LECTIO DIVINA: 1ª Semana da quaresma ano 2020

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DOMINGO, 01 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 4,1-11 (Tentação no deserto) Jesus, proclamado pelo Pai, Filho de suas complacências, imediatamente depois do batismo, é conduzido ao deserto “pelo Espírito” para ser “tentado pelo diabo”: portanto, esta prova é querida por Deus. Jesus, que veio para recapitular toda a hu­manidade, dando ao Pai essa total adesão que devia ter oferecido Israel, é submetido às mesmas tentações do povo do Êxodo, como indicam as citações do Deuteronômio, com as quais responde a Satanás (Dt 8,3;6,16;6,13). Porém, onde Israel falhou, Jesus vence. A insídia diabólica começa apresentando a Jesus as esperanças messiânicas, e pedindo-lhe que demonstre, se é verdade que, como havia afirmado a voz do céu, Ele é Filho de Deus. À proposta de um messianismo que satisfaça com facilidade as necessidades materiais do homem, Jesus responde contrapondo ao alimento material, o alimento espiritual da Palavra vivificante de Deus (vv.3s). À imagem de uma missão milagreira e espeta­cular que lhe propõe o diabo, Jesus opõe uma submi­ssão incondicional aos desígnios de Deus (vv.5-7). À tentação do êxito segue finalmente a do domínio – converter-se em senhor da terra, ceder à idolatria do poder -, porém, o caminho messiânico que Cristo intuiu no deserto é muito distinto. Com a autoridade que lhe vem de sua dedicação plena a Deus, Ele, o perfeito adorador do Pai, expulsa o demônio (vv.8-11). Mateus nos apresenta Jesus não só como o verdadei­ro Israel, mas também como o novo Moisés, ao citar o jejum de quarenta dias e quarenta noites, e a menção do “monte altíssimo”, onde o diabo lhe mostra todos os reinos da terra, aludindo a Dt 34,1-4. Es­tes quarenta dias no deserto preparam Jesus para que assuma a guia do novo povo de Deus, a quem oferece a nova Lei.

 

Gn 2,7-9; 3,1-7 (A formação do homem e da mulher; o relato do paraíso) O plano de Deus e o problema do mal constituem, em síntese, os temas propostos pela liturgia neste fragmento. Da terra (‘adamah), da matéria, Deus plasma o homem (‘adam), porém, insufla nele sua própria respiração; o rodeia de bem e de beleza, lhe colo­ca em um ambiente preparado com esmero, e lhe confia uma tarefa, uma missão (v.15); lhe dá ampla liberdade para determinar e transformar a realidade que lhe rodeia, me­diante o trabalho e a autoridade pessoal (vv.9s). Porém, o homem não deve estabelecer sua norma do bem e do mal: esta norma a impõe Deus; não deve conhecer, por experiência, o mal sob pena de levar-lhe à ruína (vv. 16s). “Conhecimento” é para os semitas um fato de expe­riência, antes que algo intelectual ou moral. Deus dá, pois, seu mandamento para a vida e a felicidade. Ao homem lhe propõe a eleição de uma livre obediên­cia, reconhecendo a relação particular que o Criador lhe oferece de viver com ele. Ali está a árvore, no meio do jardim, guardado uni­camente pela advertência de Deus. Neste ponto se in­sinua a presença do mal: o texto bíblico nos diz que o mau não é primariamente uma opção errônea, mas uma entidade criatural que induz a essa opção astutamente. O termo para indicar a serpente, signi­fica, também, “adivinhação”, deixando entrever os cultos idolátricos, nos quais o símbolo da serpente tinha muito que ver e que não deixavam de atrair a Israel. Em efeito, a serpente trata de que pareça uma mentira o mandato de Deus por uma espécie de falso oráculo (vv.4s). A narração da transgressão é uma obra mestra de psicologia, uma sequência de sensações perfeitamente estudadas (v.6) em um desejo crescente; porém o êxito do pecado consiste em comprovar a pró­pria nudez – quer dizer, nossa fragilidade, o estar iner­mes, derrotados -, que leva a envergonhar-se de si mesmo e a não poder suportar o olhar de Deus.

 

Rm 5,12-19 (Adão e Jesus Cristo) É um texto difícil, por sua grande densidade teológica, mas de capital importância para compreender como Cristo é o ponto central da história da sal­vação. No paralelo entre Adão e Cristo – os dois “protótipos” da história humana – temos uma nova revelação do mistério da cruz. O primeiro pai da humanidade, o velho Adão, com um só pecado arras­tou a todos ao pecado e à morte (v.12). Cristo, novo Adão, com um só ato de justiça, ou seja, com sua morte na cruz por amor, abre a todos o caminho da justiça, do amor e da vida sobre abundante. Esta vi­são nos permite intuir que os acontecimentos da história não são casuais ou independentes uns dos outros, mas que estão intimamente vinculados, seja para o bem ou para o mal: tudo o que fazemos tem uma repercussão fora de nós, repercute em todos os demais. Trata-se do tema do “pecado social”. A transgressão do primeiro homem introduz a toda a humanidade em uma deformidade em relação à imagem de Cristo: todo homem levará gravada em seu coração, como uma tara hereditária, a culpa das origens. Criado para viver em comunhão com Deus em santidade perfeita, sentirá sempre a tentação de fazer o mal. A Lei vem a ser como uma terapia de urgência ofereci­da por Deus ao homem ferido; na Lei se indica o que deve cumprir e o que há que evitar para viver de acor­do com a vontade de Deus (vv.13-14.20a). Porém, a Lei por si só é insuficiente para restabelecer a comunhão com Deus: o homem por si mesmo não po­de levantar-se da queda. Por esta razão, Paulo, compa­rando o alcance da ação de Adão e a eficácia da obra de Cristo, mostra a super abundância do dom de Deus. O paralelo entre Adão e Cristo leva a um superávit de graça, fruto da obediência do Filho amado: cum­prindo a vontade do Pai até a morte de cruz, Jesus nos tinha obtido o retorno a Deus, o acesso à vida eterna (v.21).

 

Sl 50/51 (Miserere) É um capítulo do livro de nossa história. Todos,assim como ocorreu a Davi, passamos por três fases em nossa vida, dominados por sentimentos contrários: bondade, pecado e conversão. A história de Davi é bela: quando jovem era puro e bom. Deus, então, pousou sobre ele seu olhar, escolhendo-o como rei e profeta. Mas o pecado e o poder o depravaram e, seduzido pelo amor de Betsabeia, manda matar Urias, o hitita, seu marido.         Deus suscitou o profeta Natã para abrir seus olhos, apontando o pecado que cometera. Arrependido, se converte e escreve esse belo Salmo, cheio de emoção, esperança e confiança. Este Salmo deve ser lido muitas vezes e considerado como um projeto de vida para todos nós. Ele ajudará a abrir nosso coração à conversão, conscientizando-nos de nosso pecado, não por intermédio do desespero ou medo, mas pela confiança que nosso Deus é misericordioso. Em nosso coração, teremos a certeza que Ele não quer sacrifícios inúteis, vazios, mas cheios de amor. Quando os laços do pecado nos agridem e tentam nos afastar da misericórdia do Senhor, devemos meditar este Salmo. Assim, venceremos o medo e nos lançaremos na misericórdia. Por que temer o amor de Deus? Por que temer confessar nosso pecado? Por que a vergonha dos erros cometidos, se não se volta atrás? A pedagogia do pecado é que nos ensina a pecar mais.

Senhor, confesso e reconheço que sou pecador. Minha natureza é maldosa e pecaminosa, por isso necessito de tua graça e teu amor para superar o mal que está em mim. Sinto na minha carne as mesmas tentações que Davi sentia e que nem sempre resistiu. A tentação de querer ser maior, de buscar o poder como forma de autoafirmação e fazer do poder meio nem sempre lícito para dominar os outros. O poder me corrompe e me permite acreditar que tenho regalias e que é lícito fazer o que quero. A tentação da carne, da sensualidade e da sexualidade, nem sempre orientada, é forte e não é canalizada para fazer o bem, mas sim instrumento de prazer e de condescendência aos instintos que tentam dominar e me levar para longe do projeto de amor. A tentação me faz querer tudo: coisas e pessoas. No entanto, Senhor, percebo que dentro de mim há algo de bom, um desejo de infinito, uma luta para vencer o mal e a vontade para fazer o bem. Quero entrar no meu coração para escutar tua Palavra, para me colocar aos teus pés na atitude de discípulo. Envia-me profetas corajosos como Natã, que me mostre meu pecado para que eu possa me converter. Todos necessitamos de conversão, do mais santo ao mais pecador, do grande ao menor. Senhor, é o que te peço, não afasta de mim meu pecado para que, tendo-o na minha frente, evite outros pecados. E faz que ensine, com minha experiência e quedas, o caminho certo, e que outros não cometam os mesmos erros meus. Amém.

