lectio Divina na 20ª semana comum ano 2019

COMUNIDADE CATÓLICA PAZ E BEM

LECTIO DIVINA – 20ª semana do tempo comum

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 DOMINGO / SEGUNDA-FEIRA, 18/19 DE AGOSTO DE 2019 –

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Lucas 1,39-56 (A visitação; Cântico de Maria) O encontro de duas mães é sinal claro de ligação e continuidade da história da salvação contida no Antigo Testamento com a nova que inicia. Por isso, Isabel vê em Maria à mãe «de seu Senhor» (cf.v.43); proclama-a “bem-aventurada” por sua fé, exultando, junto com seu filho, no Espírito (vv.41-45). A presença misteriosa do Espírito nos mostra, que as duas mães são parte de um mesmo plano de salvação. No fundo, é a humildade de quem acolhe em si a verdade da história. Exatamente por isso, a hu­mildade de Maria não a impede reconhecer-se, inclusive, como destinatária privilegiada do amor de Deus e profetizar que a história a recordará (e com isso se insere, uma vez mais, no exército de todos os orantes do An­tigo Testamento). Desta perspectiva parte a recordação das obras rea­lizadas pelo verdadeiro Senhor da história (vv.51-53). E esta se cumpre: na salvação levada a quem parece não ter salvação: os humildes, os famintos; e na dispersão daqueles que têm uma salvação fabricada à sua medida (os soberbos, os poderosos, os ricos). Estes dois aspec­tos da história parecem combater-se reciprocamente: «Demonstrou a força de seu braço” é uma frase de conotação militar (cf. Sl 118,16). Sem dúvida, a profecia de Maria revela um único aspecto de salvação: a proximidade do Senhor. Tanto quanto demonstra ser fiel à suas próprias pro­messas e, assim, digno de confiança. A quem tem olhos humildes, capazes de ver a humildade da história da salvação, o Deus em quem se pode confiar permanece como confirmação da bênção que Ele mesmo dirigiu a Israel e a seu povo, a promessa que levam com eles, o menino que dá saltos no seio de Isabel e o que está crescendo no de Maria.

 

 

Ap 11,19a;12,1-6a.10ab (Visão da mulher e o dragão) – O texto apresenta uma visão. Nela se mesclam figuras e realidades, de modo que nem sempre é fácil interpretar com exatidão o significado. De outro lado, na linguagem profética e apocalíptica convém, com frequência, deter-se no nível da sugestão, a fim de entender melhor o texto. Este pode ser apresentado assim como um de nossos sonhos reveladores, um sonho no qual vêm à tona nossos medos e nossas certezas, nossas necessidades e nossos desejos… Este sonho nos fala de zelo, antes de tudo. Está se levando a cabo algo que está acima de nós, algo que nos inclui. A luta entre a mulher, o menino, o dragão e os exércitos angélicos não é algo fora de nós, mas se cumprem em nosso próprio zelo. Mas, trata-se de uma luta final, pois nela está em jogo nossa vida ou morte. Mostra-nos muito bem o sinal da mulher (12,1ss). Esta é quase uma rainha, soberana sobre a lua (quer dizer, sobre o «outro» lado de nossa consciência, a nossa natureza mais inconsciente) e sobre as es­trelas (as doze estrelas se referem às doze tribos de Israel, ou seja, que esta figura também é soberana da história, que, mesmo sem sabermos, está por trás de nós). Este sinal constitui o lado vivo de nossa realidade; mais ainda, o lado mais fecundo, o lado que nos impulsiona a continuar a vida, o sinal que nos permite alimentar a esperança de um dia novo. Sem dúvida, este sinal não está isento de dor e de perigo (12,3ss). A mulher grita em dores do parto e, ao mesmo tempo, teme o dragão que quer devorar o menino. Se nos deixamos cativar por este sonho, sentire­mos que significa que nosso sonho de uma vida no­va esteja em perigo, daremos conta até que ponto, está tremendo por dentro nossos desejos, perguntaremos se conseguiremos ver de verdade a luz.

 

1 Cor 15,20-27a (O fato da ressurreição) Paulo aponta também em outras ocasiões, que o anúncio da Ressurreição está no centro da mensagem cristã (cf.Rm 1,4;Gl 1,2-4;etc.): «Se Cris­to não ressuscitou, vã é vossa fé» (1 Cor 15,17). Também neste caso, após voltar a chamar os fieis a compartilhar um mesmo caminho de fé, torna a apresentar-lhes o Evangelho inicial: «Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escritu­ras» (1 Cor 15,3ss). Portanto, tenta dar possíveis explicações da Ressurreição, ante possíveis objeções. No texto, a Ressurreição está unida a seu acontecimento primeiro: Jesus Cristo. De fato, o «primeiro homem, Adão, é figura de um ser para a morte, que introduz a morte-pecado na natureza humana; o homem «novo» Jesus, ao contrário, traz a vida e, através dele, tem lugar à Ressurreição.” A leitura cristológica da Ressurreição é óbvia; mais ainda, serve para valorizá-la como um acontecimento de graça e evitar leituras sim­plesmente naturalistas ou moralistas. A Ressurreição é o dom da vida de Deus em Cristo: não se trata de um prê­mio para quem tem se comportado bem ou evolução na­tural das coisas… A Ressurreição é a Vida nova que irrompe em nossa vida, é a Vida da graça, que transforma todo nosso ser e faz que nosso espírito e nosso corpo possam ver o rosto de Deus e sejamos elevados ao céu. Este é o real anúncio da de­rrota definitiva da morte, que já não é considerada como pecado e dor, mas se torna porta santa, no último passo para o encontro com o Senhor de nossa vida.

 

Sl 44/45 (Epitalâmio real) A Igreja aplica este Salmo à Virgem Maria. Quem ama sente a necessidade de louvar e cantar as maravilhas do mundo. Quem mais do que Maria pode cantar a beleza do Verbo feito carne? Quem mais do que ela pode sentir a alegria de contemplar o seu Filho? E quem mais do que Jesus pode cantar as belezas de sua Mãe Maria? Este hino de amor nos faz perceber como a vida é bonita quando nos doamos no amor, quando Deus se coloca na nossa frente com toda sua beleza e poder.

Senhor, que eu possa em cada momento sentir-me atraído por ti, por um amor infinito. Que este amor nunca venha a menos e que tudo o que faço seja só feito por amor e no amor. Que nada me afaste da tua beleza. Seduz-me, Senhor, e que me deixe seduzir. Que estejamos unidos por laços de amor eterno. Amém.

MEDITATIO: Maria encerra e realiza em si mesma um caminho particular de fé. Apesar da eleição que a fez não afetada pelo pecado original e Mãe de Deus, ela é «a que avançava na peregrinação da fé» (Redemptoris Mater 25). Isto a converte, também, em um modelo para todo o que quer compreender o que sig­nifica reconhecer o total senhorio de Deus sobre sua própria vida. Este senhorio encontra sua realização já em nosso caminho de crescimento humano. À medi­da que o senhorio de Deus entra em nossa história conseguimos ver com olhos novos a realidade que nos rodeia. Já não vêem só os abusos, as in­justiças, as mentiras, a ri­queza que é morte do pobre… Aos poucos se tornam semelhantes aos de Maria Santíssima, que é capaz de reconhecer o poder de Deus que atua na história em favor da justiça e da paz, e que nós mesmos po­demos fazer parte dessa história, exatamente como Maria, se nos confiamos a este anúncio. O senhorio de Deus encontra, também, a sua realização, em nosso caminho de fé. Com Maria Santíssima nos damos con­ta que somos «servos» chamados a proclamar a obra e as maravilhas do Senhor, a engrandecer sua presença em nossa vida. Com Ma­ria: não temos medo de reconhecer, ante o mundo, nossa eleição e de chamar-nos ser­vos e filhos de Deus; não temos medo da obra que o Espírito Santo está realizando em nós. Este cami­nho se realiza através da oração, do serviço e do testemunho, junto com Maria, que foi capaz de realizar, em sua própria carne, sua oração do Magníficat e seu anúncio de libertação. O último anúncio deste senhorio de Deus sobre nossa vida tem lugar quando conseguimos com­preender que este não permanece estranho a nossa cor­poreidade. E podemos intuir já no anúncio da en­carnação ou tê-lo em nossa vida, através da corporeidade dos distintos sacramentos. A realidade da ressurreição, que para nossa natureza huma­na se torna eficaz já na assunção de Maria ao céu, é o último chamado a entregar nosso corpo, do mesmo modo, ao poder do Reino de Deus. Até nosso cor­po, com suas necessidades mais insignificantes e seus desejos mais elevados, está incluído no Reino de Deus. O corpo de Maria Santíssima, que levou nele o corpo do Verbo de Deus Encarnado e fez frente, também, à dor da história, torna-se, no mistério de sua Assunção, a promessa e a realização disto: os nossos desejos, as nossas necessi­dades, não podem apartar-se da presença divina que tocou nossa vida.

