LECTIO DIVINA NA 24ª SEMANA COMUM ANO A 2020

LECTIO DIVINA NA 24ª SEMANA COMUM ANO A 2020

COMUNIDADE CATÓLICA PAZ E BEM

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SEGUNDA-FEIRA, 14 DE SETEMBRO DE 2020- EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

João 3,13-17 (O encontro com Nicodemos) – Os versículos 13 a 17, do capítulo três, do Evangelho de São João, fazem parte do extenso discurso que responde à pergunta de Nicodemos e no qual se manifesta a necessidade da fé para ter a vida eterna e escapar do julgamento de condenação. Jesus Cristo, o Filho do homem (v.13), procede do seio do Pai; é o que «veio dali», o único que viu a Deus e pode comunicar o seu projeto de amor, cuja realização se encontra no dom do Filho unigênito. Jesus se compara à serpente de bron­ze do Antigo Testamento (cf. Nm 21,4-9), afirmando que o pleno cumpri­mento de tudo quanto aconteceu no deserto terá lugar quando Ele for levantado, quer dizer, na cruz (v.14), para a salvação do mundo (v.17). Todo o que o olhe com fé, quer dizer, todo o que crê que o Cristo crucificado é o Filho de Deus, o Salvador, terá a vida eterna. O homem, ao acolher, nele, o dom do amor do Pai, passa da morte do pecado à vida eterna. Sobre o fundo deste texto aparece o quarto canto do «Servo de YAHWEH» (cf. Is 52,13ss), onde voltamos encontrar, unidos, os verbos «levantar» e «glorificar». Entende-se, portanto, que o evangelista São João quer apresentar a cruz, ponto extremo da ignomínia, como cume da glória.

 

 

Nm 21,4b-9 (A serpente de bronze) – O autor deste livro narra nos ca­pítulos 20 e 21 as últimas peripécias dos judeus no deserto, antes da entrada na terra prometida. O povo murmura porque não tem o que deseja; se rebe­la, não suporta o cansaço do caminho (v.2) por causa da fome e da sede (v.5). Cego por tais moléstias, não consegue reconhecer o poder de Deus, já não tem fé no Senhor; mais ainda, consideram-lhe como alguém que causa danos à vida. Deus manifesta seu juízo de castigo com respeito ao povo, enviando serpentes venenosas (v.6). Frente à experiência da morte, os judeus reconhecem o peca­do cometido, afastando-se de Deus, e pedem perdão. E como a serpente, com sua mordedura, resultava letal, assim, agora, sua imagem de bronze posta em cima de uma haste se torna motivo de salvação física para todo o que tivesse sido mordido. O Evangelho de João reconhecerá na serpente de bronze levantada por Moisés no deserto a prefiguração profética do levantamento do Filho do homem crucificado.

 

Fl 2,6-11 (Manter a unidade na humildade) – Trata-se de um magnífico hino cristológico pré-paulino. Complexo em cada uma das expressões que o constituem, pode entender-se a partir da expressão em grego harpagmós (v.6), que literalmente significa “objeto de rapina”. Que significado pode ter a afirmação: Cristo, que é de condição (morphé) divina, não consi­dera sua igualdade a Deus um objeto de rapina? Subtende-se, aqui, a comparação com Adão, que, não sendo de tal condição, quis roubá-la. Paulo propõe à comunidade de Filipos o exemplo do novo Adão, Cristo. Este aceitou reparar, mediante a humildade e a obediên­cia até a morte mais ignominiosa, a soberba desobediência do primeiro Adão, que precipitou a todo o gê­nero humano no pecado e na morte (cf. Rm 5,18s). Cristo se esvaziou de si mesmo e tomou a condição de es­cravo, que é a nossa (v.7), até as últimas conse­quências. Ao seu livre aniquilamento responde a ação de Deus (vv.9-11), que não só o “exaltou”, mas “superexaltou”. Agora todo o universo é cha­mado a aclamar que Jesus é Kyrios, Senhor, quer dizer, Deus, e, esta confissão é para a glória do Pai.

 

Sl 77/78 (As lições da história de Israel)– Pela extensão deste Salmo, é preciso lê-lo com calma e dividi-lo em pequenas partes. Trata-se dum cântico histórico e profético, longa ladainha em que o salmista, com sua sabedoria, nos conduz através dos séculos, contando-nos as maravilhas do Senhor. O amor de Deus por nós vem desde antes de nosso nascimento, por isso é importante observar a história da humanidade, desde Abraã. É preciso que o passado seja relembrado e faça uma ponte entre o ontem, o hoje e o amanhã para percebermos que, apesar do tempo, o amor de Deus por nós continua intocável e irrevogável. Este Salmo é rico em louvor e ação de graças. O salmista nos faz uma belíssima homilia apologética e didática por meio da qual visualizamos um “filme” repleto de memórias agradáveis, mas também de momentos de desolação, quando a infidelidade ao amor de Deus ocorre. No Novo Testamento esta fidelidade ao amor de Deus será selada conosco através da aliança nova com o sangue de Jesus.

Senhor, hoje quero só prometer-te ler lentamente todo este Salmo e meditá-lo, aplicando-o na minha vida. Quero fazer a memória do teu amor a minha vida. Quantas coisas belas aconteceram e eu não soube apreciá-las nem agradecer-te por isso. Vivemos, Senhor, num mundo do momento presente, estamos quase totalmente desligados do nosso ontem e não nos preocuparmos com o amanhã. É triste ver pessoas que não se lembram da tua presença e do amor passado. Dá-me uma memória viva para te louvar e agradecer, a memória da minha família, a memória da minha comunidade e, especialmente, a memória do meu ser cristão. Senhor, vou ler e rezar atentamente este Salmo e a cada versículo quero me perguntar: o que a Palavra diz? O que a Palavra de Deus me diz? E como posso colocar em prática esta Palavra de Deus? Amém.

 

 

MEDITATIO: Cada vez que lemos a Palavra de Deus, cresce a certeza de que Jesus dá pleno cumprimento a história do povo hebreu e à nossa história. Jesus é aquele que desceu do céu, o que conhece o Pai, o que está em íntima união com Ele («O Pai e eu so­mos um»: Jo 10,30), e foi enviado pelo Pai para revelar o mistério salvífico, o mistério de amor que se realizará com sua morte na cruz. Jesus crucificado é a manifestação máxima da glória de Deus. Por isso, a cruz se converte em símbolo de vitória, dom, salvação, amor. Tudo que possamos entender com a palavra «cruz» (dor, injustiça, perseguição, mor­te) é insondável ao olho humano. Sem dúvida, aos olhos da fé aparece como meio de configuração com o que nos amou primeiro. Assim, já não vemos o sofrimento como um fim em si mesmo, mas que se converte em par­ticipação no mistério de Deus, caminho que nos con­duz à salvação. Só crendo em Cristo crucificado, quer dizer, se nos abrimos à acolhida do mistério de Deus que se encar­na e dá a vida por toda criatura; só se nos situamos frente à existência, com humildade, livres no deixar-nos amar para ser, por sua vez, dom para os irmãos, seremos capazes de receber a salvação: participaremos na vida divina de amor. Celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz significa tomar consciência do amor de Deus Pai, que não duvidou em enviar-nos Cristo Jesus: o Filho que, despojado de seu esplendor divino e feito semelhante a nós, deu sua vida na cruz por todo homem, crente ou incrédulo (cf. Fl 2,6-11). A cruz se torna espelho, onde, refletindo nossa imagem, poderemos encontrar o real significado da vida, as portas da espe­rança, o lugar da comunhão renovada com Deus.