 

 

MEDITATIO: O Senhor Deus prepara para o homem um jardim deli­cioso e fértil: terra de comunhão e de encontro entre o Criador e o “Adão”, terra de liberdade onde o amor é a consciente adesão à vontade de Deus, com a certeza confiada de que quer o bem de suas cria­turas. Ainda que permaneça aberta a possibilidade da rejeição, ainda que a serpente possa fazer-se notar no jardim, o Espírito de Deus conduz Jesus ao deserto: terra de solidão onde tudo cala e o silêncio amplifica as vozes que percebe o coração; terra de liberdade onde Deus pode falar ou calar. Também o diabo, o divisor, pode encontrar-nos no deserto. Por isso, foi conduzi­do ao deserto pelo Espírito. O homem enganado pelo maligno; buscou uma gló­ria que pensava que, um Deus invejoso lhe negava: ser como Deus, autodeterminar o que é o bem e o mal, a insídia de sempre. E Adão se encontrou despido, desterrado do jardim original, errante em uma terra que exige fatigas para produzir pão. Jesus, por isso, desceu ao abismo da queda do primeiro homem do or­gulho e a autossuficiência de cada um de nós. Como qualquer homem, ouviu a atrativa voz do que na solidão absoluta se lhe acerca e lhe incita a provar suas próprias possibilidades: submeter a seu serviço as leis da matéria, instrumentalizar a proteção divina, dominar o mundo comprometendo-se, “só um pouco”, com o Príncipe deste mundo. Acaso não são os meios mais adequados para levar a cabo, com êxito, a missão confiada? São tentações que cada um conhece bem, ainda que nos limitemos ao âmbito do próprio trabalho.

 

ORATIO: Ó Pai, tu que ofereceste ao homem viver em co­munhão contigo e que, quando Adão, o progenitor so­berbo, pecou, não o abandonaste no abismo de sua que­da: olha também a mim, tira-me da angústia na qual me precipita o desejo de ser um deus que encontra em si mesmo a norma do bem e o mal. Ó Cristo, tu que nos resgataste do pecado de Adão e seguiste o caminho da obediência indicado por teu Pai até a cruz: salva também a mim, que desejo saciar-me de coisas, de glória e de poder, ainda que fique desiludido e faminto, pois a Vida está em outra parte. Ó Espírito Santo, tu que conduziste Jesus ao deserto para que, vitorioso do mal, pudesse restituir ao Pai a submissão amorosa, que cada um de nós negou, ilumina-me e fortalece meu coração, para que aprenda a discernir tua vontade, e a cumpra sem temer fracassos ou burlas, com humildade obediente, na liberdade do amor.

 

CONTEMPLATIO: O Senhor Jesus foi tentado pelo diabo no deserto. Cristo certamente foi tentado pelo diabo, porém nele tu eras tentado, pois tua era a carne que Cristo assumiu para que recebesses dele a salvação. Assumiu a morte, que era tua, para dar-te a vida; Ele tomou de ti as humilhações para que tu recebesses dele a glória. Puseste em Cristo minha torre-fortaleza. Ele, por nós, se fez torre frente ao inimigo, ele é tam­bém pedra sobre a qual está edificada a Igreja. Buscas remédio para não ser ferido pelo diabo? Refugia-te na torre! Tens ante ti a torre. Recorda-­te de Cristo e terás entrado na torre. Como te recordarás de Cristo? Quando tenhas algo pelo qual so­frer, pensa que ele sofreu antes e reflete por quem tinha sofrido. Ele morreu para ressuscitar. Espera tu também lograr a meta, na qual nos tinha precedido e haverás entrado na torre sem ceder ante o inimigo (Santo Agostinho).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Estejamos firmes na prova: nossa força é o amor de Cristo” (da liturgia)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL A tentação mais grave é a do desespero; é a que nos faz duvidar de poder ser ainda perdoados e amados pelo Pai. Aí nos quer levar a astúcia do diabo: ao desespero. Se desconfiamos de Deus, nós mesmos nos separamos dele. É tremenda esta tentação. A tentação da desconfiança está na origem da trágica queda dos primeiros pais e aparece ao longo de todas as etapas da história de salvação.  Encontramo-la já no primeiro livro da Bíblia (Gn 3), onde a serpente tentadora induz Adão e Eva a desconfiar de Deus, até o Apocalipse (cc 3.12), onde o dragão se lança contra a Igreja, disposto a devorar aos santos, os filhos gerados na graça. A inveja impulsiona continuamente o maligno, ainda que vencido por Cristo, à tentativa desesperada de fazer cair os filhos de Deus. Por isso o cristão deve estar sempre alerta, disposto ao combate que tem que manter com a armadura que Deus o propõe (cf. Ef 6,12-18). A Igreja está submetida à tentação do mesmo modo que todo cristão; mas se perseveramos na fé e na oração, o Senhor nos promete o auxílio para que não sucumbamos à tentação (cf. Ap 3,10-12). A tentação é necessária porque, depois da primeira queda, todos devem submeter-se à prova. Nosso coração padece de inconstância e necessita robustecer-se mediante uma terapia intensiva e estimulante: a tentação libera novas e prodigiosas energias espirituais. O amor, na prova, se purifica e fortalece. O Senhor nos promete sua ajuda: não seremos tentados acima de nossas forças; o apóstolo nos disse: “Deus é fiel, não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças; ao contrario, junto com a prova os proporcionará forças suficientes para superá-la” (1 Cor 10,13). A âncora de salvação é a cruz, à qual devemos estar fortemente abraçados. Cristo padeceu por nós a tentação e venceu (A. M. Cánopi, Si, Padre. Meditazioni sul Padre nostro).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 02 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 25,31-46 (O ultimo julgamento) Esta perícope que Mateus põe como conclusão a seu “discurso escatológico” está aparentada com a tradução apocalíptica bíblica (em particular com Daniel) e judaica: trata-se de uma revelação dos últimos acontecimentos, do juízo universal. Nestas tradições aparece a figura do Filho do homem com traços às vezes humanos e celestes, com um papel fundamental na instauração do Reino de Deus e em levar a Deus a todos os eleitos. Jesus se identifica com este personagem glorioso. Virá a concluir a história assumindo de modo definitivo e manifesto a realeza oculta no tempo aos filhos de todos. Todas as nações se reunirão diante dele (v. 32). E como os pastores palestinos pela tarde dividiam o rebanho segundo a espécie, este Rei-Pastor (cf. Ez 34,17.32s) separará uns de outros ditando assim um juízo. O único critério distintivo será a caridade (vv. 34-40.41-55: construídos simetricamente segundo a misericórdia praticada ou desejada de praticar). Jesus, que nos permite identificá-lo como este Filho do homem, cumprimento das profecias, indica como esta figura régia quer identificar-se com cada um de seus irmãos menores. Ninguém há podido reconhecê-lo com os olhos carnais (vv. 37-39.44), e nem sequer se fala da luz da fé, da fidelidade aos preceitos da lei. Trata-se sensivelmente de amor com fatos, de honrar aos homens nos encontros de cada dia: aí é onde se joga nosso destino eterno segundo a medida do amor.

 

 

Lv 19,1-2.11-18 (Prescrições morais e cultuais) O texto pertence ao chamado “Código de Santidade” (Lv 17-26), começa com o mandato dirigido a toda a comunidade de Israel e sua motivação não é outra que a santidade mesma de Deus (vv 1s). Ele é totalmente outro, radicalmente diferente do que o homem pode imaginar “separado” (segundo a etimologia do termo “santo”). E, sem dúvida, deseja que o povo eleito participe de sua santidade em qualquer circunstância, que seja transparente até nos detalhes da vida. As normas que seguem regulam a ética pessoal e social. A inserção rítmica da fórmula “Eu sou o Senhor” revela a interdependência entre o respeito pela santidade de Deus e o respeito pelo próximo. O temor de Deus deve inspirar, de modo especial, o comportamento com os mais débeis, os menos valorizados (v.14). Aos preceitos em forma negativa (“Não farás isto”) se acrescenta exortações dirigidas a construir na sociedade humana relações de fraternidade (vv.16b.18a), e culminam no mandamento do amor ao próximo (v.18b). Quem conhece a severa Lei de Talião fica surpreso pelos mandatos que limitam, não só os atos referentes à morte do próximo (vv.16b.18a), mas também os sentimentos que matam ao próximo (vv.17a.18b). O amor ao outro baseado no nome de Deus edifica a comunidade humana na santidade segundo a vontade divina.

 

Sl 18/19 (Iahweh, sol de justiça) Quais os princípios que nos orientam? Se eles forem pecaminosos, toda a nossa vida será injusta; mas se eles forem justos, o nosso agir será reto. Os Salmos nos convidam a ter nossas vidas coerentes com a Palavra. A doçura da Palavra de Deus sacia o nosso coração. Que a nossa boca não fale mentira, que o nosso falar seja reto e honesto.

