ESTUDO BÍBLICO SEMANAL DE 12 A 17 DE NOVEMBRO DE 2018

SEGUNDA-FEIRA

João 2,13-22

O Templo Vivo de Deus: sua realidade, seus sinais e sua missão.

“Ele falava do Santuário de seu corpo”

Nossa aproximação ao Evangelho de João está marcada pela celebração do aniversário da dedicação da Basílica de Latrão (ou do Divino Salvador), em Roma. Trata-se de um templo que, por razões históricas, foi chamado “mãe e cabeça de todas as Igrejas da Urbe e do Orbe”, e como tal, é uma expressão visível da unidade da Igreja.

Permitamo-nos, hoje, antes de entrar no texto, uma primeira e brevíssima aproximação à realidade simbólica e espiritual do Templo na Sagrada Escritura.

  1. O universo simbólico do Templo

 

Na Sagrada Escritura, o Templo é um sinal visível da presença de Deus no meio de seu povo. A mentalidade bíblica sabe diferenciar bem: é um sinal que não esgota a transcendência de Deus, porque Deus é insondável e inalcançável.

Desde o caminhar do povo pelo deserto, quando a presença de Deus se dava na “Tenda do Encontro”, até a construção do templo de Jerusalém, pelas mãos de Salomão e seus posteriores reconstrutores, Deus quis deixar esta linguagem viva de sua fidelidade e de seu amor.

Para o mundo cristão, fala forte a palavra de Jesus à samaritana, a propósito dos edifícios: “os adoradores verdadeiros adorarão ao Pai em espírito e em verdade” (Jo 4,23). O novo Templo da Nova Aliança, não é de pedra e cimento, mas uma pessoa: Jesus. Disse o Evangelho de hoje: “Ele falava do Santuário de seu corpo” (2,21). No corpo de Cristo ressuscitado se manifesta a presença de Deus, nele, em seu nome se realiza a verdadeira adoração.

Quando, nos dias de hoje, se realiza o rito de consagração (ou dedicação) de uma catedral ou de um templo paroquial, sempre se tem presente esta dupla realidade: por um lado a convicção de que o Templo Vivo é Cristo mesmo, e por outro lado, que necessitamos de sinais visíveis de sua presença.

Por isso, em um Templo tudo é linguagem sacramental: o altar representa o próprio Jesus, as espécies eucarísticas reservadas no sacrário, a comunidade é o “Corpo do Ressuscitado” (como nos ensina Paulo em 1 Cor 12,12) e, assim também, o ambão, o batistério, etc., tudo nos remete ao mistério de Cristo.

Por outra parte, um templo é memória histórica de uma comunidade: coloca-nos em sintonia com as diversas gerações de crentes que passaram por ele, de quem somos devedores e com os quais experimentamos uma vivíssima comunhão. Um templo é símbolo de nossa comunhão com Jesus e com todos aqueles com os quais compartilhamos nosso caminhar como discípulos do Senhor.

Vejamos, um templo é sinal de uma multidão de pessoas acompanhadas e amadas por Deus, que assumem seu projeto de amor e vivem na santidade de sua graça.  Assim, a comunidade paroquial e diocesana é uma grande família, onde cada um tem seu posto, sua missão e sua responsabilidade.

Este é o verdadeiro templo de Deus, significado no esplendor de pedra e sua arquitetura, edificado na realidade viva do Ressuscitado, cujo corpo se reconhece no rosto de todos os batizados que oferecem sua vida junto com Ele ao Pai.

Este é o templo que Ezequiel viu em sua visão (47,1-12). Não um templo para encerrar-se, mas dar-se. Dele brotam os braços de um rio que cobre os pontos cardeais, quer dizer, todas as dimensões da terra.

Um rio do qual não se pode medir seu leito. Um rio que é capaz de fecundar o deserto e curar as águas horrendas do mar morto. Um rio que gera vida em abundância.

  1. O sinal de Jesus-Templo no Evangelho de hoje

O texto de João 2,13-22 tem três partes:

  • Jesus chega como um peregrino desconhecido, a Jerusalém, à festa da Páscoa.

Na explanada do Templo encontra um mercado: comércio de animais para os sacrifícios e câmbio de moedas para pagar o tributo.

