LECTIO SEMANAL de 15 a 21 de abril 2018

DOMINGO, 15 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

Lucas 24,35-48 (Os dois discípulos de Emaus, Jesus aparece aos apóstolos, últimas instruções aos apóstolos) = Mt 28,1-8; Mc 16,1-8 – Estamos na noite do dia da Páscoa. Os Onze, reunidos no cenáculo, esperam o por do sol. Sem dúvidas, agora, com a ressurreição de Cristo, a barreira entre o tempo e a eternidade, entre a morte e a vida, foi derrubada. De improviso, o Ressuscitado, que já se fez reconhecer pelos discípulos de Emaús, aparece no meio deles, melhor ainda, está entre eles. Dito de outro modo se manifesta como o que está presente e atrai a paz como Dom, ou seja, Ele mesmo uma vez mais. O Evangelho sublinha de novo a dificuldade que supõe aos apóstolos crer, assim como a benévola compreensão de Jesus que não se cansa de oferecer distintos modos de reconhecimento: os sinais inconfundíveis de sua crucifixão e a familiaridade de uma comida partilhada. Até aqui o evangelista se tem limitado a apresentar, por assim dizer, a crônica dos acontecimentos. Agora penetra em seu significado sob a condução da Palavra de Deus. Com efeito, este mistério de salvação é o cumprimento das Escrituras. Delas se cita, em particular, algumas passagens invocadas também no relato da paixão. Neste contexto, e por terceira vez, volta-se à afirmação da necessidade da morte de Cristo, para o cumprimento do designo divino de salvação. E chegamos, assim, à terceira passagem do texto: a experiência viva e a compreensão da fé do acontecimento da ressurreição abre a missão ante os apóstolos. Eles são testemunhos diretos e foram feios capazes de dar razão de sua fé e de anunciá-la a todas as nações, pregando em nome de Jesus, ou seja, com sua autoridade, a conversão e o perdão dos pecados. Jerusalém, que é, em Lucas, o centro e, a respeito da missão de Cristo, se converte, agora também, no ponto de partida da irradiação do Evangelho.

 

At 3,13-15.17-19 (Discurso de Pedro ao povo) – Pedro e João acabam de curar, no poder do nome de Jesus, um mendigo aleijado de nascimento e, por isso, excluído do Templo. O episódio suscita grande estupor entre os presentes. Nessas circunstâncias o primeiro dos apóstolos toma a palavra e explica, com autoridade, o significado do acontecimento. Na cura do aleijado, o Deus de nossos antepassados manifestou a glória de seu servo Jesus. O apóstolo Pedro, à luz das antigas profecias, em particular as do quarto poema do servo de Yahweh, ajuda a multidão a reconhecer em Jesus o Messias não reconhecido por seu povo, rejeitado e condenado a uma morte injusta. Quando se desconhece o designo de Deus, se subverte, também, os valores humanos: se perdoa um criminoso e se condena a morte um inocente. Sem dúvidas, a morte não é mais forte que a vida, não são os homens quem conduzem a história, mas Deus, que, com seu poder, ressuscitou dentre os mortos o seu servo fiel. Os apóstolos, e em consequência, todos os crentes, são testemunhos deste feito e participam da vida divina que lhes comunicou o Ressuscitado. Porém, nada disto obedece a um poder que tenham por si mesmos, só em nome de Jesus podem realizar prodígios e, sobretudo, exortar com autoridade ao arrependimento e a conversão, para que sejam apagados seus pecados.

 

1 Jo 2,1-5ª (Primeira condição: romper com o pecado; Segunda: observar os mandamentos, princi-palmente o da caridade) – Após haver expressado, com o simbolismo da luz e das trevas, o contraste entre a justiça de Deus e de Cristo, por um lado, e o pecado do homem, por outro, João convida os crentes a considerar, sem demora, a orientação que devem dar à sua própria vida. O apóstolo que viu com seus olhos e tocou com suas mãos o Verbo da vida, escreve-nos com autoridade. Suas palavras são uma exortação a evitar o pecado e a reconhecer a justiça divina que é, antes de tudo, amor e misericórdia. Se é verdade, em efeito, que não tem nada que não tenha sido em verdade enunciada já no Antigo Testamento, também o é, e neste consiste a Boa Notícia do Novo Testamento, que Deus, fiel e justo, nos oferece o perdão e a purificação por meio do sangue de seu Filho. O homem, ferido pelo pecado, é justificado por meio do sacrifício de Cristo, o qual permanece, para sempre, como nosso intercessor junto ao Pai. Nele se abriu de novo o caminho do retorno a Deus e a plena comunhão com Ele. Mas não podemos ter a ilusão de amar a Deus (conhecer na linguagem bíblica equivale precisamente a amar) se não guardamos seus mandamentos e não cumprimos sua vontade nas situações concretas da vida. Humildade e obediência são, portanto, duas marcas que devem caracterizar o cristão. Ambas o tornam capaz de dar acolhida ao amor perfeito, ou seja, ao próprio Espírito Santo que o configura com Cristo em total oblação e gratuidade.

 

Salmo 4,2.4.7.9 (Oração da tarde) – Em certos momentos, as nossas orações parecem não serem ouvidas e ficam sem respostas. Isso gera uma grande tentação em nossa vida: a dúvida. Será que o Senhor se esqueceu de nós! Seja qual for a situação que nos perturbe, devemos sempre confiar que Deus nos escute. O orante é amante e ama, e quem nunca duvida. Mais cedo ou mais tarde, Ele virá em nosso socorro.

Senhor, que eu saiba aceitar o teu silêncio como resposta às minha orações. Que eu nunca duvide do teu amor. Dá-me a coragem de suplicar e de esperar com amor e perseverança, acreditando que o teu amor é mais forte do que todas as dúvidas. Amém.

 

MEDITATIO: A alegria pascal cresce e tende à sua plenitude na vida eterna, na ressurreição futura. Por isso, nossa alegria é motivada pela esperança de chegar a sermos herdeiros do Reino, pela esperança de ressurgir com Cristo também em corpo. Uma alegria vivida, experimentada, degustada na terra, como peregrinos, ainda que destinada a crescer até a meta da eterna bem-aventurança. Esta alegria de peregrinos, que vai unida, sempre, à fadiga e ao sofrimento do caminho, requer de nós asceses, conversão do coração e empenho no zelo, pois pode ver-se facilmente turvada e constrangida pela novidade, pelo cansaço e pela angústia… Enfim, por todos os perigos que nos achegam enquanto vamos de viagem. Daí que temos necessidade de uma força interior, divina: isso que nós não seríamos capazes de guardar por nós mesmos é confiado ao Espírito Santo, ao Espírito consolador. Como é possível obter um dom tão precioso, graças ao qual poderemos viver como verdadeiros testemunhos do Ressuscitado e alegrar-nos, sempre, e as coisas estejam como estão? Devemos desejá-lo com pureza de coração e com humildade, pois assim o receberemos com gratuidade, como dom. Se existe esta disposição em nosso interior, reside em nós, verdadeiramente, a vida nova: podemos executar o testamento que o Senhor Jesus nos tem deixado, venha o canto novo, a alegria verdadeira!

 ORATIO: Por este caminho pelo qual andamos sempre peregrinos, com o peso da sociedade no coração, vens Tu, o vivente entre os mortos, ao nosso encontro e partes o pão do amor. Neste longo caminho, onde o por do sol se estende em nossas sombras, acende, ó viajante envolvido de mistério, a vivência de tua palavra, e saberemos por seu fogo ardente que nossa esperança ressuscitou mais viva, mais forte. Sim, abre nossa mente para compreender a Palavra, porque só ela pode dissipar as dúvidas que ainda surgem em nosso coração. Quantas vezes, incapazes de reconhecer-te, temos renegado a ti também nós! Porém, tu, o justo, com manso proceder, te fizeste vítima de expiação por nossos pecados. Não nos deixes, agora, vacilantes e turvados: Que tua presença infunda em nós a paz, que teu espírito incline nosso olhar para os alegres testemunhos de teu amor.