 

 

ORATIO: Dou-te graças, ó meu Pai eterno, porque elegeste a jovem Maria de Nazaré, jovem mulher humilde e pobre, para dar cumprimento às promessas que fizeste a Abraão, que «teve fé e esperou contra toda esperança» (cf. Rm 4,18). Nela nos mostraste como operas: simplesmente, por amor. Ajuda-me a ver que, também, estou chamado a este amor, sem medos. Dou-te graças, Verbo eterno, porque em Maria, com tua encarnação, tocaste nosso corpo mortal e, em Ti, o fizeste capaz de acolher a santidade de Deus. Tudo o que tens feito na história, com tuas palavras e ações, se converte, para nós, em chamado e promessa de um mundo novo. Ajuda-nos a crer em Ti e que Tua história é a verdadeira história do mundo. Dou-te graças, Espírito do Pai e do Filho, porque Tua ação misteriosa mudou o sentido da história. Teu poder tocou o seio de Maria e a preparou para a vinda do Verbo de Deus. Teu poder transformou as palavras de uma pobre mulher em um anúncio capaz de revolucionar a história, em profecia de verda­deira libertação. Teu poder santificou um corpo destina­do ao pó, tornando-o glorioso e capaz do infinito. Que teu poder nos ajude, também, a confiar nossos sonhos e nossos desejos a este anúncio de Ressurreição, para que consigamos rea­lizar, também, em nossa vida, o ato de fé total como foi o de Maria.

 

 

CONTEMPLATIO: Nossa celebração consiste, na realidade, mais na indicação do mistério que em sua explicação. E ainda que eu quisesse antepor ao silêncio, à fala, esta última se vê forçada pelo afeto, dando lugar às palavras, e cede a estas, ainda que não tenham coragem e não ignorem sua de­bilidade, que é grande demais com respeito à possibili­dade de satisfazer, de um modo adequado, o arcano do prolongado silêncio […]. Por isso, ânimo! Obedecei a mim, que sou bom con­selheiro, e correi ao encontro da Mãe de Deus. E, enquanto estais reluzentes pela ação e pela palavra, e resplandeceis por todos os lados, graças à be­leza da virtude, queira o próprio Cristo recolhê-los e re­cebê-los, ao mesmo tempo, no místico banquete. E os mostra, claramente com o fato de que hoje traslada a sua Mãe sempre virgem, de cujo seio, e ainda sendo Deus, tomou arcanamente nossa forma, dos lugares terrenos como rainha de nossa natureza, deixando o poder do mistério sem anúncio, ainda que não de todo inco­municável. De fato, ela veio no nascimento e, sem dúvida, teve uma condição extraordinária. Aquela que procurou a vida sobe para uma viagem de nova vida e traslada-se ao lugar incorruptível, princípio de vida (Andrés de Creta, Omelie mariane, Roma 1987).

 

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Senhor olhou a humildade de sua serva» (Lc 1,48)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL: Só acrescentarei que, assim como a cada ano, honramos um mistério de Jesus de modo especial, convém também escolher no dia da Assunção da Virgem um mistério de sua vida para dar-lhe honra particular durante o ano. Os principais estados e mistérios da vida da santa Virgem Maria são: sua Concepção; sua residência nas ditosas entranhas de sua mãe Santa Ana; seu Nascimento; o dia em que recebeu o Santo Nome de Maria; sua Apresentação no templo; seu estado de infância até a idade de doze anos; seu matrimônio com São José; a Encarnação de Jesus nela; sua condição de Mãe de Deus; a residência de Jesus nela; sua visita a Isabel e sua permanência de três meses em sua casa; sua viagem de Nazaré a Belém; seu divino parto; sua Purificação; sua fuga ao Egito e permanência ali; seu regresso do Egito e sua vida em Nazaré com seu Filho até os trinta anos; as viagens com seu Filho durante sua vida pública; seu martírio ao pé da cruz; sua alegria na Ressurreição e Ascensão de seu Filho; todo o tempo de sua vida desde a Ascensão de Jesus até sua própria Assunção; suas santas comunhões durante esse tempo, sua ditosa morte; sua gloriosa Ressurreição; sua triunfal Assunção; sua colocação à direita de seu Filho como soberana do céu e da terra; a vida gloriosa e feliz que leva no céu desde o dia de sua Assunção (São João Eudes).

 

 

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TERÇA-FEIRA, 20 DE AGOSTO DE 2019- 20ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO PAR

Mateus 19,23-30 (O perigo das riquezas) Depois que o jovem rico se foi triste, também Jesus, entristecido pelo fato, comenta com tom grave. Ninguém pode «servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6,24). O Reino dos Céus é dos «pobres em espírito» (cf.5,3): por isso, dificilmente entram nele os ricos; primeiro têm que fazer-se pobre. A eloquente imagem do camelo contribui para dar maior ênfase a esta afirmação. Compreende-se que os discípulos ficaram perturbados. Jesus penetra, com o olhar, seu coração, e se dá conta de sua perplexidade. Sim, não compreenderam mal. Seguir a Cristo de um modo radi­cal é difícil, inclusive, impossível, quando se conta só com as forças humanas, mas devem recordar que o sujeito da obra não são eles, mas Deus, para quem «tudo é possível». Aqui, Pedro, com a franqueza e o caráter impulsivo que lhe caracterizam, descobre, com surpresa, a diferença de sua situação para a do jovem rico. Eles acolheram o dom divino, abandonaram tudo para seguir a Jesus, que lhes espera! (v.27). O jovem rico se foi triste porque havia respondido «não». Porém, que acontece a quem responde «sim»? Já conhecem o final dos que optam pelo dinheiro, porém, que obterão os que optam por Deus? Jesus não é um vendedor de mercadorias e não necessita fazer uma lista de tudo o que receberão seus discípulos pelo preço que pagaram. Sem dúvida, como conhece a pequenez do coração humano, necessitado de seguranças e de alentos, assegura-nos que a recompensa será grande, tanto neste tempo como na eternidade. De fato, «Deus é maior que nosso coração» (1Jo 3,20); ao contrário do pouco ao qual tenhamos renunciado por seu amor, nos será dada «uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante» (Lc 6,38).