ORATIO: Ó cruz, inefável amor de Deus e glória do céu. Cruz, salvação eterna; cruz, medo dos ímpios. Ó cruz, apoio dos justos, luz dos cristãos, por ti Deus encarnado se fez escravo na terra; por meio de ti foi feito, em Deus, rei no céu; por ti saiu à verdadeira luz, a noite maldita foi vencida. Tu fizeste fundir-se para os crentes o jazigo das nações; és tu a alma da paz que une os homens em Cristo mediador.  És escada pela qual o homem sobe ao céu. Sê sempre para nós, teus fiéis, coluna e âncora; rege nossa morada. Que na cruz se consolide nossa fé, que nela seja preparada nossa coroa. (Paulino de Nola.)

 

CONTEMPLATIO: Elevando, pois, a Deus, impulsos do ardor seráfi­co de seus desejos e transformado, por sua terna compaixão, naquele que, por causa de sua extremada caridade, qui­s ser crucificado: certa manhã de um dia próximo à festa da Exaltação da Santa Cruz, enquanto orava em um dos flancos do monte, via descer do mais alto do céu um serafim que tinha seis asas tão brancas como resplandecentes. Em voo rapidíssimo avançou para o lugar onde se encontrava o varão de Deus, detendo-se no ar. Apareceu, então, entre as asas, a imagem de um homem crucificado, cujas mãos e pés es­tavam estendidos a modo de cruz e elevados a ela. Duas asas alçavam sobre a cabeça, duas se estendiam para voar e as outras duas restantes cobriam todo seu corpo. Ante tal aparição, ficou cheio de estupor, o santo, e experimentou, em seu coração, um gozo mesclado de dor. Alegrava-se, de fato, com aquele gracioso olhar com que se via contemplado por Cristo sob a imagem de um serafim; mas, ao mesmo tempo, o vê-lo cravado à cruz era como uma espada de dor compassiva que atra­vessava sua alma. Estava sumamente admirado ante uma visão tão misteriosa, sabendo que a dor da paixão de nenhum modo podia harmonizar-se com a felicidade imortal de um sera­fim. Por fim, o Senhor lhe deu a entender que aquela visão lhe havia sido apresentada assim, pela divina Providência, para que o amigo de Cristo soubesse, de antemão, que havia de ser transformado totalmente na imagem de Cristo crucificado, não pelo martírio da carne, mas pelo incêndio de seu espírito. Assim aconteceu, porque, ao desaparecer a visão, deixou, em seu coração, um ardor maravilhoso e não foi menos mara­vilhosa a imagem dos sinais que imprimiu em sua carne (“Lenda maior», em Fontes franciscanas).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«O Filho do homem tem que ser levantado na cruz, para que

todo o que nele crer tenha vida eterna» (cf. Jo 3,14-15)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Jesus conquista aos homens pela cruz, que se converte no centro de atração, de salvação para toda a humanidade. Quem não se rende a Cristo crucificado e não crê nele não pode obter a salvação. O homem é redimido no sinal bendito da cruz de Cristo: nesse sinal é batizado, confirmado, ab­solvido. O primeiro sinal que a Igreja traça sobre o recém-nasci­do e o último com o qual conforta e abençoa ao moribundo é sempre o santo sinal da cruz. Não se trata de um gesto simbólico, mas de uma grande realidade. A vida cristã nasce da cruz de seu Senhor, o cristão é ­gerado pelo Crucificado, e só aderindo-se à cruz de seu Senhor, confiando nos méritos de sua paixão, pode salvar-se. Agora bem, a fé em Cristo crucificado deve fazer-nos dar outro passo. O cristão, redimido pela cruz, deve convencer-se de que sua própria vida deve estar marcada – e não só de uma ma­neira simbólica, pela cruz do Senhor, ou seja, que deve levar sua marca viva. Se Jesus levou a cruz e nela se imolou, quem queira ser seu discípulo não pode eleger outro caminho: é o único que conduz à salvação porque é o único que nos configura com Cristo morto e ressuscitado. A consideração da cruz nunca deve ser separada da consideração da ressurreição, que é sua consequência e seu epílogo supremo. O cristão não foi redimido por um mor­to, mas por um Ressuscitado da morte na cruz; por isso, o fato de que Jesus levara a cruz deve ser confortado sempre com o pensamento do Cristo crucificado e pelo do Cristo ressuscitado (G. di S. M. Madalena, Infimità divina, Roma).

 

 

 

 

 

TERÇA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 2020- FESTA DE NOSSA SENHORA DAS DORES (Mãe dos aflitos

 

1) Oração

Ó Deus, quando o vosso Filho foi exaltado,

quisestes que sua Mãe estivesse ao pé, junto à cruz, sofrendo com ele.

Dai à vossa Igreja, unida a Maria na paixão de Cristo,

participar da ressurreição do Senhor.

Que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho  (Jo 19,25-27)

 

Naquele tempo, 25Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. 27Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.

 

3) Reflexão   João 19,25-27

*  Hoje, festa de Nossa Senhora das Dores, o evangelho do dia traz a passagem em que Maria, a mãe de Jesus, e o discípulo amado se encontram no calvário diante da Cruz. A Mãe de Jesus aparece duas vezes no evangelho de João: no começo, nas bodas de Caná (Jo 2,1-5), e no fim, ao pé da Cruz (Jo 19,25-27). Estes pois episódios, exclusivos do evangelho de João, têm um valor simbólico muito profundo. O evangelho de João, comparado com os outros três evangelhos é como quem tira raio-X onde os outros três só tiram fotografia. O raio-X da fé ajuda a descobrir dimensões nos acontecimentos que os olhos comuns não chegam a perceber. O evangelho de João, além de descrever os fatos, revela a dimensão simbólica que neles existe. Assim, nos dois casos, em Caná e na Cruz, a Mãe de Jesus representa simbolicamente o Antigo Testamento que aguarda a chegada do Novo Testamento e, nos dois casos, ela contribui para que o Novo chegue. Maria aparece como o elo entre o que havia antes e o que virá depois. Em Caná, ela simboliza o AT, percebe os limites do Antigo e toma a iniciativa para que o Novo possa chegar. Ela vai falar ao Filho: “Eles não tem mais vinho!” (Jo 2,3). E no Calvário? Vejamos:

*  João 19, 25As mulheres e o Discípulo Amado junto à Cruz

Assim diz o Evangelho: “A mãe de Jesus, a irmã da mãe dele, Maria de Cléofas, e Maria Madalena estavam junto à cruz”. A “fotografia” mostra a mãe junto do filho, em pé. Mulher forte, que não se deixa abater. “Stabat Mater Dolorosa!” Ela é uma presença silenciosa que apóia o filho na sua entrega até à morte, e morte de cruz (Flp 2,8). Além disso, o “raio-X” da fé mostra como se realiza a passagem do AT para o NT. Como em Caná, a Mãe de Jesus representa o AT. O Discípulo Amado representa o NT, a comunidade que cresceu ao redor de Jesus. É o filho que nasceu do AT, a nova humanidade que se forma a partir da vivência do Evangelho do Reino. No fim do primeiro século, alguns cristãos achavam que o AT já não era necessário. De fato, no começo do segundo século, Márcion recusou todo o AT e ficou só com uma parte do NT. Por isso, muitos queriam saber qual a vontade de Jesus a este respeito.