 

CONTEMPLATIO: Quando veio com as portas fechadas e se pôs no meio deles, aterrados e cheios de medo, criam ver um fantasma (cf. Jo 20,26; Lc 24,36s), mas Ele soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22s). Depois lhes enviou desde o céu o próprio Espírito Santo, ainda mais: com nove dons. Estes dons foram para eles os testemunhos e os argumentos de prova da ressurreição e da vida. Em efeito, o Espírito Santo é a prova que atesta que Cristo é a verdade (1 Jo 5,6), a verdadeira ressurreição e a vida. Por isso os apóstolos, que haviam permanecido também duvidosos ao princípio, depois de ter visto seu corpo revivido, davam testemunho com grande energia da ressurreição de Jesus (At 4,33), depois de ter experimentado o Espírito Santo vivificador: Daí que seja mais proveitoso conceber Jesus em nosso próprio coração que vê-lo com os olhos do corpo ou ouvi-lo falar; e daí também que a obra do Espírito Santo seja muito mais poderosa sobre os sentidos do homem interior que a impressão dos objetos corpóreos sobre os do homem exterior. Mas, por isso mesmo, irmãos meus, vosso coração se alegra dentro de vós e diz: Recebemos este anúncio: Jesus Cristo, meu Deus, está vivo! E ao receber esta notícia, meu espírito, já consumido na tristeza, deprimido pela tibieza ou disposto a sucumbir ao desânimo, se reanima.

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Deus tem ressuscitado a Jesus dentre os mortos” (cf. Atos 3,15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – A paz não é uma situação, nem sequer um estado de ânimo, nem tão pouco é, certamente, só uma política. A paz é Alguém. A paz é um nome de Deus. É seu “nome que vem de longe” (Is 30,27) e traz consigo a bênção que funda a comunidade, que toca pessoalmente e reconcilia. A paz é Alguém, o Transpassado, que aparece no meio de nós e nos mostra suas mãos e seu lado dizendo: “A paz esteja convosco”. A paz é ver a Ele; exclamar “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28); e aceitar, como Ele, a morte como algo que não pode ser separado de seu amor. “Ele é nossa paz. Paz para os que estão perto e para os que estão longe” (Ef 2,17). Nesta passagem encontramos a identificação mais forte da paz com o nome de Jesus. Ele fez de dois povos um só” (Ef 2,14). A partir de toda dualidade, desordem e separação, a partir de toda divisão, fez o “Um”, fundou o Um e “anulou a inimizade em sua própria carne” (Ef 2,14). Quem, por meio da oração, busca a paz com todo seu coração, busca àquele que é a paz, no único lugar em que se entrelaçam a reconciliação, o perdão dos pecados e a paz: o lugar do sacrifício, o Gólgota, o Morrer eterno.    (C.M. Martini, La pace: dono e profezia, Magnano).

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 16 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

João 6,22-29 (A Páscoa do Pão da Vida; o Discurso na sinagoga de Cafarnaum) Após a multiplicação dos pães, João alude à busca de Jesus por parte da multidão. O encontram em Cafarnaum e dirigem ao Mestre uma pergunta para satisfazer sua própria curiosidade: “Mestre, quando chegastes aqui?” (v.25). Jesus não responde a pergunta, mas revela à multidão as reais intenções que os impulsionam a buscá-lo e, com isso, desmascara a mentalidade materialista das pessoas (v.26). Na realidade, toda essa gente segue Jesus pelo pão, sem compreender o sinal realizado pelo Profeta. Buscam mais as vantagens materiais e passageiras que as ocasiões de responder e amar. Ante esta cegueira espiritual, Jesus proclama a diferença entre o pão material e corruptível e «o permanente, o que dá a vida eterna» (v.27). Jesus convida a multidão a superar o estreito horizonte em que vive e passar ao da fé e do Espírito, ao qual só sua pessoa (Jesus) lhes pode introduzir. Ele possui o selo de Deus, que é o Espírito e o dinamismo divino do amor. Os interlocutores de Jesus lhe perguntam agora: “Que devemos fazer para agir como Deus quer?” (v.28). Um novo equívoco. A multidão pensa que Deus exige a observação de novos preceitos e de outras obras. Mas o que Jesus exige deles é uma só coisa: a adesão ao plano de Deus: «Que creiais naquele que Ele enviou» (v.29). Tem que cumprir uma só coisa: deixar-se implicar por Deus e aderir, com fé, à pessoa de Jesus. É a abertura à fé, que oferece um pão inesgotável, o qual dá a vida, para sempre, ao ‘homem que aceita ser libertado das trevas.

 

 

At 6,8-15 (Prisão de Estevão) – Entra Estevão em cena. É apresentado com as mesmas características que os apóstolos: «Cheio de graça e de poder, fazia grandes sinais e prodígios». As palavras de Estevão estão unidas à «sabedoria» e ao “Espírito»: Estevão, como os apóstolos, está completamente imerso no plano de Deus, o conhece, recebe a força do Espírito Santo para testemunhá-lo e anunciá-lo. Possui uma personalidade humana de grande relevo e uma consistência «espiritual». Sua pregação provoca, de imediato, um conflito e, paradoxalmente, com os judeus mais abertos. Lucas se refere à sinagoga chamada «dos li­bertos», quer dizer, os descendentes daqueles que, le­vados a Roma como escravos por Pompeu (63 a.C.), haviam sido libertados e haviam se instalado em um bairro da cidade. Em torno deles se reuniam, provavelmente, judeus de diferentes procedências. Pois bem, também para eles a pregação de Estevão era muito radical: Estevão ataca o templo e as tradições mo­saicas. Em consequência, as acusações dirigidas a ele não carecem de fundamento por completo. Os olhos que se fixam nele, com hostilidade, estão obrigados a vislumbrar, nos dele, entretanto, um esplendor particular, o de um anjo que expressa a presença de Deus, algo semelhante ao rosto de Moisés quando desceu, resplandecente, do Sinai, após ter se encontrado com Deus. Lucas apresenta outro traço de Estevão: é um testemunho escolhido, por Deus, para dar a conhecer sua vontade.

Salmo 118/119 (Elogio da lei divina)Esta é uma oração sem fim. Provavelmente é obra não só de uma pessoa, mas de várias, que elogiam por meio de muitos artifícios literários a Palavra de Deus, a lei do Senhor, como fundamento de todo o agir humano. É um Salmo belíssimo que deve ser “saboreado” lentamente, um versículo por dia. Assim, teremos por mais de meio ano assegurado a nossa meditação. Deus se comunica conosco não para nos oprimir ou dominar, mas para ensinar-nos os caminhos mais fáceis da felicidade. Felizes os que vivem a Palavra de Deus e a ensina aos outros. Medite dia a dia este Salmo e sua vida, sem dúvida, será diferente, sendo fortalecida não por palavras humanas, mas pela Palavra de Deus.

Senhor, não quero fugir de tua Palavra nem desprezá-la. Quero amá-la como Lâmpada para os meus pés e luz no meu caminho. “Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho. Jurei, e o confirmo guardar tuas justas normas. Meu sofrimento passa dos limites, Senhor, dá-me vida segundo tua palavra. Senhor, aceita as ofertas dos meus lábios, ensina-me tuas normas. Minha vida está sempre em perigo, mas não esqueço a tua lei. Os ímpios me armaram laços, mas não me desviei de teus preceitos. Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração. Inclinei meu coração a cumprir teus estatutos, desde agora e para sempre” (Sl 119, 105-112). Amém.

 

 

MEDITATIO: Estevão é o primeiro apóstolo dos helenistas. Foi à primeira tentativa de aculturação, constituído por um decidido distanciamento a respeito do judaísmo tradicional. Mas não conseguiu seu objetivo. Também há conservadores entre os proceden­tes da diáspora, talvez, inclusive, mais que entre os próprios judeus palestinenses. Provavelmente se deve­sse à necessidade de defender sua própria identidade. A primeira aproximação ao mundo judeu de língua e cultura grega é rejeitada também pelos notáveis. Estevão segue, assim, o destino de Jesus: é rejeitado. Parece que o preço que há que pagar para abrir novos caminhos é ser incompreendido, mal entendido, rejeitado, caluniado e condenado. Sem dúvida, também, é verdade que, do martírio de Estevão resultam frutos copiosos, a partir dos gregos: e não só dos judeus de língua grega, mas de toda a cultura grega. Estevão é um provocador, e, por isso, se mete no caminho do martírio, como acontece em toda sociedade intolerante. Mas, sua provocação procede de uma sabedoria superior, é fruto de uma peculiar com­preensão do plano de Deus. Este plano previa que o Evangelho fosse anunciado, não só em Jerusalém, mas «até os confins da terra». O Espírito se serve do caráter entusiasta e «belicoso» de Estevão para agitar o ambiente: Estevão morre, porém a causa do Evangelho percorrerá o mundo.