 

 

 

Ez 28,1-10 (Contra o rei de Tiro) Nos capítulos 25 a 32, da segunda parte do livro de Ezequiel, encontramos uma coleção de oráculos contra os povos pagãos do arredor. Esses povos mostraram sentimentos de orgulho ante Deus e representaram uma constante tentação para Israel, afastando-o de Yahweh, seu Deus. O texto de hoje contém os oráculos rela­cionados com o príncipe de Tiro e todo seu Reino, que constituía grande potência marítima na época. O julgamento está pronunciado com severidade e ironia. A culpa denunciada é o orgulho exagerado que lhe le­vam a usurpar prerrogativas divinas. O príncipe de Tiro pretende ser uma divindade, dominar, não só sobre a ilha, mas sobre o extenso mar que a rodeia. Descreve-se, de modo perspicaz, o processo segundo o qual tem chegado a este absurdo. Tem se exaltado, em primeiro lugar, em sua inteligência, prudência e versatilidade em toda di­plomacia; em seguida vangloria-se de sua capacidade para procurar ingentes riquezas. Sua autodivinização, além de loucura, é um grave atentado contra a glória de Yahweh, único Deus, Criador e Senhor do universo, o único digno da máxima exaltação e adoração. Por isso a sentença de castigo é grave: morrerá e seu reino será aniquilado. “O orgulho, a auto exaltação, a autodivinização são, no fundo, o pecado que espreita a tua porta” (Gn 4,7) desde o princípio. Acaso não desobedeceram, Adão e Eva, e mereceram a condenação, por ter querido ser como Deus (Gn 3,5)?

 

Dt 32,26-28.30.35-36.39 (Cântico de Moisés) O cântico de Moisés, composto e recitado às margens do Jordão, compõe um díptico com aquele cantado junto ao mar Vermelho, só pela posição, depois de sair e antes de entrar. Na forma e no conteúdo, é bem diverso. Poema de grande originalidade e fôlego, no qual confluem e se fundem elementos variados, rico em imagens e em linguagem seleta. É fácil detectar nele formas sapienciais, e mais ainda uma pregação profética; tem muito de disputa judicial (testemunha de acusação). Incorpora concepções antigas, ideias atípicas, ao mesmo tempo, que registra audaciosamente um monólogo de Deus. Não podemos descrever sua origem nem datá-lo com segurança. A título de conjetura, suponhamos que seja uma composição exílica, de um grande poeta, que talvez tenha empregado um texto mais antigo ou nele se tenha inspirado. Para orientar a leitura, podemos propor uma visão global simplificada: numa grande querela do Senhor com seu povo, projeta castigá-lo e acabar com ele; mas, antes de ditar a sentença, pensa que o executor estrangeiro seja mais culpado, volta-se contra ele e salva seu povo.Em outras ocasiões se interpôs a intercessão de Moisés; aqui tudo se resolve no interior misterioso de Deus. Ao longo do comentário iremos recolhendo ecos, reminiscências e coincidências de textos variados.

 

 

 

MEDITATIO: «Poderoso cavaleiro é o dom dinheiro», «ter é poder»: são modos de dizer e de pensar que fazem parte do credo de muitos, mas não dos que querem seguir a ­Jesus. Ele, rico, se fez pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9) e proclamou bem-aventurados os pobres no espírito (cf. Mt 5,3). A riqueza leva ao orgulho, à ilusão de ser onipotente como Deus, enquanto que a pobreza se associa com naturalidade à humildade. A pobreza é o «vazio» que recebe o «vazio» capaz de receber a pleni­tude e o absoluto. Existe um relato popular que resulta muito iluminador a este respeito: na noite em que nasceu Jesus, os anjos levaram a boa notícia aos pastores. Havia um pas­tor paupérrimo, tão pobre que não tinha nada. Quando seus amigos decidiram ir ao portal a levar-lhe algum presente, também convidaram a ele. Porém o pastor pobre disse: “Não posso ir: teria que apresentar-me com as mãos vazias, que posso dar-lhe?”. Os outros lhe convenceram de que se unisse a eles. Chegaram assim ao lugar onde se encontrava o menino. Maria, a mãe, o tinha entre seus braços e sorria ao ver a generosidade dos que lhe ofereciam queijo, lã ou algum fruto. Viu o pastor que não le­vava nada e lhe fez um sinal para que se aproximasse. Ele se adiantou embaraçado. Maria, para ter livres as mãos e receber os dons dos pastores, pôs sua­vemente o menino entre os braços do pastor… que havia ido com as mãos vazias.

 

ORATIO: Senhor, talvez nosso orgulho não chegue até esse pon­to exagerado de fazer-nos dizer: sou um deus; sem dúvida, pelo fato de ter renunciado a pôr as riquezas materiais no centro de nossa vida e de querer seguir-te como verdadeiros discípulos nos cremos santos e merecedores de prêmios. Ainda que de modo submisso e um pouco embaraçados, temos te pergun­tado em distintas ocasiões: E tu que nos darás? Que receberemos em compensação pelo que te temos oferecido? Paulo nos censuraria como fez com os coríntios: “Pois quem te faz superior aos demais? Que tens que não tenhas recebido? E, se tens recebido, por que te orgulhas como se não tivesses rece­bido?” (1 Cor 4,7). Reconhecemos, ó Senhor, que tudo o que temos te oferecido provém de ti. Tudo que temos, tudo o que somos, são dons teus. Hoje não queremos pedir-te nada, mas só dar-te as graças. Acolhe nosso reconheci­mento, que é o dom tímido de quem sabe que não tem nada.

 

CONTEMPLATIO: As riquezas, o ouro e a prata, não pertencem – como creem alguns – ao diabo. Está escrito, de fato, que a quem tem fé lhe pertencem todas as riquezas do mun­do e que ao infiel não lhe pertence nem sequer um óbolo. Em consequência, nada pertence ao diabo, mais infiel que este não há ninguém. Disse Deus, expressamente, pela boca do profeta: «Meu é o ouro, minha a prata, e as dou a quem queira». Basta que faças um bom uso do dinheiro: não te desfaças dele como de um mal; só quando o uses mal e se te possa atribuir uma má administração, blasfemarás impiamente contra o Criador. Com os bens terrenos podemos obter até a justificação, se o Senhor pode dizer-nos: «Tive fome e me destes de comer, com o alimento que procura o dinheiro; estive nu e me cobriste, não nos cobri­mos sem dinheiro». Mas, ouve também isto: a riqueza pode converter-se em porta do céu; escuta: «Vende tudo o que tens e dá aos pobres; assim terás um tesouro nos céus» (Cirilo de Jerusalém).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Felizes os pobres no espírito, porque seu é o Reino dos Céus» (Mt 5,3)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Em alemão, o verbo “agradecer” deriva de “pensar”. O anjo da gratidão queria ensinar-te a pensar de maneira justa e consciente. Se começas a pensar, podes reconhecer com gratidão tudo o que te tem sido dado na vida. Não fiques fixado no que poderia irritar-te. Não comeces a manhã experimentando raiva de imediato pelo mau tempo. Não te sinta frustrado em seguida porque o leite derramou. Há pessoas que fazem a vida difícil porque anotam só o negativo. Quanto mais vem o negativo, tanto mais vem confirmada sua experiência. Seu modo de ver pessimista não lhe permite absorver as pequenas desventuras da jornada. Quem olha com olhos agradecidos sua própria vida estará de acordo com o que tem acontecido nele mesmo. Então abre os olhos e pode dar-se conta de que um anjo de Deus tem lhe acompanhado ao longo de toda sua vida, de que um anjo da guarda há lhe preservado de algumas desgraças, de que seu anjo da guarda tem transformado em um precioso tesouro até as desventuras. Então serás capaz de olhar com olhos agradecidos a nova aurora, serás capaz de dar-te conta de que hás te levantado sano e podes ver sair o sol. Darás graças pelas inspirações que te anima. Darás graças pelos dons da natureza que podes gozar comendo. Viverás de modo mais consciente. A gratidão dilata o coração e o põe alegre (Anselm Grun, 50 angeli per accompagnarti durante l’ anno).