*  João 19,26-28 O Testamento ou a Vontade de Jesus

As palavras de Jesus são significativas. Vendo sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis aí o seu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí a sua mãe.” Os Antigo e o Novo Testamento devem caminhar juntos. A pedido de Jesus, o discípulo amado, o filho, o NT, recebe a Mãe, o AT, em sua casa. É na casa do Discípulo Amado, na comunidade cristã, que se descobre o sentido pleno do AT. O Novo não se entende sem o Antigo, nem o Antigo é completo sem o Novo. Santo Agostinho dizia: “Novum in vetere latet, Vetus in Novo patet”. (O Novo está escondido no Antigo. O Antigo desabrocha no Novo). O Novo sem o Antigo seria um prédio sem fundamento. E o Antigo sem o Novo seria uma árvore frutífera que não chegou a dar fruto.

*  Maria no Novo Testamento

De Maria se fala pouco no NT, e ela mesma fala menos ainda. Maria é a Mãe do silêncio. A Bíblia conservou apenas sete palavras de Maria. Cada uma destas sete palavras é como uma janela que permite olhar para dentro da casa de Maria e descobrir como ela se relacionava com Deus. A chave para entender tudo isso é dada por Lucas nesta frase: “Felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.” (Lc 11,27-28)

1ª Palavra: “Como pode ser isso se eu não conheço homem algum!” (Lc 1,34)

2ª Palavra: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38)

3ª Palavra: “Minha alma louva o Senhor, exulta meu espírito em Deus meu Salvador!” (Lc 1,46-55)

4ª Palavra: “Meu filho porque nos fez isso? Teu pai e eu, aflitos, te procurávamos” (Lc 2,48)

5º Palavra: “Eles não tem mais vinho!” (Jo 2,3)

6ª Palavra: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (Jo 2,5)

7ª Palavra:  O silêncio ao pé da Cruz, mais eloqüente que mil palavras! (Jo 19,25-27)

 

 

4) Para um confronto pessoal

 

1) Maria ao pé da Cruz. Mulher forte, silenciosa. Como é minha devoção a Maria, a mãe de Jesus?

2) Na Pietà de Miguelangelo, Maria aparece bem jovem, mais jovem que o próprio filho crucificado, quando já devia ter no mínimo em torno de 50 anos. Perguntado porque tinha esculpido o rosto da Maria tão jovem, Miguelangelo respondeu: “As pessoas apaixonadas por Deus não envelhecem nunca”. Apaixonada por Deus! Existe paixão por Deus em mim?

 

5) Oração final

 

Quão grande é, Senhor, vossa bondade,

que reservastes para os que vos temem

e com que tratais aos que se refugiam em vós,

aos olhos de todos. (Sl 30,20)

 

QUARTA-FEIRA, 16 DE SETEMBRO DE 2020-

Lucas 7,31-35 (Julgamento de Jesus sobre sua geração) É o próprio Jesus que propõe o nome da parábola narrada (cf. Mt 13,18). Esta indicação apresenta-o como «o semeador», mas, segundo a teologia de Lucas, todo pregador pode ser considerado um semeador. A interpretação que segue no texto insiste mais nos ouvintes da Palavra. O acento, ao qual se refere à parábola, recai na sorte que corre a semente. O contraste se dá entre a semente que perece e a que dá fruto, entre a Palavra do Mestre proclamada aos judeus, que a recusaram, e a mesma Palavra proclamada aos discípulos, que se converteram em ouvintes crentes. A parábola começa da mesma maneira nos três sinóticos (cf. Mc 4,3; Mt 13,3), mas, ao acrescentar sua semente» no v.5, é provável que Lucas haja querido recordar que a semente é o verdadero tema da parábola, ou seja, a Palavra de Deus, que tem importância capital na teologia de Lucas. Este fala de semente «pisoteada», talvez para sugerir que alguns judeus ou pagãos só sentiam desprezo para com o Evangelho. Por outra parte, segundo Lucas, Jesus «exclamou» (v.8), o que torna mais enfático e profético que o simples «disse» de Mc 4,9.             À pergunta dos discípulos sobre o significado do discurso parabólico, que tem uma notável concordância entre Mateus e Lucas, Jesus responde: «A vós foi concedido compreender os segredos do Reino de Deus».                A expressão remete a Dn 2,28ss, onde Deus aparece como o Revelador dos mistérios, e indica a compreensão tanto dos «desígnios divinos» de salvação do mundo como o modo de levá-los a cabo. «Aos demais», prossegue Jesus em Lucas, estes mistérios são enigmáticos. O evangelista concentra, pois, a atenção na diferente acolhida reservada à Palavra de Deus, tal como aparece significada pelos diferentes terrenos. Segundo v.13, não são tanto as tribulações e perseguições como a tentação o que conduza a defecção.        Esta formulação deve ser atribuída à maior atenção outorgada por Lucas à conduta moral cotidiana (cf. 9,23).    A parábola, dirigida à multidão, convida-a a ouvir a Palavra. A explicação, destinada aos discípulos, sublinha melhor os diferentes resultados da pregação da Palavra. Mas, a susbtância do ensinamento é a mesma.

 

 

1 Tm 3,14-16 (A Igreja e o mistério da piedade) – Paulo recomenda uma vez mais a Timoteo a fidelidade ao preceito do Senhor. A que preceito? É seguro que se refere à «fidelidade» ao belo testemunho de Cristo ante Pôncio Pilatos; até sua manifestação escatológica, que já é visível em sua obra redentora no tempo. Ante o pensamento da manifestação gloriosa de Cristo, brota espontânea do coração de Paulo a doxologia dos vv.15ss. A insistência de Paulo em dar a Deus Pai os títulos reais e de «imortalidade» parece uma nota voluntariamente polêmica contra os monarcas orientais e os imperadores romanos, que se atribuiam tais títulos. Para designar a segunda vinda de Cristo, em vez do termo comum de parusia ou «revelação», Paulo prefere empregar, nas cartas pastorais, a palavra «manifestação», que se utiliza também para expressar a obra redentora (cf.2Tm 1,10;Tt 2,11; 3,4).

 

Sl 110/111 (Elogio das obras divinas) – O salmista é sempre um homem de muita fé. Mas, será que algum Salmo foi escrito por uma figura feminina? Sim, houve participação das mulheres: muitas das que aparecem na Bíblia louvavam a Deus de maneira mais admirável que os homens. Temos, por exemplo, os cânticos de Débora, de Judith, da Virgem Maria e de tantas mulheres santas que estão espalhadas pelos livros sagrados da Bíblia. oração o salmista quer louvar a Deus publicamente, na comunidade, no culto litúrgico. É um testemunho maravilhoso de ação de graças e de louvor por tudo o que ele e sua família têm recebido do Senhor. A melhor forma de nos admirarmos com a grandeza de Deus é por meio de testemunhos. Como seria bom se os tivéssemos em todas as liturgias, a fim de contar e cantar as maravilhas do Senhor!