Senhor, preserva-me do orgulho de ser santo e melhor que os outros. Que eu sempre tenha no coração a humildade. Se faço o bem, é por ti; se fujo do mal, é pela tua bondade. Nada sem ti podemos fazer. Contemplar e fazer o bem são os maiores desejos que temos dentro de nós. O bem está presente em todas as pessoas, portanto dá-me olho para enxergá-lo e coração para amá-lo. Amém.

 

 

MEDITATIO: “Eu sou o Senhor”, repete Deus no Antigo Testamento como rubrica aos preceitos sobre o amor prático e cotidiano com o próximo. Eu sou o Senhor que vê vossa conduta, que cuida da vida de todos exigindo que se respeite e se socorra de sorte que sejais santos com minha mesma santidade. “Comigo o fizeste”, repete Jesus no Evangelho. Sou o Rei que não vês em cada um de meus irmãos menores, porém neles podeis me socorrer servir-me ou talvez ignorar-me. Quem como o Senhor, que jaz como qualquer desvalido a beira do caminho e se deixa olhar com indiferença ou com misericórdia (cf. Sl 112)? Ele se sentará no trono de sua glória e a seu lado colocará a cada um de seus irmãos menores e a quantos a atitude gratuita de partilhar o pão, a água e os bens lhes faça sentir-se importantes em seu coração e no coração de Deus. Hoje começa minha vida eterna, se te amo como a mim mesmo, irmão em Cristo, irmão Cristo.

 

ORATIO: Ó misericordioso, que choras conosco desde as primeiras lágrimas de Adão e Eva, rompe com teu olhar a dureza de nosso coração. Faz-nos capazes de receber e dar tua divina compaixão. Não permita que julguemos com nossa medida mesquinha e falsa, mas com a tua, longânime e abundante, até que nos sintamos devedores de todos, devedores de uma caridade cada vez maior, de uma ternura sem limites. Sim, ó misericordioso, que choras por nós e conosco, Tu viestes a nossa humanidade, nu e humilhado, pobre e enfermo, só e rejeitado. Não permitas que passemos a teu lado sem olhar-te, não deixes que vivamos a teu lado sem reconhecer-te e amar-te. Tu, ó misericordioso, és o que carrega nosso pecado desde a primeira queda que nos fez miseráveis e desgraçados, Tu enxugarás nosso pranto, ternamente, até a última lágrima, até mudar em gozo de salvação a dor da humanidade inteira.

 

CONTEMPLATIO: A misericórdia é a imagem de Deus, e o homem misericordioso é, de verdade um Deus que vive na terra. Como Deus é misericordioso com todos, sem nenhuma distinção, assim o homem misericordioso difunde seus atos de amor e generosidade com todos, com a mesma medida. A misericórdia não merece exaltar-se tendo em conta exclusivamente a quantidade de atos de bondade e generosidade, mas muito mais quando procede de um pensar reto e misericordioso. Há os que dão e distribuem muito e não são misericordiosos diante de Deus. Há também os que não têm nada, que não possuem nada, porém tem um coração piedoso com todos: pois bem, estes são diante de Deus uns perfeitos misericordiosos e o são de verdade. Não digas, pois: “Não tenho nada para dar aos pobres”, não te aflijas em teu interior por não poder ser misericordioso deste modo.     E se tens algo, dá o que tens. Se não tens nada, dá também, ainda que não seja mais que uma migalha de pão seco, com uma intenção misericordiosa: Deus o considerará misericórdia perfeita. “Deus é amor” (1 Jo 4,8).       O homem que possui o amor é verdadeiramente Deus em meio aos homens (Youssef Bousnaya).

ACTIO: Repete com frequencia e vive hoje a Palavra:

“Quem não ama o irmão ao que vê, não pode amar a Deus a quem não vê” (1 Jo 4,20)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Os que se acercam ao pobre fazem movidos pelo desejo de generosidade, para ajudar-lhe e socorrer-lhe; se consideram salvadores e com frequência se põem sobre um pedestal. Porém tocando ao pobre, chegando-se a ele, estabelecendo uma relação de amor e confiança com ele, é como se revela o mistério. Eles descobrem o sacramento do pobre e conseguem chegar ao mistério da compaixão. O pobre parece romper a barreira do poder, da riqueza, da capacidade e do orgulho, tiram a casca com que se rodeia o coração humano para proteger-se. O pobre revela a Jesus Cristo. Faz que o que veio para “ajudar-lhe” descubra sua própria pobreza e vulnerabilidade; lhe faz descobrir também sua capacidade de amar, a potência de amor de seu coração. O pobre tem um poder misterioso; em sua debilidade, é capaz de tocar os corações endurecidos e de sacar à luz as fontes de água viva ocultas em seu interior. É a manita do menino da que não se tem medo, porém que se desliza entre os barrotes de nossa prisão de egoísmo. E consegue abrir a fechadura. O pobre liberta. E Deus se oculta no menino. Os pobres evangelizam. Por isso são os tesouros da igreja. (J. Vanier, Comunidade, Lugar de perdão e de festa, Madrid 1981,115s).

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 03 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 6,7-15 (A verdadeira oração. O pai-nosso) Na versão de Mateus, a oração do Pai-Nosso, inserida no “Discurso da montanha”, vem prece­dida por uma espécie de catequese sobre o modo de orar. Enquanto os pagãos pensam, que têm que multi­plicar as palavras para atrair a atenção da divin­dade, e dobrá-la aos próprios fins (v.7), Jesus revela que Deus é Pai, sempre presente, que conhece bem suas necessidades reais (v.8). Não necessita, portanto, longos discursos, mas re­descobrir-se como filhos. Jesus, que ousa dirigir-se ao Altíssimo chamando-o abba, “Paizinho”, quer também introduzir os homens nessa íntima e profunda comunhão. Por esta razão, confia a seus discípulos o Pater, a oração por excelência do cristão. Certamente, tem uma forma tipicamente he­bréia: sete pedidos divididos em dois grupos, que re­cordam as duas tábuas da Lei. Os três primeiros pedidos se referem a Deus e a seu desígnio salvífico; os outros dirigem sua atenção às verdadeiras necessidades do homem. O nome – quer dizer, a própria pessoa de Deus- já é santo, porém, quer que se reconheça como tal, isto é, santificado por todos, mediante uma vida de adoração, louvor e conformação com ele. O Reino de Deus já está presente, porém, para que chegue à sua plenitude, é pre­ciso que, cada um, aceite o senhorio de Deus na própria vida. A vontade de Deus se cumpre, certamente, no céu e na terra, porém, se pede que cada um possa aderir a esta vontade com amor, como Jesus. Pede-se, em seguida, ao Pai, que nos providencie o necessário hoje, e dia após dia: sempre somos filhos pobres, que tudo recebemos dele. O alimento que nos oferece, não sacia só a fome corporal; é o “pão” da vida futura, o mesmo Jesus, Pão vivo (cf. Jo 6). Temos necessidade do perdão de Deus para entrar no Reino, porém, não podemos pedir que nos perdoe, se negamos o perdão a nossos irmãos. O v.13 (“Não nos deixeis cair na tentação”) nós temos que entendê-lo assim: “Faz que não entremos na tentação”, “Faz que, frente às grandes provas da vida, a fé não duvide de tua bondade de Pai e não renegue, ce­dendo às insidias do diabo”. O último pedido da oração pede ser livres do Maligno, causa e instigador de todo mal. Como conclusão, os vv.14s retornam e sublinham a necessidade do perdão recíproco enunciado no v.12: não podemos chamar Deus de “Pai”, se não vivemos como irmãos, se não queremos confor­mar nosso rosto ao seu, que é infinita misericórdia.

 

 

Is 55,10-11 (Convite final) Isaias 55 conclui a série de oráculos do Segundo Isaías (cf.40-55) e recolhe, em síntese, os temas que con­tém, como o perdão, à volta à pátria, a participação da natureza na salvação, o poder da Pa­lavra de Deus. Esta última é mediadora entre Deus e o homem; permite encontrá-lo em sua “proximidade” (v.6) e não senti-lo ausente em sua aparente “distância“, porque “seus caminhos não são nossos caminhos” (v.9), como recordavam os versículos imediatamente precedentes. A Pa­lavra não é letra morta; é uma realidade viva, enviada do céu para revelar e levar a cabo a salvação. É, pois, “eficaz”, capaz de alcançar sua finalidade, como a chuva e a neve que regam e fecundam a terra. Pode se dar uma imagem mais alentadora para um povo des­terrado, ao qual se lhes tem anunciado com certeza o retorno à pátria, porém, que experimenta a própria fragilidade para manter viva a esperança? A profecia encontra em Cristo seu cumprimento. Ele é a Palavra onipotente feita carne, enviada pelo Pai do céu para que nossa terra dê seu fruto. Ele é o Verbo eterno vindo a terra, morto na cruz e ressuscitado, para abrir a nós, filhos rebeldes, o caminho ines­perado do retorno à morada de Deus, seu Pai e nosso Pai.