Jesus vê os abusos e reage intervindo. O que vê ali não vai de acordo com o Deus a quem proclama seu “Pai”. A “Casa de meu Pai” (v.16) não é mercado; a presença do Pai deve ocupar os pensamentos e as ações de todos, tudo mais deve ser tirado do meio (ler 2,13-17).

  • Os judeus pedem a Jesus que explique sua atrevida reação.

Ele já havia remetido à dignidade da casa de “seu” Pai, mas isto não satisfaz seus adversários. Estes o acham presunçoso, pedem-lhe provas. Então, Jesus anuncia o sinal dos sinais, última e definitiva confirmação de sua obra no mundo: sua própria morte violenta e sua ressurreição (2,19).

Os judeus interpretam mal suas palavras, pensando no templo de pedra, mas Jesus refere-se à meta de seu caminho: a ressurreição, à qual chega por meio do caminho violento da cruz (ler 2,18-21).

  • Aparecem os discípulos que, à luz do fato da ressurreição de Jesus “recordam” (2 vezes se disse “recordar”: vv.17.22) de suas palavras e compreendem o sentido da Cruz.

Com isto, fica claro que a convivência com Jesus não é suficiente para entendê-lo. Ainda que seja uma graça acompanhá-lo constantemente em sua missão, o importante é que, só permanecendo paciente e fielmente, até o final, poderão compreender, plenamente, toda a grandeza da pessoa de Jesus.

Só a meta do caminho, a ressurreição, fará possível captar o sentido do itinerário completo de suas ações, palavras e opções. Esta, somada à guia da Palavra de Deus (v.17 e uma referência à “Escritura” no v.22), pode dar a luz que ilumina toda escuridão (ler 2,22).

Assim, Jesus é o lugar definitivo da presença de Deus no meio de seu povo e o lugar por excelência da adoração de Deus, Ele é a perfeita “casa” do Pai. O mistério de Deus se revela, em todo seu esplendor, em Jesus. Se é verdade que seus opositores o rejeitam pedindo provas, que, de todas os modos, não vão aceitar, o que faz seu discípulo?

Dá o passo da fé, se deixa guiar por sua Palavra e, por esse caminho, mergulha no oceano infinito de amor, de luz e de gozo de Deus, cuja fonte é o “Pai” de Jesus.

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

  • Que significado tem na Sagrada Escritura, o “Templo”? Que fazer para que nossos templos expressem melhor o rico sentido que têm?
  • Como se relacionam nossos templos de pedra com Cristo “Templo vivo” de Deus?
  • Que sentido tem agora para mim o “templo” onde nos reunimos aos domingos para celebração da páscoa dominical? Que ensina Jesus na expulsão dos vendilhões do Templo? Que consequências tem esse fato para a vida do discípulo

 

 

 

TERÇA-FEIRA

Lucas 17,1-6

A vida comunitária mantida pelo perdão e a fé

“Se sete vezes em um dia voltar a dizer-te ‘estou arrependido’, o perdoarás”

 

A descrição que o Evangelho de Lucas vem fazendo da vida nova que caracteriza um discípulo de Jesus culmina com as regras para a vida comunitária. Estas são:

  • Que cada um ponha atenção a sua própria responsabilidade nos problemas comunitários;
  • Que cada um viva em uma atitude contínua de perdão ao agressor e de ajuda ao irmão débil moralmente;
  • Que cada um fortaleça cada vez mais o poder de sua fé;
  • Que cada um se descubra como um servidor dos demais.

 

Em outras palavras, uma comunidade, que não é perfeita e, por isso, os “escândalos”, cresce em torno a três elementos: o perdão, a fé e o serviço. Vamos ver, hoje, os elementos da vida comunitária que apresenta o texto; o quarto e último elemento, nós abordaremos amanhã.

 

Primeiro: Jesus disse que os escândalos são inevitáveis

 

Ele sabe por que o disse. O termo “escândalo” (do grego “skandalon”) significa “pedra de tropeço”, “obstáculo”. No Evangelho se refere a problemas que surgem na comunidade e que prejudica as pessoas mais fracas na fé e na conduta; estes são “os pequenos”, cuja perseverança, ainda depende de pessoas concretas que as tem atraído para o Senhor.