Senhor, também eu quero cantar as tuas maravilhas, os dons que em Jesus tu nos dá. Todos os dias nós participamos da celebração da mais bela memória do teu amor, que é a celebração eucarística, em que fazemos a memória de Jesus, rezamos os Salmos na Liturgia das Horas e caminhamos na história de ontem, mas atualizada no nosso hoje. Tu sempre caminhas conosco em todos os tempos. Celebramos a memória viva do nosso passado, das pessoas que se foram, mas ficam conosco por meio de seus exemplos. Celebramos os santos, nossos irmãos na fé, que viveram com intensidade a tua Palavra: celebramos os novos mártires que a cada dia regam com sangue e lágrimas as terras áridas onde há conflitos religiosos. Senhor, encontro na minha vida de cada dia tua passagem silenciosa ou forte, que me chama a viver com fidelidade a tua Palavra. Dá-me olhos para ver-te, ouvidos para escutar-te e língua para louvar-te por tudo e em todos. Amém.

 

MEDITATIO: É essencial que o anúncio da Palavra, tema íntimo para Lucas, chegue a todos e da forma mais simples. A proposta está feita com uma grande esperança e um grande otimismo. A escuta da Palavra de Deus, isto é, da revelação de seu projeto histórico, é acolhida e adesão interior. Porém, isso é dom de Deus, como a própria Palavra. Os discípulos receberam esse dom porque o amor livre e gratuito de Deus tomou a iniciativa (cf.10,23;12,32). Esse dom não é uma possessão privada que devamos defender, mas uma tarefa que fundamenta a responsabilidade do anúncio público e universal (cf. Lc 8,16-18). Por isso o terceiro evangelista amortece a oposição com os outros e reduz a citação de Isaias (Is 6,9: «Olham, mas não veem, e ouvem, mas não entendem») à metade. Com isso deixam Israel, e aos outros em geral, ainda uma possibilidade de escuta e de conversão. Para Lucas e sua comunidade cristã, o tempo que vivem é tempo de anúncio, não de discriminações apocalípticas. Frente aos interrogantes de uma comunidade já sacudida pelos fracassos da missão, pelas defecções e os retrasos dos crentes, subsiste sempre e, para todos, à responsabilidade da escuta da Palavra. Além das grandes provas, estão as pequenas dificuldades, as ilusões e as pequenas preocupações de cada dia, que põem em crise a fidelidade dos discípulos. Além das «riquezas» que sufocam a Palavra, estão os bens materiais e o afã de possuir, assim como as distintas preguiças, os infantilismos e as perturbações que fazem presa à pessoa até o ponto de impedir seu caminho de amadurecimento cristão.

 

ORATIO: Concede-nos, ó Pai e Deus da vida, manter-nos disponíveis a teu plano de salvação e amor. Concede-nos acolher tua Palavra de verdade e de paz, após havê-la reconhecido nos acontecimentos e nas pessoas que encontramos em nossa vida diária. E faz que, guardando-a no coração, seguindo o exemplo da Virgem, nossa Mãe (cf. Lc 2,19), possamos dar frutos que se assemelhem aos «pensamentos e sentimentos de Cristo» e, portanto, de caridade com o próximo de cada dia.

 

CONTEMPLATIO: Por que somos tão preguiçosos e lentos que não nos apressamos, uma vez abandonada, por fim, toda malícia, com simplicidade e pureza de coração, a receber os oráculos de Deus e a receber deles o sentido de Cristo, desde o momento em que ouvimos que se encontra neles o Reino de Deus? Seguramente, cada um deve captar segundo suas próprias forças os oráculos de Deus que possa e, se é idôneo para um alimento sólido, receber os oráculos de Deus que constituem aquela sabedoria do que fala o apóstolo entre os perfeitos (1 Cor 2,6). Em troca, quem não seja ainda idôneo para ela, que receba os oráculos de Deus onde não há de reconhecer outra coisa, mas a Cristo Jesus, e este crucificado (1 Cor 2,2). Quem nem sequer possa isto, que receba os oráculos de Deus de modo que se sirva de leite e não de alimento sólido (Hb 5,12). Se ainda é débil na fé, colha os oráculos de Deus nas hortaliças (Rm 14,29). É suficiente que todos nós saibamos, igualmente, que os oráculos de Deus são «oráculos castos» e «planta provada com o fogo puro da terra, purificada sete vezes» (Sl 11,7); ou seja, que conservemos os oráculos divinos na castidade e na santidade do coração e do corpo (Orígenes, cit. en La lectio divina nella vita religiosa, Magnano).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Maria, por sua parte, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração» (Lc 2,19)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Para poder ser transfigurados a semelhança do Filho amado é preciso primeiro escutá-lo. Da Palavra é de onde brota em nós sua luz (cf. 2 Cor 4,4). Isto aparece já em nossas relações humanas: se passamos uns junto aos outros sem dizer-nos nada: é um inferno. Mas se do coração dirigimos uma palavra a outro ser que foi criado por sua vez à imagem de Deus, então se converte em luz, é uma palavra que põe em comunhão. Procedamos, portanto, de uma maneira resoluta para com aquele que nos confia sua Palavra e quer transfigurar-nos a sua luz. Peçamos-lhe um coração nobre, que tenha a mesma nobreza do coração de Deus: um coração dilatado, grande, largo, à medida de seu amor, em vez de permanecer em nossa mesquinhez e em nossa pequenez. Peçamos-lhe um coração generoso como o do Pai, transbordante de vida para nós e oferecido por completo aos homens. Por último, e talvez esta seja a coisa mais difícil para nós, ainda que o seja possível a Deus, peçamos-lhe a constância, a força para resistir: a força do Espírito. Sem ela não podemos nada, absolutamente nada, mas com a força do Espírito, seja qual seja o abismo de nossa debilidade, poderemos manter-nos firmes. Arraigados nesse Amor que é nosso Deus, poderemos dar o fruto verdadeiramente único do Espírito: o fruto do amor (J. Corbon, La gioia del Padre).

 

 

 

QUINTA-FEIRA, 17 DE SETEMBRO DE 2020

Lucas 7,36-50 (A pecadora perdoada e que ama)– Antes já haviam acusado Jesus de comer com os pecadores (cf. v.34). Agora Jesus é mostrado como o Messias misericordioso que recebe uma homenagem de uma pecadora desconhecida. A ação tem lugar enquanto Jesus está sentado à mesa na casa de um fariseu que o havia convidado, coisa que ja havia sucedido em outras ocasiões análogas. No geral, os comensais comiam estendidos em seus divãs. Isso explica a facilidade com a qual a pecadora pode acercar-se aos pés de Jesus, chorando sobre eles e secando-os com seus cabelos. Seu gesto e as palavras de Jesus fazem supor que esta mulher já o conhecia e que já havia recebido seu perdão em abundância. As lágrimas derramadas, então, antes da unção seriam, pois, mais de alegria do que de arrependimento. O perfume era algo de uso comum na Palestina; contudo, era mais usual ungir a cabeça e não os pés (como sucede en Mc 14,3). É possível que a pecadora arrependida estivesse desejando honrar a Jesus com uma unção, porém as circunstâncias só a permitiram ungir-lhe os pés. O fariseu deixa supor em sua reflexão que não considera Jesus um profeta; sem dúvida, o Mestre manifesta o dom de clarividência respondendo a sua objeção antes, inclusive, que o fariseu a manifeste. A resposta de Jesus toma a forma de uma parábola que explica, em essência, que amará mais ao prestamista o devedor ao qual se o perdoou uma maior dívida. Esta mulher tem mostrado muito amor, porque, talvez antes, se a havia perdoado muito. Segundo o v.50 foi sua fé a que a salvou. Isto se refere claramente ao perdão que recebeu.