 

ORATIO: Ó Senhor, temos necessidade de testemunhos como Estevão. De anunciadores «imprudentes» como ele, que agitam os adversários e os amigos, dentro e fora de nossos círculos. Temos necessidade de profetas «incômodos», como se dizia há alguns anos, para difundir a Boa Nova. De homens e mulheres que não tenham medo de fazer frente às incompreensões e mal-entendi­dos por causa de teu nome. Temos necessidade de pesso­as que sejam capazes de percorrer novos caminhos e não tenham medo de não ser compreendidos. Ó Senhor, dai-nos estes testemunhos fortes e animosos. Não permitais que cheguemos até o ponto de não compreendê-los e, inclusive, afastá-los, caluniá-los, contribuindo, com nossa incompreensão, para marginalizá-los e, não permitas, para condená-los.

 

CONTEMPLATIO: … é mandamento do Salva­dor que não pensemos só em nós mesmos, mas também no próximo. Considera a dignidade, à qual se eleva o que toma, seriamente, a peito a salvação de seu irmão. Este homem, na medida em que isso é possível ao homem, imita ao próprio Deus. De fato, escuta o que nos disse pela boca de seu profeta: «Quem disser de um injusto, um justo será como minha boca». A saber: quem se aplica a salvar a seu irmão caído na negligência e tenta arrancá-lo do laço do diabo, enquanto é possível ao homem, imita a Deus. (Existe, acaso, alguma ação que possa comparar-se a esta?) Esta é a maior entre todas as obras boas. É o cume de toda virtude. E é natural que assim seja. Porque, se Cristo derramou seu sangue por nossa sal­vação, (não é justo que cada um de nós ofereça, pelo menos, o alento de sua palavra e estenda uma mão a quem, por negligência, tem caído nos laços do diabo?) (João Crisóstomo, Catequesis batismal, VI, 18-20).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Teus mandatos são minha delícia» (cf. Sl 118,14)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Devemos dar um tom de valentia à nossa vida cristã, tanto à privada como à pública, para não nos converter-nos em seres insignificantes no plano espiritual e, inclusive, em cúmplices do afundamento geral. Acaso não buscamos de maneira ilegítima, em nossa liberdade pessoal, um pretexto para deixar-nos impor pelos outros o jugo de opiniões inaceitáveis? Só são livres os seres que se movem por si mesmos, nos disse São Tomás. O único que nos ata interiormente de maneira legítima é a verdade. Esta fará de nós homens livres (cf.Jo 8,32). A atual tendência a suprimir todo esforço moral e pessoal não leva, portanto, a um autêntico progresso verdadeiramente humano. A cruz se ergue sempre ante nós. E nos chama ao vigor moral, à força do espírito, ao sacrifício (cf. Jo 12,25) que nos faz semelhantes a Cristo e pode salvar-nos, tanto a nós como ao mundo (Paulo VI, Audiência geral de 21 de março de 1975).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 17 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

João 6,30-35 (Páscoa do Pão da Vida; Discurso na sinagoga de Cafarnaum)A multidão, apesar das variadas provas dadas por Jesus no texto anterior, não se mostra satisfeita ainda, nem com seus sinais, nem com suas palavras; e pede-lhe mais garantias para poder crer (v.30). O milagre dos pães não é suficiente; querem um sinal particu­lar e mais ruidoso que todos que já tem feito. A multidão tem uma concepção de «sinal» diferente de Jesus. O Mestre exige uma fé sem condições em sua obra; as multidões, ao contrário, fundamentam sua fé em milagres extraordinários, que verão com seus próprios olhos. Encontramo-nos, aqui, frente a um texto que manifes­ta uma viva controvérsia surgida nos tempos do evange­lista entre a Sinagoga e a Igreja em torno da missão de Jesus. Este não se deixou levar por sonhos humanos, nem se fez forte nos milagres, mas buscou só a vontade do Pai. A multidão quer o novo milagre do maná (cf. Sl 78,24) para reconhecer o verdadeiro pro­feta escatológico dos tempos messiânicos. Porém, Jesus, na realidade, lhes dá o verdadeiro maná, porque seu alimen­to é muito superior ao que os pais comeram no de­serto: ele dá, a todos, a vida eterna. Mas só quem tem fé pode recebê-la como dom. O verdadeiro alimen­to não está no dom de Moisés nem na Lei, como pensavam os interlocutores de Jesus, mas no dom do Filho que o Pai oferta aos homens, pois Ele é o verdadeiro «pão de Deus que vem do céu» (v.33). Em um determinado momento, a multidão dá a impressão de ter compreendido: «Senhor, dai-nos sempre desse Pão» (v.34). Mas, na verdade, a multidão não compreende o valor do que pedem e anda longe da verdadeira fé. Então Jesus, excluindo qualquer equívoco, afirma: «Eu sou o pão da vida; o que vem a mim não voltará a ter fome» (v.35). Ele é o dom do amor, feito, pelo Pai, a cada homem. Ele é a Palavra que devemos crer. Quem adere a Ele, dá sentido a sua própria vida e alcança sua própria felicidade.­

 

 

At 7,51–8,1a (Apedrejamento de Estevão. Saulo perseguidor)Primeiro quadro: recolhe a parte conclusiva do dis­curso de Estevão, um discurso duríssimo. Nele, lê a his­tória de Israel como a história de um povo de dura cerviz, de coração e de ouvidos incircuncisos, sempre opostos ao Espírito Santo. Enquanto Pedro, em seus discursos tenta desculpar, de algum modo, a seus interlocuto­res quase se maravilhando do erro fatal da condenação de Jesus à morte, Estevão afirma, por sua vez, que não podiam deixar de condenar Jesus, já que sempre perseguiram os profetas enviados por Deus. Trata-se de uma leitura, extremadamente negativa, de toda a história de Israel. Uma leitura que não podia deixar de suscitar uma reação violenta. Segundo quadro: o martírio de Estevão. Este, frente ao furor da assembleia, que está fora de si, aparece, agora, situado muito além e muito acima de tudo e de todos, em um lugar onde contempla a glória de Deus e Jesus ressuscitado, de pé, à direita do Pai. O primeiro mártir se dirige sereno ao encontro da morte, gozando do fruto da morte solitária de Jesus. Este agora, Senhor glorioso, anima seus testemunhos, mostrando-lhes “os céus abertos», que se oferecem como meta glorio­sa, agora próxima. Morre, sereno e tranquilo confiando seu espírito ao Senhor Jesus, do mesmo modo que este o havia confiado ao Pai. A lapidação, que acontecia fora da cidade, era a sorte reservada aos blasfemos: Estevão não tem medo de proclamar a divindade de Jesus e, neste clima inflamado, deve morrer. Saulo, o que haveria de prosseguir a obra inovadora de Estevão, estendendo-a aos pagãos, está ali, e de acordo com este assassinato.

 

Sl 30/31 (Súplica na provação) Jesus conheceu esse Salmo e o rezou no alto da cruz, quando estava prestes a morrer. Não devemos nunca nos esquecer disso, pois hoje são as mesmas palavras que elevamos ao Senhor. Trata-se de um Salmo bastante longo e ponto referencial de toda a nossa história. Nele aparecem muitas referências a várias etapas da vida: momentos de alegria, tristeza, abandono de todos e solidão… Mas mesmo enfrentando todas essas situações, sabemos que Deus virá em nossa ajuda e socorro.

Senhor, não somente no momento da morte quero entregar a minha vida nas tuas mãos, mas em cada instante quero ser nas tuas mãos como o barro dócil nas mãos do oleiro. Forma-me, Senhor, ajuda-me e mostra o caminho que devo seguir. Que em cada circunstância da vida eu seja dócil e nunca me rebele contra a tua vontade, mesmo quando ela me parecer dura e incompreensível.