 

Com respeito a esta realidade, Jesus faz duas advertências:

  1. “Cuidai-vos de vós mesmos” (v.3), isto é, cada um deve examinar-se a si mesmo continuamente sobre a limpeza de sua vida e sobre a responsabilidade que lhe compete quando surgem problemas comunitários;
  2. “Mais vale que ponham ao pescoço uma pedra… que escandalizar a um destes pequenos”, que é como dizer: “seria mais vantajoso perecer de morte violenta, que fazer dano aos pequenos”.

 

Segundo: Porque há escândalos terá que exercer esta dupla tarefa

 

Precisamente porque há problemas terá que exercer esta dupla tarefa:

  1. Corrigir o que vai pelo caminho equivocado: “Se teu irmão peca, repreende-lhe”;
  2. Perdoar ao que se arrepende: “Se ele se arrepende, perdoa-lhe”.

Trata-se de uma tarefa que não é nada fácil. Por isso Jesus segue com a catequese do v 4. No exercício do perdão pode chegar a perder a paciência e a força do amor. Daí que Jesus nos recorde que se trata de uma questão corriqueira, cotidiana: “sete vezes ao dia”.

 

Terceiro: Os discípulos que sabem que esta tarefa é importante, também têm plena

                consciência que apoiar-se unicamente nas forças humanas não é suficiente.

 

Jesus repete a lição da misericórdia. Os discípulos sabem que sua fé em Deus não é suficientemente forte para crer na possibilidade de mudanças profunda nas pessoas e na efetividade da palavra do perdão. Daí que os discípulos não pedem ao Senhor que lhes tire os problemas nem os desafios, mas que lhes aumente a fé (v.5).

 

Orar pedindo o crescimento da fé é implorar que se leve uma vida de união mais profunda com Deus, porque só em comunhão com Ele se faz possível o impossível, como o exemplifica a amoreira transplantada ao mar pela força de uma palavra (v.6).

 

O poder de Deus não tem limites. Por isso, se o Senhor nos põe diante de exigências que parecem difíceis de cumprir, o que, humanamente, chamamos “impossível”, deve recordar-se que se o pedimos, Ele nos torna capaz de realizá-lo. Ele pode levar a um final feliz nossos deveres familiares e eclesiais. A condição é a confiança n’Ele.

 

Os apóstolos, nesta ocasião, pedem, a Jesus, que os ajude a progredir na fé.  Eles, efetivamente, ao ver Jesus atuando no Evangelho reforçam sua fé. Mais adiante responderá de modo definitivo a este pedido quando diz a Pedro: “Eu orei por ti, para que tua fé não desfaleça” (22,32). Nossa oração ao Senhor, pedindo fé, tem como resposta a própria oração de Jesus por nós, nela devemos apoiar-nos.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

 

  • Avaliando hoje minha vida comunitária: Tenho sido motivo de escândalo para alguns de meus irmãos?

Tenho participado em algum problema que prejudicou algumas pessoas?

  • Qual o significado fundamental da confiança em Deus e da oração para crescer na fé?
  • Quais as situações em minha casa, em minha comunidade, em minha cidade, em meu país, em mim mesmo, sobre os quais, hoje, descubro que tenho que orar, pedindo crescimento na fé?

 

 

 

QUARTA-FEIRA

Lucas 17,7-10

A vida COMUNITÁRIA está animada pelO serviÇo.

 “Somos uns pobres servos, fizemos o que tínhamos que fazer”

 

Que o discipulado se exerce no serviço, é uma lição que Jesus nos dá no texto de Lc 12,41-48. Porém, curiosamente, depois de ter nos ensinado que o Senhor serve (o que é um alto reconhecimento) aos que sabem servir a seus irmãos, agora nos disse que eles não podem parar de trabalhar e o esforço realizado por eles é “inútil” (v.10).

 

A parábola do servo, que pode ser um agricultor ou um pastor ao serviço dos bens de seu patrão (v.7), acentua o final da jornada de trabalho, quando o trabalhador merece seu alimento e descanso. Sem dúvida, acontece algo inesperado: Uma vez em casa, segue trabalhando (v.8). Primeiro serve a comida a seu Senhor e depois ele atende a suas necessidades. Não lhe agradece (v.9). O mesmo servo deve declarar que não tem nenhum mérito, que só fez cumprir seu dever (v.10)

 

A parábola é forte e até soa injusta, porém, tenhamos em conta que ela não está descrevendo o comportamento de Deus com relação a nós.

