23° Domingo Comum ano A (Estudo Bíblico)
Mateus 18,15-20
Introdução
O texto de hoje situa-se no quarto Discurso do Evangelho de Mateus (Discurso Eclesiástico), que é dirigido aos discípulos fiéis que seguem Jesus, pois eles são o núcleo do futuro Reino dos Céus.
Neste discurso Jesus dirige numerosos conselhos de humildade, caridade, compaixão e edificação mútua.
No texto de hoje Jesus dá normas aos seus discípulos sobre como proceder quando um membro da comunidade peca.
Podemos dizer “a priori” que essas normas serão parte do seu preceito fundamental do amor: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,12).
O modelo a imitar, então, é o amor de Jesus Cristo aos homens. Porém, o amor de Jesus consiste nisto: vendo que nós, por causa de nossos pecados, estávamos destinados à perdição, Ele entregou a sua vida pela nossa salvação: “Por nós, os homens, e por nossa salvação… se fez homem; e por nossa causa foi crucificado”.
E João afirma que este amor é algo novo, desconhecido antes de Cristo: “Nisto temos conhecido o que é o amor: nele, que deu sua vida por nós” (1 Jo 3,16a).
Este mesmo preceito do amor leva o apóstolo João a esta conclusão: “Também nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1 Jo 3,16b).
Se Cristo deu a vida para libertar-nos do pecado e da condenação, o discípulo de Cristo não pode ficar indiferente ante o pecado de seu irmão, não pode ficar tranquilo quando vê que seu irmão se põe em estado de condenação.
Movido pelo amor ao irmão, tem que fazer todo o possível para obter sua conversão. E mais, se temos de amar como Jesus nos amou, temos que estar dispostos a dar a vida para que o irmão se salve.
Posto este princípio, o mais é questão de procedimento: “Repreende-o a sós. Se te escuta, terás ganho teu irmão. Se não te escuta, toma contigo um ou dois… Se despreza a eles, dize-o à comunidade. E se até à comunidade despreza, seja para ti como um gentil e um publicano”.
Se, ante a Igreja, o pecador se obstina em seu pecado, então o mesmo preceito do amor exige excluí-lo da comunidade.
Mas convém ao pecador que a comunidade o exclua ou que a comunidade legitime sua situação. No primeiro caso, existe a possibilidade da conversão; no segundo caso, não tem remédio.
Ante o irmão que se obstina em ser um pecador público, São Paulo declara: “Ao escrever em minha carta que não vos relacionareis com os impuros, não me referia aos impuros deste mundo em geral ou aos avarentos, aos ladrões, aos idólatras. De ser assim, tenhais que sair do mundo. Não, vos escrevi que não os relacionareis com quem, chamando-se irmão, é impuro, avarento, idólatra, difamador, bêbado ou ladrão. Com esses nem comer!” (1 Cor 5,9-11).
Se a comunidade acolher o pecador voluntarioso e obstinado, como poderia cumprir-se em seu interior a promessa de Jesus: “Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”. Não pode reunir-se “no nome do Senhor” o mesmo que “pisoteia ao Filho de Deus, e profana o sangue da aliança que o santificou” (Hb 10,29).
A atuação da Igreja está movida pelo amor de Deus que consiste em procurar a salvação eterna dos homens. Por isso, às vezes, usa medidas extremas, porém sempre medicinais.
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Apenas alguém se arrepende de seu pecado, a Igreja faz festa e o abraça, novamente, como irmão.
Felipe Bacarreza Rodríguez, Bispo Auxiliar de Conceição
1. O texto
Continuamos com nossa leitura do Evangelho segundo Mateus. Neste domingo entramos no quarto grande discurso de Jesus, que bem poderia intitular-se: “Instrução sobre a vida em comunidade” (ver todo o capítulo 18 de Mateus).
Ao fazer a “Lectio” destes textos, recordemos que o que mais interessa a Jesus em suas instruções, segundo o evangelista Mateus, é propor princípios de vida, dos quais se desprende toda uma série de atitudes e comportamentos.
É muito útil recordar o grande horizonte da vida do discípulo proposto no domingo anterior: negar-se a si mesmo, tomar a cruz e seguir a Jesus.
O saber morrer a si mesmo para “viver” se exercita em situações concretas da vida, particularmente no âmbito das relações (pensemos nos problemas que surgem nas relações familiares, comunitárias, nos grupos, com os vizinhos, etc.).
No texto de hoje – Mateus 18,15-20 – Jesus nos disse como enfrentar situações difíceis na vida comunitária, particularmente quando um membro dela “peca”.
Que fazer quando se sabe que um irmão está mantendo uma vida que não corresponde a de um discípulo de Jesus?