 

 

MEDITATIO: Estevão traz o encanto do testemunho valente e intrépido, um testemunho que desafia os adversários, que não lhes adula, que não tenta defender-se, mas que proclama com uma lucidez impressionante sua própria fé. Tampouco, usa de diplomacia, e o faz de propósito. É possível que queira despertar e agitar à própria comunidade cristã, que, atemorizada pelas primeiras perseguições, corria o risco de converter-se em uma seita judia, por amor à vida tranquila ou pela necessidade de sobreviver. Estevão vê, também, o perigo que ronda uma jovem comunidade cristã de olhar mais o passado que o futuro, o perigo que ronda uma Igreja mais por continuar a tradição que pela novidade cristã. O diácono aparece como alguém que preocupado compreendeu a fundo o alcance da novidade cristã; a ruptura que implicava a fé em Cristo com respeito à tradição caduca; a necessidade de não deixar-se aprisionar pelos condicionamentos de nenhum tipo. Será Saulo seu continuador na afirmação da «diversidade» cristã, na acentuação das peculiaridades da nova fé, no correr os riscos que trazia consigo a ruptura com o passado. Estevão não está disposto a transigir nem a ficar só em compromissos… Sua sacudida foi benéfica, inclusive acima do esperado. Não se vive só de mediações, mas, especialmente, em determinados momentos decisivos, são necessárias às posições claras. Estevão é o protótipo da parresia cristã, sempre necessária, inclusive para evitar os riscos do conformismo.

 

ORATIO: Senhor meu, quanto me perturba hoje Estevão. Como é que hoje me parece excessivo, exagerado, indelicado? Não será que sou eu moderado, delicado, equilibrado demais? Devo confessá-lo: já não estou tão acostumado a ver tamanha segurança e capacidade de desafio. Por isso devo pedir-te, hoje, que me concedas um suplemento de teu Espírito, para que compreenda a figura de Estevão, para que, também eu, possa ter, ao menos um pouco, de sua valentia, para proclamar-te como meu Senhor; para não ter medo de dizer, em voz alta, que minhas opções estão apoiadas nos «céus abertos» porque te contemplo como Ressuscitado, glorioso à direita do Pai; para ter o atrevimento de desafiar aos que queiram apagar as pegadas de tua presença; para ter a luz que necessito para fazer uma leitura da história e dos acontecimentos humanos de um modo não convencional. Senhor, quão tímida é minha fé, quando a comparo com a de Estevão. Quão frágil é meu caminhar. Quantas vezes eu sinto a tentação de acusar de intransigência qualquer atitude de firmeza. Ajuda-me a não ficar prisioneiro de meu viver tranquilo. Ajuda-me a discernir. Ajuda-me a não desertar da tarefa de ser teu testemunho.

 

CONTEMPLATIO – São os céus abertos os que iluminam meu caminho. Contemplando estes céus luminosos é como tenho coragem para atravessar as trevas, para não deixar-me atemori­zar pelas vozes, para não deixar-me intimidar pela al­tíssima gritaria do mundo; para não deixar cair os braços frente a quem «tapa os ouvidos» para não escutar-me; para não desistir quando todos se precipitam contra mim. Esses céus abertos são minha meta e meu gozo. Sei que devo atravessar a aspereza e a obscuridade para che­gar a esses. Devo mantê-los de maneira constante ante meus olhos: céus abertos; céus acolhedores; céus habitados; céus, pátria do Ressuscitado e dos ressuscitados, meus céus.

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Vejo os céus abertos» (Atos 7,56)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Edith Stein, enviada ao campo de concentração, escrevia em agosto do ano de 1942: “Sou feliz por tudo. Só podemos dar nossa aquiescência à ciência da cruz experimentando-a até o final. Repito em meu coração: ‘Ave crux, spes unica’ (Salve, ó cruz, única esperança)”. E lemos em seu testamento: “Desde agora aceito a morte que Deus predispôs para mim, em aceitação perfeita de sua santíssima vontade, com alegria. Peço ao Senhor que aceite minha vida e minha morte para sua glória e louvor, por todas as necessidades da Igreja, para que o Senhor seja aceito pelos seus e para que venha seu Reino com glória, para a salvação da Alemanha e pela paz do mundo. E por último, também por meus parentes, vivos e defuntos e por todos aqueles que Deus me tem dado: que nenhum se perca”. Edith estava preparada: “Deus fazia pesar de novo sua mão sobre seu povo: o destino de meu povo era o meu”.

 

 

QUARTA-FEIRA, 18 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

João 6,35-40 (Páscoa do Pão da Vida; Discurso na sinagoga de Cafarnaum)A multidão tem visto e escutado a palavra de Jesus no texto precedente, mas não reconhece nele o Filho de Deus descido do céu, como o maná do deserto. Então denuncia Jesus, com amargura, esta difundida incredulidade dos judeus (v.36), apesar de que a iniciativa amorosa do Pai se sirva da obra do Filho para dar-lhes a salvação e a Vida (cf.Jo 3,14s;4,14.50;5,21.25s). A Igreja primitiva era consciente deste conflito com a Sinagoga e, através do evangelista, expressa seu profundo vínculo com o Mestre, sublinhando que o desígnio de Deus se realiza mediante a acolhida que todo crente reserva a Jesus. Ele tomou a carne humana não para fazer sua própria vontade, mas a vontade daquele que lhe enviou. O plano de Deus é um plano de salvação, e o Pai, confiando-o ao Filho, proclama que os homens se salvam em Jesus, sem que se perda nenhum. Mais ainda, aqueles que foram confiados, pelo Pai, ao Filho, quer que os «ressuscite no último dia» (v.39). A expressão «último dia» tem um significado preciso em João: é o dia em que termina a criação do homem e tem lugar a morte de Jesus, é o dia do triunfo final do Filho sobre a morte; nele, todos poderão provar «a água do Espírito» que será entregue à humanidade. Nesse dia, Jesus dará cumprimento à sua missão, me­diante a ressurreição, e dará a vida definitiva. Esta úl­tima tem seu começo aqui, na fé, e sua plena realização na ressurreição ao final dos tempos. Os que creem em Jesus não experimentarão a morte, mas desfrutarão uma vida imortal.

 

 

Atos 8,1b-8 (Apedrejamento de Estevão. Saulo perseguidor) – Encontramo-nos aqui em presença de outro giro decisivo na história da frágil comunidade cristã: sua difusão fora dos muros de Jerusalém. Passa-se da perseguição à dispersão e da dispersão à difusão da Palavra. São os helenistas, os seguidores de Estevão, quem recebem os golpes. Têm que fugir e dispersar-se pelas regiões da Judeia e Samaria. Com isso inicia a carreira da Palavra pelo mundo, «até os confins da terra». Está também presente o contraste entre a «grande dor» pela morte de Estevão e a «grande alegria» pela ação de Felipe, outro dos Sete. Saulo «se enfurecia contra a Igreja», mas esta se expande exatamente entre os que estão à margem do judaísmo: a saída de Jerusalém é um fato não só geográfico, mas também cultural. Cristo é pregado também aos samaritanos. O frag­mento dá a impressão de que ocorreu um novo Pentecostes, uma nova primavera da Igreja, depois da que teve lugar em Jerusalém, se produz entre os pagãos. O conjunto vai acompanhado de poderosos gestos de libertação: é um mundo que se renova ao contato com a difusão da Palavra.

 

Salmo 65/66 (Ação de graças pública)O cântico une de maneira harmoniosa o louvor solene com a ação de graças oferecida por todas as bênçãos recebidas de Deus. É possível perceber que o orante é chefe de uma comunidade e convoca a todos para deixar de lado qualquer forma de egocentrismo, abandonando os próprios e pequenos problemas, e para dirigir toda a atenção ao louvor de Deus. A comunidade, livre de sofrimento e dificuldades graças à intercessão de Deus, agradece a Ele por todas às bênçãos. A alma humana foi criada para agradar e louvar; o olhar atento de Deus contempla com prazer as ofertas a Ele concedidas. Jesus, que se sacrificou por nós, levou consigo os nossos pecados. Somos livres para adorá-lo!

Senhor, quero me colocar diante de ti com humildade e confiança e agradecer pela tua presença na minha vida, na minha família, no meu trabalho. Quero ser sempre para todas as pessoas um sinal vivo e verdadeiro do teu amor. Quero que outros consigam ver a fé em minha vida e o amor com que te amo. Senhor, como é bom ver em todas as obras a tua presença de Pai, que cuida de cada um que avança no deserto da vida. Não estamos sozinhos nem com medo, pois sabemos que tu caminhas conosco e nos protege durante o dia com a nuvem do calor do deserto e durante a noite com a chama viva do teu amor, indicando-nos o caminho a seguir. A chuva da graça é derramada sobre nós e o nosso coração abre-se ao teu amor e se faz generoso e solícito em tudo. Tu estás sempre do lado dos pobres e os ama e cuida deles. Sou o teu pobre. Senhor, estou carente de teu amor. Cuida de mim. Amém.