 

O interesse desta parábola é ressaltar que o serviço cristão na comunidade é uma realidade permanente, que não se realiza para “ganhar pontos” nem para adquirir direitos com ninguém e que, quando se trata de cumprir com os próprios deveres comunitários, não há nada que possa ser secundário ou que não seja indispensável para o serviço do Senhor, quer dizer, todas suas palavras são obrigatórias para nós.

 

Por outra parte, da parábola se deduz que ante Deus não há méritos. A relação com Deus não se apoia na recompensa que possamos considerar merecida por nossas boas ações, mas é a escuta de sua Palavra e em pô-la em prática, tal como o tem insistido este evangelho.

 

Sem dúvida, não esqueçamos que, antes de pedir-nos qualquer coisa, o Senhor nos tem dado muitos dons: a vida, as aptidões, os carismas, os amigos, os irmãos na fé.

 

Por outro lado, recordemos que o Senhor não nos pede nada que seja absurdo ou arbitrário. Nosso dever ante o Senhor é o de sermos administradores fieis que estão sempre prontos para servi-lo naqueles que mais necessitem. E com isto não estamos fazendo nenhum favor a Deus, de maneira que depois possamos cobrar com outro favor que lhe peçamos.

 

O estar ao serviço do Senhor já é uma honra suficiente. É claro que o Senhor se alegra de nossos esforços, porém o bem que fazemos não muda nada a Ele, senão a nós mesmos. Por isso, com modéstia e humildade reconheçamos que tudo o que fazemos o realizamos como um serviço a Deus.

 

Não fiquemos esperando felicitação ou honra. Mas vivamos em continuo louvor a Deus, expressado na fidelidade, na perseverança, na convicção e na alegria no serviço. Esta espiritualidade nos dará impulso para assistir misericordiosamente àqueles que estão em extrema necessidade e de quem não podemos esperar nada em troça.

 

Viveremos assim em uma espiritualidade da gratuidade do louvor encarnado no serviço, fazendo tudo pela glória de Deus. E, não esqueçamos: sua bondade conosco é infinita.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

 

  • Que idéia tenho de minhas ações e meus esforços ante Deus? Estou esperando alguma recompensa?
  • Como se conjugam a disposição para o serviço por parte dos servos (Lc 17,10) e o serviço por parte do Senhor (12,37)?
  • Que características deve ter uma espiritualidade do servidor segundo o texto que lemos hoje?

 

 

 

QUINTA-FEIRA

Lucas 17,11-19

A espiritualidade de “dar graças”

“Não há voltado mais que este estrangeiro para dar gloria a Deus?”

A frase de Lucas, o narrador do evangelho, “E aconteceu que, a caminho para Jerusalém” (17,11), nos indica que entramos em uma nova etapa da viagem didática a Jerusalém que Jesus empreendeu com seus discípulos desde 9,51.

Daqui até o final da viagem (19,48) vamos nos encontrar com uma serie de temas que giram em torno à vinda do Reino, quer dizer, da salvação, tais como: o louvor a Deus, a perseverança na oração, a humildade, a renuncia, a chegada da salvação, o serviço a Deus, curas por misericórdia.

Começamos com a cura de dez leprosos (17,11-19; recordemos a cura de outro leproso em Lc 5,12-14). Este relato, em particular, quer inculcar-nos o dever da gratidão, quer dizer, do reconhecimento daquele de quem verdadeiramente vem a salvação.

Notemos alguns aspectos importantes deste belo relato:

  • O v.11, ao recordar-nos que Jesus viaja em direção de Jerusalém, a cidade na qual vai ser crucificado, ressuscitar e derramar seu Espírito nos indica em que chave devemos ler esta historia: a da salvação que vem de Jesus.
  • O v.12 nos apresenta a oração dos leprosos. Eles se mantêm a distancia, porque não podiam mesclar-se com a população sã. A lei diz que o leproso: “se cobrirá até o bigode e irá gritando: ‘Impuro! Impuro!… É impuro e habitará só; fora do acampamento estenderá sua morada” (Lev 13,45-46). Os dez leprosos pedem com um grito a Jesus que tenha “misericórdia” (v.13).
  • No v.14 Jesus não se faz esperar, lhes responde imediatamente. Em sua resposta lhes pede um ato de fé (ver 17,5-6), eles devem ir a Jerusalém como se já estivessem curados. E efetivamente o fazem, confiam no poder de sua palavra e se curam.
  • A partir do v.15 Jesus fica frente aos dez leprosos. O leproso agradecido: (a) se vê curado, (b) volta a Jesus, (c) glorifica a Deus em voz alta, (d) adora a Jesus prostrando-se a seus pés e (e) lhe dá repetidamente graças. Destaca-se o tema do louvor e ação de graças festiva e expressiva.
  • Nos vv.16-17 Jesus lhe faz três perguntas aos que o circundam, das quais não espera resposta (estas vêem da resposta que lhe damos – nós leitores). As perguntas de Jesus fazem eco a uma realidade que Lucas acaba de nos recordar: “este era um samaritano”.

As perguntas de Jesus soam quase a reclamação, porém na realidade são um convite para uma profunda reflexão sobre a espiritualidade de ação de graças: o samaritano dá graças porque há se deixado surpreender pela ação de Deus, ao contrário os demais – os que têm estado continuamente em contacto com as grandes obras de Deus – tomam como algo “normal” e simplesmente seguem seu caminho.

Agradece aquele que é capaz de admiração, que não se sente com “direitos adquiridos” com Deus, que descobre que tudo é graça, que nada é merecido.

Às vezes nos acontece na família e nas comunidades: estamos tão habituados a receber serviços que pouco a pouco vamos esquecendo de agradecer. Porém, não deveria ser assim, cada dia poderíamos ler o pequeno gesto de amor como uma imensa novidade, com um convite à alegria.

Além do mais, quem agradece fica, de alguma forma em divida com o outro. Por isso, o reconhecer –mediante o agradecimento- um bem que nos foi feito, de alguma maneira nos compromete com o outro. Talvez os outros dez leprosos só queriam, como acontece tantas vezes nas relações com Deus, o favor imediato, porém, não o compromisso do seguimento até a Cruz.

Como conclusão, Jesus disse ao leproso: “Levanta-te e vai-te; tua fé te salvou” (v.19). Aparece assim o tema da salvação, que não consiste tanto na cura física (que também receberam os outros nove leprosos), mas a recuperação da vida em sentido pleno, o dom da vida recebido pelas benditas mãos de Jesus, presença viva de Deus em meio dos homens.

O dom da salvação é para quem sabe reconhecê-la pelo caminho humilde da gratidão.

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

  • Quem são os leprosos do evangelho em nosso contexto atual?
  • Como curou Jesus aos leprosos?
  • Que elementos caracterizam uma espiritualidade da ação de graças? Como vou pô-la em prática?

 

 

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA

Lucas 17,20-25

A vinda do Reino de Deus (I):

“O Reino de Deus está dentro de vocês”

 

O relato da cura dos dez leprosos é o prelúdio do ensinamento que Jesus agora vai pronunciar sobre a irrupção definitiva do Reino de Deus (tecnicamente se diz “Discurso escatológico”, ou para esta passagem em particular “pequeno Apocalipse lucano”).

 

A conexão é natural, porque falar de “salvação” é falar, desde a obra de Deus no desenlace da historia e esta tem seus tempos e seus modos. A revelação destes tempos e modos é importante para saber que fazer quando acontecer.

 

Frente a esta realidade do tempo final da obra de Deus no mundo e da historia da humanidade (a vinda do Reino), surge a inquietude que brutamente traça os fariseus a Jesus: “Quando vai chegar o Reino de Deus” (v.20a). Jesus responde mediante um ensinamento dirigido primeiro aos fariseus (vv.20b-21) e logo, a parte mais extensa, aos discípulos (vv.22-37).

 

O conteúdo deste discurso de Jesus se divide em duas partes:

(1) O “quando” da vinda do Reino (vv.20-25); e

(2) O que fazer e o que não fazer para receber dignamente o tempo final (vv.26-37).

 

  1. O “quando” da vinda do Reino (vv.20b-25)

 

Na mente dos fariseus muito provavelmente estava vigente da idéia uma vinda do Reino, na pessoa do Messias, mediante um fato contundente, onde não haveria a mínima ambigüidade, como se fora um objeto completamente definido sobre o qual se poderia dizer: “Olhem ai, não há dúvida!”. Por isso a resposta de Jesus é desconcertante. A vinda do Reino supõe uma oscilação nestes termos: “Já, porém, todavia não” (a frase não é de Jesus, porém é o sentido).