 

 

 

QUARTA-FEIRA, 21 DE AGOSTO DE 2019- 20ª SEMANA DO TEMPO COMUM ANO PAR

Mateus 20,1-16a (Parábola dos trabalhadores enviados à vinha) Há muitas linhas que conectam o texto de hoje com os dos dias precedentes. A parábola dos trabalhadores da vinha, que conclui com a afirmação: «Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros, últimos» (v.16a), recorda a frase final do evangelho de ontem: «Há muitos primeiros que serão últimos e muitos últimos que serão primeiros» (19,30). Jesus havia dito ao jovem rico que «um só é bom»; agora, em 20,15, a frase final, do dono ante um obreiro da primeira hora, soa assim: «Ou é que tens inveja por ser eu bom?». Esta parábola, contada de modo vivaz, é um chamado dirigido, não só ao povo de Israel. Chamado primeiro para gozar da liberdade surpreendente que usa, o Senhor, com os «últimos», sejam, estes, pagãos, publicanos ou pecado­res, mas também aos leitores cristãos para que se convertam aos critérios de Deus, libertando-se da mesquinhez de mente e coração, das comparações e dos fáceis resmungos, do fechamento egoísta. Devemos inverter nosso modo de pensar e agir: Deus faz entrar em seu Reino o pobre e não o rico, dá a precedência aos últimos e não aos primeiros, doa, gratuitamente, seus dons, não sobre os méritos antes adquiridos. Já no livro de Isaías disse, Deus, de modo explícito: «Meus planos não são como vossos planos, nem vossos caminhos como os meus, oráculo do Senhor. Quanto dis­ta o céu da terra, assim meus caminhos dos vossos; meus planos de vossos» (1s 55,8-9). Se ao jovem rico que tem observado, desde sempre, a Lei Jesus, pede-lhe que dê um salto qualitativo, aqui pede a todos que se desembaracem de suas próprias justiças baseadas em cálculos exatos, para gozar da imensa bondade de Deus e de sua graça superabundante. Deus dialoga, de fato, com o homem nos dilatados espaços do amor, não nos estreitos limites do direito ou da contabilidade. O amor não contradiz a justiça, mas dilata seus limites: «Deus, que tem poder sobre todas as coisas e que, em virtude da força com que atua em nós é capaz de fazer muito mais do que pedimos ou pensamos» (Ef 3,20). Nosso Deus é um Deus de coração grande e deve ser acolhido com um coração grande.

 

 

Ez 34,1-11 (Os pastores de Israel) Ezequiel atua como anunciador do juízo i­minente antes da queda de Jerusalém. Quando, a continuação, já tem tido lugar este juízo, o profeta assume a tarefa de voltar a acender a esperança no povo, exortando-o à confiança e a uma fidelidade plena a Deus. A passagem que temos lido hoje se insere nesta no­va perspectiva. O oráculo encontra seu ápice na últi­ma frase: «Eu mesmo buscarei as ovelhas e as apascen­tarei»(v.11). Esta é a mensagem de esperança. O rebanho esteve submetido no passado a pastores maus. Os úl­timos governantes de Israel (reis, sacerdotes, anciãos, etc), não foram fieis à tarefa que lhes havia sido confiada. Sua culpa fundamental foi o egoísmo, o abu­so de poder, a exploração do povo e a busca do próprio interesse. Na condenação se repete, outra vez, a acusação: «Hão apascentado a si mesmos», quando deveriam ter se oferecido a si mesmos ao serviço do rebanho, deveriam ter defendido às ovelhas das feras, guiá-las a bons pastos, ir em busca das perdi­das e preocupar-se das mais fracas (vv.3ss). A recen­te tragédia de Israel se deve em grande parte a estes maus pastores. Agora, o Senhor lhes pedirá contas dos danos causados e lhes tirará o poder sobre seu povo. A boa noticia para Israel não é tanto a eliminação dos governantes irresponsáveis como a prome­ssa de que o Senhor mesmo se ocupará de seu povo. Trata-se da promessa da restauração e do retorno, a promessa de uma nova era. A imagem de Yahweh pastor era muito familiar na tradição de Israel. Os ouvintes de Ezequiel sabem bem o que significa ter a Deus mesmo como pastor. O autor do Salmo 23 descreve seus traços com uma grande beleza. A imagem do pastor é bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas» (Jo 10,11).

 

Sl 22/23 (O bom pastor) Esse Salmo belíssimo, tão conhecido por todos nós, deve ser meditado silenciosamente diversas vezes. Este Salmo é um dos preferidos do saltério, pela tradição de Davi pastor e pela culminação na imagem do Bom Pastor. Também por sua simplicidade e riqueza: em duas imagens ou cenas de conjunto, comprime um número inesperado de símbolos elementares. As imagens são duas: o pastor em 1-4, o anfitrião em 5-6. O versículo central, 4b, une-se ao que precede pela imagem, ao que segue pelo surgimento da segunda pessoa. A imagem do pastor é desenvolvida com realismo e concretude, por meio de traços breves que evocam a cena. Deixemo-nos conduzir pela imaginação, sem espiritualizar: a relva verde com uma fonte, para deitar-se, repousar e recuperar as forças; as trilhas do caminho, o vale ao anoitecer, o cajado que bate no chão rítmica e sonoramente. A imagem une dois planos de significado num ângulo comum; dele, numa visão de conjunto, se vêem as duas vertentes. O que se diz das ovelhas vale para o homem; o aspecto pessoal avança para o primeiro plano: “tu vais comigo”. A imagem indica vários símbolos, arquetípicos ou culturais. A imagem do pastoreio se dá nas relações do homem com os animais dominados e domésticos. O verde aplaca os olhos, revela a terra materna e acolhedora. A água mata a sede e suscita energia vital. O caminhar é energia radical. A escuridão evoca medos infantis e temores não esclarecidos; nela se sente com mais força a presença amiga. A potência simbólica desses traços não se esgota na primeira leitura. A imagem do hóspede. Na cultura nômade a hospitalidade é fundamental. Podemos imaginar um fugitivo de seu clã que pede asilo. O xeque o acolhe na sua tenda, oferece-lhe proteção, comida e bebida, unguentos aromáticos. Ao observar a cena, os inimigos perseguidores se detêm na porta ou cortina: o xeque o protege. Quando termina, o xeque lhe oferece uma escolta que o acompanhe pelo caminho até sua casa, que é a casa do Senhor. Essa parte acrescenta os símbolos de comer e beber. As tradições do êxodo nos dão uma chave para compreender a unidade das duas imagens: o Senhor guia seu povo como rebanho, pelo deserto, proporcionando-lhe água, comida e repouso. Quando chegam à terra prometida, O senhor no seu território os recebe como anfitrião: Ex 15,13;Sl 68,11;77,21. Duas vezes o poeta interrompe o descanso com o caminho, não ao contrário. Toda a vida a caminho ou a morada final no templo? O poema termina com uma tensão não resolvida, como se numa e noutra vez voltasse a começar.

Senhor, deixa que eu me entregue nas tuas mãos e que me deixe guiar para onde vós, ó Senhor, quiseres. Que eu seja humilde e dócil, em todos os momentos de minha pobre vida. Mesmo que a noite seja escura, eu confio e confiarei sempre em Ti. Amém.