 

 

 

MEDITATIO: O texto dos Atos dos Apóstolos mostra claramente que uma das causas da difusão do Evangelho através do mundo é a perseguição. São objeto da mesma, os irredutíveis, os «extremistas» companheiros de Estevão, os quais não acei­tavam acordo com o judaísmo. Os apóstolos se livram agora, possivelmente porque, ainda confiam em encontrar uma solução para os delicados problemas expostos com a tradição judia. A perseguição tem ajudado à Igreja a não dormir e a encontrar ou reen­contrar suas próprias raízes missionárias. Esta foi, depois, o segredo de sua perene juventude. A Revolução Francesa, por exemplo, criou uma forte prova para a Igreja, porém lhe fez sair da tormenta, mais fortalecida e mais disposta a empreender seu itinerá­rio missionário pelo mundo. Quando existe o perigo de nos instalar-nos comodamen­te em um lugar, quando existe a tentação de considerar-­nos integrados em um contexto social, quando estamos muito tranquilos, então é quando intervêm o Espírito Santo para dar o alerta através de diversas provas, a mais terrível das quais – ainda que, talvez, também, a mais eficaz – é a perseguição. Esta última dá frutos quando a Igreja está viva, como no caso da comu­nidade de Jerusalém. A Palavra se difunde para que os que estão dispersos fiquem impregnados da novidade cristã, da surpreendente realidade da salvação na qual se sentiam implicados e corresponsáveis. Por isso pode proceder da dor à alegria, da diáspora ao crescimento, da morte de Estevão a multiplicação dos apóstolos.

 

ORATIO: Esta Palavra, Senhor, me perturba uma vez mais, porque me parece que tu preferes mais os meios rápidos para alcançar teus fins. Querias fazer sair a alegre mensagem de Jerusalém, e surge uma violenta perseguição. Sinto-me perturbado, confesso. É que me agrada evitar as desgraças e viver em paz. Em minha paz, que não é exa­tamente a tua. Com minha paz não cresce a alegria no mundo; com teu dinamismo, produzido de uma maneira, frequentemente desagradável para mim, cresce, ao contrário, a alegria nos que estão fora de meus interesses. Senhor eu estou perturbado, sobretudo, porque esta tua Palavra me disse que eu deveria estar alegre nas persegu­ições, que deveria pedir-te quando me encontro muito bem e quando me sinto satisfeito do que faço e do que me rodeia. Porém, te confesso que me fal­ta coragem. Contudo, tem algo que devo pedir-te para não morrer de vergonha: que, frente às possíveis perseguições, possam ver meus olhos, pelo menos que estas têm um sentido para ti e para tua Igreja. E, portanto, também para mim, como viu Saulo o martírio de Estevão.

 

CONTEMPLATIO: Jesus convidava [com suas palavras] aos judeus para que tivessem fé, enquanto eles buscavam sinais para crer. Sabiam que haviam sido saciados com cinco pães, porém, preferiam o maná do céu e não outro alimento. Sem dúvida, o Senhor dizia que era muito superior a Moisés: este não havia se atrevido nunca a prometer o alimento «permanente, o que dá a vida eterna» (cf. Jo 6,27).  Jesus prometia algo mais que Moisés, o qual prometia encher o estômago aqui na terra, de um alimento que perece; Jesus prometia o «alimento permanente». O verdadeiro pão é o que dá a vida ao mundo. O maná era símbolo deste alimento, e todas essas coisas – disse o Senhor aos judeus – eram sinais que faziam referência a mim. Vós vos haveis apegado aos sinais que se refe­riam a mim, e rejeitais a mim, que sou aquele a quem se referiam os sinais. Não foi, portanto, Moisés o que deu o pão do céu: é Deus quem o dá (cf. Jo 6,32). Mas, que pão? Acaso o maná? Não, não o maná, mas o pão do qual era sinal o maná, ou seja, o Senhor Jesus. Porque «o pão de Deus vem do céu e dá a vida ao mundo» (Jo 6,33). (Santo Agostinho)

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Grandes são as obras do Senhor” (Sl 110,2)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Existe uma compenetração entre o sofrimento (chamemo-lo cruz, uma palavra que o resume e transfigura) e o compromisso apostólico, isto é, a construção da Igreja. Não é possível ser apóstolo sem carregar-se com a cruz. E se hoje se oferece o dever e a honra do apostolado a todos os cristãos de maneira indistinta, para que a vida cristã se revele hoje tal qual é, e deve ser, é sinal de que soou a hora para todo o povo de Deus: todos nós devemos ser apóstolos, todos nós devemos carregar-nos com a cruz. Para construir a Igreja é preciso esforçar-se, é preciso sofrer. Esta conclusão desconcerta certas concepções errôneas da vida cristã apresentada sob o aspecto da facilidade, da comodidade, do interesse temporal e pessoal, quando seu rosto tem que estar sempre marcado pelo sinal da cruz, pelo sinal do sacrifício suportado e realizado por amor: amor a Cristo e a Deus, amor ao próximo, perto ou afastado. E não é esta uma visão pessimista do cristianismo, mas uma visão realista. A Igreja deve ser um povo de fortes, um povo de testemunhos animados, um povo que sabe sofrer por sua fé e por sua difusão no mundo, em silêncio, de modo gratuito e com amor (Pablo VI, Audiencia general del 1 de septiembre de 1976).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 19 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

João 6,44-51 (A Páscoa do Pão da Vida; O Discurso na sinagoga de Cafarnaum)As anteriores revelações de Jesus sobre sua origem divina («Eu sou o pão da vida», v.35; «Eu desci­ do céu», v.38) haviam provocado desentendimento e protesto entre a multidão, que murmura e se torna hostil. É duro superar o obstáculo da origem humana de Cristo e reconhecê-lo como Deus (v.42). Jesus evita, então, uma inútil discussão com os judeus e lhes ajuda a refletir sobre a dureza de seu coração, anunciando as condições necessárias para crer nele. A primeira é ser atraídos pelo Pai (v.44), dom e manifestação do amor de Deus pela humanidade. Ninguém pode ir a Jesus se não é atraído pelo Pai. A segunda condição é a docilidade a Deus (v.45a). Os homens devem dar-se conta da ação salvífica de Deus com respeito ao mundo. A terceira condição é escutar ao Pai (v.45b). Do ensinamento interior do Pai e da vida de Jesus é de onde brota a fé obediente do crente na Palavra do Pai e do Filho. Escutar a Jesus significa ser ensinado pelo próprio Pai. Com a vinda de Jesus fica aberta a salvação a todo o mundo; mas a condição essencial que se requer é deixar-se atrair por Ele, escutando, com docilidade, a Palavra de vida. Aqui é onde o evangelista define a relação entre a fé e a vida eterna, princípio que resume toda regra para ascender a Jesus. Só o homem que vive em comunhão com Jesus se realiza e se abre a uma vida duradoura e feliz. Só quem come de Jesus-pão não morre. Jesus, pão da vida, dará a imortalidade a quem se alimenta dele; a quem, na fé, interioriza sua Palavra e assimila sua vida.

 

 

At 8,26-40 (Felipe batiza um eunuco) – Lucas prossegue sua esmerada apresentação da di­fusão do Evangelho a grupos cada vez mais afastados do judaísmo oficial. Após os samaritanos nos encontramos, agora, com um representante da diáspora, provavelmente, alguém que não era judeu, do ponto de vista étnico e que, sem dúvida, fazia parte da comunidade judia, na qualidade de «prosélito». Trata-se de um etíope; portanto, vem de longe e levará longe o Evangelho. É um eunuco, alguém que, para o Deuteronômio, não pode ser admitido na comunidade do Senhor, ainda que, para Isaías, já não será excluído. É um personagem influente e rico, visto que dispõe de meios para realizar uma longa viagem com todo seu equipamento e conta com a possibilidade de dispor de um custoso rolo manuscrito da Bíblia. A este personagem Deus lhe envia Filipe, através de seu anjo e, por meio do Espírito, lhe guia para a obra que deve realizar. Na ocasião se destaca a Sagrada Escritura, enquanto que a mediação é apostólica. A partir da profecia de Isaías sobre o Servo de Yahweh, Filipe leva sua missão salvífica de pregador do Evangelho, abrindo-lhe os olhos à inteligência plena da Escritura. O eunuco expõe, com claridade, a grande pergunta de sempre, desde as origens: “Rogo-te que me digas de quem disse isto o profeta, de si mesmo ou de algum outro?” Com a mediação eclesial e com a graça de Deus é possível dissipar a dúvida de quem, since­ramente, vai buscando a verdade. Ao dom da fé lhe segue o batismo e, de ambos, brota a salvação.