2. Estrutura do texto
O texto do Evangelho de hoje, para uma melhor reflexão, o apresentaremos em quatro partes:
(1) O pressuposto: a comunidade se sente responsável por cada um dos irmãos (vv.12-14);
(2) Como se faz a recuperação do irmão que cai em pecado (vv.15-17);
(3) A prudência nas decisões da comunidade com relação às pessoas (v.18);
(4) Comunhão na oração: expressão da solidariedade em todos os aspectos da vida (vv.19-20).
3. Aprofundando o texto:
(1) O pressuposto: a comunidade se sente responsável por cada um dos irmãos (vv.12-14);
Tal como vemos na passagem imediatamente anterior, em 18,12-14, a comunidade é “boa pastora” de cada um de seus membros.
Em Mateus tem uma pequena diferença com o Evangelho de Lucas neste ponto. Enquanto em Lucas o bom pastor é Jesus, que busca, pressurosamente, a sua ovelha perdida (ver Lc 15,4-7); o evangelista Mateus, por sua parte, dá um enfoque comunitário à parábola: toda a comunidade é responsável por cada um de seus irmãos.
A ovelha perdida é denominada “pequena”: “Não é vontade de vosso Pai celestial que se perca um só destes pequenos” (18,14). Os “pequenos” são os frágeis, inclusive moralmente, na comunidade, que necessitam maior atenção e acompanhamento em seus processos de maturação.
Para Mateus, todos são responsáveis por todos e cada um assim como rosto de Pai celestial, responsável e amoroso com todos seus filhos.
(2) Como se faz a recuperação do irmão que cai em pecado (vv.15-17)
Depois de enunciar o princípio geral passa a situação concreta: Que fazer quando nos inteiramos que um irmão está numa vida de pecado?
No texto, o primeiro que se lhe recorda é que ele é um “irmão” e como tal tem que seguir tratando-o, por isso, a repetição da frase “teu irmão” (18,15ª).
Logo se descreve o caminho recomendado para que um pastor traga de novo a ovelha a sua casa. Não perdemos de vista que o que se busca, ante tudo, é sua salvação: “Se te escuta, terás ganhado a teu irmão” (18,15b).
Porém a experiência mostra que tem casos difíceis que resistem à conversão, se trata daqueles que se fazem surdos (notar a repetição do término “escutar” ao longo do texto).
Propõe-se então o caminho da paciência e da firmeza comunitária:
- Interpelar: Chama-lhe a atenção a sós, do qual se espera sempre o melhor dos resultados;
- Objetivar: se a pessoa continua teimosamente em seu comportamento, então se inventam uns castigos para que fique claro, de que não é má intenção contra a pessoa (uma visão subjetiva de quem quer ajudar) senão de algo objetivo;
- Chamar a atenção formalmente: agora o assunto leva ao máximo nível de correção que é a comunidade inteira (talvez representada em seus líderes).
Mas, se todo o processo fracassa, dá-lhe o trato próprio de uma pessoa que ainda não se converteu, como os gentios e publicanos, isto é: manda-o fazer todo o caminho cristão desde o princípio.
(3) A prudência nas decisões da comunidade com relação às pessoas (v.,18)
O v.18 deixa entender que com uma pessoa que, intencionalmente, persiste em sua situação de pecado se pode tomar a mais dolorosa e drástica das decisões: a excomunhão, quer dizer, deixará de ser considerado “irmão” na comunidade.
Porém, chama a atenção que, agora, Jesus ponha a sua atenção nas pessoas encarregadas de tomar esta decisão:
- Segundo esta passagem, trata-se da comunidade inteira que tem a autoridade de “atar e desatar”;
- Se os recorda qualquer decisão que tomem é séria (o que fazem na terra ficará feito no céu), daí que não devemos tomar decisões aceleradamente, mas sempre com cautela.
Que responsabilidade tão grande tem uma comunidade com relação à salvação e a perdição de cada um de seus membros!
(4) Comunhão na oração como sinal do ser solidário em todos os aspectos da vida (vv.19-20)
É a presença de Cristo no meio de sua Igreja que dá valor e peso a suas decisões. Isto é o que agora se aprofunda: quando a comunidade está bem unida e compacta em uma mesma fé, ocorre nela o que o Antigo Testamento chama a “Shekináh”, quer dizer, ela é espaço habitado pela “glória do Senhor”, que, para nosso caso, é o Senhor Ressuscitado.
A unidade da comunidade expressa a comunicação perfeita com Jesus vivente no meio dela.
