22º Domingo do Tempo Comum (Estudo Bíblico ano C)
Lucas 14,1.7-14
“Pois todo aquele que se exalta, será humilhado; e quem se humilha, será exaltado”
Autor: Pe. Fidel Oñoro, cjm
Introdução
Um bom mestre sempre está ensinando. Como temos vindo notando em nossa leitura do evangelho de Lucas nos domingos anteriores, Jesus encontrava em diversas circunstancias da vida cotidiana que encontrava em seu caminho, uma forma para transmitir um ensinamento. Do começo ao fim o Reino é assim: sua aprendizagem parte e conduz ao mais profundo da vida.
O importante é que no interior de cada uma das esferas da vida humana, Jesus vai introduzindo a semente do Reino que gera uma verdadeira revolução no modo de pensar e nos hábitos que seguem regras de comportamento já, previamente, estabelecidas pela cultura, em seus diversos âmbitos sociais, econômicos, políticos e religiosos. Jesus leva a repensar a vida, não com simples frases de efeito, mas com análises profundos.
Jesus entra na vida cotidiana já configurada, por cada pessoa e sua sociedade, questiona-a e propõe novos rumos. E nesta dinâmica faz emergir de dentro das consciências desnudas a força renovadora do Reino de Deus, mão criadora de seu Pai em meio do mundo, e do impulso demolidor do Espírito de amor que modela a vida segundo o querer de Deus.
Acolhamos a Palavra do Evangelho que nos apresenta Lucas 14,1.7-14
Agoraaprofundemos.
1. O contexto
Jesus está em uma refeição. Ali cada uma de suas ações está sendo retratada pela lente pública, sobretudo por aqueles que já o consideram uma pessoa incômoda: “E aconteceu que, tendo ido, em dia de sábado na casa de um dos chefes dos fariseus para comer, eles estavam lhe observando” (Lc 14,1).
Em torno da refeição em comum se vive os grandes valores do relacionamento humano. Não é, simplesmente, o fato “funcional” de alimentar-se; na refeição compartilhada se exerce a hospitalidade, se tece a amizade, se experimenta a graça do compartilhar, se abre o coração.
Os grandes impulsos internos do amor sempre passam pela mesa. Quão importante é, no mundo bíblico, um convite a refeição! Como disse o feliz orante do Sl 23,6: “Tu me preparas uma mesa”.
Jesus fez da mesa um espaço de evangelização e de construção da comunidade.
Jesus não só compartilhou a mesa:
- com os pecadores (7,34; 15,1-2; 19,1-10);
- com todo o povo (9,12-17);
- com seus amigos e discípulos (10,38-42; 22,14-38; 24,28-30);
Mas, também, com os fariseus, seus adversários, que tanto o observavam e o criticavam. No caso que nos ocupa hoje, o de uma ceia com fariseus, notamos que, com esta, já é a terceira vez que Jesus o faz (ver 7,36;11,37).
Portanto, é a primeira vez que vemos Jesus em uma circunstancia destas. O que chama a atenção é que, desta vez, está na casa de um representante da mais alta sociedade judia de seu tempo, seu anfitrião é “um dos chefes dos fariseus”. Jesus também evangeliza estes “altos níveis” da sociedade entrando até o refeitório de suas próprias casas.
A isto se soma o fato de que a cena ocorre em um dia de “sábado”, justamente na ocasião em que os milagres de Jesus se tornaram mais polêmicos para os fariseus (ver a cura de um homem em 6,6 e de uma mulher em 13,14, ambas no interior de uma sinagoga); e, como era de esperar, faz, ali, diante deles, um novo gesto de misericórdia com um enfermo de hidropisia (14,2-6).
2. Jesus passa de “observado” a “observador”.
Depois da cura do hidrópico e da lição sobre a misericórdia que não de pode ser adiada (14,2-5), deixando seu auditório sem argumentos para a crítica (14,6), Jesus passa de observado a observador.
A partir da análise de dois pontos importantes do mundo da etiqueta nos banquetes: a distribuição dos lugares na mesa e a lista dos convidados, Jesus tira duas grandes lições para a vida de seus discípulos. Tudo é posto sob uma nova lente. O problema não está no externo, mas na motivação interna: a honra.