 

 

1 Tm 4,12-16 (Falsos doutores; Conselhos a Timóteo) – Paulo segue desenvolvendo outros conselhos a fim de que Timóteo exerça sua missão de governo com o exemplo de sua própria vida (v.12), tomando forças da graça de sua própria consagração episcopal (v.14). A salvação de um apóstolo está condicionada à dos outros (v.16): salvar-se-á a si mesmo se salva aos outros. A referência ao caráter tímido e reservado de Timóteo não exonera a Paulo de recordar-lhe que, quanto mais se esforce em ser modelo em toda virtude para os líderes, manifestando a todos seu «aproveitamento» (v.15), tanto mais fácil será se ganhar o respeito dos outros. O v.14 faz referência à doutrina do que hoje chamamos sacramento da ordem: aparece, em primeiro lugar, um rito, a «imposição das mãos». Este rito, usado já no Antigo Testamento para expressar a transmissão de poderes e de cargos {cf. Dt 34,9), tem no Novo Testamento, além dos significados de bênção, de cura e de outorgamento do Espírito Santo a pessoa já batizada, o de consagração de determinados indivíduos para certas funções públicas (cf. At 6,6;14,23;13,3). Em segundo lugar, aparece uma intervenção profética não precisa (ver 1,18), o outorgamento de um «carisma», ou seja, de um dom gratuito permanente («que possuis»), ainda que possa debilitar-se e inclusive extinguir-se, se se descuida e não se alimenta. Em nossa linguagem teológica o chamamos hoje «graça sacramental», que é a que nos fornece desde o interior as ajudas necessárias para cumprir os deveres de nosso próprio estado.

 

Salmo 110/111 (Elogio das obras divinas) – (ver dia anterior)

 

 

MEDITATIO: Neste capítulo, Jesus, após haver curado o servo do centurião e ressuscitado o filho da viúva de Naim, realiza esta cura existencial, perdoando uma pecadora desconhecida. O fariseu está preocupado pela impureza legal a que se expõe Jesus deixando-se tocar por uma mulher notoriamente pecadora. Jesus, por calar e consentir compromete sua reputação de homem de Deus, de profeta reconhecido pelo povo (cf.7,16). A pergunta de Jesus a Simão interrompe o curso das suspeitas. Implica-o na trama da parábola vivente que se desenvolve em sua casa. Ele é, evidentemente, o devedor que ama pouco, porque dá a entender que pouco foi perdoado. O diálogo que segue não deixa escapatória ao fariseu, que estava, a princípio, tão seguro de sua justiça. Os gestos de boas vindas e veneração da mulher com Jesus, e que o fariseu se considerava dispensado, o fizeram passar à parte da ofensa, e a pecadora à parte da misericórdia. Para Lucas, existe um íntimo vínculo entre o perdão dos pecados e o amor generoso. O espírito de profecia, recomendado por Paulo a Timóteo em seu ministério a serviço da igreja de Éfeso, deve ser cultivado com humildade. Esta nos liberta da ilusão farisaica do que se esquece que é pecador e considera os outros como piores que ele; porque é a fé que gera o perdão salvador, quer dizer, a plena comunhão de vida que é a paz de Deus. E é a capacidade de perdoar de um modo constante e profundo que guarda o coração humano de toda vã segurança.

 

ORATIO: Concede-nos, ó Pai de misericórdia, a sabedoria do coração, para que possamos reconhecer as visitas de teu perdão, inclusive nos momentos lamentáveis e embaraçosos de nossa jornada e de nossa vida, e para que, por meio do compromisso com as necessárias acolhidas e a superações de nossos gostos pessoais, possamos experimentar aquele êxodo de nós mesmos que é o único que pode abrir-nos à luz de tua presença e à força de teu amor misericordioso. Uma luz e uma força que são as únicas que podem mudar o coração do homem e fazê-lo misericordioso com seus irmãos, em especial com os mais necessitados, seguindo as pegadas de Cristo Jesus, teu Filho e nosso Senhor.

 

CONTEMPLATIO: Mas o vigor da conversão é o ardor da caridade derramada em nossos corações com a visita do Espírito. Está escrito deste mesmo Espírito que Ele é a remissão dos pecados. De fato, quando se digna visitar o coração dos justos, os purifica poderosamente de toda a impureza de seus pecados, porque, apenas se derrama na alma, suscita nela de uma maneira inefável o ódio ao pecado e o amor às virtudes. Imediatamente faz com que esta odeie o que amava e ame ardentemente aquilo que tinha horror, e anseia intensamente por ambas, pois se recorda de haver amado, para sua condenação, o mal que odeia e haver odiado o bem que ama. Quem se atreverá a dizer, de fato, que um homem, ainda que esteja carregado com o peso de todo tipo de pecados, pode perecer se visitado pela graça do Espírito Santo? Assim, pois dado que o pecador não se converte, senão no momento em que é iluminado pelo Espírito Santo, podemos concluir que, do mesmo modo que foge da morte do pecado execrando-o, assim vive também da justiça, à qual se converte desejando-a?        É acolhido de imediato na vida após a morte sim, na conversão, recebe tal fogo de amor que consome na alma toda a ferrugem que o pecado havia acumulado nela. Essa é a razão de que diga à mulher pecadora: «Seus numerosos pecados lhe são perdoados porque demonstrou muito amor» (Lc 7,47) (Gregório Magno).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Seus numerosos pecados lhe são perdoados porque ela demonstrou muito amou» (Lc 7,47)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – O episódio narrado no Evangelho nos revela uma visão diferente das raízes da moral. A moral que informa a consciência dos comensais fariseus é unilateral: a fonte da moral é Deus; nós, os justos, somos seus testemunhos e tutores; os pecadores estão excluídos e são imundos. «Se este fosse profeta, saberia que classe de mulher é a que o está tocando, pois na realidade é uma pecadora» (Le 7,39). A nova moral, destinada a informar a consciência depois de Jesus Cristo, nasce da necessidade de encontro e integração entre a luz e as trevas, a graça e o pecado. Um encontro integrador que traça um caminho para um heroísmo novo, que já não é o heroísmo do super-homem, do justo, mas a recusa da heteronomia do mal, da projeção do mal e do pecado sobre o crivo expiatório. O caminho cristão tende para a integração da sombra de uma maneira decidida e livre, abandonado deliberadamente todo dualismo e a lógica do terceiro excluído. Neste episódio, nem Jesus é o misericordioso nem os fariseus são os puritanos duros, porém Jesus é o único que não tem ligada a mente a esquemas preconcebidos: ver com olho virginal tanto aos fariseus como à pecadora. Convida aos primeiros a sacrificar seus esquemas teóricos e a mirar com outros olhos a realidade viva; responde com respeitosa veneração à busca de amor perseguida pela pecadora anônima, oferecendo-o o perdão e a força de perdoar-se a si mesma: «Tens amado muito, muito te foi perdoado» [cf. Lc 7,47) (G. Vannucci, La vita senza fine, Cernusco)