 

Sl 65/66 (Ação de graças pública) O cântico une de maneira harmoniosa o louvor solene com a ação de graças oferecida por todas as bênçãos recebidas de Deus. É possível perceber que o orante é chefe de uma comunidade e convoca a todos para deixar de lado qualquer forma de egocentrismo, abandonando os próprios e pequenos problemas, e para dirigir toda a atenção ao louvor de Deus. A comunidade, livre de sofrimento e dificuldades graças à intercessão de Deus, agradece a Ele por todas às bênçãos. A alma humana foi criada para agradar e louvar; o olhar atento de Deus contempla com prazer as ofertas a Ele concedidas. Jesus, que se sacrificou por nós, levou consigo os nossos pecados. Somos livres para adorá-lo!

Senhor, quero me colocar diante de ti com humildade e confiança e agradecer pela tua presença na minha vida, na minha família, no meu trabalho. Quero ser sempre para todas as pessoas um sinal vivo e verdadeiro do teu amor. Quero que outros consigam ver a fé em minha vida e o amor com que te amo. Senhor, como é bom ver em todas as obras a tua presença de Pai, que cuida de cada um que avança no deserto da vida. Não estamos sozinhos nem com medo, pois sabemos que tu caminhas conosco e nos protege durante o dia com a nuvem do calor do deserto e durante a noite com a chama viva do teu amor, indicando-nos o caminho a seguir. A chuva da graça é derramada sobre nós e o nosso coração abre-se ao teu amor e se faz generoso e solícito em tudo. Tu estás sempre do lado dos pobres e os ama e cuida deles. Sou o teu pobre. Senhor, estou carente de teu amor. Cuida de mim. Amém.

 

 

MEDITATIO: A evangelização é, sobretudo, obra divina, misteriosa, prodigiosa, por seus inícios e seus êxitos imprevisíveis. No texto dos Atos que lemos, por exemplo, nos encontramos muito longe de uma ação humana. É Deus que tem seu plano, um plano que temos de acolher. Filipe recebe a ordem de ir por um caminho que cruza pelo deserto, a pleno sol, exatamente para o sul. Para dizer a verdade, não parece uma boa premissa para a evangelização. Mas, é ai onde Deus planejou um encontro importante. Dele fez partir a tradição para a evangelização da África. O que parece­ decisivo aqui é a disponibilidade de Filipe, seu impulso evangelizador, que não perde nenhuma ocasião; sua capacidade para interpretar a Escritura. Em outras pala­vras: sua convencida entrega à causa do Evangelho e a sua «preparação». O resto fez o Espírito, que tornou possível o encontro e favoreceu a aproximação missionária. Talvez nos perguntemos hoje, com excessiva frequência, pelo futuro da missão, quando, na realidade, deveríamos perguntar-nos por nossa qualidade de evangelizadores, por nossa disponibilidade para ir a algum dos muitos «desertos» da cidade secular, a lugares onde parece inútil ir, porque são áridos, possivelmente, desesperadores. Sem dúvida, é possível que seja em algum destes lugares desertos que possam acontecer encontros decisivos. Depen­de do coração ardente do evangelizador, depende de sua capacidade para intuir a pergunta religiosa, uma pergunta que assume, às vezes, uma forma estranha. Em qual­quer lugar, inclusive no mais improvável, é possível encontrar uma pergunta e uma inquietude, às quais dá uma resposta, às vezes, rejeitada e, em alguma ocasião, acolhida como libertadora.

 

ORATIO: Peço-te, Senhor, ter mais confiança em teu Evangelho. Recordo ter sido vaiado, ridicularizado ou feito calar, muitas vezes, quando falava de ti, como resposta aos problemas de nosso tempo: talvez, por isso, tenha me tornado tímido, quase tenho me retirado e já não me atrevo a falar de um modo tão aberto de ti, a não ser nos lugares onde penso que serei escutado. Certamente, tenho procurado ótimos motivos para agir assim: é necessário «respeitar» os tempos de “amadurecimento e as opções dos outros, não devemos ser «fanáticos», não devemos «forçar» as coisas e os tem­pos; porém, o fato certo é que cada vez falo menos de ti”. Quantas ocasiões eu tenho perdido para iluminar corações inquietos, quantas situações potencialmente abertas a tua Palavra me escaparam! É possível que tu, Senhor, me tenhas levado, da excessiva segurança à desconcertante incerteza, para trazer-me a este momento, no qual me sinto um humilde servidor da Palavra; consciente de que não sou eu quem decide as conversões, mas que és tu o dono da messe, e que eu deveria estar, como Filipe, só disposto a introduzir na compreensão de teus caminhos. Obrigado, Senhor, por ter-me indicado este caminho.

 

CONTEMPLATIO: A vida dos pregadores ressoa e arde. Ressoa a Palavra e arde o desejo. Do bronze incan­descente se desprendem faíscas, porque de suas exorta­ções saem palavras acesas que chegam aos ouvidos de quem as escutam. As palavras dos pregadores recebem justamente o nome de «faíscas» porque acendem o coração daqueles com quem esbarram. Temos de assinalar que as faíscas são muito sutis e delicadas. De fato, quando os pregadores falam da pátria celestial, mas que abrir os corações com as pa­lavras, os faz arder de desejo. De suas línguas chegam, a nós, algo, assim como faíscas, visto que a partir de sua voz apenas se pode conhecer levemente algo da pátria celestial, ainda que eles não a amem exatamente de uma maneira leve. Sem dúvida, a divina vontade faz, certamente, que estas minúsculas faíscas acendam uma chama no coração de quem escuta. E é que há alguns que, só com o escutar umas poucas palavras se enchem de um grande desejo e lhes bastam as faíscas muito tênues de algumas palavras para fazê-los arder com um puríssimo amor a Deus (Gregório Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Senhor, dá-me, um coração de evangelizador»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Se o século XXI se converte, será através de um olhar novo, por meio do olhar místico, que tem a propriedade de ver as coisas, pela primeira vez, de uma maneira inédita. Quando o ser humano se der conta de que está ameaçado em sua essência pelo artefato infernal dos aprendizes de bruxos, em sua vida, pelo perigo mortal da poluição; sem falar da poluição moral que acabará por dar-lhe medo, talvez experimente, então, a necessidade de ser salvo. E este instinto de salvação é possível que lhe leve a buscar em outra parte, muito longe dos discursos inoperantes da política ou do ruído de uma cultura morta, a razão primeira do que é ele. Mas, não a encontrará senão através do rejuvenescimento integral de sua inteligência por meio da contemplação, do silêncio, da atenção mais extrema e, para dizê-lo com uma só palavra, da mística, que não é outra coisa senão que o conhecimento experimental de Deus (A. Frossard).

 

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 20 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

João 6,52-59 (A Páscoa do Pão da Vida; Discurso na sinagoga de Cafarnaum)Este texto, que serve de conclusão ao «Discurso do pão da vida», vai unido ao que o evangelis­ta nos disse antes. Sem dúvida, a mensagem se torna, aqui, mais profunda; e se faz mais sacrifical e eucarística. Trata-se de dar lugar à pessoa de Je­sus em sua dimensão eucarística. Ele é o pão da vida, não só pelo que faz, mas, especialmente, no sa­cramento da Eucaristia, lugar de união do crente com Cristo. Jesus-pão se identifica com sua humanidade, a mesma sacrificada na cruz para a salvação dos homens. Jesus é o pão. Como Palavra de Deus e como vítima sacrifical, que se faz dom por amor ao homem. A posterior murmuração dos judeus: “Como pode este dar-nos de comer sua carne?” (v.52), de­nuncia a mentalidade incrédula dos que não se deixam regenerar pelo Espírito e não tem intenção de ade­rir a Jesus. Este insiste com vigor, exortando a consumir o pão eucarístico para participar de sua vida: «Se não comeis a carne do Filho do homem e não bebeis seu sangue, não tereis vida em vós» (v. 53). Mais ainda, anuncia os fru­tos extraordinários que receberão os que participem no banquete eucarístico: o que permanece em Cristo e toma parte em seu mistério pascal permanece nele com uma união íntima e duradoura. O discípulo de Jesus re­cebe como dom a vida em Cristo, uma vida que supera toda expectativa humana, porque é ressurreição e imortalidade (vv.39.54.58). Este é o ensino profundo e autorizado de Jesus em Cafarnaum, cujas características essenciais versam, mais sobre o sacramento em si, que sobre a revelação gradual de todo o mistério da pessoa e da vida de Jesus.