2.1. A etiqueta na distribuição dos lugares na mesa (14,7-11)
Vejamos as três partes desta seção da passagem evangélica: (1) uma observação; (2) uma parábola e (3) a aplicação.
(1) Uma observação: “Notando como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (14,7ª).
Que há por trás deste comportamento? Uma das necessidades humanas é a estima. Isto se percebe na aspiração ao reconhecimento.
O problema é que se busca por meio da competência: ser superiores aos demais, ter posições mais altas, estar mais adiante. Este último é o que Jesus vê nos comensais daquela mesa: querem lugares mais visíveis (à cabeceira ou no centro), os que indicam superioridade.
Isto que acontece nas refeições formais, também acontece na convivência humana e em todos os estratos sociais. Não é fácil reconhecer nas outras pessoas nossos mesmos direitos e mesmo valor.
Nesta feira das vaidades, aparece o desejo da afirmação pessoal mediante a comparação: o nosso é superior ou melhor que o dos outros. Desta comparação provém um critério errado de valorização.
(2) Uma parábola: “Quando fores convidado…” (14,8).
Em uma parábola, Jesus propõe uma regra de comportamento diferente para os comensais: “Quando fores convidado a uma boda, não te ponhas no primeiro lugar… não seja que… e então vás a ocupar envergonhado o último lugar” (14,8-10).
Sua frase provém da sabedoria popular: quem busca os primeiros lugares de maneira direta ou muito depressa pode terminar recebendo mais humilhação que honra; não há que correr riscos.
Sem dúvida, por trás disto pode acontecer que não tenha verdadeira humildade, mas uma estratégia para sair-se com a sua. Ou melhor, desta forma a honra pode ser mais evidente ante os demais convidados à hora em que o anfitrião o faça ascender de lugar.
Visto que o que Jesus quer não é só recordar uma regra de sabedoria, mas ir até o fundo das atitudes, é que não se deve perder de vista a idéia principal: deixar ao patrão da casa a tarefa da designação dos lugares. Os lugares não dependem dos méritos que cremos ter, mas da gratuidade do anfitrião.
(3) Aplicação: “Todo o que se exalta será humilhado;e o que se humilha será exaltado”(14,11)
Por em crise este tipo de comportamento
Toda busca de honra fracassa diante de Deus; e mais, tem um efeito contrario. Deus não está disposto a admitir as hierarquias de honra que nós, os homens, inventamos. Tudo o que fazemos para dar brilho à nossa honra, prestigio e esplendor carece de valor na presença de Deus.
Por isso, neste tipo de coisas, não vale a pena gastar energias porque pertence ao mundo da vaidade, que no fundo é vazio, uma forma de egoísmo pela exaltação do próprio eu. É Deus, não nossa ambição, quem nos dá o valor e a importância que temos.
Sob o olhar de Deus
Dai que o verdadeiro lugar do homem é o que ocupa ante Deus e não o que pode ganhar esforçando-se em sua própria promoção.
O mesmo vale para as relações entre nós. Há que evitar a autopromoção e agir desde a humildade, não corresponde a nós, mas aos outros a promoção.
Um principio de vida evangélico
A última palavra sobre o valor das pessoas é Deus quem tem. Isto já havia dito Maria no Magníficat: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (1,52).
Todas estas atitudes provem do fundo do coração, por isso se retoma como conclusão da parábola da oração do fariseu e o publicano: “Todo o que se exalte será humilhado; e o que se humilhe será exaltado” (18,14).
A lição se voltará a escutar na última ceia, onde, ironicamente, os discípulos vão disputar postos; Jesus lhes responderá com um chamado ao serviço humilde, do qual Ele é o melhor exemplo: “Quem é maior, o que está à mesa ou o que serve? Não é aquele que está à mesa? Pois eu estou no meio …” (22,27).