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SEXTA-FEIRA, 18 DE SETEMBRO DE 2020

Lucas 8,1-3 (A companhia feminina de Jesus) – Os apóstolos, sem dúvida, acompanham Jesus em sua vida itinerante, porém é a presença de mulheres o que constitui o centro de atenção deste fragmento, sobretudo nos vv.2ss, que são próprios de Lucas. O v.1 sugere que Jesus evangelizava de maneira sistemática as cidades e o campo. Para Lucas, Deus ma­nifesta já a presença do Reino em seu empenho ativo de salvar à humanidade. Deus opera agora no ministério de Jesus e realizará seu Reino no futuro. Porém, no fragmento que nos ocupa, o evangelista propõe-se, sobretudo indicar o papel que tiveram as mulheres na tarefa da evangelização. «Iam com ele» junto com os doze. Mais adiante dirá Lucas, de maneira insistente, que as mulheres que estavam presentes no Calvário «haviam acompanhado» a Jesus durante seu ministério (23,49.55). O v.2 fala de pessoas, às quais, Jesus “havia liberta­do de maus espíritos e curado de enfermidades”, como se disse já em 6,18 e 7,21. Os evangelistas sabiam distinguir entre exorcismos e curas; a este respeito, uns tex­tos se apresentam claros e outros menos. É possível que, no caso de Maria Madalena, o número se­te, expressão de plenitude, se refira a um grande caso de possessão, de possessão repetida (cf Lc 11,26). Magdala, povo do qual procedia quase com seguridade esta Maria, é um nome que não aparece explicitamente no No­vo Testamento, porém que pode ser identificado com Ta­riquea, citado com frequência pelo historiador Flavio Josefo. De Joana e Susana carecemos de outras fontes de in­formação. Se Cusa e sua mulher eram pessoas objeto de consideração na cristandade primitiva, se compreen­de sua menção por parte de Lucas (8,3). Todas estas mulheres – nos diz o evangelista- “assistiam» a Jesus e aos doze com seus bens. Se usa o mesmo verbo grego para falar das mulheres que estiveram presentes na crucifixão: “Que haviam seguido a Jesus e lhe haviam assistido quando estava na Galileia» (Mc 15,41).

 

 

1 Tm 6,2c-12 (Retrato do verdadeiro e do falso doutor)–Paulo adverte de modo decidido que pelo fato dos amos serem cristãos, em vez de pa­gãos, os servos não devem cair na tentação de amá-los menos por serem «irmãos» na fé (cf.v.2); de fato, não pelo fato de que o Evangelho valorize indistintamente a todos os homens, de modo que já não haja «nem escravo nem livre» (cf G13,28), que tenha abolido as diferenças de papel e de posição na sociedade. Mais ainda, lhes hão de servir melhor e com mais amor por serem irmãos e amados por Deus e, portanto, estarem dotados de maior sensibilidade para compreender o benefício que prestam aos escravos com seu serviço aos mesmos amos. O problema da dignidade e dos direitos dos escravos fica traçado assim pelo ensinamento de Paulo em outro plano: não só os amos, mas também os servos procuram seus «benefícios» nos homens, e não só benefícios econômicos. A referência posterior ao com­promisso de «ensinar e recomendar» a todos a verdade (cf v.2) traz de novo à mente de Paulo a sombra dos falsos mestres, que se separam com seu ensinamento das «saudáveis palavras» de Cristo (v.3), transmitidas pelo ensinamento apostólico, as únicas que são aptas pa­ra incrementar uma autêntica vida segundo «os ensinamentos da religião» (v.3; cf Tt 1,1). Falsos mestres marcados, sobretudo pela cobiça e a soberba (cf vv. 4-10), que são as duas molas secretas que lhes induzem a apresen­tar-se como mestres improvisados. O apóstolo responde com fina ironia a estes falsos mestres dizendo-lhes que a religião genuína representa um grande proveito porque ensina, a saber, contentar-se com o que cada um tem (cf v.6). O amor ao dinheiro (v.10) acaba também com a tranquilidade do espírito, criando um verdadeiro martírio de preocupações e de provas para a fé. Em contraposição aos falsos mestres, Timóteo deve tentar conseguir, e o apóstolo lhe anima a isso, as virtudes teologias e as morais da honradez com Deus e os homens, da religiosidade sincera, da paciência junto com a doçura (v.11), a exemplo de Cristo, que pode dizer de si mesmo: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29).

 

Salmo 48/49 (O nada das riquezas) – Sabemos que um dia todos nós morreremos. Entretanto, preferimos não pensar na morte e vivemos como se ela nunca fosse chegar até nós. O salmista convida todos os povos para essa reflexão de sabedoria. Esta meditação de estilo sapiencial sobe a morte nos ajuda a compreender que todos nós teremos o mesmo fim. Vale a pena viver na ganância e nas lutas para termos sempre mais, se um dia tudo será deixado aqui? Vale a pena viver no ódio, se um dia todos nós morreremos? Pensar na morte é uma boa maneira de nos tornarmos mais humildes.

Ó Senhor, liberta-me de tanta pretensão! Que eu seja humilde e, pensando na morte, possa viver fazendo o bem a todos que encontro na minha vida. Que nunca fira ninguém e nunca o ódio possa me deixar triste e me dominar. Só o amor vale: “Onde não há amor, coloque amor e receberá amor”, diz João da Cruz. Amém.

 

 

MEDITATIO: Lucas se detêm para apresentar-nos à pequena co­munidade itinerante que acompanhava a Jesus em seus deslocamentos apostólicos, uma comunidade que serve de modelo para a vida da Igreja à qual vai dirigido o Evangelho. Para os costumes rabínicos da época, era impensável esta menção das mulheres no sé­quito de Jesus com os doze. Se estes últimos foram eleitos por Jesus mediante um chamado por pa­lavra, aquelas foram eleitas com um gesto de boas-vindas e misericórdia. A situação de segregação e de marginalização social e religiosa à qual estava relegada a mulher no ambiente sociopolítico de tempos de Jesus foi superada por Cristo com o anúncio que fez do Reino de Deus por povos e cidades e se faz visível na pequena comuni­dade formada em torno a sua pessoa. A cobiça do dinheiro, recordada na primeira leitu­ra, encontra na comunhão de bens da primeira comunidade cristã o caminho para a libertação de todo medo e prevenção.