 

Salmo 33/34 (Louvor à justiça divina) Deus é vida e amor, mas precisamos estar atentos, pois estamos cercados de situações que nos levam à morte: o mal, a violência, o ódio, as guerras. Além disso, vivemos um momento em que a vida está sendo destruída já no seu nascer, por meio do aborto. Há também uma morte que engana, pois não parece morte, mas igualmente pode matar: a injúria, o ódio, o rancor, a inimizade, a calúnia. Quem se decide a seguir o Senhor deve viver de acordo com a Palavra.

Senhor, que eu seja coerente no meu dia a dia, defenda a vida e participe de todos os atos e realizações que busquem resplandecer o amor e a justiça. A pedagogia do seu amor nunca se altera: os ricos que não partilham passarão fome e os pobres que te amam sempre serão saciados do teu amor e da tua paz. Amém.

 

 

 

 

MEDITATIO: Orar é hoje, para muitos cristãos, uma empresa di­fícil. Há quem a escamoteia dizendo que não serve, e que “trabalhar é orar”; há quem a descartam desculpando-se por não encontrar tempo para orar, e há quem reconheça a dificuldade real, porém, não oram porque não sabem o que dizer. Tampouco faltam, entre os mais devotos, os que “usam muitas palavras como os pagãos”, pe­dindo só coisas boas em aparência. Para todas es­tas, Jesus desloca a chave do problema: não se trata de orar para satisfazer determinadas necessidades, mas para descobrir que Deus é Pai, e chama a todos os homens à comunhão de amor com Ele e n’Ele. Portanto, orar não é uma questão de dizer coisas, mas uma questão de amor, que pode expressar-se com pala­vras, mas também no silêncio, e que, progressivamente, vai monopolizar toda a vida convertendo-a em uma só e incessante oração. A Palavra eficaz que envia Deus a terra, volta a Ele depois de ter cumprido seu desígnio; se fez carne, é Jesus: qualquer palavra sua encerra um po­der extraordinário. É Ele quem nos diz: “Vós orai assim: ‘Pai nosso”‘. Peçamos, pois, a Cristo que nos en­sine a repetir a oração com seu próprio coração, para que cresça em nós, dia após dia, o amor filial e con­fiante em nosso Pai celestial e com a oração cresça a caridade, que se traduz em perdão aos irmãos. Então nossa terra, fecundada com a Palavra, produzirá frutos de vida nova, dará pão de misericór­dia para saciar a fome de toda a humanidade.

ORATIO: Ó Deus, que em Jesus, teu Filho amado, nos concedes o privilégio de poder chamar-te “Pai”, perdoa-nos, se nosso coração não salta de júbilo, cada vez que nos atreve­mos a pronunciar teu dulcíssimo nome. Perdoa-nos as vezes que nos dirigimos a ti distraida­mente, como se fosse à coisa mais óbvia, enquanto milhões de homens vivem atormentados pela angústia e o sem-sentido, simplesmente, porque, ninguém nunca lhes disse, que Tu os ama com ternura de pai e de mãe. Concede-nos a pureza de coração que per­mita aos retos e aos “pequenos” ficar atônitos e assombrados só com a recordação de teu nome. Não per­mitas que desperdicemos, tontamente, o dom tão gran­de de poder invocar-te, seguros de que nos escutas por­que somos teus e Tu és nosso Pai.

 

CONTEMPLATIO: “Pai nosso, que estás nos céus”: esta é a frase dos íntimos de Deus como um filho sobre o peito de seu pai. “Santificado seja teu nome”: quer dizer, que seja glorificado entre nós, mediante o testemunho ante os homens que dirão: estes são verdadeiros servos de Deus. “Venha teu reino”: o Reino de Deus é o Espírito Santo: oramos para que o envie a nós. “Faça-se tua vontade na terra como no céu”: a vontade de Deus é a salvação de todas as almas. O que já é realidade nas potências do céu, o pedimos que se realize em nós, aqui na terra. “Nosso pão da manhã” é a herança de Deus. Oramos para que nos dê uma antecipação já hoje, quer dizer, para que sintamos sua doçura no tempo presente, avivando em nós uma sede ardente (Evagrio Pontico, Catene sui Vangeli).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Abba, Pai! Não se faça como eu quero, mas como Tu queres” (Mc 14,36)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL “Livra-nos do mal…” O mundo jaz no mal, e mal não é só o caos, ausência de ser: manifesta uma inteligência perversa que, a força de honras sistematicamente absurdas, quer fazer-nos duvidar de Deus e de sua bondade. Na realidade, se trata não da simples “privação de bens”, mas do maligno, do malvado; não a matéria, nem o corpo, mas a mais sublime inteligência encerrada em sua própria luz… É necessário afirmar que Deus não criou o mal, e menos ainda o permite. “O rosto de Deus goteja sangue na sombra, dizia Léon Bloy. Deus sente o mal em seu próprio rosto, como Jesus recebeu as bofetadas tendo os olhos vendados. O grito de Jó não deixa de clamar, e Raquel segue chorando seus filhos. Porém a resposta a Jó está ai: é a cruz. É Deus crucificado sobre todo o mal do mundo, porém capaz de fazer explodir nas trevas uma imensa força de ressurreição. Páscoa é a transfiguração no abismo. E “livra-nos do mal” a nós, que nos acanhamos de ser cristãos ou pelo contrário, fazemos do cristianismo, de nossa confissão, um estandarte de superioridade e de desprezo. E “livra-nos do mal” a nós, que falamos da deificação e com frequência somos pouco humanos. E “livra-nos a nós, que nos apressamos a falar de amor e nem sequer sabemos respeitar-nos mutuamente. E “livra-nos do mal” a mim, homem de angustia e tormento, tão frequentemente dividido, tão pouco seguro de existir, homem que se atreve a falar – junto à Igreja: é minha única desculpa – do Reino e de seu gozo (O. Clément, Il Padre nostro).

 

 

QUARTA-FEIRA, 04 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Lucas 11,29-32 (O Sinal de Jonas) Enquanto a povo se ajuntava em torno a Jesus, ele responde aos que “para pôr-lhe a prova lhe pediam um sinal do céu” (v.16). Rejeita um sinal que sacie a curiosidade e a sede pelo maravilhoso (v.29) E em sua resposta, Jesus deixa entrever sua própria identidade divina: “Aqui há um que é maior que Jonas” (v.32). De fato, declara que é o sinal do céu, o Messias prometido e longamente desejado por Israel, mas agora não é reconhecido, pois se apresenta de modo muito diferente do esperado pelo povo. O Filho do homem é “para esta geração” um cha­mado vivo à conversão, como foi Jonas para os ninivitas; e como ele não busca meios espetaculares para afirmar-se, mas oferece, simplesmente, a Palavra e a misericórdia de Deus. A recordação dos habitantes de Nínive e da rainha de Sabá, sublinha a universalidade do chamado à salvação. Mas, enquanto alguns povos pagãos souberam reconhecer, como “enviados” de Deus, homens que proclamavam a conversão e, escutando sua voz, encontraram o caminho de uma conversão radical, a “geração malvada”, onde Jesus exerce, historicamente, seu ministério, é cega e dura de coração. Por isso, serão os mesmos ninivitas e o reino de Sabá que a condenarão no dia do juízo (vv.31s), porque, cegos pelo orgulho, não reconheceram, sob as humildes aparências huma­nas de Jesus, ao Cristo.

 

 

Jn 3,1-10 (Conversão de Nínive e perdão divino) O livro de Jonas é uma espécie de longa parábo­la, cuja mensagem central é a universalidade da salvação: a misericórdia de Deus não se limita ao povo eleito, mas abrange a todos. Pela segunda vez o profeta é enviado, pelo Senhor, à capital do reino assírio, Nínive, proverbial por sua gran­deza, para anunciar a destruição da cidade por cau­sa da perversão de seus habitantes (1,2). Ao primeiro chamado, Jonas fugiU: como pode um pobre homem incapaz profetizar a ruína da “super potência” inimiga em seu próprio territó­rio? Obrigado a obedecer pelas peripécias que expe­rimentou (cc.1-2), agora começa a cumprir a missão A que foi enviado. Como profeta, Jonas anuncia um oráculo de ameaça e reprovação em nome do Senhor, e sua pregação chega ao coração dos ninivitas e de seu próprio rei: eles “creram em Deus” (utilizando o mesmo verbo que em Gn 15,6 para indicar a fé de Abraão) e se impuse­ram uma duríssima penitência, acompanhada de uma oração fervente e profunda conversão (v.8). São muito importantes os vv.9-10: a mudança espera que os decretos de Deus não sejam irrevogáveis, mas que, ao arrependimento sincero do homem, siga o “arrependimento” de Deus, e o castigo anunciado se mude em perdão. Um povo pagão mostra, assim, conhecer o verdadeiro rosto do Deus de Israel, um Deus lento à ira e rico em misericórdia, um Deus que “não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva” (Ez 33,11).