 

 

MEDITATIO: Os pastores maus «apascentam a si mesmos». Po­de haver egoísmo e busca de si mesmo, inclusive no exercício de ministérios nobres, sagrados. Paulo já nos colocava em guarda contra este perigo sempre atual; com modéstia e verdade, compartilha sua experiência de pastor: “Não anunciamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e não somos mais que servidores vossos, por amor a Jesus» (2 Cor 4,5). «Não me interessam vossas coisas, mas vós […], de bom grado me gastarei e me desgastarei por vós» (2 Cor 12,14ss). O bom pastor se dá a si mesmo e tudo o que tem com uma generosidade semelhante ao dono magnânimo do evangelho. Deus é grande, seu amor transborda a justiça e seus dons superabundam sempre. Constatamos esta característica em cada página do evangelho: nos surpreen­dem, por exemplo, os milagres realizados por Jesus, que levam, todos eles, este sinal de gratuidade e de supera­bundancia. Em Caná, a água transformada em vinho está além de toda mesura, logicamente, necessária. Multiplica os pães para saciar à multidão de uma maneira superabundante, de sorte que sobram doze cestos. No milagre da pesca teria bastado uns poucos peixes para que os apóstolos, após ter labutado em vão toda a noite, tivessem reconhecido ao Senhor, porém os peixes foram 153, muito mais do necessário. A este Deus de grande coração devemos acolhê-lo com um coração grande e anunciá-lo com grandeza ainda maior.

 

ORATIO: Senhor meu Deus, dai-nos um coração grande, aberto ao infinito, disposto a ser invadido por teu amor, cuja largueza, lon­gitude, altura e profundidade não conseguimos, nem sequer, imaginar (cf. Ef 3,18). Dai-nos um coração grande, capaz de descobrir tua grandeza em tudo o que criaste, capaz de encontrar beleza e sabor em tudo, capaz de sentir admiração, de louvor e de agradecimento. Dai-nos um coração grande, onde encontrem lugar as alegrias e as dores de to­dos os nossos irmãos, próximos e distantes. Dai-nos um coração grande que possa abarcar a historia e que saiba guardar os acontecimentos na meditação, como a de Maria (cf. Lc 2,19). Dai-nos um coração gran­de, no qual possas encontrar, comodamente, morada, tu que és um Deus grande e generoso.

 

CONTEMPLATIO: A vida eterna e o Reino de Deus são, em certo sen­tido, como o que chamamos «céu», por analogia. No céu estão todas as estrelas, no Reino de Deus estarão todos os fiéis bons. A vida eterna é igualmente eterna para todos. Não haverá nela um que viva mais e outro que viva menos, dado que todos nós viveremos sem fim. É como o único denário que os obreiros rece­bem como recompensa, tanto os que trabalham desde a manhã na vinha como os que chegaram à undécima hora (cf. Mt 20,9ss). Esse denário representa a vida eterna, que é igual para todos. Porém, observemos o céu e recordemos, também, o que disse o apóstolo: «Uma coisa é o esplendor do sol, e outro o da lua e as es­trelas» (cf. 1 Cor 15,40-42). Portanto, que cada um, irmãos meus, se comprometa na luta durante este tempo, segundo o dom que tenha recebido para gozar no futuro (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Que o Pai nos conceda poder conhecer a esperança a qual fomos chamados» (cf. Ef 1,17ss)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL– A parábola dos trabalhadores da vinha não cita nenhuma mulher. O mundo agrícola que nela se descreve de maneira sucinta se apresenta sem mulheres: estão os jornaleiros, o administrador e o dono da vinha. Só homens, em suma, ainda que tampouco estejam todos os homens. Sem dúvida, a parábola fala de um proprietário que faz primeiros aos últimos, e entre estes deveríamos incluir aos homens desocupados, às mulheres e as crianças, que permanecem invisíveis. Mas, o relato quer animar também aos que foram contratados pela madrugada a romper com uma concepção hierárquica do trabalho, e isto em nome da solidariedade. É como o convite a compreender e a deixar-se implicar no agir de Deus, que trabalha pela justiça a partir dos mais pequenos: «A quem é como as crianças pertence o Reino de Deus» (Mc 10,14) (L. Schottroff, Feministisch gelesen, Stuttgart 1988, vol. I, pp.163ss).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 22 DE AGOSTO DE 2019- 20ª SEMANA DO TEMPO COMUM

Nossa Senhora Rainha Antigamente, era a 31 de maio que se celebrava a realeza de Maria, mas a última reforma do calendário litúrgico transferiu essa celebração para a oitava da Assunção, no mesmo dia anteriormente consagrado ao Imaculado Coração de Maria.

 

Lucas 1,26-38 (A anunciação do anjo Gabriel à Virgem Maria) A memória da realeza se centraliza na exclamação estupenda de Isabel (v.43). A denominação de “bendita” é também um sinal para entrever um senhorio ou realeza: de fato, é “bendito aquele que vem – o rei – em nome do Senhor” (Lc 19,37ss); é bendito aquele que vem em nome do Senhor! Este é o “fruto bendito do ventre de Maria”, o Nosso Senhor Jesus Cristo. As palavras da prima Isabel são proféticas: brotam da plenitude do Espírito Santo. Muito mais do que de uma consciência de Maria remete ao senhorio do Filho concebido por obra do Espírito Santo. Muito mais do que em qualquer soberania pessoal, seu espírito regozija-se em Deus seu salvador (vv.46s).

 

 

Is 9,1-6, (A libertação) – Há algumas brechas evangélicas ( Lc 1,14.32ss; 2,11; Jo 1,5 e outras) que permitem uma interpretação cristológico-mariana do oráculo de Isaias situado em contexto de expectativa mariana. O cântico da esperança de uma libertação vem dos primeiros anos do serviço profético de Isaias, ou seja, passado já o ano 740 a.C. O tom é muito festivo e alentador, ainda que os acontecimentos iminentes para Israel se apresentem nebulosos, e até sombrios. O lecionário, prescindindo do v.4, relativo a esse atormentado futuro, concentra sua atenção nos anúncios disponíveis à leitura sugerida pela memória da realeza mariana. Esta permanece sempre conectada e subordinada à realeza do messias ou de Cristo o Senhor. O libertador esperado é a criança que nos há nascido (v.5): é soberano, príncipe da paz, grande dominador, justo, herdeiro do trono de Davi. A aplicação de semelhantes imagens à realeza de Cristo é alegórica: em efeito, seu Reino não é deste mundo; a paz que ele dá é diferente da paz do mundo; ele é bondoso e humilde de coração. A realeza de Maria, a mãe, é semelhante.

                                 

Sl 112/113 (Ao Deus de glória e de amor) Este Salmo é importantíssimo para a nossa vida cotidiana, pessoal e litúrgica. É com ele que se inicia o pequeno grupo de Salmos chamado hallet, isto é, “louvai Javé” (Sl 113-118). A palavra aleluia, que expressa toda a nossa alegria ao louvar o Senhor, aparece com destaque nesses Salmos, que eram cantados durante e após a Páscoa. A palavra-chave para este momento não é “pedir”, mas sim “louvar”. Todos nós somos convidados a louvar o Senhor, mesmo que seja no silêncio de nosso coração. Jesus cantará a sua aleluia na ceia pascal e firmará com seu sangue a nova e eterna aliança indestrutível. Hoje, na nova aliança, sobe a Deus um louvor novo, que é a Eucaristia.

Senhor, quero cantar a minha aleluia silenciosamente, sem rumor, no fundo do meu coração. Às vezes não sei como expressar a minha alegria por viver e por ser teu para sempre, marcado pela força do sacramento do batismo, inserido em Cristo, videira e purificado, podado pela tua mão sábia, para que possa produzir frutos abundantes. Vejo-me às vezes como uma árvore decorativa, mas que não dá fruto. Quero, Senhor, hoje contemplar o Cristo, eterno sacerdote que celebra a nova Páscoa, que se entrega por nós e nos dá o mandamento novo do amor. Que eu possa amar cada vez mais a Eucaristia. Páscoa nova e, alimentando-me de Cristo, possa ser capaz de produzir os frutos abundantes do teu amor na tua Igreja, na comunidade, na família, onde eu estiver. Arranca de mim a esterilidade apostólica e torna-me fecundo pastoralmente, capaz de anunciar o Evangelho vivo a todos que encontro na minha vida. Que o meu coração não exclua ninguém do meu amor e do teu amor. Amém.