 

ORATIO: Concede-nos, ó Pai de graça e bondade, abrir-nos à presença de teu Reino, iniciado na terra com a en­carnação de teu Filho, a fim de que, libertados de todo pre­conceito e medo, possam formar comunidades cris­tãs de irmãos capazes de travar relações novas, caracterizadas pela liberdade e a solidariedade no serviço. Concede-nos do mesmo modo que nosso coração não ce­gue pelo orgulho nem seja cativado pela febre dos sofismas e das questões ociosas, como nos adverte o apóstolo. Afasta da Igreja de teu Filho, santa, ainda que pecadora, as invejas, litígios, maledicências, más suspeitas, os conflitos originados pelos homens de mente corrompida e carentes de verdade. Sobretudo, liberta-nos da avidez e da sede de ganâncias. Faz-nos experimentar a ebriedade desta soberana li­berdade vivida e ensinada por Cristo e pela comunidade apostólica das origens.

CONTEMPLATIO: A Igreja primitiva era pobre, mas livre. A perseguição não tirava a liberdade de seu regimento, e tampouco o despojo violento de seus bens prejudicava em nada a sua verdadeira liberdade. Não tinha vassalagem, nem proteção, e menos ainda tutela ou advocacia: sob estas pouco confiáveis e traidoras denominações se introduz a servidão dos bens eclesiásticos. Desde aquela hora lhe foi impossível à Igreja manter suas antigas máximas sobre o adquirido, ao governo e ao uso de seus bens materiais. E o esquecido destas máximas, que tiravam a tais bens tudo o que tem de tentador e de corruptor, a conduz ao extremo perigo. [Uma destas máximas] era que o clero não usasse os bens ecle­siásticos, senão por pura necessidade para seu próprio sus­tento, empregando a sobra em obras piedosas, espe­cialmente para aliviar os indigentes. O necessário estava assegurado de fato aos apóstolos com o direito a viver nas casas dos fieis que lhes hospedavam que ao acolhê-los recebiam bastante mais do que lhes davam. O apóstolo Paulo informou a seu discípulo Timóteo desta doutrina quando lhe escreveu: «A religião é certamente de grande proveito quando um se contenta com o necessário, pois nada temos trazido ao mundo e nada po­deremos levar dele. Temos de contentar-nos com ter alimento e veste» (1 Tm 6,6-8). Deste modo, a en­trada no clero equivalia, nos bons tempos da Igreja, a uma profissão de pobreza evangélica (A. Ros­mini, Las cinco llagas de Ia Santa Iglesia).

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

“Os que haviam acedido à fé tinham um só coração e uma só alma” (At 4,32)

                                                                              

PARA A LEITURA ESPIRITUAL – Lucas, Mateus e Marcos empregam uma mesma palavra para qualificar a presença destas mulheres: o verbo diakonêin, que significa «servir» (de onde procedem os termos «diaconia» e «diácono»). Lucas acrescenta: «Assistiam-lhe com seus bens». Isso po­de significar que colocavam suas riquezas a disposição de Jesus. Sem dúvida, frequentemente, este verbo grego tem um sentido mais amplo: trata-se de tudo o que tem alguém a sua disposição para servir aos outros. Creio que seria mais exato traduzir: «Assistiam-lhe com tudo o que tinham». Parece, pois, que houve de fato um ministério de mulheres no Evangelho, ordenado à pessoa de Jesus, e que Jesus não o rejeitou. A estas mulheres, às quais curou e salvou, as acolheu junto a ele. Porém não foi sempre assim: quando o endemoninhado que curou na terra dos gerasenos lhe pediu ficar com ele, Je­sus lhe disse que fosse dar testemunho de sua cura em sua cidade, a dizer o que Deus havia feito por ele (Mc 5,18-20). Não quis receber dele esse «serviço». Converteu-lhe em um envia­do, num apóstolo de vanguarda, num instrumento do Reino. Sem dúvida, Jesus aceitou que Maria de Magdala e muitas outras o seguissem e servissem. E a presença destas, cuja maior parte estava constituída por antigas enfermas, pecadoras, possuídas pelo demônio, devia provocar problemas e talvez provocar escândalo. Se Jesus as quis, devia ter ra­zões bem precisas. E para a mulher, é muito importante tentar esclarecê-las. Seguindo o fio do Evangelho, podemos perceber que o serviço destas mulheres se levou de modo paralelo à revelação do mistério de Cristo. Assim é: em cada etapa da revelação deste único mistério encontramos a uma mulher disponível para Deus (G. Blaquiere, La gracia de ser mujer, Palabra).

 

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SÁBADO, 19 DE SETEMBRO DE 2020

Lucas 8,4-15 (Parábola do semeador; Por que Jesus fala em parábolas; Explicação da parábola do semeador) É o próprio Jesus quem propõe o nome da parábola (cf. Mt 13,18). Esta indicação lhe apre­senta como «o semeador», mas, segundo a teologia de Lucas, todo pregador pode ser considerado semeador. A interpretação que segue no texto in­siste mais nos ouvintes da Palavra. O acento, ao qual se refere à parábola, recai na sorte da semente. O contraste se dá entre a semente que perece e a que dá fruto, entre a Palavra do Mestre proclamada aos judeus, que a rejeitaram, e a própria Palavra proclamada aos discípulos, que se converteram em ouvintes crentes. A parábola inicia do mesmo modo nos três sinópticos (cf. Mc 4,3; Mt 13,3), porém, ao acrescentar «sua semente» no v.5, é provável que Lucas tenha querido recor­dar que a semente é o verdadeiro tema da parábola, ou seja, a Palavra de Deus, que tem uma importância capi­tal na teologia de Lucas. Este fala de semente «piso­teada”, talvez para sugerir que alguns judeus ou pagãos só sentiam desprezo pelo Evangelho. De outro lado, segundo Lucas, Jesus «exclamou» (v.8), o que resulta mais enfático e profético que o simples «disse» de Mc 4,9. À pergunta dos discípulos sobre o significado do discurso parabólico, que tem uma notável concordância entre Mateus e Lucas, Jesus responde: «A vós vos foi concedido compreender os segredos do Reino de Deus». A expressão remete a Dn 2,28ss, onde Deus aparece como o Revelador dos mistérios, e indica a compreensão tanto dos «desígnios divinos» de salvação do mundo como o modo de levá-los a cabo. «Aos demais», prossegue Jesus em Lucas, estes mistérios são enigmá­ticos.O evangelista concentra, pois, a atenção na diferente acolhida reservada à Palavra de Deus, tal como aparece significada pelos diferentes terrenos. Segundo o v.13, não são tanto as tribulações ou perseguições como a tentação o que conduz à defecção. Esta fórmula deve ser atribuída à maior atenção outor­gada por Lucas à conduta moral cotidiana (cf 9,23). A parábola, dirigida à multidão, convida esta a escutar a Palavra. A explicação, destinada aos discípulos, sublinha bem mais os distintos resultados da pregação. Mas, a substância do ensinamento é a mesma.

 

 

1 Tm 6,13-16 (Solene admoestação a Timóteo) – Paulo recomenda uma vez mais a Timóteo a fideli­dade ao preceito do Senhor. Paulo refere à «fidelidade» ao belo testemunho de Cristo ante Pôncio Pilatos; até sua manifestação escatológica, que já é visível em sua obra redentora no tempo. Ante o pensamento da manifestação gloriosa de Cristo, brota espontânea do coração de Paulo a doxologia dos vv.15ss. A insistência de Paulo em dar a Deus Pai os títulos reais e de «imortalidade» parece uma nota voluntariamente polêmica contra os monarcas orientais e os imperadores romanos, que se atri­buíam tais títulos. Para indicar a 2ª vinda de Cristo, em vez de parusia ou «revelação», Paulo emprega, nas cartas pastorais, a palavra «mani­festação», usada também para expressar a obra redentora (cf.2 Tm 1,10;Tt 2,11;3,4).