2.2. A etiqueta na elaboração da lista dos convidados (14,12-14)
“Disse também ao que lhe havia convidado” (14,12). Após falar a todos, a partir do comportamento dos comensais, Jesus, agora, se dirige ao anfitrião do banquete, para falar-lhe de uma tarefa que era própria dele: fazer a lista dos convidados. Em seu ensinamento, Jesus faz um paralelo:
(1) Em uma primeira coluna coloca o que “não” se deve fazer (“quando deres um banquete ou uma ceia, não tomes a iniciativa de convidar a…”, 14,12);
(2) Na segunda descreve o comportamento desejável (“quando dês um banquete, toma a iniciativa de convidar a…”, 14,13-14).
(1) Uma comunhão a partir da nivelação de dignidade (14,12)
Na primeira lista aparecem quatro grupos:
- os amigos,
- os irmãos,
- os parentes e
- os vizinhos ricos
Normalmente as relações se estabelecem com pessoas que estão ao mesmo nível, isto permite a troca de favores: se pode devolver o convite ou dar regalos que estejam à par da situação.
A comunhão aqui se fundamenta na possibilidade da troca. Com este critério, o círculo dos convidados se reduz, chegando ao exclusivismo: os pobres e os miseráveis ficam automaticamente excluídos.
(2) Uma comunhão que elimina a desigualdade (14,13-14)
Na segunda lista, a qual Jesus recomenda, o convite se dirige a todos aqueles que, nas diversas circunstancias da vida, foram marginados.
Frente aos quatro primeiros grupos já enumerados, Jesus propõe quatro novos grupos: “os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos”. Trata-se de pessoas que não tem como corresponder com outro convite na terra (como podia fazer o primeiro grupo, 14,12), mas que será Deus quem o fará na ressurreição (14,14).
Com este comportamento se reconhece em todas estas pessoas seu igual valor e dignidade. Deste modo, Jesus reflete uma nova maneira de entender as relações humanas.
Segundo esta, as relações humanas, habitualmente fundamentadas na reciprocidade, se baseiam mais em um amor unilateral, assim como o é o amor de Deus por cada homem: Deus nos ama acima de tudo, apesar de que não queiramos ou não estejamos em condições de responder-lhe à altura de seu amor.
Chama a atenção que Jesus colocou dentro desta lista, depois dos pobres, três grupos de enfermos: “estropiados, coxos e cegos”. Quando se lê 2 Sm 5,8, se percebe que os cegos e os enfermos não eram hóspedes agradáveis a Davi.
Em Qumrán (ver a “Regra da Comunidade”), os essênios excluíam, também, da vida comunitária, os enfermos, os coxos e os cegos. Quão grande dever ter sido, então, a reação do anfitrião, um chefe dos fariseus, quando Jesus lhe disse a quem devia convidar a sua mesa!
Em conclusão…
Com este ensino Jesus não está querendo, Jesus, dizer que não tenha que comer com os familiares nem com os amigos; o que se opõe rotundamente é ao exclusivismo e à marginalização dos mais desfavorecidos.
É preciso vencer o exclusivismo, derrubando os muros e os círculos fechados nas relações humanas. É preciso vencer a repugnância e os julgamentos antecipados. O coração deve dilatar-se para dar espaço a todos, especialmente aos desfavorecidos, os abandonados, aos que sofrem, e acolhê-los com amor, fazendo-os tomar parte de nossa própria vida.
Tendo compreendido que nossa honra não depende de nossos méritos, mas da gratuidade do coração de Deus, construiremos novas relações, no mundo, que não se baseiam na utilidade que nos possam reportar, mas no valor infinito que tem cada pessoa. Esta é a comunhão que antecipa o modo de viver definitivo na ressurreição.
Cultivemos a semente da Palavra no profundo do coração
- Quando foi a última vez que organizei uma festa ou convidei alguém a comer? Com que critério selecionei meus convidados?
- Que formas, discretas ou públicas, têm, hoje, a aspiração à honra e ao prestigio? Que podemos dizer a respeito?
- Que nova cultura das relações propõe Jesus? Em que se baseia? Para onde aponta?
- Os fariseus baseavam sua espiritualidade na lógica da recompensa. Isto é correto? Que se deve buscar na relação com Deus e com os demais?
- Faço parte de algum círculo fechado? Meu grupo ou minha comunidade tem esta tendência? Por que a Igreja (e nós como membros dela) optou preferencial e profeticamente pelos pobres? Como a ponho em prática?