 

 

At 9,1-20 (Vocação de Saulo)O que para Saulo era uma seita está se difundin­do, perigosamente, além dos confins de Judeia e Samaria, até a Síria. Saulo quer acabar com a heresia que está tendo tanto êxito e obtêm, para isso, um mandato especial. Sem dúvida, no caminho para Da­masco, lhe envolveu um resplendor que o cegou, e ouviu uma voz que lhe falava. Estamos ante um relato típico de vocação. A voz aqui é nada menos que a do perseguido. Saulo fica cego e permane­ce em jejum durante três dias, quer dizer, deve morrer a sua cegueira interior para ressurgir à nova compreensão da realidade. Entra em cena Ananias, um discípulo que não devemos con­fundir com o infeliz protagonista de Atos 5. A ele foi revelado o «mistério» de Saulo, o alcance único de sua missão universal, seu futuro de missionário discutido, controvertido e perseguido. O destino de Saulo está li­gado, agora, ao «nome» de Jesus, nome que deverá levar e testemunhar ante os pagãos e ante seus gover­nantes, assim como ante os filhos de Israel. Não se podia expressar melhor o conteúdo da missão e da «paixão» de Saulo. Passam-se alguns dias e vemos Saulo passando à ação mais surpreendente que se possa imaginar: proclamar «Filho de Deus» o Jesus que, poucos dias antes, lhe enchia de indignação e raiva, até o ponto de perseguir seus seguidores.

 

Sl 116/117 (Convite ao louvor) Este pequeno Salmo confirma o ditado popular: “os melhores perfumes estão nos menores frascos”. Podemos dizer que nesta oração, que manifesta a alegria do homem de fé, está a síntese de toda a Escritura. Nossa vida foi feita para louvar a misericórdia, a fidelidade e a misericórdia de Deus. Tais palavras devem estar sempre presentes na nossa oração. Nunca devemos nos esquecer de que Deus é misericórdia e verdade. Hoje há quem faça confusão com relação a isso; não é possível ter um coração grande que encobre a injustiça e o pecado. A misericórdia nunca esconde a verdade. Este Salmo de aleluia era cantado na ceia pascal e manifesta a necessidade da Igreja de missionar. Nenhum povo ou indivíduo é excluído do anúncio da verdade e do Evangelho.

Senhor, eu quero poder cantar este Salmo de cor, rezá-lo cotidianamente para me lembrar que tu és misericórdia e verdade e que nos envias para sermos teus missionários, para anunciar que o teu amor não pode permanecer escondido, mas deve ser revelado a todos. Amém.

 

 

MEDITATIO: Deus escolhe seus discípulos como e quando quer, e do modo mais imprevisto. É possível contar inumeráveis casos de homens que experimentaram uma mudança inesperada e impensável na sua vida. Antes se dedicavam a outra coisa e depois as consagraram à causa do Evangelho. À lista poderia encabeçá-la Saulo, Agostinho e outros casos menos clamorosos e mais ou menos conhecidos. Isso significa que a missão está nas mãos de Deus, que sabe escolher seus colaboradores onde lhe parece melhor. Isto ainda nos faz pensar em certas inquietudes vocacionais, em certas intemperanças missionárias, em certos catastrofismos apostólicos; melhor dizendo, que quase dão a entender como que se «o braço de Deus tivesse encurtado». Como se quase fosse impossível que se produzisse hoje a surpresa de grandes mudanças decisivas na missão. O Deus que pode fazer surgir, das pedras, filhos de Abraão, o Deus que pôde transformar um violento perseguidor em um missionário incomparável, pode fazer surgir, também hoje, em nosso mundo secularizado e secularizador, novas personalidades capazes de «levar seu nome às nações» e de «pro­clamar Jesus Filho de Deus». A nós, talvez, se nos peça, sobretudo neste momento, rezar e dar testemunho: rezar para que de nossa constatada impotência, possa fazer brotar, o Senhor, novos apóstolos, e dar testemunho para que, qual modestos Ananias, possamos servir de ajuda aos novos apóstolos que o Senhor queira suscitar.

 

ORATIO: Senhor, meu pecado mais comum é a pouca esperança. Meus olhos vêem, sobretudo, o mal que invade o mundo: ódio, lutas fratricidas, vulgaridade, pornogra­fia, droga, separações… e conheces bem meu lamento. Se estás contente que te recorde estas misérias, não sei se estás quando digo com desconfiança: “Até quando, Senhor?” Inclusive ao orar pelas vocações, o faço porque tu ordenas, sem estar de todo convencido que me escutas. É que tenho orado muito e vejo tão pouco resultado. Hoje, apesar de tudo, me animas com tua ação poderosa com Saulo. Permite-me que te diga uma só coisa: renova hoje teus prodígios. Mostra uma vez mais teu poder e suscita gran­des evangelizadores. Seguirei orando, mas não me deixes decepcionado. Mostra teu poder, para o bem do povo.

 

CONTEMPLATIO: Arquimedes de Siracusa disse: «Dá-me uma alavanca e um ponto de equilíbrio e levantarei o mundo». O que aquele sábio da antiguidade não pôde obter, pois sua petição não se dirigia a Deus, e porque só estava feita do ponto de vista material, o obtiveram os santos em plenitude. O Onipotente lhes concedeu um ponto de apoio: Ele mesmo e só Ele. A alavanca é a oração, que acende tudo com um fogo de amor. E assim foi como eles levantaram o mundo. Assim é como os santos militantes o levantam, e seguem, ainda, levantando, até o fim do mundo (Teresa do Menino Jesus).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Mostra-nos, Senhor, teu poder e suscita grandes evangelizadores»

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Ante as provas que agitam hoje a Igreja – o fenômeno da secularização, que ameaça dissolver ou marginalizar a fé, a falta de vocações sacerdotais e religiosas, as dificuldades nas quais se encontram as famílias para viver um matrimônio cristão – faz falta recordar a necessidade da oração. A graça da renovação, ou da conversão, não se dará, senão a uma Igreja em oração. Jesus orava no Getsêmani para que sua paixão correspondesse à vontade do Pai, a salvação do mundo. Suplicava aos seus apóstolos que velassem e orassem para não entrar em tentação (cf. Mt 26,41). Habituemos o nosso povo cristão, pessoas e comunidades, a manter uma oração ardente ao Senhor, com Maria (João Paulo II).

 

 

SÁBADO, 21 DE ABRIL DE 2018 – 3ª SEMANA DA PÁSCOA – ANO B

Marcos 16,15-20 (Aparições de Jesus ressuscitado) – Na festa de São Marcos, a Igreja nos propõe, para nossa reflexão, a última página do Evangelho de Marcos, o chamado final canônico do segundo Evangelho: é um adendo, pois não pertence ao Evangelho originário, mas é inspirado, porque foi aceito pela Igreja desde a antiguidade. Encontramos, em primeiro lugar, o mandato missionário: Jesus envia seus discípulos a levar o Evangelho a todas as criaturas (vv.15ss). O missionário do Pai tem necessidade de outros missionários; aquele que é a Palavra tem necessidade de outros porta-vozes que divulguem seu conhecimento; aquele que é o Evangelho feito pessoa, confia, agora, o Evangelho aos seus apóstolos: “Ide… Proclamai”. O segundo elemento contido neste texto descreve, resumidamente, o fato prodigioso da ascensão de Jesus: “E se sentou a direita de Deus” (v.19). Uma vez subido ao céu, entra em plena posse de seus poderes de Messias, Salvador, Deus. Há aqui, por último, a resposta dos apóstolos aos mandatos que lhes deu Jesus: Eles saíram a pregar por todas as partes (v.20). Trata-se de uma reação prática; não abstrata, mas concreta, que se traduz em uma decisão tão forte que revoluciona por completo à vida dos apóstolos e implica muitas das pessoas que lhes escutam.