Chama a atenção que numa comunidade assim, é tal a solidariedade entre os irmãos, que todos são capazes de pedir o mesmo (“se põem de acordo para pedir algo”, v.19), renunciando aos seus interesses pessoais, os quais normalmente aflorariam na hora de fazer as petições.
Em uma comunidade que chega a este nível profundo de solidariedade, tem um mesmo “sentir” profundo, podem ressoar com força as palavras de Jesus: “ali estou eu no meio deles” (v.20). Esta, sim, que é uma verdadeira comunidade.
Porém, ei-lo aqui que vive, que entra na Igreja, que faz o sinal da cruz, que se ajoelha, que ora e se acerca ao altar. Apesar de tudo isso, o tenho por pagão e publicano. Não faças caso desses falsos sinais de vida. Está morto. De que vive, como vive se despreza esta medicina.
4. Aprofundemos com Santo Agostinho
“Acaso és justo tu, porque ele cala?”
Há algo realmente grave. Os homens desprezam de tal modo à medicina do perdão, que, não só não perdoam quando lhes ofendem, mas, tampouco, querem pedi-lo quando pecam.
Penetrou a tentação e se apoderou a ira deles.
De tal maneira lhes dominou o desejo de vingança, que, não só se apoderou de seu coração, mas que, até a língua vomitou ultrajes e crimes.
Não vês até aonde te arrastou, aonde te precipitou?
Adverte-o e corrige-te. Confessa: «Fiz mal»; confessa: «Pequei». Se confessas teu pecado, não morrerás; e sim, se não o confessas.
Crê em Deus, não em mim. Quem sou eu? Sou um homem, irmão vosso, sou um enfermo
e suporto a carne: todos nós devemos crer em Deus…
O próprio Cristo diz: Se peca teu irmão, corrige-o a sós.
Se não te escuta, leva contigo outros dois ou três. Na boca de duas ou três testemunhas aparece a verdade de toda palavra. Se, tampouco, ouve a eles, avisa à comunidade. E, se, tampouco, escuta à comunidade, seja para ti como um pagão e um publicano (Mt 18,15-17).
O pagão é um gentil; e o gentil é aquele que não crê em Cristo.
Se não escuta a comunidade, dá-lo por morto.
Porém, ei-lo aqui que vive, que entra na Igreja, que faz o sinal da cruz, que se ajoelha,
que ora e se acerca ao altar. Apesar de tudo isso, o tenho por pagão e publicano.
Não faças caso desses falsos sinais de vida. Está morto.
De que vive, como vive se despreza esta medicina?
«O juízo está distante», disse. Quem te tem dito que o está?
Acaso porque está distante o dia do juízo está distante, também, teu próprio juízo?
Como sabes quando há de chegar? Não se puseram muitos a dormir e não se levantaram jamais? Não levamos em nossa própria carne a própria morte?
O vidro, ainda frágil, dura muito tempo se o tratamos com cuidado; e dessa maneira encontras taças de avós e bisavós, nas quais ainda bebem netos e bisnetos.
Tão grande fragilidade, cuidada, tem chegado a ser antiga. Nós, ao contrário, somos homens e estamos expostos a inumeráveis perigos cotidianos.
Se ainda não nos sobreveio a morte repentina, o certo é que não podemos viver por longo tempo. A vida humana em sua totalidade é breve: desde a infância até a velhice.
Ainda que Adão vivesse hoje ainda, e devesse morrer hoje, que haveria ganhado por ter vivido tanto. A tudo isto deve acrescentar que o dia mesmo de hoje, ainda que movimentado por natureza, é incerto se nos assalta uma espécie de enfermidade radical.
Diariamente morrem homens. Os vivos os levam para enterrar, celebram seus funerais e prometem a si mesmo uma longa vida. Ninguém disse: «Eu me corrigirei, não seja que amanhã esteja eu como este que temos acompanhado ao cemitério».
A vós agradam as palavras, porém eu busco atos.
Não me entristeça com vossos costumes perversos, eu que, meu deleite na vida presente não é outro que vossa digna vida
5. Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração.
- Qual é o contexto do Evangelho de hoje?
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- Conosco situações de divisão, combates, escândalo pelo mau comportamento de alguém em uma família, em um grupo ou uma comunidade?
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Sou consciente das graves consequências da má administração da disciplina em uma comunidade?
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- Que comportamentos de dominância ou prepotência, de minha parte, tem fragmentado a unidade de minha família e de minha comunidade?
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- Observando as partes da palavra de Jesus no Evangelho de hoje, que passos e recursos pedagógicos têm de assumir uma comunidade para que evidencie nela a vida do Ressuscitado?
Autor: Pe. Fidel Oñoro, cjm