 

 

MEDITATIO: Na celebração de Santa Maria rainha, contemplamos àquela que, sentada junto ao rei dos séculos, brilha como rainha e intercede como mãe (Marialis cultus,6). A figura da rainha mãe permanece em muitas culturas populares como protótipo de solenidade, senhorio, cordialidade, benevolência. O culto e a mesma iconografia, o caráter visível de sua mediação e contemplação, representam a Maria espontaneamente na posição de uma rainha, coberta de vestes preciosas, sentada em um trono e coroada com estrelas, sendo ela mesma trono para seu filho, o Senhor criança, que tem nos braços. A liturgia remarca esta imagem de Maria como mãe e rainha. A liturgia lê esta conexão de Maria serva com o Senhor Deus como participação na realeza de Cristo: uma realeza que é serviço, porque o Senhor tem trazido a salvação à humanidade, e a isso tem colaborado a mãe. O serviço de Jesus, filho de Maria, tem custado o passar pela cruz, junto à qual esteve presente e na qual participou a mãe. A realeza de Cristo se pagou a um preço elevado: a realeza configura a Maria também como rainha afligida. As insistentes afirmações sobre a participação de Maria na realeza de Cristo recordam a jaculatória: “Rainha da Paz”. Esta traduz na ordem da devoção um traço de intimidade do personagem prognosticado no oráculo de Isaias como “príncipe da paz”. Jesus Cristo é nossa paz. O menino nascido por nós, o fruto bendito do seio de Maria é o Senhor, fonte de paz sem fim. A paz é sonho e utopia. Ambos convidam à acolhida deste Senhor da paz, encarnado em Jesus Cristo, filho de Maria, mulher pacificadora e realizadora de paz; convidam não só a crer n’Ele, mas a fazer as obras da paz, que são seu testemunho e dom do Espírito Santo.

 

ORATIO: Santa Maria, generosa mãe do Senhor do universo, rei de paz e justiça, salve. Mulher humilde, recebida mais além de nossa terra, no céu do altíssimo amor do Pai, inspira nosso serviço na edificação do Reino de Cristo em comunidade de caridade evangélica. Mãe bem-aventurada por ter acreditado, fica próxima para guardar conosco acesa a lâmpada da fé, alimentada pela obediência à divina palavra. Virgem amiga do Espírito Santo ensina-nos a perseverar nas obras de bondade, de justiça, de paz. Rainha do céu que proteges nosso caminho cotidiano e o passo à outra orla da vida daqui da terra acolhe a oração de teus servos.

 

CONTEMPLATIO: O anjo que anunciava os ministros, para levar à fé mediante algum exemplo, anunciou à virgem Maria a maternidade de uma mulher estéril e já idosa, manifestando assim que Deus faz tudo quanto lhe apraz. Desde que supôs Maria, não pela falta de fé na profecia, não por incerteza respeito ao anúncio, não por dúvida acerca do exemplo indicado pelo anjo, mas com o regozijo de seu desejo, como quem cumpre um piedoso dever, pressurosa pelo gozo, se dirigiu às montanhas. Cheia de Deus de agora em diante, como não ia elevar-se apressadamente para as alturas? A lentidão no esforço é estranha à graça do Espírito. Considera a precisão e exatidão de cada uma das palavras: Isabel foi à primeira a ouvir a voz, mas João foi o primeiro a experimentar a graça, pois Isabel escutou segundo as faculdades da natureza, mas João, ao invés, se alegrou pelo mistério. Isabel sentiu a proximidade de Maria, João a do Senhor; a mulher ouviu a saudação da mulher, o filho sentiu a presença do Filho; elas proclamam a graça. Eles, vivendo-a interiormente, logram que suas mães se aproveitam deste dom a tal ponto, que com um duplo milagre, ambas começam a profetizar por inspiração de seus próprios filhos. O menino saltou de gozo e ela ficou cheia do Espírito Santo (Santo Ambrosio).

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje:

“A paz do Senhor esteja contigo”

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Cada uma das irmãs do instituto imita a Maria em seu próprio caminho para Cristo: aprende de seu fiat a receber a Pa­lavra de Deus, e de sua vida com Jesus em Nazaré, o sentido de sua própria inserção na sociedade; por sua participação na missão redentora do Filho se vê levada a compreender, a elevar e a dar valor aos sofrimentos humanos. Consagra-se a que a Virgem, exemplo de confiança no Senhor, constitua para todos os homens inseguros e divididos de nosso tempo um sinal de esperança e de unidade. Nela, expressão dos mais altos valores femininos, se ins­pira para realizar-se plenamente como mulher e para comprome­ter-se em um serviço de amor que chega inclusive ao sacrifício. A ela se dirige sempre com devoção e confiança filial. Com ela se faz voz de exaltação a Deus por todos os homens. Inspira-te no serviço que Maria prestou e presta ao mundo, e obra em meio da paz, sem a ânsia de quem crê só em sua ação (Regola di vita dell’stituto secolare «Regnum Mariae»,1994).

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 23 DE AGOSTO DE 2019- 20ª SEMANA DO TEMPO COMUM –

Santa Rosa de Lima, Virgem (+1617) Padroeira oficial da América Latina e das Filipinas, embora sem ingressar num convento, viveu de acordo com a mais estrita perfeição religiosa, em oração e penitências contínuas. Recebeu graças místicas extraordinárias. Foi perseguida pelo demônio, mas em contrapartida, tinha frequentes conversas com Nossa Senhora e com seu Anjo da Guarda. Pertenceu à Ordem Terceira de São Domingos e faleceu aos 31 anos.

 

Mateus 13,44-46 (Parábola do tesouro e da perola) No marco do sermão dirigido aos discípulos em casa (cf. Mt 13,36), as parábolas do tesouro encontrado por acaso no campo e da perola, há longo tempo buscada, e, por fim, encontrada, põem o acento na ale­gria de quem compreendeu o valor do Reino. Trata-se de uma alegria tão penetrante e profunda que torna possível a venda de qualquer outro bem para com­prar o campo onde está escondido o tesouro ou adqui­rir a pérola preciosa. Acolher a Palavra de Jesus e ter acesso ao mistério do Reino de Deus não é, portanto, unicamente, uma experiência de contraste e pacien­te tenacidade, como sugeriam as parábolas do semea­dor e do joio, mas é, também e, sobretudo uma experiência de alegria. Junto a este ensinamento principal, as parábolas expõem a exigência do radicalismo na opção pelo Reino: não é possível chegar a soluções de compromisso; é preciso dar tudo, se queremos gozar do amor de Deus. O homem experimenta isto como dom inespera­do e como fruto do empenho: Deus se oferece, em virtude de sua livre iniciativa, além de qualquer possível mérito do homem. Fazendo-se buscar, dilata nele o espaço do desejo.

 

 

2ª Cor 10,17-11,2 (Paulo constrangido ao fazer seu próprio elogio) A comunidade a qual se dirige Paulo é uma comunidade atribulada: Corinto é uma cidade marítima, de porto, de encruzilhada de povos, de usos e costumes. De inevitável corrupção e relaxamento moral em meio a relatividade dos valores postos em jogo. Eis aqui, pois, os ciúmes santos dos quais se faz interprete Paulo com respeito àqueles que foram comprados a um preço elevado, quer dizer, redimidos pelo sangue de Cristo. A fim de que fossem e seguissem sendo novas criaturas. O apostolo se sente mais que responsável por aquela Igreja local, se usa preparação para as bodas do Cordeiro, da apresentá-la a Cristo esposo, depois de havê-la guardado com virgem casta na fidelidade do amor por seu Senhor

 

Sl 148 (Louvor cósmico) – Bela e harmoniosa sinfonia que canta as maravilhas do Senhor. São chamados a cantar o cântico vinte e três criaturas diferentes, resultando em um belíssimo coral. Porém, o que o Senhor mais deseja é que o ser humano cante a vida, a alegria, o amor. Santo Agostinho recorda que “se não canta a voz, cante o coração”. E quem canta reza duas vezes! A oração não acontece somente quando assumimos uma atitude recolhida e rezamos “fórmulas” prontas, sejam elas de nossa autoria ou de outros. Rezamos sempre que entramos em sintonia com a vontade do Senhor, e todo o universo é chamado a assumir a sua missão de louvor cósmico. O nosso mal é divorciar a vida da oração e a oração da vida. Precisamos fazer uma síntese de tudo o que existe e foi criado por Cristo e em Cristo. A Deus sejam dados glória, honra e louvor. Criaturas do céu, da terra e do mar são chamados a manifestar a sua alegria pela própria existência.