 

Salmo 50/51 (Miserere) – (Ver domingo)

 

 

MEDITATIO: Neste tempo litúrgico ressoa constantemente o convite à conversão. Como o acolhemos? Pode ser uma palavra que se perde, ou encontrar em nós um coração aberto que, ferido e iluminado pela Palavra, reconhece o próprio pacto com o pecado, e decide um caminho de volta a Deus. Ou pode ser que este convite nos deixe indecisos: quiséramos uma graça “barata”, porém, com “efeitos espetaculares”, e preferimos buscar confirmações convincentes, milagres e sinais extra­ordinários… Jesus é o “grande sinal” do amor divino que não teme assumir o pecado para conceder a graça ao pe­cador. Sinal do céu é um Deus com as mãos cravadas na cruz, rendido, impotente, para outorgamos à liber­dade. Olhá-lo é o começo da conversão. Ante seu rosto ferido, todos -os “pagãos”, como os ninivitas ou “crentes”, como os contemporâneos de Jesus- estão chamados a decidir se fecham o coração ou se abrem a uma nova vida. Muitos virão de remotas distâncias -desde o pecado, desde outras mentalidades, desde outras culturas- para aprender a sabedoria do cruci­ficado: aqui há alguém que é mais que Salomão. Muitos se converterão ao anúncio, crendo no Profeta feito Servo ferido por amor: aqui há um que é mais que Jonas.

 

ORATIO: Pai justo e misericordioso, tu nunca te cansas de chamar a todos à conversão, para que teus filhos participem do gozo da comunhão contigo. Perdoa-me, Pai: Tenho fechado o coração na indiferença egoísta e satisfeita, e não tenho aberto a teu convite. Senhor Jesus, tu manifestaste o chamado extremo do amor, esse amor que vence a morte, oferecendo a vida. Perdoa-me, ó Cris­to: tenho duvidado confiar em ti, e tenho preferido pedir sinais espetaculares, garantias absurdas, a um Deus que tinha perdido tudo, na cruz, para salvar-me. Espírito Santo, fogo de amor, inflama meu coração, consumindo toda a escória de temor, mesquinhez e dureza. Luz santíssima,faz que eu experimente a medida ilimitada da misericórdia de Deus e a profundidade insondável de sua sabedoria. Livra-me da frieza do endurecimento e da cegueira de minha lógica humana.

 

CONTEMPLATIO: O poder arrepender-se se concede a todos que estão enfermos da alma. Venha, apressemo-nos a obter força para nossas almas. No arrependimento a pecadora encontrou a salvação e Pedro anulou sua trai­ção; David cancelou a paixão do coração; os ninivitas encontraram a cura. Sem duvidar um momento, le­vantemo-nos e mostremos nossas feridas ao Salvador, deixemo-nos curar. Ele acolhe nossa conversão mais além de nossos desejos. Nada se deve ao que vai a salvar-te, porque ninguém poderia oferecer uma compensação adequada à cura. Todos tinham encontrado no arrependimento a saúde como dom, e haviam dado em troca o que podiam dar: mais que presentes, lágrimas, que constituem para o Sal­vador, objetos preciosos de amor e esperança. Temos disso bons testemunhos: a pecadora, Pedro, David e os ninivitas: só ofereceram o dom de seus gemidos, se lançaram aos pés do Salvador, e ele acolheu sua conver­são (Romano, o Melode).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.

Arrependei-vos e crede no Evangelho(Mc 1,15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Crer em Jesus é escutar sua Palavra que revela seu amor infinito por nós pecadores. Ser crente significa estar seguros de que o amor existe e que tem o rosto da misericórdia. Crer em Jesus é aderir a seu amor absolutamente gratuito com os pobres como nós. Seguir a Jesus é entregar-se totalmente à sua misericórdia e confiar unicamente nela. Amar a Jesus é simples. Para consegui-lo devemos antes de tudo crer que Ele nos ama de verdade, tal como somos, hoje. Neste ato de fé é possível transbordar o louvor de nosso coração e descansar neste amor infinito. O louvor, a ação de graças e a adoração abrem nosso coração ao dom que Deus nos concede de seu amor misericordioso. O amor divino não fica inativo, se encontra em nós seu espaço é sua liberdade(…) Pela doçura de seu coração compassivo, Jesus nos dá um coração misericordioso. Nada mais concreto, nada mais prático que o verdadeiro amor. Viver do amor de Jesus é pôr-nos a serviço de nossos irmãos mais próximos e nos faz mansos e humildes. Nada há tão exigente como seguir Jesus por este caminho do amor, pois é o caminho da cruz. Mas não se trata de uma carga pesada; basta com que não nos empenhemos em levá-la sozinhos e deixar que Jesus a leve por nós. Para descobrir pelo menos um pouco a misericórdia infinita, único segredo do coração de Jesus, há um lugar preferido onde morar: diante da cruz de Jesus, a seus pés (J.P.van Schoote, Il sacramento della penitenza).

 

 

QUINTA-FEIRA, 05 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 7,7-12 (Eficácia da oração; Regra de ouro) Com uma argumentação séria que, desde o ponto de vista formal, se assemelha à dos rabinos de seu tempo, Jesus ensina a necessidade da oração de petição, declarando a certeza de ser escutada. Dar-se uma contradição com o indicado pouco antes (Mt 6,7s)? Certamente, não; na oração não é preci­so usar de muitas palavras, porque o Pai “conhece”, porém, é necessário assumir a atitude interior do mendigo, quer dizer, saber situar-se na verdade da própria condição humana. Deus mesmo, dá ao que pede e abre ao que chama: de fato, os verbos usados -“se vos dará”, “se vos abrirá”­ tem a forma do que se chama “passivo divino”, ex­pressão semântica para evocar o nome de Deus -impronunciável- sem nomeá-lo de modo explicito (vv. 7s). Se a um filho que pede alimento, seu pai não lhe dará qualquer coisa que lhe pareça em seu aspecto ex­terno, porém, que em substância seja muito diferente (vv. 9s), muito mais Deus, o único bom, o pai mais solíci­to, dará “coisas boas” a todos os que lhe pedem. O Pai escuta, sempre, as súplicas de seus filhos, e dá o que realmente é melhor ao que o invoca. O v.12 recorda um ditado rabínico: “O que é odioso para ti, não faças a teu próximo. Nisto está toda a lei, o resto só é uma explicação”. Jesus o relata em forma positiva, e isto é muito mais exigente: não se trata de um “não fazer”, mas de algo concreto que exige es­tarmos sempre atentos pelo bem dos demais; por isso, muda completamente a vida do que o leva a sério, o leva à verdadeira conversão: descen­trar-se de nós mesmos para que nosso centro sejam os demais.

Et 4,17 (Oração) A jovem hebréia, esposa do rei persa, sabe que foi decretado o extermínio de todos os hebreus deportados no reino. Então a rainha decide expor-se ao peri­go e afrontar o esposo para interceder em favor de seu povo. Antes de ir à presença do rei, em sua an­gústia suplica ao Senhor em penitência. Firme na fé, a rainha reconhece que o verdadeiro Rei é Deus, e professa que Ele é o Único: só dele po­de vir a salvação. Invocando sua ajuda, manifesta a própria solidão (v.17). A inacessível transcendência de Deus parece maior em contraste com a pequenez e debilidade de uma mulher. A realidade, sem dúvida, é outra: o Só é o único auxilio de quem está só. De modo muito significativo, o texto grego utiliza o mesmo adjetivo aplicado primeiro a Deus e logo à rainha (monos/móne). A distância se converte em máxima proximidade. Em sua súplica, Ester, de um lado, recorda ao Se­nhor a eleição de Israel, as promessas feitas aos pais e seu cumprimento (v.171); de outro, confe­ssa o pecado do povo. Pelo favor manifestado no passado e o arrependimento presente, a rainha ousa pe­dir ao Senhor, que sabe tudo (v.175), a salvação de seu povo e, para ela, valentia, sabedoria e auxilio para poder desempenhar eficazmente sua missão de in­tercessora.