 

Sobre o “Já” (vv.20b-21)

Como se afirma desde o discurso de abertura e exposição do programa missionário de Jesus (Lc 4,16-21) a salvação iniciou no “hoje” da obra de Jesus: “Esta Escritura que acabais de ouvir se cumpriu hoje” (v.21).

Portanto a vinda do Reino se pode reconhecer “já”, está já presente no ministério de Jesus.  Não reconhecendo o ministério de Jesus como tempo e lugar da revelação divina, os fariseus hão se fechado a possibilidade a uma revelação.

Uma revelação necessita ser escutada, interpretada e acolhida. Por isso os fariseus estão espiritualmente cegos ante Jesus. Por isso, nos mesmos termos de Jesus, “O Reino de Deus vem sem deixar-se sentir”, não poderão dizer “ei-lo aqui, ei-lo já está entre vós”, ou seja, está ao alcance, basta abrir os olhos da fé, descobri-lo.

Sobre o “Todavia não” (vv.22-25)

Efetivamente, o Reino de Deus já está presente para todo aquele que seja capaz de captá-lo na fé, porém não há que esquecer -como o ensinam as parábolas da semente- que ele tem uma dinâmica interna, uma progressão, que aponta a sua consumação no futuro.

O que se pode ver no presente do ministério de Jesus é humilde em comparação com a grandeza que se verá ao final, na segunda vinda do Senhor. Atualmente vivemos em meio desses dois tempos.

 

Nesta expectativa não faltam os afanes. Como ensina o v.22, nos tempos de obscuridade, próprios das perseguições, se desejara ver ao menos um pouco de luz, algum sinal, porém não se verá. De fato, as primitivas comunidades sofreram muito com isto.

Elas imaginavam um regresso quase imediato do Senhor Jesus, porém passava o tempo e isto não se realizava. A demora do fim da historia, dá ocasião para que surja todo tipo de conclusão e falsas profecias. Inclusive, apareceram muitos candidatos a “messias”. Porém como disse Jesus: “Não vás, nem corrais atrás” (v.23).

Jesus mesmo dá uma chave, que é a que deve ter-se em conta: “como relâmpago fulgurante… assim será o Filho do homem em seu dia” (v.24). A frase não há que tomar ao pé da letra, é uma imagem.

Não é que sua aparição seja súbita como a velocidade de um raio, mas que como este será suficientemente luminosa e visível. Não tem que estar se desgastando, então, com supostas revelações ocultas que podem perceber só uns privilegiados e iniciados.

 

Jesus, no evangelho de Lucas, ensina insistentemente qual o caminho para chegar à gloria é a Cruz (por exemplo: 24,26). A rejeição de Jesus e dos evangelizadores no tempo da Igreja, da qual fala o v.25, mostra em que medida vai se aproximando o fim.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

 

  • Quando vivemos a passagem do milênio, houve muitas falsas expectativas em torno a um fim do mundo. Como interpretar toda essa confusão que suscitam algumas pessoas e movimentos?
  • Que temos que seguir evitando?
  • que o Reino “já” veio, porém “todavia não” há chegado sua consumação na historia?
  • Como esperavam os fariseus o Messias? Como o recebemos nós os cristãos?

 

SÁBADO

Lucas 17,26-37:

A VINDA DO REINO (II)

“O Dia que se manifestar o Filho de homem”

 

Seguimos com o ensino de Jesus sobre a vinda do Reino, que começamos a ler ontem. Centramo-nos hoje na segunda parte.

 

O que fazer e o que não fazer para receber dignamente o tempo final (vv.26-37). A resposta é muito simples e bem concreta: devemos estar preparados. Para que nos fique claro este ensino, Jesus nos põe dois exemplos tomados da mesma Bíblia.

 

O primeiro caso (vv.26-27), foi tomado de Gn 6-8. Jesus evoca a alienação em que vivia a sociedade corrompida dos tempos de Noé. Quando veio a catástrofe o povo andava em uma despreocupação inexplicável. Somente Noé, com sua família, que estava à escuta da Palavra de Deus, pode salvar-se.