Senhor, quero te apresentar a voz de todos os povos, de todas as raças; ninguém pode faltar no grande coral que canta os seus louvores. Mesmo os que não te conhecem te louvam sem saber. Tudo é teu porque tu o criaste. Perdoa-nos, Senhor, se às vezes na nossa vida entra a nota desentoada do pecado que destrói a beleza do universo e da conveniência. Por que não nos amamos? É a pergunta que trago no meu coração e que, como espinha, fere a minha carne e o meu espírito. Dá-nos olhos para ver a necessidade dos irmãos, coloca na nossa boca palavras que consolem e confortem, ajuda-nos a não fechar o coração diante dos necessitados que encontramos em nosso caminho. Todos nós concordamos que a ti, Senhor, seja dado louvores e ação de graças. Rompes as barreiras do egoísmo e fazes que a nossa voz seja um hino de louvor ao teu amor. O nosso único sinal comprovando que somos cristãos é o amor. “Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

 

 

MEDITAÇÃO: O Senhor nos disse algo importante: a alegria do en­contro com Ele, saboreada em um momento preciso, que tem iluminado nossa existência, constitui o funda­mento que devemos redescobrir sempre. É a me­mória que nos garante o essencial: a certeza de que o Senhor está vivo e presente junto a nós. A carga do viver, a constatação de ter fracassado, são expe­riências dolorosas e lancinantes, que dilaceram por den­tro, que explode em um grito: «Basta!». Voltar a encontrar a alegria do momento do descobrimento, ou melhor, desejar prosseguir a busca se ainda não temos encontrado, é a verdadeira aventura da vida, é seu sentido mais profundo. Vale a pena entregar tudo por isto. Deixemo-nos atrair pelo Senhor.

 

ORAÇÃO: Tenho necessidade de ti, Senhor, de tua presença, que dá vigor às minhas forças e impulso ao meu coração. Necessito sa­borear a doçura de tua amizade, deixar-me deslumbrar pelo esplendor de tua beleza. Tenho necessidade de apaixonar-me por tuas coisas e de descobrir que só perten­cendo-te sou, de verdade, eu mesmo. Não é fácil encontrar, a preço de saldo, a coragem de arriscar. E, me dou conta disso – não é o resultado de uma operação lógica. A coragem necessária para apos­tar tudo, toda a existência, por ti, Senhor, apoiados em tua Palavra, é algo que pertence à ordem do coração, e é possível se aceito deixar-me abrasar interiormente pelo fogo do Espírito, por teu amor criador. Que eu tam­bém possa saborear, Senhor, tua bondade e tua doçura… Assim, o menos que poderei fazer será deixar tudo por ti e gritar uma vez mais: «Aqui estou, Senhor!».

 

CONTEMPLAÇÃO: “Se Cristo habita em nossos corações por meio da fé, como disse o apóstolo, e todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos nele, então todos os tesouros da sabedoria e do conheci­mento estão escondidos em nossos corações e, se re­velam ao coração, na medida da purificação alcançada por cada um, mediante os mandamentos. Este é o tesouro escondido no campo do coração e, ainda não o tens encontrado, por causa de tua preguiça. Se, de fato, o tivesse encontrado, tu já terias vendido tudo o que tens e terias comprado este campo. Como um lavrador que busca um campo adequado para transplantar alguma árvore silvestre e encontra, por acaso, um tesouro inesperado, assim é, todo asceta hu­milde e simples. O asceta experimentado é um agri­cultor espiritual, que transplanta, como a uma árvore silvestre, a contemplação das coisas visíveis orientada à percepção sensível na região das realidades inteligíveis, e encontra um tesouro, quer dizer, a manifestação, pela graça, da sabedoria que há nos seres” (Máximo o confessor).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Vai, vende tudo o que tens e compra aquele campo”

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O divino Salvador, com imensa majestade, nos disse: «Que todos saibam que a tribulação vai seguida da graça; que todos se convençam de que sem o peso da aflição não se pode chegar a Ia cima da graça; que todos compreendam que a medida dos carismas aumenta em proporção com o incremento das fa­tigas. Guardem-se as pessoas de pecar e de equivocar-se. Que ninguém se engane: esta é a única verdadeira escala do paraíso, e fora da cruz não há caminho por onde se possa subir ao céu! » Ouvidas estas palavras, me sobreveio um ímpeto poderoso de pôr-me em meio da praça para gritar com grandes clamo­res, dizendo a todas as pessoas, de qualquer idade, sexo, es­tado e condição que fossem: «Ouvi povos, ouvi, todo gênero de gentes: de parte de Cristo, e com palavras tomadas de sua mesma boca, eu vos aviso: Que não se adquire graça sem padecer aflições; há necessidade de trabalhos e mais trabalhos para conse­guir a participação íntima da divina natureza, a gloria dos filhos de Deus e a perfeita formosura da alma». Este mesmo estímulo me impulsionava impetuosamente a predi­car a formosura da divina graça, me angustiava e me fazia suar e anelar. Me parecia que já não podia a alma deter-se no cárcere do corpo, mas que se havia de romper a prisão e, livre e só, com mais agilidade se havia de ir pelo mundo, dando vozes para anunciar a grandeza, a formosura e riqueza da graça (escritos de S.Rosa de Lima al médico Castillo).

 

 

 

SÁBADO, 24 DE AGOSTO DE 2019- 19ª SEMANA DO TEMPO COMUM

São Bartolomeu, Apóstolo e Mártir (+ séc.I) Também chamado Natanael, recebeu de Jesus um elogio: “Eis um verdadeiro israelita no qual não há fraude” (Jo,1,47). Já na ocasião em que o Apóstolo Filipe o apresentava ao Mestre, Bartolomeu reconheceu a realeza e a divindade de Jesus: “Mestre, tu és o Filho de Deus, és o Rei de Israel” (Jo 1,49). Segundo a Tradição, Bartolomeu foi martirizado no Oriente, para onde levou o Evangelho.

 

João 1,45-51(Os primeiros discípulos) O elogio de Natanael formulado por Jesus é claro e sem equívoco: “Este é um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade” (v.47). Do contexto imediato brota o significado mais amplo e mais profundo que possui esta afirmação de Jesus. Em Natanael não se exclui só a falsidade, mas se afirma, sobretudo, o amor à verdade. Deste modo, Jesus nos oferece, também, uma pista para compreender o fundo da alma deste apóstolo. Natanael se revela, antes de tudo, como um homem que busca: manifestar-se-á, também, assim, por ocasião da primeira aparição do Senhor ressuscitado. Da busca passa ao ato de fé. Sua inteligência se abre ao mistério que se desvela; seu ânimo se abre ao desabrochar de um bem maior, um bem que há tempo está buscando. Natanael se converte, assim, em imagem de todo verdadeiro crente que, à luz da Palavra, aguça sua capacidade interior e, por meio da fé, reconhece em Jesus seu único Salvador.