 

Salmo 137/138 (Hino de ação de graças) Agradecer e louvar são dois verbos que soam suaves aos ouvidos de Deus. Eles expressam e manifestam o que está no interior do ser humano, que é constantemente enriquecido pela força do Senhor e salvo de tantos perigos por sua mão bondosa. O salmista não agradece somente por sua vida, mas por todo o seu povo. O coração de quem reza e realmente conhece a Deus não é egocêntrico, mas pensa no bem comum. Os seus olhos são purificados: se vê o mal, é para amaldiçoa-lo; se os malvados, é para interceder a fim de que se convertam e renunciem aos ídolos e falsos deuses. Devemos lutar diariamente para que não sejamos contaminados pelo mal que está ao nosso redor. Peçamos a Deus a mesma proteção do salmista, que se sente seguro quando também atravessa grandes perigos. Com o Senhor nenhum mal poderá nos atingir.

Senhor, sei que tudo fazes por mim, basta eu crer no teu amor e na tua fidelidade. Por que às vezes sou tão “cabeça dura”, orgulhoso, e acredito que a salvação vem do poder, do dinheiro dos fortes, dos amigos importantes? Por que me esqueço da tua fidelidade e misericórdia? Não permitas que me afaste de ti, mesmo que caminhe nos perigos, que seja circundado por idólatras; que eu nunca te abandone. E se, por ventura, te abandonar, coloca no meu caminho profetas corajosos que me encorajem e me façam voltar ao reto caminho. Que grave no meu coração as tuas palavras: “o Senhor fará tudo por mim” e que nunca me esqueça de ti, da tua providência. Se cheguei até hoje é porque teu amor nunca me faltou, e sei que nunca me faltará. Amém.

 

 

MEDITATIO: Jesus nos ensina a orar com perseverança confiada, revelando-nos, ao mesmo tempo, como é o coração de Deus e como deve ser o coração do orante. Vai conduzindo-nos à verdade mais simples e mais profunda: Deus é nosso Pai e nos ama com amor eterno, sem arrepender-se, sem reservas. Talvez não creiamos deveras neste amor, ou talvez estejamos já tão acostumados a dizer e ouvir que Deus nos ama, que apenas prestamos atenção a esta realidade desconcertante. Jesus hoje nos convida a entrar em comunhão viva com Deus Pai, e esta é uma experiência que nos pode mudar interiormente: pedi…, buscai…, chamai…, não ficareis defraudados. O Pai, fonte inesgotável de bondade, dará só coisas boas aos que as peçam. Teremos orado já, de verdade, dirigindo-nos a Ele, ou talvez, tenhamos manifestado nossos desejos em voz alta, fazendo-os girar em torno a nós mesmos? Além do mais, eram realmente “coisas boas” as que temos pedido? A oração humilde e simples, a oração de um coração amante, inicia com um ato de contemplação gratuita, tendo fixo o olhar interior no ros­to do Pai bondoso. Esquecemos nossos muitos pedidos e, pouco a pouco, sentimos nascer em nós uma única súplica, que brota de uma exigência realmente necessária. Depois de ter contemplado, na fé, o rosto de Deus, já não poderemos duvidar, nem ignorar, que somos filhos do Pai, impulsionados por seu amor a todo homem, nosso irmão, para brindar essa bondade que, sem cessar, emana da fonte e vem saciar nossa indigência para que transborde para todos e chegue a cada um.

 

ORATIO: Ó Pai, Tu que és o único bom e dás coisas boas aos que te pedem, escuta nossa oração. Antes de tudo, dá-nos um coração simples, humilde, confiante, que saiba abandonar-se, sem pretensões e sem reservas, ao teu amor. Faz-nos pobres de espírito e vem, Tu que és o Rei, dilatar em nós teu reino de paz. Ajuda-nos a suplicar-te, incessantemente, para que, sendo porta-vozes de toda criatura, possamos levar a todos o auxilio de teu amor. Tu dás ao que pede: dá-nos teu Espírito bom. Tu concedes ao que busca que ache: que busquemos sempre teu rosto. Tu abres ao que chama: abre-nos a porta de teu coração, a nós e a todos os homens. Estreitados em teu eterno abraço, não pediremos mais. Ó Pai, faça-se tua vontade na terra como no céu.

 

CONTEMPLATIO: O Evangelho nos assegura que são muitas as causas pelas quais somos escutados. Uma condição: que duas almas se unam em oração; outra, uma fé firme; tam­bém a esmola, a emenda de vida[…]. Convencido de nossas misérias e quero admitir que estamos, completamente, desprovidos das virtu­des das quais temos falado antes. E, sem dúvida, o Senhor promete conceder-nos os bens celestiais; exorta-nos a uma doce violência com nossa insistência. Nada mais longe dele que o desprezo dos importunos: convida-os e louva-os, promete-lhes conceder­, com gosto, tudo. Que nos anime a insistência dos importunos. Sem exigir um grande mérito nem grandes fadi­gas está em nossa mão. Não duvidemos da Palavra do Senhor, que disse: “Todo o que pedir com fé obterá” (João Cassiano).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

Contemplai-o e ficareis radiantes, vosso rosto não se

envergonhará. Se o aflito invoca ao Senhor, ele o escuta” (Sl 33,6s)

 

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Antes de saber como orar, importa muito mais saber como “nunca cansar-se”, nunca desanimar-se, nem depor as armas ante o aparente silêncio de Deus: “Dizia-lhes uma parábola para mostrar-lhes que era preciso orar sempre sem desfalecer (Lc 18,1). Que a intrepidez se apodere de ti como a viúva ante o juiz. Vai-te encontrar Deus em plena noite, chama à porta, grita, suplica e intercede. E se a porta parece fechada, volta a bater, pede até romper-lhe os ouvidos. Será sensível ao teu chamado insistente, pois isto revela tua confiança total nele. Deixa-te levar pela força de tua angústia e o assalto de tua impetuosidade. Em alguns momentos, o Espírito Santo formulará, ele mesmo, as petições no mais intimo de teu coração com gemidos inefáveis. Já ouviste gemer um enfermo preso a um intenso sofrimento? Ninguém pode permanecer insensível e esta queixa, a menos que tenha um coração de pedra. Na oração, Deus espera que ponhas esta nota de violência, de veemência e de súplica para inclinar-se sobre ti, e escutará tua petição. No fundo, não fazes mais que dar alcance ao amor infinito comprimido em seu coração, que espera tua oração para desencadear-se em resposta de ternura e misericórdia. Se soubesses quão atento está Deus ao menor de teus clamores, não deixarias de suplicar por teus irmãos e por ti. Ele se levantaria então e cumularia tua espera muito mais além de tua oração. Se pode esperar tudo de uma pessoa que ora sem cansar-se e que ama a seus irmãos com a ternura mesma de Deus (J. Lafrance, Ora a tu Padre).

 

 

 

 

SEXTA-FEIRA, 06 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 5,20-26 (A nova justiça é superior à antiga) Com a autoridade própria do que é o cumpri­mento da Lei (vv.17s), Jesus exige dos seus discípulos, como condição para entrar no Reino, uma jus­tiça que “supere” a dos escribas e dos fariseus. Jesus pede mais porque dá o que pede: esta é a novidade. Já não se trata de limitar-se a observar atentamente preceitos e evitar proibições, mas começar do coração, onde nascem às motivações pro­fundas de nosso agir. Com o v.21 começa uma série de formulações concretas desta justiça superior, introduzidas pelo passivo divino “se disse”, que significa: “Deus disse”. Por um homicídio alguém tem que submeter-se a um processo, porém, o ges­to violento brota do coração: por isso, irar-se contra o irmão merece idêntico castigo. Uma palavra injuriosa exige pena mais grave: o julgamento diante do Siné­drio. Um insulto mais ofensivo é condenado pelo Su­premo Juiz com o fogo eterno (v.22). Também o culto exige, não só condições externas de pureza, mas a pureza de um coração pacífico e pacificador, que não to­lera as divisões nas relações fraternas e, portanto, deve dar o primeiro passo: a reconciliação com o irmão como premissa para a comunhão com o Senhor (vv.23s). Nos vv.25s se sublinha, não só a necessidade, mas, também, a urgência da reconciliação em uma perspec­tiva escatológica: o outro já não é irmão, mas ad­versário, o acusador que podemos encontrar no caminho da vida: também, com ele, devemos tratar de bus­car um acordo, pois, ao final da vida, nos espera o Justo Juiz, e devemos estar preparados para o julgamento.

