que são como ela, isto é, a todos que acolhem sua mensagem como Palavra de Deus e a levam a sério.

 

Todos os que como Maria, percorrem o caminho de Jesus de maneira vital, na mais profunda relação e apropriação de vida com Ele, compartilham sua bem-aventurança. Para Maria isto é uma grande alegria, porque seu Filho não permanece significativo somente para ela, mas para todos os que se fazem seus discípulos.

 

Em seu rosto de Mãe está o Evangelho vivo porque abraçou em seu amor ao Verbo feito carne e Filho de Deus. O diálogo confidente com aquela a quem reconhecemos também como nossa Mãe deve ir levando-nos mais profundamente para o mistério da comunhão com seu Filho, impregnando-nos d’Ele pela leitura orante de cada uma das cenas vivificadoras do Evangelho.

 

Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração

 

  • Que tão forte é em minha vida a presença de Maria?
  • Ela viveu a Palavra e viveu da Palavra. Eu como me alimento diariamente da Palavra de Deus?
  • Com que frequencia leio, medito, oro, contemplo e deixo que se encarne em minha vida como em Maria?

 

 

 

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