 

 

Ap 21,9b14(A Jerusalém messiânica) O livro do Apocalipse define a igreja como a cidade santa, como dom de Deus: nela se recolhem as doze tribos de Israel, isto é, o novo Israel de Deus. As muralhas desta cidade se apóiam sobre o alicerce dos doze apóstolos. Segundo o mesmo João, a Igreja pode ser chamada também “a noiva, a esposa do Cordeiro”, para indicar o vinculo de amor único e irrepetível que une Deus com a humanidade, Cristo com a igreja.        O apóstolo, todo apóstolo, participa assim, deste amor e se converte em testemunho dele com seu ministério apostólico, porém, sobretudo, com a entrega de seu sangue. Essa é a razão de que ao final da leitura, se chame expressamente os Doze “apóstolos do Cordeiro”: se a Igreja é apostólica, o é não só pelo ministério confiado por Jesus aos doze, mas também e, sobretudo, pela participação dos Doze no mistério pascal de Jesus.

Salmo 144/145 (Louvor ao Rei Iahweh) Quando se deseja rezar, já se está rezando. Por isso, o apóstolo São Paulo, nos recorda sabiamente que quer você coma, beba, durma ou faça qualquer outra coisa, que tudo seja feito para honra e glória de Deus. Segundo São João da Cruz: “o amado sempre pensa na amada e a amada no amado”. Deus quer que a nossa oração seja sincera, forte e corajosa, mesmo nas dificuldades. O orante do nosso Salmo sente-se sofrido, abandonado, mas também sente um grande desejo de louvar e bendizer a Deus por muitos motivos que surgem em seu coração. Rezar não significa sair da realidade, abandonar as nossas atividades e ficar o dia todo rezando ave-maria e pai-nosso. Há, sim, momentos de profunda oração, mas na maior parte do tempo devemos assumir atitudes orantes, isto é, fazer tudo com reta intenção e com amor profundo. Não esqueça, porém, de encontrar diariamente, como verdadeiro apaixonado e amante de Deus, momentos de silêncio e solidão para estar a “sós com o Só”, que é o Senhor.

Senhor, quero te rezar e louvar por tudo o que acontece na minha vida. Tu és força e refúgio. Quero a cada momento me lembrar de ti, da tua presença e do teu profundo amor. Que do meu coração subam louvores e ações de graça a todo o momento. Que a minha oração seja como o perfume agradável do incenso que sobe até a ti, que sejam rápidas orações, jaculatórias, pensamentos, flechadas de amor que lanço para o céu. Que todo o meu respiro seja louvor a ti. Que nada te ofenda em mim e nos outros. Temos contemplado a bondade de Deus em Jesus, nosso Senhor, que também viveu sempre em comunhão com o Pai. “E agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com a glória que eu tinha, antes de ti, antes que o mundo existisse. Manifestei o teu amor aos homens que, do mundo, me deste. Eles eram teus e tu os deste a mim; e eles guardaram a tua palavra. Agora, eles sabem que tudo quanto me deste vem de ti, porque eu lhes dei as palavras que tu me deste, e eles a acolheram; e reconheceram verdadeiramente que eu saí de junto de ti e creram que tu me enviaste” (Jo 17,5-8).

 

 

 

MEDITAÇÃO: Também Natanael chega até Jesus, não sem certa fadiga, como outros apóstolos antes dele. Em seu caso, deve superar, em primeiro lugar, a desvantagemde seu excessivo conhecimento do Antigo Testamento. É justamente verdade, como lemos em Eclesiastes, que o saber excessivo gera dor. Só quando alcança a simplicidade e a transparência do encontro pessoal, Natanael poderá reconhecer, em Jesus, o Filho de Deus. Em segundo lugar, Natanael deve superar, do mesmo modo, uma espécie de desconforto que provocou, nele, o seu primeiro encontro com Jesus, que demonstra conhece-lo muito bem. Mas Natanael tem necessidade de levarum diálogo com aquele que o surpreende e, ao mesmo tempo, o atrai. Só o diálogo pessoal é via segura para o conhecimento recíproco, o conhecimento que leva à experiência e entrega, de nós mesmos, no amor. Agora, eu diria que Natanael deve superar também a mediação do amigo Filipe, com respeito ao qual, de primeira, mostra certa descrença. Só quando toma a decisão de ir ao encontro do Nazareno, reconhecerá quem é Jesus verdadeiramente. A amizade pode ser, seguramente, uma grande ajuda para o descobrimento da verdade, mas, quando a verdade é Alguém, só o encontro pessoal pode satisfazer a busca.

 

ORAÇÃO: Senhor Jesus, Tu nascestes em Belém, “a menor das cidades da Judeia”. Aplaina, à minha frente, o caminho que conduz a Ti, pequeno entre os pequenos, verdadeiro homem entre os homens, Filho de Maria e de José. Senhor Jesus, cresceste em Nazaré, um povo do qual ninguém esperava nada bom. Ensina-me também, como revelastes aos teus discípulos, o segredo da espiritualidade de Nazaré, povo onde tu viveste durantes trinta anos, segredo onde se desprende a mensagem do silêncio, do amor, do trabalho. Senhor Jesus, Tu quisestes eleger Jerusalém como cidade de teu martírio e de tua páscoa: dai-me a coragem de subir contigo, e atrás de Ti, até a cidade santa, onde deve morrer os verdadeiros profetas, cidade amada por todos teus discípulos. Senhor Jesus, Tu percorrestes os caminhos da Palestina, país pequeno e insignificante aos olhos dos grandes, porém, eleito, amado e privilegiado por Ti. Ensina-me a valorizar as coisas segundo teus critérios, e teus projetos.

 

CONTEMPLAÇÃO: Vede como, segundo os preceitos do Evangelho, deveis comportar-voscom os apóstolos e profetas. Recebei em nome do Senhor os apóstolos que os visitarem, enquanto permanecerem um dia ou dois entre vós: o que ficar durante três dias, é um falso profeta. Ao sair o apostolo, deveis prover-lhe de pão para que possa ir à cidade onde se dirija: se pede dinheiro, é um falso profeta. Ao profeta que falares pelo espírito, não lhe julgareis, nem examinareis (…), porque Deus é seu juiz: o mesmo fizeram os antigos profetas. Velai por vossa vida; […] os que perseverem na fé serão salvos desta maldição. Então aparecerão os sinais da verdade. Primeiramente será despregado o sinal no Céu, depois a da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos segundo se disse: “O Senhor virá com todos seus santos”.Então o mundo verá o Senhor vindo nas nuvens do céu! (Didaché).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1,49)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O cristão crê graças à Palavra de Deus, que o homem é imortal, que toda a humanidade está destinada à eterni­dade. O cristão crê na ressurreição de todos os mortos da humanidade, de todos os corpos. Crê na humanidade imortal. Porém crê em virtude da Palavra de Deus, não de uma espécie de predestinação mágica… e grotesca. Crê na prolongação dos mistérios da vida além da morte, na consumação da vida mediante a morte; crê que a própria morte tem uma razão de ser; crê que a morte segue sendo atroz, porém não que seja absurda. Como todo homem razoável, o cristão vê sua própria vida, desde o nascimento à morte, como um dever contínuo acompanhado de uma destruição continua. Sem dúvida, o cris­tão crê que neste, e pôr este dever, se consuma a germi­nação, o desenvolver do homem imortal que há, nele, que vai se fazendo, nele, a cada dia, e que permanecerá tal como haja chegado a ser, na eternidade, para a eternidade. Este homem imortal se faz em cada um através de suas opções. Aquilo pelo qual opta é o que fixa ao homem imor­tal em seu pleno vigor ou no pior da miséria humana. Na hora de sua morte, o homem se converterá em alguém que viverá com Deus para sempre ou em alguém que existirá distante de Deus para sempre (Madeleine Delbrêl).

 

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