 

 

Ez 18,21-28 (Responsabilidade pessoal) O capítulo 18 de Ezequiel marca um passo decisivo no progresso da revelação. Consciente de que a verdadeira dignidade depende de ser “povo eleito”, Israel tem muito vivo o sentido da responsabilidade coleti­va do pecado (cf., por exemplo, Dt 5,9s). Porém, já o pro­feta Jeremias havia indicado que existe, também, um “pecado pessoal”, quer dizer, que cada um é responsável de suas ações, em primeira pessoa (cf. Jr 31,29s). Eze­quiel prossegue nesta mesma linha, superando as afir­mações de Jeremias. Aos desterrados, sem esperança e desalentados, sob o peso de um castigo que pensam que é imerecido, por tratar-se das culpas de seus pais, Ezequiel lhes profeti­za, indicando-lhes que cada um decide, com seu comporta­mento, seu próprio destino (18,1-20); e prossegue anuncian­do que o destino pessoal não é imutável (vv.21-31): o Deus da vida não se compraz na destruição dos homens, mas espera e, em certo sentido, susci­ta a conversão de cada um. O Senhor brinda, a cada um, a possibilidade de uma vida nova e indica o caminho da salvação que, como qualquer caminho, exige esforço e perseverança. Se o “pecador” deve mudar, radicalmente, também o ‘jus­to” deve optar continuamente por agir de acordo com a vontade de Deus; de outro modo, se esquecerá o valor de suas obras justas (v.24): ninguém é “justo” de uma vez por todas, mas que vai se fazendo “justo”, dia após dia, aderindo-se ao Senhor.

 

Sl 129/130 (De profundis – Cântico das subidas) Salmo dos defuntos, rezado nas celebrações fúnebres. Apresenta um canto de esperança e confiança profunda no Senhor. Sempre temos necessidade do conforto vindo da companhia de Deus, mas em especial no momento em que nos aproximamos do Pai, diante de Jesus e iluminados pelo Espírito Santo, somos julgados em decorrência de nossas ações em vida. Não tenho medo, mas tremo diante desse momento. Creio que o melhor modo de nos apresentarmos ante Deus é realizando o bem, e ouvindo em terra testemunhos como: “eu tive fome, tive sede, e você me ajudou”. A caridade encobre muitos pecados. Consolam-me as palavras de João da Cruz: “no fim da vida seremos julgados no amor”. Deus é amor. No Natal, vivemos a experiência da visita de Deus com o Verbo que se fez carne e habita entre nós, para nos amar, perdoar e ensinar o verdadeiro caminho da penitência e da conversão. Temos confiança de que o Senhor não levará em conta o mal realizado muitas vezes sem consciência, mas os nossos desejos de fazer o bem. Este Salmo tem o sabor da solidão. Diante da morte, absolutamente nada nos servirá, somente a nossa consciência e Deus. Tudo o que tivemos aqui na terra desaparece, faz-se nada. Fama, grandeza, dinheiro, força, prepotência, arrogância… O que vale é apenas o bem feito.

Senhor, não leve em conta os meus pecados. Sinto em mim duas forças: uma que me atrai ao bem e outra que me atrai ao mal: não quero fazer o mal, mas acabo fazendo- muitas vezes. Senhor, confio minha vida ao teu amor e a Maria, a quem sempre rezamos para que nos socorra na hora da nossa morte. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

 

 

MEDITATIO: Jesus propõe uma justiça superior à dos escri­bas e fariseus; a primeira está baseada no conhecimen­to profundo da Lei; a segunda, na observância es­crupulosa dos preceitos. É superior, pois, a justiça que não se fundamenta só no saber e no fazer, mas, sobretudo no ser: essa justiça é santidade porque é participação na bondade infinita de Deus. Jesus dirige qualquer ato à sua origem: o coração. “O que se enoja contra seu irmão…” Notemos a in­sistência: irmão! Mata-se o irmão no coração com pensamentos ou sentimentos hostis e, inclusive, com a indiferença. Mata-se, também, com palavras injuriosas ou depreciativas. Hoje está em moda falar violentamente, vulgarmente. Contagiados pelo clima da sociedade em que vivemos, este costume pode penetrar, também, em ambientes considerados cristãos, porém é totalmente anti-evangélico. Escuta-se dizer: “A língua mata mais que a espada”, porém, o pen­samento mata ainda mais que a língua, porque nem todos os pensamentos maus afloram em palavras… Que delicado é o sentido da justiça que Jesus nos inspira! Trata-se da pureza de coração, de santi­dade, que só se pode alcançar com um constante desejo e compromisso de conversão. A justiça verdadeira é a que Jesus proclamou e inaugurou na cruz com seu ato de perdão e de amor sem medida. Estamos cha­mados, continuamente, a este mistério de morte por amor. Os irmãos necessitam ver, em nós, os traços do rosto do amor que perdoa e faz viver.

 

ORATIO: Ó Senhor, tu que és justo em todos os teus caminhos e santo em todas as tuas obras: hoje teu mandato nos desconcerta, porque remove o abismo de nosso coração. Pe­de-nos uma justiça maior – a pureza interior, cumprimen­to da Lei – e nós nos descobrimos sempre injustos demais. Perdoa-nos, Senhor, os pensamentos e sentimentos maus, que não desarraigamos enquanto surgem em nosso interior e que, talvez, irritados pela inveja, se tra­duzem em más palavras, em juízos negativos. A quantos nós temos matado, deste modo, sem dar-nos conta. Nós que, tão facilmente, julgamos qualquer infração da Lei, que, tão facilmente, condenamos ao que se equivoca na vida e, inclusive, reprovamos o excesso de indulgência com o arrependido. Tem piedade de nós, Senhor, vem, cada dia, purificar nosso coração do peca­do que sempre aflora, infetando nossas intenções e ações.

 

CONTEMPLATIO: Para amar aos inimigos, que é no que consiste a perfeição da caridade fraterna, nada nos anima tanto como a agradável consideração da portentosa paciência do “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44,3). Para aprender a amar, o homem não deve se deixar le­var pelos impulsos carnais, e para não sucumbir a es­tes desejos, deve dirigir todo seu afeto à doce paciên­cia da carne de Deus. Descansando assim, mais suave e perfeitamente, no deleite da caridade fraterna, tam­bém abraçará seus inimigos com os braços do verda­deiro amor. E, para que este fogo divino não se apague pela condição das injúrias, contemple, continua­mente, com os olhos da alma, a serena paciência de seu amado Senhor e Salvador (Elredo de Rieval, El espejo de Ia caridad).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Ele resgatará Israel de suas iniqüidades todas(Sl 129/130,8)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL O perdão não deve ser ocasional, algo excepcional, mas que deve integra-se solidamente na existência e ser a expressão habitual das disposições de uns para outros. Deverás começar por dominar a reação de teu coração ante a ofensa recebida – teu rancor, tua obstinação em ter razão – e deverás sentir-se verdadeiramente livre. Porém o perdão dá o passo decisivo ao renunciar ao castigo do outro. Com isso abandona o principio de equivalência, no qual se contrapõe dor a dor, o prejuízo ao prejuízo, a expiação à falta, para entrar no da liberdade interior. Aqui também se restabelece uma ordem, não com passos e medidas rígidas, mas com uma vitória criadora. O coração se alarga […]. Cristo relaciona o perdão dos homens com o de Deus. Este é o primeiro em perdoar, e o homem não é mais que sua criatura. Portanto, o perdão humano surge do perdão divino do Pai. O que perdoa se assemelha ao Pai. Atuando assim, persuades ao outro para que compreenda seu erro; criando com ele a harmonia do perdão, “haverás ganhado a teu irmão”. Então volta a florescer a fraternidade. O que assim pensa estima ao próximo. Dói-lhe saber que seu irmão está em falta, como a Deus lhe dói o pecado, porque afasta dele o homem. E da mesma maneira que Deus deseja redimir ao homem caído, assim o homem instruído por Cristo só deseja que a pessoa que a ofendeu reconheça sua falta e volte assim à comunidade da vida santa. Cristo é o modelo desta atitude. Ele é o perdão vivente. Ele não só perdoou a culpa, mas que há restaurado a verdadeira “justiça”. Há destruído quanto do mais terrível se havia acumulado, carregando sobre suas costas a divida que havia de pesar sobre o pecador […]. Vivemos da obra redentora de Cristo, porém não podemos desfrutar da redenção sem contribuir a ela (R. Guardini, El Señor l, Madrid).

 

 

 

SÁBADO, 07 DE MARÇO DE 2020 – 1ª SEMANA DA QUARESMA

Mateus 5,43-48 (A nova justiça é superior à antiga) Encontramo-nos diante da última antítese, na qual Jesus, com seu ensinamento da Lei, indica seu cumpri­mento. O livro do Levítico manda amar ao próximo e proíbe a vingança e o rancor “contra os filhos de teu povo” (Lv 19,18): por “próximo”, provavelmente, devemos entender ser aquele com o qual se vive e pertence à mes­ma etnia. O acréscimo, “odiarás a teu inimigo”, não pro­vém do Antigo Testamento, nem dos ensinamentos rabí­nicos, porém expressa, de fato, o modo com que o homem, de pé, recebia o mandato: inclusive os essênios e os zelotas contemporâneos a Jesus aceitavam esta in­terpretação. Jesus, pelo contrário, pede uma caridade sem restrições, uma oração que abarque a todos, também aos que nos fazem sofrer. Como pode exigir tanto? O fundamento é o amor gratuito e incondicional que recebemos de um Deus que é Pai e quer filhos semelhantes a Ele no realizar o bem e em procurar o gozo dos demais (vv. 44s). Todos os demais: não se trata de uma universalidade ideal, mas muito concreta; propõe amar aquele que não nos ama, saudar ao que nos nega a saudação… É o que distingue o discípulo de Cristo dos pagãos e peca­dores (vv. 46s); e, superando a tendência humana na­tural e limitada, nos faz tender à perfeição com a mesma medida incomensurável do Pai, que é amor (v.48). Chegados a este ponto, carece de sentido pedir uma recompensa a Deus pela observância tão minuciosa e estrita das normas de justiça: a gratuidade do amor se converte em lei reguladora das relações com Deus e com os homens. Nisto consiste a “justiça superior” que Jesus põe como condição para en­trar no Reino dos Céus (5,20).