 

1 Pe 5,5b-14 (Admoestações: aos fiéis; Último aviso. Saudações) – Neste texto, Pedro chama Marcos “meu filho”(v.13). A partir desta preciosa notícia, a tradição considerou que Marcos havia reconhecido em seu Evangelho a pregação de Pedro, cujas exortações vão dirigidas aos que exercem responsabilidades de guias e mestres na Igreja. Um autêntico pastor primeiro deve está revestido de humildade, consciente que não possui nada como seu, mas que tudo recebeu de Deus. Humildade é verdade: isto vale para todo autêntico crente e, com maior razão, para quem está revestido de autoridade. Quem tem sabido viver na humildade, receberá a seu tempo o reconhecimento da parte deste Deus que resiste aos soberbos e concede seu favor aos humildes (v.5; cf. Pr 3,34). Além de humildes, devem os pastores ser também sóbrios e está alerta. Repetem-se, aqui, as recomendações que Jesus havia dirigido aos seus no discurso escatológico (cf. Mc 13,1ss). A sobriedade e a vigilância são boas irmãs: ambas, juntas, podem opor uma firme e segura resistência: a resistência da fé ao inimigo número um: o diabo, representado aqui com o aspecto de um leão rugente e devorador. Aos pastores humildes e fiéis, sóbrios e vigilantes, o apóstolo Pedro lhes dirige a promessa: o Deus que lhes chamou à vida nova em Cristo, trás um breve sofrimento, mas lhes confirmará na graça e lhes coroará de glória (v.10).

Sl 88/89 (Hino e prece ao Deus fiel) – Este Salmo é uma oração que descreve os vários sentimentos do orante. O salmista quer cantar as maravilhas do amor do Senhor e para isso relembra seu passado e o passado do povo; fieis ao Senhor puderam contemplar a grandeza do Pai que não desampara seus filhos e sempre cumpre suas promessas. Paralelamente a isso, o salmista se vê circundado por inimigos que tentam sua incolumidade física e religiosa. Como reagir diante do avanço do mal? O segredo é um só: a fidelidade à Palavra de Deus é a única que garante a nossa vitória. Todos nós enfrentamos momentos difíceis e é ai que devemos aprender a ouvir o silêncio e procurar resposta na solidão. Há sofrimentos que, embora os outros nos ofereçam auxílio, devem ser absorvidos e saboreados por cada um de nós, na solidão de nosso coração. Neste Salmo, o salmista nos chama a renovar diariamente nossa aliança com Deus: aliança que é sempre plena de felicidade, mas marcada com o sangue da cruz e o nosso.

Senhor, cantarei eternamente as tuas maravilhas. Quero olhar o que o Senhor fez no meu passado, quantas coisas boas, quantos amigos e amigas colocou no meu caminho que me ajudaram a chegar onde hoje eu estou com o exemplo, com uma palavra, com correção fraterna. Cantarei, Senhor, as maravilhas da minha fé. Combati mais ou menos o bom combate e conservei mais ou menos a minha fé. Sou feliz por ser carmelita e por ter todo dia a graça de viver com intensidade o meu apostolado. Agora, Senhor, os meus olhos podem ver com ternura o meu pôr-do-sol, que enuncia um porvir ainda melhor nas tuas moradas eternas. Renova, Senhor, comigo, apesar da minha infidelidade e do meu passado, a tua aliança santa, dá-me a consciência de que tanto a minha santidade como o meu pecado pesam sobre os meus ombros e sobre os ombros da Igreja, do Carmelo e da humanidade. Dá-me a certeza de que ninguém se salva sozinho. Senhor, quero levar comigo diante de ti toda a humanidade para cantar as tuas maravilhas. Amém.

 

 

 MEDITATIO: Marcos, cuja festa litúrgica celebramos hoje, nos convida a aprofundar no significado do termo evangélico com o qual inicia sua obra. Trata-se dum aprofundamento não puramente acadêmico, mas existencial e vital. O Evangelho é de Deus (cf.Mc 1,14): contém e expressa todo o projeto salvífico que o Pai quer realizar por meio de seu Filho em favor de toda a humanidade. É do coração de Deus de onde brota esta Boa Notícia capaz de cumular de alegria todos os corações humanos disponíveis ao dom da salvação. O Evangelho é de Cristo (cf.Mc 1,1), tendo em conta que este genitivo pode e deve ser entendido assim: o Evangelho que é Cristo, Filho de Deus. É como dizer que a Boa Notícia tem como objeto único e exclusivo a pessoa, o ensinamento e o ministério de Jesus, único Messias e verdadeiro Filho de Deus. Mas, em Marcos, o Evangelho e também memorial de tudo que acompanhou o acontecimento terreno de Jesus: exemplo, o gesto gratuito e surpreendente da pecadora que, véspera da paixão e morte de Jesus, banhou, perfumou e benzeu os pés do Salvador: “Asseguro-vos que em qualquer parte do mundo onde se anuncie a Boa Notícia será recordada esta mulher e o que fez” (Mc 14,9). Em suma, de tudo isto se deduz que, para Marcos, o Evangelho é tudo, tudo é Evangelho.

 

ORATIO: Abre, ó Senhor, meus ouvidos para que se encham do tesouro de teu Evangelho: só assim minha vida, iluminada e confortada por tua palavra, terá um significado pleno e duradouro. Abre, ó Senhor, meu coração, a fim de que aprenda a acolher ao Verbo da verdade que está encerrado em teu Evangelho: só assim me sentirei totalmente saciado, porque estarei cumulado por completo de teu dom. Abre, ó Senhor, minha boca, a fim de que, da abundância do coração, acolha tua mensagem e o proclame para tua glória e para o bem dos irmãos. Abre, ó Senhor, minha vida ao encontro contigo, que eu saia ao encontro dia após dia com a palavra da verdade que teu Evangelho encerra e entrega.

 

CONTEMPLATIO: Sou ainda imperfeito, mas vossa oração em Deus me aperfeiçoará para alcançar, misericordiosamente, a herança, refugiando-me no Evangelho como na carne de Jesus e nos apóstolos como no presbitério da Igreja. Amemos os profetas, pois também eles anunciam o Evangelho. Têm recebido o testemunho de Cristo e tem sido incluído no Evangelho da esperança comum. O Evangelho tem algo mais especial, a vinda do Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, sua paixão e ressurreição. Os bem-aventurados profetas a preanunciação, porém o Evangelho é a consumação da incorruptibilidade.

 

ACTIO: Repete com frequência e vive hoje estas Palavras do evangelista Marcos:

Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.

Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Marcos eleva à perfeição o estado inicial da cristologia da Igreja primitiva, da qual nunca se poderá prescindir para compreender, por comparação, os desenvolvimentos posteriores da reflexão teológica. Ainda que o redator não expresse com clareza e de modo organizado seu pensamento, conseguiu concentrar nossa atenção na figura do servo de Yahweh, que nos redime através da dor e da solidão. Sua preocupação por eliminar o escândalo da cruz é evidente, para o qual demonstra que Jesus venceu Satanás. Em sua debilidade atuava a onipotência divina para a restauração do Reino de Deus e a derrota decisiva do poder diabólico sobre a humanidade (…). Marcos traça a imagem de Jesus mais próxima à sua realidade humana. Enquanto os outros três evangelistas, ainda que, afirmando de modo categórico que Jesus foi um verdadeiro homem, quase ofuscam sua vida, encobrindo com a luz pascal sua humanidade envolta de miséria e fragilidade; Marcos, ao invés, reproduz de modo veraz a experiência de Cristo que tiveram os apóstolos e, em particular, Pedro, durante sua atividade pública, antes de sua glorificação a direita do Pai. Em consequência, não se preocupa por atenuar as manifestações de sua sensibilidade, que revelam seus traços profundamente humanos. Só Marcos fala da cólera, da amargura, do estupor de Jesus, o qual, por outro lado, dirige perguntas aos discípulos, geme e suspira, abraça com ternura as crianças e ama ao jovem rico ainda quando este não corresponde ao seu convite de segui-lo na renúncia. Porém, não se pense que, com isto subestimou a dignidade transcendente e divina de Cristo. Ao contrário, pôs este título ao seu livro: Evangelho de Jesus, Messias, Filho de Deus. Embora Marcos não elabore uma profunda cristologia, tentando sondar o mistério divino e humano de Jesus, documenta, não obstante, melhor que os outros evangelistas, e com uma propriedade escrupulosa, sobre a desconcertante realidade do despojamento do Filho de Deus, que se encarnou para levar a salvação mediante o sofrimento e a morte (A. Poppi, Comento a Marco).

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