 

Salmo 99/100 (Convite ao louvor) – Apesar de breve, este Salmo representa uma importante descrição da situação do povo e de cada um de nós. É um cântico de procissão, de caminheiro e de peregrino. A nossa história é um constante êxodo: partimos do coração de Deus e seguimos em peregrinação por esta terra até o nosso retorno para os braços do Pai, lugar da paz infinita. Que fique claro que isso não tem relação com teorias e ideologias acerca da reencarnação, que seria uma purificação dolorosa por aquilo que não foi cumprido. O nosso Deus é bem diferente disso: oferece-nos tempo, nos orienta com sua Palavra, nos convida à conversão para que possamos realizar a nossa missão hoje. O mistério da ressurreição é algo belamente real, baseada na Palavra do Senhor, e não uma invenção humana. Viver é alegria, cântico e peregrinação; é caminho, é encontro e amor.

Senhor, sei que estou a caminho, vim de Ti e vou voltar a Ti com alegria. É neste meu lento, fatigoso e alegre caminhar que te convido a me abrir as portas para que eu possa entrar no novo tempo, na nova Jerusalém, na nova vida que é Jesus. Ele que veio para nos dizer que o Pai procura adoradores em espírito e verdade. Chama-me com força e coragem para que eu nunca diga não ao teu amor, purifica a minha mente e coração, e que eu nunca deixe, de forma alguma, influenciar por ideias que não sejam alicerçadas sobre a tua Palavra e sobre o teu amor. Quero ter tua presença e celebrar a tua grandeza e cantar os teus louvores. Amém

MEDITATIO: É importante que o anúncio da Palavra, tema entranhável para Lucas, chegue a todos e da forma mais simples. A proposta está feita com uma grande espe­rança e um grande otimismo. A escuta da Palavra de Deus, isto é, da revelação de seu projeto histó­rico, é acolhida e adesão interior. Porém isso é dom de Deus, como a própria Palavra. Os discípulos têm rece­bido esse dom porque o amor livre e gratuito de Deus tomou a iniciativa (cf 10,23;12,32). Esse dom não é uma posse privada que devamos defender, mas uma tarefa que fundamenta a responsabilidade do anúncio público e universal (cf Lc 8,16-18). Por isso o terceiro evangelista abranda a oposição com os outros e reduz a citação de Isaías (Is 6,9: «Olham, porém não vêem, ouvem, porém não entendem») à metade. Com isso deixa a Israel, e aos outros em geral, ainda uma possibilidade de escuta e de conversão. Para Lucas e sua comunidade cristã, o tempo que vivem é tempo de anúncio, não de discriminações apocalípticas. Frente aos interrogantes de uma comunidade já sacudida pelos fracassos da missão, pelas defecções e os atrasos dos crentes, subsiste sempre e para todos à res­ponsabilidade da escuta da Palavra. Além das grandes provas, há as pequenas dificuldades, as ilusões e as pequenas preocupações de cada dia, que põem em crise a fidelidade dos dis­cípulos. Além das «riquezas» que afogam a Palavra, estão os bens materiais e o afã de posse, assim como as distintas preguiças, os infantilismos e os fastios que fazem presa à pessoa até o ponto de impedir seu caminho de maduração cristã.

 

ORATIO: Concede-nos, oh! Pai e Deus da vida, manter-nos disponíveis a teu plano de salvação e amor. Concede-nos acolher tua Palavra de verdade e de paz, após tê-la re­conhecido nos acontecimentos e nas pessoas que encontramos em nossa vida diária. E faz que, guardando-a no coração, seguindo o exemplo da Virgem, nossa Mãe (cf. Lc 2,19), possamos dar frutos que se assimilem aos «pensamentos e sentimentos de Cristo» e, portanto, de caridade com o próximo de cada dia.

 

CONTEMPLATIO: Por que somos tão preguiçosos e lentos que não nos apressamos, uma vez abandonada, por fim, toda malícia, com simplicidade e pureza de coração, a receber os oráculos de Deus e a receber deles o sentido de Cristo, desde o momento em que ouvimos que se encontra neles o Rei­no de Deus? Certamente, cada um deve captar, segundo suas próprias forças, os oráculos de Deus que possa e, se é idôneo para um alimento sólido, receber os oráculos de Deus que constituem aquela sabedoria da qual fala o apóstolo entre os perfeitos (1 Cor 2,6). Ao contrário, quem não seja ainda idôneo para ela, que receba os orá­culos de Deus onde não há de reconhecer outra coisa senão a Cristo Jesus, e este crucificado (1 Cor 2,2). Quem nem se­quer possa isto, que receba os oráculos de Deus de modo que se sirva de leite e não de alimento sólido (Hb 5,12). Se ainda é fraco na fé, manca os oráculos de Deus nas hortaliças (Rm 14,21). É suficiente que to­dos nós saibamos, igualmente, que os oráculos de Deus são «oráculos castos» e «prata provada com o fogo puro da terra, purificada sete vezes» (Sl 11,7); ou seja, que conser­vemos os oráculos divinos na castidade e na santidade do coração e do corpo (Orígenes, cito en La lectio divi­na nella vita religiosa, Magnano).

 

AÇÃO: Repete com frequência e vive hoje a Palavra:

«Maria, por sua parte, guardava todas estas coisas,

meditando-as em seu coração» (Lc 2,19)

 

PARA A LEITURA ESPIRITUAL–Para serem transfigurados a semelhança do Filho amado é preciso, primeiro, escutar-lhe. Da Palavra de Deus é de onde brota em nós sua luz (cf.2 Cor 4,4). Isto aparece já em nossas relações humanas: se passamos uns junto aos outros sem dizer-nos nada: é um inferno. Porém se do coração dirigimos uma palavra a outro ser que foi criado a sua vez a imagem de Deus, então se converte em luz, é uma palavra que põe em comunhão […]. Procedamos, pois de um modo firme para aquele que nos confia sua Palavra e quer transfigurar-nos a sua luz. Peçamos-lhe um coração nobre, que tenha a mesma nobreza que o coração de Deus: um coração dilatado, grande, largo, à medida de seu amor, em vez de permanecer em nossa mesquinhez e em nossa pequenez. Peçamos-lhe um coração generoso como o do Pai, transbordante de vida para nós e oferecido por completo aos homens. Por último, e talvez esta seja a coisa mais difícil para nós, ainda que seja possível a Deus, peçamos-lhe a constância, a força para resistir: a força do Espírito. Sem ela não podemos nada, absolutamente nada, porém com a força do Espírito, seja qual for o abismo de nossa debilidade, poderemos manter-nos firmes. Arraigados nesse Amor que é nosso Deus, poderemos dar o fruto verdadeiramente único do Espírito: o fruto do amor (J.Corbon, La gioia del Padre).

 

 

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