 

 

Dt 26,16-19 (Israel, povo de Iahweh) No contexto do Deuteronomio, o presente texto revela caráter jurídico: é uma fórmula de tra­tado, uma ratificação formal da aliança, Por isso, é significativa sua instalação depois do corpo legislativo (cc.11-26) e as bênçãos e maldições seguin­tes à observância ou transgressão dos decretos do Senhor. No plano jurídico, no antigo Israel, o pacto representa a forma mais radical para construir uma comunhão entre si; é criar uma situação onde os contraentes  intercambiam o que tem de mais pessoal e próprio (cf. 1 Sm 18,3;20,8;23,18). Com a presença de testemunhos, e com um documento público, cada um dos lados propõe e aceita um duplo compromisso recíproco. O texto apresenta um particularíssimo típico de “pacto”: não se trata de um pacto entre dois homens, mas entre um Deus e um povo, entre o Deus fiel e Israel. É um pacto “teológico” no qual os contraentes estão em distinto plano. Em sua simplicidade, a passagem tem um claro significado didático, e manifesta a experiência que Israel tem de Deus: Deus não é um ser absoluto, distante, inacessível; Deus é comunhão, é vontade de salvação para o povo que ele elegeu. É Ele quem toma a iniciativa da eleição, por puro amor gratuito com o povo (cf. Dt 4,37). É Ele quem dá, a Israel, leis e mandatos que constituem um caminho de vida e um modelo de sabedoria para os indivíduos (d. Bar 4,1-4). Acolher a graça e corresponder, por meio da obediência à voz do Senhor, é a res­posta fiel que Deus pede a Israel.

 

Salmo 118/119 (Elogio da lei divina) Esta é uma oração sem fim. Provavelmente é obra não só de uma pessoa, mas de várias, que elogiam por meio de muitos artifícios literários a Palavra de Deus, a lei do Senhor, como fundamento de todo o agir humano. É um Salmo belíssimo que deve ser “saboreado” lentamente, um versículo por dia. Assim, teremos por mais de meio ano assegurado a nossa meditação. Deus se comunica conosco não para nos oprimir ou dominar, mas para ensinar-nos os caminhos mais fáceis da felicidade. Felizes os que vivem a Palavra de Deus e a ensina aos outros. Medite dia a dia este Salmo e sua vida, sem dúvida, será diferente, sendo fortalecida não por palavras humanas, mas pela Palavra de Deus.

Senhor, não quero fugir de tua Palavra, nem desprezá-la. Quero amá-la como Lâmpada para os meus pés e luz no meu caminho. “Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho. Jurei, e o confirmo guardar tuas justas normas. Meu sofrimento passa dos limites, Senhor, dá-me vida segundo tua palavra. Senhor, aceita as ofertas dos meus lábios, ensina-me tuas normas. Minha vida está sempre em perigo, mas não esqueço a tua lei. Os ímpios me armaram laços, mas não me desviei de teus preceitos. Minha herança para sempre são teus testemunhos, são esses a alegria do meu coração. Inclinei meu coração a cumprir teus estatutos, desde agora e para sempre” (Sl 119,105-112).

 MEDITATIO: Deus selou com seu povo um pacto de aliança recíproca, pedindo-lhe observar suas leis e normas de todo coração. Jesus nos mostra a meta desta obediência: chegar a ser filhos semelhantes ao Pai, perfeitos como ele é perfeito. Porém, a perfeição de Deus não é uma inalterável serenidade, uma pureza ascé­tica. Cristo nos revela que é misericórdia com todos, gratuidade universal, bondade que supera qualquer medida humana. Portanto, tender à perfeição sig­nifica conformar nosso coração com o do Pai, que derrama bens sobre todos sem fazer distinção entre bons e maus, justos e injustos, agradecidos e ingratos. Jesus nos manifesta um amor similar com todos, mas não de um modo geral, como uma benevo­lência seráfica com a humanidade. Disse-nos: “Amai a vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem”; agir com caridade com o que está nos fazendo o mau. Isto é amar de modo perfeito, oferecendo o dom maior, o perdão. Assim nos tem amado Cristo desde a cruz, deixando-nos, não só o exemplo, mas, também a graça necessária para conformar-nos a Ele. Não nos limitemos ao que nos é co-natural, sendo benevolentes só com os que nos manifestam benevolên­cia: isto faz, também, de modo natural, quem ainda não conhece o rosto do Pai. A nós foi manifestado; foi conce­dida uma graça super abundante: não fiquemos em questões de mérito, não busquemos recompensas. O amor de Deus derramado em nossos corações é a mais esplêndida e imerecida recompensa.

 

ORATIO – Jesus, Filho de Deus vivo, Tu nos mostraste, em teu rosto, o rosto do Pai: faz que, fitando a ti, que não te envergonhas de chamar-nos “irmãos”, aprenda­mos a viver como verdadeiros filhos, obedientes à vo­ntade de Deus. Senhor, tu que nos revelaste que o Pai dá seu amor a todos: faz que, chegando à Fonte de toda bon­dade, possamos levar, ao mundo, a água viva do Espírito que tudo renova. Ó Cristo, Tu que pediste, desde a cruz, perdão para to­dos nós: faz que, acolhendo a graça divina, apren­damos a amar, com coração gratuito, a todos os hom­ens e, mais que a nenhum irmão, o que nos tenha feito mal. Então, ao olhar-nos, o Pai poderá nos reconhecer, verdadeiramente, como filhos seus. Seja este nosso único desejo: tender à comunhão plena, ter um só coração e uma só alma.

 

CONTEMPLATIO – Quem ama a todos se salvará, sem duvida. Quem é amado por todos não se salvará por isso. “Deus é amor.” Quem se relaciona com alguém, sem amor, vende a Deus, vende sua felicidade. Só se dá felicidade amando. Qual é a beleza natural da alma? Amar a Deus. E quanto? “Com todo o coração, com toda a alma, com toda a men­te, com todas as forças” (Lc 10,27). Na mesma ordem de beleza tem que ser o amor ao próximo. Quanto? Até a morte. Se não o fazes, quem sofrerá o dano? Não é Deus, talvez, um pouco, o próximo, porém, tu serás quem sofre um dano enorme. De fato, o ser privado de uma beleza ou perfeição natural não é igualmente daninho às criaturas. Se a rosa deixa de ter sua cor natural ou seu aroma, o dano que eu receberia seria de menor importância, ainda que eu goste destas sensações; mas, para a rosa e seria um dano terrível, porque se vê privada de sua própria e natural beleza (Guigo I., Meditationes, lI, 23,89,465).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Sede misericordiosos, como vosso Pai é miseri­cordioso” (Lc 6,36)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL Sejas bendito, ó eterno Deus. Que cessem toda vingança, toda incitação ao castigo ou a recompensa. Os delitos superaram toda medida, todo entendimento. Já há mártires demais. Não pese seus sofrimentos na balança de tua justiça, Senhor, e não deixes que estes carniceiros se banqueteiem conosco. Que se vinguem de outro modo. Dá aos verdugos, aos delatores, traidores e a todos os homens malvados o valor, a força espiritual dos outros, sua humildade, dignidade, sua continua luta interior e sua esperança invencível, o sorriso capaz de apagar as lágrimas, seu amor, seus corações destroçados, porém firmes e confiantes ante a morte, sim, até na hora da mais extrema debilidade […]. Que tudo isto se deposite ante ti, Senhor, para o perdão dos pecados como resgate para que triunfe a justiça; que se leve em conta do bem e no do mal. Que permaneçamos na recordação de nossos inimigos não como suas vitimas, nem como um pesadelo, nem como espectros que seguem seus passos, mas como apoio em sua luta por destruir o furor de suas paixões criminais. Não se lhe pediremos nada mais. E quando tudo isto acabe, concede-nos viver como homens entre os homens e que a paz reine sobre nossa pobre terra. Paz para os homens de boa vontade e para todos demais (oración anônima encontrada em Auschwitz-Birkenau).

 

 

 

 AUTORES: Giorgio Zevini y Pier Giordano Cabra

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