 

O segundo caso (vv.28-29), foi tomado de Gn 19,24-28 .Jesus também se remete ao desastre que arrasou as cidades do vale da Arábia, ao sul do Mar Morto, nos tempo de Ló. O povo, exceto Ló, andava centrado em sua vida corrupta sem pensar em um inevitável fim. Porém, como preparar-se? Jesus agora, levando bem o fio de seu discurso, nos dá, como em duas colunas contrapostas, indicações práticas sobre o que fazer e o que evitar.

 

Nos tempos que vivemos, ante a eventualidade de um terremoto e outro desastre natural, e igualmente ante os possíveis ataques que põe em jogo a vida, se realizam treinamentos (mediante representações) para saber o que fazer quando chegar uma emergência. Jesus fala agora nesses termos (vv.31-32)

 

Se deve fugir

 

Este fugir nos recorda as recomendações dos profetas ante o juízo divino, como por exemplo: “Escapai, filhos de Benjamim, de dentro de Jerusalém… porque uma desgraça grande ameaça o norte” (Jr 6,1;Jr 48,6.30;51,6). Porém no evangelho não é uma “fuga”, o acento – como o podemos notar – está no abandono dos bens terrenos.

Este desapego é sinal de compromisso com o discipulado, o qual é caminho de salvação. Em outras palavras: “Comprometa-se com o caminho de Jesus, sendo livre para Ele, não se apegando a nada que possa ofuscar seu Senhorio”.

Não se deve voltar atrás

 

É o apego que aparece bem ilustrado na historia da mulher de Ló (Gn 19,32): olhar para trás a fez indigna da salvação que o Senhor estava lhe oferecendo. O final da historia se aguarda mediante um compromisso sério, e também gozoso, de seguimento do Senhor.

Este seguimento se faz “tomando a cruz cada dia”, assim como Jesus ensinou em Lc 9,23.  Este ensino sobre a Cruz vem ao caso, pois é o modo de ser discípulo em todos os tempos da historia.

 

Por esta razão Jesus insere também este ensino: “Quem tentar guardar sua vida, a perderá; e quem a perder, a ganhará” (=vivificará, em grego)” (v.33; ver ainda 9,24). Quer dizer, se trata de viver o discipulado à luz da Paixão do Senhor, firmes a toda custo no caminho de fidelidade ao Senhor.

 

É belo notar como neste panorama brilha a luz da fé que salva (Lc 17,19). O reconhecimento e o apreço à pessoa de Jesus, acolhendo sua obra pascal por nós, dá outro ângulo de leitura aos acontecimentos.

O seguimento, tomando a cruz, é fortaleza na tribulação, é raio luminoso na treva, é compromisso profético na alienação deste mundo, é a certeza da solidez da vida na hora de prestar conta dela.

 

Sem dúvida, para evitar equívocos, a “fuga” de que se tem falado, não nos livra do ter que enfrentar o juízo divino, na confrontação com o Filho do homem, agora plenamente manifestado. No juízo cada um -homens e mulheres- assumirá sua responsabilidade: “um será tomado (para o Reino)”, “o outro deixado (considerado não apto para o Reino” (vv.34-35).

 

O cenário noturno nos remete à noite pascal, que foi noite de salvação para o povo fiel de Deus, porém também de desastre para os egípcios.

De novo brilha uma luz positiva sobre o cenário: o tempo final será como a bela noite pascal, a noite da salvação que teve sua plenitude na noite antecipada que rodeou o crucificado. O juízo se descreve na noite porque é antes tudo a noite da salvação.

 

Á pergunta final dos discípulos sobre o lugar exato do juízo (v.37), pensando talvez no vale de Josafá (Jl 4,2), Jesus responde com um proverbial, tão enigmático como evasivo.

 

Para cultivar a semente da Palavra na vida cotidiana:

 

  • Que espera Jesus que façamos a partir do ensino que nos dá em seu discurso sobre o tempo final?
  • Que lugar ocupa a cruz – expressão luminosa de fidelidade, de amor, de compromisso profético – no discurso escatológico de Jesus?
  • Tem sentido fazer conclusões sobre o tempo e lugar da manifestação final do Filho do homem?

Que direção deveria tomar nossa maneira de abordar o tema, a partir deste evangelho?

 

 

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